domingo, 18 de abril de 2021

PRIMÓRDIOS DA CIÊNCIA MODERNA EM PORTUGAL

 


Meu artigo que tem sido publicado em vários órgãos da imprensa regional, num projecto coordenado por António Piedade (na imagem a Casa das Necessidades dos Oratorianos).

O atraso com que a ciência moderna – a ciência inaugurada por grandes nomes da Revolução Científica como Copérnico, Galileu, Descartes e Newton – chegou a Portugal pode ser ilustrado pelo edital afixado à porta do Colégio das Artes em Coimbra em 1746, assinado pelo reitor dessa escola jesuíta: “Nos exames, ou Lições, Conclusões públicas, ou particulares, se não ensine defesas ou opiniões novas pouco recebidas, ou inúteis para o estudo das Ciências maiores como são as de Renato Descartes, Gassendi, Newton, e outros, e nomeadamente qualquer Ciência, que defenda os átomos de Epicuro, ou negue as realidades dos acidentes Eucarísticos, ou outras quaisquer conclusões opostos ao sistema de Aristóteles, o qual nestas escolas se deve seguir.”

Esta é apenas uma das peças de um conflito, que ficou famoso, entre os Antigos – os seguidores de Aristóteles, e os Modernos, os seguidores do método científico, baseado na observação, na experiência e na razão matemática, que marca a dita Revolução. A meio do século XVIII, quando os franceses Descartes e Gassendi, os dois contemporâneos de Galileu, e o inglês Newton, da geração seguinte, já tinham falecido há muito tempo, as suas ideias permaneciam interditas entre nós. De nada valia o facto de Gassendi ter sido padre católico, pois ele tinha ousado recuperar as ideias atomísticas dos gregos, que para a teologia oficial colidiam com a fé.

O domínio da Igreja não ajudou. O Index de Livros Proibidos, surgido entre nós em 1551 ainda antes do seu equivalente romano, baniu Copérnico, Galileu e Descartes (e só a 31 de Março de 1821, há 200 anos, a Inquisição, que zelava pela aplicação do Index, foi extinta!). A persistência da reacção ao sistema heliocêntrico de Copérnico, defendido sem sucesso por Galileu em 1633 na Inquisição de Roma, é também elucidativa do atraso nacional. Em 1753, numa obra de autor anónimo (provavelmente um beneditino) diz-se: “Se é o mesmo opôr-se à Fé que ser falso, como se não envergonham de dizer que no sistema de Copérnico se explicam melhor os fenómenos da natureza?”.

Para o triunfo dos Modernos foram obras decisivas a Lógica Racional, Verdadeira e Analítica (1754), de Manuel de Azevedo Fortes, e o Verdadeiro Método de Estudar (1756), de Luís António Verney (reeditado nas Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, Círculo de Leitores, 2018). Tanto uma como outra se inspiram em Descartes.

Foram os Oratorianos, a Ordem fundada em 1565 por S. Felipe de Nery, que, em Portugal, mais impulsionou a Ciência moderna. Em 1751 saíram os primeiros dois volumes da Recreação Filosófica, do oratoriano Teodoro de Almeida. Este primeiro tratado de Física em português (reeditado nas referidas Obras Pioneiras, 2017) já segue uma orientação marcadamente moderna. No colégio lisboeta dos Oratorianos – onde hoje é o Ministério dos Negócios Estrangeiros – davam-se desde 1752 aulas de Física com demonstrações experimentais, às quais o rei D. José assistiu. Essa actividade pedagógica, na qual o Padre Almeida participou, precedeu de duas décadas a Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra, de 1772, que instituiu o ensino experimental das ciências na então única universidade portuguesa.

A Academia das Ciências de Lisboa só ter surgido em 1779, mais de um século após a sua congénere britânica, a Sociedade Real de Londres, à qual o Padre Almeida pertenceu. Foi este autor que, que após um exílio de uma década em Espanha e França devido ao fecho pelo marquês de Pombal do colégio oratoriano, fez a primeira oração de sapiência na nova academia, na qual equiparou Portugal a Marrocos, originando protestos dos apaniguados do marquês.

É injusto, como fez a máquina de propaganda pombalina, acusar os jesuítas de extremo atraso. Alguns deles deram grandes exemplos de modernidade. Foram os jesuítas italianos Paolo Lembo e Christophoro Borri que trouxeram para Portugal o telescópio de Galileu menos de quatro anos depois de ele ter sido, em 1609, usado pela primeira vez em Itália. E foi daqui que ele foi para o Oriente. A Aula da Esfera, que funcionou no colégio jesuíta de Santo Antão, onde hoje é o Hospital de S. José, foi uma fértil escola internacional de Matemática desde a sua fundação em 1590, até ao seu inglório encerramento pelo marquês em 1759. O jesuíta Manuel Dias, em 1615, foi o primeiro a referir na China as descobertas de Galileu, no seu livro em mandarim Sumário de Questões Celestiais. A Revolução Científica entrou na China por mão portuguesa!

Mas impõe-se uma nota ainda mais importante: a Revolução Científica não teria sido possível sem os Descobrimentos portugueses, que valorizaram a experiência como a “madre das coisas”. De facto, as bases do método científico encontram-se já na obra de sábios portugueses quinhentistas como os médicos Amato Lusitano e Garcia de Orta, o matemático Pedro Nunes, e o geofísico D. João de Castro. Eles foram, por isso, pioneiros da ciência moderna. Atraso? Não, nestes casos houve adiantamento…

Carlos Fiolhais*
*Professor de Física da Universidade de Coimbra


Ciência às Seis (online): "A Genética na medicina de precisão: riscos, prevenção e tratamento à medida"


Na próxima terça-feira, dia 20 de Abril às 18h, via plataforma Zoom, realiza-se a palestra intitulada "A Genética na medicina de precisão: riscos, prevenção e tratamento à medida" com a Professora Manuela Grazina da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular - CNC UC.

