sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A Banda Desenhada e a divulgação de Ciência

Com a devida vénia, publico este artigo do João Ramalho-Santos sobre o papel da BD na divulgação de ciência e que foi primeiramente publicado em vária imprensa regional através do programa Ciência na Imprensa Regional - Ciência Viva.
Ilustração do livro Uma Aventura Estaminal de João Ramalho-Santos (história) e André Caetano (desenho). Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013.

Apresentar conceitos científicos a um público não especializado levanta diferentes questões: de que modo traduzir a importância de um tema em termos do dia-a-dia dos cidadãos, como simplificar sem perder rigor, e que tipo de ferramentas utilizar. No que diz respeito ao último ponto os meios visuais são hoje prevalentes, algo que decorre da própria maneira como a ciência é, não só divulgada, como ensinada e realizada. De facto é quase impossível encontrar um trabalho científico que não inclua ilustrações, gráficos, tabelas, esquemas ou fotografias.

Nessa perspectiva a utilização da banda desenhada (BD) pode ser muito útil. A BD implica a mistura de texto e desenho em sequências que contam uma história, ou transmitem informação. A vantagem de utilizar BD relaciona-se com a visualização imediata que oferece ao leitor, seguindo a máxima que “uma imagem vale mais que mil palavras”, por exemplo representado o desenvolvimento de um organismo através de imagens consecutivas em diferentes idades. O desafio é escolher as imagens e palavras adequadas.

Apesar de ser ainda muitas vezes entendida (erradamente) como destinada apenas a jovens, no contexto da divulgação de ciência o que importa é a linguagem da BD ser acessível a todos os leitores, que a utilizam diariamente sem disso se aperceberem. Na verdade, a BD surge de modos “invisíveis” no quotidiano. Um exemplo clássico são instruções que explicam como montar estruturas (estantes, brinquedos), como funcionam aparelhos, ou como se efetuam certos procedimentos.

No contexto da divulgação a banda desenhada pode ter utilizações lineares do ponto de visto informativo, ou fazer parte de projetos que refletem sobre a própria natureza, história e impacto do conhecimento científico. No primeiro caso incluem-se trabalhos que explicam pedagogicamente processos relacionados, por exemplo, com a saúde (vacinação, a pirâmide dos alimentos) ou ambiente (reciclagem, poluição). No segundo caso encontramos obras mais interessantes e ambiciosas, que têm como objectivo, não apenas transmitir informação de um modo acessível (que não simplista), mas levar o leitor a refletir sobre os conceitos científicos em causa, o contexto no qual evoluíram, e as implicações futuras que poderão ter. Este tipo de obras tendem pois a privilegiar temas fortes, e de grande impacto. Do ponto de vista de contextualização daquilo que avanços científicos podem representar na vida de uma sociedade o melhor exemplo continua a ser o desenvolvimento da energia nuclear (e da Bomba Atómica). Em termos de projeção para um futuro próximo o tema por excelência é a descoberta de estrutura do DNA, com todas as consequências tecnológicas, quer já correntes (engenharia genética, organismos geneticamente modificados, diagnóstico pré natal), quer potenciais (terapia génica, modificação de seres humanos). Outros tópicos incluem ainda a Evolução ou as Células Estaminais.

Tão importante como a pesquisa e a escolha de informação ligada a um tema, é a forma como este é abordado. Ferramentas possíveis em BD incluem dramatizações realistas baseadas em pessoas e factos históricos, ou, num outro extremo, alegorias como a antropomorfização de células ou moléculas de DNA que “explicam” ao leitor o modo como funcionam. Nesse contexto a relação texto-desenho tem de ser pensada de modo a garantir uma transmissão eficaz, mas correta, de informação. Por exemplo: registos humorísticos podem ser muito úteis, mas apenas se não puserem em causa a seriedade global da obra. Como com qualquer outro instrumento disponível, na banda desenhada com estas características é necessário garantir um equilíbrio permanente entre “Divulgação” e “Ciência”.

João Ramalho-Santos (Universidade de Coimbra)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A União Mediterrânica


A ideia agrada e poderá entusiasmar muita gente. Foi proposta por Miguel Sousa Tavares, no Expresso (Revista) de 28 de Dezembro, suponho que dentro do espírito de adivinhar o futuro com que o dito jornal se andou a entreter durante algum tempo.

Mas, segundo MST, o futuro está aí, pois prevê a criação da referida União Mediterrânica para 2017. Ideia com muito de utopia mas também algum realismo. Não esquecer que o sonho de uma Europa Unida apareceu, em alguns visionários, a partir de uma história de séculos de conflitos e morticínios em tudo contrária a ela. E no seio de uma Europa desfeita por uma guerra maior e mais mortífera que todas, onde os ódios tinham alcançado a eficácia de uma destruição quase integral. E, apesar de utópica, em sessenta anos, o que se avançou na Europa e evoluiu, em paz, em progresso, em bem estar e até em espírito europeu, são um caso, apesar de tudo maravilhoso, magnífico, e de que todos nos devemos orgulhar. E muito.

Mas, face a certas condições políticas e relações de forças que nos estão a afastar desse espírito europeu, da crescente onda de nacionalismos que, entre os europeus, estão a pôr uns contra os outros, criando egoísmos, e em virtude ainda de condições tão duras para os mais pobres, impostas pelos mais ricos, acho que é tempo de parar para pensar.

E talvez, quem sabe? Pode ser que a melhor maneira seja imaginar uma união dos povos do Sul. Que, como é sabido, têm riquezas mal aproveitadas, desvalorizadas, mal distribuídas, e andam há séculos indisciplinados e desmotivados para o trabalho. Estão, portanto, a precisar de uma estratégia de energias a partir das suas motivações, das suas raízes culturais, como agora toda a gente gosta de dizer.

Uma coisa é certa: em termos culturais não devemos nada aos do Norte. E uma vez que os pobres só têm vantagens em unir-se, e nenhumas em tentar obter, cada um por si, as boas graças dos senhores do dinheiro e do poder político, a ideia pode ganhar simpatia entre os cidadãos.

Em que consiste a União Mediterrânica? Desde logo, numa «saída em conjunto do euro e da própria União Europeia levada a cabo por todos os países do Sul», os desdenhosamente conhecidos no Centro e Norte europeus por PIGS, ou seja, porcos: (Portugal, Italy, Greece e Spain) e também Chipre. Prevê-se a entrada na U.M. dos países do Norte de África, numa primeira fase Turquia e Marrocos e, alguns anos depois, Líbia, Tunísia, Argélia e Egito.

Depois de concertarem entre todos uma estratégia conjunta para pagar as dívidas, os países do sul formarão uma união económica alternativa. Onde não haverá política externa comum, nem moeda comum, nem política agrícola comum. Mas haverá uma zona de comércio comum, uma união aduaneira e uma fixação única de taxas dos produtos da EU. Haverá livre circulação de pessoas, produtos e capitais, e políticas comuns em matéria fiscal, legislação laboral, investimento externo, comunicações, seguros, banca, saúde, segurança social, e ainda um orçamento comunitário comum. Não são competências da UM posições em conjunto relativas aos «hábitos religiosos, de saúde, de moral, de comportamento, de educação e de cultura, estabelecendo, em contrapartida, que só estados com constituições e formas de governo democráticas» poderão ser admitidos.

