Um segundo poema do mesmo autor uruguaio, enviado por Jacqueline Oliver.
Te quero
de Mario Benedetti
Tuas mãos são minha carícia
Meus acordes cotidianos
Te quero porque tuas mãos
Trabalham pela justiça
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
Teus olhos são meu conjuro
Contra a má jornada
Te quero por teu olhar
Que olha e semeia futuro
Tua boca que é tua e minha
Tua boca não se equivoca
Te quero porque tua boca
Sabe gritar rebeldia
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
E por teu rosto sincero
E teu passo vagabundo
E teu pranto pelo mundo
Porque és povo te quero
E porque o amor não é auréola
Nem cândida moral
E porque somos casal
Que sabe que não está só
Te quero em meu paraíso
E dizer que em meu país
As pessoas vivem felizes
Embora não tenham permissão
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Da gente que eu gosto
A Jacqueline Oliver pedi que partilhasse com o De Rerum Natura poesia do seus país, o Uruguai, por ela ser tão rara no nosso.
Da gente que eu gosto
de Mario Benedetti
Antes de mais nada gosto da gente que vibra,
que não é necessário empurrar,
que não se tem que dizer que faça as coisas
e que sabem o que tem que ser feito
e o fazem em menos tempo que o esperado.
Gosto da gente com capacidade de medir
as conseqüências de suas ações.
A gente que não deixa as soluções para a sorte decidir.
Gosto da gente exigente com seu pessoal e consigo mesma,
mas que não perde de vista que somos humanos
e que podemos nos equivocar.
Gosto da gente que pensa que o trabalho em equipe, entre amigos,
produz às vezes mais que os caóticos esforços individuais.
Gosto da gente que sabe da importância da alegria.
Gosto da gente sincera e franca,
capaz de opor-se com argumentos serenos e racionais às decisões de seus superiores.
Gosto da gente de critério,
a que não sente vergonha de reconhecer
que não conhece algo ou que se enganou.
Gosto da gente que ao aceitar seus erros,
se esforça genuinamente por não voltar a cometê-los.
Gosto da gente capaz de criticar-me construtivamente e sem rodeios:
a essas pessoas as chamo de meus amigos.
Gosto da gente fiel e persistente
e que não descansa quando se trata de alcançar objetivos e ideais.
Gosto da gente que trabalha para alcançar bons resultados.
Com gente como esta, me comprometo a tudo,
já que por ter esta gente ao meu lado me dou por satisfeito.
Da gente que eu gosto
de Mario Benedetti
Antes de mais nada gosto da gente que vibra,
que não é necessário empurrar,
que não se tem que dizer que faça as coisas
e que sabem o que tem que ser feito
e o fazem em menos tempo que o esperado.
Gosto da gente com capacidade de medir
as conseqüências de suas ações.
A gente que não deixa as soluções para a sorte decidir.
Gosto da gente exigente com seu pessoal e consigo mesma,
mas que não perde de vista que somos humanos
e que podemos nos equivocar.
Gosto da gente que pensa que o trabalho em equipe, entre amigos,
produz às vezes mais que os caóticos esforços individuais.
Gosto da gente que sabe da importância da alegria.
Gosto da gente sincera e franca,
capaz de opor-se com argumentos serenos e racionais às decisões de seus superiores.
Gosto da gente de critério,
a que não sente vergonha de reconhecer
que não conhece algo ou que se enganou.
Gosto da gente que ao aceitar seus erros,
se esforça genuinamente por não voltar a cometê-los.
Gosto da gente capaz de criticar-me construtivamente e sem rodeios:
a essas pessoas as chamo de meus amigos.
Gosto da gente fiel e persistente
e que não descansa quando se trata de alcançar objetivos e ideais.
Gosto da gente que trabalha para alcançar bons resultados.
Com gente como esta, me comprometo a tudo,
já que por ter esta gente ao meu lado me dou por satisfeito.
O GRANDE LUME
Texto do Professor Galopim de Carvalho que o De Rerum Natura agradece.
Foi há cinquenta anos que conheci Barrancos. Estava-se em férias de Natal e era o meu primeiro ano como assistente na Faculdade. O Professor Carlos Teixeira, na altura, o director do departamento, mandara-me chamar. Tinha à sua frente, entre pilhas de livros e papéis, um grosso volume encadernado a couro, com letras douradas, onde se lia Système Silurique du Portugal, uma importante memória da autoria de um dos fundadores da geologia portuguesa, Nery Delgado, publicada no início do século XX.
– Neste trabalho, – apontou, depois de me retribuir o cumprimento – no capítulo referente a Barrancos, estão citadas várias jazidas de ftanitos com Monograptus [1]. Passe o Natal com a família e depois meta-se a caminho. Localize as que puder e faça umas boas colheitas. Temos cá exemplares do centro e do norte do país, mas do sul, só temos isto, – concluiu, passando-me para a mão um fragmento de rocha cinzenta, muito dura e compacta, exibindo os ditos fósseis.
– Vais para Barrancos? Já amanhã? – Admirou-se o Chico, o meu irmão mais velho, que viera do Brasil passar o Natal com a família. – Mas isso é lá no “cu do mundo”. Já lá estive durante uma tournée que fiz aqui no Alentejo com o Igrejas Caeiro. É gente boa. Falam uma espécie de espanhol que dá gosto ouvir.
– Tenho de ir. – Justifiquei resignado. Faltara-me a coragem para resistir ao capricho do catedrático e ali estava eu, forçado a deixar a família, agora reunida após anos de ausência de dois irmãos. O Chico e o Marecas.
Cheguei a Barrancos na última das três carreiras que tive de utilizar desde Évora. A aproximação à vila fazia-se por um percurso tortuoso, num terreno profundamente abarrancado, realidade paisagística de que lhe resultou o nome. Na praça, um ventinho gélido brincava com as cinzas deixadas pelo “grande lume” - a grande e tradicional fogueira da noite de Natal, feita no largo da Igreja - a lembrarem o que fora a alegria e o convívio em louvor do Menino Jesus.
Era noite quando bati à porta da pensão. Sopa e dois pratos faziam o jantar, servido quase de imediato numa sala grande, mal iluminada e fria, com porta para um corredor que levava à cozinha. Aqui, uma enorme chaminé com lume de chão e enchidos frescos ao fumeiro davam ao ambiente um conforto e um aroma a fazerem desta divisão da casa o lugar mais apetecido. Não longe do lume, uma camilha envolta numa saia até aos pés, servia de mesa tanto de comer como para cumprir os trabalhos escolares da única filha. Pai, mãe e filha, avô e avó viviam e conviviam o tempo todo ali, num bem-estar que contrastava com o desconforto da sala destinada aos hóspedes.
Depois de uma sopa rala e sem graça nem sabor, o primeiro prato, à falta de peixe, constou de ovos mexidos com linguiça, seguido de um bife sobre o frito, uma ementa cuidada a condizer com o hóspede vindo de Lisboa e, ainda por cima, da Universidade. Nesse serão já não saí. Recolhi ao quarto, lajeado com placas de xisto a ressumarem água. O tecto, bem alto, limitava-se a um forro de caniço imediatamente por baixo das telhas. Um desconforto que não melhorava do lado de dentro dos lençóis de linho, húmidos e frios, carregados de mantas que só com o peso disfarçavam a falta de agasalho. Lavatório no quarto e espelhinho na parede diziam-me que, na manhã seguinte, a toilette se faria ali. Uma higiene cumprida a medo com as pontas dos dedos a trazerem a água gélida aos olhos.
