sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Rómulo de Carvalho dá nome a Centro Ciência Viva


Notícia de Patrícia Almeida saída hoje saída hoje no jornal "As Beiras" (na foto Rómulo de Carvalho por António Gedeão, que além de poeta era artista gráfico):

O Centro “Rómulo de Carvalho”, que vai entrar em funcionamento em 2008 no edifício do Departamento de Física da Universidade de Coimbra (UC), foi apresentado ontem. “Despertar o interesse dos jovens para a ciência” é o objectivo.

A partir do início do próximo ano, a UC vai dispor de um centro de divulgação científica. Numa forma de homenagear aquele que “foi um extraordinário professor de Físico-Químicas e o principal símbolo da cultura científica”, a Universidade de Coimbra decidiu atribuir o nome de Rómulo de Carvalho ao novo Centro Ciência Viva.

Dinamizado pelo Instituto de Investigação Interdisciplinar, o equipamento – que ficará instalado no Departamento de Física da UC – foi apresentado ontem, no Anfiteatro do Museu da Ciência, numa sessão que contou com a presença da viúva do homenageado, Natália Nunes, e do seu filho, Frederico Carvalho.

A apresentação do centro decorreu, como lembrou Manuel Fiolhais, presidente do Instituto de Investigação Interdisciplinar, na Semana Nacional da Ciência e Tecnologia. Mas aconteceu também na semana em que se assinala o aniversário de Rómulo de Carvalho, (amanhã, dia 24), data escolhida para ser o Dia Nacional da Cultura Científica. Por isso – frisou –, o nome do novo centro de Ciência Viva “justifica-se plenamente”.

“Um espaço interactivo onde os jovens poderão, de forma lúdica e não só, descobrir a ciência e desvendar alguns dos seus mistérios” é o objectivo deste projecto. Vai dispor de “oito postos de trabalho com computadores de última geração” e “de um espaço para receber uma turma ou grupos de jovens”. No novo centro passará também a funcionar o portal “Mocho”, que deixa de ser gerido pelo Centro de Física Computacional, e a biblioteca Rómulo de Carvalho, do Departamento de Física, que disporá de cerca de cinco mil títulos, em livro, vídeo ou CD.

Nascido em Lisboa, a 24 de Novembro de 1906, Rótulo de Carvalho fez o curso de Físico - Químicas na Faculdade de Ciências do Porto e foi depois professor do ensino secundário nos liceus D. João III e Pedro Nunes. Personalidade única no campo da divulgação científica em Portugal, teve um papel fundamental na fixação da história do Gabinete de Física do século XVIII.

Ontem, o físico Carlos Fiolhais lembrou que foram as leituras extra - curriculares, como os livros de Rómulo de Carvalho, que lhe despertaram a curiosidade de estudar os núcleos atómicos e os electrões.

Rómulo de Carvalho – ou António Gedeão, o seu pseudónimo literário –, só tardiamente publicou o seu primeiro livro de poesia, mas alguns poemas atingiram grande notoriedade, nomeadamente “Pedra Filosofal”, “Calçada de Carriche” ou “Lágrima de Preta". Este último, aliás, foi recordado ontem: “Encontrei uma preta, que estava a chorar. Pedi-lhe uma lágrima para a analisar; (...) Ensaiei a frio, experimentei ao lume, de todas as vezes deu-me o que é costume: nem sinais de negro, nem vestígios de ódio. Água (quase tudo)... e cloreto de sódio”. O químico João Paiva, a quem coube apresentar o projecto nos seus aspectos funcionais, lembrou que é este, precisamente, o propósito do Centro de Ciência Viva: “o de não discriminar”. “Todas as pessoas que choram água e cloreto de sódio são convidadas a conhecer este centro”, frisou. O convite está feito.

Uma rua com o nome do poeta

Frederico de Carvalho, filho de Rómulo de Carvalho, manifestou ontem o desejo de ver na topomínia da cidade o nome do seu pai. Durante a sua intervenção, lembrou que os anos que Rómulo de Carvalho passou em Coimbra “foram anos inspirados e profícuos, que deixaram uma marca na cidade que ainda hoje perdura”. Por isso, fez votos para que o presidente da Câmara Municipal venha, dentro em breve, a conceder-lhe esse desejo, que é, também, “um acto de justiça” ao professor de Ciências Físico-Químicas e poeta.

Wonders

Informação recebida da Agência Ciência Viva:

O Pavilhão do Conhecimento – Centro Ciência Viva celebra amanhã (sábado) o Dia Nacional da Cultura Cientifica com um Festival Europeu de Ciência, onde mais de 35 instituições de 25 países – incluindo Portugal – apresentam as suas melhores actividades de comunicação em ciência no âmbito do projecto WONDERS. O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, José Mariano Gago, participa na sessão de abertura, agendada para as 11h00.

No decorrer do festival, onde vão ser distinguidas com os prémios “Best Presentation Ideas, Greatest Engagement of the Presenters e Most Advanced Science”, as melhores actividades de comunicação em ciência. Tendo em linha de conta que muitas destas actividades são dirigidas aos jovens, um grupo de estudantes portugueses do ensino secundário, que realizou estágios em instituições científicas no último Verão, atribuirá ainda o “Prémio Ciência Viva”.

O programa detalhado pode ser consultado em www.cienciaviva.pt.

A Física do Cristianismo e Uma Paixão Humana


Informação recebida da Bizâncio:

Título: A Física do Cristianismo
Autor: Frank Tipler
Colecção: Máquina do Mundo nº22

UM FÍSICO DE RENOME DEMONSTRA QUE AS CRENÇAS FUNDAMENTAIS DO CRISTIANISMO SÃO TOTALMENTE CONSISTENTES COM AS LEIS DA FÍSICA.

«Uma viagem emocionante pelos limites mais longínquos da Física moderna.»
– NEW YORK TIMES BOOK REVIEW

Em A Física do Cristianismo, Frank Tipler faz uma nova e emocionante abordagem à velha questão do relacionamento entre ciência e religião. Analisando séculos de textos e discussões, Tipler apercebeu-se de que, em todo o debate religião versus ciência, não existia uma verdadeira investigação sobre as afirmações e crenças centrais do Cristianismo. Foi esta lacuna que o levou a embarcar nessa tarefa de investigação científica. A Física do Cristianismo apresenta o produto fascinante do seu estudo pioneiro. Tipler começa por esboçar, para os leigos, os conceitos básicos da Física, revelando as ligações subjacentes entre Física e Teologia. Num exemplo convincente, explica de que modo o Deus descrito por Judeus e Cristãos, A Causa Primeira Não Causada, é totalmente consistente com a Singularidade Cosmológica, uma entidade cuja existência decorre das leis físicas. A sua argumentação sobre a possibilidade científica dos milagres oferece um impressionante suporte científico para muitas das mais prodigiosas afirmações do Cristianismo.

A abordagem inteiramente racional de Tipler assegura a Física do Cristianismo um lugar à parte no contexto das obras que se dedicam ao conflito ciência religião. Cativará não apenas os leitores que professam o Cristianismo, mas todos os que se interessem por um tema que desencadeia debates intelectuais e culturais acesos e fracturantes.

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Título: Uma Paixão Humana – O Seu Cérebro e a Música
Autor: Daniel J. Levitin
Colecção: Musicalmente nº2

«Infinitamente estimulante, uma perspectiva fantástica (…) Um livro muito importante
Oliver Sacks, M.D.

Este é o primeiro livro que conduz a um entendimento científico abrangente sobre o modo como experimentamos a música e sobre o papel ímpar que desempenha nas nossas vidas. Como Oliver Sacks afirmou, Daniel Levitin é uma das poucas pessoas no mundo que poderia escrevê-lo. Uma Paixão Humana é um encontro entre os dois mundos magníficos da Arte e da Ciência e está destinado a ser um marco na história da cultura.

Esta investigação sem precedentes do papel da música na evolução humana e no nosso quotidiano abarca a Psicologia, a Neurociência e exemplos musicais de Mozart a Eminem, passando por Bach, Count Basie, Creedence Clearwater Revival e tantos outros.

Levitin demonstra que estamos todos mais musicalmente equipados do que pensamos pois os nossos cérebros estão dotados para a música. Alguns especialistas de referência defenderam durante muito tempo que a música é um elemento decorativo que vive de forma parasita nas franjas da natureza humana. Levitin, pelo contrário, defende e demonstra de modo convincente que a música é uma paixão da essência da natureza humana, talvez mais fundamental para a nossa espécie do que a linguagem.

«O livro de Levitin é eloquente e poético (…) é muito gratificante acompanhar esta investigação de um autor que é um notável músico, um conceituado cientista e alguém que ainda se encanta a contemplar o universo.»
STING

Química e arqueologia

A análise química de joalharia de jade do sueste asiático revelou uma rede extensa de comércio na pré-história desta zona do globo. Os artefactos em questão, esculpidos em nefrite oriunda de Taiwan, foram comercializados numa área com raio de 3000 km, centrada no mar do sul da China, durante um período de pelo menos 1000 anos.

O estudo, publicado na PNAS, incidiu sobre 144 ornamentos descobertos no Vietname, Tailândia, Malásia e Filipinas. A maioria dos artefactos foi encontrada perto de esqueletos enterrados em jarros ou ao lado de crânios, sugerindo que pertenceriam à elite pré-histórica local.

A equipa da Australian National University (ANU) em Canberra focou-se em dois tipos de peças muito populares, os brincos representados na figura e pendentes com animais de duas cabeças, que datam de 3000 aC a 500 dC, e descobriu que pelo menos 116 ornamentos têm como origem Fengtian em Taiwan.

Segundo o antropólogo Charles Higham da Universidade de Otago na Nova Zelândia, o artigo é «uma importante contribuição para um assunto que merece maior atenção: as capacidades de navegação das sociedades pré-históricas do sueste asiático», já que o desenvolvimento cultural destas sociedades é muitas vezes focado na influência chinesa e indiana. Mas «se os ancestrais das populações do sueste asiático foram capazes de atravessar mar aberto, sem terra à vista, para a Austrália há 40 000 anos porque não seriam igualmente capazes de navegar para a Índia em comércio? Este artigo mostra que esse movimento era possível».

