sexta-feira, 21 de outubro de 2016
Noites de Ciências no Observatório Astronómico de Lisboa
No dia 28–Outubro há mais uma “Noites de Ciências” na FCUL. As actividades são gratuitas, sem inscrição, sempre na última 6ª feira de cada mês e dirigidas ao público não especialista.
A palestra terá videodifusão ao vivo no site da FCCN: http://live.fccn.pt/ulisboa/fcul/noitesdeciencias/
Os participantes têm estacionamento gratuito no parque da FCUL a partir das 19:45 (toque à campainha).
1) 20:00 – 21:30
— Estudar a Terra com a ajuda do Planeta Mágico. Actividade coordenada pelo prof. Luís Matias do DEGGE da FCUL. O “Planeta Mágico” é um sistema de projecção num ecrã esférico que permite representar o Planeta Terra com um enorme realismo.
- 20:00 – 23:30 Haverá Observação Astronómica:
2) Às 21:30 (no anfiteatro 3.2.14 do edifício C3):
— Pequeno apontamento sobre o Prémio Nobel da Física de 2016, pela profª Margarida Telo da Gama do Dep. de Física da FCUL.
— Palestra “O Terramoto de 1755”, pela prof. Paula Teves Costa, do DEGGE.
Mais informações sobre o programa aqui:
http://oal.ul.pt/noites-de-ciencias-out-2016/
quinta-feira, 20 de outubro de 2016
ÚLTIMOS TÍTULOS DA CIÊNCIA ABERTA
Desde o n,º 201 que tenho escolhido os títulos da colecção Ciência Aberta da Gradiva, que foi iniciada e dirigida até ao n.º 100 por Guilherme Valente. Em breve sairá o volume 218, "Superprevisões", de Philip Tetlock e Dan Gardner, que se situa entre as ciências políticas e a psicologia social. Julgo que o título indica alguma inovação na colecção, o que também está patente no 2012, "Os Marcianos somos nós", de Nuno Galopim, sobre ficção científica. Mas permanecem grandes clássicos como Hubert Reeves (n.º 205), Stephen Hawking (n.º 206) e, entre os portugueses, Jorge Buescu (n.º 210) e Jorge Dias de Deus (n.º 215).
Houve lugar aos novos, como o lançamento de José Xavier (n.º 207), Sérgio Rodrigues (n.º 209) e Alexandre Aibéo (n.º 16), uma estreia recente na Ciência Aberta (e autor do único livro, que eu saiba, com asterisco no título; não sei como os bibliotecários vão resolver isso nas fichas). Mas houve também reedições, revistas e aumentadas, como os livro de Manuel Paiva (n.º 204) e de Richard Feynman (n.º 213), tão diferentes que mereceram renumeração na colecção.
Para aqueles que querem saber as últimas da ciência há o livro de Sean Carroll sobre a partícula de Higgs (n.º 208) ou o recente, e surpreendente, livro do físico-saxofonista de jazz Stephon Alexander, sobre o Universo e o Big Bang (n.º 217), juntando física e música.
Julgo que a nova tendência da colecção é a inclusão de mais autores portugueses, reflexo do avanço da ciência entre nós. Dos 18 livros publicados, 9 (METADE!) são de autores portugueses. Por áreas, nota-se alguma predominância da Física, que já vinha de trás (há mais físicos a escrever obras de divulgação), em particular a astrofísica (um tema do agrado dos leitores da Ciência Aberta). 2015 Ano internacional da Luz foi marcado por dois livros, o clássico "QED" de Feynman e a "Biografia da Luz" de Tito Mendonça, que teve edição brasileira. O livro de Lewin e Goldstein "A Paixão da Física", muito ligado aos vídeos no Youtube do primeiro autor, também tem uma parte importante sobre a luz. Assuntos que vou tentar incluir mais são Biologia e Ciências Sociais, que são domínios muito actuais do conhecimento.
Gosto de todos. Mas se me perguntarem os meus favoritos recomendo vivamente o clássico "Como vencer com a estatística", de Darren Huff, um pequeno livro que não envelheceu e com o qual iniciei a minha direcção de colecção, e "O Início do Infinito", de David Deutsch, um livro entre a ciência e a filosofia, que nos provoca intelectualmente. Encontram os livros nas livrarias ou, on-line, no sítio da editora. Boas leituras!
201. COMO MENTIR COM A ESTATÍSTICA, Darrell Huff
202. O DIABO NO MUNDO QUÂNTICO, Luís Alcácer
203. O INÍCIO DO INFINITO, David Deutsch
204. COMO RESPIRAM OS ASTRONAUTAS, Manuel Paiva
205. ONDE CRESCE O PERIGO SURGE TAMBÉM A SALVAÇÃO, Hubert Reeves
206. A MINHA BREVE HISTÓRIA, Stephen Hawking
207. EXPERIÊNCIA ANTÁRCTICA, José Xavier
208. A PARTÍCULA NO FIM DO UNIVERSO, Sean Carroll
209. JARDINS DE CRISTAIS — QUÍMICA E LITERATURA, Sérgio Rodrigues
210. PRIMOS GÉMEOS, TRIÂNGULOS CURVOS, Jorge Buescu
211. UMA BIOGRAFIA DA LUZ, José Tito Mendonça
212. OS MARCIANOS SOMOS NÓS, Nuno Galopim
213. QED — A ESTRANHA TEORIA DA LUZ E DA MATÉRIA, Richard P. Feynman
214. A PAIXÃO DA FÍSICA — DA PONTA DO ARCOÍRIS AOS CONFINS DO TEMPO — UMA VIAGEM PELAS MARAVILHAS DA FÍSICA Walter Lewin e Warren Goldstein
215. CIÊNCIA COSMOLÓGICA, Jorge Dias de Deus
216. 90% DO CARO LEITOR FOI FEITO NAS ESTRELAS* Percentagem em massa, Alexandre Aibéo
217. O JAZZ DA FÍSICA — A LIGAÇÃO SECRETA ENTRE A MÚSICA E A ESTRUTURA DO UNIVERSO, Stephon Alexander
218. SUPERPREVISÕES. A ARTE E A CIÊNCIA DA PREVISÃO, Philip Tetlock e Dan Gardner
O JAZZ DA FÌSICA - INTRODUÇÃO
Início do livro "O jazz da Física" de Stephon Alexander, que acaba de sair na Gradiva:
"Ocorreu‑me por intuição e a música foi a força motriz por trás dessa intuição. A minha descoberta
resultou da minha percepção musical."
Albert Einstein (questionado sobre a sua teoria da relatividade)
"E, mais do que tudo, estimo as Analogias, os meus mais fidedignos mestres. Conhecem todos
os segredos da Natureza e não deveriam ser negligenciadas em Geometria."
Johannes Kepler
Os seres humanos são especiais. Onze mil milhões de anos após o nascimento do Universo, os oceanos efervescentes e ricos em minerais do planeta a que chamamos Terra tinham as condições ideais para gerar vida — um sobrevivente faminto, em mutação e evolução. Mesmo na última fase da vida do Universo, nós, seres humanos, crescemos a ponto de cultivar a Terra e de olhar os céus sem pruridos para perceber de onde viemos.
Todos os povos de todas as culturas já se interrogaram a respeito das suas origens e das origens do cosmos. Que espaço é este à nossa volta? De onde viemos? Sem dúvida que estas questões — que muitos de nós colocámos quando éramos crianças — continuam a ser algumas das mais prementes em ciência. Perguntas como estas denotam a nossa curiosidade inata sobre as nossas origens e, como fazem de resto as perguntas, os limites do nosso conhecimento. Durante milénios, apenas conseguimos responder a estas perguntas usando mitos. Mas, desde a Revolução Científica, temos tentado colocar os mitos de lado, deixando a exploração das origens dos seres humanos e do Universo a cargo dos cientistas e das suas metodologias baseadas em factos concretos. Os cosmólogos modernos, ainda que munidos de elegantes equações e experiências de tecnologia avançada, podem ser considerados os criadores dos mitos no nosso tempo. Apesar da nossa matemática precisa e das experiências cuidadas, surgiram novas surpresas na física e cosmologia modernas que levaram os físicos mais competentes a recorrer ao mito para tentar explicar a alucinante informação que desvendaram sobre a natureza do Universo.