– Bom dia! Dormiu bem?! – Acolheu-me a avó, de roda do borralho, logo que me sentiu assomar. – Entre, entre. Venha para aqui, que está mais aconchegado. Já lhe preparo o cafezinho.
Pegou então num punhado de gravetos, chegou-os ao grande toro de azinho fumegante, a chiar baixinho, e começou a avivá-lo soprando por um longo canudo de ferro estrangulado na ponta. Às primeiras labaredas arrumou-lhe a cafeteira de barro queimada do uso.
– Este madeiro foi o da noite de Natal – disse – Era bem grande. Tive cá os outros filhos e os netos todos. Olhe aí para o presépio que eles fizeram. O avô trouxe-lhes o musgo e o barro e eles é que fizeram a bonecada toda.
Sentado à camilha, com as pernas passadas para dentro da grossa saia e com a braseira aos pés, tomei café de mistura, bem quente, a acompanhar torradas de pão caseiro, feitas ali, umas atrás das outras, no brasido do chão. Que delícia e que saudades! Até a margarina me sabia à melhor das manteigas. Encorajado por aquela abertura à intimidade da cozinha, desabafei:
– Está-se muito melhor aqui do que naquela sala, lá fora. E então, – acrescentei afoito – não seria também mais prático eu comer o mesmo que come a família?
– Vossemecê é que sabe. – Respondeu-me com naturalidade. – A gente acha que a casa de jantar é mais apropriada para os hóspedes. Ficam mais à vontade, e nós também. – Sorriu. – Só lá comemos nos dias da festa, menos na noite do menino, que é passada aqui ao pé do lenho. Hoje vou fazer chispe com repolho, mogango e feijão encarnado. Se gostar, logo à noite come com a gente. E ainda aí tenho esta carne frita que sobrou das migas do almoço. – Acrescentou, mostrando-me uma tigela de fogo quase rasa de banha encarnada, através da qual se percebia estarem ali mergulhados os pedaços de carne magra e entremeada. – É temperada com alho e massa de pimentão. Sabe o que é? Assim não se estraga. Logo aqueço-lhe um pouco e vai ver como é bom. Quer mais uma pinguinha de café? Coma mais estas torradinhas, agora que estão quentinhas.
Falando deste e de outros Natais, a avó fazia-me companhia. Falou da ceia, do galo que matara, dos ganhotes e borrachos, da fona dos netos entre a casa e o “grande lume”, da missa da meia-noite e do pessoal cantando e tocando zambomba.
Por fim, talvez para me pôr mais à vontade, entoou uma das cantilenas com que alegravam a festa: Anda burriquinho, vamos lá à lenha, pr’aquecer o menino, na Noite Buena.
Com esta entrada no seio da família foi-se o frio, até o da noite, pois ali ao pé do lume até sabia bem prolongar o serão recheado contos e de histórias vividas. Quando, por fim, recolhia ao quarto, levava comigo o calor das brasas e o da convivência, regalos que, aliados à fadiga de um dia inteiro a subir e a descer cabeços e vales, de imediato me viravam a página para o dia seguinte.
Como foi hábito nesses escassos dias por terras barranquenhas e porque, na ocasião, a noite caía muito cedo, frequentei, nos fins de tarde, antes do jantar, a Sociedade, a mais selecta das duas situadas no largo da igreja, em frente uma da outra. Foi o Mário Escoval que ali me introduziu, permitindo-me conviver com os mais notáveis da vila. Como eu a estudar em Évora, uma boa dúzia de anos atrás, esse meu amigo, era então um entre as forças vivas locais, a par de outros lavradores, do autarca, do comandante da guarda, do professor e do padre Agostinho.
- O que é que bebes? Cerveja? - Cerveja, não. Só no Verão e com muito calor. Mas se é preciso justificar o direito à cadeira, que seja um café em copo, bem quente e com um “cheirinho”. Sempre dá para aquecer as mãos e a alma.
Não era fácil explicar aos meus companheiros de ocasião qual era o meu trabalho, todo o dia no campo, com um saco, um martelo, uma bússola e um mapa do exército. Ainda por cima em terras raianas. Logo no primeiro dia, por duas ou mais vezes, tivera a sensação de estar a ser seguido, facto que relatei ao sargento da GNR, já o Mário havia feito as apresentações.
– Fui eu que ordenei a um dos meus homens para ver o que é que um estranho andava ali a tramar – respondeu em tom profissional o representante da autoridade.
– E o que é que ele viu? – Inquiri, interessado em dar continuidade à conserva.
– Viu-o apanhar pedras em tudo o que era sítio, mirá-las por todos os lados, guardar umas e deitar fora outras. Viu-o olhar para o mapa ou para a bússola, escrever umas coisas e pouco mais.
– É esse o nosso ofício. – Aproveitei para explicar. – Apanhamos pedras estudamo-las depois e, desse estudo, procuramos conhecer a história da Terra. Desta vez ando à procura de uns fósseis, ou seja, de restos de animais que provam que aqui foi mar há uns quatrocentos milhões de anos.
– Diga-me cá, - salientou o professor. – E como é que aqui foi mar e hoje é tudo terra em seco? E como é que se sabe que foi, assim, há tanto tempo?
- Bom, tudo isso tem a sua explicação, mas leva tempo.
– Foi o Dilúvio, – meteu-se na conversa o Padre Agostinho, até aí calado, mas particularmente atento.
– Bem, retorqui-lhe - escolhendo as palavras. – Essa é uma história que nos põe num outro campo que nada tem a ver com o nosso trabalho. Uma história que dava pano para mangas. – Rematei, sorrindo-lhe.
– Venha para cá no Verão, por altura das festas, – atalhou o eclesiástico – vai ver que gosta. Temos fiesta com toiros de morte.
– Estamo-nos nas tintas para as leis de Lisboa, mas respeitamos a nossa tradição. – Interrompeu um dos presentes.
– Depois fica aí uns dias connosco para falarmos destas coisas. – Retomou o padre.
– Tertúlia já nós temos. O Zé Adrião diz que tem lá no monte um peixe petrificado, metido no xisto. O Mário já foi ver e diz que parece mesmo um peixe, assim, grande – e abriu os braços, ao jeito dos pescadores desportivos quando falam das suas proezas. - Temos de ir vê-lo.
Só ao terceiro dia da minha estada em Barrancos localizei a tão desejada camada com fósseis de Monograptus. Após duas jornadas de insucesso, ocorreu-me pedir ajuda a um pastor com quem já me havia cruzado. Depois de umas palavras de circunstância e de umas festas ao cão, que logo me reconheceu e se aproximou a abanar vigorosamente a cauda, tirei do saco a dita amostra de ftanito bem embrulhada em jornal.
– Vossemecê já viu por aqui pedra como esta, com estes risquinhos? – Perguntei, passando-lhe para a mão o exemplar que trouxera de Lisboa.
– Já vi, sim senhor. – Respondeu, satisfeito, com o ar de quem sabia do que estava a falar. – Uns são direitos, outros enroladinhos. Têm assim um denteado como a folha da serra de rodear.
– É isso mesmo. E onde é que os posso encontrar? – Prossegui, animado pela resposta.
– Há aí vários sítios com esta pedra. - Disse, olhando-a atentamente – É muito diferente do resto. É mais dura e não abre nem deixa meter a folha da navalha, como o xisto. Umas são mais claras e outras mais escuras, como esta. Que eu me lembre, assim de repente, aparece ali para o Calvário. Também as há nas Boticas, em Noudar e ao pé da capela de São Ginés – nomes que foi pronunciado, pausadamente, à medida que os ia tirando da memória dos muitos sítios daquele que era o seu mundo.