Assim, em poucos anos podemos pensar numa união dos povos que, em volta do Mediterrâneo, deram origem à civilização ocidental, e através de Portugal e de Espanha a levaram ao resto do Mundo: Africa, Américas, Ásia, Insulíndia e Austrália, enfim, ao Mundo todo.

Tendo uma base histórica, cultural e espiritual tão funda e antiga, e algumas matérias-primas tão modernas, como não pensar na possibilidade de passar da utopia à realidade?

João Boavida

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

COSMOS

No segundo trimestre de 2014, COSMOS estará novamente na televisão, com uma visão mais moderna.

DeGrasse Tyson é o apresentador deste documentário, numa série de 13 episódios.

Conscientes da importância deste lançamento, o RÓMULO decidiu abraçar este fascinante tema com um novo ciclo de quatro palestras, sendo a primeira proferida por António Piedade - COSMOS.

Daniel Faria


Poema ao estoicismo da mulher e ao seu coração altíssimo. Ela tem o coração na boca, ou no céu, e mantém o equilíbrio graças ao seu labor, o patilhão.















Elogio da Mulher (Pr 31,14)

O coração da mulher é muito alto
Mas nem só por isso a mulher oscila
Ela é como o navio mercante
Que chega carregado de grão

A mulher é o tear dentro da vida
Nem só por isso a mulher é mais que a vida
Ela é como o navio mercante
Que chega carregado de grão

P.S: Ary dos Santos é, para alguns cronistas, um poeta menor. Enfim!

CARTA ABERTA AO SR. MINISTRO

Transcrevo aqui uma carta aberta da astrónoma Paula Brochado para ao "Sr. Ministro" que circula nas redes sociais.
Sr. Ministro,

Podia começar por citar Einstein com a tão badalada frase sobre a estupidez humana mas partindo do, provavelmente errado, principio que já a conhece, prefiro citar o Ricardo Araújo Pereira: “a liberdade de expressão é uma coisa linda: permite-nos distinguir os idiotas”. Salvaguardo já alguma pequena incorrecção mas ouvi isto na rádio (sabe o que é? aquele aparelho que tem no carro que lhe dá as notícias e o trânsito? já ouviu falar de Maxwell? Foi a investigação dele na teoria do campo eletromagnético que deu origem à invenção do rádio, sabia?). Pois sr. ministro, acontece que depois de ler as suas declarações em que se diz “contra bolsas científicas longe da vida real” não podia deixar de sentir a maior repulsa por tamanha idiotice.

Antes que o sr. ministro se interrogue se não serei mais uma desesperada bolseira sem bolsa deixe-me esclarece-lo: já fui, sim. Sou doutorada em astronomia numa universidade pública (a melhor do país diz-se), essa ciência que, ironia das ironias, não podia estar, segundo os seus critérios, mais longe da vida real - mas, note bem, sou agora analista de negócio na Sonae - quer mais real que isto? Tenho por isso muito mais legitimidade em falar sobre este assunto do que o sr. ministro alguma vez terá, tendo o sr. ministro feito faculdade e carreira em privadas, sem sentir o seu, ainda que exíguo, talento avaliado, enxovalhado, esmiuçado e, por fim, recusado. Pois eu, e milhares de outros em Portugal, já. E, sabe, os astrónomos já têm algum poder de encaixe e alguma tolerância jocosa tantas foram as vezes que, por um lado, os ignorantes nos perguntaram se lhes líamos as cartas astrais e, por outro, os ignóbeis nos acusaram de não fazer nada pela sociedade.

Mas é por ter sido bolseira - não se amofine, não fui bolseira FCT, fui recusada vezes a mais do que as que me dei ao trabalho de contar - que lhe posso dizer que, não fossem as suas declarações mostrarem um profundo desrespeito e desconsideração por milhares de investigadores deste país, chegaria a ser ternurenta a sua ignorância - faz lembrar a minha avó, analfabeta repare bem, que há uns anos atrás me perguntou muito indignada o que é que eu aprendia na escola se não sabia a diferença entre alcatra e chambão.

Quando falo em milhares de investigadores não é de animo leve, o número traduz não só os que agora ficaram sem bolsa, sem projectos e sem expectativas: inclui também todos os que até agora contribuíram para que Portugal deixasse a cauda da Europa e todos cujo trabalho ficou agora hipotecado porque, sem querer ser dramática, pura e simplesmente deixou de haver futuro. Da minha parte, escolhi experimentar aquela que o sr. ministro designa de “vida real” e estou cá fora - segundo o sr. ministro, estou fora do sistema das bolsas, estou agora num sistema perfeitamente bem regulado e previsível que é o mundo empresarial, correcto? Confesse sr. ministro, deu-lhe uma certa vontade de rir. O seu argumento é tão falacioso que um incauto até acredita que existe tal coisa como “ciência longe da vida real” - isso é o mesmo que dizer “astronomia longe das estrelas” ou até “futebol longe do Pinto da Costa”: a ciência nunca estará longe da vida real da mesma forma que um prédio não está longe dos tijolos.

Se se quer referir à investigação científica que gera receitas então aí sr. ministro, assusta-me mais a sua sanidade mental, ou falta dela, do que as suas idiotices. Se tiver ligação à internet sr. ministro (já ouviu falar do CERN? esse laboratório de física de partículas, longe portanto da “vida real”? Sabe então do papel do CERN no conceito da world wide web) pode procurar pelo ROI (return of investment, é a sua praia de certeza que sabe o que é) do programa Apollo (pois, imagino que o feito da humanidade que foi a ida do Homem à Lua não lhe interesse minimamente) e, com certeza para seu espanto, pode verificar que por cada dólar investido no programa, e foram 25 mil milhões de dólares, houve um retorno de 14 dólares. 14. Sabe multiplicar?

Que a vida de investigador, o bolseiro em particular, nunca foi fácil em Portugal isso é um dado adquirido - quer-se rir um bocadinho sr. ministro? Sabia que existe código de atividade profissional para astrólogo (CAE 1316) mas não existe um para investigador? LOL sr. ministro, LOL - mas já se perguntou porque é que apesar de não termos subsidio de férias nem de natal (imagine a nossa confusão em sentir a revolta dos portugueses quando o seu colega sr. primeiro-ministro cortou nos subsídios), de não sermos cobertos pela segurança social, de não fazermos descontos, de termos valores de bolsas que não são revistos há mais de uma década, e outros tantos desajustes com que, com certeza, está familiarizado, continuamos na ciência? já alguma vez pensou nisso? porque, acima de tudo, somos uns sonhadores. Temos que ser sonhadores, temos que ser loucos, acreditar no que não existe, no que não vemos, no que não podemos tocar nem ouvir, temos que ir atrás para perceber porquê, perceber como, temos que questionar, dizer que não, temos que amarrar uma chave a um papagaio e largá-lo no meio de uma trovoada, que deixar as nossas culturas ganhar bolor e ousar pensar que a terra não é plana.