Houve tentativas heróicas de transmitir os conceitos subjacentes à cosmologia moderna a leitores leigos, mas os livros ficam sempre aquém da sua promessa de explicar quase tudo. Pôr em palavras temas como a relatividade geral e a mecânica quântica, quando eles são normalmente transmitidos através da linguagem matemática, é uma tarefa inglória. Estas equações complexas conseguem até confundir os físicos, eles próprios desafiados a compreender completamente ou a visualizar o que as suas fórmulas traduzem, facto que salienta a necessidade de encontrar outras formas de conceptualizar a estrutura do Universo através de imagens físicas ou de analogias claras. Descobri que os livros mais bem‑sucedidos em comunicar ideias são os que encontram as melhores analogias para espelhar a física. De facto, o raciocínio analógico será uma força motriz essencial ao longo deste livro.
Espero levar o leitor numa viagem em primeira mão ao processo de descoberta na investigação de física teórica. Veremos que, ao contrário da estrutura lógica inata à lei física, nas nossas tentativas de revelar novas perspectivas no nosso entendimento, temos frequentemente de embarcar num processo irracional, ilógico, por vezes repleto de erros e pensamento de improvisação. Embora seja importante, quer para músicos de jazz quer para físicos, lutar pela mestria técnica e teórica nas suas áreas, a inovação exige que ultrapassem o conjunto de competências que já dominam. O poder do raciocínio analógico é fundamental para inovar em física teórica. Com este livro, pretendo mostrar como a arte de encontrar as analogias certas nos pode ajudar a abrir novos caminhos e a atravessar o mundo quântico escondido até chegar à vasta superestrutura do nosso Universo.
Neste livro, a música será a analogia que nos ajudará não só a compreender boa parte da física e cosmologia modernas, mas também a desvendar alguns dos recentes mistérios com que os físicos se defrontam. Mesmo enquanto escrevia, este raciocínio analógico ajudou‑me a descobrir uma abordagem nova para um problema antigo e por solucionar da cosmologia do início do Universo. Uma das questões principais para compreender esse problema, e uma grande questão em aberto da cosmologia, é saber como as primeiras estruturas emergiram de um jovem Universo vazio e indefinido. A forma intrincada como as leis fundamentais da física se articulam para criar e sustentar a estrutura global do Universo, responsável pela nossa própria existência, parece magia — não muito diferente da forma como o esqueleto da teoria da música deu origem a tudo, desde Brilha, Brilha Estrelinha a Interstellar Space, de Coltrane. Adoptando um foco interdisciplinar, inspirado por três grandes mentes (John Coltrane, Albert Einstein e Pitágoras), podemos começar a ver que o comportamento «mágico» do florescente cosmos se baseia em música.
Há cerca de uma década, estava sentado num café sombrio na rua principal de Amherst, Massachusetts, a preparar uma entrevista para um concurso a professor de Física na faculdade, quando fui assaltado por um estranho impulso. Encontrei uma cabine telefónica com uma lista telefónica local e consegui ganhar coragem para ligar a Yusef Lateef, um lendário músico de jazz, recentemente aposentado do Departamento de Música da Universidade de Massachusetts, em Amherst. Tinha algo para lhe dizer.
Como um viciado depois de mais uma dose, os meus dedos percorriam as páginas na ânsia de encontrar o número. Encontrei‑o. O refrescante vento do Outono de Nova Inglaterra batia no meu rosto enquanto ligava. Correndo o risco de me estar a impor de uma forma rude, deixei o telefone tocar durante algum tempo.
«Estou?», respondeu finalmente uma voz masculina.
«Olá, o Professor Lateef está?», perguntei.
«O Professor Lateef não está», disse a voz, de forma categórica.
«Poderia deixar‑lhe uma mensagem sobre o diagrama que John Coltrane lhe deu como presente de aniversário em 61? Acho que percebi o que significa.»
Houve uma longa pausa. «O Professor Lateef está aqui.»
Falámos durante cerca de duas horas sobre o diagrama que aparecia no seu aclamado livro Repository
of Scales and Melodic Patterns, uma compilação de escalas da Europa, Ásia, África e de todo o mundo. Expliquei‑lhe que achava que o diagrama se relacionava com uma outra área de estudo aparentemente díspar — a gravidade quântica — uma teoria grandiosa que pretendia unificar a mecânica quântica com a teoria da relatividade geral de Einstein. Disse a Lateef que me tinha apercebido de que o mesmo princípio geométrico que motivara a teoria de Einstein estava reflectido no diagrama de Coltrane. Einstein era um dos meus heróis. Assim como Coltrane e Lateef.
O Professor Lateef partilhou comigo alguma informação importante sobre o modo como o diagrama aproximava ciclos de quartas e quintas. Também se interessava muito por filosofia e física e deu‑me uma lição sobre o seu conceito de música «autofisiopsíquica», que é música do nosso eu físico, mental e espiritual. Este conceito iria ter um impacto fundamental na minha pesquisa subsequente sobre a relação entre a música e o cosmos. Lateef encorajou‑me e reiterou a minha esperança na existência de uma ligação profunda entre a música e a estrutura do Universo. Naquele dia, como se fosse uma imagem estereoscópica a ser focada, as minhas vidas paralelas de física e jazz uniram‑se, criando uma nova dimensão.
Coltrane era fascinado por Einstein e pelas suas ideias. Einstein era famoso por aquele que talvez seja o seu maior dom: a capacidade de transcender as limitações matemáticas com uma intuição física. Improvisava usando o que chamava Gedankenexperimente (a palavra alemã para experiências mentais), que lhe davam uma imagem mental do resultado de experiências que ninguém podia realizar. Por exemplo, Einstein imaginou como seria montar um feixe de luz. É preciso inspiração para fazer isto e ser bem‑sucedido. Outro recurso para Einstein era a música. Embora seja um facto pouco conhecido, Einstein tocava piano. Elsa, a sua segunda mulher, disse uma vez: «A música ajuda‑o quando está a pensar sobre as suas teorias. Vai para o escritório, volta, toca uns acordes no piano, anota qualquer coisa, volta para o escritório.» Por um lado, Einstein usava o rigor matemático e, por outro, a criatividade e a intuição. No fundo, era um improvisador, tal como o seu herói, Mozart. Einstein disse uma vez: «A música de Mozart é tão pura e bela que a vejo como um reflexo da beleza interior do Universo.»
O que a mandala de Coltrane me fez pensar foi que a improvisação é uma característica quer da música quer da física. De forma muito semelhante ao que Einstein fazia quando trabalhava nas suas experiências mentais, alguns improvisadores de jazz constroem padrões e formas mentais quando fazem solos. Suspeito que isto acontecia com Coltrane.
John Coltrane faleceu em 1967, dois anos depois de a radiação cósmica de fundo de microondas, uma relíquia do próprio big bang, ser descoberta por Arno Penzias e Robert Wilson. A descoberta aniquilou a teoria de um universo estático e confirmou a teoria de um universo em expansão, como previsto pela teoria da gravitação de Einstein. Entre os últimos álbuns que Coltrane gravou havia três intitulados Stellar Regions (Regiões Estelares), Interstellar Space (Espaço Interestelar), e Cosmic Sound (Som Cósmico). Coltrane brincava com a física na sua música e, incrivelmente, percebeu que a expansão cósmica era uma forma de antigravidade. Em combos de jazz, a força «gravitacional» vem do baixo e da bateria na secção rítmica. As músicas de Interstellar Space são uma mostra majestosa de solos de Coltrane a expandir‑se, libertando‑se da força gravitacional da secção rítmica. Era um músico inovador, com física nas pontas dos dedos. Einstein era um inovador em física, com música nas pontas dos dedos. No entanto, o que estavam a fazer não era novidade. Estavam ambos a reencenar a ligação entre a música e a física, conhecida há milhares de anos quando Pitágoras — o Coltrane do seu tempo — descobriu a matemática da música. A filosofia de Pitágoras tornou‑se «tudo é número» e quer a música quer o cosmos eram manifestações desta filosofia. Na matemática das órbitas dos planetas ecoava «a música das esferas», tocando uma harmonia com os tons de uma corda a vibrar.
(...)Stephon Alexander
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
O JAZZ DA FÍSICA APRESENTADO POR JOÃO MAGUEIJO
Convite do Ciência Viva:
Pavilhão do Conhecimento – Centro Ciência Viva, 20 de Outubro, quinta-feira, às 18.30.
O Pavilhão do Conhecimento tem o gosto de lhe enviar este convite para participar no lançamento do mais recente título da colecção Ciência Aberta, editada pela Gradiva: “O Jazz da Física – A Ligação Secreta entre a Música e a Estrutura do Universo”, de Stephon Alexander. A apresentação estará a cargo de João Magueijo, Professor de Física no Imperial College de Londres.