– Mas há mais. Olhe, ali atrás daquele cerro. Está a ver? – E apontou com o cajado. – Na Cerca das Almas, também se apanha obra desta. Há um caminho que passa no alto, – continuou – na direcção de quem vai para a vila. Em lá chegando, vê logo um barranco fundo à sua mão direita. É aí, na descida, que há pedra igual a esta, cheínha destes riscos. Abri o mapa e orientei-o. Lá estava a Cerca das Almas, a uns três quilómetros dali. Marquei o local que me pareceu corresponder à descrição do pastor, dei-lhe os bons dias, fiz mais umas festas ao rafeiro e pus-me a caminho. Era meio-dia quando cheguei ao ponto assinalado, dominado por enorme expectativa e pelo receio de mais uma tentativa falhada. Mas não. A camada fossilífera estava finalmente ali, a meus pés. A cada golpe de martelo a rocha abria-se-me nas mãos, repleta dos tão procurados Monograptus. Sentei-me a comer o farnel que sempre levava por almoço e passei o resto da tarde a partir ftanito e a enrolar em jornais todos os fragmentos que contivessem os ditos fósseis, posto o que regressei à vila, ajoujado ao peso da preciosa carga.
No fim dessa tarde foi a festa. Festejava-se a despedida, mas também o achado pelo qual já todos ansiavam e que, naturalmente, todos desejavam observar de perto. Desembrulharam-se as amostras e cada um viu o que quis e comentou ou perguntou o que lhe apeteceu.
– Vai já amanhã embora? Na carreira das sete e meia? – Perguntou-me por fim um dos presentes que, de seguida, gritou para o empregado, ao fundo da sala – Juzé Manué, bei acá i trázi maih uma jarra di binhú i uma pihca de catalão assadu.
Missão cumprida, podia regressar. E ainda faltavam dois dias para o Ano Bom. Na bagagem trouxe comigo um talego de chita cheio de lembranças dos meus amigos barranquenhos, uma preciosidade que entreguei à minha mãe.
– Isto faz um jeitão – comentou ela, no seu estilo de experiente e hábil gestora da economia familiar. – Mas que bem que cheiram os enchidos! E este pão, que coisa linda! E estes queijos e estas azeitonas! Louvado seja o Menino! E isto, o que é? – Perguntou-me ao tirar de dentro do saco um papel muito bem dobradinho.
– É uma receita de um prato que comi lá na pensão e de que gostei bastante. A avó ditou e a neta escreveu em cuidada caligrafia. Não traz nome, chame-lhe “feijoada barranquenha”.
«Coze-se o feijão encarnado e reserva-se. Faz-se depois um refogado farto com azeite, cebola, alho, louro e colorau e mete-se aí o chispe, a que se pode acrescentar toucinho entremeado, faceira e orelha, e deixa-se saltear o suficiente para tomar gosto. Junta-se então a água de cozer o feijão e os enchidos (chouriço, farinheira, etc.). Estando as carnes cozidas, junta-se-lhe o repolho, previamente escaldado e, quase no fim, o feijão já cozido e o mogango, tendo o cuidado de não o deixar desfazer».
Recuperado de “COM POEJOS E OUTRAS ERVAS”. Âncora Editora, 2004. Lisboa.
NOTA: [1] Género de invertebrado marinho de dimensões milimétricas, vivendo em colónias, característico do período Silúrico há cerca de 410 a 435 milhões de anos.
Imagens retiradas de: Primeira, segunda, terceira.
Galopim de Carvalho
Pira preparada para o “grande
lume”, na praça, em Barrancos
Foi há cinquenta anos que conheci Barrancos. Estava-se em férias de Natal e era o meu primeiro ano como assistente na Faculdade. O Professor Carlos Teixeira, na altura, o director do departamento, mandara-me chamar. Tinha à sua frente, entre pilhas de livros e papéis, um grosso volume encadernado a couro, com letras douradas, onde se lia Système Silurique du Portugal, uma importante memória da autoria de um dos fundadores da geologia portuguesa, Nery Delgado, publicada no início do século XX.
– Neste trabalho, – apontou, depois de me retribuir o cumprimento – no capítulo referente a Barrancos, estão citadas várias jazidas de ftanitos com Monograptus [1]. Passe o Natal com a família e depois meta-se a caminho. Localize as que puder e faça umas boas colheitas. Temos cá exemplares do centro e do norte do país, mas do sul, só temos isto, – concluiu, passando-me para a mão um fragmento de rocha cinzenta, muito dura e compacta, exibindo os ditos fósseis.
– Vais para Barrancos? Já amanhã? – Admirou-se o Chico, o meu irmão mais velho, que viera do Brasil passar o Natal com a família. – Mas isso é lá no “cu do mundo”. Já lá estive durante uma tournée que fiz aqui no Alentejo com o Igrejas Caeiro. É gente boa. Falam uma espécie de espanhol que dá gosto ouvir.
– Tenho de ir. – Justifiquei resignado. Faltara-me a coragem para resistir ao capricho do catedrático e ali estava eu, forçado a deixar a família, agora reunida após anos de ausência de dois irmãos. O Chico e o Marecas.
Cheguei a Barrancos na última das três carreiras que tive de utilizar desde Évora. A aproximação à vila fazia-se por um percurso tortuoso, num terreno profundamente abarrancado, realidade paisagística de que lhe resultou o nome. Na praça, um ventinho gélido brincava com as cinzas deixadas pelo “grande lume” - a grande e tradicional fogueira da noite de Natal, feita no largo da Igreja - a lembrarem o que fora a alegria e o convívio em louvor do Menino Jesus.
Era noite quando bati à porta da pensão. Sopa e dois pratos faziam o jantar, servido quase de imediato numa sala grande, mal iluminada e fria, com porta para um corredor que levava à cozinha. Aqui, uma enorme chaminé com lume de chão e enchidos frescos ao fumeiro davam ao ambiente um conforto e um aroma a fazerem desta divisão da casa o lugar mais apetecido. Não longe do lume, uma camilha envolta numa saia até aos pés, servia de mesa tanto de comer como para cumprir os trabalhos escolares da única filha. Pai, mãe e filha, avô e avó viviam e conviviam o tempo todo ali, num bem-estar que contrastava com o desconforto da sala destinada aos hóspedes.
Depois de uma sopa rala e sem graça nem sabor, o primeiro prato, à falta de peixe, constou de ovos mexidos com linguiça, seguido de um bife sobre o frito, uma ementa cuidada a condizer com o hóspede vindo de Lisboa e, ainda por cima, da Universidade. Nesse serão já não saí. Recolhi ao quarto, lajeado com placas de xisto a ressumarem água. O tecto, bem alto, limitava-se a um forro de caniço imediatamente por baixo das telhas. Um desconforto que não melhorava do lado de dentro dos lençóis de linho, húmidos e frios, carregados de mantas que só com o peso disfarçavam a falta de agasalho. Lavatório no quarto e espelhinho na parede diziam-me que, na manhã seguinte, a toilette se faria ali. Uma higiene cumprida a medo com as pontas dos dedos a trazerem a água gélida aos olhos.
– Bom dia! Dormiu bem?! – Acolheu-me a avó, de roda do borralho, logo que me sentiu assomar. – Entre, entre. Venha para aqui, que está mais aconchegado. Já lhe preparo o cafezinho.
Pegou então num punhado de gravetos, chegou-os ao grande toro de azinho fumegante, a chiar baixinho, e começou a avivá-lo soprando por um longo canudo de ferro estrangulado na ponta. Às primeiras labaredas arrumou-lhe a cafeteira de barro queimada do uso.
