domingo, 25 de março de 2007

Sexo e ciência: um tributo a Hamilton

No dia 7 de Março, o dia em que nos lançámos nesta experiência na blogosfera, fez sete anos que morreu o cientista que muitos consideram o pai da segunda revolução evolucionista: William Donald Hamilton.

Hamilton revolucionou a biologia com os artigos «The Genetical Evolution of Social Behaviour I e II», publicados no Journal of Theoretical Biology em 1964 e que explicam a base genética do altruismo. Estes artigos, considerados a maior contribuição à teoria da evolução depois de Darwin, foram enviados do Brasil, da UNESP Rio Claro, onde Hamilton mantinha uma colaboração.

Mas Hamilton forneceu igualmente a primeira resposta satisfatória à pergunta: para que serve o sexo? De facto, embora poucos discordem que sexo seja bom, o caso muda de figura quando a interrogação passa para o campo científico. Isto é, em termos biológicos o sexo é bom para quê?

Já em 1889 o biólogo alemão August Weismann tinha afirmado que a função do sexo não poderia ser apenas a de permitir a multiplicação dos organismos. Para a grande maioria das formas vivas, a reprodução assexuada, nas suas muitas variantes, assume-se como a forma predominante de reprodução. E não há indícios de que as bactérias se divirtam no processo, apesar do afinco com que se dedicam à reprodução.

A via sexuada é a forma de reprodução mais dispendiosa na perspectiva biológica, não só a nível fisiológico mas, quando os dois sexos correspondem a indivíduos distintos, também comportamental. Pensemos na energia investida em cantos, danças e outras exibições altamente elaboradas dos comportamentos de corte de muitas espécies, assim como no aparecimento e manutenção de características sexuais secundárias como as majestosas plumas dos pavões macho. Para não falar no desperdício de energia na produção de machos, criaturas quase inúteis do ponto de vista biológico, criadas e alimentadas com a função específica de doarem gâmetas para fertilizar as fêmeas.

Por outro lado, como apontou em 1971 o evolucionista inglês John Maynard Smith, na corrida evolutiva, na qual a passagem dos genes à geração seguinte é um grande objectivo, um indíviduo sexuado está em clara desvantagem em relação a outro que se reproduza assexuadamente já que o primeiro apenas passa à descendência metade do seu material genético. Esta desvantagem ficou conhecida por «o custo da meiose».

Em suma, a propagação genética sexuada é mais «cara» do que a assexuada; o sexo, em termos biológicos, é um «artigo de luxo»! Qual é então a razão para que se invistam tantos recursos neste artigo de luxo?

Maynard-Smith argumentou que o sexo só poderia ter evoluído se um benefício misterioso contrabalançasse o grande custo da meiose. A proposta revolucionária de Hamilton em 1980 para o aparente paradoxo é um corolário da teoria da evolução a que se chamou a hipótese da Rainha Vermelha, denominação inspirada no livro de Lewis Carrol, «Through the Looking Glass», no qual a Rainha Vermelha diz: «Now here, you see, it takes all the running you can do to keep in the same place».

Um meio ambiente em permanente mudança, especialmente no que diz respeito a parasitas (bactérias, vírus, etc., que se reproduzem assexuadamente), é a base desta hipótese de Hamilton sobre a origem e a manutenção do sexo. Os omnipresentes parasitas têm virulência específica, afectando apenas determinados genótipos dos hospedeiros. O tempo de vida dos parasitas é muito mais curto que o dos hospedeiros, ou seja, milhões de gerações dos primeiros sucedem-se durante a vida de um hospedeiro. As incontáveis gerações de parasitas, para os quais a principal fonte de variabilidade é a mutação, traduzem-se em taxas de evolução muito maiores, deixando como única saída para os hospedeiros mais longevos a reprodução sexuada e a produção de filhos diferenciados geneticamente e eventualmente resistentes aos parasitas.

Segundo Hamilton, uma «corrida às armas da adaptabilidade genética» entre hospedeiros e parasitas ocorre desde que a vida surgiu na Terra. Os parasitas estão sempre a furar as barreiras defensivas do genótipo dos hospedeiros, enquanto estes, com a ajuda do sexo, criam continuamente novas defesas. Na ausência do sexo, os hospedeiros permaneceriam geneticamente inalteráveis e seriam exterminados quando os parasitas conseguissem derrotar o sistema imunológico dos hospedeiros.

Hamilton desenvolveu uma visão parasítica do mundo que explica até a evolução de características sexuais secundárias como as cores brilhantes de alguns pássaros: propaganda genética. De facto, as fêmeas são muito exigentes na escolha dos machos com que acasalam e procuram garantias que o macho escolhido tenha «bons genes» contra parasitas. Para isso é necessário que os machos as convençam da excelência dos seus genes. Para evitar «gabarolices», isto é, publicidade enganosa, as provas da boa qualidade genética são muito dispendiosas em energia: apenas indivíduos com bons genes as conseguem exibir.

Os parasitas acompanharam Hamilton até ao fim da sua vida. Em 2000, numa expedição ao Congo, Hamilton contraiu malária tendo morrido pouco depois.

sábado, 24 de março de 2007

Ciência e erro

Um dos aspectos que provoca por vezes confusão na compreensão da natureza da ciência é o facto de os cientistas errarem. É uma tentação argumentar que, dado que os cientistas se enganam e defendem por vezes teorias incompatíveis entre si, a ciência está afinal ao mesmo nível da bruxaria ou de qualquer outra manifestação cultural, nomeadamente religiosa. É apenas um método de descobrir verdades, entre outros — nem melhor, nem pior.

O tipo de erro aqui em causa é profundo e está origem de muitas ideias insustentáveis. É uma pena que não se estude com mais atenção John Stuart Mill, que no seu Sobre a Liberdade (1859), um livro pleno de sabedoria e sofisticação epistemológica, declara: “As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.”

A ciência nasceu precisamente desta convicção profunda: que somos falíveis e que por isso as mitologias, as afirmações dogmaticamente estabelecidas, incluindo as religiosas, nos afastam da verdade porque procuram impedir o livre fluxo de discussão e análise crítica. A ciência não é um método infalível de descobrir verdades. É melhor do que a leitura intensa de livros sagrados, por exemplo, e melhor do que as visões que temos quando jejuamos no alto de uma montanha; mas não é infalível. Ora, é um erro pensar que só devemos confiar num método se for infalível. Isto é um erro porque se não tivermos métodos infalíveis temos de nos contentar com os melhores dos falíveis.

Esta estratégia tem outra vantagem. Dado que não temos a ilusão de pensar que os nossos métodos são infalíveis, criamos mecanismos de controlo de erros. O mais importante desses mecanismos é cada cientista ou cada filósofo submeter as suas teorias à análise crítica aberta e frontal dos seus pares. Compare-se isto com a atitude religiosa, em que as afirmações dos livros sagrados e dos dirigentes religiosos são tidas como vinculativas e a discordância punida com a excomunhão (ou com a morte).

Em conclusão, e ao contrário do que por vezes se pensa, é precisamente porque na ciência se erra que as suas afirmações merecem mais confiança do que as das tradições sapienciais ou religiosas, que se outorgam falsamente a propriedade sobre-humana da infalibilidade.

sexta-feira, 23 de março de 2007

Prémio "E não se pode votar por SMS"?


Do jornal electrónico Ciência hoje, a 21 de Março, ainda sobre o colóquio na FCUL:

"Darwinismo e criacionismo: faites vos jeux!". Como título não está nada mal. Pelos vistos, estes senhores acham que as questões científicas se decidem por aposta, por voto, por sorteio, ou por penalties. Mas não com a Razão. Quando perguntavam a Sagan se ele achava que havia ou não vida extraterrestre, ele respondia que honestamente não sabia. Um dia houve um jornalista mais atrevido que lhe perguntou: "Mas qual é o seu gut feeling?", ao que Sagan respondeu genialmente, "I try not to do my thinking with my gut".

Mas o Ciência (?) Hoje prossegue, na primeira linha da noticia: "“Darwinismo versus Criacionismo» parece ser um tema da moda em Ciência". Desculpe? EM CIÊNCIA? Repararam bem nesta frase? Até pode ser um tema da moda, mas a questão é precisamente que o Criacionismo pretende fazer-se passar por Ciência, coisa que não é. Não é preciso ser cientista para perceber isto. Mas se se pretende ser jornalista de ciência, convém compreendê-lo.

Se querem fazer um jornal sobre Ciência, mesmo online, talvez fosse útil que soubessem primeiro o que é a Ciência e como funciona.

Enfim, podia ser pior: para além das apostas, podiam ter aberto uma linha para o público poder votar por SMS. E ganhar uma fantástica torradeira, sei lá.

O PORTO E A TÍSICA


O que têm em comum (por ordem alfabética, estando entre parêntesis a respectiva idade quando morreram): Lorde Byron (36 anos), Frédéric Chopin (39 anos), Bento Espinosa (45 anos), Franz Kafka (41 anos), John Keats (26 anos), D. H. Lawrence (45 anos), George Orwell (47 anos), Edgar Allan Poe (40 anos) e Anton Tchekov (44 anos)?

São todos eles nomes das artes e das letras, mas não só. Estará o leitor confuso? Então acrescentemos uma lista de nomes portugueses, todos eles ainda da área das artes e das letras: António Aleixo (50 anos), Júlio Dinis (42 anos), António Nobre (33 anos), António Soares dos Passos (34 anos) e Cesário Verde (31 anos)?