Sessão inserida no ciclo Ciência às Seis, iniciativa do RÓMULO com a coordenação de Carlos Fiolhais e colaboração de António Piedade, em formato Digital 💻📱Destinada ao público em geral, a sessão é de participação livre e não necessita de inscrição.

Aceda à sessão no Zoom através do link: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/84668357011
ou ID da reunião: 846 6835 7011  

Resumo da Palestra:

A complexidade bioquímica do corpo humano revelada pela ciência tem consequências importantes a vários níveis, nomeadamente na interação com o ambiente, com os alimentos e com diversos tipos de substâncias, nomeadamente medicamentos.

A variabilidade genética individual é determinante nessa interação, influenciando a forma como o organismo responde aos diversos estímulos ou substâncias exógenas e contribui para a diversidade de riscos para a doença e respostas aos tratamentos.

O entendimento dos mecanismos subjacentes a essas respostas é essencial para a compreensão da heterogeneidade no modo como o corpo humano funciona, bem como para aumentar a precisão na identificação de fatores de risco para doenças, eventualmente associados a biomarcadores, ou na eficácia dos tratamentos, prevenindo a toxicidade ou efeitos adversos.

Embora ainda não possa ainda ser aplicada de forma generalizada, a Medicina de Precisão já é uma realidade nos nossos dias e pode contribuir de forma muito significativa para a melhor gestão dos tratamentos e prevenção de efeitos adversos ou mesmo de patologias, tendo em conta a informação genética individual.

Biografia da Oradora:

Manuela Grazina é especializada em Genética Bioquímica, Genética Humana, Neurociências, Farmacogenómica e Bigenómica. É Doutorada em Ciências Biomédicas, na área de Genética Bioquímica, com Pós-Graduação em Biomedicina, Mestre em Biologia Celular (especialização em Neurogenética) e Licenciada em Bioquímica  pela Universidade de Coimbra.

É Professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), com afiliação desde 1997 (Unidades Curriculares Bioquímica, Bioquímica da Imagem, Neurociências e Farmacogenómica). Foi docente em disciplinas de Genética Humana nas Universidades do Algarve (2008-2015) e de Évora (2010-2015), ao abrigo do regime de Cooperação entre Universidades, colaborando ainda com outras Universidades/ Faculdades (e.g. Faculdades de Farmácia de Coimbra e de Lisboa, Faculdade de Medicina e de Farmácia da Universidade de Lisboa, Universidade Nova de Lisboa – Medicina; Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar – Porto, ITQB, Universidade de Aveiro).

É investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra (CNC), em ligação estreita com a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, desde 1992, sendo líder do Grupo de Investigação, desde 2007 “Investigação Translacional Reversa em Doenças Bigenómicas e Medicina Personalizada”, no âmbito do Programa Inter-Institucional de Investigação Biomédica (http://www.cnbc.pt/outreach/outreach16.asp), com foco no estudo de um grupo de doenças raras, as citopatias mitocondriais (“avarias da fábrica da energia celular”) e em doenças neuropsiquiátricas, particularmente dor e toxicodependências.

É a Responsável do Laboratório de Biomedicina Mitocondrial e Teranóstica (no CNC / FMUC), que fundou, desde Março de 1995, onde estabeleceu uma equipa de trabalho e desenvolveu testes bioquímicos e genéticos como ferramentas para a investigação translacional e diagnóstico, com uma forte componente de Serviços à comunidade, tendo várias colaborações internacionais, em que se destaca o Baylor College of Medicine (Houston, USA), University of Newcastle upon Type (UK), Mitochondrial Biology Unit - Medical Research Council (Cambridge, UK) e CICAB Clinical Research Centre Extremadura University Hospital and Medical School, (Badajoz, Espanha).

A Orquestra Clássica do Centro, homenageando as “mulheres na Ciência”, dedicou-lhe o seu primeiro Concerto Prestígio de 2019, destacando o trabalho que tem desenvolvido no Laboratório de BioMedicina Mitocondrial e Teranóstica.

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 RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Departamento de Física da FCTUC 

Rua Larga
3004-516 Coimbra

Telefone: 239 410 699

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

 Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto.

NOVIDADES EDITORIAIS

 Série “Autores Gregos e Latinos – Ensaios Breves"

- Henrique Modanez de Sant’Anna: A fabricação de Alexandre Magno: habilidade política e genialidade militar nas fontes antigas (336-331 AEC) (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2021). 198 p.  

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2100-5

 

[Este livro propõe uma crítica às formulações narrativas que enaltecem a habilidade política e a genialidade militar de Alexandre Magno, com destaque para os relatos antigos sobre os eventos ocorridos entre 336 e 331 AEC e para as biografias escritas em língua inglesa entre a década de 1970 e os anos 2000. Optou-se pela análise das narrativas historiográficas e biográficas antigas (Diodoro Sículo, Quinto Cúrcio, Plutarco, Arriano

e, ocasionalmente, o epítome de Pompeu Trogo escrito por Justino) que, ora com aparência de crueza objetiva, ora de discurso hiperbólico, trazem percepção similar de Alexandre e relatos contraditórios sobre os eventos narrados. Espera-se, com isso, que se possa pensar especialmente a dinâmica de apresentação dos feitos do macedônio considerado como um dos grandes líderes da Antiguidade.] 