– Este madeiro foi o da noite de Natal – disse – Era bem grande. Tive cá os outros filhos e os netos todos. Olhe aí para o presépio que eles fizeram. O avô trouxe-lhes o musgo e o barro e eles é que fizeram a bonecada toda.
Sentado à camilha, com as pernas passadas para dentro da grossa saia e com a braseira aos pés, tomei café de mistura, bem quente, a acompanhar torradas de pão caseiro, feitas ali, umas atrás das outras, no brasido do chão. Que delícia e que saudades! Até a margarina me sabia à melhor das manteigas. Encorajado por aquela abertura à intimidade da cozinha, desabafei:
– Está-se muito melhor aqui do que naquela sala, lá fora. E então, – acrescentei afoito – não seria também mais prático eu comer o mesmo que come a família?
– Vossemecê é que sabe. – Respondeu-me com naturalidade. – A gente acha que a casa de jantar é mais apropriada para os hóspedes. Ficam mais à vontade, e nós também. – Sorriu. – Só lá comemos nos dias da festa, menos na noite do menino, que é passada aqui ao pé do lenho. Hoje vou fazer chispe com repolho, mogango e feijão encarnado. Se gostar, logo à noite come com a gente. E ainda aí tenho esta carne frita que sobrou das migas do almoço. – Acrescentou, mostrando-me uma tigela de fogo quase rasa de banha encarnada, através da qual se percebia estarem ali mergulhados os pedaços de carne magra e entremeada. – É temperada com alho e massa de pimentão. Sabe o que é? Assim não se estraga. Logo aqueço-lhe um pouco e vai ver como é bom. Quer mais uma pinguinha de café? Coma mais estas torradinhas, agora que estão quentinhas.
Falando deste e de outros Natais, a avó fazia-me companhia. Falou da ceia, do galo que matara, dos ganhotes e borrachos, da fona dos netos entre a casa e o “grande lume”, da missa da meia-noite e do pessoal cantando e tocando zambomba.
Zambomba
Por fim, talvez para me pôr mais à vontade, entoou uma das cantilenas com que alegravam a festa: Anda burriquinho, vamos lá à lenha, pr’aquecer o menino, na Noite Buena.
Com esta entrada no seio da família foi-se o frio, até o da noite, pois ali ao pé do lume até sabia bem prolongar o serão recheado contos e de histórias vividas. Quando, por fim, recolhia ao quarto, levava comigo o calor das brasas e o da convivência, regalos que, aliados à fadiga de um dia inteiro a subir e a descer cabeços e vales, de imediato me viravam a página para o dia seguinte.
Como foi hábito nesses escassos dias por terras barranquenhas e porque, na ocasião, a noite caía muito cedo, frequentei, nos fins de tarde, antes do jantar, a Sociedade, a mais selecta das duas situadas no largo da igreja, em frente uma da outra. Foi o Mário Escoval que ali me introduziu, permitindo-me conviver com os mais notáveis da vila. Como eu a estudar em Évora, uma boa dúzia de anos atrás, esse meu amigo, era então um entre as forças vivas locais, a par de outros lavradores, do autarca, do comandante da guarda, do professor e do padre Agostinho.
- O que é que bebes? Cerveja? - Cerveja, não. Só no Verão e com muito calor. Mas se é preciso justificar o direito à cadeira, que seja um café em copo, bem quente e com um “cheirinho”. Sempre dá para aquecer as mãos e a alma.
Não era fácil explicar aos meus companheiros de ocasião qual era o meu trabalho, todo o dia no campo, com um saco, um martelo, uma bússola e um mapa do exército. Ainda por cima em terras raianas. Logo no primeiro dia, por duas ou mais vezes, tivera a sensação de estar a ser seguido, facto que relatei ao sargento da GNR, já o Mário havia feito as apresentações.
– Fui eu que ordenei a um dos meus homens para ver o que é que um estranho andava ali a tramar – respondeu em tom profissional o representante da autoridade.
– E o que é que ele viu? – Inquiri, interessado em dar continuidade à conserva.
– Viu-o apanhar pedras em tudo o que era sítio, mirá-las por todos os lados, guardar umas e deitar fora outras. Viu-o olhar para o mapa ou para a bússola, escrever umas coisas e pouco mais.
– É esse o nosso ofício. – Aproveitei para explicar. – Apanhamos pedras estudamo-las depois e, desse estudo, procuramos conhecer a história da Terra. Desta vez ando à procura de uns fósseis, ou seja, de restos de animais que provam que aqui foi mar há uns quatrocentos milhões de anos.
– Diga-me cá, - salientou o professor. – E como é que aqui foi mar e hoje é tudo terra em seco? E como é que se sabe que foi, assim, há tanto tempo?
- Bom, tudo isso tem a sua explicação, mas leva tempo.
– Foi o Dilúvio, – meteu-se na conversa o Padre Agostinho, até aí calado, mas particularmente atento.
– Bem, retorqui-lhe - escolhendo as palavras. – Essa é uma história que nos põe num outro campo que nada tem a ver com o nosso trabalho. Uma história que dava pano para mangas. – Rematei, sorrindo-lhe.
– Venha para cá no Verão, por altura das festas, – atalhou o eclesiástico – vai ver que gosta. Temos fiesta com toiros de morte.
– Estamo-nos nas tintas para as leis de Lisboa, mas respeitamos a nossa tradição. – Interrompeu um dos presentes.
– Depois fica aí uns dias connosco para falarmos destas coisas. – Retomou o padre.
– Tertúlia já nós temos. O Zé Adrião diz que tem lá no monte um peixe petrificado, metido no xisto. O Mário já foi ver e diz que parece mesmo um peixe, assim, grande – e abriu os braços, ao jeito dos pescadores desportivos quando falam das suas proezas. - Temos de ir vê-lo.
Só ao terceiro dia da minha estada em Barrancos localizei a tão desejada camada com fósseis de Monograptus. Após duas jornadas de insucesso, ocorreu-me pedir ajuda a um pastor com quem já me havia cruzado. Depois de umas palavras de circunstância e de umas festas ao cão, que logo me reconheceu e se aproximou a abanar vigorosamente a cauda, tirei do saco a dita amostra de ftanito bem embrulhada em jornal.
– Vossemecê já viu por aqui pedra como esta, com estes risquinhos? – Perguntei, passando-lhe para a mão o exemplar que trouxera de Lisboa.
Restos fósseis de Monograptus
– Já vi, sim senhor. – Respondeu, satisfeito, com o ar de quem sabia do que estava a falar. – Uns são direitos, outros enroladinhos. Têm assim um denteado como a folha da serra de rodear.
– É isso mesmo. E onde é que os posso encontrar? – Prossegui, animado pela resposta.
– Há aí vários sítios com esta pedra. - Disse, olhando-a atentamente – É muito diferente do resto. É mais dura e não abre nem deixa meter a folha da navalha, como o xisto. Umas são mais claras e outras mais escuras, como esta. Que eu me lembre, assim de repente, aparece ali para o Calvário. Também as há nas Boticas, em Noudar e ao pé da capela de São Ginés – nomes que foi pronunciado, pausadamente, à medida que os ia tirando da memória dos muitos sítios daquele que era o seu mundo.