Não, não é apenas a data da morte, que em todos esses casos ocorreu precocemente. É a causa da morte, que foi a mesma em todos eles: a doença que o povo chamava tísica e a que a ciência deu o nome de tuberculose. A tuberculose, causada pela terrível bactéria que dá pelo nome de Mycobacterium tuberculosis (ou bacilo de Koch) foi uma das enfermidades mais letais para as artes e para as letras. Paradoxalmente, como se pode avaliar pelas obras dos autores listados, marcadas em grande medida pela fatalidade, e ainda por obras como “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann (que descreve a estada de Hans Castorp num sanatório suíço para tratar a tísica, uma história inspirada pela doença da mulher do escritor), ou a “A Dama das Camélias” de Alexandre Dumas (baseado num facto real e mais tarde adaptado a ópera por Giuseppe Verdi: no final de “La Traviata”, a jovem Violeta esvai-se, completamente tísica), que teria sido das artes e das letras sem essa doença? Também em “Crime e Castigo”, Fedor Dostoievski conta uma morte por tuberculose inspirado provavelmente na morte similar da sua mulher. E até o famoso quadro “O Grito” de Edvard Munch pode ter sido influenciado pela morte, por tuberculose, da mãe e da irmã do artista.

Também a ciência sofreu com a tuberculose. Dois dos maiores matemáticos de todos os tempos: Niels Hendrik Abel (26 anos) e Georg Bernhard Riemann (39 anos) morreram de tuberculose. O mesmo sucedeu, embora em idades bem mais avançadas, com Julius Mayer (64 anos), um físico tísico que foi um dos criadores da termodinâmica, e com Erwin Schroedinger (73 anos), um dos criadores da teoria quântica. Um outro físico quântico, Richard Feynman, escreveu cartas comoventes à sua primeira mulher, Arline, quando ela estava a morrer de tuberculose e ele trabalhava no projecto Manhattan, em Los Alamos, de construção da bomba atómica.

Em Portugal, a doença conheceu particular incidência na cidade do Porto. Em 1899 o médico portuense Ricardo Jorge chamava-lhe “a sua cidade cemiterial”. E ainda hoje o Porto é uma cidade com uma taxa de casos de tuberculose que ultrapassa largamente a média nacional (infelizmente, Portugal também neste índice ocupa um lugar na cauda da Europa). A doença espalhou-se devido às más condições sanitárias, em particular as que existiam nas chamadas “ilhas” do Porto, que no século XIX e ainda no século XX tinham condições de promiscuidade inimagináveis. Eram verdadeiros “pastos” para a bactéria!

Não admira por isso que um médico pneumologista do Porto, António Ramalho de Almeida, tenha escrito um livro intitulado “O Porto e a tuberculose” e subintitulado “História de 100 anos de luta”. Ele conhece bem o problema por dentro, uma vez que trabalhou mais de 30 anos no Sanatório de D. Manuel II depois de se ter licenciado em Medicina na Universidade do Porto. O livro descreve a vida e a morte na cidade do Porto ao longo dos dois últimos séculos. Começa por falar do Cerco do Porto e de D. Pedro IV, um dos tísicos mais célebres. Porque vem a talhe de foice, acrescente-se, que Salazar, embora não tenha morrido da doença, foi outro tuberculoso célebre, tendo chegado a ser tratado no Caramulo (hoje, no Museu do Caramulo, pode ser visto um retrato dele na serra, da autoria de Eduardo Malta). Esse facto, que não foi muito divulgado, levou Winston Churchill a definir Portugal de uma maneira muito violenta, que só encontra eco no modo como Lord Byron nos tratou (“Com tal gente, / Ó Natureza! Por que desperdiçaste os favores?”):

“É um país de tuberculosos governado por um tuberculoso”.

O livro fala depois do Porto de Júlio Dinis, que apesar de médico doente não escreveu muito sobre a sua doença. Já o mesmo não se passou com António Nobre, também natural do Porto e o autor de “Só”, o livro mais triste que jamais houve em Portugal. São dele e desse livro os versos muito tristes (poema “Canto do Lume”):

“Mês de Novembro! Mês dos tísicos! Suando,
Quantos, a esta hora, não se estorcem a morrer!
Vê-se os padres as mãos, contentes, esfregando...
Mês em que a cera dá mais e a botica, e quando
Os carpinteiros têm mais obra p’ra fazer”.

E também são tristíssimos os versos do poema “Pobre tísica”, que começa assim;

“Quando ela passa à minha porta
Magra, lívida, quase morta,
E vai até à beira mar,
Lábios brancos, olhos pisados:
Meu coração dobra a finados,
Meu coração põe-se a chorar”.

A obra do Dr. António Almeida trata principalmente da longa luta travada contra a tuberculose no Porto, que incluiu, depois da chamada da atenção para a insalubridade nas “ilhas” do Porto por Ricardo Jorge em 1899, a criação pela Rainha D. Amélia nesse mesmo ano da Liga Nacional contra a tuberculose. Essa luta incluiu a angariação de fundos, como a venda do selo anti-tuberculoso, e a construção do Dispensário do Porto, da Colónia Sanatorial Marítima da Foz do Douro e do Sanatório Marítimo do Norte, na praia de Francelos (tal como os ares da montanha, os ares marítimos faziam bem à doença e houve quem fosse tratar-se para a Foz do Douro, assim como houve quem fosse – muitos deles nomes famosos – para a ilha da Madeira). O livro fala de outros sanatórios nortenhos como o de Montalto, no cimo da serra de Valongo, e o já referido Sanatório de D. Manuel II, que foi construído em 1933 no cimo do Monte da Virgem.

A tuberculose foi muito reduzida, em todo o mundo e também no Porto, com a descoberta da bactéria em 1882 pelo alemão Robert Koch (Prémio Nobel da Medicina em 1905). O primeiro sucesso de vacinação anti-tuberculose deveu-se aos franceses Albert Calmette e Camille Guerin em 1906. Foi a vacina BCG (Bacilo de Calmette e Guerin), usada pela primeira vez em seres humanos em 1921 (quem não se lembra dessa vacina no tempo da escola?). Mas só em 1946, com a preparação do antibiótico estreptomicina, o tratamento da doença se tornou possível. O norte-americano de origem russa Selman Waksman foi o autor da proeza, que lhe valeu o Prémio Nobel da Medicina de 1952.

No entanto, a luta com a doença está longe de estar terminada. A SIDA veio modernamente fazer recrudescer o velho mal. A tal ponto que o Dr. António Almeida termina o seu livro com um grito de revolta:

“Enquanto durar este tipo de mentalidade, enquanto as pessoas não forem informadas com verdade do poder da tuberculose, enquanto nas Universidades não se ensinar devidamente a realidade da tuberculose nas suas múltiplas facetas clínicas, enquanto a comunicação social não fizer uma campanha exigente, consertada e continuada no tempo, e enquanto a tuberculose não der votos, ou por outra, não sensibilizar os políticos, o Porto será a cidade portuguesa com maior número de casos de tuberculose, apesar de tudo o que atrás foi dito com verdade, com história e com alguma glória. Sinceramente não somos merecedores daqueles antepassados que tudo fizeram para que o mal não fosse maior”.

Ameaça criacionista na Europa - II

A Liga das Famílias Polacas (Liga Polskich Rodzin ou LPR) é um partido político ultra-nacionalista criado na Polónia por Roman Giertych - que se tinha destacado, pela negativa, por ter reactivado em 1989 a All-Polish Youth - em vésperas das eleições de 2001, em que ganhou 8% dos votos. Nas eleições europeias de 2004 o LPR recolheu 16% dos votos, sendo o 2º partido mais votado nessa eleição. O pai de Roman, Maciej foi eleito eurodeputado. Nas eleições de 2005, o LPR voltou a merecer a escolha de 8% do eleitorado polaco e em 5 de Maio de 2006 este partido passou a integrar a coligação governamental. Roman Giertych foi nessa data nomeado ministro da Educação e vice primeiro ministro.

A nomeação de Roman Giertych como ministro da Educação foi muito contestada na Polónia, e os dias seguintes à sua nomeação viram milhares de polacos nas ruas protestando a sua nomeação. Umas semanas depois, uma petição com cerca de 140 000 assinaturas pedia a sua remoção do cargo, não obstante Giertych ter prometido não introduzir as suas crenças no sistema educacional polaco. Claro que a promessa foi sol de pouca dura e uns escassos meses depois o ministério da Educação polaco iniciou as hostilidades contra o evolucionismo com a afirmação por parte de Miroslaw Orzechowski, vice-ministro da Educação, que o evolucionismo é uma mentira, «uma história de carácter literário que poderia servir de guião a um filme de ficção científica».

A tentativa de introdução do criacionismo nos curricula científicos polacos era apenas expectável já que o pai de Roman, o eurodeputado Maciej Giertych, é um dos mais vocais criacionistas europeus. Maciej, um botânico que contribui para o site humorístico que dá pelo nome Answers in Genesis, debita pérolas como «A evolução não é uma conclusão retirada de observações. É uma ideologia [do Demo]» que urge combater, como explica na introdução do livro «Creation Rediscovered», de Gerard J. Keane, «para salvar o cristianismo».