Fora de Série [estudos]

 - Belmiro Pereira & Marta Várzeas, Retórica e Poética (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2021) 242 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2078-7

[O uso formalizado e eficaz da palavra constitui o principal ponto de interseção de duas artes milenares que, como tantas outras, tiveram origem na Grécia Antiga: a Poética e a Retórica. Este volume reúne um conjunto de artigos sobre as relações entre estas duas artes do logos, da autoria de especialistas vindos de diferentes áreas do conhecimento: os Estudos Clássicos, a Filosofia e a Literatura Portuguesa. Os artigos cobrem um vasto lapso temporal, que vai da Antiguidade até ao séc. XXI, e abordam questões mais teóricas, como as relacionadas com determinados conceitos – clímax, sublime, ou mesmo hermenêutica, retórica e poética –, e outras mais práticas, que consistem na análise de textos literários à luz de aspetos da teorização retórica.]

PARA QUE SERVE A CULTURA?

 


Novo texto de Eugénio Lisboa (na foto, José Régio, aqui citado):

No malogrado diário Europeu, dirigido por Augusto de Carvalho, nos anos oitenta do século passado, publiquei a primeira de uma série de crónicas, com o inquietante título acima. A pergunta preocupava-me e nunca, para ela, encontrei uma resposta satisfatória. Como nem o jornal onde foi publicada nem o livro onde foi recolhida são de fácil acesso, e dado me parecer que a pergunta merece reflexão, trago-a aqui de novo e muito me agradaria que fosse comentada. 

 Na imprensa, uns pugilistas, braços nus, 
Uns contra os outros, rábidos, disparam 
Sarcasmos, que ao diabo não lembraram… 
Que línguas, santo nome de Jesus! 
Camilo, Nas Trevas (sonetos sentimentais e humorísticos) 

 Quando era mais novo e mais inocente, acreditava que havia três mundos sagrados, onde o espírito soprava, privilegiadamente: o da Arte, o da Religião e o da Academia. O templo da criação, o templo do retiro e da meditação solitária, o templo da reflexão e do diálogo. Cá fora era o caos, a poluição, a falta de rigor, a promiscuidade… Dos três templos, só o da religião me parecia inacessível, por me faltar a fé. Ainda assim, ousava eu dizê-lo, de mim para comigo, como me seduzia às vezes, depois do vendaval e da intensidade das paixões (com o seu desgaste e o sentido de abaixamento que não raro nos infligem), um bom retiro e uma longa meditação, num vasto e frio claustro apetecido! Que pena ser a fé um ingrediente indispensável! Assim sonhava, e vejo hoje para quão longe da realidade eu disparava o meu apetecer!

 A vida dá-nos muito e tira-nos ainda mais. Tira-nos, sobretudo, as nossas melhores ilusões. Sei hoje – e sabe-o quem não queira persistir em alimentar sonhos e alienações que já nada sustenta – que o mundo da Arte, o mundo da Religião e o mundo da Academia nada têm de sagrado: são territórios profanos, tão bons e tão mesquinhos como quaisquer outros onde se desenvolve a actividade dos humanos, com as suas grandezas e as suas infâmias. Ocasionais Palatinos de intrigas pérfidas, de sórdidas lutas pelo poder, palcos de intrigas bizantinas, terrenos quase sempre improváveis para o activo «exercício da bondade», para usar uma expressão cara a José Régio – a Arte, a Religião e a Academia nada têm a oferecer de sofisticadamente especial à sensibilidade refinada e ao gosto austeramente exigente.. Ou por outra: não a Arte, a Religião e a Academia em si, mas o terreno, o contexto humano em que tais pelouros se manifestam… O homem tudo reduz à sua dimensão quotidiana, que não é necessariamente estimável e, menos ainda, particularmente admirável. De aí que muito cedo me tenha começado a chocar a atmosfera de zaragata adstringente em que frequentemente se processa o «diálogo» dos nossos escritores, dos nossos artistas, dos nossos homens de cultura… A luta desenfreada pelo território ocupado, a ânsia de captar, manter e expandir as chamadas «zonas de influência», a paroquial preocupação com uma reputaçãozinha provinciana e nem por isso menos apreciada, cedo inclinam o «diálogo» no sentido do famigerado «modelo de polémica portuguesa» (Camilo). A tal ponto tudo tende a descambar no insulto pessoal, no dichote, na insinuação pequenina e um pouco sórdida, que a higiene quase sempre recomenda que voltemos a cara para outro lado. «Ó Musa da calúnia, não me contes / D’esta lusa Calábria altos mistérios», gemia Camilo que no entanto mergulhou até ao pescoço no pântano da milenar polémica portuguesa, cujo perfil ajudou a delinear. Diante deste espectáculo pouco estimulante, turvo e torpe, apetece perguntar: «Mas, afinal, para que serve a cultura? Para que serve, se nos não dá um padrão de conduta elegante, se nos não afina nem o espírito nem os códigos de comportamento?» Repito: «Para que serve a cultura? Que faz ela de nós, que nos não torna melhores? Que faz ela que nos não dá o gosto de um estilo, de uma estética das maneiras, que em nós não promove o sentido de uma rigorosa exigência?» 

