domingo, 26 de abril de 2015
A ARTE DOS SABORES
Texto recebido de Galopim de Carvalho:
Ver fazer, experimentar e conseguir fazer foram constantes ao longo da minha vida. Já o escrevi e já o disse vezes sem conta. Praticamente tudo me cativava, menos a escola, desinteressante, austera, repressiva e enfadonha. Aprender gramática escrevendo no caderno diário, a mando do professor, as definições de sujeito, predicado, complemento circunstancial de lugar, nome predicativo do sujeito e mais uma infinidade de conceitos não explicados, sem sentido, ditados monótona e monocordicamente, nada tinha de apelativo. Pior ainda era ter de decorar tudo aquilo e repeti-lo, tim-tim por tim-tim, frente ao semblante carregado do mestre, de régua na mão a bater na perna a cadência da recitação.
- Dá cá a mão, meu madraço. Agora levas já três para alegrar a festa. E, amanhã, se não me trouxeres tudo na ponta da língua, sem gaguejar, apanhas com mais meia dúzia de cada lado...´
Era muito mais atraente ficar horas a ver o Maurício, de joelho no chão, a escolher e a afeiçoar as pedras da calçada, enfiando-as de seguida em covinhas que fazia na terra com a peta do martelo e que, por fim, ajeitava com três ou quatro pancadinhas de mestre, rematando sempre com uma mão cheínha de terra a colmatar as imperfeições dos ajustes. Impressionante era, depois, ouvir o baque pesado e cavo do maço a calcar o chão, numa repetição ritmada pelo respirar ruidoso saído do peito do calceteiro, num vigor condizente com o esforço posto em cada batida. Nessa altura eu já distinguia os diversos tipos de martelos dos vários ofícios abertos à minha imensa curiosidade no pequeno universo que foi a cidade e os seus arredores. Martelo de sapateiro, com que brinquei na oficina do meu tio Almaça, de funileiro, como o do Teófilo, à Porta Nova, de pedreiro, de estofador, de ferrador, de carpinteiro, que aprendi a usar, pregando e tirando pregos, com o mestre Roberto, na Rua do Segeiro, todos os martelos eram diferentes entre si e nenhum era igual ao do Maurício, mais parecido com o martelo de geólogo, profissão que nessa altura, já lá vão mais de sete décadas, ninguém em Évora sabia o que era. Ferramenta esta que nem eu sabia que ia ser a minha a partir do ano em que, já adulto, decidi cursar Geologia, um gosto antigo só tarde concretizado. Bonitos e em tamanho a condizer com a minha estatura de criança eram os martelinhos do senhor Rego, relojoeiro, e o do senhor Sales, conceituado ourives da cidade. Uma tal curiosidade e interesse por tudo o que era manual, levou-me, mais tarde, nos anos cinquenta, a frequentar a oficina de encadernação do Brito, um jovem da minha idade com quem estabeleci amizade e me iniciou na arte. Grande mestre e referência entre os últimos encadernadores douradores ainda vivos, com ele aprendi a coser os cadernos, a fixar as capas de cartão e a armar as lombadas encordoadas. Ali me adestrei no corte com a cesária mas nunca tive ordem de usar a guilhotina. Sob a sua simpática e sábia orientação, cheguei a encadernar alguns dos meus livros em meia-francesa, em pano e em percalina, peças que guardo religiosamente.
Entre os inúmeros pólos de atracção, alvos predilectos desta minha vocação de ver fazer e, assim, aprender como se fazia, estava também a cozinha. Vários factores foram determinantes deste meu interesse. Sendo o mais novo de cinco filhos só fui para a escola aos nove anos, para a terceira classe. A primeira e a segunda fi-las em casa, numa modalidade designada por Ensino Doméstico, tendo por mestres a mãe, o pai e os irmãos mais velhos. A minha mãe sabia como era a escola e achava-me demasiado pequeno para enfrentar um tal desconforto. Com ela aprendi a ler na «Cartilha Maternal» de João de Deus e toda a tabuada, a mesma que ainda hoje me dispensa do abuso das calculadoras de bolso dos nossos actuais estudantes. Assim, só com aquela idade enfrentei as “virtudes pedagógicas” dos mestres-escola de então. Havia excepções, deve ressalvar-se, mas eram poucas.
Nesse tempo era quase sempre eu que, diariamente, fazia as compras na praça, no talho, na mercearia, para além de outros mandados indispensáveis a uma casa de família. Tal azáfama foi-me ensinando a conhecer os produtos alimentares, dos legumes à fruta, passando pelas carnes e pelo peixe, a tal ponto que podia ir para a rua com uma nota de vinte escudos na algibeira e ser eu que destinava. Destinar era um verbo muito usado pela mãe para dizer, com uma só palavra, uma porção delas: pensar o que iria ser o almoço ou o jantar desse dia, em função do que havia e não havia, das qualidades e dos preços, e decidir, na hora, ali, frente às bancas.
- Destina lá tu. Se as favas estiverem em conta – dizia-me, já eu ia escada abaixo – não te esqueças de pedir coentros e rama de alho fresca. Compra três quilos que, depois de descascadas, ficam por menos de metade. E não queiras das grandes. Têm a pele dura e são farinhentas. Pede das miudinhas. Se não houver das boas, traz ervilhas. Escolhe das mais cheínhas e gradas. Tens é então de comprar uma dúzia de ovos. E certifica-te que são frescos. Na semana passada deram-te um gorado...
Era assim todos os dias. Peixe espada para grelhar, carapau para fritar, pescada para fazer com arroz e espinafres. Ciba (choco grande) para guisar com batatas. Tomate rijo para a salada ou bem maduro para a tomatada. Da galinha viva para a cabidela (não te esqueças dos cominhos), às ervas de cheiro e aos ingredientes para o cozido de abóbora e grão, acabei por aprender muito do que todas as mães sabiam no seu quotidiano de dar de comer à família. Na mercearia do Anselmo onde, a brincar, dava ajuda de caixeiro, aprendi os usos a dar às especiarias, a distinguir o bacalhau do escamudo, a avaliar as qualidades de tudo o que se vendia a granel, tirado a corredor das tulhas, do açúcar às massas, do arroz ao feijão e ao grão. Aprendi a estimar o grau do azeite pela cor e pelo cheiro. Um outro factor influente no meu gosto pela culinária tinha-o em casa, na cozinha, ouvindo a mãe que falava das quantidades, dos tempos e dos cuidados a ter e me explicava todos os porquês e os para quês, os quando e os quantos, os como e os onde.
- A asa da frigideira fica sempre lá para trás, não vá a gente dar-lhe um encontrão. E, olha – advertia, de dedo em riste e olhar muito sério – não há queimadura pior do que a do azeite a ferver. Para engrossar o caldo com farinha nunca é o frio sobre o quente, pois dessa maneira formam-se umas bolinhas de farinha cozida que já não se desfazem. Olha, é sempre assim, - dizia, enquanto tirava com o caço o caldo a ferver da panela e o vertia em fio sobre uma tigela onde diluíra a farinha em água fria. Outras vezes, estando a preparar um cozido, alertava-me – A couve tem de ser escaldada primeiro – e, mais adiante, – os enchidos são cozidos à parte, senão deixam um cheiro a fumeiro que estraga tudo.
Um terceiro factor de interesse pela arte de Pantagruel foi talvez a minha própria natureza de grande apreço pelos bons paladares e a convicção de que não há melhores aromas do que os que se exalam dos tachos e panelas ao lume, aromas que enchem as cozinhas e dilatam as narinas. E todos sabemos como os aromas prenunciam os paladares...
Quando os onze anos me levaram para o liceu, acabou-se para a minha mãe a ajuda que lhe dava em casa neste capítulo do aprovisionamento alimentar e terminou, para mim, o contacto diário com a cozinha, um saber que, sem me ter dado conta, mantive guardado como uma semente que só muito mais tarde germinou e deu frutos. Depois de adulto, já casado, em todas as situações em que se proporcionou pôr o avental, todo esse repositório veio ao de cima. Três anos em Paris, cada um a estudar para seu lado e a residirmos na vizinhança da velha e conhecida rue Mouffetard, onde ainda decorre o mais tradicional mercado parisiense, deram-nos, agora aos dois, novas possibilidades de explorar a arte dos sabores.