Em 11 de Outubro de 2006, o Parlamento Europeu foi palco de uma acontecimento insólito, um seminário público em defesa e promoção do criacionismo organizado por Maciej, que pede a remoção do evolucionismo dos livros de texto europeus. Uns dias depois, o Kolbe Center for the Study of Creation, William Demski, um dos pais da IDiotia, e o grupo criacionista britânico Truth in Science, entre outros, publicitaram com grandes alardes triunfalistas o evento.

Maciej Giertych, que acredita piamente não só que o Neanderthal anda no meio de nós como terem os dinossauros e o homem coexistido, aproveitou a publicidade grátis de um evento aparentemente patrocinado pelo Parlamento Europeu para escrever uma carta à Nature (Creationism, evolution: nothing has been proved Nature 444, 265; 2006), que não obstante ter sido imediatamente contestada, deu mais publicidade à guerra criacionista.

A guerra criacionista está igualmente acesa em Inglaterra, em que uma restruturação do curriculum de biologia, pela então ministra da Educação Ruth Kelly, encoraja as escolas a apresentar versões alternativas à evolução para, falsamente, indicar aos alunos que há controvérsia «científica» sobre o tema.

Na altura, a alteração curricular mereceu as críticas da OCR e de muitos cientistas, por exemplo James Williams, da Universidade de Sussex, que afirmou o que todos notaram: «Isto abre uma porta legítima para a inclusão do criacionismo ou do desenho inteligente nas aulas de ciências como se fossem teorias legítimas a par do facto da evolução e das teorias [que a explicam]». Continuando, «Acho bem que teorias religiosas [criacionismo e desenho inteligente] sejam consideradas em educação religiosa mas não em ciência, onde considerá-las pode conduzir a uma falsa confirmação do seu estatuto como iguais a teorias científicas». Tony Blair respondeu às preocupações dos cientistas dizendo que estes deviam ocupar-se com temas mais importantes, como sejam o aquecimento global ou organismos geneticamente modificados, e não com o «inocente» criacionismo...

Também a ministra holandesa da Educação, Cultura e Ciência, Maria Van der Hoeven, tentou em 2005 introduzir o criacionismo versão desenho inteligente nos curricula escolares. Felizmente os seus colegas de partido rejeitaram completamente a ideia!

Silvio Berlusconi, mais concretamente a sua ministra da Educação, Letizia Moratti, retirou o evolucionismo dos curricula escolares e só cedeu à sua reintrodução após uma semana de protestos massivos. Na Sérvia, sob os auspícios da ministra da Educação Ljiljana Colic, o ensino da evolução esteve suspenso por uma semana por uma determinação ministerial que apenas o permitia se em paralelo fosse ensinado o criacionismo.

Espero ter convencido os mais cépticos que o criacionismo, em qualquer das suas versões, não é uma aberração norte-americana.

Ameaça criacionista na Europa - I


Alguns dos nossos leitores consideram que o criacionismo é um disparate anacrónico tão óbvio que afirmam ser completamente desnecessário sequer desmontar os erros absurdos em que assenta.

Na realidade, o criacionismo é uma ameaça não despicienda mesmo na secular Europa, como foi reconhecido nas páginas da Nature (link reservado a assinantes) em Novembro de 2006, num artigo que traça o quadro negro do criacionismo na Europa e alerta para a necessidade da comunidade científica se empenhar na luta contra o movimento anti-evolucionista.

Talvez como resultado deste alerta, a segunda maior editora científica do mundo, a Springer, anunciou que em 2008 verá a luz do prelo uma nova revista, Outreach and Education in Evolution, cujo objectivo é «ajudar os professores de ciência a lutar contra a forte pressão que os criacionistas exercem na educação pública».

Para contrariar esta pressão crescente foi ainda criado um Think Thank associado ao The Center for Inquiry-Transnational, para promover o uso da razão. O anúncio da sua criação, acompanhado de uma declaração em defesa da ciência e da laicidade, expressa as preocupações de vários cientistas sobre o ataque cerrado à ciência por parte de fundamentalistas em posições públicas de relevo, na política norte-americana em especial.

O tema religião e ciência foi igualmente analisado em Novembro de 2006 (com uma 2ª edição já agendada) numa conferência no Salk Institute for Biological Studies em La Jolla (San Diego), Califórnia, por um grupo notável que reuniu filósofos e cientistas entre os quais Ann Druyan, a esposa de Carl Sagan, e vários prémios Nobel. Um dos pontos da conferência, expresso por Steven Weinberg entre outros, é a necessidade da comunidade científica se empenhar na divulgação de ciência e no esclarecimento dos criacionismos obscurantistas.

Se mesmo assim esses leitores continuarem cépticos em relação a esta necessidade de desmistificação das inanidades debitadas pelos vários flavours do criacionismo, talvez uma revista rápida dos ataques ao evolucionismo, isto é, à ciência, perpretados em solo europeu os convença.

quinta-feira, 22 de março de 2007

A teoria errada de Darwin


O que distingue a ciência de outras formas de conhecimento e de descrição da natureza é o teste dessas ideias através da observação controlada ou da experimentação. Alguns ataques dirigidos por sectores criacionistas, mas não só à teoria da evolução e ao darwinismo passam por considerar que os cientistas, seus defensores, são tão dogmáticos quanto os seus detractores. Tal não é verdade.

As teorias científicas têm uma vida mais ou menos longa conforme constituem melhores ou piores explicações da realidade de que fazemos parte. Darwin formulou uma teoria errada que acabou por ser posta de lado e abandonada pela ciência: a teoria de hereditariedade que designou por Pangénese.

O autor da ‘Origem das Espécies’ necessitava que as características dos organismos fossem herdáveis para que pudessem ser seleccionadas pela selecção natural e mantidas nos organismos. Como afirma na ‘Origem’, “Any variation which is not inherited is unimportant for us”. Contudo, a realidade é de uma enorme complexidade. Há organismos, como as planárias ou grande parte das plantas, que se conseguem formar a partir de uma pequena parte de tecido. Na época não havia uma teoria da informação e não era fácil imaginar como se poderia manter a informação necessária para produzir um organismo em cada parte, em cada órgão, em cada célula. A revolução molecular estava a um século de distância.

Assim, Darwin formulou uma teoria, da pangénese, herdeira de uma tradição com dois mil anos - já que Aristóteles teria formulado algo semelhante - que considerava a formação de pequenas unidades ou gémulas em todas as partes do organismo, ao longo da sua vida, que se dispersavam pelo corpo e eram enviadas também para os órgãos reprodutores. Animais com falta de membros poderiam ser explicados pela falta de algumas dessas gémulas nos tecidos reprodutivos. Imerso numa quantidade impressionante de exemplos complexos e difíceis de explicar à época, misturando genética, embriologia, com fisiologia (o facto de certas fêmeas de aves, quando castradas desenvolverem características masculinas, entrava na categoria das regressões de características hereditárias), Darwin não conseguiu encontrar uma explicação acertada para essa variação.

Darwin não foi tão ousado para a considerar uma teoria e chamou-lhe a sua hipótese na obra “Variation of animals and Plants under domestication” (1868). Esta teoria da hereditariedade veio a revelar-se errada. A teoria correcta foi formulada por Mendel, na mesma altura (1866), embora Darwin não tenha tido conhecimento dela.

A teoria da pangénese foi abandonada porque não era uma boa explicação da realidade. A teoria de Mendel é aceite porque explica bem essa realidade. Milhares de experiências realizadas suportam-na, são concordantes com as previsões da teoria. A teoria da selecção natural goza do mesmo estatuto: tem sido sucessivamente comprovada pelos factos e pelas experiências. Se quisermos um exemplo bem dramático e actual podemos lembrar a evolução do vírus da SIDA!

O que determina se uma teoria é científica ou não é se ela pode ser testada. Quantas ideias não aguentam um simples teste?

O valor do ensino

Ensinar serve para quê? Sem uma resposta clara a esta pergunta básica, qualquer política educativa andará à deriva. É o que hoje se verifica, sendo praticamente omnipresente, nos documentos do ministério da educação, a desorientação dos seus autores. Veja-se, por exemplo, o que se pode ler no Programa de Matemática Aplicada às Ciências Sociais:

“(...) pretende-se que os estudantes tenham experiências matemáticas significativas que lhes permitam saber apreciar devidamente a importância das abordagens matemáticas nas suas futuras actividades. (...) também se tem em vista propósitos de Educação para a cidadania e o papel importante assumido pela Escola, para esse fim. (...) o objectivo aqui vai ser o de introduzir e desenvolver alguns conceitos matemáticos através de problemas da vida real, mais numa perspectiva de formação cultural do que de formação estritamente técnica.”

É nítido que não se entende a matemática como valor em si, nem como algo que pertença “à vida real”. Presumo que Einstein nunca teve uma “vida real”, só têm vida real os protagonistas de telenovelas — mas as telenovelas não são a vida real, são ficções. Neste documento só se reconhece valor instrumental à matemática: quer para um emprego futuro quer para formar para a cidadania.

Este é um dos problemas fundamentais dos técnicos ministeriais, e dos próprios políticos do sector: desconhecem o valor intrínseco do conhecimento. A matemática, a música, a filosofia, a história, a física, não têm outra justificação excepto o emprego futuro ou a formação para a cidadania. Esta concepção instrumentalista de escola é um dos factores responsáveis pela desvalorização da escola junto dos estudantes e da opinião pública. Ao fugir do seu papel real (ensinar conteúdos com valor intrínseco) a escola chama a si competências que não tem, não pode ter e é até perigoso que tenha — como é o caso da educação para a cidadania, que nas mãos do ministério se transforma inevitavelmente em doutrinação ao pior estilo do Admirável Mundo Novo, de Huxley.