É claro que a cultura é uma coisa e a moral é outra. Mas já Gide insinuava que a moral era, ao menos, uma eventual dependência da estética (e não o inverso, diga-se de passagem). Seja como for, alguns de nós gostaríamos de pensar que a estética promove ou desencadeia uma certa elegância do proceder porque o contrário disso… é feio (como dizem os pais às criancinhas, quando elas praticam um acto moralmente punível: note-se a contaminação do moral pelo estético, que naturalmente o absorve). A este respeito, observava Somerset Maugham (que era, por sinal, um espírito livre e desenvolto, alheio a preconceitos e por isso detestado e desprezado pela classe menos inteligente que a Inglaterra até hoje produziu – a dos «high-brows»): «O valor da cultura é o seu efeito no carácter. Não serve propósito nenhum a não ser que o enobreça e o fortaleça. O seu uso é a própria vida. O seu objectivo é, não a beleza, mas a bondade». Não sei se será assim. A verdade é que os factos observáveis nos levam frequentemente a pensar, ainda com Maugham, «que o único uso da cultura é permitir que digamos disparates com alguma distinção». E, às vezes, mesmo sem qualquer particular distinção. A cultura torna-se um mero «ornamento» social ou, no limite, um equipamento profissional que não confere qualquer especial elegância de gestos ao eventual manipulador dela. Neste extremo (que não é uma raridade), a cultura, como notava Simone Weil, «é um instrumento manejado por professores para fabricarem professores que, chegada a sua vez, fabricarão outros professores». Tudo à margem de qualquer superioridade, distinção, exemplaridade e, muito menos, sacralidade… 

Pode compreender-se e fazer-se até um inventário inteligente das causas deste fenómeno um tanto penoso. É um facto: os artistas, os escritores convivem mal uns com os outros. Nos seus romances, em especial no ciclo romanesco A Velha Casa e também no notável e pouco lido romance que é o Jogo da Cabra Cega, José Régio fez, entre outras notáveis coisas, um levantamento perfidamente penetrante e exaustivo das armadilhas em que tropeça, no convívio com «os outros», a fauna dos artistas e, de um modo geral, dos homens de cultura. E na sua extraordinária Confissão dum homem religioso, Régio voltou ao assunto: «Por agora», notava ele, num capítulo precisamente intitulado «O Convívio Humano», «não versarei senão as dificuldades que levanta o exercício da literatura. Creio serem mais ou menos conhecidos os ressentimentos, as rivalidades, as lutas aceradas e mesquinhas, as pequeninas intrigas, os rancores manifestados ou recalcados, os impulsos de revindicta, etc., que se criam entre os criadores literários, ou entre os criadores e seus críticos, ou ainda entre os criadores e o público. A necessidade de compreensão, aprovação e apologia – torna todo o artista vibrantemente sujeito a esses por vezes baixos fenómenos psíquicos». Eu iria um pouco mais longe do que Régio: é a necessidade de aprovação e apologia, aliada a uma permanente incerteza ou insegurança que estão na base do comportamento não raro pouco elegante de tanto escritor e artista. Rivalidade, espírito de competição – existem em todos os sectores da actividade humana, incluindo o pelouro científico. Simplesmente, neste último, tudo se processa a um nível menos áspero, mais civilizado. É que, como observava C. P. Snow, «um cientista criador tem, em regra, uma razoável certeza quanto ao valor da sua obra», ao passo que a maior parte dos escritores e pintores não a têm. Os critérios de avaliação dos resultados, em arte, não têm a mesma meridiana segurança e nitidez que poderão ter os de avaliação idêntica, em ciência. Um êxito, no domínio científico, sossega e aplaca. Um «êxito», em arte, deixa perpetuamente inquieto o seu autor, porque nenhum juízo lhe pode dar uma garantia segura do valor da sua obra. De aí, insinuava Snow, o bizarro e inquietante comportamento do grande poeta americano, Robert Frost, que, inundado de prémios e comendas, mas sempre inseguro, sofreu até ao último minuto com a angústia do Prémio Nobel, que acabou por nunca chegar… Um grande poeta, pendurando o seu destino num prémio falível! Um grande artista que honraria qualquer prémio, aguardando, com ansiedade «cocasse», uma recompensa que já nada lhe acrescentaria à glória! Mas Eliot tivera o prémio e Frost queria-o também! «De todas as paixões, comentava Snow, «a inveja – e tanto mais quando devora personalidades de grande formato – é a menos agradável de contemplar.» Frost era um grande poeta e, em alguns aspectos, um grande homem. Mas era um grande homem que a sua imensa cultura e convívio profundo com as coisas e pessoas da cultura não afinaram até ao ponto de ser capaz de desprezar uma honraria discutível. Stendhal afirmou um dia que chegara a saber alemão tão profundamente como o francês, que era a sua língua, mas que esquecera deliberadamente a língua de Goethe, por desprezo, ao dar-se conta de que os alemães levavam a sério as condecorações. Entre esta atitude extrema e o patético desassossego de Frost, eu opto decididamente por Stendhal. Há neste pequenismo de se levar a sério um galardão qualquer, mesmo supostamente importante, uma inelegância fundamental, uma falta de integridade em relação aos fundamentos da própria criação, um habitar de zonas superficiais que nada têm que ver com a génese profunda que o acto criador implica. Há, em suma, uma falta de estilo infinitamente dolorosa de contemplar. Os galardões e prémios dão uma certa alegria festiva à vida e, às vezes, uma certa compensação material. Mas, se uma vida de alegria profunda, como se supõe que é a alegria da criação, se vê subtilmente ameaçada por aquilo que não é do domínio do essencial, então apetece perguntar: Para que serve a arte? Para que serve a cultura? Para que servem, se tudo quanto produzem, como resultado, é uma fauna humana cujo comportamento milenar é de uma suprema falta de estilo? «A civilidade recíproca entre autores é uma das cenas mais risíveis na farsa da vida», observava o implacável Dr. Johnson, testemunha aguda da comédia humana do seu tempo. Ai de mim, de então para cá as coisas não mudaram para melhor! O poeta hindu Tutsi Das passava por ter chegado a um tal estado de afinação, doçura e sintonia com a natureza, que conseguia comunicar com todas as criaturas vivas dos bosques. E Rabindranath Tagore, grande poeta indiano do século XX, possuía um espírito tão suave e gentil, que os esquilos lhe trepavam pelas pernas acima e os pássaros vinham, sem receio, pousar-lhe nas mãos. Pudesse isto ficar como emblema do que a verdadeira cultura, fecundando o que em nós há de melhor, deveria afinal produzir: um estilo, uma elegância, um panache, uma bondade, uma doçura de viver. Uma capacidade de desprezar tudo quanto não é essencial. Uma lealdade fundamental com o nosso eu profundo. Um decidido voltar as costas aos jogos mundanos, aos códigos em voga e às «zonas de influência». Uma forma de saber escutar o «canto profundo». E só esse. 