– Mas há mais. Olhe, ali atrás daquele cerro. Está a ver? – E apontou com o cajado. – Na Cerca das Almas, também se apanha obra desta. Há um caminho que passa no alto, – continuou – na direcção de quem vai para a vila. Em lá chegando, vê logo um barranco fundo à sua mão direita. É aí, na descida, que há pedra igual a esta, cheínha destes riscos. Abri o mapa e orientei-o. Lá estava a Cerca das Almas, a uns três quilómetros dali. Marquei o local que me pareceu corresponder à descrição do pastor, dei-lhe os bons dias, fiz mais umas festas ao rafeiro e pus-me a caminho. Era meio-dia quando cheguei ao ponto assinalado, dominado por enorme expectativa e pelo receio de mais uma tentativa falhada. Mas não. A camada fossilífera estava finalmente ali, a meus pés. A cada golpe de martelo a rocha abria-se-me nas mãos, repleta dos tão procurados Monograptus. Sentei-me a comer o farnel que sempre levava por almoço e passei o resto da tarde a partir ftanito e a enrolar em jornais todos os fragmentos que contivessem os ditos fósseis, posto o que regressei à vila, ajoujado ao peso da preciosa carga.
No fim dessa tarde foi a festa. Festejava-se a despedida, mas também o achado pelo qual já todos ansiavam e que, naturalmente, todos desejavam observar de perto. Desembrulharam-se as amostras e cada um viu o que quis e comentou ou perguntou o que lhe apeteceu.
– Vai já amanhã embora? Na carreira das sete e meia? – Perguntou-me por fim um dos presentes que, de seguida, gritou para o empregado, ao fundo da sala – Juzé Manué, bei acá i trázi maih uma jarra di binhú i uma pihca de catalão assadu.
Missão cumprida, podia regressar. E ainda faltavam dois dias para o Ano Bom. Na bagagem trouxe comigo um talego de chita cheio de lembranças dos meus amigos barranquenhos, uma preciosidade que entreguei à minha mãe.
– Isto faz um jeitão – comentou ela, no seu estilo de experiente e hábil gestora da economia familiar. – Mas que bem que cheiram os enchidos! E este pão, que coisa linda! E estes queijos e estas azeitonas! Louvado seja o Menino! E isto, o que é? – Perguntou-me ao tirar de dentro do saco um papel muito bem dobradinho.
– É uma receita de um prato que comi lá na pensão e de que gostei bastante. A avó ditou e a neta escreveu em cuidada caligrafia. Não traz nome, chame-lhe “feijoada barranquenha”.
«Coze-se o feijão encarnado e reserva-se. Faz-se depois um refogado farto com azeite, cebola, alho, louro e colorau e mete-se aí o chispe, a que se pode acrescentar toucinho entremeado, faceira e orelha, e deixa-se saltear o suficiente para tomar gosto. Junta-se então a água de cozer o feijão e os enchidos (chouriço, farinheira, etc.). Estando as carnes cozidas, junta-se-lhe o repolho, previamente escaldado e, quase no fim, o feijão já cozido e o mogango, tendo o cuidado de não o deixar desfazer».
Recuperado de “COM POEJOS E OUTRAS ERVAS”. Âncora Editora, 2004. Lisboa.
NOTA: [1] Género de invertebrado marinho de dimensões milimétricas, vivendo em colónias, característico do período Silúrico há cerca de 410 a 435 milhões de anos.
Imagens retiradas de: Primeira, segunda, terceira.
Galopim de Carvalho
domingo, 23 de dezembro de 2012
A INFINITA ESTUPIDEZ HUMANA
A TSF também transmitiu uma peça sobre o fim do mundo, para a qual fiz declarações. Ler e ouvir aqui: http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=2952433
"OBITUÁRIO DO MUNDO"
As notícias sobre o fim do mundo eram, como se viu, francamente exageradas. Nem o mundo nem a humanidade acabaram nem vão acabar tão cedo. Embora não possamos imaginar humanidade sem mundo, podemos imaginar um mundo sem humanidade. Mas seria um mundo ignorante. Nós somos a única parte do mundo, tanto quanto sabemos, que se interroga sobre ele e obtém respostas. Foi essa a mensagem que procurei comunicar à jornalista Marta Reis, do I, que no dia 21.12.12 publicou algumas entrevistas sobre a história do mundo, a propósito do apregoado "fim do mundo". O jornal brincou fazendo um "obituário do mundo".
I- Qual foi o ponto alto da humanidade, numa perspectiva histórica?
CF- A Revolução Científica, que no século XVII mudou a nossa visão do mundo e, em resultado, deu-nos poder de o transformar em nosso benefício. O mundo passou a ser compreendido através da observação e do raciocício e isso mudou a nossa vida. Com a decifração pelo homem das leis naturais o mundo passou a ser um lugar compreensível, um lugar onde podíamos viver melhor.
I- Que grande homem/mulher destacaria?
CF- Muitos perseguiram a verdade, a beleza ou a justiça. Destaco Einstein, o físico que subiu aos "ombros dos gigantes" da Revolução Científica, como Galileu e Newton. Ele ainda não foi arredado do seu lugar cimeiro na procura da verdade. O cérebro de Einstein simboliza bem a nossa capacidade de compreender o mundo.
I- Que obra exprime melhor a genialidade humana?
CF- Os escritos de Einstein que expõem a relatividade geral, que permitem descrever a evolução cósmica: o Big Bang, as estrelas, os buracos negros, etc. Quem diria que o pequeno cérebro humano poderia abarcar um Universo tão grande e variado? O cérebro humano é a porção do Universo que o tenta compreender e o vai compreendendo, numa tarefa inacabada.
I- E, pelo contrário, que obra/acontecimento exprime melhor a atrocidade de que o ser humano também é capaz?
CF- O Holocausto, contemporâneo de Einstein. Para pôr fim à odiosa perseguição aos judeus, Einstein, um grande pacifista, achou a guerra necessária. A barbárie tinha de ser enfrentada pela humanidade. I- Que grande invenção nos mostrou que podíamos ir mais longe?
CF- As sondas espaciais mostraram que podíamos ir mais longe. Algumas sondas não tripuladas já saíram do sistema solar. Talvez um dia nós saiamos também... Ninguém fica sempre no sítio onde nasceu.
I- O que ficou por fazer?
CF- Há, na ciência, tantos enigmas por resolver. Na matemática, tantos problemas por resolver. Na física, o que é a energia escura? Na biologia, como foi a origem da vida? Tantas coisas que, por enquanto, não sabemos. E as coisas que, por enquanto, nem sequer sabemos que não sabemos?
I- Termine por favor o epitáfio: aqui jaz a Humanidade…
CF- "Aqui jaz a Humanidade, que tentou compreender o mundo e foi capaz."
sábado, 22 de dezembro de 2012
Os seus principais direitos
Considerando a necessidade de os cidadãos conhecerem e exercerem os seus direitos quando fornecem dados pessoais, a Comissão Nacional de Protecção de Dados aconselha o seguinte:
• Leia sempre com atenção os impressos de recolha de dados antes de fornecer os seus dados pessoais.
• Por princípio, não forneça dados que lhe pareçam excessivos ou que violem a sua privacidade.
Estes são os seus principais direitos: de informação, de acesso, de rectificação e eliminação, de oposição, outros direitos
Direito de informação
No momento em que os seus dados são recolhidos, ou caso a recolha dos dados não seja feita directamente junto de si, logo que os dados sejam tratados, tem o direito de ser informado sobre:
• Qual a finalidade do tratamento
• Quem é o responsável pelo tratamento dos dados
• A quem podem ser comunicados os seus dados
• Quais as condições em que pode aceder e rectificar os seus dados
• Quais os dados que tem de fornecer obrigatoriamente e quais são facultativos
Direito de acesso
• Tem o direito de aceder aos dados que sejam registados sobre si, sem restrições, sem demoras ou custos excessivos, bem como saber quaisquer informações disponíveis sobre a origem desses dados. Tem o direito de conhecer a finalidade para que os seus dados são tratados, qual a lógica subjacente ao tratamento desses dados e a quem podem ser comunicados.
