quinta-feira, 20 de julho de 2023
OS ESTRATEGAS DA GLÓRIA
COMO SER MILIONÁRIO
quarta-feira, 19 de julho de 2023
CONHECER OS OTOMANOS
Em 1 de Novembro de 2022 passaram cem anos desde o fim do Império Otomano, o qual, remontando ao final do século XIII, vingou com a tomada pelo exército de Maomé II, o Conquistador (1432-1481), da cidade de Constantinopla, hoje Istambul, aos Bizantinos, em 1453 – data que marca o início da Idade Moderna - e atingiu o seu auge no século XVI com o sultão Solimão, o Magnífico (1494 – 1566), senhor de um extenso território no sudeste da Europa, no Médio Oriente e no norte de África, que chegou a cercar Viena.
Os impérios otomano e português cruzaram-se. Em 1538 teve lugar um violento confronto entre os turcos, com cerca de 20 000 homens, e os lusitanos, que não eram mais do que 600, no cerco de Diu, na Índia, que terminou com o recuo dos primeiros. As relações entre otomanos e portugueses foram mais amplas do que essa e outras refregas. O almirante e cartógrafo Piri Reis (c. 1465- 1553) produziu um mapa, de 1513, que hoje se encontra no Palácio de Topkapi, em Istambul, que mostra o Brasil e que deve ter recorrido a fontes portuguesas. No ano em que Piri Reis morre chegava a Constantinopla, vinda de Portugal, com estadas em Antuérpia, Ferrara e Veneza, a judia portuguesa Gracia Mendes ou Gracia Nassi (1510-1569). Conhecida por «A Senhora», distinguiu-se não só como empresária, mas também como filantropa no auxílio a numerosos judeus em fuga do reino lusitano.
O facto de o Império Otomano, alinhado com a Alemanha, ter sido derrotado na Primeira Guerra Mundial, sendo consequentemente ocupado pelos vencedores, agravou o seu estado de decadência. A resistência por parte de um conjunto de jovens oficiais (os «jovens turcos») encabeçados por Mustafa Kemal, dito Atatürk, isto é, «pai da Turquia» (1881- 1938) na Guerra da Independência Turca, conduziu em 29 de Outubro de 2023 à proclamação da actual República Turca: está a ser comemorado o centenário desse evento. As homenagens ao «pai» são merecidíssimas pois foi, como primeiro presidente turco, o estadista que empreendeu uma série de reformas profundas, que visaram transformar um país bastante atrasado num estado moderno, laicizando-o e implementando um conjunto de reformas legislativas, económicas e políticas. Ancara, na Anatólia Central, passou a ser em 1923 a capital da Turquia, em substituição de Istambul.
Em viagem recente à Turquia, reparei na profusão de retratos de Atatürk. O recente vencedor de eleições presidências Recep Tayyip Erdogan (n. 1954), no poder há duas décadas, tem transmitido alguns sinais de reconhecimento da herança otomana, o que atenta cotra o legado republicano de Atatürk. De certo modo, comporta-se como um sultão de antigamente, querendo «matar o pai». Para entender melhor o que foi o império otomano recorri, antes e durante a viagem, a três livros publicados recentemente entre nós: O Império Otomano e a Conquista da Europa, de Gábor Ágoston, historiador norte-americano de origem húngara (Desassossego, 2023), Os Otomanos. Cãs, Césares e Califas, de Marc David Baer, historiador norte-americano que ensina na London School of Economics and Political Science (Temas e Debates, 2022) e Os Séculos Otomanos. Ascensão e Queda do Império Turco de Lorde Kinross, de seu nome John Patrick Balfour, historiador escocês já falecido (Bookbuilders, 2022).