 Eugénio Lisboa

"É o tango mais antigo do mundo": Um apontamento sobre a importância da memória no trabalho pedagógico


"Os jovens precisam do conhecimento que é adquirido 
sem o recurso único a rotinas de memorização."
Grupo de consultores do projecto OCDE, 2018 (aqui)

"Tudo isto, porque aprender melhor e com significado é crucial 
para termos jovens que exercem a sua cidadania de forma plena, 
alicerçada em conhecimento consolidado e não 
em vagas memórias de coisas que 'se deram' e não permaneceram". 
Secretário de Estado da Educação, 2018 (aqui). 

Há mais de um século que, mesmo sem recusarem liminarmente o papel da memória na aprendizagem, teóricos, educadores, políticos, órgãos de comunicação e sociedade em geral, têm vindo a menorizá-la, a desprezá-la, em favor da compreensão, da crítica e da criatividade. Isto como se a capacidade de reter e (re)organizar informação fosse contraproducente ou impedisse o desenvolvimento e a expressão dessas outras capacidades.

É assaz curioso notar que, depois dos anos sessenta, enquanto a memória era estudada por meios científicos modernos e, em virtude disso, declarada, como "aparelho de aprendizagem", o currículo escolar ocidental, oficial,   passava a negar-lhe, de forma muito alargada, o seu lugar no trabalho pedagógico. Esta dissensão foi crescendo, até ao presente: nunca soubemos tanto sobre essa ainda misteriosa capacidade, mas as reformas dos sistemas de ensino, talhadas segundo o modelo único da OCDE, replicam a ideia profundamente errada de que é possível, é desejável, conhecer sem que a memória seja colocada no centro desse trabalho.

Reproduzimos, com supressões e adaptações, um texto assinado por Emma Ferrand e publicado no Le Figaro - Étudiant do dia 11 deste mês, que contribui para desmistificar junto do público a névoa pedagógica em que a memória se encontra envolta, com prejuízo, claro está, da aprendizagem que os nossos alunos fazem (ou não fazem).

Maria Helena Damião e Isaltina Martins

"Considerada desactualizada pelos pedagogos contemporâneos, a aprendizagem que requer saber de cor volta a estar na moda. Os investigadores são claros: ao trabalharmos a memória, trabalharmos também a concentração e as habilidades organizacionais. 
Rosa rosa rosam, Rosae rosae rosa... É o tango mais antigo do mundo, aquele que as cabeças loiras trauteiam como uma canção de roda, ao aprenderem o seu latim”, cantava Jacques Brel que relembrava, com ferocidade, os seus tempos de colégio. Mas já vai longe o tempo em que os alunos recitavam as conjugações latinas e aprendiam a lista dos departamentos. 
"A aprendizagem pela memorização caiu em desuso a partir dos anos 60 e 70", explica Claude Lelièvre, historiador de educação e autor do livro L’école d’aujourd’hui à la lumière de l’histoire (éd. Odile Jacob). A partir daí, os alunos decoram alguns poemas, a tabuada e datas importantes. “Aos poucos, os franceses, sensíveis à modernidade, inclusive no que respeita à educação, vão abandonando o “saber de cor”, acrescenta. Hoje, apenas países como a China continuam a promover a memória. 
A importância da repetição 
Boas notícias, o “saber de cor" não está morto. Há sinais de um renovado interesse. Realizam-se, desde há vários anos (…) competições de eloquência organizadas pelas melhores universidades e escolas francesas. Exercícios em que a memória é muito solicitada (…). Desde 1991 há concursos de memória um pouco por todo o mundo.
Uma mudança na educação nacional [em muito devida ao trabalho de investigadores da psicologia cognitiva], em particular de Alain Lieury, que se dedicou ao assunto nos anos 90. No seu livro Memória e sucesso académico [Dunod, 1997] destaca um ponto essencial: fazer funcionar a memória com métodos comprovados é a chave do sucesso escolar. Em particular, reabilitou a repetição abandonada nos anos de 1970 em favor da "compreensão".
(…). Mais importante, os investigadores mostram que a memória faz funcionar outras partes do cérebro. Para Thomas Buttaci, neuropsicólogo, “trabalhando a memória, as crianças trabalham a concentração, as capacidades de organização e de planificação. “A poesia é benéfica para melhorar a expressão oral, o vocabulário e a autoconfiança, por exemplo”, explica. 
Para fixar, o cérebro precisa de estar “atento, de associar conhecimentos e de treino para os consolidar”, observa Sébastien Martinez, formador em estratégias de memorização e campeão de França da memória, em 2015. Para que o cérebro grave, também é necessário dar-lhe tempo, é preciso atender ao seu ritmo. “Mas os nossos professores hoje estão stressados com um programa que precisam de cumprir, pelo que os alunos não podem aprender adequadamente, acrescenta (…). 
Um ganho de tempo 
Ter boa memória é também vantajoso para o adulto. “Num engarrafamento, um taxista que saiba as estradas de cor é mais eficaz do que um que só use o GPS (…), explica Catherine Thomas-Anterion, neurologista. 
Para Sébastien Martinez, “recitar conhecimentos sem pensar é essencial. Há muitas informações que precisamos de usar de modo automático". 
Uma pedagogia ainda considerada reaccionária
Alguns professores, percebendo a importância do uso da memória, lamentam que tenha estado tanto tempo no purgatório. É o caso de Chantal, professora de Val-de-Marne que “tem pena que se tenha considerado que o conhecimento deveria vir da criança, deixando-a descobri-lo por si mesma. É uma perda de tempo. Cabe-nos a nós transmiti-lo” (…) “uma criança não consegue adivinhar as regras gramaticais enquanto realiza um exercício. É contraproducente (…). "
Os humanos foram concebidos para aprender
Não faz sentido pensar que “aprender de cor” é o reverso da compreensão. "Seria um disparate aprender apenas de cor. É preciso também compreender e reflectir (…)”, diz Catherine Thomas-Anterion. Mas a magia de decorar é que faz com a aprendizagem flua. “Os conhecimentos que já adquirimos constituem um terreno fértil para os próximos. Os humanos foram concebidos para aprender. E é excelente quando retiram daí prazer ”, conclui Sébastien Martinez.