Galopim de Carvalho
sábado, 25 de abril de 2015
"O povo não precisa de gramática"
No dia em que a "Revolução de Abril" fez quarenta e um anos, sente-se, de modo muito particular, o país, desmoralizado e descrente, a caminhar para um precipício, para uma ruptura, ou para uma inacção.
Releio palavras de Sophia de Mello Breyner dirigidas a Jorge de Sena (publicadas no livro Correspondência 1959-1978, Guerra e Paz, 2006, p. 134) e percebo melhor o que nos aconteceu e o que nos está a acontecer.
A educação das crianças e dos jovens não foi nem é uma aposta. Falo de uma aposta no conhecimento em que a inteligência cria raízes e não (apenas) na ampliação do tempo de escolaridade. Tal como há quatro décadas, a nossa tragédia é, sim, a incompetência cultural.
Fica a interrogação de Sophia...
Releio palavras de Sophia de Mello Breyner dirigidas a Jorge de Sena (publicadas no livro Correspondência 1959-1978, Guerra e Paz, 2006, p. 134) e percebo melhor o que nos aconteceu e o que nos está a acontecer.
A educação das crianças e dos jovens não foi nem é uma aposta. Falo de uma aposta no conhecimento em que a inteligência cria raízes e não (apenas) na ampliação do tempo de escolaridade. Tal como há quatro décadas, a nossa tragédia é, sim, a incompetência cultural.
Fica a interrogação de Sophia...
O problema, a tragédia de toda esta revolução a sua INCOMPETÊNCIA CULTURAL. Desde a descolonização onde tudo se fez com um despacho simplicíssimo, primário "ad hoc", até à reforma agrária falseada e demagógica! Passando pela constituição onde se lutou pela vitória da estupidez com o maior sucesso salvo alguns pontos que a muito custo foi possível salvar. Houve até quem no grupo parlamentar, numa reunião de discussão, respondesse à minha crítica à má redacção de um articulado, dizendo-me que o "o povo não precisa de gramática" (...). Será ainda tempo de emergirmos de todos estes erros e demagogias soezes?
Sophia de Mello Breyner, Abril de 1976.
Sobre a herança de Gago: Minha entrevista ao Expresso
Para o Expresso de hoje respondi a três perguntas colocadas por Virgílio Azevedo:
1. A herança de Mariano Gago em termos de política
científica está a ser abandonada pelo Governo?
Está, sem dúvida, a ser abandonada. Mariano Gago expandiu o
sistema científico nacional, pois sabia que a massa crítica de cérebros era
indispensável para o nosso desenvolvimento. Crato encolheu a ciência, com o
corte no número de bolsas e a execução sumária de metade das unidades de
investigação. Gago concretizou um sistema de avaliação rigoroso da ciência,
reconhecido por todos. Crato montou uma farsa de avaliação, contestada por
quase todos e já alvo de vários processos judiciais. Gago criou um consenso
alargado acerca da política de ciência. Crato partidarizou a ciência: basta ver
que a sua “avaliação” só foi segura pelos votos do PDS-CDS. Finalmente, Gago achava
que para recuperar do atraso era necessária uma base de apoio social da
ciência, sendo a promoção da cultura científica uma prioridade. Este governo
não sabe o que é a cultura científica, tendo acabado com as áreas de História
da Ciência e de Promoção da Ciência, preferindo uma ciência fechada, como a que
havia no Estado Novo.
Para se ter uma política científica é necessário conhecer
bem o país. Gago conhecia-o. Crato tudo leva a crer que não. Tem apenas ideias
preconcebidas e sem fundamento. De facto não há hoje política científica. A não
ser que se chame isso à ocupação da máquina do Estado para defender interesses
particulares. Gago tinha uma visão de futuro para o país, uma visão baseada na
ciência e na cultura científica. Crato, para meu grande desgosto, não tem.
2. Os resultados provisórios do último Inquérito
ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional revelam que a despesa em I&D
em percentagem do PIB caiu de 1,46% para 1,36% entre 2011 e 2013. Como é
possível a ciência portuguesa evoluir e aproximar-se dos países mais
desenvolvidos da UE se o investimento está a diminuir de ano para ano?
Não é possível. A ciência portuguesa fez um percurso
notável nas últimas duas décadas, mas é preciso não esquecer o atraso que
tínhamos para recuperar. A aproximação à Europa exigia e exige um investimento
continuado. No momento em que era necessário seguir em frente, fizemos inversão
de marcha, levando à emigração de cérebros. Mas é pior que desinvestimento.
Ao concentrar os meios num número bastante menor de unidades, em geral da
Grande Lisboa, está a coarctar-se o desenvolvimento regional e nacional. Com a
“poda” de metade das unidades por um processo fraudulento de “avaliação”, a aposta
continuada na ciência seria impossível mesmo com mais meios. Um euro investido
numa unidade que já tem muitos tem um retorno bem menor que um euro investido
numa unidade que poderá não ser tão boa mas tem bastante mais potencial para
progredir e ter impacto na sua região e no país. Nunca se deve caiar um
elefante que já é branco. Não faz, por exemplo, qualquer sentido pôr o erário
público a sustentar grandes fundações privadas. Lá fora é precisamente ao
contrário: são as fundações que ajudam o Estado.
3. O acesso da ciência portuguesa aos fundos
estruturais europeus no âmbito do Portugal 2020 só vai ser possível a partir do
verão de 2015. O resultado das negociações de Portugal com a UE neste
contexto foi satisfatório? A ciência portuguesa pode viver só com o Orçamento
de Estado durante metade do ano?
Boa pergunta. Há aqui uma enorme falta de transparência. Dá
a ideia que o governo não soube negociar com Bruxelas. O crescimento da ciência
no tempo de Gago foi muito ajudado pela União Europeia, mas parece que Crato
desistiu dessa ajuda. Seria relevante conhecer os totais do orçamento para
a ciência, em particular para a FCT, antes e agora, assim como saber o que se
passa com os fundos europeus. Vai haver fundos estruturais que antes eram
destinados à ciência e agora ficam fora
do Ministério da Educação e Ciência? Para quem, para quê e como?
sexta-feira, 24 de abril de 2015
À LUZ DO TELESCÓPIO ESPACIAL HUBBLE
Artigo publicado primeiramente na imprensa regional.
O Hubble, resultado de um esforço de cooperação científica internacional, envolvendo como já se disse a NASA e a ESA, contribuiu no quarto de século de existência mais pelo avanço do nosso conhecimento do Universo do que os milhares de anos anteriores de observação celeste.
Telescópio Espacial Hubble. Crédito NASA
A luz do Sol permitiu e
sustenta a vida na Terra. Mas foi a contemplação do céu nocturno que conduziu a
vida feita inteligência ao assombro de compreender o Cosmos. A observação
sistemática do céu nocturno é uma constante ao longo da história da humanidade,
um pulsar da cultura humana.
Contudo, a nossa visão,
adaptada que está à luz visível solar, não possui a acuidade suficiente para perscrutar
toda a riqueza escondida no céu nocturno.
Para reduzir esta nossa
miopia cósmica, Galileu Galileu, com a sua luneta, no início do século XVII, deu
mais luz à nossa retina e permitiu a revolução científica e humanística que dele
herdamos. A observação instrumental do Universo permitiu progressivamente compreender
melhor o nosso lugar e a composição do Cosmos.
Mas observar o céu a
partir da Terra encontra uma limitação não ultrapassável mesmo com os mais
modernos telescópios: a atmosfera, se por um lado protege a vida das perigosas
radiações ultravioleta e raios cósmicos, por outro perturba e reduz a luz que
nos chega das estrelas. “A atmosfera deixa de ser transparente
para a luz de comprimento de onda abaixo de 300 nm (300 nanómetros), impedindo
as observações no domínio do ultravioleta; permite a passagem da radiação
visível mas deixa novamente de ser transparente para comprimentos de onda acima
de cerca de 1100 nm, impedindo a observação no infravermelho longínquo”,
diz-nos o astrónomo amador Guilherme de Almeida. E, como sabemos hoje, é
importante observar o Universo para além da luz visível.
Este problema levou
gerações de astrónomos no século XX a sonhar com a colocação de um telescópio no espaço, a
orbitar a Terra, para além da sua atmosfera.