Como refere a arqueóloga Miriam Stark da Universidade do Hawaii em Manoa:

«Este estudo fornece um importante motivo para se estudar a composição química de peças do sueste asiático. A composição química fornece alguma evidência empírica pioneira para a existência de uma rede de interacção no Mar do Sul da China».

QUEM DEFENDE O MENINO?


Minha crónica do "Público" de hoje:

"Grande é a poesia, a bondade e as danças... / Mas o melhor do mundo são as crianças.” Quem o disse foi Fernando Pessoa. Mas quem concorda são os dirigentes dos grandes clubes de futebol. Estamos a assistir a um Sporting-Benfica em que, em vez da bola, quem é jogado é um miúdo de oito anos, de seu nome Bruno Silva, residente em Braga.

Eu sabia que havia torneios internacionais de sub-18, mas fiquei a saber que também há de sub-8. Pois o puto, que é um craque no meio-campo, distinguiu-se no recente “Mundialito” realizado no Algarve, logo concentrando as atenções dos “olheiros” dos maiores clubes (no Brasil, olheiro significa o bandido que olha o que se passa num banco para preparar o assalto). O Sporting, cuja fama na formação de jogadores é bem conhecida em Manchester, firmou em Maio passado um acordo com os pais do Bruno, em que previa a continuação de treinos e jogos na sua equipa (o Bragafut) com a cobertura de alguns custos e a transferência aos 12 anos para a escola leonina de Alcochete. Não sei a legalidade deste tipo de situações em que um menor é prometido a alguém tal como acontecia na Idade Média, quando as princesinhas ficavam logo à nascença com o marido indigitado. Mas o pior veio a seguir e é mesmo um abuso: dois dirigentes do Benfica em Julho passado assediaram o miúdo, convidando-o a participar num torneio em Espanha. O papel que o pai assinou para isso era afinal uma inscrição nesta época do mini-atleta pelo Benfica na Associação de Futebol de Lisboa, a 350 quilómetros de casa. Quanto ao Bragafut não foi ouvido nem achado.

A criança não pode agora nem jogar no clube onde treinava e jogava nem cumprir o acordo com o Sporting. Tem crises de choro e, por indicação da escola, está a receber apoio psicológico. Isto é o futebol português no seu melhor. Nós que pensávamos que já tínhamos visto tudo com os subornos dos árbitros (quando acaba a tragicomédia do “apito dourado”?), as fugas ao fisco (o fisco penhorou os passes de sete jogadores do Boavista por conta de impostos em dívida) e demais escândalos públicos (alguns dos quais andam por aí em livro e em filme) afinal tínhamos mais isto para ver.

O presidente do Benfica, numa conferência de imprensa sobre o caso, afirmou: “O Benfica não obrigou ninguém, nem enganou ninguém, no processo que envolve o Bruno Silva. Não vamos pactuar com oportunistas e muito menos com mentirosos". Concordo com a segunda parte, não vamos. Continuou: "Esse jovem esteve no camarote presidencial, foi ao balneário com o Simão, levou bolas e a camisola do jogador.” Essa é boa: o petiz deve pagar com juros a visita ao camarote e ao balneário, as bolas e a camisola. Levaste bolas? Estás inscrito! Levaste camisola? Vais suá-la até ao fim da época! Um cliente assina ou compra qualquer coisa por engano tem um prazo para anular ou devolver excepto quando é um miúdo que, sem uma boa equipa de advogados, está indefeso perante profissionais da marosca. Só encontro paralelismo na venda de apartamentos a anciãos que são aliciados com prémios a irem a reuniões em hotéis. E rematou o Presidente do Benfica. “Estou convicto de que este caso será exemplar para determinados encarregados de educação." Antigamente dizia-se que quem não era do Benfica não era um bom chefe de família. Agora temos o presidente do clube a educar as famílias nacionais. Ou pior: a armar em chefe dos chefes de família.

Eu confesso que sou da Académica mas não vou ver um jogo há muito tempo. A última foi quando levei o meu filho, tinha ele oito anos, a ver um Académica-Salgueiros para ele aprender algum vernáculo que não tinha aprendido em casa. Nessa altura vibrava-se porque não se sabia quem ia ganhar. Hoje recuso-me a participar numa farsa em que os resultados estão combinados e eu sou o último a saber. Recuso-me a contribuir para negócios escuros que envolvem futebol, construção civil e autarquias. E recuso-me a ter o mínimo que ver com a exploração de mão-de-obra (ou, melhor, de pé-de-obra) infantil e da boa fé de famílias ingénuas.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Deus, religião e argumentos II

O argumento dos milagres

O argumento dos milagres é de todos provavelmente o mais fraco; mesmo os filósofos da religião que são crentes, como Richard Swinburne, não aceitam o argumento dos milagres sem qualificações (ele defende que só depois de termos provado que Deus existe podemos ter algumas razões para pensar que existem milagres). O argumento é o seguinte:

Tal e tal acontecimento é milagroso.

Só Deus pode fazer milagres.

Logo, Deus existe.

O argumento é fraco porque a menos que já aceitemos que Deus existe, nenhum acontecimento é mais provavelmente milagroso do que pura e simples ilusão, fruto da ignorância ou da mentira. Este é o contra-argumento de Hume ao argumento dos milagres: sabendo-se quão propensas são as pessoas a auto-iludir-se, há sempre explicações mais plausíveis dos acontecimentos pretensamente milagrosos do que declarar que são milagres.

O argumento da experiência religiosa

Muitos crentes consideram algo irrelevantes os argumentos a favor da existência de Deus. A sua própria vivência religiosa, as suas emoções, o seu modo de vida — estes são os elementos que fazem da religião uma coisa viva, e não uma mera abstracção teórica. Contudo, este é apenas um tipo diferente de argumento: é uma razão para ser crente. As pessoas são crentes porque têm um certo tipo de experiências religiosas. A questão é saber se tais experiências religiosas justificam a crença na existência de Deus.

Há poderosas objecções ao argumento da experiência religiosa. Vejamos duas delas.

Em primeiro lugar, há o problema da diversidade religiosa. Não se pode conceber a religião como uma mera abstracção geral: as pessoas não são apenas religiosas, abstractamente; são budistas, ou islâmicas, ou judaicas. Pertencem a uma determinada religião. Ora, estas religiões são incompatíveis entre si. Há religiões politeístas, religiões sem Deus (como o budismo), religiões em que Deus é uno, religiões em que Deus é uno e trino. A experiência religiosa aparentemente justifica qualquer religião, e por isso mesmo não justifica realmente qualquer uma delas. As pessoas têm certas experiências, que são socialmente induzidas, e essas experiências estão sistematicamente ligadas à cultura em que a pessoa está inserida. Se a experiência religiosa tivesse algum peso, teria de dar a uma pessoa nascida numa cultura cristã, por exemplo, uma experiência que a fizesse tornar-se politeísta, por exemplo. Mas isso nunca ou raramente acontece, o que sugere que a experiência religiosa é apenas um reflexo ilusório do que as pessoas querem experienciar.

Em segundo lugar, do facto de se ter um certo tipo de emoções quando se medita ou quando se está só numa montanha, ou quando se reza, nada se segue realmente — a menos que depois essa experiência seja interpretada. A experiência bruta de uma presença infinita, de uma bondade e beleza transcendentes, que muitos crentes têm, nada nos diz sobre a existência de um deus; pode ser uma reacção biológica natural, um estado natural do cérebro em certas situações. Pode ser simplesmente o resultado da complexidade do nosso cérebro. Qualquer explicação deste género é mais provavelmente verdadeira do que a ideia de que tais experiências existem porque um qualquer deus comunicou de facto com essa pessoa.

O argumento moral

Quando os avanços da ciência tornaram cada vez mais implausível a ideia de que precisávamos da hipótese de Deus para explicar o mundo, tornou-se muito popular um argumento que tem várias versões, mas se baseia sempre na mesma ideia fundamental: Deus é o garante da moralidade. Este argumento foi particularmente popular no séc. XIX, tendo até alguma expressão literária — "Se Deus não existe, tudo é permitido" é uma frase de Fiódor Dostoiévski (do romance Os Irmãos Karamazov) que muitas pessoas conhecem. Na verdade, uma das primeiras versões do argumento moral foi defendida por Immanuel Kant, no séc. XVIII. Contudo, Kant não usou a versão que viria a tornar-se popular, pois não pensava que o fundamento da moral era Deus. Efectivamente, esta ideia é inaceitável para a generalidade dos filósofos, que sabem desde o tempo de Platão que tal coisa é quase indefensável. No diálogo Êutífron, Platão apresenta uma objecção fatal a esta ideia, que ficou conhecida como o Dilema de Êutífron, e que podemos parafrasear assim: o bem é um bem porque Deus o quer, ou Deus quer o bem porque é um bem? A primeira alternativa não é aceitável porque tornaria o bem uma arbitrariedade da vontade divina: caso Deus quisesse, o homicídio seria um bem, o que é absurdo. O que se passa, ao invés, é que Deus, por ser bom, não quer tais coisas; só quer o bem. Mas isto significa que Deus não é o autor, digamos assim, do bem. Matar pessoas inocentes é mau por causa das pessoas inocentes, e não por causa de Deus. E por isso, quer Deus exista quer não exista, o bem e o mal permanecem iguais.

Popularmente, contudo, a ideia é que sem um Deus que castiga e recompensa, não há realmente razões para agir moralmente. É esta a ideia de Dostoiévski. Esta ideia revela uma imensa incapacidade para compreender o pensamento ético, pois põe tudo em termos de interesse estritamente pessoal: não mato pessoas inocentes porque tenho o interesse pessoal em não ir para o inferno e em ir para o céu. Além de terrivelmente calculista, isto nada tem a ver com a acção ética. Ora, Kant sabia disto também. Por isso, concebeu um argumento moral algo diferente, que contudo nunca teve grande influência — nem na bibliografia especializada, nem junto do grande público. Eis uma versão possível do seu argumento:

Temos o dever moral de promover o bem supremo.