Se o sr. ministro acha que o sonho não tem lugar na “vida real” então tenho pena de si - tal como as crianças acreditam que os ovos vêm do supermercado também o sr. ministro deve acreditar que o seu rato sem fios veio da fnac. Se assim é sr. ministro, está no seu direito, mas então não se envergonhe e, mais importante, não nos insulte.

Sem mais.

PIRES DE LIMA NA SENDA DE SARAH PALIN: AUTISMO



A intervenção de Pires de Lima sobre a ciência fez-me Sarah Palin, a candidata a Presidente dos EUA que em 2008 desdenhou da investigação com moscas do vinagre, sem fazer ideia nenhuma do que estava a falar. Alguns políticos mais da direita quando falam de ciência só revelam, aqui e noutros lados, a mais profunda ignorância.

CARTA ABERTA SOBRE A CIÊNCIA DO CONSELHO DOS LABORATÓRIOS ASSOCIADOS

Trancrevo aqui a carta aberta do Conselho dos Laboratórios Associados, a propósito dos cortes nas bolsas de investigação, tornada pública ontem, no mesmo dia em que cerca de um milhar de investigadores se manifestaram, à chuva, em Lisboa pela mesma razão.


Carta aberta

Os resultados do concurso nacional de bolsas de doutoramento e pós doutoramento lançado em 2013 pela FCT foram agora tornados públicos.

Por decisão da FCT e do governo, foram atribuídas apenas metade das bolsas de doutoramento habitualmente concedidas, e menos de um terço das bolsas de pós-doutoramento. Depois de há poucas semanas de terem sido excluídos mais de 1000 investigadores doutorados enviando-os para o desemprego ou para o exílio forçado, esta nova decisão apenas parece confirmar a vontade de reduzir a comunidade científica portuguesa.

Tais medidas não resultam de cortes no orçamento da FCT, que se mantém quase idêntico ao do ano anterior. A questão não está pois na falta de recursos financeiros mas sim numa absoluta falta de conhecimento das regras elementares do desenvolvimento científico.

Reduzir drasticamente, como se pretende, a formação avançada de recursos humanos em ciência, e mandar embora grande número de cientistas qualificados, tem como consequência imediata reduzir a capacidade científica do País e a sua cultura científica e conduz ainda, inevitavelmente, à quebra de capacidade tecnológica do tecido empresarial português, atrasando a sua renovação e penalizando a sua competitividade.

Dois argumentos foram finalmente apresentados em defesa destas medidas, tomadas à revelia das instituições científicas e académicas.

O primeiro argumento, ditatorial, afirma sem vergonha que, tendo o sistema científico crescido muito haveria que “podá-lo”, isto é, mandar para o desemprego e para o exílio, a maioria dos mais jovens e mais capazes, há poucos anos recrutados por concurso público internacional.

O segundo argumento, contudo, tenta convencer-nos que nada mudou. O desemprego e emigração forçada de cientistas agora impostos pela FCT seria apenas, como ouvimos estupefactos, “uma mudança de paradigma”. O que eram dantes bolsas e contratos pagos pela FCT seriam doravante bolsas e contratos pagos por projectos científicos dos laboratórios, a financiar pela FCT. A ser verdadeira essa intenção teriam sido, primeiro, financiados projectos com fundos suficientes para contratar investigadores e, seguidamente, se alteraria o financiamento de bolsas e contratos. Mas nada disso aconteceu. Aconteceu, sim, termos hoje grupos científicos decapitados e muitos mais investigadores à procura de emprego no estrangeiro.

O CLA não quer acreditar que estas medidas tenham sido aprovadas pelo primeiro-ministro, ou pelo governo no seu conjunto, nem que tenham a concordância do parlamento ou o apoio do Presidente da República.
Acreditamos sim que todos os quadrantes políticos, sem excepção, designadamente os partidos hoje responsáveis pelo governo, estão unidos na aposta no desenvolvimento científico do País.

Por isso apelamos hoje de forma veemente a todos os responsáveis para a urgentíssima e indispensável inversão das medidas tomadas.

Comissão Executiva do Conselho dos Laboratórios Associados (CLA)
21 de Janeiro de 2014

NOTAS

1.
Para além do facto de, no caso das 298 bolsas de doutoramento agora atribuídas, se destinarem a programas de doutoramento (nacionais e internacionais) que se iniciaram em Setembro/Outubro de 2013 e que se arriscam a ficar sem alunos, o que de mais grave decorre da análise rigorosa dos números é o brutal desinvestimento na formação avançada de recursos humanos (doutoramento e pós-doutoramento), sector em que o país é ainda fortemente deficitário. Se às 298 bolsas de doutoramento atribuídas no concurso nacional (3433 candidatos) adicionarmos as 431 bolsas de doutoramento dos novos Programas de Doutoramento FCT, resulta o número de 729 a comparar por exemplo com 872 em 2002, 2031 em 2007, 1640 em 2010 ou 1378 em 2011. Quanto às bolsas de pós-doutoramento que no presente concurso se ficaram pelas cerca de 210 (2100 candidatos), só em 1999 tiveram valor igual, pois de então para cá foram sempre atribuídas em número superior, mesmo muito superior como em 2006 (737), 2007 (914), 2008 (634), 2009 (690), 2010 (718), 2011 (mais de 670).
Também os 1200 contratos de investigadores recrutados por concurso público internacional há 5 anos, já terminados ou em vias de terminar, foram até agora substituídos por apenas cerca de 400 contratos novos.

2. O Conselho dos Laboratórios Associados reúne 26 laboratórios de investigação científica classificados como excelentes em avaliações internacionais e aos quais foi atribuído o estatuto de laboratório associado pela sua função de referência no sistema científico nacional. Os Laboratórios Associados reúnem cerca de 4300 doutorados.

Visto deste lado.

Estou a escrever estas palavras na véspera da manifestação porque considero que a manifestação é uma forma de protesto das pessoas que se sentem prejudicadas e, do sentimento da pessoas, não tenho que opinar. Nem quero que a leitura destas palavras seja feita na emoção de cada caso pessoal que, obviamente, são problemas concretos de pessoas concretas. Sobre cada caso pessoal, já escrevi aquele que é o meu sentimento e do que acho de se levar pessoas até aos 34/36 anos para um buraco negro económico. O que vão ler abaixo são as palavras frias de como vejo "deste lado", visão de gestor de recursos e só serão publicadas após a manifestação.

A empresa à qual entreguei a minha vida há mais de 8 anos sempre empregou doutorados. Quase desde a sua origem, a empresa empregou doutorados em Física e não empregou mais porque não teve capacidade financeira para o fazer. É muito difícil conseguir pagar de ordenado líquido o mesmo que a FCT entregava aos doutorados a titulo de 'bolsa', metalinguagem para 'rendimento limpo de impostos que não são pagos por ninguém'. Um doutorado na minha empresa só pode levar para casa aquilo que, depois de deduzido IVA, IRC, TSU, IRS e SS  daquilo que o cliente paga e descontados de todos os 'overheads' relativos ao esforço comercial, gestão, etc; sobra. Admitindo que o produto gerado pela pessoa é o mesmo nos dois ambientes, um doutorado na minha empresa tem que trabalhar o triplo do que trabalha um doutorado pago por 'bolsa' da FCT, para levar para casa o mesmo dinheiro.