Muito gostaríamos de contar com a sua presença.
Pavilhão do Conhecimento – Centro Ciência Viva, 20 de Outubro, quinta-feira, às 18.30.
O Pavilhão do Conhecimento tem o gosto de lhe enviar este convite para participar no lançamento do mais recente título da colecção Ciência Aberta, editada pela Gradiva: “O Jazz da Física – A Ligação Secreta entre a Música e a Estrutura do Universo”, de Stephon Alexander. A apresentação estará a cargo de João Magueijo, Professor de Física no Imperial College de Londres.
Nas palavras de João Magueijo, “A
música, a física e a matemática têm estado em sintonia desde Pitágoras e
Kepler, mas o livro de Stephon Alexander cria uma nova e poderosa
ressonância, juntando o improviso jazzístico com a volátil personalidade
da mecânica quântica, fazendo vibrar as fronteiras da cosmologia e da gravidade quântica como em nenhum outro livro”.
Entrada gratuita mediante inscrição prévia.Muito gostaríamos de contar com a sua presença.
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
ENVELHECIMENTO
Palestra "Envelhecimento", com Miguel Godinho Ferreira do Instituto Gulbenkian de Ciência, dia 25 de Outubro, pelas 18h00, no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. Esta palestra encerra o ciclo "Fronteiras da Ciência", coordenado por António Piedade que se iniciou em Janeiro de 2016.
RESUMO:
"O progresso da medicina, da higiene e do saneamento básico são responsáveis pelo aumento da esperança média de vida no mundo moderno. No entanto, o aumento na incidência de doenças relacionadas com a idade, devido ao envelhecimento da população, tornou-se uma grande preocupação e um peso socioeconómico sério na nossa sociedade. Por conseguinte, existe uma necessidade urgente de melhor compreender os processos biológicos envolvidos no envelhecimento a fim de prologar também a saúde ao longo da nossa vida. Vários trabalhos sugerem que o encurtamento das extremidades dos cromossomas, ou seja, os telómeros, desempenham um papel crítico nas deficiências observadas durante o envelhecimento. Nesta palestra serão referidos os mais recentes avanços nesta área na perspectiva de um investigador de ciência fundamental."
"O progresso da medicina, da higiene e do saneamento básico são responsáveis pelo aumento da esperança média de vida no mundo moderno. No entanto, o aumento na incidência de doenças relacionadas com a idade, devido ao envelhecimento da população, tornou-se uma grande preocupação e um peso socioeconómico sério na nossa sociedade. Por conseguinte, existe uma necessidade urgente de melhor compreender os processos biológicos envolvidos no envelhecimento a fim de prologar também a saúde ao longo da nossa vida. Vários trabalhos sugerem que o encurtamento das extremidades dos cromossomas, ou seja, os telómeros, desempenham um papel crítico nas deficiências observadas durante o envelhecimento. Nesta palestra serão referidos os mais recentes avanços nesta área na perspectiva de um investigador de ciência fundamental."
domingo, 16 de outubro de 2016
"Comunidades vigilantes e vigiadas"
Na sequência de recentes orientações europeias de protecção de dados pessoais, realizou-se em Setembro passado, na Assembleia da República, uma conferência sobre o novo Regulamento Europeu de Protecção de Dados.
[Os vídeos dessa conferência podem ser vistos aqui e aqui]
Aí se tratou o direito de informação e três outros direitos que se devem articular com este: "direito a ser esquecido", "direito à limitação do tratamento dos dados" e "direito de portabilidade dos dados".
A intervenção da actual ministra da Justiça foi particularmente realista e relevante. Transcrevo um segmento deveras acutilante que se pode encontrar aqui.
[Os vídeos dessa conferência podem ser vistos aqui e aqui]
Aí se tratou o direito de informação e três outros direitos que se devem articular com este: "direito a ser esquecido", "direito à limitação do tratamento dos dados" e "direito de portabilidade dos dados".
A intervenção da actual ministra da Justiça foi particularmente realista e relevante. Transcrevo um segmento deveras acutilante que se pode encontrar aqui.
"A ministra lembrou que foi a conceção da Internet, entre 1989 e 1991, e a sua ulterior democratização, que despertou os cidadãos para a importância da matéria atinente à proteção de dados pessoais. Na sociedade de informação e comunicação em que vivemos, a recolha, o processamento, a troca e a divulgação de dados pessoais é uma constante, transformando as nossas comunidades em comunidades vigilantes e vigiadas
Na nossa própria casa, espaço privilegiado da privacidade, somos constantemente espreitados pelas entidades fornecedoras de água, luz, televisão, Internet e outras, que recolhem os nossos dados para efeitos de faturação e registam todas as informações de consumo”, alertou. Recordou também que nas idas ao supermercado ou a qualquer loja são registados todos os produtos que cada cidadão adquire, o que permite a posterior elaboração de perfis de consumo. Os meios de pagamento eletrónicos, como os cartões de débito e de crédito, deixam também um rasto dos nossos gostos, que são velados pelas instituições financeiras” (...), observando que os dados pessoais se tornaram numa nova moeda. Segundo a ministra, as informações que dizem respeito aos cidadãos são um valioso ativo para as empresas, que os utilizam para melhorar os níveis de eficiência e com objetivos mais imediatamente lucrativos.
Protecção de dados pessoais com destaque para os dados das crianças
Em 27 de Abril deste ano foi publicada no Jornal Oficial da União Europeia uma directiva do Parlamento Europeu e do Conselho (Directiva UE 2016/680) relativa à "proteção das pessoas singulares no que diz respeito ao tratamento de dados pessoais pelas autoridades competentes para efeitos de prevenção, investigação, deteção ou repressão de infrações penais ou execução de sanções penais, e à livre circulação desses dados".
Desse documento destaco o que, por se reportar às crianças, é fundamental que seja tido em devida conta no contexto escolar:
Desse documento destaco o que, por se reportar às crianças, é fundamental que seja tido em devida conta no contexto escolar:
39. Para que os titulares de dados possam exercer os seus direitos, as informações que lhes sejam dirigidas, inclusive no sítio web do responsável pelo tratamento, deverão ser de fácil acesso e compreensão e formuladas em termos claros e simples. Essas informações deverão ser adaptadas às necessidades das pessoas vulneráveis, como as crianças.
50. Deverá ser estabelecida a responsabilidade do responsável pelo tratamento de dados pessoais realizado por si próprio ou em seu nome. Em especial, o responsável pelo tratamento deverá ficar obrigado a executar as medidas adequadas e eficazes e deverá estar em condições de demonstrar que as atividades de tratamento são efetuadas em conformidade com a presente diretiva. Tais medidas deverão ter em conta a natureza, o âmbito, o contexto e as finalidades do tratamento de dados, bem como o risco que possa implicar para os direitos e liberdades das pessoas singulares. As medidas tomadas pelo responsável pelo tratamento deverão incluir a elaboração e execução de garantias específicas para o tratamento de dados pessoais de pessoas singulares vulneráveis, como crianças.
51. Os riscos para os direitos e liberdades das pessoas singulares, cuja probabilidade e gravidade podem ser variáveis, poderão resultar de operações de tratamento de dados suscetíveis de causar danos físicos, materiais ou morais, em especial caso o tratamento possa dar origem à discriminação, à usurpação ou roubo da identidade, a perdas financeiras, prejuízos para a reputação, perdas de confidencialidade de dados protegidos por sigilo profissional, à inversão não autorizada da pseudonimização, ou a outros prejuízos importantes de natureza económica ou social; ou caso os titulares dos dados possam ficar privados dos seus direitos e liberdades ou do exercício do controlo sobre os respetivos dados pessoais; caso sejam tratados dados pessoais que revelem a origem racial ou étnica, as opiniões políticas, as convicções religiosas ou filosóficas e a filiação sindical; caso sejam tratados dados genéticos ou dados biométricos a fim de identificar uma pessoa de forma inequívoca ou caso sejam tratados dados relativos à saúde ou à vida sexual ou orientação sexual ou, ainda, a condenações e infrações penais ou medidas de segurança conexas; caso sejam avaliados aspetos de natureza pessoal, nomeadamente análises e previsões de aspetos que digam respeito ao desempenho no trabalho, à situação económica, à saúde, às preferências ou interesses pessoais, à fiabilidade ou comportamento e à localização ou às deslocações das pessoas, a fim de definir ou fazer uso de perfis; ou caso sejam tratados dados pessoais de pessoas singulares vulneráveis, em particular crianças; ou caso o tratamento incida sobre uma grande quantidade de dados pessoais e afetar um grande número de titulares de dados.
sábado, 15 de outubro de 2016
É preciso acautelar o direito à proteção de dados pessoais e à privacidade dos alunos
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| Imagem de um projecto da CNPD destinado às escolas |
"O desenvolvimento dos recursos tecnológicos e a sua aplicação crescente no contexto escolar vieram alterar profundamente o modelo de gestão das escolas, quer no plano da organização administrativa, quer no plano educativo e pedagógico, com evidente benefício para a comunicação no seio da comunidade escolar e entre esta e os restantes intervenientes do sistema educativo. A utilização generalizada da Internet pelos estabelecimentos de ensino, com destaque para a criação de sítios (websites) próprios veio contribuir inevitavelmente para uma aproximação da escola à sociedade, através de uma maior exposição das suas atividades, bem como permitindo o contacto direto, célere, económico e eficiente de alunos, encarregados de educação e pessoal docente e não docente.