Não se trata de negar que a matemática e as outras disciplinas têm valor instrumental. Sem dúvida que têm. Mas sem uma noção clara do seu valor intrínseco a escola não consegue cumprir o seu papel porque, ironicamente, o valor instrumental da matemática e das outras disciplinas resulta do seu valor intrínseco. Sacrificar conteúdos cognitivamente importantes porque não têm relevância para o emprego nem para a formação da cidadania tem o efeito perverso e irónico de não dar aos estudantes uma preparação sólida em matemática nem nas outras disciplinas — o que tem como resultado a sua falta de preparação para o mundo do trabalho e para a participação na vida pública. A concepção instrumentalista do conhecimento, veiculada pelos técnicos e responsáveis políticos do ministério da educação, é precisamente o que torna a escola irrelevante para o mercado de trabalho e para a formação de cidadãos críticos, participativos e informados. E é este resultado que, por sua vez, desprestigia a escola, que é vista por pais e estudantes como irrelevante e pouco séria.

A ideia de que o ensino de uma determinada disciplina, ou até a sua presença no desenho curricular, deve estar subordinada a fins extrínsecos desorienta o ensino. Só uma noção clara do valor intrínseco das disciplinas pode devolver à escola o seu papel social próprio — pôr os estudantes em contacto com os aspectos centrais das disciplinas fundamentais, incluindo as científicas, humanísticas e artísticas. Os professores (e escolas) que usam esta estratégia, ao arrepio das recomendações do ministério da educação, são precisamente os mais respeitados por pais e estudantes.

Mais pedradas no charco


Para além do Murchy e restantes meteoritos, existem outras evidências de que a síntese abiótica de moléculas orgânicas é possível, aliás parece ser bastante comum no Universo.

Em Outubro de 2005 a NASA revelou a existência no espaço de compostos orgânicos que desempenham um papel crucial na química da vida. De acordo com um artigo científico publicado na revista Astrophysical Journal apresentando o trabalho da equipa liderada por Douglas Hudgins, do centro de investigação Ames da NASA, estes compostos são «prevalecentes através do Universo». Afirmação que é suportada pela investigação efectuada com recurso ao telescópio espacial Spitzer da NASA, que mostrou que «moléculas complexas orgânicas chamadas hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAH's) se encontram em cada canto e recanto da nossa galáxia»

Embora estes PAH's de per se não sejam muito atractivos para os astrobiólogos, a descoberta de Hudgins de que no espaço a maioria destes compostos incorpora azoto na sua estrutura alterou tudo. Porque, como relembrou um dos membros da equipa, «A clorofila, o composto que permite a fotossíntese em plantas, é um bom exemplo desta classe de compostos, chamados heterociclos policíclicos aromáticos de azoto (PANH's). Ironicamente os PANHs são formados abundantemente em torno de estrelas moribundas. Assim, mesmo na morte, as sementes da vida são semeadas».

Uns meses depois, em Dezembro de 2005, mais precursores das moléculas da vida foram detectados pelo Spitzer, desta vez perto de uma estrela muito jovem. Investigadores holandeses descobriram moléculas orgâncias simples, precursoras do ADN, num disco protoplanetário que rodeia a estrela IRS 46, a 375 anos-luz da Terra na constelação Ofíuco. De acordo com o Jet Propulsion Laboratory da NASA, estes compostos foram detectados numa região onde os cientistas acreditam que surgirão planetas de natureza rochosa, semelhantes à Terra. Segundo Fred Lahuis, do Observatório Leinde, na Holanda, «este sistema poderá ter uma aparência semelhante à do nosso planeta há milhares de milhões de anos, muito antes de a vida aparecer».

Pedradas no charco

Um dos argumentos dos criacionistas (e dos neo-criacionistas ou IDiotas) contra a evolução reside no que eles chamam a impossibilidade da abiogénese, ou seja, a formação da primeira molécula com capacidade de auto-replicação a partir de material não biológico. Na realidade a objecção é falaciosa uma vez que o evolucionismo é independente de qualquer hipótese abiogénica, ou seja, apenas explica a evolução das espécies a partir de ancestrais comuns sem propor qualquer teoria sobre como esses ancestrais surgiram.

Mas a abiogénese pode ser explicada, independentemente da teoria da evolução, apenas com base na química dos elementos, especialmente os constituintes dos compostos orgânicos, e na química destes compostos orgânicos, nomeadamente na sua capacidade de auto-organização (self-assembly) que consiste na formação (espontânea) de estruturas complexas a partir de componentes simples. Um exemplo de uma estrutura destas, que permite a realização de tarefas que os componentes isolados são incapazes de promover, é a membrana celular cuja formação é mimetizada facil e regularmente em laboratórios de todo o mundo.

Os detergentes são um exemplo mais banal de auto-organização de moléculas relativamente simples. Os detergentes, ou moléculas anfifílicas, para além de baixarem a tensão superficial da água - aumentam a molhabilidade da água, fácil de confirmar deixando cair uma gota de água em cima da bancada, deixar cair ao lado uma gota de água com detergente e confirmar que esta última se espalha mais - formam aglomerados auto-organizados de forma globular, as micelas, que dissolvem todo o «lixo» orgânico não solúvel em água (gorduras, etc.).

Claro que os criacionistas, que lêem todos pela mesma cartilha, citarão um artigo da Science de 3 de Outubro de 1980 (literatura state of the art no que ao criacionismo diz respeito) para afirmar que a síntese de moléculas orgânicas, como aminoácidos ou os fosfolípidos constituintes das membranas, de forma não «desenhada» é impossível.

O referido artigo constesta as premissas em relação à composição da atmosfera primordial usada na experiência de Urey-Miller, concebida para testar a hipótese de Oparin e Haldane sobre a origem da vida. Miller produziu grandes quantidades de aminoácidos (entre outras moléculas orgânicas) por descargas eléctricas através de uma mistura gasosa rica em metano, CH4 e amónia, NH3.

Não só as hipóteses de biopoeise (do grego bio, vida, + poiéo, produzir, fazer, criar) não pararam nos anos 50 do século passado como existem provas «extraterrestres» de síntese abiótica destes compostos, algumas de dimensões que as tornam difíceis de ignorar.

De facto, os 100kg do meterorito Murchison, que caiu perto da localidade homónima na Austrália em 1969, tornam-no complicado de passar despercebido. Para além disso, a sua análise e a discussão do que esse análise revelou produziu uma massa de artigos científicos que rivaliza em envergadura com o Murchy.

A análise do meterorito revelou que este apresentava aminoácidos comuns como a glicina, alanina e ácido glutâmico mas também aminoácidos menos comuns como isovalina e pseudoleucina. O relatório inicial indicava que as duas formas destes aminoácidos - alguns aminoácidos apresentam dois isómeros ópticos, como um objecto e a sua imagem no espelho, designados por L e D - estavam presentes em quantidades iguais (uma mistura racémica) mas análises posteriores revelaram que a forma L ou levógira se encontrava em excesso.

As proteínas que nos constituem são cadeias mais ou menos longas, dependendo da proteína, de aminoácidos. Na esmagadora maioria dos organismos são apenas incorporados os isómeros L, embora alguns caracóis do mar incorporem isómeros D, igualmente abundantes na parede celular de bactérias.

Mas as surpresas do Murchy não ficaram por aí. Detectou-se ainda a presença de uma mistura complexa de hidrocarbonetos (semelhante à encontrada na experiência de Miller-Urey) e verificou-se que essa mistura complexa de hidrocarbonetos dava origem a vesículos em água, estruturas auto organizadas que funcionam como as membranas celulares!

Como notou Dave Deamer da UCSC «Toda a vida hoje em dia é celular, e as células são definidas por membranas que separam o citoplasma do mundo exterior. Quando a vida começou, em algum ponto tornou-se compartimentada na forma de células. Mas de onde vieram as primeiras membranas celulares? Talvez fossem compostas de moléculas similares às que descobrimos em meteoritos».

quarta-feira, 21 de março de 2007

Para que serve a poesia?

Neste dia, 21 de Março, dá-se por terminado o Inverno e inaugura-se a Primavera. É um dia de simbologias várias que remetem para promessas de renascimento. É também o dia mundial da poesia. Esta justaposição pode sugerir que a poesia está em renascimento ou, melhor, em constante renascimento. Contudo, esta sugestão não convive bem com uma pergunta que se insinua por aí: para que serve a poesia?

Estranha pergunta esta! Mas mais estranho é ter passado a ser corrente e haver sempre alguém disposto a ensaiar uma resposta. Mais estranho, ainda, é emergir dentro da Escola e, com toda a naturalidade, aí se ter instalado. E, muitíssimo mais estranho é ter deixado de soar estranha.

Sem sobressaltos intelectuais, aceita-se a lógica do “saber em acção ou em uso”, da “mobilização de competências no quotidiano”, que se tem fixado nos sistemas educativos ocidentais na transição do século XX para o XXI. Sob o pretexto de democratização, de igualitarismo social, pretende-se preparar os alunos para resolverem problemas concretos do dia-a-dia com significado na sua vivência e para a sua vivência. Nesta lógica utilitarista e imediatista, temos de admiti-lo, a poesia não serve para nada! Coerentemente, seria de esperar que se esfumasse dos currículos. Mas, não é bem assim: é quase pior!

