As palavras são de Miki Rish, um dos investigadores do Bureau 06 que, nos anos de 1960, preparou o julgamento de Adolf Eichmann. O seu assombro está longe de ser único: por alguma razão tendemos a estranhar o aspecto "normal", "comum", "vulgar" deste ou de outro "funcionário" que obedece a ordens iníquas e, em cadeia, faz cumprir ordens iníquas. Quem diz "funcionário" diz "engenheiro" dessas ordens.
O aspecto "normal", "comum", "vulgar" dos piores representantes da Humanidade baralha: qualquer um, em certas condições, pode integrar essa categoria? A verdade é que depois deste julgamento, da discussão filosófica, política, antropológica e da investigação psicológica, sociológica e educativa que desencadeou, a percepção de nós mesmos não voltou a ser a mesma.
Vale a pensa ver, enquanto está disponível na RTP, o documentário Bureau 06
5 comentários:
Muitos conjecturam em anonimato. Esta nova forma digital de nos relacionarmos está a revelar o pior da humanidade. Há muitas pessoas dissimuladas por aí. Acima de tudo, está a imperar o egoísmo, e esse sempre estimulou o pior em nós, no indivíduo. Valores de altruismo, solidariedade, empatia e compaixão aparentam existir, mas é falsa aparência, não admira que as lideranças sejam tão más.
É polémico, não concordo totalmente. Estamos a falar de 'quem dá ordens' ou de quem as executa? Dos cães de fiça ou dos caçadores? Porque não é nada de novo que os cães de fila pareçam iguais aos outros, iguais a nós. PIDEs, KGBs, preferem-se anónimos, iguais a nós, pessoas ordinárias, até com bons sentimentos - gostam de cães, dão milho às pombas e esmola aos pedintes, gratificam o empregado. Perfis vulgares é que funcionam melhor. Já não concordo nada quanto às lideranças. Os piores líderes são pessoas ou fanáticas, ou obsessivas, ou narcisistas, promovem o culto de si, têm algo de excessivo e um perfil francamente destacado do 'normal'. Não vou muito atrás na História, mas digamos, Mussolini, Estaline, Kim Jong-Un, Pinochet, Maduro, Pol-Pot, eram tudo menos pessoas vulgares e anónimas. Acha(va)m-se deus na terra e comportam-se como diabos.
Portanto é falso o «o aspecto "normal", "comum", "vulgar" dos piores representantes da Humanidade». è sim o dos seus lacaios.
Tudo ao contrário com os líderes europeus , canadianos, japoneses, esses em geral pessoas comuns, lá está, mas de educação e ética solidária, empática, amigável. É muito injusto estarmos a comparar, julgando, Keir Starmer, Mette Frederiksen ou Sanae Takachi , cidadãos íntegros, respeitadores, a Putin, Kim Jong-Un, ou Trump, gente vaidosa, pomposa, egoísta, em quem nenhum cidadão comum se revê. O problema dos 'bons' lideres é que não têm poder, de facto mandam calma e ternamente mas não podem mudar nada.
Percebo que os cidadãos culpados de executar ordens dessa gente, ou que neles votaram, são gente 'como nós', muitos deles 'boas pessoas'. Isso sim merece reflexão: como é que nós escolhemos, ou permitimos, ou toleramos, gente desse calibre 'invulgar' no poder.
P.S. O anónimo que se queixa dos anónimos é anedota do dia.
[cães de fila]
As palavra que citou de Miki Rish fizeram-me recordar as de um poema de tom irónico que li há muito tempo. Cantava assim:
All There Is to Know about Adolph Eichmann
EYES: ............................Medium
HAIR: ............................Medium
WEIGHT: .......................Medium
HEIGHT: ........................Medium
DISTINGUISHING FEATURES: None
NUMBER OF FINGER: ........Ten
NUMBER OF TOES: ...........Ten
INTELLIGENCE: ................Medium
What did you expect?
Talons?
Oversize incisors?
Green saliva?
Madness?
(c) 1964, Leonard Cohen.
O pastor protestante alemão Martin Niemöller (1892–1984), em várias palestras dadas ao longo da vida, apresentou o seguinte texto poético, que foi alterando de acordo com as circunstâncias e o auditório (o texto tem vindo a ser erradamente atribuído a Bertolt Brecht):
Quando os nazis vieram buscar os comunistas,
mantive-me em silêncio;
eu não era comunista.
Quando vieram buscar os sindicalistas,
mantive-me em silêncio;
eu não era sindicalista.
Quando vieram buscar os judeus,
permaneci em silêncio;
eu não era judeu.
Quando me vieram buscar,
não havia mais ninguém para protestar.
Pessoas honestas e desonestas sempre existiram, tal como sempre existiram pessoas boas e más. O aspecto "normal", "comum", "vulgar" dos piores representantes da Humanidade continua a existir, seja ele kapo, bufo, "cão de fila", mastim ou coisa que o valha. Não foi aquela época que os produziu (mas foi uma época que produziu muita barbárie, uma época de novos métodos de propaganda, tal como hoje), é qualquer época que os produz: são seguidistas kapos "anónimos" que acriticamente seguem a disciplina de voto ou ordens superiores absurdas. Esta espécie de ser humano existe hoje como existiu durante o Estado Novo ou em qualquer lugar do mundo.
Em situações extremas, as pessoas mantêm-se estranhamente em silêncio, mantêm-se mudas idiferentes, ou seguem ordens deliberadamente ou por uma questão de comodidade circunstancial.
Enviar um comentário