E, assim que a tecnologia
o permitiu, um telescópio foi enviado ao encontro do conhecimento. Foi a 24 de
Abril de 1990 que a NASA lançou, em
colaboração com a ESA, a bordo do vaivém espacial Discovery,
o Telescópio Espacial Hubble. Assim, este ano, mais precisamente hoje, celebra-se
o 25º aniversário deste telescópio assim designado para homenagear Edwin Powell Hubble (1889-1953), o astrónomo
norte-americano que revolucionou a astronomia ao demonstrar, entre outras
coisas, que as estrelas se afastam umas das outras a uma velocidade
proporcional à distância que as separa, ou seja, que o Universo está em
expansão. Com o Telescópio Espacial Hubble também o nosso conhecimento se
expandiu como nunca antes.
O Hubble ficou a orbitar a Terra a uma altitude
de 552 km, perfazendo uma volta ao nosso planeta a cada 97 minutos. “Opticamente, o
Hubble tem 2,40 m de abertura (diâmetro óptico útil), e funciona na
configuração de Cassegrain, versão Ritchey-Chrétien”, especifica Guilherme de
Almeida.
Acima da atmosfera, o Hubble consegue obter imagens limpas das turbulências da atmosfera terrestre e, para além da radiação
visível, podem fazer-se registos nos domínios do ultravioleta e do
infravermelho. Esta possibilidade permitiu ao Hubble captar imagens deslumbrantes
de galáxias, nebulosas e estrelas muito distantes com uma resolução ímpar que
permite o seu estudo e interpretação científica.
Ao longo
destes 25 anos, a ciência feita com o Telescópio Espacial Hubble revolucionou o conhecimento de
forma equiparável ao feito de Galileu há 500 anos. Este
telescópio tornou-se um dos instrumentos mais produtivos ao dispor da
comunidade científica, dando origem a mais de 13 mil artigos científicos.
Para David Sobral, Investigador do I.A. - Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e do Observatório de Leiden, na Holanda, “o Hubble teve e tem uma importância incalculável para a Astronomia e Astrofísica. Ainda que não seja dos maiores telescópios que existe (tem “apenas” 2.4 metros), o facto de se encontrar numa órbita próxima foi incrivelmente importante, e já foram feitas 5 missões para “upgrade”. A primeira foi capaz de colocar o telescópio a funcionar com todo o seu potencial, mas ao longo dos anos, novos instrumentos fizeram com que o telescópio fosse ficando cada vez mais poderoso e competitivo. E hoje continua a ser dos mais concorridos e potentes. Com o Hubble é possível ver não só detalhes incríveis no nosso sistema solar e na nossa própria galáxia, mas também procurar e estudar as galáxias mais distantes alguma vez estudadas.”
Para David Sobral, Investigador do I.A. - Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e do Observatório de Leiden, na Holanda, “o Hubble teve e tem uma importância incalculável para a Astronomia e Astrofísica. Ainda que não seja dos maiores telescópios que existe (tem “apenas” 2.4 metros), o facto de se encontrar numa órbita próxima foi incrivelmente importante, e já foram feitas 5 missões para “upgrade”. A primeira foi capaz de colocar o telescópio a funcionar com todo o seu potencial, mas ao longo dos anos, novos instrumentos fizeram com que o telescópio fosse ficando cada vez mais poderoso e competitivo. E hoje continua a ser dos mais concorridos e potentes. Com o Hubble é possível ver não só detalhes incríveis no nosso sistema solar e na nossa própria galáxia, mas também procurar e estudar as galáxias mais distantes alguma vez estudadas.”
Este astrónomo português que faz investigações com o Hubble destaca “a descoberta e estudo de galáxias a mais de 13 mil milhões
de anos-luz”. Acrescenta que “talvez uma das grandes descobertas passou pela
observação ultra-profunda de uma pequeníssima área do céu, dando-nos a imagem
mais profunda alguma vez obtida pela humanidade. O Hubble mostrou que por mais
pequena e negra seja uma área do céu, existem dezenas de milhares de galáxias,
das mais variadas formas, cores e tamanhos.”
Para João Fernandes, responsável pelo
Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade
de Coimbra, “o telescópio espacial Hubble tem sido um dos mais profícuos
instrumentos astronómicos de
sempre. A sua ”visão” leva-nos do Sistema Solar aos confins do Universo, passando por nebulosas, estrelas
e galáxias. São milhares as
fantásticas imagens que hoje povoam os livros e a internet que relatam as descobertas do Hubble. São, igualmente,
inúmeros os artigos científicos e
avanços do conhecimento do Espaço graças ao Hubble. É difícil escolher a observação ou descoberta mais
importante". "Pela proximidade com a Terra
e pelas questões que a temática levantou (e levanta)”, João Fernandes destaca as
observações que o Hubble fez de Plutão: “Plutão
é hoje denominado um “planeta anão”
(após a revisão da definição de “planeta” feita pela União Astronómica Internacional, em 2006) e tem um sistema
de várias luas em seu redor. O
Hubble fez das primeiras imagens da superfície de Plutão como fez também
descobertas de várias dessas luas. Apesar da
“desqualificação” sofrida Plutão continua a
atrair muito interesse pelo que
nos pode informar sobre a formação e evolução do Sistema Solar.”
“Portugal, enquanto membro pleno da ESA, tem hoje acesso total ao Hubble”, diz-nos David Sobral. “Qualquer investigador a trabalhar em Portugal pode fazer uma proposta e obter tempo para observar e responder a inúmeras perguntas. No entanto, e ainda que Hubble esteja a completar 25 anos, continua a ser altamente requisitado. Por exemplo, este ano foram novamente submetidas mais de 1300 propostas dos melhores investigadores do Mundo para realizar as mais diversas observações. Isso faz com que apenas uma em cada oito propostas tenham sucesso e sejam observadas. Eu próprio submeti duas propostas para observar galáxias distantes únicas que descobrimos recentemente e que se achava que não existiam. Vamos ficar a torcer para que daqui a alguns meses o Hubble as possa estudar como só o Hubble consegue, e para que Portugal possa usar um pouco mais as capacidades únicas do Hubble”.
“Portugal, enquanto membro pleno da ESA, tem hoje acesso total ao Hubble”, diz-nos David Sobral. “Qualquer investigador a trabalhar em Portugal pode fazer uma proposta e obter tempo para observar e responder a inúmeras perguntas. No entanto, e ainda que Hubble esteja a completar 25 anos, continua a ser altamente requisitado. Por exemplo, este ano foram novamente submetidas mais de 1300 propostas dos melhores investigadores do Mundo para realizar as mais diversas observações. Isso faz com que apenas uma em cada oito propostas tenham sucesso e sejam observadas. Eu próprio submeti duas propostas para observar galáxias distantes únicas que descobrimos recentemente e que se achava que não existiam. Vamos ficar a torcer para que daqui a alguns meses o Hubble as possa estudar como só o Hubble consegue, e para que Portugal possa usar um pouco mais as capacidades únicas do Hubble”.
O Hubble, resultado de um esforço de cooperação científica internacional, envolvendo como já se disse a NASA e a ESA, contribuiu no quarto de século de existência mais pelo avanço do nosso conhecimento do Universo do que os milhares de anos anteriores de observação celeste.
António Piedade
CARTA ABERTA AOS PILOTOS DO GRUPO TAP
Documento do movimento NÃO TAP OS OLHOS, impulsionado por António Pedro Vasconcelos, que eu apoio:
O Movimento Não TAP os Olhos, que tem estado a lutar contra a Privatização da TAP, tem vindo a demonstrar, ao longo destes últimos meses, que é possível, de uma forma séria, democrática e com o apoio incondicional da grande maioria dos portugueses, denunciar os falsos argumentos e as verdadeiras intenções do Governo, e impedir a privatização da TAP Portugal.
A verdade é que o governo de Passos Coelho, não só não tem sido sério ao longo de todo este processo (quando anunciou a privatização total da empresa, em 2011, indo mais longe do que os compromissos assumidos com a Troika, a TAP não tinha problemas de tesouraria), como deixou de ter o pretexto do Memorando da Troika e, em fim de mandato, deixou de ter legitimidade política para tomar a decisão de privatizar qualquer empresa pública.
Para provar a má-fé do Governo basta dizer que, ao mesmo tempo que reconhece a importância estratégica da empresa, a necessidade de manter o Hub de Lisboa, e se escudou na defesa do interesse dos emigrantes para travar, através de uma “requisição civil” ilegal, a greve contra a privatização, decretada pela Plataforma de todos os sindicatos, pretende agora vendê-la ao desbarato a uma empresa estrangeira, com um “caderno de encargos” inquinado de ilegalidades, sem ter em conta minimamente o interesse nacional.