• O exercício do direito de acesso deve ser feito directamente junto do responsável pelo tratamento dos dados.
• O direito de acesso a dados de saúde, incluindo os dados genéticos, é exercido por intermédio de médico escolhido pelo titular dos dados.
• No caso de tratamento de dados policiais, relativos à segurança do Estado e à prevenção ou investigação criminal, o direito de acesso é exercido indirectamente, devendo para o efeito dirigir-se à CNPD.
• No caso de tratamento de dados para fins exclusivamente jornalísticos ou de expressão artística ou literária, o direito de acesso é exercido indirectamente, devendo para o efeito dirigir-se à CNPD.
• Nas situações que o direito de acesso é feito através da CNPD, se a comunicação de dados ao titular puder prejudicar a segurança do Estado, a prevenção ou investigação criminal, a liberdade de expressão ou a liberdade de imprensa, a CNPD limita-se a informar o titular dos dados das diligências efectuadas.
Direito de rectificação e eliminação
• Tem o direito de exigir que os dados a seu respeito sejam exactos e actuais, podendo solicitar a sua rectificação.
• Tem o direito de exigir que os seus dados sejam eliminados dos ficheiros de endereços utilizados para marketing.
• O exercício do direito de rectificação e eliminação é exercido directamente junto do responsável pelo tratamento.
Direito de oposição
• Tem o direito de se opor, a seu pedido e gratuitamente, ao tratamento dos seus dados pessoais para efeitos de marketing directo ou de qualquer outra forma de prospecção.
• Tem o direito de se opor a que os seus dados de cliente sejam utilizados para efeitos de marketing da empresa.
• Tem o direito de se opor a que os seus dados pessoais sejam comunicados a terceiros, salvo disposição legal em contrário.
• Tem o direito de se opor, nalguns casos previstos na lei, a que os seus dados não sejam objecto de tratamento, por razões poderosas e legítimas relacionadas com a sua situação particular.
Outros Direitos
• Exigir que os seus dados sejam recolhidos de forma lícita e leal.
• Exigir que os seus dados pessoais não sejam comunicados a terceiros sem o seu conhecimento e consentimento.
• Impedir que os seus dados pessoais sejam utilizados para finalidade incompatível com aquela que determinou a recolha.
• Não ficar sujeito a uma decisão tomada exclusivamente com base num tratamento de dados automatizado, destinado a avaliar, designadamente a sua capacidade profissional, o seu crédito ou o seu comportamento.
Se, de alguma forma, lhe for negado o exercício dos seus direitos, ou sempre que considere que os seus direitos não estão garantidos, pode apresentar queixa à CNPD.
• Leia sempre com atenção os impressos de recolha de dados antes de fornecer os seus dados pessoais.
• Por princípio, não forneça dados que lhe pareçam excessivos ou que violem a sua privacidade.
Estes são os seus principais direitos: de informação, de acesso, de rectificação e eliminação, de oposição, outros direitos
Direito de informação
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• A quem podem ser comunicados os seus dados
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• Tem o direito de se opor, nalguns casos previstos na lei, a que os seus dados não sejam objecto de tratamento, por razões poderosas e legítimas relacionadas com a sua situação particular.
Outros Direitos
• Exigir que os seus dados sejam recolhidos de forma lícita e leal.
• Exigir que os seus dados pessoais não sejam comunicados a terceiros sem o seu conhecimento e consentimento.
• Impedir que os seus dados pessoais sejam utilizados para finalidade incompatível com aquela que determinou a recolha.
• Não ficar sujeito a uma decisão tomada exclusivamente com base num tratamento de dados automatizado, destinado a avaliar, designadamente a sua capacidade profissional, o seu crédito ou o seu comportamento.
Se, de alguma forma, lhe for negado o exercício dos seus direitos, ou sempre que considere que os seus direitos não estão garantidos, pode apresentar queixa à CNPD.
Um cientista contra o cientificismo
The New Atlantis » The Folly of Scientism
http://www.thenewatlantis.com/publications/the-folly-of-scientism
http://www.thenewatlantis.com/publications/the-folly-of-scientism
Continued insistence on the universal competence of science will serve only to undermine the credibility of science as a whole. The ultimate outcome will be an increase of radical skepticism that questions the ability of science to address even the questions legitimately within its sphere of competence.(via Instapaper)
Seis sinais de cientificismo
A Liga Humanista Secular do Brasil está longe de promover a crendice; na verdade, visa fazer precisamente o oposto: esclarecer as pessoas e promover uma atitude reflexiva e crítica ou racional. Contudo, divulgar e defender uma atitude racional é muito diferente de embarcar no cientificismo. E a filósofa Susan Haack partilha os ideais da Liga Humanista Secular do Brasil, tendo feito um trabalho importante de defesa e divulgação da atitude racional, nomeadamente, publicando artigos no órgão oficinal do norte-americano Committee for Skeptical Inquiry (fundado por Carl Sagan, entre outros).
A Liga acaba de publicar uma entrevista a Susan Haack sobre o cientificismo, e uma tradução do seu artigo "Seis Sinais de Cientificismo". Vale a pena ler e reflectir.
A Liga acaba de publicar uma entrevista a Susan Haack sobre o cientificismo, e uma tradução do seu artigo "Seis Sinais de Cientificismo". Vale a pena ler e reflectir.
Nem sempre os fins justificam os meios
Um leitor anónimo deixou um comentário ao meu texto A confidencialidade das informações recolhidas pelas escolas que entendo ser uma importante clarificação aos restantes comentários. Destaca esse leitor que os dados recolhidos com um determinado fim, por determinada entidade, só podem ser usadas para esse fim, não constituindo as escolas excepção. Em circunstâncias especiais, o uso diferente do inicialmente traçado terá de ter um tratamento especial, nunca dispensando os mecanismos legais que regulam e asseguram o funcionamento democrático da sociedade e das suas instituições. Escreveu ele:
No que à Constituição diz respeito, e para o caso em apreço,
garante-se no seu Artigo 26.º que:
estabelece-se no seu Artigo 2.º que:
A questão principal coloca-se dentro dos parâmetros porque se rege qualquer sociedade de direito. Como muitas outras actividades das sociedades, a recolha de dados pessoais encontra-se enquadrada legalmente (...).De facto, os direitos dos cidadãos relativos à utilização dos seus dados estão consagrados, nomeadamente, na Constituição da República Portuguesa e na Lei de Protecção de Dados Pessoais.
No caso das escolas os dados recolhidos dos alunos, para mais se se encontram em bases de dados informáticos foram recolhidos visando um determinado fim e só podem ser utilizados para esse fim, visando com isso proteger os dados de cada um.
Em determinadas circunstâncias estes dados podem ser acedidos pelas autoridades após parecer de Juiz (...).