O facto da empresa conseguir hoje empregar pessoas com formação científica passou, em muito, pelo investimento pessoal das pessoas e da empresa. Não só em termos monetários mas, também, nos recursos que alocou para conseguir integrar essa pessoas, que estão habituadas a métodos de trabalho muito diferentes, num ambiente produtivo em que os clientes não são obrigados a comprar.  Um post-doc tem um valor económico residual ao sair do ambiente científico puro, pelo que o esforço de o fazer um profissional, noutra coisa que não 'papers', é um investimento considerável. E quanto mais avançado, do ponto de vista académico, está a pessoa maior o investimento que tem que ser feito nessa adaptação.

Portanto, a FCT é, objectivamente, um mecanismo de extracção de pessoas com formação científica da "economia privada" para a "economia pública"(vamos designar desta forma em favor da clareza). Agravada pelo facto do dinheiro que a FCT usa também ser dinheiro que foi extraído aos privados. Mais, quando os privados como a minha empresa tentaram recorrer ao mesmo apoio, são imediatamente expulsos do "convívio das pessoas de bem". A FCT é, para quem paga a festa no fim do dia, um concorrente desleal com um peso económico gigantesco porque, além dos custos directos, aloca aqueles que são à partida os melhores recursos humanos do país a actividades de valia económica altamente discutível . E é por aqui que devemos justificar a existência das bolsas ou não.

Então, a bem clareza, seja demonstrada a valia económica das bolsas que estão a ser atribuídas. Mas que sejam apresentados argumentos válidos e não a conversa mole do investimento na ciência como chave do futuro, porque investimento na ciência faço eu. O triplo do investimento que faria se a FCT não existisse. A mim, a explicação que deve ser dada tem que ser bem mais concreta que isso. Eu tenho que procurar aplicações, clientes que paguem e investigadores que o façam. E como eu há mais uma centena de pessoas neste país que também o fazem, não sou nenhuma beleza de hortaliça. A desculpa de serem ciências sociais ou não também não serve. Quase toda a investigação que acabo por vender tem por objecto a sociedade.

Logo, visto daqui, e depois de ler comovido os apelos das figuras da ciência que no passado fim de semana tanto clamaram pelo dinheiro do contribuinte fiquei sem perceber de que se queixam. Porque para além da previsão de um conjunto alargado de catástrofes genéricas, não consegui entender, em concreto, quais são as perdas. Eu consigo dizer com clareza e de forma quantitativa o que, deste lado, se perde com as bolsas da FCT. Está descrito nos parágrafos de cima. Agora, dos grandes nomes da ciência nacional que foram citados, talvez incorrectamente, extrai-se zero de consequências económicas. Perde-se o quê, exactamente, se não houver bolsas da FCT? Imigram? Pois, é um maçada, mas tenho outra fornada a sair da universidade. Estão a usar esse argumento para que se deixe de formar as pessoas? E vão sair para as empresas? Ainda bem, não é? Cabe a quem condena as novas orientações relativas a financiamento contestar aquilo que eu designei por "actividades de valia económica altamente discutível" e não vir com conversas catastrofistas, até porque já lá estivemos e não foi morte de homem.

Visto deste lado, e atendendo que seria simplesmente uma resposta a quem mete o dinheiro na coisa, seria interessante ouvir qualquer coisa de concreto sobre as perdas que as novas "políticas" da FCT trazem para o país. Porque, visto deste lado, só vejo vantagens.

Antes de publicar vi o post do Carlos sobre o laser e a Bell. A empresa onde trabalho está várias ordens de grandeza abaixo da Bell em termos de recursos. E fazemos e investimos em teoria. Porque precisamos de teoria. A IBM recebeu dois (que me lembre) Nobel da Física e aloja(va) nomes como Benoit Mandelbroth ou Greg Chaitin (que a academia rejeitava!). Não há qualquer correlação entre progresso teórico e investimento público. E, mesmo que houvesse, a Teórica(seja lá o que isso for) não pode ser feito por quem é professor e tem uma valia económica estabelecida?


Como evoluiu a ciência em Portugal?

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Educação, Ciência e Economia: Um ministro pouco sábio



Minha crónica no Público de hoje:


Vários têm sido, no governo, os candidatos ao título de campeão da asneira. Rui Machete tem-se esforçado, mas, não querendo ficar atrás dessa figura maior do PSD, um político do CDS, António Pires de Lima, ministro da Economia (dividindo a pasta com Paulo Portas), resolveu entrar na competição quando defendeu há meses a introdução nas escolas básicas e secundárias de uma disciplina obrigatória de Empreendedorismo. A ideia não é só dele: integra a “Estratégia de Fomento Industrial” aprovada em Conselho de Ministros. A escola, pela voz do ministro da Economia e com a aprovação de todo o governo, tem de estar ao serviço dos negócios.

Ora isto é um disparate. A escola tem de formar para a vida, transmitindo conhecimentos, moldando atitudes e inculcando valores. E a vida está muito longe de se restringir à gestão de empresas. Pires de Lima, no seu mundo Superbock, acha que a escola tem de formar muitos meninos e meninas para alimentar os quadros empresariais. Olha para uma criança do 1.º ciclo e vê nela um gestor em potência. Não lhe interessa se ela vai dominar o Português, a Matemática ou a Física, para os quais as  horas lectivas parecem não chegar: tem é de dominar o Empreendedorismo. Não sabemos que disciplina irá ele extinguir para acrescentar a nova. E falta-nos saber que parte do orçamento do seu Ministério irá servir para pagar aos professores de Empreendedorismo, quiçá empresários falidos que ambicionam um emprego escolar. Ou saber se vai apelar aos empresários bem sucedidos para investirem na contratação de docentes para as nossas escolas.

Não contente com esse disparate, o ministro acrescentou outro há dias. Afirmou que não se pode alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real”. E esclareceu: Uma boa parte da investigação é financiada por dinheiros públicos e não chega à economia real. Não chega a transformar o conhecimento em resultados concretos que depois beneficiem a sociedade como um todo. Ficámos a saber que não é só a Educação que tem de se orientar para as empresas, também a Ciência tem de o fazer. Percebemos agora a razão dos cortes na ciência, com a redução drástica do número de bolsas: os investigadores não estão virados para o mundo das empresas. Estão a estudar linguística, topologia ou óptica quântica, em vez de virarem para o fomento da indústria cervejeira. O ministro Pires de Lima vê um doutorando e acha um desperdício ele não estar a desenvolver estudos na área do engarrafamento. Ficamos expectantes quanto às verbas que o Ministério da Economia vai proporcionar à ciência aplicada ou os benefícios fiscais que vai conceder aos empresários que contratem cientistas utilitários.