Se fosse necessário invocar um testemunho insuspeito, em Fevereiro deste ano, e já em pleno processo de privatização, o presidente da administração da TAP veio dizer, preto no branco, o seguinte: “Há empresas que têm de ser privatizadas ou fecham. Não é o nosso caso, que é sustentável. Tivemos resultados positivos nos últimos cinco anos – ou nos últimos oito, se esquecermos 2008.”
Foi isto que a Plataforma dos sindicatos defendeu quando anunciaram a greve de Dezembro, que o governo sabotou, dividindo os trabalhadores, seduzindo com promessas demagógicas alguns sindicatos. Não é isso que defendem agora os pilotos com a anunciada greve de dez dias. De facto, esta greve anunciada não é contra a privatização da TAP. Pelo contrário, é uma greve a favor de uma privatização que lhes permita retirar miríficos dividendos da privatização da companhia nacional, nomeadamente 10% a 20% das acções da empresa ou a devolução das diuturnidades suspensas pela Lei do Orçamento Geral do Estado.
Com esta atitude, os pilotos não só demonstram um total desprezo pelos seus colegas da manutenção, de cabine e de terra, pretendendo vir a ser os seus patrões, como estão a dar pretextos ao governo para diabolizar o direito à greve, pôr a opinião pública contra os trabalhadores e reforçar a sua desculpa para a urgência em vender a TAP a qualquer preço.
Por isso, o Movimento Não TAP os Olhos declara-se inequivocamente contra esta greve marcada pelo Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil, que considera autista, por ser uma quebra de solidariedade com os restantes trabalhadores, e porque em nada contribui para credibilizar o protesto de milhões de portugueses que, em Portugal e na diáspora portuguesa, querem que a TAP se mantenha nas mãos do Estado.
Pelos motivos acima referidos, o Movimento Não TAP os Olhos apela a todos os Pilotos do Grupo TAP que cancelem esta greve, por ser inoportuna, politicamente suicida e que, sem descurar os seus direitos legítimos, se batam, isso sim, contra a privatização da empresa que, além de privar Portugal de um instrumento estratégico para a ligação do universo lusófono espalhado por vários continentes, seria ruinosa para a nossa economia e para o futuro dos trabalhadores da empresa.
HOJE O TELESCÓPIO HUBBLE FAZ 25 ANOS
Minhas declarações à Antena 1 (no imagem foto do céu profundo tirada pelo Hubble):
http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=823057&tm=94&layout=123&visual=61
http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=823057&tm=94&layout=123&visual=61
quinta-feira, 23 de abril de 2015
O sentido do escoamento da água numa pia é diferente acima ou abaixo do equador?
MInha resposta no jornal I de hoje:
É pseudocientífica essa afirmação. Existe,
de facto, uma
força, chamada força de Coriolis, associada à rotação da
Terra, que faz com que
os ciclones tenham sentidos contrários acima e abaixo do
equador, mas ela não é
suficiente para causar efeitos desse tipo na pequena porção de
água de uma pia. Pode-se
realizar a experiência repetidamente no
hemisfério de residência e verificar que não há qualquer
regularidade. Em vez
de acreditar em qualquer patranha o melhor é realizar a
experiência.
NO DIA MUNDIAL DO LIVRO E DOS DIREITOS DE AUTOR
Alfabetos, do italiano Claudio Magri, uma colectânea de textos, grande parte deles publicados no jornal Corriere della Sera, é uma reflexão sobre a literatura, sobre os livros mais marcantes.
Lê-se na contracapa "... é uma viagem pela literatura, através dos livros, uma de entre milhares de viagens possíveis à descoberta dos livros, dos seus autores, e de nós próprios. Os livros que nos formam, os que nos ferem, os que nos curam, os que permitem que conheçamos o mundo e organizemos a visão que dele temos."
Ao longo de 450 páginas encontramos textos variados, onde o autor fala dos livros que marcaram a sua vida, analisa personagens, relaciona autores e obras, de várias épocas e de vários quadrantes.
Logo no primeiro texto afirma:
"Deveria, neste ponto, falar dos livros que me deixaram uma marca absoluta, que se tornaram o próprio modo de sentir o mundo e a relação entre a vida e a verdade, que ora se unem como os dois lados da mesma moeda, ora parecem contrapor-se: a Ilíada, a Odisseia — o livro dos livros, no qual já está tudo, as sereias, mas também as personagens svevianas que escamoteiam obliquamente a sua inépcia ao escutar e enfrentar o seu canto —, os trágicos gregos, Shakespeare que revela o âmago extremo da condição humana, os discursos de Buda e as parábolas de Zhuangzi; acima de todos, estavam o Antigo e o Novo Testamento, depois dos quais não se teme mais nenhum príncipe deste mundo e se compreende que a pedra mais vil, aquela desprezada pelos construtores, é a verdadeira pedra angular."
Lê-se mais adiante:
" Um livro, dizia Kafka, deve atingir-nos como um punho, deixar uma marca profunda, mudar — ainda que impercetivelmente — a vida do leitor."
Claudio Magris, Alfabetos, Quetzal, 2013
A EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION: UMA INSTITUIÇÃO FALIDA
Um responsável pela European Science Foundation publicou um artigo sobre essa instituição, a autora material da "poda" de metade das unidades de investigação nacional perpetrada em estreito conluio com a FCT (a actual Presidente da FCT ainda não reviu o processo, continuando a estudar os dossiers). Aí se revela:
- a ESF, no ano transacto, quando foi ajudada com o cheque de quase meio milhão de euros da FCT, ficou quase na falência, provavelmente por desorientação e má gestão. A ajuda portuguesa veio na hora H, salvando-a num momento de aflição.
- a ESF tem uma experiência muito limitada de avaliação de sistemas científicos nacionais: o artigo revela avaliações parciais na Lituânia e na Hungria. Mais importante que tudo: o autor não menciona a "avaliação" da ciência em Portugal, o que significa que não se orgulham disso.
Neste momento, está claro para todos que Miguel Seabra ao entregar a avaliação a uma entidade desqualificada cometeu um erro monumental, um erro que foi muito caro não só para a reputação dele (viu-se obrigado a demitir-se no meio do maior tumulto de sempre da ciência nacional) como sobretudo para a ciência portuguesa.
- a ESF, no ano transacto, quando foi ajudada com o cheque de quase meio milhão de euros da FCT, ficou quase na falência, provavelmente por desorientação e má gestão. A ajuda portuguesa veio na hora H, salvando-a num momento de aflição.
- a ESF tem uma experiência muito limitada de avaliação de sistemas científicos nacionais: o artigo revela avaliações parciais na Lituânia e na Hungria. Mais importante que tudo: o autor não menciona a "avaliação" da ciência em Portugal, o que significa que não se orgulham disso.
Neste momento, está claro para todos que Miguel Seabra ao entregar a avaliação a uma entidade desqualificada cometeu um erro monumental, um erro que foi muito caro não só para a reputação dele (viu-se obrigado a demitir-se no meio do maior tumulto de sempre da ciência nacional) como sobretudo para a ciência portuguesa.
"EGO" EM COIMBRA E AVEIRO
Informação recebida da marionet:
Últimas duas apresentações de EGO em Coimbra
No próximo fim de semana, o público
de Coimbra terá as duas últimas oportunidades para assistir a EGO, de Carl
Djerassi, em cena no Teatro da Cerca de São Bernardo. A peça será apresentada
no sábado, 25 de Abril, às 21h30 e no domingo, 26, às 16h.
Nesta peça o escritor e cientista
norte-americano não esconde a sua admiração por Fernando Pessoa e a sua
extraordinária criação heteronímica ao torná-los motivação central para o
suicídio forjado de uma das personagens. Stephen Marx, escritor de sucesso,
anseia por saber se a sua obra ficará na história da literatura, o que o leva a
planear a própria morte com o intuito de renascer como um seu heterónimo. Mas a
sua futura viúva, uma verdadeira força da natureza, constitui uma oposição que
não será fácil ultrapassar. Entre os dois está um psicanalista, que vê a sua
ética profissional permanentemente ameaçada e que no final não voltará a ser o
mesmo.
EGO é uma apetitosa comédia
polvilhada de um humor subtil e recheada de referências literárias, culinárias
e freudianas.
