
«A Escola de Atenas», um fresco de
Rafael na
Stanza della Segnatura, foi escolhido para a capa do livro «
Paideia e Cidadania na Grécia Antiga», o quarto título da Colecção Ethos da Ariadne. Rafael, cujo quadro
La Fornarina constitui uma notável integração de ciência e arte, pareceu-me igualmente excelente para ilustrar o que considero ser um problema da modernidade,
o fim do «homem da Renascença», ou antes, o labirinto do conhecimento/ educação a que falta um fio de Ariadne.
A palavra educação é de origem latina, e em Cícero - nomeadamente no
de Oratore e no
de Legibus - encontramos o significado que hoje em dia atribuímos à palavra: instrução, formação do espírito. Já a etimologia da palavra pedagogia - do grego
paidós (criança) e
agodé (condução) -, actualmente indissociável de educação, reflecte a função do pedagogo na Grécia clássica: o pedagogo era o escravo que acompanhava a criança à escola para esta aprender com os mestres.
De facto,
paidéia, inicialmente significava
apenas criação de meninos, mas foi adquirindo um significado mais vasto de que nos dá conta o filólogo alemão Werner Jaeger na sua principal obra, «Paidéia», impressa pela primeira vez em 1936. Segundo Jaeger, por volta do século IV a.C., paidéia era já o «processo de educação na sua forma verdadeira, a forma natural e genuinamente humana».
Originalmente, isto é, nos primórdios da
civilização grega, o ideal educativo era expresso por
areté. Normalmente traduz-se a palavra
areté por virtude e o seu plural,
aretai, por virtudes, o que poderia implicar que o sentido original de
areté é de natureza ética. Ora, esse não é o sentido original de
areté, que o Dictionaire Grec-Français traduz como mérito, excelência ou qualidade pela qual alguém se destaca.
Homero - que teria vivido no século VIII a.C. - dá-nos nos seus poemas a descrição do «homem homérico», um ser impotente face aos caprichos dos deuses mas que deve lutar para atingir a excelência, a
areté. No canto XI da Ilíada podemos ler o conselho do pai a Aquiles, que deveria tentar «ser sempre o melhor (
aristeuein) e estar acima dos demais». Ou seja, o ideal homérico é expresso por aqueles que pela sua
areté se elevam ao panteão dos heróis imortais, aqueles que marcam indelevelmente a memória da humanidade. Igualmente na Ilíada, Fénix, o preceptor de Aquiles, lembra ao jovem que o seu papel educativo era fazer dele um guerreiro e um orador excelentes, isto é, esboça a ligação entre educação e excelência que se iria desenvolver na cultura helénica.
A felicidade, o fim último do Homem, é para Aristóteles inseparável da
polis, a cidade. Na Ética a Nicómaco, apresenta-nos a sua teoria das
aretai, distinguindo dois tipos de
aretai: as da inteligência e as do carácter. Ambas são impossíveis sem o conhecimento epistémico que nos permite ajuizar da verdade e do erro e devem ser transmitidas no ensino. Um dos vectores fundamentais para concretizar a excelência é para Aristóteles a lógica ( por ele designada de Analítica), que permite estruturar o pensamento e impede o homem de cair em erro. A lógica e a ciência são para Aristóteles indispensáveis para se cumprir a excelência e a cidadania.
Também para Platão, para quem
paideia «dá ao homem o desejo e a ânsia de se tornar um cidadão perfeito», a educação é indissociável da cidadania. A
paideia é o meio para se alcançar as
aretai fulcrais à cidade ideal de Platão: sabedoria, coragem, temperança e justiça.
Assim, quer a excelência quer a cidadania estão intimamente ligadas à educação, o meio pelo qual o Homem se pode realizar plenamente e lhe permite cumprir o ideal que a palavra latina
humanitas irá traduzir. Isto é, a
humanitas, para os gregos, tem a ver com a
areté ideal, excelência que progressivamente se desvia do plano estritamente individualista de Homero para uma excelência civíca e de cidadania. A
areté ideal será dirigida primeiro à formação do cidadão, o
polites e, no período helenístico, à excelência do homem cosmopolita.
O mesmo ideal de
areté foi continuado na época cristã, mas agora dirigido à formação do servo de Deus e em que a excelência original foi carregada de significados e conceitos cristãos, nomeadamente das virtudes cristãs. O cristianismo, com o seu referencial na
theopolis, desvaloriza a transitória
res publica, tornada completamente secundária. Como afirmou Tertuliano, cuja importância no cristianismo só é ofuscada por Agostinho de Hipona, «Nada nos é mais estranho que a coisa pública».
Um livro muito útil sobre o tema é a obra póstuma de Werner Jaeger«
Early Christianity and Greek Paideia», publicada em 1961 e organizada a partir de conferências realizadas pelo autor na Universidade de Harvard em 1960. Como assinala Jaeger, o cristianismo afirmou-se como a
paideia verdadeira e única. A formação do homem grego, a
morphosis, transmutou-se em
metamorphosis, a recuperação para a vida «eterna» do homem «caído». Isto é, a formação do homem não pretendia desenvolver as virtudes públicas/cívicas, - o «estado dentro de nós», como pregava Platão - nem visava a excelência e formação do cidadão mas dirigia-se quase exclusivamente à sua «salvação» individual. Como nos diz Jaeger, «Assim como a Paidéia grega consistia na totalidade do corpo da literatura grega, a Paidéia cristã é a Bíblia» e assim, como preconizado no «
Didascalia Apostolorum» - que ordenava ainda a proibição completa dos livros diabólicos (sic) e dos pagãos -, a Bíblia era a fonte única de ciência e cultura.