Se deitarmos um olhar atento para o currículo nacional, programas e manuais do primeiro ciclo do ensino básico, ciclo absolutamente fundamental em termos de aquisição e consolidação de aprendizagens essenciais, percebemos várias coisas muito interessantes e… preocupantes.

Percebemos que a poesia ocupa, nesses documentos, um lugar obscuro, porque disperso entre várias outras intenções educativas, e residual, porque é preciso algum esforço de observação para se perceber que está lá.

Percebemos que a poesia caiu nas estranhas malhas do relativismo cultural. Nos manuais, em particular, os textos de escritores com estatura universal, rareiam porque remetem, alega-se, para uma educação elitista, e quando estão presentes são postos ao mesmo nível de escritores de dotes literários mais do que duvidosos. Manuais de Língua Portuguesa há, que só têm ou têm essencialmente “poesia” do próprio autor do manual, que (felizmente) ninguém sabe quem é.

Percebemos que a poesia é usada como estratégia pretensamente pedagógica, à maneira de receita, destinada a resolver os males do mundo: para sensibilizar as crianças para o multiculturalismo, explora-se um certo poema; para as sensibilizar para questões de género, aquele outro; para se tornarem defensores do ambiente ou da paz, não podem deixar de ler e dramatizar os que são recomendados; para adquirem hábitos de alimentação saudável, há um que, certamente, resulta; e assim por diante…

Percebemos que a poesia tem dias marcados e há poesia marcada para vários dia: uma para comemorar o dia do pai e, claro, outra para comemorar o dia da mãe e outra, ainda, para comemorar o dia dos avós, essa invenção mais recente; duas ou três para celebrar o Natal, como convém, por ser época festiva alargada; uma para assinalar o dia da árvore; outra para afirmar o dia da mulher e mais outra para sublinhar o dia da criança; várias para festejar o dos namorados, porque para esse dia há muitas.

Percebemos que a poesia deve “respeitar o vocabulário que as crianças trazem de casa”. Assim, se não for simplista, adapta-se: extraem-se cirurgicamente as palavras que se supõe que os alunos nunca escutaram antes, que não se usam no seu contexto de origem, pois o confronto com uma palavra menos comum, além de ser uma afronta à sua condição, desinteressa-os. Nessa adaptação também é comum reduzir-se a poesia em tamanho, porque, como se vai dizendo, o tempo de atenção e de esforço que os alunos conseguem dirigir para um texto é cada vez mais reduzido e facilmente se desmotivam quando confrontados com mais do que meia dúzia de linhas.

Percebemos que a poesia é decorativa e ilustrativa, ganhando muitas vezes o carácter de recompensa: nos manuais aparece com frequência no fim de cada lição, de cada tema, uma quadra, uma lengalenga, um trava-línguas para rematar o assunto. Não, parece ali caber qualquer orientação, deixando-se o texto desamparado, entregue apenas e só à criança. Mas, também acontece exactamente o contrário: ser a poesia acompanhada de explicações do sentido, de questionários interpretativos, roubando-se-lhe o prazer da leitura e sufocando ou condicionando a sua imaginação.

Ora bem, ainda que ninguém saiba como se leva alguém a amar a poesia, sabe-se que há caminhos que não se devem percorrer e, estranhamente, é nalguns desses caminhos que andamos a insistir. Nada melhor do que um poeta para nos fazer ver isso:

Ver claro

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade in "Os Sulcos da Sede"

JOAQUIM BARBOSA, DE BEJA



(Minha última crónica do "Sol")

Subir mais alto, para ficar mais perto das estrelas, sempre foi o sonho do homem. Do homem género humano, mas também do português comum como Joaquim Barbosa, de Beja. Sabemos, pelo anúncio televisivo, que este último conseguiu!

A proeza foi possibilitada por duas circunstâncias. Uma foi o alargamento das viagens espaciais, o chamado “turismo espacial”. Desde 2001 que se pode pagar um bilhete para subir mais alto. A excursão ainda não é para todos, só para quem tem posses. Mas quem pode pode: têm subido para o espaço pessoas como o gestor de investimentos Dennis Tito (dos EUA), o empresário de informática Mark Shuttleworth (da África do Sul), o empresário de electrónica Greg Olsen (dos EUA) e a empresária de telecomunicações Anousheh Ansari (do Irão). Pagaram cada um mais de 20 milhões de dólares pelo seu passeio na Estação Espacial Internacional, com uma ajuda dos russos para o transporte. É bem possível que surjam qualquer dia ofertas de voos suborbitais “low cost”. Nessa altura pessoas sem grandes posses como eu e o leitor poderão também voar alto.

Mas, pelo menos no anúncio, Joaquim Barbosa, de Beja, já voou. Vemo-lo até a acenar aos portugueses (a nós todos) no final do voo. E como é que ele conseguiu? Terá ele criado uma empresa de sucesso na Amareleja, por exemplo de células fotovoltaicas que aproveitam melhor o sol alentejano? Não. Ao contrário do português de Quinhentos que partia para a aventura do Cais de Belém, basta ao português de hoje entrar no quiosque e jogar. Joaquim simplesmente ganhou o Euromilhões. Ele é o português comum, o tal que joga no Euromilhões todas as semanas (somos de entre os povos europeus quem mais joga e, por causa disso, quem mais Jackpots ganha!). É o português comum que confia na sorte mais do que no saber, que confia no acaso mais do que no trabalho. Ele “fia-se na Virgem e não corre”. A Virgem hoje dá pelo nome de Jackpot e há, de facto, milagres estatísticos. Por alguma razão o Euromilhões é, entre nós, administrado pela Santa Casa.

HÁ TESOUROS NO QUIOSQUE 2

Há muitos tesouros no quiosque. Encontram-se, sem procurar muito, autênticas pérolas de ignorância e, por vezes mesmo, idiotia.

Basta abrir o nº 1 da “Revista Espírita. Verdade e Luz”, que acaba de sair entre nós. A redacção está em Algés, mas tem muitos artigos vindos directamente do Brasil. Mas se calhar vêm do além de puros espíritos: a revista pode ser toda ela psicografada (a fonte será o próprio Kardec, o espírita fundador).

O primeiro texto de uma oradora de Algés ilumina-nos tanto que ficamos logo encadeados: “Fala-se muito em mundos superiores, melhores e mais adiantados espiritualmente do que o nosso planeta e esperamos que pela bondade do Pai Celestial possamos alcançar rapidamente essas esferas mais evoluídas.” Esta oradora parece um pouco confusa, mas pelo menos acredita na evolução... Oxalá evolua.

Mais adiante o Prof. Sérgio Filipe de Oliveira, auto-intitulado médico e mestre em Neurociências, disserta sobre a “A Pineal, a Mediunidade e as suas implicações terapêuticas” para concluir: “A medicina e a psicologia deverão desenvolver modelos semiológicos para o diagnóstico exacto dos problemas espirituais que afectam o indivíduo através da sua sensibilidade mediúnica que, sem contrôle e distante da boa sintonia mental (distante do amor e da solidariedade) potencia, não só os disturbios psiquiátricos, mas também os outros problemas clínicos e os reflexos orgânicos.” É caso para um doente perguntar: Senhor Doutor, o Senhor Doutor está bom?

A seguir uma médica ginecologista arenga sobre a eutanásia para concluir (poupemos de novo os preliminares): “Com base na fé raciocinada, o médico espírita [sic] tem a certeza de que a eutanásia é um gesto de insubordinação, de rebeldia, da criatura perante o Criador, e que, a seu devido tempo, responderá por essa rebeldia, assim como por todos os outros envolvidos”. Um médico espírita? Sic é pouco, talvez seja mais adequado tvi (a estação que, depois do "Big Brother", nos dá a "Bela e o Mestre”). Mas é mesmo o que lá está!

O tema de capa é “Tsunami na visão do espiritismo”. Sobre a tragédia natural ocorrida na Indonésia em 2004 escreve um anónimo: “Para essas pessoas [as que perguntam a razão das tragédias colectivas] trata-se de uma coisa inexplicável, porque desconhecem os mecanismos da Justiça Divina, de que a lei de Causa e Efeito (ou de Acção e Reacção) é parte integrante”. Lei de Acção e Reacção? Na Física é outra coisa... Mas vamos à conclusão: “Deus, na sua justiça e perfeição não erra e, no futuro, todos os envolvidos irão recolher os benefícios deste evento”. Deus pode não errar, mas temos de esperar para conhecer os benefícios do evento e ver se o anónimo errou...

Por último a mesma médica ginecologista, de seu nome Marlene Nobre (não falta o Drªa antes) responde à pergunta: “haverá 3ª Guerra Mundial?”. Dispensando de novo os longos entretantos, vamos aos finalmentes: “A Terra viveu o doloroso crepúsculo da civilização ocidental no século XX e começa agora o mergulho na noite profunda, devendo deixar o campo das trevas num tempo não determinado, quando então emergirá para uma nova aurora”. Está claro? Não: só vai ficar claro mais tarde... Vamos ter de esperar de novo, não sabemos é quanto.