Se temos tal dever, o bem supremo tem de ser possível (porque não temos o dever de fazer o impossível).

Se Deus não existisse, o bem supremo não seria possível.

Logo, Deus existe.

Este argumento é válido, apesar de não ser exactamente deste modo que Kant o apresenta. Dado que é válido, as suas premissas justificam a sua conclusão.

A questão é saber se as suas premissas são verdadeiras. Ora, a segunda premissa parece basear-se numa confusão. Mesmo aceitando que temos o dever moral de promover o bem supremo (que podemos definir como um estado moralmente perfeito do mundo, por exemplo), daí não se segue que o bem supremo tem de ser possível. Afinal, temos o dever de tentar salvar a vida de uma pessoa moribunda, mas nem sempre tal coisa é possível; o que se passa é que temos o dever de tentar. Esta é a primeira objecção ao argumento.

A segunda objecção é que não temos realmente o dever de promover o bem supremo; temos apenas o dever de viver eticamente, de promover o bem que podemos promover claramente, e não uma abstracção estranha que seria o bem superlativo.

O problema do mal

Percorremos vários argumentos tradicionais a favor da existência de Deus, que correspondem às principais famílias de argumentos deste tipo. Contra a existência de Deus, contudo, levanta-se o argumento do mal. A versão mais antiga do argumento do mal deve-se a Epicuro, mas chegou até nós ironicamente por via de Lactâncio, que era cristão:

"Ou Deus quer impedir o mal e não pode, ou pode mas não quer. Se quer mas não pode, é impotente. Se pode, mas não quer, é malévolo. Mas se Deus quer e pode, de onde vem então o mal?"

A ideia é que a existência de um Deus todo-poderoso, criador, sumamente bom e omnisciente é incompatível com a existência óbvia de mal no mundo.

Há dois tipos de mal: o mal natural e o mal moral. O primeiro diz respeito a coisas como terramotos, doenças, secas, etc. O segundo resulta das acções humanas: roubos, homicídios, etc.

A resposta mais popular ao argumento do mal é invocar o livre-arbítrio. Assim, o mal moral existe porque as pessoas são livres, e por mais que Deus seja omnipotente, a liberdade é um valor tão importante que decidiu fazer-nos livres apesar de saber o que isso iria implicar. Esta resposta é muito discutida e analisada cuidadosamente na bibliografia especializada. Enfrenta várias dificuldades, das quais se destaca três.

Em primeiro lugar, é imoral. O mal, natural e moral, que sem Deus é apenas uma consequência da maldade humana ou do acaso natural, torna-se uma monstruosidade moral porque foi devidamente planeado por Deus. Pior do que haver terramotos e homicídios é tal coisa ter sido prevista por Deus, que mesmo assim fez o mundo e os seres humanos tal como fez. E como é óbvio poderia ter feito as coisas de outra maneira: afinal de contas, no paraíso as coisas não são assim.

Em segundo lugar, não é fácil aplicar a defesa do livre-arbítrio ao mal natural, ainda que possamos aplicá-la ao mal moral. Os terramotos não resultam do livre-arbítrio humano. A resposta habitual a este problema é defender que Deus fez as leis da natureza como fez, e não nos protege sistematicamente das suas arbitrariedades trágicas, para nós aprendermos e crescermos espiritualmente. Ou seja, o mundo é uma espécie de campo de treinos, e todo o sofrimento foi por Deus planeado para que possamos crescer espiritualmente. É um pouco como pegar num filho e cortar-lhe uma perna, para ele aprender o que é a vida. Dado que isto é moralmente repugnante, segue-se que não existe tal Deus.

Em terceiro lugar, mesmo tendo criado as pessoas com livre-arbítrio, e admitindo que, por exemplo, as leis da natureza não poderiam ter sido diferentes do que são, não há qualquer razão para pensar que Deus não poderia ter feito as pessoas mais éticas. Afinal, as pessoas mais éticas não são com certeza menos livres do que as outras. Uma boa pessoa, altruísta e verdadeira, é tão livre quanto um homicida mentiroso e hipócrita. Perante isto, a hipótese de que as pessoas são o que são em função da simples evolução natural é muitíssimo mais plausível do que sob a hipótese de que Deus as criou com uma alma imortal.

Duas confusões

Uma confusão comum quando se fala de filosofia da religião é pensar-se que não definimos adequadamente o deus de que estamos a falar. Isso é falso. Em qualquer bom livro de filosofia da religião começa-se precisamente por definir as propriedades básicas do tipo de entidade cuja existência queremos discutir. Geralmente, o que está em causa é a existência ou não de uma qualquer entidade que seja omnipotente, omnisciente, criadora, pessoal e sumamente boa (ser pessoal significa que não é uma força da natureza, por exemplo). Chama-se a qualquer deus que tenha estas propriedades um deus teísta (distinguindo-se de outros deuses, como os deuses romanos, por exemplo, que não tinham todas estas propriedades conjuntamente).

Outra confusão comum quando se fala de filosofia da religião é pensar que toda esta discussão sobre a justificação das crenças religiosas é irrelevante porque as pessoas crentes não são crentes por causa de tais justificações. Mas que isto é uma confusão vê-se facilmente se pensarmos que a maior parte de nós acredita que nenhum objecto pode viajar mais depressa do que a luz, sem o podermos justificar primariamente; mas daí não se segue nem que não há boas razões para ter tal crença nem que não é interessante e importante descobrir se há ou não tais razões.

Leituras

Estas notas mal tocam na superfície da filosofia da religião. Apresentei versões simplificadas dos argumentos tradicionais hoje em dia discutidos pois dificilmente se compreende os argumentos actuais sem compreender estas versões simplificadas. Para saber mais sobre esta área, aconselho os seguintes livros introdutórios:

  • Será Que Deus Existe?, de Richard Swinburne (Gradiva)
  • The Miracle of Theism, de Mackie (Oxford)
  • Philosophy of Religion, de Rowe (Wadsworth)
  • Philosophy of Religion: A Guide and Anthology, org. Brian Davies (Oxford)

Bom estudo!

100 anos de "A Evolução Criadora"

Passam este ano 100 anos sobre a data de publicação original do livro "L´évolution créatrice" ("A evolução criadora") do filósofo francês Henri Bergson (1859-1941), que polemizou com Einstein a respeito da relatividade e do tempo. Bergson foi Prémio Nobel da Literatura em 1927.

Há uma tradução portuguesa do famoso livro que foi publicada em 2001 nas Edições 70.

250 anos de William Blake


Informação recebida do Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), Coimbra, que está a comemorar os 250 anos de William Blake (na figura, "Jerusalém" do artista inglês):

Com um ciclo de programação/produção interdisciplinar dedicado a William Blake, o TAGV tem como objectivo celebrar e dar a conhecer um dos grandes artistas da humanidade.

O pretexto está, naturalmente, na passagem dos 250 anos sobre o nascimento de William Blake, mas a motivação do Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) para promover todo um ciclo interdisciplinar à volta do autor inglês está, sobretudo, na intenção de "celebrar e dar a conhecer de forma alargada a obra de um dos grandes artistas da humanidade". Isto mesmo ficou claro, ontem, numa conferência de imprensa em que Manuel Portela – ele mesmo um dos estudiosos portugueses de referência da obra de Blake, sobretudo na área da tradução –, se fez acompanhar por José Geraldo, da Associação Camaleão, e Mário Montenegro, da Marionet, duas entidades chamadas à produção de duas obras a partir de Blake nas áreas do teatro/música e do teatro/multimédia.

A integrar exposições, música, multimédia, teatro, cinema, debates e rádio, o ciclo "Blake no TAGV", com concepção e programação de Manuel Portela, director da sala da Universidade de Coimbra, tem início agendado para o próximo dia 6 de Novembro, com a abertura das mostras "7 visões de William Blake", que integra a participação de Pedro Pousada, Armando Azevedo, António Olaio, Emanuel Brás, Teresa Amaral, Gilberto Reis e o Atelier do Corvo; e "William Blake: Livros Iluminados", uma videoprojecção integral das páginas de 16 livros iluminados (1788 – 1820) do autor inglês, com uma obra extraordinária ("visionária" e "vanguardista" em muitos aspectos) nas áreas da gravação, da pintura e da poesia.

De acordo com Manuel Portela, com o ciclo "Blake no TAGV", o Teatro Académico de Gil Vicente pretende celebrar e dar a conhecer de forma alargada a obra de um dos grandes artistas da humanidade, no ano em que se completam 250 anos sobre o seu nascimento.

Chamando a atenção para a colaboração da Rádio Universidade de Coimbra – para lá de todas as restantes – que fará ao longo de todo o ciclo a montagem e difusão de um conjunto de gravações, constituídas por traduções de poemas de William Blake e por composições musicais baseadas na sua obra, o responsável pelo TAGV, não deixou de salientar que, enquanto produção própria e exclusiva, "Blake no TAGV" representa também "um modelo de relação dialéctica entre criação e programação" que tem sido uma aposta da sala na medida do que tem sido possível com a sua realidade financeira.

Combinando várias disciplinas artísticas, o ciclo integra a estreia de duas co-produções do TAGV: "Uma Ilha na Lua", pela Camaleão, com a Orquestra Clássica do Centro, e "As Portas da Percepção", pela Marionet, cujos responsáveis – José Geraldo e Mário Montenegro – deixaram ao público a promessa de duas produções que constituem um grande "desafio".