Mas se a tensão fundamental embebida na apropriação cristã da
paideia grega continua até hoje, tensão que diz respeito ao que é conhecimento «útil», Gregório de Nisa, outra figura incontornável no cristianismo primitivo, considerava igualmente que o mal nasce da ignorância.
Tudo isto a propósito do debate que se tem desenrolado no espaço a ele dedicado, em que se pode apreciar que, como
refere um dos nossos leitores, «A oposição à ciência tem alastrado como mancha de óleo, uma oposição baseada no preconceito, no medo e na ignorância», isto é, que um número não despiciendo de pessoas assaca à ciência/conhecimento a origem dos males que assolam o nosso mundo.
Suponho que todos os nossos leitores conheçam as bruxas de Macbeth e o seu canto «Hover through the fog and filthy air», que indica que a poluição atmosférica não era desconhecida de Shakespeare. Na realidade, era bastante anterior e, por exemplo, o rei Eduardo I tentou banir a queima de carvão betuminoso, a escolha dos mais pobres, quando o fumo tornou irrespirável a atmosfera londrina de meados do século XIII. Num decreto de 1272, Eduardo I, instado por membros importantes da nobreza e do clero,
impunha a tortura ou a morte a quem vendesse ou queimasse o ofensivo e poluente carvão. Londres teria na altura umas escassas dezenas de milhares de habitantes, actualmente tem mais de sete milhões ...
Como exercício, deixo à imaginação dos nossos leitores as consequências, também em termos de poluição, de transportar os habitantes actuais apenas da Europa, mais de 725 milhões de pessoas e 11% da população mundial, para os tempos em que a ciência ainda não tinha (re)nascido, por exemplo para a Idade Média ( que
no pico de população em meados do século XIV tinha menos de um décimo da população actual e um século depois viu a população decrescer para 50 milhões).
Recordo não só as
inúmeras guerras e
revoltas populares que marcaram este período sem ciência, como a
Grande Fome de 1315–1322, apenas mais uma, embora mais grave, entre as muitas que assolaram a Europa medieval e, para além das mortes em massa que se sucederam, o consequente aumento da criminalidade que incluiu infanticídio e canibalismo. Quiçá os progressos permitidos pela ciência sejam de facto «culpados» de terem dado condições que permitiram a explosão da
humanitas, mas parece que os dedos acusadores que alguns apontam à ciência resultam de um deficiente conhecimento (ou romantização) da História, que, como diz
Edward Gibbon, «pouco mais é, na verdade, do que o registo dos crimes, das loucuras e dos infortúnios da humanidade».
Na realidade, como já tem sido muito vezes abordado no
De Rerum Natura, estamos a ficar poluídos por uma nuvem de irracionalidade. Para mim, pensar o presente passa não só por avaliar o passado como por
reflectir sobre esta crise ou
sono da razão. Crise, vale a pena lembrar, vem do grego
krisis, que pode ser traduzido por julgamento ou decisão, ou seja, é quase sinónimo do
logos grego. Assim, mesmo etimologicamente, esta crise envolve uma reflexão crítica que me parece muitos se recusarem fazer.
Numa época em que o sobrenome
Lessing invoca uma escritora que é para mim
uma pensadora incontornável, relembro ainda outro Lessing marcante e crítico, de seu nome Gotthold Ephraïm, que, nos idos do século XVIII, afirmava não ser a posse da verdade mas sim o esforço para alcançá-la o que determina o valor de um homem (a que acrescento de uma sociedade).
Assim, esta nuvem poluente de irracionalidade resulta da cristalização dos que se acham já na posse da verdade absoluta, daqueles que consideram «inútil» a procura de conhecimento científico face a problemas mais prementes da Humanidade - e que ignoram que esses problemas, proporcionalmente à população, foram muito minorados pelo desenvolvimento científico - e dos que se aproveitam para fins sortidos da
ignorância e iliteracia de grande parte da população.
Polis,
cosmopolis e
theopolis, os referenciais nos quais a
areté se definiu e os ideais de formação humana se enquadravam, precisam ser recentrados numa cidadania abrangente, numa
humanitas sustentável e sustentada, para se vencer o desencanto que gera radicalismos sortidos e alimenta irracionalidades várias. Para tal, é necessário um fio de Ariadne que nos guie
pelos labirintos das construções humanas e esse fio assenta
no pensamento crítico.
Como é óbvio e já o referi
inúmeras vezes, embora a ciência não seja resposta para tudo, a compreensão de ciência é certamente necessária para a promoção e assunção plena da cidadania. Tal como Aristóteles, considero que
as duas culturas são indispensáveis para o cumprimento da cidadania, que passa também por orientar a
praxis humana pela
areté e é assim indissociável da educação entendida como a
paideia grega. E, tal como Gregório de Nisa, considero que o mal nasce da ignorância.