São espessos volumes, todos eles muito informativos sobre o notável império euro-asiático-africano que, entre nós, não obstante as relações históricas de antagonismo ou proximidade, são pouco conhecidos. Tratou-se de uma civilização assombrosa, mais pela sua organização militar, e arte do que pelas suas realizações científico-técnicas. No enorme Palácio de Topkapi, no centro histórico de Istambul, muito perto do hipódromo bizantino e das Mesquita Azul e de Santa Sofia (Erdogan mudou a antiga igreja bizantina de museu para mesquita) pude admirar uma bela colecção de relógios mecânicos, na sua maioria de proveniência ocidental, e alguns astrolábios e quadrantes, instrumentos de orientação pelos astros que os árabes usaram desde tempos antigos (são astrolábios muito mais decorados do que os usados pelos navegadores portugueses). O que mais me impressionou em Istambul foi, porém, a Cisterna da Basília, um vasto complexo subterrâneo (10 000 m2) perto de Santa Sofia, sustentado por 336 colunas de 8 metros de altura, e com água em toda a sua extensão. Esse prodígio de engenharia e arquitectura foi construído no ano de 532, no tempo do imperador Justiniano I (c. 482 – 565). Foi aí que foram rodadas algumas cenas do filme Inferno (2016), dirigido por Ron Howard, com Tom Hanks, cujo guião assenta no romance de Dan Brown, autor do Código de Da Vinci».
Mas Istambul é muito mais do que o palácio do sultão (não perder a visita ao Harém, que é a parte privada do palácio, que vai muito para além do que a palavra suscita ao imaginário ocidental), as mesquitas (há muitas outras além das duas referidas, que fazem assíduas chamadas à oração por altifalantes) e as cisternas (também há outras para além daquela que servia Santa Sofia). Há sobretudo a água em volta: o mar de Mármara, o estreito do Bósforo, que separa a Europa da Ásia, e o Corno de Ouro (com duas belas pontes: a Galata e a Atatürk), tudo sítios onde se podem fazer belos passeios de barco. E há, para as compras, o caótico Grande Bazar e o mais arrumado Bazar Egípcio, perto da ponte Galata, o primeiro onde se vende tudo e mais alguma coisa, e o segundo centrado em especiarias.
Istambul, cuja paisagem e luz fazem lembrar Lisboa, está muito bem descrita no livro autobiográfico Istambul. Memórias de uma cidade, de Orhan Pamuk (n. 1952), laureado com o prémio Nobel da Literatura em 2006. Há na maior cidade turca (mais de treze milhões de habitantes na área metropolitana!) um pequeno museu intitulado «Museu da Inocência» que remete para o romance homónimo de Pamuk, uma história de amor situada em finais do século XX que cruza tradição e modernidade. Mas não tive tempo para o visitar. Istambul merece bem nova visita… Para a próxima visita já ando a ler dois pequenos guias histórico-literários, publicados entre nós há algum tempo: Istambul, do francês Daniel Rondeau (Europa-América, 2004) e A Istambul do Sultão. do inglês Charles Fitzroy (Bizâncio, 2016).
ENERGIA EM PORTUGAL: RESUMO HISTÓRICO E SITUAÇÃO ACTUAL
Meu artigo na última «Seara Nova:
A palavra «energia», que anda hoje nas bocas do mundo, só surgiu no século XIX, no tempo em que emergia a termodinâmica, o ramo da física que trata o calor. O neologismo, com base no étimo do grego antigo enérgeia (que significa actividade), foi usado pela primeira vez pelo polímato inglês Thomas Young, em 1802, nas suas conferências sobre Filosofia Natural. Energia tem a ver com o movimento. Os sistemas macroscópicos possuem uma energia, dita interna, que pode sofrer alterações por interacções com a vizinhança: o trânsito de energia de e para o sistema pode ser feito sob a forma de trabalho (forma ordenada) ou de calor (forma desordenada). A meio do século XIX, percebeu-se que a energia se conservava: a Primeira Lei da Termodinâmica diz que a energia não pode ser criada nem destruída, pelo que se mantém invariável num sistema isolado. Se sair ou entrar energia, a energia total do sistema e da sua vizinhança tem de se manter inalterada. Por seu lado, a Segunda Lei da Termodinâmica diz que a energia se degrada: isto é, só uma parte da energia proveniente de uma fonte de calor pode ser aproveitada como trabalho.