Para Manuel Portela, no seu conjunto, a obra de William Blake "constitui uma verdadeira cosmogonia, que reescreve e recombina diferentes mitos da criação". Ao escrever, desenhar, gravar, imprimir, pintar e publicar, diz ainda o académico e director do TAGV, "William Blake tomou nas suas mãos todo o potencial simbólico do livro como máquina de criação e chamou a si o controlo do modo de produção tipográfico, num momento em que se acentuava a divisão do trabalho e se anunciava já a industrialização da imprensa". Mas, aos livros iluminados de Blake – o mesmo autor que inspirou o nome de uma das bandas rock mais emblemáticas do século XX, The Doors –, juntam-se ainda centenas de pinturas, desenhos e gravuras. Nos últimos 10 anos, acrescenta ainda Manuel Portela, a digitalização da sua obra tem construído "um espaço de leitura que permite olhar de forma renovada para a materialidade icónica do seu traço visionário, restituindo a integridade visual e literária dos originais".

Lídia Pereira, As Beiras [31 Outubro 2007]

Descobre as plantas

Informação recebida da editorial Bizâncio:

Título: Ciência a Brincar 6 – Descobre as Plantas
Autor: Vários

Do prefácio de Helena Freitas:

Apresentar o mundo científico das plantas com a capacidade de gerar empatia e afecto – ‘fazer gostar das plantas’ – é o maior desafio mas também o mais importante para quem ensina botânica. (…) Através de perguntas simples como ‘O que procurarmos num jardim? ‘, ‘Qual é a maior semente? ‘ ‘Onde estão as raízes’, ‘Porque são amarelas as folhas do Outono? ‘, ‘Qual é a tua flor preferida? ‘, e das pequenas experiências rigorosamente planeadas e já realizadas com crianças do pré-escolar, as autoras conciliam muito bem o objectivo de despertar o gosto pelas plantas com o ensino, de muitas das suas funções vitais; as plantas servem de alimento, para o Homem e para milhares de outros seres vivos, purificam o ar que respiramos e oferecem-nos inúmeros bens que utilizamos no nosso dia-a-dia.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

A ciência sem fim à vista

Não é nosso hábito reproduzir artigos publicados alhures -- e ainda mais quando o são em jornais nacionais, como o caso do Público ao qual este blog está associado. Todavia, o artigo de hoje do director do serviço de ciência da Gulbenkian, João Caraça, que aborda, tal como Luís Alcácer o fez no De Rerum Natura, a cobertura mediática da Conferência Gulbenkian 2007 que se realizou a 25 e 26 de Outubro no Auditório 2 da Fundação, merece divulgação e análise.


Em termos cognitivos não se vê como se podem esgotar as interacções e a nossa apreensão da natureza.

Se a ciência tem ou não limites e, tendo, se estará porventura a aproximar-se deles ou a esgotar-se, foi o tema, legítimo, da conferência internacional que decorreu com enorme sucesso e participação do público na semana passada na Fundação Gulbenkian. A questão, proposta por George Steiner para debate, foi assumida com entusiasmo por uma plêiade de conhecidas personalidades, da ciência e das ciências sociais às humanidades e aos media.

Curiosamente, ou talvez não, a mensagem transmitida pelos cientistas foi a de que o progresso científico não está limitado na actualidade nem no futuro previsível. Isto é, observadas de dentro, a ciência e a investigação científica não têm limites. Em termos cognitivos não se vê como se podem esgotar as interacções e a nossa apreensão da natureza. Pois não vivemos nela? Mais, mesmo que houvesse uma hipotética barreira (constante, como gostam os filósofos, ou então uma curva em expansão no tempo) a convergência assimptótica implicaria saltos crescentes até ao infinito. Isto é o que dizem os cientistas.

O PÚBLICO, na sua edição de domingo de 28 de Outubro, bem poderia, pois, ter contrastado a opinião de John Horgan sobre o fim da ciência com o conteúdo da inspirada apresentação de Gerald Edelman (Prémio Nobel da Medicina), cujo título era significativamente Da dinâmica do cérebro à consciência: nenhum limite à vista. Ou ter dado realce à bela intervenção final de Freeman Dyson (que muitos dizem dever ter partilhado o Nobel da Física em 1965, mas sabemos bem quanto revelam e escondem estes prémios) denominada A ciência perto dos seus limites: nem pensar! Mas não o fez e foi pena.

É que os limites, barreiras, fronteiras, demarcações, condicionantes e condições aparecem quando se olha de fora para a ciência. Estão ligados com o facto de a ciência ser, como todas as outras, uma actividade social que é praticada numa sociedade altamente mediatizada. É que a investigação científica não é uma actividade especial praticada por sábios encastrados nas suas torres de marfim. A ciência, hoje, é um conjunto larguíssimo que envolve a investigação, a aplicação, a gestão, a aprendizagem e a divulgação de conhecimentos, atitudes e expectativas científicas.

Naturalmente, a perspectiva social da ciência (que data dos anos 1970), mais recente do que a cognitiva, que nasce no século XVII, revela condicionamentos à prática alargada da ciência, exactamente provenientes da própria existência de comunidades científicas e da sua relação com as sociedades em que estão inseridas. A percepção societal do valor da ciência e o modo como na cultura de cada nação se incorporam a atitude e o pensamento científicos são factores externos, reais, condicionantes do desenvolvimento científico nesses países. Por exemplo, através dos níveis de financiamento público e privado que lhes são afectados anualmente. E, last but not least, pela invenção de regimes mais ou menos predadores da propriedade intelectual.

Finalmente, uma perspectiva comunicacional da ciência, relacionada com a problemática da existência de inúmeras linguagens especializadas correspondentes à diversidade de disciplinas e subdisciplinas (ainda mais recente, pois data do fim dos anos 1980) mostra como as barreiras à comunicação, à interdisciplinaridade e à transdisciplinaridade podem afectar as trajectórias e a conectividade das redes científicas. Tudo isto é real e merece ser debatido, o que pressupõe uma discussão alargada que não exclua, evidentemente, os cientistas.

Uma questão central que se põe à ciência hoje é a da existência de duas modalidades de investigar, a da motivada pela curiosidade ou curiosity-driven (a ciência que vem desde Galileu e Newton e que procura compreender as leis da natureza) e a impulsionada pela necessidade de produzir tecnologia de alta intensidade ou technology-driven (mais conhecida por "tecnociência" e que nasceu por alturas da Segunda Guerra Mundial). O balanço entre ciência e tecnociência está longe de estar resolvido e é causa de interrogações pertinentes sobre a capacidade de atrair os cérebros jovens mais aptos para resolver problemas intrincados, quando o isco de sucesso garantido e de segurança financeira é lançado do lado "tecnocientífico", guiado pelo mercado.

Penso que é o peso excessivo desta tecnociência nos Estados Unidos da América que motiva a percepção errada do fim da ciência. Realmente, o que há para reportar sobre os avanços tecnocientíficos pelos media não é espectacular, e o que tem foros de espectacular não é científico. É a pressão da mediatização - com que os cientistas têm de se habituar a conviver - que interpreta a falta de escândalos ou de situações dramáticas como um fim da ciência. Só os que acreditam no mito da criatividade sem mestre (a exemplo dos nossos antepassados do paleolítico quanto à fertilidade da terra) afirmam que a imaginação dos cientistas se esgotou.

No livro que publiquei em 2001 (na Quimera) sobre o que é ciência, defendo que a ciência é um elemento essencial do diálogo interminável entre o homem e o seu mundo. Não se vê, no século XXI nem nos próximos, como se conseguirá manter este diálogo de modo razoável e sustentável sem a participação da ciência. Não, a ciência não está perto do fim: e é a continuação do estímulo ao gosto pela sua prática pelos mais jovens, como vemos ano após ano, que constitui a melhor aposta face às incertezas do futuro.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Deus, religião e argumentos I

O actual (não) debate provocado pelo criacionismo e pelo criacionismo reformado, o Design Inteligente, poderá dar a ideia falsa de que o único argumento a favor da existência de Deus é o argumento do desígnio. (Digo que é um não-debate porque na realidade trata-se única e exclusivamente de um combate, e não de um debate — é um combate político e social, e não um debate no âmbito das ideias; por outras palavras, trata-se apenas de uma investida política de tendência teocrática, que procura inverter o modo de vida das sociedades liberais actuais.) Dawkins, por exemplo, parece considerar que todos os argumentos a favor da existência de Deus são fantasias de retórica, excepto o argumento do desígnio. Esta é uma perspectiva comum, mas não é menos falsa por isso. Vejamos, pois, brevemente, que tipos de argumentos sobre a existência de Deus são hoje em dia discutidos na bibliografia filosófica especializada.

O argumento do desígnio

O argumento do desígnio é um argumento por analogia. Como todos os argumentos por analogia, baseia-se na analogia entre duas coisas, neste caso entre o universo como um todo e um artefacto. Uma versão do argumento é a seguinte:

O universo é como um relógio.

Os relógios existem porque algum artesão os concebeu e criou.

Logo, o universo existe porque algum artesão o concebeu e criou.

Este argumento foi muitíssimo popular no Reino Unido, apesar das devastadoras objecções levantadas por David Hume (1711-76) nos seus Diálogos sobre a Religião Natural, talvez porque William Paley (1743-1805) publicou no início do séc. XIX, três anos antes de morrer, o livro Teologia Natural, que é uma defesa popular e algo repetitiva do argumento, aparentemente sem ter conhecimento dos contra-argumentos de Hume, pois não os discute. Por outro lado, apesar destes contra-argumentos, que muitos filósofos consideram decisivos, só com a publicação em 1859 da obra Sobre a Origem das Espécies, de Charles Darwin (1809-82), algumas pessoas passaram a considerar o argumento do desígnio decisivamente refutado. Daí o ataque actual à biologia por parte dos criacionistas.

Os argumentos por analogia são muitíssimo problemáticos; são úteis em contextos didácticos e explicativos, mas são geralmente argumentos muitíssimo fracos, precisamente porque não é fácil distinguir os bons argumentos por analogia dos maus. Vejamos:

O universo é como um relógio.

Os relógios muitas vezes atrasam ou adiantam ou param.