No entanto, a rápida adesão a estes meios tecnológicos não foi, em geral, acompanhada pelo estabelecimento de critérios rigorosos que enquadrassem a disponibilização de informação pessoal na Internet, de modo a acautelar a defesa dos direitos das crianças, designadamente o direito à proteção de dados pessoais e à privacidade.
Deste modo, há uma prática generalizada de disponibilização de dados pessoais nos sítios da Internet das escolas, em incumprimento de obrigações legais e com clara afetação dos direitos, liberdades e garantias dos titulares dos dados, em particular dos alunos."
"NOVAS OPORTUNIDADES" E ENSINO SUPERIOR POLITÉCNICO
"Quando se dá uma bolacha a um rato, logo a seguir ele pede um copo de leite".
Provérbio chinês
Transcrevo uma destacada notícia de jornal sobre uma solene cerimónia
académica, presidida pela secretária de
Estado do Turismo, alusiva à criação de
uma licenciatura de Gastronomia na Escola Superior de Educação de Coimbra:
“Rui Antunes,
presidente do IPC, voltou ontem a sublinhar a necessidade de se acabar com o sistema binário de Ensino Superior,
preconizando a união do sistema num quadro pluri-institucional, em que cada
instituição ‘escolha a que se adapta melhor ao seu processo educativo’. Ao
rejeitar que o Politécnico queira ser Universidade reafirmou que apenas
pretende um enquadramento jurídico
igual. O actual sistema binário causa,
segundo o docente, prejuízo ao ensino politécnico, nomeadamente, na formação do
3.º ciclo [doutoramentos] e com entraves à investigação. O movimento
pela alteração do sistema binário inclui os institutos politécnicos de Lisboa e
Porto. O projecto educativo politécnico será sempre diferenciado do universitário, disse”
(“Diário de Coimbra”, 14/10/2016).
Ou seja, Rui Antunes, um tanto a latere, talvez porque “imaginamos
o que desejamos, queremos o que imaginamos e, por fim, acreditamos no que
queremos” (Bernard Shaw), aproveitou
a ocasião para, em linguagem popular, “voltar à vaca fria”, criticando o sistema binário de ensino
superior (universitário e politécnico), em arrazoado em que mete os pés pelas
mãos e as mãos pelos pés, pretendendo, ipso
facto, acabar com o sistema binário
de ensino superior defendendo, em causa própria, uma terceira
via de ensino superior: um ensino
híbrido do tipo centauro, metade universidade, metade politécnico.
Debrucemo-nos, agora e ainda que resumidamente, sobre algumas
passagens do discurso formal de Rui Antunes:
- Começo por voltar a citar o final da notícia jornalística
supracitada: “O movimento pela alteração
do sistema binário inclui os institutos politécnicos de Lisboa e Porto”.
Nela não é referido o Instituto Politécnico de Coimbra, referência
desnecessária porque implícita: “Quem parte
e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não sabe da arte”! (provérbio
popular).
- Um quadro pluri-istitucional, em que cada instituição “escolha a que se adapta melhor ao seu
processo educativo”. Ou seja, uma espécie
de auto-gestão para um ensino politécnico à
la carte, em imitação de universidade em que os cursos criados proliferam
como cogumelos em terreno húmido.
- Como se pode aceitar a rejeição de que o Politécnico seja universidade
preconizando, em simultâneo, um
enquadramento jurídico igual? Ou seja, os deveres para a Universidade (acesso
mais difícil, por exemplo ) e os direitos para os politécnicos (vantagem nos
concursos para professores do 2.º ciclo do ensino básico, outro exemplo)?
Passando, agora, ao essencial da questão, segundo Hannha Arendt, “a irreflexão parece ser uma das principais características do nosso
tempo”, só irreflectidamente Rui Antunes poderá produzir a sua declaração do "Politécnico não querer ser Universidade".
Em prova documental
que desmente, esta sua peremptória declaração pública, sem apelo nem agravo, recordo a verdade dos factos, porque “a
única verdade é a realidade” (Aristóteles), trazendo, como tal, à colação o meu artigo de opinião: “Ensino Superior e doutoramentos” (“Público”,
12(/07/2016).
Nele escrevi, preto no branco:
“Anos atrás, foi
feita por Rui Antunes a seguinte
declaração: “A cidade de Coimbra só
teria a ganhar se o Instituto
Politécnico de Coimbra continuasse a fazer o que tem feito até aqui com o nome de Universidade Nova de
Coimbra!” (“Diário de Coimbra”, 10/11/2005). Quem sabe se por ter dado pelo plágio
relativamente ao nome de Universidade
Nova de Lisboa, volta ele à carga propondo, agora, lato sensu, a crisma
de ensino politécnico para ‘Universidade de Ciências Aplicadas” (“Diário as
Beiras”, 05/08//2013).
Caro leitor, o que
aqui escrevo “é um repositório de
factos, testemunho do passado, exemplo do presente, advertência do futuro”
(Miguel Cervantes). Um futuro que não pode estar hipotecado a um presente em
que o ensino politécnico não preenche as vagas que lhe são destinadas confluindo, esta situação,
consequentemente, com uma hemorragia dos dinheiros públicos.
E isto, através da pretensa igualização de um ensino politécnico de menor exigência relativamente a um ensino de secular tradição ministrado em claustros universitários que vivem, por vezes, afogados num mare magnum de carências orçamentais para fazer face a uma sobrevivência digna e dignificante. Tudo somado, resume-se tudo isto a uma questão de bom senso e, principalmente, de boa utilização dos dinheiros públicos em época de vacas magras!
E isto, através da pretensa igualização de um ensino politécnico de menor exigência relativamente a um ensino de secular tradição ministrado em claustros universitários que vivem, por vezes, afogados num mare magnum de carências orçamentais para fazer face a uma sobrevivência digna e dignificante. Tudo somado, resume-se tudo isto a uma questão de bom senso e, principalmente, de boa utilização dos dinheiros públicos em época de vacas magras!
Novas velhas crenças a dominarem a educação escolar
“O ensino é metade da aprendizagem.”
“O processo de ensino e de aprendizagem estimulam-se mutuamente.”
CONFÚCIO
(citado por Lipinga Ma, Conferências em Portugal, 2010).
A actual equipa do Ministério da Educação está determinada (como a anterior e a anterior à anterior e a que antecedeu esta e outras) a elevar o nível de sucesso escolar, mais precisa e ambiciosamente, a torná-lo pleno.

Deixando de lado o sentido da expressão sucesso (e do seu contrário, insucesso, estabelecidos por referência a um critério classificativo), que preferia ver substituído por aprendizagem, a mensagem veiculada é a de que as super novas tecnologias da informação e da comunicação serão, indubitavelmente, o caminho.
A mensagem do ministério é corroborada por investigadores, formadores de professores, professores, representantes de empresas, responsáveis autárquicos, associações, conselhos e comissões várias. E, claro, pelos alunos, que dizem "adorar" os apelativos gadgtes,
Os jornalistas, de grandes e pequenos jornais, que têm sido profícuos a noticiar declarações e acontecimentos, em geral, negligenciam o aprofundamento da informação, o contraditório, a discussão, o esclarecimento, limitam-se a passar a mensagem que se espera que passem.
Veja-se o título acima - Novas tecnologias põem insucesso escolar a zero - que é tão acientífico como o anúncio de um produto para resolver os problemas de saúde de toda a gente. Será um desejo mas não é uma possibilidade real. Pelo menos duas razões justificam esta afirmação.