Chega? Talvez chegue, mas há mais. O Eng.º Vítor Carvalho discorre sob o título “Sublime Médico das Almas”. Não é preciso ir até ao fim porque o destaque esclarece quem ainda tiver dúvidas: “A doença mais comum de todas as que atingem a humanidade é, sem dúvida, a obsessão (influência de espíritos malignos) que, infelizmente, ainda não é aceite pela ciência médica”. É o engenheiro que se queixa dos médicos: não era melhor ele ir queixar-se ao médico? Mas, não sendo a obsessão aceite, não se pode queixar desse mal de que manifestamente demonstra...

UM ABADE COSMOPOLITA



A 27 de Março pelas 18h30, é lançado na FNAC Colombo, em Lisboa, o livro "Cidadão do Mundo. Uma biografia científica do Abade Correia da Serra", de Ana Simões, Maria Paula Diogo e Ana Carneiro, saído na Porto Editora em 2006. Eis a recente recensão que publiquei no "Primeiro de Janeiro".


Se o leitor for à Casa Monticello, na Virgínia, Estados Unidos, que foi residência do presidente norte-americano Thomas Jefferson (1743-1826), não poderá deixar de visitar um quarto que o dono da casa tinha em permanente reserva para acolher um seu grande amigo português. Chama-se o quarto «Abbé Corrêa’s room», sendo o “Abbé Corrêa” o Abade José Correia da Serra, nascido em Serpa em 1751 e falecido nas Caldas da Rainha em 1823.

Jefferson foi um dos autores da Declaração da Independência dos Estados Unidos e o terceiro presidente americano, depois de George Washington e John Adams. Foi um espírito das luzes, um filósofo e um bibliófilo. No ano de 1812, o Abade português seu amigo, um outro espírito das luzes, chegou a Filadélfia, quando era presidente James Madison, o sucessor de Jefferson e também ele um presidente-filósofo. O clérigo e naturalista português tomou posse, em 1816, do lugar de “ministro plenipotenciário do reino de Portugal, Brasil e Algarves junto do governo americano” (hoje diríamos embaixador). Foi uma missão difícil, em primeiro lugar porque a corte portuguesa no Rio de Janeiro teve de enfrentar uma revolta no Pernambuco que tinha o apoio de alguns americanos e em segundo lugar porque o presidente seguinte, James Monroe, menos filósofo do que os anteriores, já não apreciava a conversa erudita de salão em que o Abade era mestre. Em 1820 por altura da Revolução Liberal e dois anos antes da independência do Brasil o embaixador regressava à sua terra natal.

O recente livro das historiadoras de ciência Ana Simões, Maria Paula Diogo e Ana Carneiro intitulado “Cidadão do Mundo. Uma biografia científica do Abade Correia da Serra”, e saído na colecção “História e Filosofia da Ciência” da Porto Editora, lança luz sobre o notável personagem do iluminismo português e mundial. Fazendo jus ao título do livro, Correia da Serra foi um homem das sete partidas do mundo. Partiu ainda criança do seu Alentejo devido provavelmente a perseguição à sua família por parte da Inquisição (a mãe tinha ascendência judia). Em Itália, além de professar ordens religiosas “estrangeirou-se”, recebendo as influências do “estrangeirado” Luís António Verney. Em 1777, aos 26 anos, regressou a Portugal onde, em 1779, ajudou a fundar a Real Academia de Ciências de Lisboa, da qual o Duque de Lafões foi presidente e ele secretário. Depois, em 1795, viu-se obrigado a partir para Londres por ter dado guarida a um naturalista francês (a Inquisição pode também ter a ver com essa fuga: leia-se a confissão dos seus pecados sexuais que o Abade fez à Mesa do Santo Ofício e que está transcrita na nota de rodapé da página 60). De Londres, perseguido pelo embaixador português, Serra fugiu para Paris, onde teve um filho de uma senhora francesa, que seria durante muito tempo seu sobrinho. Renunciando a obedecer a Napoleão, foi a seguir para os Estados Unidos, onde conheceu o apogeu da sua carreira. Regressado a Portugal, voltou a ser secretário da Academia das Ciências. Depois de estadas mais curtas de novo em Londres e Paris, veio a morrer quase ignorado. Nascido e falecido em Portugal, não foi um homem daqui. Conforme escrevem as autoras na conclusão: “Dos seus 72 anos, apenas 26 foram passados em Portugal.” Foi um abade cosmopolita cuja paróquia foi o mundo e, note-se, o mundo mais desenvolvido.

Assim como a ciência em Portugal está hoje a desenvolver-se, a história da ciência também o está. Este livro, saído da pena de algumas das nossas mais produtivas historiadoras de ciência, surgiu na sequência de dois outros livros das mesmas autoras, publicados na mesma editora em 2003, contendo fontes primárias sobre Correia da Serra: “José Francisco Correia da Serra: Investigações Botânicas” e “José Francisco Correia da Serra: Itinerários histórico-naturais” e quase ao mesmo tempo que o livro “D. João Carlos de Bragança - 2º Duque de Lafões”, de Nuno Monteiro e Fernando Costa, publicado pela Inapa. Surgiu na altura em que foi inaugurado o Museu de Ciência da Universidade de Coimbra, cujo Laboratório Chimico, no Largo Marquês de Pombal, é contemporâneo do Abade. E na altura em que, no Museu de Ciência da Universidade de Lisboa (na Rua da Escola Politécnica, não muito longe da vetusta Academia das Ciências), se efectuou uma discussão pública sobre o património científico português. O interesse pela nossa história da ciência parece que, finalmente, despertou. Já não era sem tempo...

O livro faz uma excelente compilação e análise de tudo o que se escreveu antes sobre o Abade. Oferece uma ampla perspectiva sobre os seus trabalhos nas áreas da botânica e da geologia, concluindo que ele não foi propriamente um autor muito produtivo nem um autor de um grande livro de história natural. Mas foi um bom observador e um autor de algumas comunicações inovadoras. E foi, sobretudo, um intermediário e prosélito da ciência. Cruzou-se com os maiores nomes da ciência da sua época como Sir Joseph Banks (o famoso presidente da Royal Society), Georges Cuvier (um dos fundadores da paleontologia) e Jacon Bigelow (um ilustre botânico que foi professor em Harvard), para só referir três nomes maiores da Inglaterra, da França e da América. Ficou conhecido na América como o “Franklin de Portugal”. Em Portugal conviveu ou correspondeu-se, além do Duque de Lafões, o primeiro Presidente da Academia, com Domingos Vandelli, o italiano que foi o primeiro lente de Química na Universidade de Coimbra na Faculdade de Filosofia fundada por Pombal, e com Félix Avelar Brotero, o lente de Botânica coimbrão que foi um dos cientistas portugueses mais notáveis de sempre (na sala de sessões da Academia das Ciências a sua efígie está a”falar” com a de Camões, representando respectivamente as classes de ciências e de letras).

A estada do Abade na América foi particularmente interessante. Antes de ser diplomata, Serra descreveu algumas das então novas paisagens dos Estados Unidos. Embora não tenha chegado a ser professor, foi consultor, através do seu amigo Thomas Jefferson, da então fundada Universidade da Virgínia. Porém, como diplomata, não teve sorte na época que lhe calhou, um período de conflitos no velho, no novo e entre o velho e o novo mundo... Com Jefferson alimentou a utopia de uma nova civilização nas Américas, que ambos queriam mais avançada do que a europeia. A América do Norte ficaria para os Estados Unidos e a América do Sul para Portugal. Numa carta de Jefferson a Correia da Serra, de 24 de Outubro de 1820, ele fala de um sistema em que “(...) a América se separaria dos sistemas da Europa e estabeleceria o seu próprio sistema. As nossas circunstâncias, objectivos e interesses são distintos. Os princípios das nossas políticas também o devem ser. Todas as confusões com esse quarto do globo devem ser evitadas se quisermos que a paz e a justiça sejam as estrelas polares das sociedades americanas”. É curioso como um padre católico se entendia bem com um unitariano como era o político e intelectual americano. Mas eram os dois membros da Maçonaria (nesse tempo ser padre e maçon era, pelos vistos, compatível)...

O livro retrata Portugal no crepúsculo da época das luzes. Mostra como, de repente, no início do século XIX, passou de um país próspero a um país decadente. De facto, esse século foi bem menos luminoso do que o anterior. A Academia das Ciências entrou em decadência tal como o país no seu conjunto. Quando estava quase a irromper o miguelismo um jornal nacional escrevia sobre a Academia: “Temos ciência e saber demais. Do que se padece é de agricultura, de comérico e de indústria” e “a maior parte dos sábios (...) só dão trapaça e incómodo aos povos”. E em 1823 um político invectivava na praça pública as ciências: “que ciências são estas com que tanto se gasta?”. Eduardo, o filho do Abade (de início ilegítimo, mas depois ainda que a custo legitimado), depois da sua longa estada no estrangeiro com o pai, descrevia assim a cidade de Lisboa que encontrou: tem um “palácio da rainha da imundície” e é um “antro de ignorância e superstição alimentada por uma multidão de monges, padres e frades, cujo interesse é manter neste estado a classe baixa”; e rematou “tudo o que a Natureza produziu aqui é bom, tudo aquilo em que os seus habitantes põem as mãos fica estragado.”

Com o declínio do interesse pelas ciências, Portugal passou, num ápice, de um animado centro cosmopolita a uma pequena e lúgubre paróquia. Alguma coisa nos devia ensinar a história das ciências...