No que à Constituição diz respeito, e para o caso em apreço,
garante-se no seu Artigo 26.º que:
"A todos são reconhecidos os direitos (...) ao bom nome e reputação (...) e à protecção legal contra quaisquer formas de discriminação. A lei estabelecerá garantias efectivas contra a obtenção e utilização abusivas, ou contrárias à dignidade humana, de informações relativas às pessoas e famílias. A lei garantirá a dignidade pessoal (...)"E, no seu Artigo 35.º que:
"Todos os cidadãos têm o direito (...) de conhecer a finalidade a que [os seus dados] se destinam, nos termos da lei. A lei define o conceito de dados pessoais, bem como as condições aplicáveis ao seu tratamento automatizado, conexão, transmissão e utilização, e garante a sua protecção (...) A informática não pode ser utilizada para tratamento de dados referentes a convicções filosóficas ou políticas, filiação partidária ou sindical, fé religiosa, vida privada e origem étnica, salvo mediante consentimento expresso do titular, autorização prevista por lei com garantias de não discriminação ou para processamento de dados estatísticos não individualmente identificáveis. É proibido o acesso a dados pessoais de terceiros, salvo em casos excepcionais previstos na lei (...). Os dados pessoais constantes de ficheiros manuais gozam de protecção idêntica à prevista nos números anteriores, nos termos da lei."Na continuação deste normativo geral, a Lei de Protecção de Dados Pessoais (Lei n.º 67/98, de 12 de Outubro),
estabelece-se no seu Artigo 2.º que:
"O tratamento de dados pessoais deve processar-se de forma transparente e no estrito respeito pela reserva da vida privada, bem como pelos direitos, liberdades e garantias fundamentais.No seu Artigo 7.º sobre Tratamento de dados sensíveis, determina que:
"1. É proibido o tratamento de dados pessoais referentes a convicções filosóficas ou políticas, filiação partidária ou sindical, fé religiosa, vida privada e origem racial ou étnica, bem como o tratamento de dados relativos à saúde e à vida sexual, incluindo os dados genéticos. 2. Mediante disposição legal ou autorização da CNPD, pode ser permitido o tratamento dos dados referidos no número anterior quando por motivos de interesse público importante esse tratamento for indispensável ao exercício das atribuições legais ou estatutárias do seu responsável, ou quando o titular dos dados tiver dado o seu consentimento expresso para esse tratamento, em ambos os casos com garantias de não discriminação e com as medidas de segurança previstas".No n.º 3 do Artigo 15.º adianta-se que:
"O tratamento dos dados (...) é ainda permitido quando se verificar uma das seguintes condições: a) Ser necessário para proteger interesses vitais do titular dos dados ou de uma outra pessoa e o titular dos dados estiver física ou legalmente incapaz de dar o seu consentimento; b) Ser efectuado com o consentimento do titular, por fundação, associação ou organismo sem fins lucrativos de carácter político, filosófico, religioso ou sindical, no âmbito das suas actividades legítimas, sob condição de o tratamento respeitar apenas aos membros desse organismo ou às pessoas que com ele mantenham contactos periódicos ligados às suas finalidades, e de os dados não serem comunicados a terceiros sem consentimento dos seus titulares; c) Dizer respeito a dados manifestamente tornados públicos pelo seu titular, desde que se possa legitimamente deduzir das suas declarações o consentimento para o tratamento dos mesmos; d) Ser necessário à declaração, exercício ou defesa de um direito em processo judicial e for efectuado exclusivamente com essa finalidade."Acresce que, no seu Artigo 47.º sobre Violação do dever de sigilo, firma-se que:
"1. Quem, obrigado a sigilo profissional, nos termos da lei, sem justa causa e sem o devido consentimento, revelar ou divulgar no todo ou em parte dados pessoais é punido com prisão até dois anos ou multa até 240 dias. 2. A pena é agravada de metade dos seus limites se o agente: a) For funcionário público ou equiparado, nos termos da lei penal (...) c) Puser em perigo a reputação, a honra e consideração ou a intimidade da vida privada de outrem."Pelo exposto se deduz que, bastando convocar a lei fundamental e a lei especial, o caso da solicitação às escolas de informação sobre os seus alunos por entidade policial sem que esta seja mediada e legitimada por entidade judicial é seguramente questionável.
Sobre o recente massacre na América
WHAT'S NEW Robert L. Park Thursday, 20 Dec 2012 Washington, DC
GUN RIGHTS: NOTHING IS CERTAIN EXCEPT DEATH AND TEXAS.
Texas Gov. Rick Perry told a meeting of the Tea Party that you should be able to carry your handgun anywhere in Texas. Rep. Louie Gohmert (R-TX) said he wishes the school principal at Newtown had kept an M4 in her office. At the sound of gunfire she could have grabbed the carbine and blown Adam Lanza’s head off. Unless, of course, Adam, who she didn't know, was faster, or a better marksman, or had a bigger gun. I grew up on a farm in South Texas, belonged to the National Rifle Association, hunted deer and game birds. An Eagle Scout, I taught marksmanship on the rifle range of a Boy Scout camp one summer. But a few years later when I came home on leave during the Korean War my father told me he had arranged for us to go deer hunting. He was hurt when I said I don't hunt anymore. And I don't go back to Texas anymore
THEY STILL INSIST ON LEARNING FROM THEIR
Adam Lanza slaughtered 20 schoolchildren and seven adults. His first human target was his mother, who regularly took Adam to a shooting range. According to one account, she was a gun-hoarding survivalist who stockpiled weapons in preparation for an economic collapse. Which brings us to the fiscal problem.
Robert Park
Bioressonâncias Fraudulentas
O blogue Comerbemateaos100 sobre nutrição, saúde e longevidade conta-nos a história de mais uma fraude pseudocientífica: supostas bioresonâncias para indicar intolerâncias alimentares. Aqui.
Sugestões de Livros para o Natal
Alguns livros de ciência para o Natal
Não há infelizmente muitos, mas a meia dúzia de livros de ciência ou à volta da ciência a seguir indicados saíram em 2012 no mercado português e estão disponíveis para prendas de Natal de última hora. Estão por ordem alfabética do do primeiro autor e, propositadamente, metade são de autores portugueses e outra metade de autores estrangeiros.
- Cristina Carvalho. /Rómulo de Carvalho / António Gedeão/. /Príncipe Perfeito/ (Estampa). Já havia uma auto-biografia (/Memórias,/ Fundação Gulbenkian, 2010), mas a filha do famoso professor de ciências e poeta, também ela escritora, escreveu uma biografia de uma personagem ímpar da cultura portuguesa do século XX. Um retrato tirado de perto, por vezes íntimo, de um autor cuja memória permanece inspiradora.
- Jerry Coyne, /A Evidência da Evolução/ (Tinta da China). Há muitos livros sobre evolucionismo mas este, de grafismo muito cuidado, que inaugura uma nova colecção da Tinta da China, tem a virtude da claridade, pois coloca a compreensão de Darwin ao alcance de qualquer leitor interessado. Sobre o mesmo tema surgiu na Gradiva o também recomendável /A Espiral da Vida,/ de Nick Lane.
- Teresa Firmino e Filomena Naves, /Por que choramos quando cortamos uma cebola (/Esfera dos Livros). Duas conceituadas jornalistas de ciência usam a sua experiência jornalística para responder a várias questões interessantes sobre ciência num livro despretensioso que se lê com muito agrado.
- Stephen Greenblatt, /A Grande Mudança. Origem e história do pensamento moderno/ (Clube do Autor). Um professor de Harvard, especialista em Shakespeare e no seu tempo, conta-nos neste livro premiado com o Pulitzer a descoberta numa abadia alemã no século XV de um manuscrito do poeta latino Titus Lucrécio Caro, /De Rerum Natura/ (Sobre a Natureza das Coisas). O encontro do poema clássico precedeu o Renascimento e a subsequente Revolução Científica. O título de Lucrécio foi tomado por um blogue centrado no cruzamento das ciências e das humanidades.
- Daniel Kahneman, /Pensar, Depressa e Devagar/ (Temas e Debates). Um psicólogo norte-americano, professor em Princeton, e que ganhou o Prémio Nobel da Economia em 2002, discute o modo como tomamos decisões. Um livro que nos faz pensar sobre o modo como pensamos.