O ministro da Economia pouco sabe de Educação e de Ciência. E, absorto como tem andado nos seus negócios (tanto das empresas como da política, os dois entre nós muito bem misturados), também sabe pouco da vida real. Se soubesse, saberia, por exemplo, o que recordou há semanas no Porto, numa conferência sobre Ciência, Economia e Crise, o físico espanhol Pedro Echenique. Em 1995, quando se discutia nos Estados Unidos uma diminuição do financiamento público à investigação científica, os CEO de 15 das principais empresas de base científico-tecnológica, como a IBM e a General Electric, subscreveram uma carta aberta pedindo o reforço da ciência fundamental. Queriam que o Congresso continuasse o apoio "a um vibrante programa de investigação universitária com visão de futuro".

Acontece que o futuro costuma chegar pela mão de cientistas inovadores, em geral muito longe da “economia real”. Não faltam exemplos. O laser foi inventado há mais de 50 anos, numa equipa de ciência fundamental (ora cá está: a óptica quântica!) que trabalhava nos Bell Labs. Na altura foi chamado uma descoberta à procura de aplicações. Hoje é o que se sabe: está por todo o lado, nos cabos ópticos, nos CD, nas cirurgias, no corte de materiais, nas luzes das discotecas e até nas caixas de supermercados, por onde passam os códigos de barras das cervejas. Com a orientação de Pires de Lima jamais teria havido lasers.

Existe, de facto, em Portugal um problema de ligação das empresas com a investigação. Mas ele não se resolve com a diminuição da investigação fundamental. Não se resolve com menos ciência, mas sim com mais ciência. Precisamos, em particular, que os gestores percebam o valor da ciência, tal como os seus congéneres norte-americanos, e invistam nela, apoiando os programas públicos de ensino avançado e pesquisa, e contratando, com o seu próprio dinheiro, doutores e pós-doutores. Não precisamos de economias na ciência, mas sim de pessoas na economia que apostem na ciência.

Tudo isto é sabido pelo ministro Nuno Crato. Não poderá ele explicar ao seu colega?

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

JUDEUS ILUSTRES DE PORTUGAL


(clicar para ver melhor)

ANO INTERNACIONAL DA CRISTALOGRAFIA - 2014


Informação recebida da Comissão nacional da UNESCO:

 Embora Cristalografia suporte todas as ciências fundamentais, e em particular as Geociências, esta continua a ser relativamente desconhecida do público em geral. Essa foi uma das razões pelas quais a Assembleia Geral das Nações Unidas, proclamou 2014 como o Ano Internacional da Cristalografia. Compete à UNESCO liderar e coordenar, em parceria com a União Internacional de Cristalografia, o planeamento e implementação de atividades educativas e de capacitação durante o próximo ano.

 Assim, está a decorrer na sede da UNESCO, em Paris, nos dias 20 e 21 de janeiro, o lançamento oficial desta efeméride mundial.

Principais objetivos desta efeméride:

 · Aumentar a consciência pública sobre a ciência da cristalografia e como esta sustenta a maior parte dos desenvolvimentos tecnológicos da nossa sociedade moderna;

 · Inspirar os jovens através de exposições, conferências e demonstrações práticas nas escolas, Ilustrando a universalidade da ciência;

 · Apoiar a Iniciativa África em Cristalografia e criação de programas semelhantes na Ásia e na América Latina;

 · Promover a colaboração internacional entre cientistas em todo o mundo, especialmente as contribuições Norte-Sul;

 · Promover a educação e pesquisa em cristalografia e suas ligações com outras ciências;

 · Envolver as entidades internacionais que lidam com a questão da Radiação Síncrotrão e de Neutrões em todo o mundo nas celebrações deste Ano, incluindo o Projeto SESAME criado sob os auspícios da UNESCO.

Seguindo as orientações da UNESCO, o Comité Português para o Programa Internacional de Geociências (coordenação), em parceria com o Comité Português para a Matemática do Planeta Terra, ambos criados sob a égide da Comissão Nacional da UNESCO, irão dinamizar o Ano Internacional da Cristalografia, a nível nacional. Irão, também, colaborar com Comités homólogos e universidades existentes no espaço lusófono, incentivando a organização de eventos conjuntos. O lançamento oficial do Ano Internacional da Cristalografia, em Portugal, terá lugar na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro - UTAD, no dia 12 de março de 2014, numa parceria entre a UTAD, o Comité Português para o Programa Internacional de Geociências da UNESCO (IGCP) e o Comité Português da Matemática do Planeta Terra.

Para mais informações, consultar: http://www.unesco.org/new/en/unesco/events/prizes-and-celebrations/celebrations/international-years/crystallography/

A DESCOBERTA DO ADN



A sigla ADN é hoje usada em vários contextos. Ultrapassou as fronteiras da genética e da biologia molecular e é vulgar ouvir-se em vários órgãos de comunicação social que fulano e sicrano têm ADN, como se fosse possível a vida sem ele.

O ADN, sigla do ácido desoxirribonucleico, molécula da hereditariedade, imprime iconicamente uma dupla hélice no nosso olhar. É assim desde que Watson e Crick propuseram, em 1953, esse modelo helicoidal para a biomolécula dos genes. Como acontece com tudo na vida, a forma estrutural tem em si mesma significado funcional. A revolução científica que esta descoberta causou na biologia e na medicina, faz com que ela se confunda com a descoberta da molécula ADN.

De facto, a substância ADN foi descoberta muito antes. Em 1869, o suíço Johann Friedrich Miescher (1844 – 1895) identificou uma nova substância ao analisar o conteúdo dos núcleos celulares dos glóbulos brancos. Essa substância era ácida e continha na sua composição fósforo, um elemento ausente nas proteínas. À nova substância, que não tinha propriedades proteicas, Miescher deu o nome de nucleína.

Bioquímico alemão Johann Friedrich Miescher (1844 – 1895)

Note-se que esta descoberta é efectuada numa época rica em revoluções na Biologia: em 1859, Darwin publica "A Origem das Espécies"; em 1865, Schwann e Scheiden postulam a teoria celular; ainda em 1865, Mendel publica o seu artigo sobre a hereditariedade, apesar de o mesmo ter tido pouca divulgação ou consideração.

Há alguns factos curiosos ao redor da descoberta do ADN e sobre o seu descobridor.

Miescher formou-se em medicina na Universidade de Basileia. Contudo, uma surdez impediu-o de exercer medicina e optou por seguir uma carreira científica, influenciado pelo seu tio, professor de química fisiológica (hoje diríamos bioquímica) naquela universidade. A sua incapacidade auditiva não o impediu de ser um investigador com uma visão acutilante para os problemas científicos na sua área. De facto a sua descoberta teve implicações na biologia, na genética, na medicina, muito além daquilo que ele poderia suspeitar na época em que viveu.