Em primeiro lugar porque, sendo certo que, com base no estado actual do conhecimento pedagógico, poderíamos melhorar substancialmente a aprendizagem (e devíamos empenhar-nos a fundo nisso) não conseguiremos que todos os alunos aprendam tudo o que pretendemos que aprendam e do modo como entendemos que o façam. Quem se situa no quadro da educação formal não tem esse saber, e o seu poder tem limites.
Em segundo lugar porque o ensino é afastado da estratégia. Tudo correrá bem se os alunos tiverem acesso aos muitos e sedutores gadgtes disponíveis, repletos de games com os correspondentes reforços imediatos. Enfim, se o professor se afastar deles e deixar de insistir em transmitir-lhes conhecimentos, porque, em rigor, daquilo que eles precisam é de desenvolver, de modo autónomo e colaborativo, "competências". A "motivação" advirá sobretudo destes "ingredientes" e será o caminho para se chegar ao tão almejado fim: o sucesso total.
A crença de que a aprendizagem é independente do ensino, de que os professores não são precisos para que os alunos adquiram a educação que se atribui à escola é devastadora. Ainda não tomámos consciência ou não queremos fazê-lo.
Sendo o ensino uma profissão profundamente humana é humanizadora, precisamos de professores que, antes de mais, entendam que a sua tarefa é artesanal e requer proximidade física. Serem excelentes técnicos de ensino (onde as tecnologias podem ser integradas) não contraria este desígnio, antes é integrado nele.
sexta-feira, 14 de outubro de 2016
PÂNICO COM A PROIBIÇÃO DE CALCULADORAS GRÁFICAS?
Texto recebido de Manuel Salgueiro (professor ESSP - Vila Real):
As calculadoras gráficas têm, e o
próprio ME o reconhece no documento enviados às escolas, potencialidades que
podem, e devem, ser aproveitadas, e são-no certamente, designadamente no
tratamento de dados. O programa da disciplina recomenda-o e quem anda
no terreno sabe que isto é verdade.
Há, no entanto, um lado muito perverso e quem anda no terreno também sabe que, infelizmente, há (desde os mais miúdos aos mais graúdos) quem acredite que se pode aprender Física e Química metendo nas calculadoras todo o tipo de informação auxiliar (noutros tempos, dizia-se "cábulas" e "copianços"), sem ter preocupação em fazer qualquer tipo de esforço por aprender.
E, quando se vão a ver os resultados, o “esforço” de atafulhar a máquina de informação (desde manuais, exercícios modelo e respetiva resolução, fórmulas, só para dar alguns exemplos) foi inglório: Nada disto resulta se não tiver sido feito algum tipo de trabalho e de esforço de aprendizagem.
A crer na notícia (aqui),
haverá muita gente preocupada com o facto de, em 2017, não ser permitido aos
alunos a utilização de calculadora gráfica no exame nacional de Física e
Química A, tal como a tutela (Ministério da Educação, ME) determinou.
As calculadoras gráficas têm, e o
próprio ME o reconhece no documento enviados às escolas, potencialidades que
podem, e devem, ser aproveitadas, e são-no certamente, designadamente no
tratamento de dados. O programa da disciplina recomenda-o e quem anda
no terreno sabe que isto é verdade.Há, no entanto, um lado muito perverso e quem anda no terreno também sabe que, infelizmente, há (desde os mais miúdos aos mais graúdos) quem acredite que se pode aprender Física e Química metendo nas calculadoras todo o tipo de informação auxiliar (noutros tempos, dizia-se "cábulas" e "copianços"), sem ter preocupação em fazer qualquer tipo de esforço por aprender.
E, quando se vão a ver os resultados, o “esforço” de atafulhar a máquina de informação (desde manuais, exercícios modelo e respetiva resolução, fórmulas, só para dar alguns exemplos) foi inglório: Nada disto resulta se não tiver sido feito algum tipo de trabalho e de esforço de aprendizagem.
De facto, criou-se a ideia de que
é possível aprender Física e Química fazendo, por exemplo, o download da informação de uma
calculadora ou de um programa da internet, o que é perfeitamente surreal e até
falso. Aprender qualquer disciplina exige um trabalho sério, continuado, esforçado e alguma resiliência. Como diz Jonah Lehrer, por vezes para haver as
epifanias é preciso haver previamente frustrações.
Não querendo prever o futuro, julgo que não
há razões para alarme ou para pânico; qualquer aluno que, de facto, estude e se
preocupe em aprender não precisa de calculadora gráfica para fazer o seu exame com sucesso. Não é (e o histórico dos exames di-lo) artilhando uma calculadora
gráfica que se consegue aprender, nem Física, nem Química, nem qualquer outra
disciplina.
Manuel Salgueiro
PS) Coincidência, ou não, as ações da empresa (cotada
no NASDAQ, Nova Iorque) que domina o
mercado português de calculadoras gráficas estiveram, desde o dia 10 de outubro
(data da famigerada comunicação do ME) em queda (http://br.investing.com/equities/texas-instru-historical-data
ou http://br.investing.com/equities/texas-instru ), uma queda entretanto, aparentemente,
atenuada e em visível recuperação. Ocrash nos “mercados” não foi nada de especial.
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
Agradecimento à Comissão Nacional de Protecção de Dados
Soube hoje, pela comunicação social, que no dia 6 de Setembro a Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) aprovou uma deliberação (Deliberação n.º 1495/2016) cujo título é Disponibilização de dados pessoais de alunos no sítio da Internet dos estabelecimentos de educação e ensino.
Devo dizer que não poderia estar mais reconhecida a esta Comissão pela sensibilidade que tem sempre demonstrado em relação a este problema e pelo trabalho que tem feito para o travar.
Trata-se de um problema que acompanho, em termos de investigação, há muito tempo e do qual tenho dado frequente conta neste blogue.
É um problema cuja dimensão e gravidade não pára de aumentar sem que, com raras excepções, isso incomode escolas, famílias e sociedade.
Esperemos agora que esta deliberação seja devidamente lida e entendida, sobretudo por parte da escola.
Devo dizer que não poderia estar mais reconhecida a esta Comissão pela sensibilidade que tem sempre demonstrado em relação a este problema e pelo trabalho que tem feito para o travar.
Trata-se de um problema que acompanho, em termos de investigação, há muito tempo e do qual tenho dado frequente conta neste blogue.
É um problema cuja dimensão e gravidade não pára de aumentar sem que, com raras excepções, isso incomode escolas, famílias e sociedade.
Esperemos agora que esta deliberação seja devidamente lida e entendida, sobretudo por parte da escola.
terça-feira, 11 de outubro de 2016
AMANHÃ NOVA CONFERÊNCIA DE EDUCAÇÃO DA FUNDAÇÂO FRANCISCO MANUEL DOS SANTOS
Conferência
12 de Outubro 16h00 Torre do Tombo - Lisboa
“Organização da Rede Escolar”
Moderação: Prof. João Jaime ( director da Escola Secundária Camões)
PROGRAMA
16h00 Carlos Fiolhais (FFMS) - Abertura do Mês da Educação
16h15 Tracey Burns (OCDE) – Governing Complex Education Systems (30m)
16h45 Leonor Torres (IE da UMinho) - Racionalização, culturas em rede e resultados escolares (15m)
17h00 Teresa Seabra (CIES-ISCTE-IUL) e Maria Manuel Vieira (ICS-UL) - A diferença está em cada escola? Dinâmicas internas em organizações escolares agrupadas (15m)
17h15 Manuel António Pereira (Ass. Nac. de Dirigentes Escolares) – Reorganização da Rede Escolar: a perspectiva dos dirigentes (15m)
17h30 – 18h20 Debate
18h20 – 18h30 Carlos Fiolhais (FFMS) - Encerramento (e apresentação do programa do Mês de Educação).
12 de Outubro 16h00 Torre do Tombo - Lisboa
“Organização da Rede Escolar”
Moderação: Prof. João Jaime ( director da Escola Secundária Camões)
PROGRAMA
16h00 Carlos Fiolhais (FFMS) - Abertura do Mês da Educação
16h15 Tracey Burns (OCDE) – Governing Complex Education Systems (30m)
16h45 Leonor Torres (IE da UMinho) - Racionalização, culturas em rede e resultados escolares (15m)
17h00 Teresa Seabra (CIES-ISCTE-IUL) e Maria Manuel Vieira (ICS-UL) - A diferença está em cada escola? Dinâmicas internas em organizações escolares agrupadas (15m)
17h15 Manuel António Pereira (Ass. Nac. de Dirigentes Escolares) – Reorganização da Rede Escolar: a perspectiva dos dirigentes (15m)
17h30 – 18h20 Debate
18h20 – 18h30 Carlos Fiolhais (FFMS) - Encerramento (e apresentação do programa do Mês de Educação).