Logo, o universo muitas vezes atrasa-se, ou adianta-se ou pára.

Este argumento é claramente mau. Mas como distinguir este argumento do anterior? Não podemos dizer que este é mau porque sabemos que a conclusão é falsa, ao passo que sabemos que o primeiro argumento é bom porque sabemos que a conclusão é verdadeira. Este é um erro típico na discussão de argumentos: pensar que basta um argumento ter conclusão e premissas verdadeiras para ser válido. Não basta: é preciso que as premissas justifiquem a conclusão, e isso acontece quando é impossível (ou muitíssimo improvável) as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa. Pois nesse caso temos uma excelente razão para aceitar a conclusão, se aceitarmos as premissas — é que aquela não pode ser falsa se estas forem verdadeiras.

Sendo o argumento do desígnio um dos mais implausíveis argumentos a favor da existência de Deus, sobretudo na versão simples de Paley, a atracção que exerce sobre as pessoas que não sabem filosofia é um fenómeno interessante.

O argumento da primeira causa

O argumento da primeira causa tem a vantagem de ser dedutivo, ao contrário do argumento por analogia anterior. Eis uma das suas versões:

Todos os acontecimentos têm uma causa.

Logo, há uma causa para todos os acontecimentos.

Se este argumento fosse válido, seria muitíssimo poderoso. Baseia-se numa ideia originalmente avançada por Aristóteles (384-322 a.C.), se bem que não exactamente nesta forma, e foi depois desenvolvido por Tomás de Aquino (1225-74), sendo uma das suas Cinco Vias (cinco argumentos a favor da existência de Deus).

Infelizmente, o argumento é falacioso: a conclusão não se segue da premissa. Chama-se hoje "falácia da inversão dos quantificadores" a este tipo de argumento: a conclusão inverte a ordem dos quantificadores relativamente à premissa, e este tipo de inversão é falaciosa. A forma lógica falaciosa do argumento é a seguinte:

"x $y Cyx

$y "x Cyx

Qualquer pessoa pode compreender a falácia se pensar noutro argumento exactamente com a mesma forma lógica, mas com uma premissa verdadeira e uma conclusão falsa:

Todas as pessoas têm um nariz.

Logo, há um nariz que todas as pessoas têm.

Pensa-se por vezes que quando um argumento é inválido a sua conclusão é falsa. Isto é uma confusão. Tudo o que mostramos quando mostramos que um argumento é inválido é que a premissa ou premissas não justificam a conclusão; mas não mostrámos que a conclusão é falsa. A conclusão pode muito bem ser verdadeira. O que se passa é que o argumento, sendo inválido, não nos dá qualquer razão para pensar que a conclusão é verdadeira. Se pensamos que a conclusão é verdadeira, tem de ser por outra razão qualquer.

O argumento da contingência

Gottfried Leibniz (1646-1716) estava convencido que o argumento anterior era subtilmente falacioso, e tinha razão; acontece apenas que a lógica necessária para compreender claramente a sua falácia só foi desenvolvida no séc. XIX por Gottlob Frege (1848-1925) e Bertrand Russell (1872-1970). Leibniz desenvolveu então outro argumento, baseado na contingência do mundo. Uma versão desse argumento é a seguinte:

Tudo o que existe contingentemente carece de uma explicação.

A explicação última não pode ser outro existente contingente.

Logo, há um existente necessário que explica toda a existência contingente.

É natural que este argumento não seja particularmente popular, pois para o compreender e discutir é necessário dominar alguns conceitos centrais de metafísica, como a distinção entre existentes necessários e contingentes, assim como o conceito de verdades necessárias por oposição a verdades contingentes. Mas a pergunta algo retórica de Leibniz, e que ficou famosa, é por vezes usada intuitivamente por quem não domina o seu argumento original, nem os conceitos filosóficos centrais para o compreender: "Por que há algo e não o nada?" O que a pergunta sugere é que qualquer resposta a esta pergunta terá de admitir algo que não careça de explicação — Deus — por ser um existente necessário.

Além dos problemas de pormenor levantados pelo argumento, nomeadamente quanto à sua validade, a objecção mais directa é que o argumento pressupõe duas coisas. Primeiro, pressupõe sem qualquer razão que o universo é contingente. Ora, do facto de parecer verdade que todos os acontecimentos do universo observável são contingentes, não se segue que o universo como um todo seja contingente. Pode muito bem ser necessário. Segundo, pressupõe que os existentes contingentes carecem de uma explicação de que os existentes necessários não carecem. Mas isto parece uma confusão entre explicar a existência de algo e apresentar uma causa anterior. Se está em causa o primeiro aspecto, então tanto precisamos de explicar a existência dos seres contingentes como dos seres necessários. Se está em causa o segundo, então estamos outra vez a usar o argumento da primeira causa.

O argumento ontológico

A versão mais influente do argumento ontológico foi desenvolvida por Anselmo da Cantuária (1033-1109), e pode ser formulada do seguinte modo:

Deus é aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado.

Mesmo quem não acredita em Deus, compreende esta definição.

Aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado não pode existir apenas no espírito.

Logo, Deus existe na realidade.

O monge Gaunilo, colega de Anselmo, procurou refutar o argumento com base na Ilha Perdida — uma ilha imaginária, superior a todas as outras terras. Como é natural, por mais que definamos tal ilha deste modo, daí não se segue que exista. Logo, argumenta Gaunilo, o argumento de Anselmo não funciona:

A Ilha Perdida é por definição superior a todas as outras terras.

Mas daqui não se segue que esta ilha existe realmente.

Logo, uma coisa pode existir no espírito unicamente, sem existir na realidade.

Séculos mais tarde, Descartes usou uma versão diferente do argumento ontológico. E hoje em dia há versões muitíssimo sofisticadas, baseadas na lógica modal. Efectivamente, nos sistemas S5 de lógica modal, a necessidade da possibilidade segue-se da possibilidade: se algo for possível, é necessário que seja possível. Assim, podemos construir um argumento válido a favor da existência de Deus:

É possível que exista um ser cuja não existência seja impossível.

Logo, existe um ser cuja não existência é impossível.

Este argumento é válido, mas para compreender a sua validade seria necessário dominar a lógica modal. Evidentemente, quem aceitar os sistemas S5 de lógica modal mas recusar a conclusão deste argumento só pode fazer uma coisa: recusar a premissa. É o que fazem alguns filósofos: procuram mostrar que não é possível que exista ser cuja inexistência seja impossível. Por outras palavras, procuram mostrar que não só Deus não existe realmente, como não poderia ter existido.

Correspondências correspondentes

Post convidado de João Boavida, onde se apresenta um livro que vale a pena ler.

Só agora li a Correspondência - Sophia de Mello Breyner/Jorge de Sena , entre 1959 e 1978 (2006, Lisboa: Guerra e Paz).

A primeira ideia é que não se deviam publicar cartas escritas sob a pressão dos dias e dos problemas, sem cuidado literário nem acabamento, de duas personalidades tão importantes da cultura portuguesa do século XX. Habituados à tensão literária das obras de Sena, à sua força, à sua riqueza imagética e lexical, à sua truculência crítica, e, por outro lado, ao universo onírico, à sublimação estética que a obra de Sophia corporiza, estas cartas apressadas mostram o lado das vidas que não costumamos contabilizar nas obras, mas que livros como este nos obrigam a considerar.

Na sua simplicidade e espontaneidade, na proximidade das palavras, não tanto «rente ao dizer», como diria Eugénio de Andrade, mas mais rente ao sofrer ao amar e ao odiar (que também precisam de se dizer) vemos as candidaturas ao Nobel, de Torga e de Aquilino, em 59, e a divisão entre os intelectuais que enfraqueceu as nossas possibilidades, e nova candidatura em 78, entre Torga e o próprio Sena, vemos, ou adivinhamos, os jogos políticos, nem sempre claros e honestos, as tricas e invejas entre escritores, a PIDE e a sua aviltante função, e depois a Revolução e os oportunistas que gerou, os inúmeros tolos que se puseram em bicos de pés, enfim, a cultura inculta, de que ambos se queixam, e que é a nossa grande desgraça.

Jorge de Sena tinha a capacidade de fazer inimigos, por culpa de um espírito de águia que atacava sem dó os que ele considerava medíocres, mas, mesmo excessivo, como ela era, ou “ausente”, como era Sophia, sentimos, no que se diz e sugere, o Portugal cinzento e mesquinho a que a política dava o mote (antes e depois do 25 de Abril) mas que se pegava às pessoas e às instituições, pouco sensíveis à cultura em geral e ao estético em particular. Realidades, afinal, responsáveis pelas emigrações de Sena, com a numerosa prole atrás, primeiro pelo Brasil e depois pela América do Norte, com todas as canseiras que imaginamos de mudanças de casa, transporte e instalações repetidas de bagagens, livros, filhos, numa vida de professor universitário sem vínculos, sem segurança de emprego, mas fazendo, no meio de todas estas dificuldades, uma investigação sobre Camões e a cultura portuguesa do século XVI (e divulgando-os no estrangeiro) que nos espanta pela riqueza imensa da erudição, pela profundidade e arrojo das interpretações, e pela extraordinária capacidade de trabalho que exige. Ao lado de uma obra poética de uma envergadura, originalidade e qualidade extraordinárias, e de uma obra em prosa, talvez menor, mas onde está, por exemplo, entre outras coisas, O físico prodigioso, que é um prodígio.

As cartas de Sophia são mais comedidas, menos dramáticas, mas nem por isso menos pungentes. Imaginamo-la, também com um rancho de filhos, (Sophia teve cinco, Sena, nove, heróicas criaturas!) e as correspondentes dificuldades que as posições políticas não favoreciam, sonhando países, intuindo imagens, pronunciando palavras poéticas no meio de uma burguesia nada propensa às artes, vivendo algarves ainda limpos de turismo rude, outonos “deslumbrantes” grécias “mágicas”, ao lado da morte de familiares, de acidentes, de dificuldades económicas, etc.