A Revolução Industrial começou, com o desenvolvimento da máquina a valor no final do século XVIII, tendo a Termodinâmica estudado o rendimento de engenhos desse tipo. Uma máquina térmica moderna, como o motor de um carro com motor de combustão interna, usa a energia da combustão da gasolina ou gasóleo, para fazer mover as rodas, perdendo-se uma parte em atrito no solo e aquecimento do ar em volta. A energia interna do combustível é transformada em movimento. Tudo se passa como na máquina a vapor, em que o combustível era o carvão ou a lenha: da energia de entrada uma parte é usada para produzir movimento útil. Quando se queima um qualquer material combustível, fóssil ou não, há sempre emissões de dióxido de carbono (CO2). Sabemos hoje que o planeta está a aquecer por causa dessas emissões de CO2, o principal gás de efeito de estufa, que têm aumentado desde o início da Revolução Industrial dada a necessidade de desenvolvimento por parte de uma população que, à escala global, cada vez é maior. O Acordo de Paris de 2015 preconizou um aumento de não mais do que 2 ºC, desejavelmente menos do que 1,5 ºC, acima dos níveis pré-industriais.
Civilização significa uso de energia. Precisamos de energia para nos aquecermos, para nos movermos, para nos alumiarmos, para colocar máquinas a funcionar, etc. O carvão passou a substituir a lenha como material combustível ao longo do século XIX, ultrapassando 50% das fontes primárias de energia em 1900. Na segunda metade do século XIX as máquinas eléctricas passaram a substituir as máquinas a vapor, continuando a ser alimentadas a carvão. O uso deste combustível atingiu o seu máximo no mundo por volta de 1915 e, ao longo do século XX, começou a ser usado o petróleo em sua substituição, embora sem nunca ter atingido 50% do consumo. O gás natural começou a ser usado ao mesmo tempo que o petróleo, embora nunca tenha atingido valores semelhantes. A energia nuclear surgiu no pós-Segunda Guerra Mundial: ao contrário dos combustíveis fósseis, apenas serve para gerar electricidade e não para fazer mover veículos. Embora tenham antecedentes na história, energias renováveis, como as energias hidroeléctrica, eólica, solar e geotérmica, só recentemente têm sido usadas de modo significativo. Nem a energia nuclear nem as energias renováveis produzem emissões de CO2. A necessidade, reconhecida nas últimas décadas, de evitar um sobreaquecimento do planeta devido ao efeito de estufa tem levado a enormes desenvolvimentos na área das energias renováveis. Fala-se hoje no banimento do carvão, o combustível fóssil que provoca mais emissões de CO2 e da diminuição do petróleo, por ele provocar mais emissões do que o gás natural.
Em Portugal, a Revolução Industrial chegou tarde, em comparação com outros países da Europa. As primeiras máquinas a vapor surgem na navegação e na moagem por volta de 1820. Em 1890, o carvão e o petróleo não satisfaziam mais do que 20% das necessidades energéticas, O resto era obtido, do vento, da água, da lenha e dos animais. Mas, apesar do arranque industrial tardio, o caminho de aproveitamento dessas energias fósseis foi semelhante ao dos outros países europeus. A hidroelectricidade surgiu ainda no final do século XIX, mas representando então uma parcela muito pequena da energia eléctrica, que vinha principalmente do carvão e, a grande distância, do petróleo, que foi progressivamente tomando o lugar do primeiro. O consumo de energia foi subindo entre nós a partir de 1940, satisfazendo necessidades de desenvolvimento de uma população crescente. É dessa altura a criação da rede eléctrica nacional. O gás, que começou por ser usado para iluminação pública no século XIX, foi impulsionado nos anos de 1940 com a sua produção em Cabo Ruivo a partir de carvão, só aparecendo uma companhia para fornecimento de gás natural a todo o país, em 1989. Por não ser produtor significativo de combustíveis fósseis, Portugal sempre esteve dependente do exterior para cobrir as suas necessidades energéticas. A crise internacional do petróleo nos anos de 1970 foi vivida no alvor da democracia, causando sérias dificuldades económicas. O país, que nunca tinha tido centrais nucleares (ao contrário de outros países europeus como Espanha e França), abandonou nos anos de 1970 os projectos nesse sector.