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[1] https://greatsong.net/PAROLES-JACQUES-BREL,ROSA,102338641.html  

segunda-feira, 12 de abril de 2021

CONTRATO EM ESTABELECIMENTO COMERCIAL: “NÃO SATISFAZ… E NÃO SE DESFAZ?”

Novo texto do Professor Mário Frota, especialista em Defesa do Consumidor, que muito agradecemos.

CONTRATO

EM ESTABELECIMENTO COMERCIAL:

“NÃO SATISFAZ… E NÃO SE DESFAZ?”


“Fiz um contrato num estabelecimento comercial.

Mas fi-lo após haver sido  pessoalmente contactado por quem, ao serviço da empresa, promovia os produtos na praça pública e a tal estabelecimento me conduziu.

Achei estranho o procedimento. Por não estar habituado.

Pareceu-me uma “americanice” com todo o alarido à mistura.

O facto é que saí de lá com o produto nas mãos.

Passado o entusiasmo inicial, verifiquei que o produto (um aspirador de mão) para nada me servia para além de ter muito pouca potência de aspiração, ao contrário do que constara da demonstração.

Não me deram a hipótese, que tantas vezes sucede, de um “satisfeito ou reembolsado”.

Voltei lá para o devolver por não ter ficado satisfeito com o que comprara".

Resposta pronta do gerente, que me atendeu: “contrato celebrado no estabelecimento ou é a contento (só fica se gosta) ou é sem arrependimento (não gosta, mas não reposta)”

Contrato em estabelecimento é contrato para valer: “não satisfaz mas não se desfaz”!

E pergunto agora: é assim, não tenho hipótese de voltar com a palavra atrás?”

Visto o exposto, cabe emitir opinião:

1.  Com efeito, a compra e venda em estabelecimento, salvo se celebrada a contento (no caso de a coisa agradar ao consumidor) ou sujeita a prova, ou se padecer de vício (a desconformidade da coisa com o contrato, em que se actuaria a garantia legal e ou comercial), não permite que o consumidor se retracte (dê o dito por não dito) sem consequências (isto é, sem os encargos daí advenientes).

O contrato, segundo uma velha máxima romana, é, nestas circunstâncias, para ser cumprido” (“pacta sunt servanda”).

2.  Só que, no caso, a Lei dos Contratos à Distância e Fora de Estabelecimento de 14 de Fevereiro de 2014 considera como contratos fora de estabelecimento os celebrados em dadas circunstâncias, a saber:

2.1.       no domicílio do consumidor (contratos porta-a-porta);

2.2.       no local de trabalho do consumidor (contratos no trabalho);

2.3.       em reuniões em que a oferta seja promovida por demonstração perante um grupo de pessoas reunidas no domicílio de uma delas, a pedido do fornecedor (ou seu representante) (contratos no decurso de reuniões “tupper-ware”);

2.4.       durante uma deslocação organizada pelo fornecedor (ou seu representante) fora do respectivo estabelecimento comercial (contratos com base em ofertas “tipo” “conheça a… Galiza grátis”);

2.5.       no local indicado pelo fornecedor, a que o consumidor se desloque, por sua conta e risco, na sequência de uma comunicação comercial feita por aquele (ou seu representante) (contrato por convite a contratar);

2.6.       no estabelecimento comercial do fornecedor ou através de quaisquer meios de comunicação à distância imediatamente após o consumidor ter sido, pessoal e individualmente, contactado em local que não seja o do estabelecimento (contratos em decorrência de contactos de rua).

3. Por conseguinte, os contratos celebrados no estabelecimento comercial do fornecedor imediatamente após o consumidor ter sido, pessoal e individualmente, contactado em local que não seja o do estabelecimento (contratos em decorrência de contactos de rua) são havidos como se fosse fora dele (isto é, fora de estabelecimento.

4. E gozam dos mesmos direitos que os contraentes que os hajam celebrado fora de estabelecimento.

5.   Tais contratos, de acordo com o artigo 9.º da lei, são reduzidos a escrito e devem, sob pena de nulidade, conter, de forma clara e compreensível e na língua portuguesa, as informações contratuais de a a z previstas na lei, em que figura exactamente o direito de retractação, o de dar o dito por não dito em 14 dias após a entrega da coisa.

6.   Não tendo sido reduzido a escrito, tal contrato é nulo: a nulidade é invocável a todo o tempo por qualquer interessado e pode ser conhecida de ofício pelo tribunal (a haver litígio que redunde em acção em tribunal judicial ou em julgado de paz ou em tribunal arbitral de conflitos de consumo).