Em suma, estas cartas não são a obra de cada um, mas acompanham-nas durante alguns anos, sentimo-las caminhando ao lado e levantando a cabeça de vez em quando. De certo modo tanto em Sena como em Sophia as vidas correspondem às obras, mesmo quando parece o contrário, e estas cartas dão para perceber isso.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Jovem do Ano 2007

No sítio do Rádio Clube Português - aqui - está a decorrer uma votação para o jovem do ano. João Guerreiro, das equipas olímpicas portuguesas de Física e Matemática, concorre com Ricardo Araújo Pereira, Pacman e João Pereira Coutinho. Eis a citação:

"João Guerreiro - Vencedor das Olímpiadas Ibero-Americanas de Matemática

Com apenas 17 anos, João Guerreiro é medalha de ouro nas Olímpiadas Ibero-Americanas de Matemática. A paixão pela disciplina começou ainda na Escola Primária. O interesse cresceu e ao estudo acrescentou a competição.

O jovem que desmente o desinteresse dos portugueses na Matemática, estuda no Instituto Superior Técnico e quer fazer da paixão pelos números a profissão para o futuro."

ABCiência na RTP


Estão a decorrer as filmagens do novo programa de ciência "ABCiência" que estreará na RTP1 no início do próximo ano. Do "Expresso" de há duas semanas publicamos texto e foto de uma notícia sobre o novo programa:

Os leitores mais atentos reconhecerão o rosto do cientista Leonel Silva do programa televisivo «MegaCiência» (SIC), um formato de entretenimento e divulgação científica que ele apresenta desde há três anos. Já deitou o humorista Marco Horácio numa cama de pregos, colocou a apresentadora Fátima Lopes em areias movediças e mandou o «Gato Fedorento» Miguel Góis estilhaçar uma garrafa de vidro de açúcar na cabeça de Ricardo Araújo Pereira. No final, Leonel decifrava o enigma científico. De então para cá, o jovem cientista aproveitou para concluir o seu doutoramento em química, no Instituto Superior Técnico, e está já de mangas arregaçadas na produção de uma nova série de experiências quotidianas e espectaculares para o «ABCiência», um novo programa televisivo familiar, a ser exibido no próximo ano, desta vez na RTP. Desafiámo-lo a partilhar uma experiência que pudesse ser testada em casa. Leonel escolheu uma operação simples a partir do chá de couve-roxa. «Nós cientistas usamos muitas vezes materiais do dia-a-dia nas nossas investigações.» Para este teste, que mede a acidez dos líquidos (PH), ferve-se água destilada e adicionam-se folhas de couve-roxa cortadas em pedaços. Depois da água arrefecer, coa-se o chá e obtém-se a solução, que é roxa.

Ao adicionar-se um ácido (ex. vinagre, sumo de limão) a este chá, ele fica vermelho, e se adicionar uma substância alcalina ou básica (ex. limpa-vidros, detergente para a loiça) ficará com cambiantes azuis, verdes, amarelas. Manterá a cor roxa quando se adiciona uma solução neutra (água destilada). «A ideia é juntar muitos frasquinhos de vidro e criar uma paleta do arco-íris.»

Texto de Bernardo Mendonça
Fotografia de João Carlos Santos

SOBRE A ESCOLA

Extracto de uma entrevista que dei a Helena Teixeira da Silva do "Jornal de Notícias" (saiu ontem e está na Net aqui):

É contra as aulas de substituição? E o que diz da impunidade das faltas?

As aulas de substituição não são um verdadeiro problema. Problema sim é a falta de reconhecimento e de estímulos aos professores. E problema sim é uma certa “nomenklatura” ministerial e o “eduquês” que fala. Quanto às faltas, sou pela tolerância zero. E só a um secretário de estado com um currículo de faltas poderia lembrar que houvesse faltas impunes.

Acha que a escola é o reflexo da sociedade que temos? Ou será o contrário?

Sociedade e escola estão entrelaçadas. A escola é o meio que a sociedade inventou para assegurar o seu futuro. Claro que a escola é feita pela sociedade de uma época para transmitir os conhecimentos e valores do passado. Mas com uma boa escola podemos esperar um futuro melhor. Como muita gente sofro com o estado da educação nacional: a falta de uma boa escola pode custar-nos o futuro!

Sympathy for the Devil

O diabo da Tasmânia é o único Sarcophilus existente mas o maior de todos os carnívoros marsupiais deve a sua popularidade ao Taz, o divertido personagem da Warner Brothers. O remoinho devorador que marcou o imaginário de muitos corre risco de extinção se não se conseguir debelar uma doença estranha, a Devil Facial Tumour Disease, detectada pela primeira vez em 1995.

Desde 1911, quando Peyton Rous descobriu o primeiro vírus cancerígeno - que causava sarcoma em galinhas -, que se sabe que os vírus podem causar cancro. Actualmente sabemos que quer vírus - como o da hepatite B ou o vírus do papiloma humano, HPV - quer bactérias, como a Helicobacter pylori, podem causar, respectivamente, cancro hepático, cervical e estomacal, pelo que não nos surpreende que o cancro possa ser causado por um agente infeccioso.

O cancro que dizima o diabo da Tasmânia é completamente diferente: é causado por uma célula cancerígena que se propaga de diabo em diabo quando eles se mordem. Isto é, o cancro que dizima a população do único habitat actual do diabo da Tasmânia é o mesmo cancro que se propaga (muito rapidamente) por inoculação de células cancerosas numa ferida aberta por um animal afectado. Este cancro tem uma taxa de mortalidade de quase 100%.

Há pouco mais de um mês, um artigo na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, PNAS, «Transmission of a fatal clonal tumor by biting occurs due to depleted MHC diversity in a threatened carnivorous marsupial», lançou luz sobre a doença. Os autores indicam que a baixa diversidade genética dos diabos, nomeadamente a nível do Complexo Maior de Histocompatibilidade (MHC, Major Histocompatibility Complex), existente em todos os vertebrados, e constituído, entre outros, por genes com importantes funções imunológicas, é a razão que permite a disseminação dos tumores. O sistema imunitário dos diabos não reconhece como estranhas as células cancerosas com que foram infectados e estas não são destruídas.

Segundo os biólogos, caso não seja resolvido o problema - uma vacina nestas condições seria completamente ineficaz -, a espécie corre o risco de ser dizimada em cerca de 10 a 20 anos. As estimativas mais conservadoras indicam que cerca 65% da Tasmânia foi afectada, tendo-se perdido entre 20 a 50% da população de diabos, números que atingem os 80% em algumas zonas. A epidemia atingiu proporções catastróficas, levando os conservacionistas a tomar medidas extremas como matar os animais que apresentem os estágios iniciais da doença, para evitar o contágio, e criar áreas fechadas com populações saudáveis nas ilhas ao largo da Tasmânia.

Katherine Belov, a cientista responsável pelo estudo, revela a sua preocupação com outras populações de baixa diversidade genética que podem ser atingidas por catástrofes análogas à que dizima os diabos, nomeadamente os koalas de Kangaroo Island e os ornitorrincos de King Island.


Se não se conseguir salvar os diabos, esta será a segunda espécie de marsupiais carnívoros extinta desde que os europeus chegaram à Austrália. O homem foi o grande responsável pelo desaparecimento do tigre-da-tasmânia, oficialmente extinto quando o último exemplar morreu em 1936 no Zoológico de Hobart. Desde o início da colonização da Tasmânia, o tigre foi perseguido pelos criadores de gado, tarefa apoiada pelo Parlamento Regional da Tasmânia que emitiu em 1888 um decreto que vigorou até 1909, decreto que visava erradicar a espécie considerada ameaçadora da principal fonte de rendimento da ilha.

O tigre da Tasmânia, caçado até à extinção pelos colonos, foi transformado num ícone, presente no escudo e nas chapas de matrícula dos carros, pelos seus descendentes. Esperemos que o Diabo permaneça para as gerações futuras um símbolo vivo da mudança de atitude do Homem.

domingo, 18 de novembro de 2007

Interferência arbitrária

No passado dia 15 comemorou-se o Dia Mundial da Filosofia. E eu não disse fosse o que fosse sobre isso! Pecado capital. Ou não?

Na verdade, preocupa-me que as pessoas estejam tão dispostas a cantar em coro quando uma pessoa ou instituição qualquer as manda cantar em coro. Seja o presidente, o primeiro-ministro, o papa, a UNESCO, ou outra coisa qualquer, as pessoas parecem fazer bicha para cumprir as mais incríveis arbitrariedades. Por que raio haveremos de obedecer a uma arbitrariedade? Que sentido tem esta história dos Dias Mundiais disto e daquilo? Vale a pena pensar nisto.

Um dos mecanismos centrais para aprofundar o poder sobre as pessoas é a interferência arbitrária nas suas vidas. As religiões vivem disto — que outra razão há para interferir nas suas práticas sexuais, ou no que comem ou deixam de comer, no que vestem ou deixam de vestir? A razão é para mostrar quem manda aqui. E quem manda aqui é quem é capaz de me obrigar a fazer uma idiotice qualquer sem qualquer razão de peso. O poder despótico vive em grande parte deste mecanismo de interferência arbitrária na vida das pessoas, interferência que não tem outro objectivo excepto reforçar o poder que o governante ou o estado tem sobre as pessoas.

O que é assustador é haver sempre demasiadas pessoas dispostas precisamente a fazer tais idiotices como se fossem as coisas mais interessantes do mundo, só porque alguém mandou fazê-las. Há algo de assustador em algumas democracias contemporâneas, e em algumas instituições e modos de agir, pois são claramente portas abertas ao pior pesadelo controlista, estatista e ditatorial. A UNESCO, com os seus Dias Mundiais, pode ser bem-intencionada mas é apenas mais um sintoma disto. Subitamente, alguém, que nem sequer foi eleito por votação directa, decide que o mundo deve todo em uníssono cantar hinos à filosofia ou à física, ou a seja o que for, num certo dia — e, infelizmente, há sempre quem esteja disposto a fazê-lo. Basta usar uma sigla, dar um nome a uma instituição e... ui, ai, temos de fazer assim porque tal instituição disse que é assim. Que raio de bovinice é esta?