Ensino pimba e discriminação social

Uma das estratégias erradas do ensino “pimba” que invadiu o nosso ministério, possivelmente com as melhores intenções, é eliminar tanto quanto possível os conteúdos precisos e bem delimitados dos programas, o que depois acaba por ser reproduzido em muitos manuais. Em vez de conteúdos precisos temos competências vagas, conversas de café sobre o “mundo contemporâneo”, leitura de jornais populares em detrimento de publicações cientificamente sérias, análise de regras de concursos televisivos em vez de literatura de qualidade, etc. Esta estratégia está errada por várias razões, uma das quais é a injustiça social que isto provoca. E este aspecto é-me particularmente caro.

Quando os conteúdos são vagos, de contornos ambíguos, sem articulação sólida nem formulação clara, os estudantes culturalmente mais carenciados são os que têm mais dificuldades. Porque os outros usam o background cultural que trazem de casa para preencher as lacunas, e conseguem construir respostas e trabalhos bem articulados, com uma linguagem segura e sofisticada — só que não aprenderam a fazer nada disto na escola nem com o manual, mas sim em casa, com os pais e outros livros. Ora, os estudantes culturalmente mais carenciados não têm background que lhes permita preencher as lacunas, e acabam por ter prestações muitíssimo más.

Particularizando: pensemos em dois estudantes, Maria e Manuel. A Maria tem carências culturais profundas. O Manuel tem a sorte de ser filho de arquitectos, por exemplo, ou de professores universitários (ou de técnicos do ministério da educação) e por isso tem um background cultural muito rico. Agora vamos para a aula fazer conversas vagas sobre o mundo contemporâneo. A Maria está tramada, porque mal percebe o que se passa e não tem “bagagem” para participar; o Manuel safa-se porque ouve conversas dessas todos os dias em casa, onde tem jornais e livros e onde aprendeu a escrever correctamente e a exprimir-se bem oralmente. Imaginemos agora que, em vez de conversas de café, o professor está a ensinar trigonometria com rigor e precisão. Agora as diferenças entre a Maria e o Manuel são menos marcadas. O background cultural do Manual continua a ajudá-lo, até porque provavelmente irá estudar trigonometria com os pais; mas agora a Maria pode genuinamente aprender qualquer coisa, porque o que lhe está a ser ensinado não depende crucialmente do seu background cultural. Agora sim, a escola está a cumprir o seu papel social.

Ou seja, se apostarmos em conteúdos muito bem delimitados, com um grau elevado de precisão, os estudantes culturalmente mais carenciados estão bem mais ao nível dos outros porque o que lhes é exigido é unicamente o que foi efectivamente leccionado, explícita e directamente, e não o background que trazem de casa. Exigimos a todos os estudantes a mesma coisa e o que exigimos é o que ensinamos, e não o que eles trazem de casa. Claro que há sempre vantagens de quem vem melhor preparado de casa, mas neste tipo de ensino de excelência os estudantes culturalmente mais carenciados têm menos desvantagens.

Numa palavra, o ensino de excelência dá vantagens aos estudantes culturalmente mais desfavorecidos, ao passo que o ensino “pimba”, defendido pelo ministério da educação, se limita a reproduzir as diferenças culturais (e sociais) que os estudantes trazem de casa. Quem gosta de teorias da conspiração pode pensar que o objectivo é mesmo esse: fingir que o estado oferece ensino por igual para todos, ao mesmo tempo que sub-repticiamente se protege aqueles que têm a sorte de ser mais iguais do que os outros.

Ossos da evolução

O fóssil de 15 centímetros do Yanoconodon allini mostra a formação do ouvido médio dos mamíferos a partir da mandíbula dos répteis

Os mamíferos surgiram no Triásico e derivam dos Therapsida - répteis Synapsida. A transição dos Therapsida para os Mammalia é a transição entre os grandes grupos de vertebrados melhor documentada no registo fóssil, por exemplo pelos fósseis Protoclepsydrops, Clepsydrops, Dimetrodon, Procynosuchus e Thrinaxodon.

No entanto, os criacionistas de todos os flavours tentam por todos os meios, inclusive completamente desonestos, negar as evidências inequívocas dos fósseis transicionais entre espécies - designação que refere fósseis que apresentam uma mistura de características das espécies em causa, popularizados nos media como «elos perdidos», embora o termo seja erróneo e passível de grandes confusões. Todos os criacionistas verberam que não há fósseis transicionais para apontar a «falsidade» da evolução. Mas os últimos anos têm sido fertéis na descoberta de novos fósseis que documentam sem sombra de dúvidas as transições entre espécies e testam a capacidade aparentemente ilimitada dos criacionistas para debitar disparates.

Assim, há um ano foi apresentado na revista Nature o trabalho dos grupos de investigação de Edward Daeschler da Academy of Natural Sciences em Filadélfia, Farish Jenkins de Harvard e Neil H. Shubin da Universidade de Chicago que descreveram em dois artigos a descoberta de um fóssil de uma espécie que documenta a transição peixe - anfíbio (tetrápode), a que chamaram Tiktaalik roseae - nome Inuit para um peixe de águas pouco profundas. Este fóssil com 375 milhões de anos apresenta escamas ósseas e barbatanas mas as barbatanas dianteiras estão no processo de transformação em membros; o seu esqueleto interno apresenta a estrutura de um braço, incluindo ombro, cotovelo e pulso com barbatanas em vez de dedos.

Esta descoberta provocou grande agitação nas hostes criacionistas americanas que na altura se multiplicaram em acusações de «cientifismo» e refutaram os dados científicos com disparates sortidos e citações biblícas no post sobre o tema do blog da Nature. O templo da IDiotia, o Discovery Institute, clamou que o fóssil não constitui uma ameaça para as suas pretensões neocriacionistas com um texto completamente imbecil:

«Estes peixes não são espécies intermédias, explicaram os cientistas do Discovery Institute que questionei sobre a descoberta. Não são intermédios no sentido que são meio peixe/meio tetrápode. Pelo contrário, eles apresentam uma combinação de características de tetrápodes e de peixes».

Na mesma época e também na Nature, o zoólogo Hussam Zaher, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, em colaboração com o palentólogo Sebastián Apesteguía, do Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia, apresentaram os detalhes anatómicos dos fósseis da mais antiga espécie de cobra já encontrada, a Najash rionegrina, uma serpente que viveu no Cretácico Superior (há 90 milhões de anos) e que apresenta patas traseiras funcionais.

Os criacionistas do site humorístico «Respostas no Genésis», AiG, com uma espinha do Tiktaalik rosae ainda atravessada, responderam a esta descoberta de forma tão divertida quanto a do templo da IDiotia:

«A AiG é cautelosa acerca da comparação desta serpente fóssil com a serpente de Génesis 3:14 [a tal que provocou a dentadinha no proibido fruto do conhecimento]. Em primeiro lugar, não sabemos muito acerca da anatomia dessa serpente. Mas podemos oferecer uma sugestão razoável de que seria capaz de andar ou rastejar; depois da serpente ser amaldiçoada foi pronunciado que «no teu ventre rastejarás» sugerindo que antes da queda se movia usando apêndices. De igual forma este fóssil resulta provavelmente do Dilúvio de Noé, um acontecimento que teve lugar 1500 anos depois de a serpente ser amaldicoada a rastejar sobre o ventre».

A Nature de 15 de Março tem um artigo muito interessante do paleontólogo Zhe-Xi Luo, do Carnegie Museum of Natural History, Pittsburgh (EUA) que descreve o Yanoconodon allini, um fóssil de 125 milhões de anos que apresenta os três minúsculos ossos que compõem o ouvido médio (martelo, bigorna e estribo) ligados à mandíbula inferior através de uma cartilagem, numa configuração de transição entre a dos répteis e a dos mamíferos modernos. Nesse último grupo, em que se inclui o homem, essa tríade de ossos já se encontra totalmente separada da mandídula.

PZ Meyers apresenta no Pharyngula uma análise muito detalhada do Yanoconodon, que recomendo para quem quiser saber mais sobre este triconodonte (sobre o qual os criacionistas ainda não se pronunciaram...)

terça-feira, 20 de março de 2007

A génese do criacionismo

Em finais do século XIX, umas escassas décadas após a publicação d’«A Origem das espécies» de Charles Darwin, em 1859, a teoria da evolução, aceite pelos cientistas no mundo inteiro, começou a difundir-se entre a população em geral, mesmo nas comunidades cristãs de todas as variantes. Os líderes religiosos aceitavam não só a evolução das espécies como a ideia de uma Terra que o avanço da Ciência comprovava cada vez mais antiga. No entanto, defendiam uma «criação especial» do Homem e a literalidade da Queda, causadora do pecado original e da necessidade de um Salvador.

Muitos pensaram então que as inúmeras evidências da evolução do Homem, especialmente as fósseis, ditariam o fim até da crença da «criação especial», já que apenas subsistia um pequeno número de cristãos norte-americanos que conservavam uma leitura literal do Génesis. Mas o virar do século, que viu logo no seu alvor descobertas científicas que revolucionaram o mundo, viu nascer igualmente os movimentos que culminaram no atavismo que amanhã será debatido na Faculdade de Ciências.

Assim, em 1909 foram redigidos os «Fundamentals», textos de natureza doutrinária elaborados por teólogos de diversas confissões protestantes, que advogavam o literalismo bíblico. Estes movimentos evangélicos norte-americanos assumiriam uma postura que viria a ser muito característica dos movimentos fundamentalistas, e que se prende com a sua natureza política. De facto, os fundamentalistas, que se caracterizam pela oposição (muito veemente) a tudo o que possa, de alguma forma, colocar em causa a autenticidade e literalidade do seu livro sagrado, combatem a laicidade, nomeadamente a existência de leis e ensino «seculares». E combatem igualmente a ciência «secular»...