7.   Por conseguinte, não dispõe de 14 dias para se desfazer do aspirador (o que em circunstâncias normais, no quadro da concreta hipótese de facto, ocorreria), mas de todo o tempo. Convindo agir, de qualquer forma, com a rapidez que os seus interesses o impuserem, bem entendido.

8.   A subsistir o diferendo, poderá então recorrer a qualquer dos órgãos jurisdicionais e não jurisdicionais a que se alude em 6.: se não houver tribunal arbitral no distrito em que reside, recorra ao Centro Nacional de Informação e Arbitragem de Conflitos de Consumo, sediado em Braga, cujo Tribunal Arbitral Nacional tem supletivamente competência territorial para o efeito.

EM CONCLUSÃO:

1.  Um contrato celebrado em estabelecimento mediante convite pessoal e individual a nele entrar para a oferta de um qualquer produto beneficia do regime dos contratos fora de estabelecimento.

2.  Tais contratos estão sujeitos a forma: se não forem reduzidos a escrito ou noutro qualquer suporte duradouro são nulos e de nenhum efeito.

3.  Sendo nulos, a nulidade é invocável a todo o tempo por qualquer interessado e pode ser apreciada oficiosamente pelo tribunal.

4.     A nulidade tem como efeitos a restituição da coisa e a devolução do preço.

Mário Frota
apDC – DIREITO DO CONSUMO - Coimbra

sábado, 10 de abril de 2021

" COM A CABEÇA NA LUA": MINHA INTRODUÇÂO AO LIVRO DE POESIA INFANTIL DE JOSÉ FANHA E DANIEL COMPLETO


A Lua é o nosso único satélite, pois é o único astro que gira em volta da Terra, enquanto a Terra gira em volta do Sol. A Lua tem sido, desde o início do sistema solar, a companheira da Terra. Os cientistas julgam que a Lua é o que resta de um grande choque de um outro astro com a Terra quando o sistema solar estava no seu início, há 4,5 mil milhões de anos. As rochas da Lua, que os astronautas trouxeram para a Terra, são aproximadamente da mesma idade que as mais antigas rochas da Terra. Quando surgiu vida na Terra, há 3,8 mil milhões de anos,  já havia Lua e, se a vida porventura nasceu nos mares, então as marés, causadas pela Lua, devem ter ajudado na passagem da vida para a Terra.

A vida desenvolveu-se extraordinariamente na Terra, onde havia água em abundância, e a certa altura, muito recente na história da Terra, surgiu o homem, que, há 50  anos, graças ao domínio da ciência e da tecnologia, conseguiu viajar até à Lua, um sonho que já vem de tempos imemoriais.

Os americanos Neil Armstrong e Buzz Aldrin foram os primeiros astronautas que puseram os pés na Lua. O primeiro pé foi do comandante da Apollo 11, Neil Armstrong, no dia 21 de Julho de 1969. As suas primeiras palavras ficaram famosas: “Um pequeno passo para um homem, mas um passo de gigante para a Humanidade”. Toda o  mundo pôde ouvir essas palavras quando assistia em directo, pela televisão, àquele que foi um dos maiores momentos não só do século XX como de toda a história humana.

A Lua sempre foi objecto de encanto e mesmo de magia. É a luz do luar, que não é mais do que o reflexo da Luz do Sol, que diminui a escuridão nocturna. Será que a Lua perdeu o seu encanto, a sua magia, por já ter sido pisada pelos seres humanos? Não, de maneira nenhuma. A Lua é um objecto da ciência – e as viagens à Lua, tripuladas e não tripuladas  – forneceram um conhecimento enorme sobre o nosso satélite natural. Mas a Lua é, continua ser, um objecto de inspiração para a poesia e para a música.

O tema da Lua tem uma longa história na música. Nenhum outro astro inspirou tanto os artistas… Haydn escreveu em 1777 uma ópera intitulada “O mundo da Lua”. Beethoven, que em 2020 faz 250 anos, é o autor da bela “Sonata ao Luar”, Mais perto dos nossos dias Frank Sinatra cantou “Fly me to the moon” e Elvis Presley  “Blue moon in Kentucky”. Na música pop os Pink Floyd gravarm um disco intitulado “Dark side of the moon”.

 A nossa cabeça tem um lado que procura a ciência e tem um outro lado que procura a arte. Mas a cabeça é a mesma. Quando temos a cabeça na Lua, podemos, como bem mostram estes cativantes poemas de José Fanha musicalizados por Daniel Completo, ter a cabeça ao mesmo tempo na ciência e na arte.

Carlos Fiolhais*
*Professor de Física da Universidade de Coimbra

 


"O SER E A LIBERDADE": PALESTRAS ONLINE ONDE VOU ESTAR





 

Ciência às Seis (online): "Do Planeta-X a Plutão e ao Planeta Nove"


Na próxima terça-feira, dia
13 de Abril às 18h, via plataforma Zoom, realiza-se a palestra intitulada "Do Planeta-X a Plutão e ao Planeta Nove" com o astrónomo Nuno Peixinho, investigador da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

 Sessão inserida no ciclo Ciência às Seis, iniciativa do RÓMULO com a coordenação de Carlos Fiolhais e colaboração de António Piedade, em formato Digital 💻📱 Destinada ao público em geral, a sessão é de participação livre e não necessita de inscrição.

Aceda à sessão no Zoom através do link: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/81954987239  
ou ID da reunião: 819 5498 7239

Resumo da Palestra:

No final do século XIX, especulava-se sobre a existência de um Planeta-X para além de Neptuno. Em 1930, Plutão foi descoberto, mas muito longe da zona prevista. Em 1992 descobrimos que Plutão é realmente um membro de uma enorme cintura de corpos gelados orbitando para além de Neptuno. Em 2006, a missão espacial "New Horizons" é lançada para Plutão e este é reclassificado como planeta-anão. Em 2015, a "New Horizons" chega a Plutão, encontrando muitas surpresas. Em 2016, novas teorias sobre a existência de outro planeta voltam a emergir. Como é isso possível? 