ENCONTRO DE CENTROS CIÊNCIA VIVA EM BRAGANÇA
Neste fim de semana reuniu o conjunto de directores da rede de Centros Ciências Viva no Centro Ciência Vi va de Bragança.
ORGANIZAÇÃO DA REDE ESCOLAR
Prefácio de uma publicação da Fundação Francisco Manuel dos santos sobre a organização da rede escolar (amanhã na Torre do Tombo realiza-se uma conferência sobre o tema):
Um sistema educativo funciona através de uma rede escolar, pelo que o cumprimento dos objectivos do sistema está associado à forma de organização dessa rede. Falar da organização da rede escolar é falar da densidade de estabelecimentos de ensino pelo território e da dimensão e constituição de cada um deles, mas também, e sobretudo, do modo como o sistema é governado. Existe a dicotomia, tão discutida nos últimos tempos em Portugal (e nem sempre da melhor maneira), entre o sector público e o sector privado (parte do qual tem contratos com o Estado, por ser subsidiário do sistema público). Mas focamos a atenção no sector público, que é largamente maioritário entre nós. Nele existe uma tensão permanente entre tudo aquilo que é o enquadramento central – determinado pelas instâncias competentes do poder político, seja a Assembleia da República, seja o governo – e aquilo que é regional, local ou mesmo específico de cada escola. Esta é a questão da autonomia, também muito discutida em Portugal, sendo o discurso oficial o da defesa e alargamento da autonomia, e a realidade concreta, a persistência de inúmeros constrangimentos ao exercício pleno dessa autonomia (por exemplo, colocação de professores, metas e programas curriculares, regulamentação, etc.). Um papel na organização da rede escolar compete, decerto, no âmbito do enquadramento educativo do pré-escolar e do ensino básico, aos municípios. Um outro papel cabe aos directores das escolas, que respondem perante os Conselhos Gerais que representam a comunidade, para além de responderem perante o Ministério da Educação. Alguns dos aspectos da organização escolar portuguesa são relativamente recentes e os seus resultados merecem evidentemente ser estudados. Por exemplo, o agrupamento de escolas, motivado em geral por preocupações economicistas, tem levado a uma reorganização da vida escolar cujos benefícios nem sempre estão à vista.
Os sistemas educativos, em Portugal como no mundo, têm estado sujeitos à pressão dos resultados. A questão é: como conseguir uma maior e melhor educação para todos, com os recursos disponíveis, que são sempre limitados? Tem havido uma tendência, em Portugal e no mundo, para medir os resultados educativos através de testes ou exames aos alunos, com base nos quais se fazem, nem sempre bem, rankings de escolas. No plano internacional, essa preocupação comparatista manifesta-se em testes como os do PISA ou do TIMMS, nos quais a posição portuguesa, apesar de melhorias, ainda é relativamente modesta. Os estudiosos da educação sabem, através de numerosos estudos internacionais e nacionais, que o sucesso escolar é determinado em boa medida pela origem socioeconómica dos alunos. Mas sabem também que a forma de organização da rede escolar tem implicações nos resultados. Já não se sabe tão bem quais são, entre os múltiplos aspectos da organização da rede (tamanho e condições físicas da escola, tamanho e constituição das turmas, projecto pedagógico da escola e estilo de liderança dos directores, qualidade e empenho dos professores, ligação da escola à comunidade, em particular aos encarregados de educação, funcionamento interno, etc.), os mais relevantes e porquê. Alguns casos têm revelado que certas escolas conseguem fazer melhor do que outras, apesar de a origem social dos seus alunos ser muito semelhante. Interessa, por isso, apurar qual é o melhor modo de organizar a nossa rede escolar, de forma a aumentar o seu grau de eficácia.
A Fundação Francisco Manuel dos Santos tem, desde 2010, prestado atenção às questões da educação, organizando conferências sobre “Problemas-Chave de Educação”, que nos últimos dois anos têm feito parte de ciclos maiores designados por “Mês da Educação”, realizados em Outubro em vários locais do país. Em seis anos foram realizadas 15 conferências deste tipo que deram origem a outros tantos pequenos volumes da colecção “Questões-chave de Educação”. Para além da preocupação com a pertinência e diversidade de temas, são visíveis duas linhas mestras na escolha e no modo de tratamento das questões em debate: tratar questões internacionais, sobre as quais possamos receber contributos de especialistas estrangeiros, e privilegiar estudos empíricos sobre a realidade educativa. No “Mês da Educação” de 2016, a Fundação Francisco Manuel dos Santos continua no mesmo rumo. Convidou uma especialista da OCDE em questões de organização escolar, Tracey Burns, que discute, num texto em co-autoria com Florian Köster e Marc Fuster, aqui publicado em tradução portuguesa, o que é a “governance inteligente em educação”. Baseados em estudos de caso em vários países, esses autores enfatizam as metodologias mais adequadas para que um sistema complexo e descentralizado, como é qualquer sistema educativo nacional, consiga responder aos desafios que lhe são hoje colocados, a saber: foco nos processos e não nas estruturas, adaptabilidade e flexibilidade, envolvimento dos parceiros e sua capacidade de construção conjunta, uma aproximação sistémica aos problemas (alinhamento de papéis, balanceamento de tensões, etc.) e a recolha e tratamento científico de dados, de modo a possibilitar políticas bem informadas.
Apresentamos também duas contribuições nacionais, ambas baseadas em estudos de caso. Por um lado, Teresa Seabra, Maria Manuel Vieira, Leonor Castro e Inês Baptista, investigadoras do ISCTE – Lisboa, respondem à interrogação “Como pode a escola mitigar a desigualdade de oportunidades?”, a partir de um estudo de caso em duas escolas do ensino básico da Área Metropolitana de Lisboa (AML). Acontece que uma consegue com que os seus alunos tenham melhores resultados em exames nacionais, apesar de provirem de meios mais desfavorecidos. Nas palavras das autoras: “No caso em análise, referente a duas escolas do 1.º ciclo inseridas num contexto territorial próximo – a AML –, o estudo evidencia a importância decisiva que uma dinâmica de funcionamento cooperativa, na busca de soluções para os constrangimentos enfrentados, e pró-ativa, na mobilização de famílias e parcerias para o envolvimento na ação educativa, parece ter na criação de um clima escolar mais propício ao desbloqueamento de contrariedades e à adesão dos mais novos às aprendizagens.” Exemplos de boas práticas como este, em que o estilo de liderança e a ligação à comunidade exercem influência, são merecedores de reflexão. Por outro lado, Leonor Torres, investigadora do Instituto de Educação da Universidade do Minho, escreve sobre “A narrativa da liderança escolar em tempos performativos: notas críticas a partir do olhar dos alunos”. A autora estuda a visão que os alunos de escolas secundárias no norte e centro do país têm do director e do seu trabalho. Conclui: “os quatro estudos de caso revelaram diferenças significativas no modo como os alunos percecionam a organização da sua escola e a sua importância no desenvolvimento do ideário da excelência. Mais ainda, a relação entre a qualidade da escola e o estilo de liderança adotado pelo Diretor foi o enunciado que mais acentuou as diferenças interescolas.”
Na sessão realizada na Torre do Tombo onde foram apresentadas as comunicações reunidas neste volume a questão da rede escolar foi também abordada por Manuel António Pereira (dirigente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares), que falou sobre Reorganização da Rede Escolar: a perspectiva dos dirigentes. A Fundação Francisco Manuel dos Santos espera, com mais este debate, contribuir para a melhoria do sistema educativo português. Agradece a todos os participantes, em especial aos apresentadores de estudos e a todos aqueles, em particular aos organizadores a Mónica Vieira e a Clara Valadas Preto, aos comentadores, ao moderador (João Jaime, diretor da Escola Secundária Camões, em Lisboa), que tornaram possível o debate.
CONSTELAÇÔES
Informação recebida da Ciência Viva:
Debate com investigadores no Teatro Aberto
No próximo sábado, dia 15 de Outubro, terá lugar a segunda sessão do ciclo "À Conversa sobre Constelações", organizada pela Ciência Viva e pelo Teatro Aberto, em colaboração com a Sociedade Portuguesa de Física, a propósito da peça Constelações. Depois da representação, que termina às 23.00, o público poderá debater com investigadores os temas científicos que inspiraram a peça.