Nos anos mais recentes, dada a boa exposição ao vento e à luz solar e a políticas públicas de estímulo, as energias alternativas têm aumentado entre nós, somando-se ao aproveitamento hidroeléctrico, que atingiu para alguns cursos de água patamares de quase saturação. proliferaram na paisagem inúmeras torres eólicas e painéis solares. Um marco da chamada «transição energética» foi o encerramento em 2021 da última central a carvão. Dada a boa cobertura florestal do país, a biomassa tem sido entre nós um recurso interessante. O uso da energia geotérmica está restrito aos Açores. Mesmo contando com o incremento das fontes renováveis, Portugal continua a ser importador líquido de electricidade.
Vejamos qual é a situação actual do consumo de energia em Portugal. usando os dados contidos na publicação «A Energia em Números», do Observatório da Energia, da Direcção-Geral de Energia e Geologia e da Agência para a Energia, de 2022, que está on-line. No ano de 2020, a distribuição de consumo de energia primária, incluindo o uso de electricidade, por formas de energia atribui ao petróleo 41%, seguindo-se as energias renováveis (30%), o gás natural (25%), o carvão (3%) e outros (2%), nos quais se inclui a parcela de eletricidade importada. O consumo total de energia tem vindo a diminuir (foi menos 10% do que em 2010), registando-se a diminuição do petróleo e do carvão e a subida do gás natural e das renováveis. Portanto, apesar do aumento das energias renováveis, elas ainda não chegam a um terço do consumo de energia primária. Se olharmos para a distribuição do consumo de energia final – em vez de primária - por formas de energia, o lugar de topo continua a ser ocupado pelo petróleo (44%) seguindo-se a electricidade (26%), o gás natural (11%), as renováveis (11%), o calor (7%) e outros (1%). Olhando para os diferentes sectores, percebe-se melhor a necessidade dos combustíveis fósseis: os transportes prevalecem com 33%, seguindo-se a indústria (31%), o sector doméstico (20%), os serviços (13%), e a agricultura e pescas (3%). Existiu em 2020 um relevante saldo importador de energia, embora menor do que o de uma década antes, sendo as maiores parcelas nessas importações, por ordem, o petróleo, o gás natural e a electricidade. Importámos em 2021 petróleo principalmente do Brasil, da Nigéria e do Azerbeijão, e gás natural da Nigéria, dos Estados Unidos e da Rússia. A balança de pagamentos do país ressente-se obviamente da falta de autonomia energética. Somos, na União Europeia, o 11.º país com maior dependência energética (2020), um pouco acima da média europeia. No entanto, somos o 5.º país da União com menor consumo de energia final per capita (2020), muito abaixo da média europeia (os países mais desenvolvidos consomem muito mais do que nós).
Há alguns bons indicadores, que convém sublinhar. Portugal tem um lugar notável - o 4.º da União Europeia (2020), depois da Áustria, da Suécia e da Dinamarca - na quota de energia eléctrica proveniente de renováveis, que foi de 58% em 2020, o maior valor de sempre no registo histórico (os maiores contributos vêm das energias eólica e hídrica, seguindo-se a biomassa e a solar; uma parcela considerável da electricidade ainda vem do gás natural). Também ocupamos um bom lugar nas emissões de gases de efeito de estufa per capita: somos, nesse índice, o 6.º melhor país da União Europeia (2019). Contra nós joga, porém, o facto de haver demasiada utilização de veículos privados, de ainda ser pequena a frota de carros eléctricos e de haver deficiência de climatização da generalidade dos edifícios. Mais incentivos nestas áreas fariam sentido.