Na verdade, a UNESCO faz este tipo de arbitrariedades por outro motivo também. É que, como muitas outras instituições nacionais e internacionais, a UNESCO resulta directamente do hábito que os burocratas e políticos têm de multiplicar instituições sem necessidade. Ockham ficou famoso por afirmar que não devemos, ao construir teorias científicas ou filosóficas, multiplicar entidades sem necessidade. Na verdade, ele nunca escreveu tal coisa, dizem os exegetas, mas toda a gente lhe atribui tal coisa. Em qualquer caso, se Maquiavel não escreveu que um dos segredos da política é multiplicar instituições burocráticas sem necessidade, devia tê-lo escrito. Pois estas instituições servem para dar emprego a políticos reformados, e aos seus amigos; servem para gastar inutilmente e a rodos muitos dinheiros públicos; e ainda têm a vantagem de dar a ilusão de se tratar de instituições bem-intencionadas e que contribuem para fazer um mundo melhor. Bom, fazem um mundo melhor para quem nelas trabalha e ganha milhares de dólares por mês — que saem directamente dos impostos dos contribuintes, mas em nada dá em troca aos contribuintes, além de interferir arbitrariamente nas suas vidas.

O que a UNESCO faz é contribuir decisivamente para a idiotia mundial que consiste na histeria de o mundo noticioso andar a reboque de frases feitas e lugares-comuns. E quando vem o dia de X ou de Y lá vem o ministro cortar mais uma fita e dizer mais umas idiotices — e o resto da malta aplaude. Ou seja: a UNESCO contribui para os políticos cimentarem o seu poder sobre as populações, interferindo arbitrariamente nas suas vidas. Hoje não me apetece nada pensar na filosofia — ah, mas tenho de o fazer porque... ui, ai, é o Dia Mundial da Filosofia.

Vejamos outro exemplo de interferência arbitrária na vida das pessoas: a língua. Na Alemanha, como em Portugal e no Brasil, faz-se como se fosse a coisa mais natural do mundo uma das grandes idiotices do género humano: legisla-se sobre a língua. Há leis sobre o uso da língua! Se eu dou um erro de ortografia, violo a lei, imagine-se. Quantos erros é preciso dar num jornal para se ser preso?

A coisa até tem uma certa graça porque hoje em dia há um debate entre dois tipos de linguistas. Há os "descritivos", mais novos e, pensam eles, politicamente mais atentos, e os "normativos", mais velhos e vistos como títeres dos mecanismos de poder social. Os normativos escrevem coisas sobre o estilo, dizem que é um erro escrever desta ou daquela maneira, e explicam porquê; é a gramática e o estilo no sentido mais tradicional dos termos. Os descritivos dizem que a língua não é posse de ninguém, sobretudo de uns velhotes que estão nas bibliotecas a dizer-nos como devemos usar a nossa própria língua. Os descritivos além disso pensam que são mais "científicos", porque lidam com juízos de facto e não com juízos de valor (porque têm uma crença positivista numa distinção que muitos filósofos hoje em dia não aceitam), e são também mais democráticos porque não usam a língua para impor normas de um certo registo cultural a outros registos culturais: o analfabeto fala um português tão "correcto", dizem, como um romancista, porque a ideia de que há um português "correcto" é ela própria ininteligível, constituindo apenas um mecanismo de controlo social e político.

E é então que vem a parte cómica da coisa. Os descritivos que estão próximos do poder convencem o ministro ou a comissão X ou Y de que é preciso reformar a ortografia, ou a gramática. E... faz-se uma lei sobre isso. Então, deixamos de escrever "óptimo" e passamos a escrever "ótimo"; e no Brasil deixamos de escrever "conseqüência" e passamos a escrever "consequência". Isto é cómico porque afinal os pretensos descritivos são... normativos. Pois, descritivamente, caraças, toda a gente escreve "óptimo" em Portugal, e não "ótimo". Tal como toda a gente escrevia, e bem, "Philosophia" e "Pharmácia", mas depois foram bovinamente obrigados a passar a escrever com F em vez de PH. Os linguistas, descritivos ou não, usam o poder político para impor as suas idiossincrasias às pessoas comuns — coisa que nunca teriam sido capazes de fazer escrevendo livros, gramáticas e dicionários influentes que, de maneira orgânica e natural, estabelecessem um determinado uso da língua em detrimento de outro.

E porquê? Porquê legislar sobre a língua? Para controlar os papalvos, para interferir arbitrariamente nas suas vidas. Os políticos, claro, ficam todos satisfeitos com a ideia de mandar as pessoas escrever de uma maneira em vez de outra. É mais uma maneira de cimentar o controlo dos outros porque é uma interferência arbitrária na vida das pessoas. E o inquietante é as pessoas fazerem bicha para obedecer a estas arbitrariedades.

Só que tudo isto é inaceitável numa sociedade livre. Numa sociedade livre o estado não deve interferir na vida dos cidadãos, a menos que seja realmente necessário. E não é realmente necessário fazer leis sobre a maneira como escrevemos. Nem é necessário fazer Dias Mundiais do Chichi. Só se fazem tais coisas para controlar as pessoas, nada mais. É o que acontece quando se dá uma ordem a uma criança, e ela resiste e pede uma razão. E nós respondemos "Porque sou eu que mando". Era bom que a humanidade crescesse e ultrapassasse a fase em que obedece a tolices institucionais que existem só para cimentar o poder. "Sapere aude!", lembra Kant, "Ousai saber!". Pois. E, já agora, "Ousai ser livres!" — e não aceitem interferências arbitrárias do poder, político ou outro, nas vossas vidas. É que hoje, por boa vontade, damos um chouriço, como diz o povo, e amanhã damos connosco a ser presos porque não queremos dar um porco. Fenómenos como o nazismo ou o salazarismo não teriam sido possíveis se não houvesse hordas de gentes dispostas a fazer quaisquer arbitrariedades que lhes mandavam fazer, só porque sim. Vale a pena pensar nisso.

Metafraudes


Já por diversas vezes referimos o livro de Carl Sagan, «O Mundo Infestado de Demónios: a ciência vista como uma vela na escuridão», um manifesto contra as pseudociências. Quem leu o livro, está familiarizado com Carlos, o suposto espírito de 2000 anos que «possuía» - e lhe transmitia a sua «sabedoria» milenar - Jose Luis Alvarez, na altura, 1988, um jovem artista de 19 anos. Na realidade, «Carlos» era uma experiência conduzida por James Randi em conjunto com o programa «60 Minutes» australiano. O objectivo era demonstrar quão fácil é fabricar um «psiquíco» de sucesso em apenas uma semana.

E o resultado da experiência superou as expectativas. Em poucos dias, «Carlos» era sensação em terras australianas, convidado de inúmeros programas nas estações de maior audiência do país. Alvarez não teve falta de clientes para a tralha que acompanha estes supostos psíquicos, no caso «cristais curativos», livros - incluindo um folheto intitulado «A sabedoria de Carlos», que debitava em péssimo inglês «verdades» profundas como «A gravidade não é difícil de explicar; podem ver que é mais fácil as coisas caírem para baixo que para cima» - e mesmo as suas lágrimas. Centenas de australianos foram assistir à sua apresentação, na Sydney Opera House e, como se vê neste excerto, muitos saíram do «show» convencidos da autenticidade de «Carlos».

Os nossos leitores que forem a Nova Iorque até 22 de Dezembro, podem apreciar uma exposição de Jose Alvarez na The Kitchen Gallery. A exposição integra vídeos como este, que desmascara James Van Praagh, um «psíquico» que clama conversar com os mortos e que, tal como «Carlos», é figura constante nas televisões norte-americanas. A sua última aparição, com outro vendedor de banha da cobra, deu-se na passada sexta-feira, no programa Larry King Live da CNN.

Ou seja, quase vinte anos depois, não só charlatães continuam em acção com o apoio dos media, como o seu número aumentou exponencialmente.

Os que vendem palermices New Age, normalmente debitam barbaridades pseudo-científicas como suporte dos seus produtos. Descobri recentemente que não apenas a ciência mas também a filosofia é explorada por estas patranhas irracionais. Alguém que reclama o título de Doctor of Divinity (que tenho dúvidas como traduzir) em «Ciências» Metafísicas e um doutoramento em Aconselhamento Metafísico, fundou na California uma pseudo-universidade de «ciências» metafísicas.

A pseudo-universidade, ligada à Igreja Universal da Metafísica - por uma razão estranha, nos Estados Unidos as escolas de banha da cobra estão normalmente ligadas a «Igrejas» -, não tem qualquer tipo de acreditação mas «vende», na página destinada a convencer os mais incautos, uma acreditação fictícia de associações new age dúbias que dão pelo nome de AADP, American Association of Drugless Practitioners e AAMA, American Association Of Medical Alternatives (o facto das páginas de internet de ambas serem igualzinhas a menos de uns pormenores é certamente coincidência...).

Estou certa que o Desidério, que nos explicou que a metafísica não deve ser confundida com espiritismo ou misticismo, reagirá como, por exemplo, David Colquhoun, em relação a esta corrupção da filosofia por mais um misticismo irracional New Age, que inclui nos cursos «metafísicos» que ministra coisas como comunicação com anjos, milagres e reeencarnação.

Carl Sagan sobre astrologia

sábado, 17 de novembro de 2007

Educação e cidadania

«A Escola de Atenas», um fresco de Rafael na Stanza della Segnatura, foi escolhido para a capa do livro «Paideia e Cidadania na Grécia Antiga», o quarto título da Colecção Ethos da Ariadne. Rafael, cujo quadro La Fornarina constitui uma notável integração de ciência e arte, pareceu-me igualmente excelente para ilustrar o que considero ser um problema da modernidade, o fim do «homem da Renascença», ou antes, o labirinto do conhecimento/ educação a que falta um fio de Ariadne.