Um dos pontos de partida para a escrita deste texto foi a descoberta ocasional de um documentário sobre o universo pelo autor Nick Payne, em que eram expostas teorias da Física moderna como a relatividade geral, a mecânica quântica, a teoria das cordas e a teoria dos multiversos.
São investigadores convidados desta sessão Vincenzo Vitagliano (CENTRA, Instituto Superior Técnico) e Sonia Antón (Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço | Faculdade de Ciências). A moderação é de Conceição Abreu (Presidente da Sociedade Portuguesa de Física).
SINOPSE DA PEÇA
Um homem e uma mulher conhecem-se, apaixonam-se, vivem juntos, separam-se, reencontram-se, reconciliam-se, ou talvez não. Talvez tudo seja, possa ter sido ou venha a ser diferente, conforme as circunstâncias com que se deparam e as escolhas que fazem ou deixam de fazer. Nos múltiplos universos paralelos em que estão, há múltiplas variantes da sua história de amor: talvez nunca mais se voltem a ver ou talvez fiquem juntos até que a morte os separe.
Seguindo uma tese da física teórica, segundo a qual há mais do que três dimensões do espaço e uma dimensão do tempo, Constelações mostra-nos um multiverso onde a vida assume uma miríade de formas em simultâneo e todos os futuros são possíveis. Mas será que aquilo que acontece depende das nossas decisões? Será que depende do acaso? Ou de algo mais que não se vê e não se conhece?
Versão João Lourenço | Vera San Payo de Lemos
Encenação João Lourenço
Com Joana Brandão e Pedro Laginha
No Teatro Aberto, de 4ª a Sábado, às 21.30, e Domingo, às 16.00
Domingo, às 16.00
Bilheteira: Inteiro - 15 euros | Jovem (até 25 anos) - 7,50 euros | Sénior (mais de 65 anos) - 12 euros
Os Jesuítas em Portugal e a ciência: Continuidades e rupturas (Séculos XVI-XVIII)
Extracto do artigo "Os Jesuítas em Portugal e a ciência: Continuidades e rupturas (Séculos XVI-XVIII)", escrito por mim e por José Eduardo Francom, que acaba de sair na revista Brotéria (183, pp. 9-28):
A Companhia de Jesus, fundada em 1534 por Santo Inácio de Loyola, que se instalou em Portugal em 1540, ano da sua confirmação pelo Papa, assumiu um papel relevante na Ciência e na Cultura, não só na metrópole mas também no vasto Império português, ao longo de um tempo prolongado, antes de ter sido extinta por acção do Marquês de Pombal, em 1759, uma acção que haveria de levar em 1773 à sua extinção universal pelo Papa franciscano Clemente XIV. [1]
Os Jesuítas foram rápidos e diligentes intermediários na chegada da Revolução Científica a Portugal e ao mundo. Foram eles que trouxeram para Portugal os métodos e as ideias de Galileu, foram eles que asseguraram durante mais de século e meio o funcionamento de uma brilhante escola de Matemática em Lisboa (a Aula da Esfera) e foram eles que levaram para o Oriente a nova ciência que tinha despertado na Europa, que incluía o uso de telescópios e de relógios mecânicos.
Nesse processo de globalização, valeu a Portugal no século XVI a sua posição geoestratégica na ponta da Europa: Lisboa era o único porto de onde então se partia para o Brasil, para a Índia, para a China e para o Japão. Com a sua forte missão evangelizadora, a Companhia de Jesus não demorou a chegar a Portugal.
No grupo inicial dos companheiros de Santo Inácio de Loyola estavam o português Simão Rodrigues e o basco Francisco Xavier. O primeiro ficou a organizar a Ordem em solo lusitano enquanto o segundo embarcava para o Oriente, onde veio a ganhar jus à santidade. Foi em Portugal que se estabeleceram os primeiros colégios da nova Ordem religiosa. O Colégio de Jesus em Coimbra
foi fundado em 1542. Nesse mesmo ano foi fundado também em Coimbra o Colégio das Artes, mas, passados seis anos, esta escola, que começou por ser gerida por mestres bordaleses, eivados do humanismo renascentista, foi entregue pela coroa aos Jesuítas, que construíram um novo edifício na Alta da Cidade, ao lado do Colégio de Jesus, formando um amplo complexo, que esteve ligado por um refeitório comum.
Os dois colégios, com exceção da Igreja (hoje igreja diocesana, conhecida por Sé Nova), pertencem atualmente à Universidade de Coimbra. Os Colégios de Jesus e das Artes foram sítios de formação de gerações não só de Jesuítas como, em geral, de jovens que iam ingressar na Universidade e que ali faziam os estudos preparatórios.
Um dos estudantes mais notáveis do Colégio das Artes foi o jesuíta alemão Christophoro Clavius (1538-1612), que, tendo estudado durante cinco anos em Portugal (entre 1555 e 1560), haveria de se tornar astrónomo do Papa, sendo hoje reconhecido como o mais importante astrónomo do mundo entre Copérnico e Galileu e um fundador de uma escola matemática que teve um raio de acção global [2]. Foi ele um dos autores da Reforma do Calendário Gregoriano, que entrou em vigor nos países católicos, Portugal incluído, em 24 de Fevereiro de 1582. Foi para servirem em primeiro lugar no Colégio nas Artes que foram impressos entre 1592 e 1606 os Conimbricenses, comentários a Aristóteles que ganharam fama mundial. [3]
Em Lisboa os Jesuítas estabeleceram-se primeiro em Alfama, no Colégio de Santo Antão-o-Velho (a partir de 1542, o mesmo ano da fundação do Colégio de Jesus) e, depois, em 1579, transferiram-se para o Colégio de S. Antão-o-Novo, onde hoje é o Hospital de S. José, e onde, de 1590 a 1759, funcionou a Aula da Esfera, um curso de Matemática onde ensinou uma elite de professores Jesuítas [4], que incluiu muitos estrangeiros, em resultado da intensa circulação dos Jesuítas na sua rede de escolas, circulação essa beneficiada pelo facto de existir uma orientação pedagógica unificada. Em Évora os Jesuítas estabeleceram-se em 1559 no Colégio do Espírito Santo, onde foi e ainda hoje é a Universidade de Évora, que, como todos os outros estabelecimentos jesuítas, foi encerrado pela força das armas em 1759, precisamente ao fim de dois séculos de funcionamento. A Universidade de Évora, no seu primeiro período, foi uma escola inteiramente jesuíta. [5]
Neste trabalho de síntese, descreveremos sumariamente a ação científica dos Jesuítas, em Portugal e na província portuguesa da Ordem, entre os séculos XVI e XVIII, procurando identificar as principais linhas de continuidade assim como os principais eventos de rutura. Centramo-nos na matemática, astronomia, física e química.
Se é certo que a matriz pedagógica dos Jesuítas sempre foi o aristotelismo, pedra angular da escolástica medieval, não é menos certo que os Jesuítas não ficaram de modo nenhum imunes aos ventos de mudança trazidos pela Revolução Científica, não sendo inteiramente justa a fama de conservadorismo científico e filosófico que a forte propaganda pombalina fez abater sobre eles. [6] Muitos Jesuítas foram porta-vozes, em Portugal e no mundo,
da modernidade científica, protagonizando a quebra da tradição científica. O uso do telescópio galilaico em Portugal e a sua introdução no Oriente constitui um bom exemplo. [7]
(...)
NOTAS
[1] Para uma visão de conjunto da história da Companhia ver a nossa obra recente: José Eduardo
Franco e Carlos Fiolhais, Jesuítas, Construtores da globalização: Uma história da Companhia
de Jesus, CTT - Correios de Portugal, Lisboa, 2016. Para um resumo da história da ciência em
Portugal, incluindo a acção dos Jesuítas, ver Carlos Fiolhais e Décio Martins, Breve História
da Ciência em Portugal, Imprensa da Universidade de Coimbra e Gradiva, Coimbra, 2010, e
Carlos Fiolhais, História da Ciência em Portugal, Arranha Céus, Lisboa, 2013.
[2] Ugo Baldini, «A escola de Christoph Clavius: Um agente essencial na primeira globalização
da matemática europeia», in Carlos Fiolhais, Décio R. Martins e Carlota Simões (coords.), História
da Ciência Luso-Brasileira: Coimbra entre Portugal e o Brasil, Imprensa da Universidade,
Coimbra, 2013.