Em conclusão: Portugal está no bom caminho no uso das energias renováveis. Os seus equipamentos estão por todo o lado. Têm surgido críticas à instalação exagerada de eólicas e painéis solares por não só desfigurarem a paisagem como causarem prejuízos ecológicos. Um dos desenvolvimentos que se está a assistir é a instalação de eólicas offshore em vários sítios da costa. A existência de fortes ventos em áreas marítimas torna rentável a sua instalação, que também tem os seus custos ecológicos para além dos económicos. Por outro lado, Portugal é o 7.º país do mundo com maior produção de lítio, o que lhe confere uma potencial vantagem na electrificação da frota automóvel, que a União Europeia quer acelerar. Fala-se também muito no hidrogénio verde, mas a rendibilidade económica do seu uso generalizado nos transportes carece ainda de validação. O futuro vem aí, mais rapidamente do que era costume, e pode ser que ser fortaleça algumas das nossas esperanças.
MEU PREFÁCIO AO LIVRO DE BERNARDO NOGUEIRA «A CIÊNCIA DAS COISAS»
O mundo é feito de muitas coisas. E todas as coisas à nossa volta – e mesmo dentro de nós – podem ser estudadas pela ciência. Daí o título “A Ciência das Coisas” deste belo livro de ciência infantil de Bernardo Albuquerque Nogueira, tão bem ilustrado por Carlo Giovani. E como toda a gente se interroga, desde pequeno, sobre a natureza das coisas, esta obra poderá satisfazer a natural curiosidade dos mais novos. Como são as coisas? De que são feitas? Quais são as suas causas? Como se relacionam elas entre si?
A ciência – seja ela a química, a física, a astronomia, a geologia, a biologia, etc. – procura responder a estas questões. E o facto é, com o método da ciência, que se baseia na observação e na experimentação, sabemos hoje muito mais sobre o mundo do que dantes sabíamos. Decifrámos alguns dos seus mistérios, embora continuemos a tentar penetrar noutros. Sabemos que todas as coisas do mundo são formadas por átomos ou por componentes de átomos que se movem no espaço vazio. Sabemos que os átomos se podem agrupar de várias maneiras em moléculas e que os átomos e as moléculas se podem agrupar para formar substâncias (sólidas, líquidas ou gasosas). Sabemos o que é a luz e como ela interfere com os átomos, as moléculas e as substâncias. Sabemos também que os átomos e as moléculas participam em transformações químicas, isto é, que umas substâncias podem reagir com outras, mudando as suas qualidades. No fundo, a vida, de que somos exemplo, não é mais do que o resultado de um grande número de reacções químicas. Olhando para fora da Terra, vemos que há outros planetas próximos, que giram em torno da nossa estrela, o Sol. E sabemos também que, mais longe, há mais sóis e mais planetas, alguns dos quais poderão ser semelhantes à Terra. De facto, andamos à procura de outras Terras e desejamos saber se, noutros sítios, haverá vida e, talvez mesmo, seres vivos tão curiosos como nós. Sabemos, olhando para o que se passa na Terra, que temos exercido influência sobre as coisas à nossa volta, mas que nem sempre essa influência tem sido boa. Preocupamo-nos, por isso, com o nosso futuro na Terra.
Todas estas coisas estão bem explicadas nos seis capítulos deste livro: Átomos e Moléculas, Estados físicos e soluções, Luz, Reações e transformações, e, por fim, Sustentabilidade e futuro. Em cada capitulo há um conjunto de experiências simples de realizar usando materiais acessíveis. Como o livro mostra, a ciência faz-se não só observando com atenção, mas também experimentando com cuidado. O conjunto é uma excelente introdução à ciência, pensada de modo a atrair os mais pequenos para o conhecimento das coisas do mundo. Os leitores ficarão a saber que o mundo é, no fundo, bastante simples: há constituintes elementares e, por detrás da confusão que vemos, existem leis naturais que obrigam a que, em condições iguais, tudo funcione da mesma maneira.
O autor, um jovem químico e grande entusiasta da ciência, quer com este livro comunicar o seu entusiasmo a outros, a começar nas crianças e jovens, mas também aos educadores. Inventou como personagens a Maria, uma menina muito curiosa, e o seu urso de peluche, o Hélio. Os dois gostam de descobrir os segredos das coisas e convidam-nos também a essa descoberta. A menina representa qualquer um de nós, pois, como ela, todos temos curiosidade, todos queremos saber mais.