Logo após o espectáculo de domingo,
26 de Abril, cerca das 18h, acontecerá uma conversa em torno da obra dramática
de Carl Djerassi, com particular ênfase nas peças que teve traduzidas e
representadas em Portugal. Teremos como convidados especiais o actor e
encenador Júlio Cardoso, director da Seiva Trupe, e o químico e professor
universitário Manuel João Monte, que encenaram e traduziram, respectivamente,
duas peças do escritor norte-americano que foram produzidas por aquela
companhia portuense. Manuel João Monte foi também o padrinho do Doutoramento
Honoris Causa que Djerassi recebeu da Universidade do Porto em 2001.
EGO em Aveiro, nos dias 1 e 2 de Maio
EGO será apresentada em Aveiro nos próximos dias 1 e 2 de Maio,
sexta e sábado, às 21h30, no Estaleiro Teatral. Será a primeira vez que uma
obra dramática de Carl Djerassi será representada nesta cidade portuguesa.
DIVULGAÇÃO DA FÍSICA NUCLEAR
O físico Eduardo Martinho oferece-nos aqui uma lista dos links para os seus artigos de divulgação sobre Física Nuclear no jornal O Mirante de Santarém. Clicar aqui.
Parabéns Pedro Vieira!
Pedro Vieira, um físico formado na Universidade do Porto e a trabalhar numa das instituições de maior prestígio da Física - o Perimeter Institute do Canadá - foi recentemente premiado com a medalha Gribov depois de ter ganho uma das famosas bolsas Sloan. Cá parece que não tem lugar. A unidade onde ele se formou foi, de resto, maltratada pela FCT-ESF. Emigrou e lá fora é um dos melhores do mundo. Há mais casos como este. Está à vista o resultado de uma política desastrada de desperdício de talentos.
Ver
http://noticias.up.pt/alumnus-da-faculdade-de-ciencias-conquista-medalha-gribov/
Ver
http://noticias.up.pt/alumnus-da-faculdade-de-ciencias-conquista-medalha-gribov/
Minha Entrevista ao Açoriano Oriental
Entrevista que dei a Ana Carvalho Melo do Açoriano Oriental, o mais antigo jornal português em actividade e um dos mais antigos do mundo (destaques meus a amarelo):
P- Afirmou que "Hoje o drama é o analfabetismo cientifico". Termos uma população com melhor educação em ciência, não significa que sejamos todos cientistas, mas antes uma melhor compreensão do mundo. Dado que tem dedicado muito da sua carreira cientifica à divulgação cientifica, o que falta fazer?
R- De facto, se nos últimos 20-30 anos houve um crescimento enorme da ciência em Portugal, temos de reconhecer que o ponto de partida era baixíssimo. Nas Conferências do Casino de 1871 o açoriano Antero de Quental dizia: "A Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência: foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos." Se no final do século XIX o nosso nível científico era baixo e nos primeiros três quartos do século XX não melhorou muito. O próprio Antero referiu nas causas do nosso atraso a défice de educação e o tipo de educação que tínhamos. estou convencido que a falta de ciência tem muito a ver com falta de educação. No final do século XIX Portugal era um caso tremendo de analfabetismo, em contraste com a maioria dos países europeus, e em 1974 ainda havia 29% de analfabetos. Hoje em dia ainda há cerca de 5% de analfabetismo, mas o nosso drama, que importa para a relação da sociedade com a ciência, é o analfabetismo que consiste em ignorar e por vezes mesmo desprezar a ciência. Não é tanto saber ler em geral que nos deve preocupar, mas mais a não compreensão da ciência. Saber é poder e mais saber é mais poder. A ciência está presente no mundo moderno, por vezes tão presente que se torna invisível (nem reparamos que está altamente concentrada por exemplo nos telemóveis). E, no entanto, em muitos sítios como em Portugal a sociedade ainda desconhece a natureza, os objectivos e o método da ciência. Ora, como já alguém disse, esta mistura entre saber, só para alguns, e ignorância, da população em geral é explosiva. Pode acontecer que a sociedade a certa altura não perceba a necessidade de investimento contínuo na ciência e toda a nossa civilização estará em causa. O que falta fazer? Espalhar mais a ciência. Mais e melhor ciência tanto na escola como fora dela,.designadamente nos media. Há bons exemplos, mas falta que eles sejam mais seguidos. Tiro meu chapéu ao "Açoriano Oriental", ainda mais antigo que o Antero de Quental, e que se tem interessado pela difusão da ciência.
P- A educação em ciência deve começar em que ciclo de ensino?
R- O mais cedo possível, portanto logo no 1,.º ciclo do ensino básico ou, ainda antes, no jardim de infância. A criança, quando nasce, vem equipada coma curiosidade, que é a mola da ciência. Ainda antes de entrar na escola e já quer saber como é o mundo. Agarra objectos antes de falar. E quando fala pergunta o que é e por que é. Experiência de "ciência a brincar" deviam ser a introdução à ciência para todos, agora que entre nós a educação pré-escolar se generalizou. Depois na escola, a formalização da ciência seria mais fácil. E já não haveria receio da ciência como "bicho-papão". Por vezes desiste-se da ciência, por medo dela, quando nem sequer se sabe o que é. O método científico é algo bem simples: consiste em perguntar ao mundo como ele é.
P- Por outro lado tem-se mostrado muito crítico em relação ao futuro da ciência em Portugal.
R- Eu não sou crítico quanto ao futuro da ciência em Portugal.Quero até ser optimista, como são em geral os cientistas. Acredito no futuro da ciência em Portugal. penso, de resto, que sem ciência Portugal dificilmente terá futuro. Basta olhar para os países hoje mais desenvolvidos para reparar que eles são mais desenvolvidas precisamente porque acolheram a ciência há bastante tempo e não mais a largaram. Estou crítico é de um governo que diminui drasticamente o número de bolseiros de ciência, que corta os projectos a torto e a direito e que decide, à falsa fé, encerrar metade dos centros de investigação nacionais. O governo voltou as costas à ciência. Quer abandonar um grande número dos cientistas à sua sorte. Em particular, desprezou a ligação forte entre ciência e sociedade que dá pelo nome de cultura científica. Não procurou cultivar o conhecimento da ciência, nem na escola nem fora dela.
P- Quais as suas principais preocupações? Na escola gostaria que a ciência começasse mais cedo, com educadores e professores a incutirem nos mais novos o gosto pela experimentação. As crianças são verdadeiras esponjas: absorvem o que lhes transmite em tenra idade e absorvem sobretudo o que aprendem com o cérebro ligado às mãos. No secundário vejo com mágoa que a física e a química não são valorizadas, estando a física e a química reduzidas a resíduos no 12..º ano. No superior as instituições estão à míngua, com cortes até ao osso. Não há autonomia nem confiança nas instituições de ensino superior. Aposta-se ainda na ciência em institutos fora das universidade, estranhamente alguns privados, enquanto se desinveste das universidades. Há agora uma preocupação obsessiva com o emprego, que eu percebo, mas que na prática desvaloriza os cursos superiores de ciências básicas. Ao unir o Ministério da Ciência e Ensino Superior com o Ministério da Educação, assistimos ao apagamento político da ciência. A ciência não se senta à mesa do orçamento, sendo na prática preterida por interesses que estão muito afastados dela. Certas pessoas que ora nos governam ignoram que a ciência, em particular a ciência fundamental, é a fonte do desenvolvimento económico.
P- Quais as consequências da realidade actual para o futuro do nosso país?
R- Em consequência do desinvestimento na ciência e de uma politica míope que relega as universidades e politécnicos para segundo plano as novas gerações, aquelas mais qualificadas, não estão a encontrar trabalho científico e estão a emigrar. Se não se estanca essa corrente para fora, o país ficará, como já está, bloqueado. Claro que precisamos de cientistas e engenheiros, mas qualquer dia, a continuar assim o êxodo, não os teremos cá. Estarão nos sítios onde eles são acarinhados a fazer coisas que nós pagaremos muito caro para termos. Se se pensa que a ciência é cara, vão ver o que nos vai custar a falta dela.
P- A mudança no panorama científico depende só do Estado ou também da indústria?