Um pouco antes, Ellen Gould White (1827-1915), uma americana semi-iletrada, tinha sido agraciada com mais uma de muitas «visões proféticas» - provavelmente originadas por uma lesão causada pela pedrada na cabeça em criança que a deixou em coma durante 3 semanas.

Este «transe» em especial é a pedra basilar de todos os criacionismos actuais já que foi uma «visão» da «Criação». White afirmava ter «testemunhado» que a Criação ocorreu em apenas 7 dias e que foi o Dilúvio de Noé que esculpiu a Terra tal como a conhecemos e simultaneamente enterrou animais e plantas no registo fóssil que enganou (e, segundo os criacionistas da Terra jovem como Jónatas Machado, engana ainda hoje) os cientistas.

Um jovem sem formação científica pelo nome de George McCready Price (1870-1963) juntou-se no final do século ao pequeno número de visionários liderado por White e resolveu dedicar a sua vida a uma defesa «científica» do «transe» da líder religiosa.

A cruzada de Price contra a evolução consistiu principalmente numa guerra «geológica» inicialmente sem disseminação fora da pequena comunidade dos Adventistas do 7º Dia. Mas após a publicação dos Fundamentals, a sua prosa absurda começou a ser distribuida entre os fanáticos norte-americanos de outras confissões evangélicas, que apreciavam o empenho anti-evolução do auto-didacta.

Embora não acreditassem na «geologia do dilúvio» defendida por Price nem vissem necessidade de uma Terra jovem, os fundamentalistas usavam todas as armas na guerra pela proibição do ensino da evolução nos Estados Unidos. Assim, depois de o ensino da evolução ser declarado crime no Tennessee, Mississippi e Arkansas - e proibido em Oklahoma e na Flórida (que o declarou impróprio e subversivo) - durante o Scopes Monkey Trial, em 1925, o advogado de acusação do criminoso professor evolucionista citou em defesa do criacionismo o trabalho do «cientista» Price.

As visões de White foram traduzidas por Price em 1923 num jargão menos analfabeto e publicadas num amontoado de disparates que dá pelo nome The New Geology. O New Geology foi ridicularizado pelos geólogos do mundo inteiro devido à enormidade dos erros e inanidades que continha. Nele Price defendia que as características geológicas actuais - incluindo a deriva dos continentes - são o resultado do Dilúvio Universal de Noé e não dos lentos processos geológicos descritos pelos cientistas. Price afirmava que a «coluna geológica» era constituída pelos sedimentos depositados pelo Dilúvio, enquanto que a totalidade dos fósseis eram simplesmente os corpos mortos dos organismos que não tinham tido a sorte de uma boleia na Arca. A geologia convencional, ululava Price, era uma fraude, promovida entre um público crédulo por cientistas ao serviço do Demónio e não passava de um conjunto de «métodos enganosos» inspirados «pelo Grande Impostor» já que «A Bíblia não pode conter informações falsas, e assim, se as suas declarações indubitavelmente entram em conflito com os pontos de vista dos geólogos, então estes últimos estão errados».

Muito da «geologia do dilúvio» de Price pode ser encontrada, quase intacta, nos textos dos criacionistas modernos*, nomeadamente é a base dos textos dos inventores do «criacionismo científico», Henry Morris, e John C. Whitcomb.


*Quem tiver estomâgo para tal pode assistir aqui a uma hora de um seminário sobre o tema de Kent Hovind, o DrDino que não conseguiu convencer o IRS americano de que não tinha jurisdição sobre os seus bens por estes serem de Deus. Hovind encontra-se na cadeia a cumprir pena por 58 acusações federais, de que se destacam a recusa em pagar impostos, incluindo segurança social para os seus funcionários - que Hovind pretende serem missionários - e ameaças a investigadores do IRS.

RELÓGIOS DE SOL


É lançado amanhã, 21 de Março, dia do equinócio da Primavera (quando o dia tem o mesmo tamanho que a noite), pelas 19 horas, portanto já depois do pôr-do-Sol, um dos mais belos livros deste ano de 2007. São seus autores o matemático e divulgador de ciência Nuno Crato (especialista em séries temporais), a matemática Susana Nápoles (que coordena um projecto sobre relógios solares) e Fernando Correia de Oliveira (um jornalista que se tem especializado em questões do tempo e da sua medição). Os Correios de Portugal, que nos têm proporcionados outros livros tão belos como este, são o editor. O lançamento é na Fundação Medeiros e Almeida, Rua Mouzinho da Silveira, nº 6, em Lisboa.

É sabido que o Sol comanda o nosso tempo. O dia tem a ver com a rotação da Terra em torno do seu eixo, que implica para nós o nascer e o pôr do Sol. E o ano tem a ver com a translação da Terra em torno do Sol (a definição original do segundo, a unidade de tempo fundamental, é mesmo uma fracção desse tempo).Durante muitos anos e na ausência de relógios mecânicos o homem regulou-se pelo Sol. Os gregos foram os autores do gnómon, o “ponteiro do sol”, que permite saber a hora solar pela posição de uma sombra. Os romanos introduziram os relógios de sol em Portugal no século II e só no século XIX, com a chegada cá da Revolução Industrial, é que esses instrumentos perderam a popularidade. Mas quase não há povoação em Portugal que não tenha um relógio de Sol, na torre de uma igreja ou mesmo numa casa particular. Em Coimbra há até um relógio de Sol gigante, no Portugal dos Pequeninos (funciona mal, mas a culpa não é seguramente do Sol, mas sim da posição do ponteiro!).

Os autores correram o país de lés-a-lés à procura desses relógios e o seu livro
mostra alguns - mais de 700 - dos mais interessantes instrumentos gnomónicos. As fotografias exibem uma mistura única de ciência, técnica e arte. Era um rico património nacional que estava semi-esquecido... Os autores ficarão contentes se os leitores lhes indicarem relógios de sol desconhecidos, preferencialmente por via da Sociedade Portuguesa de Matemática (www.spm.pt), que desenvolverá, para o efeito, o Projecto Relógios de Sol. Mas, para isso, os leitores têm de ver no livro que acaba de sair e que se encontra em qualquer estação dos correios se os relógios de sol seus conhecidos lá estão.

GRANDES ERROS

Errar é humano. Mas errar assim tanto é desumano...
Ainda o ano de 2007 é uma criança e já as previsões de Mestre Alves se revelaram erradas, completamente erradas!

Tanto um cientista como um médium-vidente fazem previsões (embora de âmbito e com fundamentação diferente, claro): a grande diferença é que o segundo não admite que errou.

Erra repetida e propositadamente!

Publicidade relativista

(O Instinto diz cerveja; a razão diz Carlsberg. Itália anos 70)

Há dois anos tive de falar sobre Einstein na Feira do Livro e quando preparava a apresentação deparei com este anúncio. Lembro-me de na altura o ter comparado com a publicidade que passava na televisão atrás de mim ou que ornamentava as ruas de Lisboa e de me ter interrogado porque razão a ciência e os cientistas deixaram de ser considerados modelos «vendáveis» pelos publicitários, uma classe sempre atenta às predilecções do mercado.

Investiguei um pouco o tema e descobri que, especialmente depois da sua morte em 1955, Einstein foi mote de campanhas publicitárias sortidas - incluindo o catálogo de lingerie da Pennaco Hosiery que exortava as compradoras a acreditar na teoria da relatividade - , implicando os «anúncios Einstein» que os consumidores eram suficientemente inteligentes para comprar o produto ou que se tornariam mais inteligentes se o fizessem.

Os «anúncios Einstein» eram assim uma indicação de que os publicitários consideravam que Einstein era um modelo para a população em geral que venderia melhor o seu produto.

Pelo menos no Portugal de hoje não estou a ver uma marca de cerveja a considerar Einstein como protagonista nem os anúncios com que somos agraciados nos media ou em outdoors se destacam por um apelo à inteligência dos consumidores - estou a lembrar-me de um irritante anúncio nem me lembro a quê que insistia num «explica-me como se eu fosse muito burra» - muito menos usam como modelos, já não digo um prémio Nobel da Física, mas um cientista conhecido.

Aliás, estou certa que a esmagadora maioria da população, incluindo os ditos publicitários, nem sabe o nome dos prémios Nobel da Física de 2006 não obstante o trabalho dos astrofísicos George Smoot e John Mather sobre a origem do universo e sobre o Big Bang serem pelo menos tão fascinantes quanto a relatividade.

Mas não são apenas os anúncios nos nossos media que desvalorizam a inteligência e o saber e muitas vezes menorizam a escola, local de eleição de desenvolvimento da primeira e das capacidades cognitivas e de consolidação do saber. O padrão mantem-se nas séries nacionais e especialmente nos concursos - nomeadamente este «A Bela e o Mestre» em que a beleza é equivalente a burrice e ignorância e a inteligência e conhecimento são embrulhados no monstro que o título subentende.

Tudo isto me deixa a interrogação sobre porquê a nossa sociedade deixou de considerar a inteligência e o conhecimento como desejáveis e passou a ter como modelos os vencedores de Big Brothers e afins e não Einstein's...

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...