Este livrinho ajudará a que os mais novos despertem para a ciência, a química, mas também a física e a astronomia, levando-os a ganharem uma visão científica e, assim, perceberem melhor como é o mundo em que vivemos. Muitos parabéns, Bernardo, por este livro que me deu tanto gosto ler. Estou certo de que os outros leitores também vão gostar. Toda a gente sabe que a ciência é muito útil. Este livro mostra que também é muito divertida!
MEU PREFÁCIO AO LIVRO DE INÊS NAVALHAS «COMUNICAR CIÊNCIA E TECNOLOGIA. OS LIVROS DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA DA EDITORA GRADIVA NO ENSINO SUPERIOR»
PREFÁCIO
Este livro resulta de um trabalho de doutoramento que investigou uma colecção de livros de divulgação científica que tem tido um extraordinário impacto em Portugal. É, de resto, um dos poucos trabalhos realizados entre nós sobre uma colecção de livros. A tese, concluída brilhantemente em 2021 na Universidade Nova de Lisboa, é da autoria de Inês Navalhas: ela analisou a comunicação de ciência no Portugal democrático, centrando-se na coleção «Ciência Aberta» da Gradiva. Embora possa ser acusado de falar em causa própria, por ser autor de meia dúzia de livros dessa colecção, para além de a dirigir desde o n.º 200, estou em crer que a autora, juntamente com suas orientadoras, as Professoras Doutoras Maria Paula Digo e Paula Urze, fez uma escolha acertada ao considerar um tema – o da comunicação de ciência - de enorme relevância na sociedade contemporânea – e ao colocar o foco numa colecção emblemática que tem concretizado essa comunicação de ciência sob a forma de livro impresso.
Muitos leitores portugueses e no vasto espaço de língua portuguesa declararam-se beneficiários dessa colecção, iniciada em 1981 por Guilherme Valente (que tinha fundado a Gradiva um ano antes), e que, na data em que escrevo, já vai em 241 volumes publicados (só 237 são títulos diferentes, por ter havido quatro títulos reeditados com novas capas e conteúdos revistos). O crescimento da ciência e da tecnologia em Portugal desde 1995, impulsionado em grande medida pelo ministro da Ciência e Tecnologia José Mariano Gago, só foi possível por ter sido acompanhado pelo aumento da cultura científica, espelhado de um modo especial pela publicação de livros de divulgação científica e tecnológica. Houve quem tivesse chamado «geração Gradiva» à dos jovens leitores cuja formação foi bastante ajudada por esses livros. O editor percebeu a falta de ciência no panorama cultural português e soube-a colmatar de forma clarividente. Recebi no ano de 2012 – há dez anos – o testemunho dele e não podia deixar de aceitar a continuação que me pediu: o essencial já estava feito e tratava-se apenas de manter o rumo, tendo sempre em vista o objectivo de sustentar a cultura científica. Ao coordenar a «Ciência Aberta», linha do currículo que muito me orgulha, tenho tido o gosto de ver crescer uma obra semeada há mais de 40 anos. Enriqueço-me a ler em primeira mão originais, de autores nacionais e estrangeiros, que são excelentes fontes de conhecimento científico, e folgo em saber que também outros, muitos outros, beneficiarão tal como eu da respectiva leitura. Tenho tentado aumentar o número de autores portugueses, espelhando o crescimento da ciência no nosso país. Foram 14 os autores portugueses (três deles com duas obras, o físico Jorge Dias de Deus, infelizmente já falecido, o químico João Paulo André e o matemático Jorge Buescu), no total das 41 obras que saíram nesta segunda fase da colecção.