Breve Biografia do Orador:

Nuno Peixinho é Investigador na Universidade de Coimbra. O estudo observacional, com telescópios, de pequenos corpos do Sistema Solar é a sua principal área de investigação, embora trabalhe também noutras áreas da astronomia e das ciências planetária, incluíndo a física solar e a meteorologia espacial, tendo mais de 60 publicações em revistas da especialidade. Doutorou-se em Astronomia e Astrofísica pela ULisboa, tendo realizado os seus trabalhos no Observatório de Paris. Foi também Pós-Doc no Institute for Astronomy, no Hawaii, onde estão os Observatórios do Mauna Kea, e Professor na Universidad de Antofagasta, no Chile, onde estão os Observatórios do La Silla e do Paranal, do European Southern Observatory (ESO). É Coordenador da Unidade de Promoção da Ciência do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra (OGA) onde frequentemente dá sessões de planetário e sessões de observação noturna com telescópios. É também o Delegado Português ao Comité de Utilizadores do ESO e Co-coordenador Nacional para a Educação em Astronomia (NAEC) da União Astronómica Internacional (IAU, sendo também Membro do Conselho Científico do Instituto de Investigação Interdisciplinar (III) da UC. Leciona Ciências Planetárias no Mestrado em Astrofísica e Instrumentação para o Espaço (MAIE) pelo Departamento de Física da FCTUC. É membro do recém-criado pólo do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) na Universidade de Coimbra.

Evento no Site | Evento no Facebook

As últimas palestras do Rómulo estão disponíveis no Canal YouTube

NOVIDADES DA MARIONET

LED - Viagem ao interior num smartphone
22 e 23 de Abril | 19h00 | TAGV  


À terceira será de vez! Depois de dois adiamentos, devido às medidas de contenção da pandemia decretadas pelo Governo português, LED - Viagem ao interior num smartphone será finalmente apresentado, dias 22 e 23 de Abril, no Teatro Académico de Gil Vicente. 

Este espectáculo é uma remontagem da peça, estreada em 2006, também no TAGV, que marcou um momento charneira na estética teatral da Marionet e na sua relação com temas científicos. Este espectáculo oferece-nos uma mudança de perspectiva, colocando-nos a olhar para o ser humano a partir do interior de uma máquina e revisitando as questões, cada vez mais pertinentes: Quem somos? Para que existimos? Como existimos?

Mais notícias da Marionet
Com a reabertura dos teatros, no próximo dia 19 de Abril, reabre também a nossa exposição Marionet x 20 - O futuro é daqui para a frente, que tinha sido suspensa dois dias após a sua inauguração, em Janeiro. Ficará patente nos vários espaços do TAGV até ao dia 14 de Maio e a aguardar a vossa visita presencial. [saber mais]
Ouvir Vozes, um projecto que tem como objectivo dar visibilidade e contribuir para o esclarecimento sobre o fenómeno de ouvir vozes, de forma a diminuir o estigma em seu torno, foi seleccionado para financiamento no âmbito do Programa em parceria Arte e Saúde Mental, da Direção-Geral das Artes. [saber mais]
Terminada a fase de submissão de propostas, agora em análise pela Comissão Científica, continuam abertas as inscrições para assistir ao Colóquio internacional Teatro sobre Ciência: teoria e prática, a acontecer em Coimbra de 23 a 25 de Novembro de 2021.  [saber mais]

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

 NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Autores Gregos e Latinos” [textos) 

- Nuno Simões Rodrigues, Cláudia Teixeira, Francisco Oliveira & José Luís Brandão: História Augusta. Vol. II. Vidas de Hélvio Pertinaz, Dídio Juliano, Severo, Pescénio Nigro, Clódio Albino, Antonino Caracala, Antonino Geta, Opílio Macrino, Diadúmeno Antonino, Antonino Heliogábalo. Tradução do latim, introdução e notas (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2021). 258 p.  

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2076-3

[O período abrangido pelas Vidas aqui reunidas coincide com o da instituição da dinastia dos Severos, que se seguiu à dos Antoninos, que marcou a vários níveis o apogeu imperial romano. De todas as biografias reunidas neste volume, a de Heliogábalo deverá ser, pela riqueza das descrições, a que melhor corresponde a um certo imaginário contemporâneo — ainda que não necessariamente factual — da Roma Antiga: uma civilização pautada pela desmesura, pelo excesso, pelo exotismo, pela crueldade e pela perversão.]

Fora de Série [catálogo]

 - Isabel Pereira, Teófilo Silva, António Pacheco e Ricardo Costeira da Silva, A coleção numismática do Museu Nacional de Machado de Castro (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2021). 798 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-1562-2

[A obra contempla a coleção de Numismática do Museu Nacional de Machado de Castro (MNMC) e outras peças monetiformes, composta por 1286 exemplares, maioritariamente recuperados neste espaço histórico da cidade de Coimbra. Reúnem-se igualmente peças recolhidas noutros pontos da cidade ou em intervenções pontuais realizadas noutros monumentos nacionais e fruto de doações e aquisições. A monografia é composta por cinco núcleos principais que se organizam cronologicamente: moedas romanas; moedas medievais; moedas portuguesas; moedas estrangeiras e objetos monetiformes. Com prefácio de Jorge de Alarcão, o livro encontra-se profusamente ilustrado e enriquecido por diversos textos interpretativos que melhor exploram e enquadram a listagem individual que se apresenta em formato de catálogo.]

 

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...