R- Depende dos dois. Mas a ciência fundamental, com rendimento só a médio ou longo prazo, é mais uma obrigação do Estado. As empresas têm tendência em verem só o curto prazo. É até compreensível. Muitas pequenas empresas, que dominam em Portugal, lutam pela sobrevivência no dia a dia e não podem pensar em mais nada. Mas é preciso que os empresários portugueses conheçam a extraordinária mais valia que reside nos cérebros dos nossos doutores e mestres. Eles estão mortos por ajudar o país e o país precisa da ajuda deles. O seu recrutamento não pode ser apenas uma missão do Estado, tem de ser - e cada vez mais - uma missão das empresas. Ciência e economia têm entre nós de se aproximar, mas isso não se faz contraindo a ciência, mas sim continuando a expandi-la até pelo menos chegarmos a níveis médios europeus.
P- E a ciência nos Açores?
R- Os Açores são um sítio único no mundo. .São um laboratório natural: de sismologia, de vulcanologia, de meteorologia, de recursos marinhos, de biodiversidade. Há condições para colocar aqui um centro internacional activo nessas áreas mas para isso é necessária diplomacia científica de Portugal e da Europa com os Estados Unidos. os Açores estão a meio caminho entre o Novo e o Velho Continente. A ciência pode não ser o único factor de desenvolvimento, mas deve ser um factor a considerar entre outros, assegurando emprego a pessoas qualificadas e atraindo pessoas de fora. Um grande projecto exige uma grande visão. Pode ser que ela um dia apareça.
P- Afirmou que "Hoje o drama é o analfabetismo cientifico". Termos uma população com melhor educação em ciência, não significa que sejamos todos cientistas, mas antes uma melhor compreensão do mundo. Dado que tem dedicado muito da sua carreira cientifica à divulgação cientifica, o que falta fazer?
R- De facto, se nos últimos 20-30 anos houve um crescimento enorme da ciência em Portugal, temos de reconhecer que o ponto de partida era baixíssimo. Nas Conferências do Casino de 1871 o açoriano Antero de Quental dizia: "A Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência: foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos." Se no final do século XIX o nosso nível científico era baixo e nos primeiros três quartos do século XX não melhorou muito. O próprio Antero referiu nas causas do nosso atraso a défice de educação e o tipo de educação que tínhamos. estou convencido que a falta de ciência tem muito a ver com falta de educação. No final do século XIX Portugal era um caso tremendo de analfabetismo, em contraste com a maioria dos países europeus, e em 1974 ainda havia 29% de analfabetos. Hoje em dia ainda há cerca de 5% de analfabetismo, mas o nosso drama, que importa para a relação da sociedade com a ciência, é o analfabetismo que consiste em ignorar e por vezes mesmo desprezar a ciência. Não é tanto saber ler em geral que nos deve preocupar, mas mais a não compreensão da ciência. Saber é poder e mais saber é mais poder. A ciência está presente no mundo moderno, por vezes tão presente que se torna invisível (nem reparamos que está altamente concentrada por exemplo nos telemóveis). E, no entanto, em muitos sítios como em Portugal a sociedade ainda desconhece a natureza, os objectivos e o método da ciência. Ora, como já alguém disse, esta mistura entre saber, só para alguns, e ignorância, da população em geral é explosiva. Pode acontecer que a sociedade a certa altura não perceba a necessidade de investimento contínuo na ciência e toda a nossa civilização estará em causa. O que falta fazer? Espalhar mais a ciência. Mais e melhor ciência tanto na escola como fora dela,.designadamente nos media. Há bons exemplos, mas falta que eles sejam mais seguidos. Tiro meu chapéu ao "Açoriano Oriental", ainda mais antigo que o Antero de Quental, e que se tem interessado pela difusão da ciência.
P- A educação em ciência deve começar em que ciclo de ensino?
R- O mais cedo possível, portanto logo no 1,.º ciclo do ensino básico ou, ainda antes, no jardim de infância. A criança, quando nasce, vem equipada coma curiosidade, que é a mola da ciência. Ainda antes de entrar na escola e já quer saber como é o mundo. Agarra objectos antes de falar. E quando fala pergunta o que é e por que é. Experiência de "ciência a brincar" deviam ser a introdução à ciência para todos, agora que entre nós a educação pré-escolar se generalizou. Depois na escola, a formalização da ciência seria mais fácil. E já não haveria receio da ciência como "bicho-papão". Por vezes desiste-se da ciência, por medo dela, quando nem sequer se sabe o que é. O método científico é algo bem simples: consiste em perguntar ao mundo como ele é.
P- Por outro lado tem-se mostrado muito crítico em relação ao futuro da ciência em Portugal.
R- Eu não sou crítico quanto ao futuro da ciência em Portugal.Quero até ser optimista, como são em geral os cientistas. Acredito no futuro da ciência em Portugal. penso, de resto, que sem ciência Portugal dificilmente terá futuro. Basta olhar para os países hoje mais desenvolvidos para reparar que eles são mais desenvolvidas precisamente porque acolheram a ciência há bastante tempo e não mais a largaram. Estou crítico é de um governo que diminui drasticamente o número de bolseiros de ciência, que corta os projectos a torto e a direito e que decide, à falsa fé, encerrar metade dos centros de investigação nacionais. O governo voltou as costas à ciência. Quer abandonar um grande número dos cientistas à sua sorte. Em particular, desprezou a ligação forte entre ciência e sociedade que dá pelo nome de cultura científica. Não procurou cultivar o conhecimento da ciência, nem na escola nem fora dela.
P- Quais as suas principais preocupações? Na escola gostaria que a ciência começasse mais cedo, com educadores e professores a incutirem nos mais novos o gosto pela experimentação. As crianças são verdadeiras esponjas: absorvem o que lhes transmite em tenra idade e absorvem sobretudo o que aprendem com o cérebro ligado às mãos. No secundário vejo com mágoa que a física e a química não são valorizadas, estando a física e a química reduzidas a resíduos no 12..º ano. No superior as instituições estão à míngua, com cortes até ao osso. Não há autonomia nem confiança nas instituições de ensino superior. Aposta-se ainda na ciência em institutos fora das universidade, estranhamente alguns privados, enquanto se desinveste das universidades. Há agora uma preocupação obsessiva com o emprego, que eu percebo, mas que na prática desvaloriza os cursos superiores de ciências básicas. Ao unir o Ministério da Ciência e Ensino Superior com o Ministério da Educação, assistimos ao apagamento político da ciência. A ciência não se senta à mesa do orçamento, sendo na prática preterida por interesses que estão muito afastados dela. Certas pessoas que ora nos governam ignoram que a ciência, em particular a ciência fundamental, é a fonte do desenvolvimento económico.
P- Quais as consequências da realidade actual para o futuro do nosso país?
R- Em consequência do desinvestimento na ciência e de uma politica míope que relega as universidades e politécnicos para segundo plano as novas gerações, aquelas mais qualificadas, não estão a encontrar trabalho científico e estão a emigrar. Se não se estanca essa corrente para fora, o país ficará, como já está, bloqueado. Claro que precisamos de cientistas e engenheiros, mas qualquer dia, a continuar assim o êxodo, não os teremos cá. Estarão nos sítios onde eles são acarinhados a fazer coisas que nós pagaremos muito caro para termos. Se se pensa que a ciência é cara, vão ver o que nos vai custar a falta dela.
P- A mudança no panorama científico depende só do Estado ou também da indústria?
R- Depende dos dois. Mas a ciência fundamental, com rendimento só a médio ou longo prazo, é mais uma obrigação do Estado. As empresas têm tendência em verem só o curto prazo. É até compreensível. Muitas pequenas empresas, que dominam em Portugal, lutam pela sobrevivência no dia a dia e não podem pensar em mais nada. Mas é preciso que os empresários portugueses conheçam a extraordinária mais valia que reside nos cérebros dos nossos doutores e mestres. Eles estão mortos por ajudar o país e o país precisa da ajuda deles. O seu recrutamento não pode ser apenas uma missão do Estado, tem de ser - e cada vez mais - uma missão das empresas. Ciência e economia têm entre nós de se aproximar, mas isso não se faz contraindo a ciência, mas sim continuando a expandi-la até pelo menos chegarmos a níveis médios europeus.
P- E a ciência nos Açores?
R- Os Açores são um sítio único no mundo. .São um laboratório natural: de sismologia, de vulcanologia, de meteorologia, de recursos marinhos, de biodiversidade. Há condições para colocar aqui um centro internacional activo nessas áreas mas para isso é necessária diplomacia científica de Portugal e da Europa com os Estados Unidos. os Açores estão a meio caminho entre o Novo e o Velho Continente. A ciência pode não ser o único factor de desenvolvimento, mas deve ser um factor a considerar entre outros, assegurando emprego a pessoas qualificadas e atraindo pessoas de fora. Um grande projecto exige uma grande visão. Pode ser que ela um dia apareça.