Friedrich Miescher começou a sua carreira de investigação no laboratório de Felix Hoppe-Seyler (1825 – 1895) um dos mais prestigiados bioquímicos da época - identificou e caracterizou a hemoglobina, entre outras proteínas. Situado no castelo de Tubinga, o laboratório ocupava as instalações de uma antiga lavandaria. A investigação nesse laboratório envolvia identificar e caracterizar o conteúdo proteico das células. Pensava-se que, uma vez identificadas todas as proteínas, se poderia compreender o funcionamento molecular da vida assim como a sua hereditariedade.

Miescher começou, assim, a explorar as proteínas no citoplasma de glóbulos brancos que obtinha a partir do pus retido em ligaduras de feridas provenientes de um hospital vizinho. Para que o material biológico não se degradasse, mantinha a janela do laboratório aberta o que fazia com que a temperatura de trabalho rondasse os 5 graus Celsius durante o Inverno!

Apesar da sua persistência metodológica, cedo percebeu que existiam muitas mais proteínas no citoplasma dos glóbulos brancos do que aquelas que a técnicas analíticas de então permitiam identificar. Influenciado pelo eventual papel do núcleo na hereditariedade, uma ideia nova para a época, desenvolveu os protocolos necessários para isolar esse organelo celular e proceder à análise da sua composição.

É então que Miescher verifica que está perante uma substância desconhecida à época, como já se disse. A estranheza em o núcleo não ser constituído maioritariamente por proteínas, levou a que o Hoppe-Seyler duvidasse dos resultados e obrigasse Miescher e outros investigadores a repetir a caracterização inúmeras vezes. Só em 1871, dois anos após a descoberta, é que Miescher publicaria os seus resultados numa revista científica.

Ao longo da sua carreira científica, Miescher convenceu-se de que a nucleína não poderia ser a molécula responsável pela transmissão de caracteres hereditários nem que estava envolvida na fecundação. Ademais, considerava que a nucleína deveria ser, devido ao seu enorme peso molecular, um repositório de matéria para a síntese de outras moléculas necessárias à vida.
A composição aparentemente monótona da nucleína (mais tarde rebaptizada por ácido desorribonucleico, ou ADN) contrastava com a diversidade incontável das proteínas. E à falta de outras evidências experimentais, os genes não poderiam ser feitos de uma substância tão pouco diversa, teriam de ser constituídos por proteínas. Esta ideia persistiu durante mais de 70 anos, até a meados da década de 40 do século XX, altura em que ficou demonstrada experimentalmente que o ADN é a molécula dos genes.  

António Piedade

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

COMPROMISSO COM A CIÊNCIA, A CULTURA E AS ARTES EM PORTUGAL

Manifesto "contra a crise" que assinei com mais de cem outros cidadãos preocupados com a evolução mais recente do país:

"Portugal atravessa uma crise extrema de todos conhecida e por muitos experimentada dramaticamente. Portugal está em crise, mas não pode ficar num impasse.

Para além dos debates intensos que hoje se multiplicam sobre as medidas políticas e económicas em curso e os seus resultados a prazo, entendemos, como cidadãos, tornar pública a relevância estratégica da ciência, da cultura e das artes para o nosso futuro como comunidade política aberta e dinâmica. Portugal dispõe hoje da geração académica e cientificamente mais qualificada de toda a sua história, consequência do forte investimento feito na expansão da rede escolar e de ensino superior ao longo das últimas décadas do nosso regime democrático.

É incontestável que as atuais políticas de austeridade, pelo seu excesso e, sobretudo, falta de sentido histórico, forçaram a emigração, a fuga e o abandono do país por muitos dos nossos melhores. Ora, o combate à crise deve fazer-se com uma aposta estratégica nessas pessoas altamente qualificadas: a riqueza humana é a maior riqueza de que dispomos hoje como comunidade política e não podemos desperdiçá-la, sob pena de sermos responsabilizados por isso. Os atuais movimentos de saída de portugueses qualificados do país, cerca de 20% de licenciados, especialmente jovens, penhor do nosso futuro, são desordenados e fazem-nos recordar outras épocas históricas em que dispensámos ou expulsámos uma elite qualificada e empreendedora que fez o Portugal universalista dos Descobrimentos. Figuras como António Vieira apontaram criticamente as políticas antijudaicas e a ação da Inquisição, responsáveis pela perseguição e expulsão de judeus e cristãos-novos nos séculos XVI, XVII e XVIII, o que enfraqueceu o nosso país e contribuiu para a sua decadência e submissão a poderes estrangeiros. Homens de negócios, intelectuais, cientistas, romancistas e artistas fugiram para países como a Holanda, contribuindo para enriquecer e engradecer novos impérios que se tornaram depois fortemente hostis a Portugal, carcomendo o seu próprio império.  Aconteceu com a Inquisição. E contra a lógica da interdependência do mundo contemporâneo e as lições da História, assistimos a uma situação que também desperdiça e expulsa os nossos melhores talentos, sem retorno nem sentido, para outros países que, assim, ficam mais ricos, enquanto nós ficamos mais pobres e mais A atual situação ainda é mais grave do que foi no passado, porque falamos, agora, de pessoas que, sendo bem formadas moral e cientificamente, não têm sequer a possibilidade de mostrar o seu valor. São uma espécie de falsas elites. Elites, porque são as melhores, mas falsas, porque não lhes é dada a possibilidade de provar o seu valor na terra-mãe.

Reconhecido este diagnóstico preocupante, ou seja, a percepção do desertar crescente dos portugueses qualificados de Portugal, lançamos o presente manifesto para um compromisso com a ciência, a cultura e as artes. Trata-se de um compromisso dos portugueses consigo mesmos e com os seus melhores para que este potencial seja reconhecido, aproveitado, capitalizado.

Advogamos a criação de condições para que os talentos nacionais, felizmente numerosos nas áreas das ciências, da cultura e das artes, se fixem em Portugal ou para que deliberadamente estejam no mundo e ao serviço do país. Não podem é estar em fuga, com tudo o que isso tem de perverso para a sua relação com Portugal. A questão tem de ser vista globalmente e com um sentido histórico. E visa a participação de todos. Não se trata apenas de um problema do Governo ou dos partidos políticos, mas de todos os portugueses.

O compromisso que advogamos passa pela promoção de uma cultura de responsabilidade cívica orientada para o apoio a projetos criadores de trabalho, nas áreas em que temos pessoas qualificadas. Hoje, falar em cultura, ciência e artes em Portugal remete para todos os portugueses qualificados, num mundo em que os aspetos económicos, sociais e culturais têm elevado valor e são decisivos para o futuro das nações. Já passou o tempo em que esses temas eram considerados como sendo ‘baixa política’, por contraponto com a ‘alta política’ das decisões dos governantes. No mundo contemporâneo, a produção de riqueza está dependente da inteligência das pessoas e, por isso, dos referidos fatores económicos, sociais e culturais. A produção de riqueza está, igualmente, dependente de fatores imateriais e do sentido de pertença das pessoas aos seus lugares de origem. Nesta matéria, Portugal e os portugueses têm inequívocas vantagens comparativas à escala global, assim como amplas possibilidades de relacionamento, nomeadamente no mundo de língua portuguesa, vantagens e possibilidades que devem ser aproveitadas e potenciadas.