A palavra educação é de origem latina, e em Cícero - nomeadamente no de Oratore e no de Legibus - encontramos o significado que hoje em dia atribuímos à palavra: instrução, formação do espírito. Já a etimologia da palavra pedagogia - do grego paidós (criança) e agodé (condução) -, actualmente indissociável de educação, reflecte a função do pedagogo na Grécia clássica: o pedagogo era o escravo que acompanhava a criança à escola para esta aprender com os mestres.

De facto, paidéia, inicialmente significava apenas criação de meninos, mas foi adquirindo um significado mais vasto de que nos dá conta o filólogo alemão Werner Jaeger na sua principal obra, «Paidéia», impressa pela primeira vez em 1936. Segundo Jaeger, por volta do século IV a.C., paidéia era já o «processo de educação na sua forma verdadeira, a forma natural e genuinamente humana».

Originalmente, isto é, nos primórdios da civilização grega, o ideal educativo era expresso por areté. Normalmente traduz-se a palavra areté por virtude e o seu plural, aretai, por virtudes, o que poderia implicar que o sentido original de areté é de natureza ética. Ora, esse não é o sentido original de areté, que o Dictionaire Grec-Français traduz como mérito, excelência ou qualidade pela qual alguém se destaca.

Homero - que teria vivido no século VIII a.C. - dá-nos nos seus poemas a descrição do «homem homérico», um ser impotente face aos caprichos dos deuses mas que deve lutar para atingir a excelência, a areté. No canto XI da Ilíada podemos ler o conselho do pai a Aquiles, que deveria tentar «ser sempre o melhor (aristeuein) e estar acima dos demais». Ou seja, o ideal homérico é expresso por aqueles que pela sua areté se elevam ao panteão dos heróis imortais, aqueles que marcam indelevelmente a memória da humanidade. Igualmente na Ilíada, Fénix, o preceptor de Aquiles, lembra ao jovem que o seu papel educativo era fazer dele um guerreiro e um orador excelentes, isto é, esboça a ligação entre educação e excelência que se iria desenvolver na cultura helénica.

A felicidade, o fim último do Homem, é para Aristóteles inseparável da polis, a cidade. Na Ética a Nicómaco, apresenta-nos a sua teoria das aretai, distinguindo dois tipos de aretai: as da inteligência e as do carácter. Ambas são impossíveis sem o conhecimento epistémico que nos permite ajuizar da verdade e do erro e devem ser transmitidas no ensino. Um dos vectores fundamentais para concretizar a excelência é para Aristóteles a lógica ( por ele designada de Analítica), que permite estruturar o pensamento e impede o homem de cair em erro. A lógica e a ciência são para Aristóteles indispensáveis para se cumprir a excelência e a cidadania.

Também para Platão, para quem paideia «dá ao homem o desejo e a ânsia de se tornar um cidadão perfeito», a educação é indissociável da cidadania. A paideia é o meio para se alcançar as aretai fulcrais à cidade ideal de Platão: sabedoria, coragem, temperança e justiça.

Assim, quer a excelência quer a cidadania estão intimamente ligadas à educação, o meio pelo qual o Homem se pode realizar plenamente e lhe permite cumprir o ideal que a palavra latina humanitas irá traduzir. Isto é, a humanitas, para os gregos, tem a ver com a areté ideal, excelência que progressivamente se desvia do plano estritamente individualista de Homero para uma excelência civíca e de cidadania. A areté ideal será dirigida primeiro à formação do cidadão, o polites e, no período helenístico, à excelência do homem cosmopolita.

O mesmo ideal de areté foi continuado na época cristã, mas agora dirigido à formação do servo de Deus e em que a excelência original foi carregada de significados e conceitos cristãos, nomeadamente das virtudes cristãs. O cristianismo, com o seu referencial na theopolis, desvaloriza a transitória res publica, tornada completamente secundária. Como afirmou Tertuliano, cuja importância no cristianismo só é ofuscada por Agostinho de Hipona, «Nada nos é mais estranho que a coisa pública».

Um livro muito útil sobre o tema é a obra póstuma de Werner Jaeger«Early Christianity and Greek Paideia», publicada em 1961 e organizada a partir de conferências realizadas pelo autor na Universidade de Harvard em 1960. Como assinala Jaeger, o cristianismo afirmou-se como a paideia verdadeira e única. A formação do homem grego, a morphosis, transmutou-se em metamorphosis, a recuperação para a vida «eterna» do homem «caído». Isto é, a formação do homem não pretendia desenvolver as virtudes públicas/cívicas, - o «estado dentro de nós», como pregava Platão - nem visava a excelência e formação do cidadão mas dirigia-se quase exclusivamente à sua «salvação» individual. Como nos diz Jaeger, «Assim como a Paidéia grega consistia na totalidade do corpo da literatura grega, a Paidéia cristã é a Bíblia» e assim, como preconizado no «Didascalia Apostolorum» - que ordenava ainda a proibição completa dos livros diabólicos (sic) e dos pagãos -, a Bíblia era a fonte única de ciência e cultura.

Mas se a tensão fundamental embebida na apropriação cristã da paideia grega continua até hoje, tensão que diz respeito ao que é conhecimento «útil», Gregório de Nisa, outra figura incontornável no cristianismo primitivo, considerava igualmente que o mal nasce da ignorância.

Tudo isto a propósito do debate que se tem desenrolado no espaço a ele dedicado, em que se pode apreciar que, como refere um dos nossos leitores, «A oposição à ciência tem alastrado como mancha de óleo, uma oposição baseada no preconceito, no medo e na ignorância», isto é, que um número não despiciendo de pessoas assaca à ciência/conhecimento a origem dos males que assolam o nosso mundo.

Suponho que todos os nossos leitores conheçam as bruxas de Macbeth e o seu canto «Hover through the fog and filthy air», que indica que a poluição atmosférica não era desconhecida de Shakespeare. Na realidade, era bastante anterior e, por exemplo, o rei Eduardo I tentou banir a queima de carvão betuminoso, a escolha dos mais pobres, quando o fumo tornou irrespirável a atmosfera londrina de meados do século XIII. Num decreto de 1272, Eduardo I, instado por membros importantes da nobreza e do clero, impunha a tortura ou a morte a quem vendesse ou queimasse o ofensivo e poluente carvão. Londres teria na altura umas escassas dezenas de milhares de habitantes, actualmente tem mais de sete milhões ...

Como exercício, deixo à imaginação dos nossos leitores as consequências, também em termos de poluição, de transportar os habitantes actuais apenas da Europa, mais de 725 milhões de pessoas e 11% da população mundial, para os tempos em que a ciência ainda não tinha (re)nascido, por exemplo para a Idade Média ( que no pico de população em meados do século XIV tinha menos de um décimo da população actual e um século depois viu a população decrescer para 50 milhões).

Recordo não só as inúmeras guerras e revoltas populares que marcaram este período sem ciência, como a Grande Fome de 1315–1322, apenas mais uma, embora mais grave, entre as muitas que assolaram a Europa medieval e, para além das mortes em massa que se sucederam, o consequente aumento da criminalidade que incluiu infanticídio e canibalismo. Quiçá os progressos permitidos pela ciência sejam de facto «culpados» de terem dado condições que permitiram a explosão da humanitas, mas parece que os dedos acusadores que alguns apontam à ciência resultam de um deficiente conhecimento (ou romantização) da História, que, como diz Edward Gibbon, «pouco mais é, na verdade, do que o registo dos crimes, das loucuras e dos infortúnios da humanidade».

Na realidade, como já tem sido muito vezes abordado no De Rerum Natura, estamos a ficar poluídos por uma nuvem de irracionalidade. Para mim, pensar o presente passa não só por avaliar o passado como por reflectir sobre esta crise ou sono da razão. Crise, vale a pena lembrar, vem do grego krisis, que pode ser traduzido por julgamento ou decisão, ou seja, é quase sinónimo do logos grego. Assim, mesmo etimologicamente, esta crise envolve uma reflexão crítica que me parece muitos se recusarem fazer.

Numa época em que o sobrenome Lessing invoca uma escritora que é para mim uma pensadora incontornável, relembro ainda outro Lessing marcante e crítico, de seu nome Gotthold Ephraïm, que, nos idos do século XVIII, afirmava não ser a posse da verdade mas sim o esforço para alcançá-la o que determina o valor de um homem (a que acrescento de uma sociedade).

Assim, esta nuvem poluente de irracionalidade resulta da cristalização dos que se acham já na posse da verdade absoluta, daqueles que consideram «inútil» a procura de conhecimento científico face a problemas mais prementes da Humanidade - e que ignoram que esses problemas, proporcionalmente à população, foram muito minorados pelo desenvolvimento científico - e dos que se aproveitam para fins sortidos da ignorância e iliteracia de grande parte da população.

Polis, cosmopolis e theopolis, os referenciais nos quais a areté se definiu e os ideais de formação humana se enquadravam, precisam ser recentrados numa cidadania abrangente, numa humanitas sustentável e sustentada, para se vencer o desencanto que gera radicalismos sortidos e alimenta irracionalidades várias. Para tal, é necessário um fio de Ariadne que nos guie pelos labirintos das construções humanas e esse fio assenta no pensamento crítico.

Como é óbvio e já o referi inúmeras vezes, embora a ciência não seja resposta para tudo, a compreensão de ciência é certamente necessária para a promoção e assunção plena da cidadania. Tal como Aristóteles, considero que as duas culturas são indispensáveis para o cumprimento da cidadania, que passa também por orientar a praxis humana pela areté e é assim indissociável da educação entendida como a paideia grega. E, tal como Gregório de Nisa, considero que o mal nasce da ignorância.

"A escola como plataforma do comércio"

    Artigo de opinião do Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo, publicado no jornal As Beiras de hoje, 12 de Maio de 20...