[3] Cf. Cristiano Casalini, Aristóteles em Coimbra. Cursus Conimbricensis e a educação no Collegium Artium, Imprensa da Universidade, Coimbra, 2016.
[4] Henrique Leitão (Coord.), Estrelas de Papel. Livros de Astronomia dos séculos XIV a XVI,
Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa, 2008.
[5] Sobre a primeira Universidade de Évora ver os estudos numa obra que assinalou os 450
anos da sua fundação: Sara Marques Pereira e Francisco Lourenço Vaz (Coord.), Universidade
de Évora (1559-2009): 450 Anos de Modernidade Educativa, Chiado, Lisboa, 2012, passim.
[6] Cf. João Pereira Gomes, Obra Seleta – Os Jesuítas e a Ciência em Portugal: Debates, estereótipos
e conhecimento científico, Henrique Leitão e José Eduardo Franco (coords.), Esfera do
Caos, Lisboa, 2011.
[7] Cf. Henrique Leitão, «Galileo’s telescopic observations in Portugal», in José Montesinos y
Carlos Solís (eds.), Eurosymposium Galileo 2001, Orotava, 2001, pp. 903-913.
A Companhia de Jesus, fundada em 1534 por Santo Inácio de Loyola, que se instalou em Portugal em 1540, ano da sua confirmação pelo Papa, assumiu um papel relevante na Ciência e na Cultura, não só na metrópole mas também no vasto Império português, ao longo de um tempo prolongado, antes de ter sido extinta por acção do Marquês de Pombal, em 1759, uma acção que haveria de levar em 1773 à sua extinção universal pelo Papa franciscano Clemente XIV. [1]
Os Jesuítas foram rápidos e diligentes intermediários na chegada da Revolução Científica a Portugal e ao mundo. Foram eles que trouxeram para Portugal os métodos e as ideias de Galileu, foram eles que asseguraram durante mais de século e meio o funcionamento de uma brilhante escola de Matemática em Lisboa (a Aula da Esfera) e foram eles que levaram para o Oriente a nova ciência que tinha despertado na Europa, que incluía o uso de telescópios e de relógios mecânicos.
Nesse processo de globalização, valeu a Portugal no século XVI a sua posição geoestratégica na ponta da Europa: Lisboa era o único porto de onde então se partia para o Brasil, para a Índia, para a China e para o Japão. Com a sua forte missão evangelizadora, a Companhia de Jesus não demorou a chegar a Portugal.
No grupo inicial dos companheiros de Santo Inácio de Loyola estavam o português Simão Rodrigues e o basco Francisco Xavier. O primeiro ficou a organizar a Ordem em solo lusitano enquanto o segundo embarcava para o Oriente, onde veio a ganhar jus à santidade. Foi em Portugal que se estabeleceram os primeiros colégios da nova Ordem religiosa. O Colégio de Jesus em Coimbra
foi fundado em 1542. Nesse mesmo ano foi fundado também em Coimbra o Colégio das Artes, mas, passados seis anos, esta escola, que começou por ser gerida por mestres bordaleses, eivados do humanismo renascentista, foi entregue pela coroa aos Jesuítas, que construíram um novo edifício na Alta da Cidade, ao lado do Colégio de Jesus, formando um amplo complexo, que esteve ligado por um refeitório comum.
Os dois colégios, com exceção da Igreja (hoje igreja diocesana, conhecida por Sé Nova), pertencem atualmente à Universidade de Coimbra. Os Colégios de Jesus e das Artes foram sítios de formação de gerações não só de Jesuítas como, em geral, de jovens que iam ingressar na Universidade e que ali faziam os estudos preparatórios.
Um dos estudantes mais notáveis do Colégio das Artes foi o jesuíta alemão Christophoro Clavius (1538-1612), que, tendo estudado durante cinco anos em Portugal (entre 1555 e 1560), haveria de se tornar astrónomo do Papa, sendo hoje reconhecido como o mais importante astrónomo do mundo entre Copérnico e Galileu e um fundador de uma escola matemática que teve um raio de acção global [2]. Foi ele um dos autores da Reforma do Calendário Gregoriano, que entrou em vigor nos países católicos, Portugal incluído, em 24 de Fevereiro de 1582. Foi para servirem em primeiro lugar no Colégio nas Artes que foram impressos entre 1592 e 1606 os Conimbricenses, comentários a Aristóteles que ganharam fama mundial. [3]
Em Lisboa os Jesuítas estabeleceram-se primeiro em Alfama, no Colégio de Santo Antão-o-Velho (a partir de 1542, o mesmo ano da fundação do Colégio de Jesus) e, depois, em 1579, transferiram-se para o Colégio de S. Antão-o-Novo, onde hoje é o Hospital de S. José, e onde, de 1590 a 1759, funcionou a Aula da Esfera, um curso de Matemática onde ensinou uma elite de professores Jesuítas [4], que incluiu muitos estrangeiros, em resultado da intensa circulação dos Jesuítas na sua rede de escolas, circulação essa beneficiada pelo facto de existir uma orientação pedagógica unificada. Em Évora os Jesuítas estabeleceram-se em 1559 no Colégio do Espírito Santo, onde foi e ainda hoje é a Universidade de Évora, que, como todos os outros estabelecimentos jesuítas, foi encerrado pela força das armas em 1759, precisamente ao fim de dois séculos de funcionamento. A Universidade de Évora, no seu primeiro período, foi uma escola inteiramente jesuíta. [5]
Neste trabalho de síntese, descreveremos sumariamente a ação científica dos Jesuítas, em Portugal e na província portuguesa da Ordem, entre os séculos XVI e XVIII, procurando identificar as principais linhas de continuidade assim como os principais eventos de rutura. Centramo-nos na matemática, astronomia, física e química.
Se é certo que a matriz pedagógica dos Jesuítas sempre foi o aristotelismo, pedra angular da escolástica medieval, não é menos certo que os Jesuítas não ficaram de modo nenhum imunes aos ventos de mudança trazidos pela Revolução Científica, não sendo inteiramente justa a fama de conservadorismo científico e filosófico que a forte propaganda pombalina fez abater sobre eles. [6] Muitos Jesuítas foram porta-vozes, em Portugal e no mundo,
da modernidade científica, protagonizando a quebra da tradição científica. O uso do telescópio galilaico em Portugal e a sua introdução no Oriente constitui um bom exemplo. [7]
(...)
NOTAS
[1] Para uma visão de conjunto da história da Companhia ver a nossa obra recente: José Eduardo
Franco e Carlos Fiolhais, Jesuítas, Construtores da globalização: Uma história da Companhia
de Jesus, CTT - Correios de Portugal, Lisboa, 2016. Para um resumo da história da ciência em
Portugal, incluindo a acção dos Jesuítas, ver Carlos Fiolhais e Décio Martins, Breve História
da Ciência em Portugal, Imprensa da Universidade de Coimbra e Gradiva, Coimbra, 2010, e
Carlos Fiolhais, História da Ciência em Portugal, Arranha Céus, Lisboa, 2013.
[2] Ugo Baldini, «A escola de Christoph Clavius: Um agente essencial na primeira globalização
da matemática europeia», in Carlos Fiolhais, Décio R. Martins e Carlota Simões (coords.), História
da Ciência Luso-Brasileira: Coimbra entre Portugal e o Brasil, Imprensa da Universidade,
Coimbra, 2013.
[3] Cf. Cristiano Casalini, Aristóteles em Coimbra. Cursus Conimbricensis e a educação no Collegium Artium, Imprensa da Universidade, Coimbra, 2016.
[4] Henrique Leitão (Coord.), Estrelas de Papel. Livros de Astronomia dos séculos XIV a XVI,
Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa, 2008.
[5] Sobre a primeira Universidade de Évora ver os estudos numa obra que assinalou os 450
anos da sua fundação: Sara Marques Pereira e Francisco Lourenço Vaz (Coord.), Universidade
de Évora (1559-2009): 450 Anos de Modernidade Educativa, Chiado, Lisboa, 2012, passim.
[6] Cf. João Pereira Gomes, Obra Seleta – Os Jesuítas e a Ciência em Portugal: Debates, estereótipos
e conhecimento científico, Henrique Leitão e José Eduardo Franco (coords.), Esfera do
Caos, Lisboa, 2011.
[7] Cf. Henrique Leitão, «Galileo’s telescopic observations in Portugal», in José Montesinos y
Carlos Solís (eds.), Eurosymposium Galileo 2001, Orotava, 2001, pp. 903-913.
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