TENDÊNCIAS - O MUNDO DA CIÊNCIA EM 2015
Artigo de Helena Peralta na revista do Montepio, para o qual dei algumas contribuições:
A nível mundial
Vamos continuar a assistir, durante 2015, ao crescimento da investigação na China. Este país tornou-se o segundo maior investidor em ciência e investigação, ultrapassando o Japão e ficando apenas atrás dos Estados Unidos. Já na Europa espera-se que comece a sério, como afirma o físico Carlos Fiolhais, o Horizonte 2020, o programa comunitário de investigação e inovação, dotado de 77 mil milhões de euros destinados à investigação.
Raquel Seruca, investigadora e vice-presidente do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto, refere que a investigação científica está a beneficiar de uma abordagem multidisciplinar, que tende a continuar em 2015. A especialista avança que há um grande investimento na saúde pública, nomeadamente no combate a doenças como a malária e o ébola.
Na área da Física, Carlos Fiolhais, docente e investigador na Universidade de Coimbra, prevê que a continuada expansão das nossas possibilidades de cálculo continue a dar aso a simulações sobre matéria condensada e matéria complexa.
O interesse pelo sistema solar vai continuar. No caso português, Fiolhais espera que em 2015 haja uma inversão na política científica de retração do investimento. “É previsível que a mudança de política traga a necessária reposição de confiança na gestão da ciência em Portugal, que neste momento está muito abalada”, diz.
ÁSIA
Uma importante movimentação surge na Ásia, já que se acredita que a China possa vir rapidamente a suplantar os EUA como superpotência mundial
PRINCIPAIS TENDÊNCIAS NA CIÊNCIA
1 A China vai continuar a ser um dos maiores investidores em investigação e ciência
2 A investigação beneficia de uma abordagem multidisciplinar muito importante
3 Acentua-se a investigação no campo da saúde, sobretudo das doenças da pobreza, como a malária
4 Doenças neurodegenerativas e cancro estão a atrair maior atenção da comunidade científica
5 Novas tecnologias, sobretudo na imagem, estão ser muito úteis nas ciências da saúde
6 Na Física continuará a expansão das possibilidades de cálculo. A Universidade de Coimbra instalará o maior supercomputador português
7 Interesse pelo sistema solar vai continuar, estando prevista para julho a passagem da sonda New Horizon pelo planeta Plutão
8 Entra [de novo] em funcionamento o acelerador LHC, o maior acelerador de partículas construído pelo homem.
Helena Peralta
A nível mundial
Vamos continuar a assistir, durante 2015, ao crescimento da investigação na China. Este país tornou-se o segundo maior investidor em ciência e investigação, ultrapassando o Japão e ficando apenas atrás dos Estados Unidos. Já na Europa espera-se que comece a sério, como afirma o físico Carlos Fiolhais, o Horizonte 2020, o programa comunitário de investigação e inovação, dotado de 77 mil milhões de euros destinados à investigação.
Raquel Seruca, investigadora e vice-presidente do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto, refere que a investigação científica está a beneficiar de uma abordagem multidisciplinar, que tende a continuar em 2015. A especialista avança que há um grande investimento na saúde pública, nomeadamente no combate a doenças como a malária e o ébola.
Na área da Física, Carlos Fiolhais, docente e investigador na Universidade de Coimbra, prevê que a continuada expansão das nossas possibilidades de cálculo continue a dar aso a simulações sobre matéria condensada e matéria complexa.
O interesse pelo sistema solar vai continuar. No caso português, Fiolhais espera que em 2015 haja uma inversão na política científica de retração do investimento. “É previsível que a mudança de política traga a necessária reposição de confiança na gestão da ciência em Portugal, que neste momento está muito abalada”, diz.
ÁSIA
Uma importante movimentação surge na Ásia, já que se acredita que a China possa vir rapidamente a suplantar os EUA como superpotência mundial
PRINCIPAIS TENDÊNCIAS NA CIÊNCIA
1 A China vai continuar a ser um dos maiores investidores em investigação e ciência
2 A investigação beneficia de uma abordagem multidisciplinar muito importante
3 Acentua-se a investigação no campo da saúde, sobretudo das doenças da pobreza, como a malária
4 Doenças neurodegenerativas e cancro estão a atrair maior atenção da comunidade científica
5 Novas tecnologias, sobretudo na imagem, estão ser muito úteis nas ciências da saúde
6 Na Física continuará a expansão das possibilidades de cálculo. A Universidade de Coimbra instalará o maior supercomputador português
7 Interesse pelo sistema solar vai continuar, estando prevista para julho a passagem da sonda New Horizon pelo planeta Plutão
8 Entra [de novo] em funcionamento o acelerador LHC, o maior acelerador de partículas construído pelo homem.
Helena Peralta
Tesouros da fotografia portuguesa do século XIX
Tesouros da Fotografia Portuguesa do século XIX apresenta, pela primeira vez, um conjunto significativo de autores e fotografias provenientes dos mais importantes acervos públicos e privados da história da fotografia portuguesa, colocando em diálogo os acervos fotográficos de diversas instituições públicas que têm como missão a salvaguarda do património fotográfico nacional, realçando a necessidade e a premência de abordagens integradas no acesso, estudo e divulgação da fotografia portuguesa.
A apresentação aos media tem lugar no dia 29 de abril às 12h00 no MNAC. Conta com a presença das curadoras Emília Tavares e Margarida Medeiros.
Em www.museuartecontemporanea.pt/informações/imprensa estão disponíveis para download a Nota de Imprensa, imagens em alta resolução e respetivos créditos.
Mais e melhor ciência (artigo de 1998)
A 30 de Outubro de 1998, três anos após existir o Ministério da Ciência e Tecnologia eis o que escrevi no Público a extraordinária mudança que o ministro José Mariano Gago estava a levar a cabo no país:
"O anunciado
aumento de 26 por cento do orçamento do Ministério da Ciência e da Tecnologia,
que faz a despesa em investigação e desenvolvimento no próximo ano alcançar 0,8
por cento do Produto Interno Bruto (PIB) português, constitui motivo de
contentamento para todos aqueles que têm defendido a ciência em Portugal.
Representa uma clara vitória política do ministro José Mariano Gago, que assim
consolida um projecto anunciado há anos no seu livro “Manifesto para uma
Ciência em Portugal”. Corresponde ao esforço da nossa comunidade científica,
cada vez mais jovem e activa. E é também e sobretudo o materializar de uma
necessidade inadiável de modernidade. Embora a civilização se possa medir de
várias maneiras, a percentagem do investimento científico é um indicador
obrigatório. Estaríamos a fugir do futuro se não avançássemos urgentemente
nesse número.
Teremos, pois,
no futuro mais ciência. Esse facto não ajudará a auto-estima nacional tanto
como uma esporádica feira mundial ou um oportuno prémio Nobel. Mas trata-se de
algo mais duradouro e profundo, e que merece apreciação: o investimento que
fazemos hoje em ciência e tecnologia é condição para desfrutarmos amanhã de
riqueza e cultura acrescidas. Sem ele, continuaremos pobres mesmo que
organizemos feiras à beira-rio.
Não nos
devemos, porém, iludir. O avanço que agora se divulga só é tão nítido porque há
anos e anos de atraso que em nada ajuda (algum do tempo perdeu-se na fase
terminal do cavaquismo, quando o progresso económico não teve contrapartida
científico-técnica). Por outro lado, ainda estamos longe dos países mais
desenvolvidos: estes gastam cerca de 2
por cento do PIB em ciência e tecnologia e alguns países com quem nos queremos
comparar estão à nossa frente (a Espanha anunciou para 1999 1 por cento, embora
aqui se incluam projectos do Ministério da Defesa).