As instituições (pessoas em ação) que promoverem o trabalho destes portugueses qualificados deverão ter justas contrapartidas e formas de certificação que as prestigiem socialmente pelo importante serviço prestado ao futuro de Portugal no mundo.

A criação de uma rede de instituições amigas do trabalho, da investigação, da criação cultural, científica e artística deve ter como horizonte uma revolução da mentalidade dominante no que respeita à solidariedade. E, naturalmente, deverá ter reflexos nas políticas públicas perspetivadas transversalmente.

Não temos dúvidas de que nomeadamente muitas empresas têm assumido compromissos de responsabilidade social que passam - de forma relevante em tempo de crise - por atender à satisfação das necessidades básicas dos seus trabalhadores. O mesmo vale para a maior parte das famílias portuguesas. Temos tido, em Portugal, a solidariedade de manutenção, de assistência às necessidades urgentes dos empobrecidos, às vezes em situações que atentam flagrantemente contra a sua dignidade. É uma solidariedade pronta que sempre abundou e abunda em Portugal. E não queremos desvalorizá-la: atende a situações humanas de emergência.

Todavia, urge promover, paralelamente e de forma decidida, uma nova forma de solidariedade: a solidariedade para a criação e para o trabalho. Este novo género de solidariedade é aquele que, tendo por referência o célebre ditado chinês “melhor do que dar o peixe é dar a cana e ensinar a pescar”, aposta em formas inovadoras de produção da riqueza que só estão ao alcance de pessoas empreendedoras e criativas. Foi sempre com pessoas qualificadas que Portugal se afirmou no mundo. E não será diferente agora. O bem comum depende da prossecução do interesse individual, pelo que todos perdemos com a saída dos mais capazes e criativos e todos ganhamos com a preservação de trabalho para eles.

Uma nova solidariedade ou compromisso das instituições públicas e da sociedade com a ciência, a cultura e as artes passa por reservar uma parte dos seus meios para fomentar a valorização e a investigação do nosso património, a criação científica, literária e artística. Estamos a falar de investimentos produtivos com significativos efeitos sobre o todo social.

Mais do que imitar os outros, devemos procurar que os outros nos imitem. Historicamente, progredimos sempre que fomos capazes de inovar e de fazer o que outros ainda não tinham feito. Tal exige contextos propícios à inovação e à experimentação, sendo também uma condição para a recuperação da nossa autonomia política e financeira, assim como da nossa autoestima. Instrumentos legais como o do mecenato cultural e científico foram importantes no passado, mas estão esgotados.

O país precisa de consensos em matérias nevrálgicas para o seu futuro. Este MANIFESTO é um contributo de cidadãos empenhados no futuro de Portugal que interpelam os representantes políticos dos portugueses:

ESSE OBJETIVO É POSSÍVEL!"

Um objectivo intencional

Alexandre Quintanilha, professor catedrático da Universidade do Porto, sobre o desequilíbrio na mais recente atribuição de bolsas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia das áreas sociais e humanas e físicas e naturais (aqui):
"... a diferença existente entre as bolsas de doutoramento e de pós-doutoramento atribuídas às ciências sociais e às ciências exactas não aconteceu 'por acaso' (...). É errado pensar que as questões sociais e humanas não são importantíssimas para o desenvolvimento de um país e, portanto, essa 'razia' ainda maior na área das ciências sociais não é só mais preocupante como também indicia aquilo que também, às vezes, penso que é um objectivo intencional".

SOBRE CIÊNCIA E LIBERDADE


Em defesa da ciência em Portigal

Extracto de artigo do Público de ontem, parte de um dossier sobre ciência em Portugal: 

"Já Carlos Fiolhais, divulgador de ciência e físico da Universidade de Coimbra, teme esta diáspora científica portuguesa e aponta o dedo aos concursos da FCT, não se recordando de uma taxa de aprovação de candidaturas tão baixa como a anunciada na última quarta-feira: "Há pessoas excelentes sob qualquer critério que não tiveram apoio." E, alerta, são pessoas que "não vão encontrar emprego facilmente". O resultado será um aumento do número de jovens que saem do país, antecipa. E já não serão apenas os melhores. "Vão também os menos bons. Vão todos. A questão é saber quem fica."

Para o divulgador de ciência, a consequência mais "crítica" deste desinvestimento é que "deixou de haver convergência com a Europa". O investimento em ciência e a capacidade de gerar conhecimento devia ser uma ideia "partilhada por todos", defende, acrescentando que de pouco vale o esforço para reduzir o défice e diminuir a dívida externa portuguesa se, depois disso, não houver ciência ou cultura para manter. "Ninguém tem uma ideia para o destino disto." E, socorrendo-se da linguagem do futebol o único tema que parece unir o país, diz, tenta ser optimista: "Pode ser que algum golo entre por acaso."

Sem ciência não há aplicação. A história foi recordada por Pedro Echenique, físico da Universidade do País Basco, num debate sobre "Ciência, Economia e Crise", na Fundação Francisco Manuel dos Santos, em Novembro. Em Maio de 1995, tinha Bill Clinton chegado há pouco mais de dois anos à Presidência dos Estados Unidos, discutia-se naquele país uma diminuição do financiamento público à investigação científica.

Os directores de 15 das principais empresas de base tecnológica do país, como a General Electric, a Motorola, a IBM ou a Chrysler, escreveram uma carta aberta ao Congresso pedindo que mantivesse o apoio "a um vibrante programa de investigação universitária com visão de futuro".

domingo, 19 de janeiro de 2014

Nos 30 anos da morte de Ary dos Santos

Foi preciso que a data de uma morte, a data da morte de Ary dos Santos, se impusesse, para que, durante dois ou três dias, neste país desalmado, se voltasse a falar publicamente de poesia. E com a necessidade, a força que ela requer.

Ary dos Santos tinha o sentido da necessidade da poesia e também a força de espírito e a força física para ir dizê-la para a rua e para outros lugares onde andam as pessoas que verdadeiramente precisam dela.


Um extracto de um dos poemas mais sonoros de Ary dos Santos

Estrela da tarde

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
...
José Carlos Ary dos Santos

O PILHA-GALINHAS

O pilha-galinhas, como lhe chamávamos, era um maltês, quase sempre desempregado por falta de trabalho, descalço e andrajoso no aspecto, alegre e arguto na conversa. Fornecia-nos galinhas ou frangos, conforme calhava, escondidos, quase sufocados, dentro de sacos, no fundo do alforge que transportava ao ombro. Vendia o que trazia, e por bom preço. Chegava sempre ao cair da noite, vindo dos campos.

O trajecto na cidade fazia-o pelos sítios mais esconsos e escuros, em passadas rápidas e furtivas. A mãe nunca «teve interesse» em perguntar-lhe a proveniência da mercadoria, nem nunca ele se lhe referia, embora fosse um falador cheio de histórias para contar. O negócio, porém, era feito com o mínimo de palavras, portas adentro. O nosso amigo sacava a galinha, algumas vezes um galo, pegando-lhe pelo pescoço para que não «gritasse» e, em conjunto com a mãe, avaliavam-lhe o peso e o preço. Seguia-se uma breve discussão sobre a quantia a pagar, que ela acabava sempre por ganhar.