- Nuno Santos, Luís Tirapicos e Nuno Crato, /Outras Terras no Universo. Uma história de descoberta de novos planetas /(Gradiva). Este livro dá conta de uma das fronteiras mais actuais da ciência: a procura de planetas extra-solares. O primeiro autor, astrofísico da Universidade do Porto, é um dos investigadores mais activos na identificação desse tipo de astros. O último autor, apesar de arredado nos últimos tempos da divulgação científica, continua a ser um dos maiores escritores de ciência entre nós. O editor, Guilherme Valente, recebeu o primeiro Grande Prémio Ciência Viva, tendo para isso sido invocados os 30 anos da colecção /Ciência Aberta /de que este volume é o número 197.
Haja esperança para a divulgação da ciência e se o mundo não acabar no fim de 2012, como auguram algumas pessoas menos informadas, em 2013 haverá mais. Haverá, entre outros, o n.º 200 da Colecção Ciência Aberta.
Carlos Fiolhais
Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva
“O professor”
Por sugestão dum leitor, um poema de Carlos Drummond de Andrade em reconhecimento aos (nossos) bons professores.
O professor disserta sobre ponto difícil do programa.
Um aluno dorme,
Cansado das canseiras desta vida.
O professor vai sacudi-lo?
Vai repreendê-lo?
Não.
O professor baixa a voz,
Com medo de acordá-lo.
Carlos Drummond de Andrade
O professor disserta sobre ponto difícil do programa.
Um aluno dorme,
Cansado das canseiras desta vida.
O professor vai sacudi-lo?
Vai repreendê-lo?
Não.
O professor baixa a voz,
Com medo de acordá-lo.
Carlos Drummond de Andrade
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
A confidencialidade da informação recolhida pelas escolas
Li várias versões da notícia, e um dado parece-me seguro: recentemente, a Polícia de Segurança Pública, no âmbito duma investigação, terá pedido a escolas que lhes indicassem os alunos duma certa etnia que as frequentam e se alguns estão referenciados «pela prática de ilícitos» (circula na internet o que se afirma ser cópia do Fax onde contam estas duas solicitações).
Entendeu o director duma das escolas que não devia fornecer esses dados e pedir esclarecimento a instância superior, a Direcção Regional de Educação a que pertence. A resposta dessa Direcção Regional é de recusa, mas, ainda assim, preocupante, quando nela se refere que a escola "não dispõe de registos que permitam identificar os alunos por etnias".
Fica a dúvida, se a escola tivesse registos que permitissem identificar os alunos por etnias deveria facultá-los, de imediato, a entidade exterior que as solicitasse?
Não, não deveria, pois o princípio não é a escola inibir-se de disponibilizar informações sobre alunos (professores, funcionários ou outros profissionais) por não as ter, mas sim por não dever disponibilizá-las, a menos que se trate de casos muito concretos, em circunstâncias muito especiais e mediante autorização superior.
A regra deontológica a que a escola está obrigada é não dar uso diferente da informação que recolhe para fim distinto daquele que desencadeou a recolha. E isto independentemente de se tratar de um sujeito ou de um grupo com características consideradas mais ou menos especiais.
Entendeu o director duma das escolas que não devia fornecer esses dados e pedir esclarecimento a instância superior, a Direcção Regional de Educação a que pertence. A resposta dessa Direcção Regional é de recusa, mas, ainda assim, preocupante, quando nela se refere que a escola "não dispõe de registos que permitam identificar os alunos por etnias".
Fica a dúvida, se a escola tivesse registos que permitissem identificar os alunos por etnias deveria facultá-los, de imediato, a entidade exterior que as solicitasse?
Não, não deveria, pois o princípio não é a escola inibir-se de disponibilizar informações sobre alunos (professores, funcionários ou outros profissionais) por não as ter, mas sim por não dever disponibilizá-las, a menos que se trate de casos muito concretos, em circunstâncias muito especiais e mediante autorização superior.
A regra deontológica a que a escola está obrigada é não dar uso diferente da informação que recolhe para fim distinto daquele que desencadeou a recolha. E isto independentemente de se tratar de um sujeito ou de um grupo com características consideradas mais ou menos especiais.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Os perigos das linhas de alta tensão e o estudo da REN de quem ninguém sabe nada
Mais um excelente texto de António Araújo no blogue Malomil, acerca dos perigos das linhas de alta tensão e de um estudo bizarro encomendado pela REN, de quem nunca mais ninguém ouviu falar. Este é também um tema abordado no livro "Pipocas com Telemóvel".
21-12-2012 - Verdades e Mitos
Na próxima 4ª feira, dia 19 de Dezembro, pelas 18:00 horas, o Prof. Doutor João Fernandes e o Padre
Luís Francisco Marques vão ter uma conversa aberta subordinada ao tema
"21-12-2012: VERDADES E MITOS" - o fim do Mundo, no RÓMULO - Centro
Ciência Viva da Universidade de Coimbra, piso térreo do Departamento de Física.
A conversa será moderada pelo Prof. Doutor Carlos Fiolhais.
Entrada Livre
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
O PLANETA ILUMINADO
Nasa Earth Observatory/NOAA NGDC
Crónica primeiramente publicada na imprensa regional.
“Mais vale acender
uma vela do que maldizer a escuridão.” Carl Sagan
Imemoráveis noites
onde o breu incendiava a contemplação das estrelas e outros corpos celestes.
Ainda não sabíamos
que eram outros sóis, outros planetas, outras luas, outras rochas geladas
transumantes.
Hoje, milénios
depois, podemos contemplar esses mesmos astros com a acuidade visual ampliada e
emprestada pelas tecnologias telescópicas e espaciais.
Hoje, milhões de luas
depois, podemos contemplar a noite a partir do terraço espacial. Comtemplamos a
luminosidade das civilizações. Fruto luminoso da tecnologia electrónica e da
ciência. Contemplamos através de satélites, frutos compósitos da engenharia
aeroespacial, a utilização foteléctrica resultante, de uma ou de outra forma, da
acumulação de energia solar na superfície do planeta durante milhares de
milhões de órbitas ao redor do “astro rei”.
Quem poderia
imaginar que esta luz, com que iluminamos a nossa presença na face nocturna do
planeta, nos dificulta hoje a contemplação da amplitude estelar do Cosmos?
A luz da humanidade
noctívaga ofusca o olhar de se aninhar no brilho das estrelas inalcançáveis, antigo
alimento de sonho, norte dos caminhos a descobrir.
Nasa Earth Observatory/NOAA NGDC
Iluminamos os caminhos
terrestres e hoje já só quase vemos as estrelas com os “pés” no miradouro
extraterrestre, lá em cima onde o ar rareia.
Hoje, vemos
tecnologicamente mais longe no tempo e no espaço. Mas já não temos espaço sem
luz, para viajarmos com tempo neuronal pelas estrelas de outros mundos.
Não deixa de ser
irónico que só nos lugares da Terra não desenvolvidos ocidentalmente, nas
terras onde a fome é o pão nosso de cada dia, não deixa de ser irónico que esse
esgar de sobrevivência contínuo, em que a sede escorre pela roupa dos ossos
obscurecidos pela modernidade, seja alimentado pela contemplação do Cosmos e só
com a esperança de que o dia amanheça… Acorde mais perto de alguma
solidariedade, de uma humanidade iluminada por uma vela que a afaste da escuridão
ignorante e do desdém da hipocrisia fraterna.
Ao olhar para a
árvore de Natal iluminada, sinto que mais vale contemplar um estrela na
escuridão do que iluminar a vã ignorância.
António Piedade
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