Temos, por
isso, de ser exigentes. Temos de querer não só mais como também melhor. Temos
de assegurar empregos aos jovens que decidiram apostar em carreiras de
investigação (e para quem a vida está incerta). Temos de rejuvenescer as
universidades, que em parte estão anquilosadas e nem sempre reconhecem o
trabalho científico. Temos de sacudir a burocracia e a rotina dos Laboratórios
do Estado (cuja avaliação tarda a produzir efeitos visíveis). Temos de aumentar
a qualidade dos projectos e de procurar publicar os resultados nas melhores
revistas (para que a “Nature” não fale de Portugal apenas a propósito das vacas
loucas).Temos de reforçar a avaliação científica de centros e projectos,
financiar em conformidade e simplificar os processos administrativos associados
aos financiamentos. Temos de combater os regionalismos na actividade científica
(não há o electrão da Beira Litoral nem o da Beira Interior). Temos de
participar mais nos grandes e pequenos laboratórios internacionais — o
Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN) foi um bom exemplo de como a
internacionalização pode ajudar um país periférico a sair da periferia, mas
deve ser seguido por outros. Temos de enraizar a ciência no nosso tecido
produtivo (e assegurar que a inovação não seja só o nome de uma agência, mas a
chave da qualidade no quotidiano). Temos de levar a ciência às escolas, para o
que se impõe um casamento mais fecundo do Ministério da Ciência e Tecnologia e
o da Educação (a nossa educação científica continua lastimosa, debilitada por
pseudo-teorias da aprendizagem; não têm valido de muito as piedosas intenções
do programa “Ciência Viva”, com uma boa ideia forte — a experimentação — mas
cuja descoordenação com a educação é manifesta). Temos de levar a ciência aos cidadãos, quer
criando novos museus e audiovisuais quer usando meios mais antigos como a
imprensa e os livros (não há em português uma revista de divulgação científica
decente, em Espanha há três!). Temos de saber utilizar as novas e as velhas
tecnologias de modo a que a sociedade da informação seja também a sociedade do
conhecimento (aqui as intenções do programa “Nónio - Século XXI”, iniciativa do
Ministério da Educação para usar computadores nas escolas, nem serão piedosas
mas tão só propagandísticas).
Depende do
nosso grau de exigência ter não apenas mais ciência, mas também melhor ciência."
30 ANO DA ADESÃO DE PORTUGAL AO CERN
Informação recebida do Ciência Viva:
Na tarde do próximo domingo, 26 de abril, o LIP e a Ciência Viva celebram os 30 anos da adesão de Portugal ao CERN, no Auditório do Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa.
Esta tarde será agora também dedicada à memória de José Mariano Gago, impulsionador dessa adesão, fundador e presidente do LIP e fundador da Ciência Viva. José Mariano Gago empenhou-se pessoalmente na preparação desta celebração, trabalhando no programa até ao fim.
Às 15.00 será apresentada a estreia nacional do documentário Particle Fever, do realizador Mark Levinson, sobre o CERN, o arranque do acelerador LHC e a procura e descoberta do bosão de Higgs. Para responder a questões sobre os temas abordados no filme e sobre a presença de Portugal no CERN estarão presentes os investigadores João Varela, Patrícia Conde Muíño, Augusto Barroso, Jorge Romão e Gaspar Barreira, Director do LIP e Delegado de Portugal no Conselho do CERN.
Às 17.30 terá lugar a sessão dedicada à celebração oficial da adesão de Portugal ao CERN e à memória de José Mariano Gago, com depoimentos de personalidades nacionais e do CERN. Destacamos a participação de Luigi Rolandi e de Pier Giorgio Innocenti, do CERN, de Christian Fabjan, da Academia Austríaca das Ciências e ainda de representantes das instituições associadas do LIP (FCT, IST, Universidade de Lisboa, Universidade de Coimbra, Universidade do Minho, ANIMEE). O passado, presente e futuro do CERN marcam presença nesta sessão através das mensagens de Herwig Schopper, Director Geral aquando da adesão, Rolf Heuer, actual Director Geral, e Fabiola Gianotti, futura Directora Geral.
No final da sessão será atribuído o nome de José Mariano Gago ao Auditório do Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva.
Agradecemos que se inscreva aqui Os lugares são limitados.
quarta-feira, 22 de abril de 2015
A ERA DO DESLUMBRAMENTO
Informação recebida da Gradiva:
NÚMERO 100 DA COLECÇÃO «TRAJECTOS»!
MAIS DE 700 PÁGINAS
25 EUROS | PREÇO ESPECIAL
SÓ VENDA DIRECTA | www.gradiva.pt
A Gradiva vai comemorar a publicação do número 100 da colecção «Trajectos» com a edição especial de uma obra singular.
Esta edição será vendida com pré-encomenda, a preço especial, apenas em pedido directo à Gradiva.
Para garantir a possibilidade desta edição especial será necessário assegurarmos a venda de um mínimo de 500 exemplares, pedindo aos leitores interessados que, a partir de agora e até ao final de Maio de 2015, nos comuniquem o seu interesse em adquirir esta obra através do e-mail:
encomendas@gradiva.mail.pt
A Era do Deslumbramento é um livro único, de história e de história da ciência, que venceu o Prémio da Royal Society. Segundo o próprio autor, o reputadíssimo Richard Holmes, «é uma corrida de estafetas de histórias científicas, que se interligam para explorar a narrativa histórica mais abrangente» de uma época. Incide sobre a revolução científica que teve início na Grã-Bretanha no final do século XVIII e produziu uma nova visão da ciência e do mundo.
Esse período romântico é, de uma forma simbólica, balizado por duas célebres viagens de exploração: a expedição de circum‑navegação do capitão James Cook a bordo do Endeavour, em 1768, e a viagem de Charles Darwin às ilhas Galápagos, a bordo do Beagle, em 1831. Essa é a A Era do Deslumbramento, quetrouxe intensidade imaginativa e carácter empolgante ao trabalho científico. Esta manifestou-se, entre outros aspectos, pela ligação das descobertas a personalidades individuais.
Richard Holmes é um excelente contador de histórias e, por isso, trata as teorias focando-se nas pessoas. Apresenta e reflecte sobre as várias questões da ciência, mas tudo se traduz no fim, afinal, numa narrativa admirável de histórias humanas empolgantes e factos históricos decisivos. Richard Holmes capta o pulsar das descobertas científicas e o sentimento dos homens que as realizaram, reconstituindo o contexto dessa época tão marcante no percurso da aventura humana.
Considerado o Melhor Livro do Ano para o New York Times Book Review, A Era do Deslumbramento é uma obra de grande fôlego, informativa e de leitura compulsiva, acessível e cativante.
Lançamento previsto para Julho... a tempo das suas férias!
«Extraordinário... Uma fusão ambiciosa e inteligente de história, arte,
ciência, filosofia e biografia.»
The New York Times
«Copioso e brilhante, um livro maravilhoso.»
Claire Tomalin, Guardian
«Emocionante: um quadro de uma ousada aventura nas estrelas, pelos oceanos, na profundeza da matéria, da poesia e da psique humana.»
Independent
Autor(es)
Richard Holmes é fellow da British Academy e foi professor de Estudos Biográficos na Universidade de East Anglia. É doutor honoris causa pelas universidades de East Anglia, East London e Kingston e foi agraciado com a Ordem do Império Britânico em 1992. O seu primeiro livro, Shelley: The Pursuit, venceu o Prémio Somerset Maugham em 1974. Coleridge: Early Visions venceu o Prémio Livro do Ano Whitbread em 1989 e Dr Johnson & Mr Savage venceu o Prémio James Tait Black. Coleridge: Darker Reflections venceu o Prémio Duff Cooper e o Prémio Heinemann. Publicou dois estudos sobre a biografia europeia, Footsteps: Adventures of a Romantic Biographer em 1985 eSidetracks: Explorations of a Romantic Biographer em 2000. Vive em Londres e em Norfolk com a romancista Rose Tremain.
AMAYA MORO MARTIN FALA DA CIÊNCIA EUROPEIA E LEMBRA MARIANO GAGO
Ler aqui artigo no Euroscientist das atrofísica espanhola a trabalhar nos EUA Amaya Moro Martin. Extracto sobre a "poda" da ciência portuguesa teorizada por Coutinho e posta em prática por Seabra, o presidente da FCT de tão má memória, e sobre o ex-ministro da Ciência Mariano Gago:
"But the Portuguese chapter described in Carlos Fiolhais’s article is particularly dramatic, given that 50% of the country’s research units might be facing closure. Let me repeat that: half of the research units of an entire country, at both research centres and universities, might be facing closure. We are talking about a country with a relatively young research system. We are talking about wide-spread closures that will undoubtedly cripple all the research-based activities of an entire country for decades to come. "
(...)
"Our dearest José Mariano, you contributed tremendously to European research development and we are extremely grateful for your restless work.
Un último abrazo,"
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