– O mês passado – contou – fui apanhado já dentro da cidade, com o saco cheio, antes de fazer qualquer negócio.
– Tinha seis franganitos no alforge, quando me deitaram a mão. Levaram-me para a Esquadra e fiquei lá no calabouço toda a noite. No outro dia, logo de manhã e sem comer, veio um zarolho, de bigodes, grande como um touro. Mandou-me pôr de joelhos no chão de pedra onde tinha espalhado sal grosso. Mas primeiro fez-me arregaçar as calças.
– Eu já não aguentava mais – continuava o pilha-galinhas. Ao lado da mãe, curioso, eu bebia-lhe as palavras.
– Se fazia menção de me levantar, ferrava-me chibatadas na cara, nas costas, onde calhasse. E era com cada uma! Fiquei cheio de vergões. Os joelhos ardiam-me do sal espetado na pele. Não aguentava mais! Filhos dum comboio de putas, com sua licença, que isto até faz perder a cabeça a um homem!
– Onde roubaste os frangos? – insistia o agente da autoridade.
– Foi na Quinta do Alexandre. Não tive outro remédio senão confessar. Já não resistia mais, dona Adília. Tenho quatro filhos pequenos com fome e não arranjo trabalho já lá vão três meses. É sempre isto todos os anos, lá no monte.
– E depois, o que é que lhe aconteceu? – quis saber a minha mãe, interessada.
– Deram-me mais pancada e depois mandaram-me embora.
– E os frangos? – perguntou a mãe, curiosa.
– Ficaram os malvados com eles – respondeu – E ficaram também com a minha navalha que bem falta me faz. – acrescentou desolado.
– Mas olhe – dizia o nosso homem – ainda prefiro a Polícia à Guarda. Tenho um medo daqueles tipos das patrulhas que me pélo. Deus me livre de ser caçado por eles. Esses ainda são piores. Diz que têm pêlos até no coração e há lá um que parece que nunca teve mãe. Estão feitos com os patrões e, afinal, são tão pobres como nós.
– Para mim, – continuava o pilha-galinhas - os tipos da Guarda Republicana são homens do campo como eu. Mas são uns madrações que se deram bem na tropa lambendo as botas aos sargentos. Maus para os camaradas, só pensavam neles próprios. Gostam do rancho a horas e de se verem dentro da farda. Disseram adeus à desgraça da vida do campo – rematou.
– Dois primos meus e um vizinho que foi comigo às sortes – acrescentava – ficaram na Guarda. Hoje estão bem e vivem à grande. Não passaram de cabos mas quem me dera estar como eles. Esses sabujos preferem vergar a espinha com vénias aos superiores e aos ricos, a dobrá-la agarrados à enxada. Agora não lhes falta nada e já nem se lembram que foram pobres. Aquela tropa é como certos cães que nunca vêm à mão. Não se pode fiar neles. Nunca se lembram de quem lhe deu o pão e, à primeira, ferram a valer. Até atiram a matar. Irmãos contra irmãos. Aquilo não é gente, é outra espécie de criaturas, dona Adília. Só os pobres é que sabem como eles são por dentro. – concluía o pilha-galinhas com expressão de entendido.
– Toda a gente lhes dá qualquer coisa, como aos padres. Julgam, assim, que os têm a mão ou que eles lhes podem valer numa aflição, mas enganam-se. Quando passa a patrulha há sempre quem lhes leve uma atenção. São os ovos, é uma galinha aqui, um coelho ali, são as azeitonas, os queijos e o feijão, é uma lebre ou umas perdizes no tempo da caça, ou mesmo fora dele, no defeso, que eles aí nem olham. Na Páscoa, lá apanham às vezes um borreguinho. Os mais pobres dão aos praças das patrulhas aquele pouco que podem. Eu já nem sei – e aqui o pilha-galinhas dava à voz e à expressão um tom de muita confidencialidade – se eles passam lá nos montes para cumprirem o giro se para receberem a colecta. Filhos da mãe!

Sem se calar, o nosso furtivo visitante, retomando o fôlego, continuava nas suas considerações enquanto ia comendo um grande tassalho de pão com linguiça e um púcaro de café de cevada bem quente que a mãe lhe preparara
– Faz-me cá uma falta a minha navalha! Dê-me aí uma faca, dona Adília, que os meus dentes já não entram assim no pão. Malvados! – deixava escapar, em surdina, aludindo aos polícias que haviam ficado com a sua navalha.
– Aos chefes e comandantes, aos mais graúdos, quem lhes dá são os lavradores. – continuava ele, retomando o fio à conversa. – A esses, quem dá são os ricaços. Apanham do bom e do melhor. É a lenha às carradas, para o Inverno, é o azeite para o ano todo, fora o porco, no Natal.
– É assim a vida! - exclamava a mãe começando a pôr fim à conversa e acrescentava, já em jeito de despedida:
– Se vossemecê me arranjasse uma peruazinha agora para o Natal, dava-me governo. Não precisa de ser grande.
– Não vai ser fácil. Deixe ver. Se eu conseguir, trago-lhe uma.– E desaparecia furtivo e silencioso como chegara.

Como eu, também a mãe gostava de o ouvir, mas faltava-lhe o vagar. O jantar ainda estava a fazer. Era muito boca a comer e daí a nada chegava o pai.
- Ó mãe, o pilha galinhas é ladrão?
– Não! – e acrescentava, desviando a conversa – Amanhã fazemos cabidela de sangue para o almoço.
Ainda envolvido pelas histórias ouvidas, continuava:
– Ó mãe, eu não tenho medo do pilha-galinhas. Gosto dele. Mas ela já não me ouvia, absorta que estava no muito que ainda tinha para lidar.
– Vai buscar a toalha para ires pondo a mesa...

A. Galopim de Carvalho

Velhas feridas

As recentes mudanças de orientação da Fundação para a Ciência e Tecnologia e, em particular, os resultados do concurso de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento reabriram duas velhas feridas cujo contornos são bem conhecidos:
- Ciências físicas e naturais versus ciências sociais e humanas;
- Valor instrumental versus valor em si da ciência.

São feridas que uma ou outra pessoa vai tratando, mas quando parece que começam a sarar alguma coisa ou alguém as faz sangrar.

Ressalta, neste caso, a preferência por projectos da área das ciências "duras", susceptíveis de, a curto prazo, produzirem resultados aplicáveis e traduzidos numa mais-valia social, económica. Preferência que colhe, aliás, aceitação noutras instâncias que não só a FCT. Ressentidos, desapontados investigadores das ciências sociais e humanas contra-atacam, alegando o igual valor do seu trabalho, esforçando-se por demonstrar a utilidade que pode ter.

Não é este o caminho para a unidade da ciência, e a ciência só pode ser uma; não é este o caminho para a sua valorização como conhecimento, com eventuais aplicações de carácter tecnológico.

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...