Guardo nas minhas estantes todos os livros da colecção «Ciência Aberta», muitos deles esgotados. Do n.º 1 só possuo a 3.ª edição, de 1985, já que as duas primeiras esgotaram logo: O Jogo dos Possíveis. Ensaio sobre a diversidade do mundo vivo, do biólogo francês François Jacob, prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina em 1965. Note-se que o original francês, saído na Fayard, é do mesmo ano, 1981, que o da publicação em português. A tradução teve revisão científica de Luís Archer, professor da Universidade Nova de Lisboa e investigador do Instituto Gulbenkian de Ciência (e, já agora, jesuíta e especialista em ética da vida). Este facto dá conta da preocupação, presente desde o início, com a qualidade das edições, o que passa não só pela selecção dos melhores autores e títulos, mas também pela fidelidade aos textos originais. O mesmo autor, que faleceu em 2013, reaparecia no n.º 91 da «Ciência Aberta», O Ratinho, a Mosca e o Homem, o seu último livro, saído entre nós em 1997, de novo no mesmo ano do original francês. O volume mais recente da «Ciência Aberta», o n.º 241, é Amor, Matemática e outros Portentos, de Jorge Buescu, o autor nacional com mais títulos na colecção (sete no total, ou oito se acrescentarmos a sua participação numa obra colectiva, Despertar para a Ciência). Como assinala Inês Navalhas, que faz uma cuidadosa análise dos títulos publicados, o autor com mais livros na colecção – nada mais nada menos do que treze – é o astrofísico franco-canadiano Hubert Reeves, o autor do grande sucesso editorial que foi o n.º 2, Um Pouco Mais de Azul (os versos do francês Paul Verlaine «Patience dans l’Azur» do original foram substituídos por versos do português Mário de Sá Carneiro). Outro autor emblemático da «Ciência Aberta» é, com certeza, Carl Sagan, o autor de oito títulos, entre os quais Cosmos, o n.º 5 da colecção, que é um dos maiores best-sellers da divulgação de ciência no mundo (só terá sido batido por Breve História do Tempo, de Stephen Hawkings, o n.º 27, com prefácio precisamente de Carl Sagan, que vendeu mais de dez milhões de exemplares em dezenas de línguas).
Quem estiver interessado numa análise pormenorizada da colecção fará bem em ler este livro. Inês Navalhas recolheu informações, não só olhando para as fontes escritas como ouvindo editores e autores: pela parte que me toca só posso dizer que foi correctíssimo o modo como me ouviu e transcreveu o que lhe disse, numa longa entrevista sobre divulgação de ciência em geral e a dita colecção em particular. Este livro reúne informações muito interessantes sobre uma colecção que marcou e continua a marcar o panorama editorial português (são raras as séries de livros que já levam mais de quatro décadas de publicação ininterrupta).
Os leitores poderão pensar que as teses académicas são áridas, mas a verdade é que esta se lê muito bem. Tem, como teria de ter, algum aparato erudito, designadamente no enquadramento inicial do tema, mas depois fornece de uma forma simples e consistente um conjunto de dados que proporciona uma visão adequada das obras em causa e apresenta os resultados de inquéritos sobre comunicação de ciência e a leitura dos livros da «Ciência Aberta» feitos a professores e estudantes da Universidade Nova de Lisboa. O rol de respostas dadas dever-nos-ia fazer reflectir sobre o tempo que atravessamos: os livros em geral são menos lidos pela nova geração, em resultado não apenas da transição para o mundo digital, mas também, como Guilherme Valente certeiramente assinala, por uma certa falência do sistema educativo na formação para a leitura. Existindo um Plano Nacional de Leitura, os seus resultados não são ainda decerto os que todos gostaríamos.
Termino realçando o papel do editor de livros. Este é alguém que sabe lançar sementes à terra, para que as árvores cresçam e se possa beneficiar dos seus frutos. Guilherme Valente criou uma colecção que tem procurado dar resposta à ânsia intelectual que caracteriza a espécie humana. Como tão bem disse Carl Sagan, a nossa ambição deve ser o conhecimento, sendo a ciência um meio indispensável para esse fim.
Felicitando a autora pelo seu trabalho, desejo boas leituras deste livro e também – há muito por onde escolher – dos livros da colecção, mais antigos ou mais recentes, que ele analisa. Eles estão nas bibliotecas ou nas livrarias à nossa espera.
Coimbra, 15 de Outubro de 2022
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