terça-feira, 26 de julho de 2011

O diagnóstico da educação e a avaliação docente como terapia


“As carreiras são entre nós matéria importante, visto estarmos num país de carreiristas no qual todos buscam uma calha que lhes permita deslizar sem atrito”
(João Lobo Antunes, "Um Modo de Ser", 1996).

O diagnóstico do estado mórbido da Educação está feito por individualidades do mundo cultural, científico e político da sociedade portuguesa. Apenas alguns exemplos:

- “A educação é um desastre completo. Nem daqui a 30 ou 40 anos nos livramos dos erros que andamos a fazer hoje” (Silva Lopes).
-“Sem que haja um elevado número de indivíduos verdadeiramente qualificados, e não apenas ‘certificados’, não teremos um nível de instrução suficiente, isto é, europeu” (Medina Carreira).
-“A educação, objecto de tanto palavrório, passa moeda falsa; promete o mundo e não dá saber e trabalho” (Vasco Pulido Valente).
- “Por força de um atraso ancestral, a necessidade de uma escola qualificada que dê lugar a uma sociedade desenvolvida não está suficientemente clara na mente das pessoas. A escola, a boa escola, não ocupa ainda o lugar a que tem direito” (Carlos Fiolhais).
- “É indesculpável que um professor – qualquer professor !- não saiba escrever, cometa erros de ortografia graves, tenha limitações sérias no vocabulário, não faça ideia do que é a lei da queda dos graves, não saiba somar fracções ou confesse ‘horror à matemática’” (Nuno Crato).

Convém começar por lembrar que a encarniçada contenda da avaliação docente se tem desenrolado com a participação de duas aguerridas facções de professores, com o fogo de barragem sindical: uma constituída por professores medíocres que rejeitam, à outrance, toda e qualquer avaliação séria ao defenderam uma avaliação em roda livre que os coloque no topo da carreira docente sem mais aquelas; outra, por professores competentes que estiveram contra a avaliação (para utilizar o seu próprio argumento) levada a cabo por professores titulares, por vezes, de menor habilitação académica, mérito científico e cultural e docência de disciplinas que nada têm a ver com as do avaliado.

Não se pode deixar de dar razão a esta alegação. Todavia, não posso deixar de criticar que mesmo em escolas do ensino secundário tivesse havido casos de professores habilitados com simples cursos das antigas escolas técnicas a presidir aos respectivos conselhos directivos (posteriormente, executivos) com enquadramento legal para darem informações sobre o desempenho profissional de professores licenciados. Pena foi, portanto, que nessa altura se não tivesse erguido a vozearia, que depois se levantou, para criticar uma situação que então mereceu o maior silêncio e a mais espantosa aquiescência.

Que diria a sociedade portuguesa se o diagnóstico geral das obras de engenharia nacional indicasse erros, mais ou menos generalizados, de cálculos dos engenheiros? Que diria a sociedade portuguesa se o diagnóstico da medicina nacional indicasse má prática generalizada dos médicos? Porque se cala, então, a sociedade portuguesa, ou mesmo consente, se o diagnóstico aqui feito sobre o sistema educativo pode detectar nuns tantos docentes uma quota parte dessa responsabilidade, descurando o “produto” que sai das suas mãos, mãos hábeis e responsáveis ou mãos inábeis e irresponsáveis?

Ora isto passa por uma avaliação séria dos professores. Está agendada para a próxima sexta-feira uma reunião com sindicatos docentes para apresentação e discussão de um novo processo de avaliação a apresentar pelo actual Ministro da Educação. E ao que se sabe, pelos jornais, mais uma vez a Fenprof (mais calada do que o costume, embora eu duvide que este silêncio prenuncie boa notícia ou “a eloquência dos anjos”, de que nos falou Camilo) parte para essa importante reunião com a intransigência para que desse processo de avaliação não constem os resultados obtidos pelos alunos no fim dos respectivos desempenhos escolares.

O argumento é o do costume: como se pode avaliar esses resultados quando se está em presença de uma escola de bons alunos de um estrato económico elevado e de uma outra escola de alunos problemáticos e de um chamado “bairro da lata”. Essa é uma questão que se pode podia pôr (embora sem pernas para andar) relativamente a um médico que trabalhe num hospital de ponta e um outro que desenvolva o seu múnus num posto médico da província. Ou de um médico que trate uma simples constipação e um outro que se veja a braços com um doente com uma pneumonia.

Qualquer um deles deve ser avaliado conforme o empenho, o brio, a dedicação, postos na obtenção dos melhores resultados em função dos desafios que lhe são impostos e os meios colocados à sua disposição. Continuar a pôr como condição sine qua non não entrar para a avaliação docente os resultados obtidos pelos alunos é levantar logo à partida uma ponte de desentendimento sobre a avaliação dos professores como se as carreiras docentes não fossem entre nós matéria importante para premiar os bons professores e penalizar os maus docentes, pondo, no entanto, meios à sua disposição para virem a melhorar o respectivo desempenho. Como li algures: Todos iguais? Não! Todos solidários? Sim!

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Sal na ferida e pimenta na língua

Apresentação do livro de Tiago Mesquita 100 REFÉNS - sal na ferida e pimenta na língua: Crónicas no Jornal Expresso online (Edições MinervaCoimbra).

Em Coimbra, no dia 26 de Julho, pelas 18h30, na Livraria Minerva, Rua de Macau, 52.

No Porto, no dia 27 de Julho, 18h30, UNICEP (Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto), Praça Carlos Alberto, 128-A.

Em Lisboa, no dia 29 de Julho, 18h30, Fnac do Chiado.

Mais informações aqui.

NA FINLÂNDIA HÁ EXAMES E RETENÇÕES, ESTÚPIDA!



Com a amável autorização do autor, deixamos artigo de opinião de Guilherme Valente saído ontem no Público obre a educação na Finlândia e em Portugal:

"A soberania do conhecimento é a única que nos resta"
J. Veiga Simão

1. Quando a ignorância, a leviandade e a audiência se combinam, a mistura é explosiva. Um exemplo: «na Finlândia não há exames nem retenções». Da AR ao comentário loiro numa televisão, a asneira tornou-se moda e arrogância.

Na Finlândia há retenções e exames. Não é por não haver a possibilidade de retenções que a escola na Finlândia é boa. É por a escola ser boa que as retenções são ali residuais. E a que se deve essa qualidade?

Em cenário de fundo, o respeito pela educação e o prestigio da escola. Os pais, em geral com instrução elevada, acompanham com exigência o trabalho escolar dos filhos.

Depois, a arquitectura do ensino, a cultura de exigência, a qualidade da formação dos professores, programas e currículos assentes nos saberes que contam (libertos das tretas, que impedem o trabalho e a concentração no essencial. Responsabilidade e responsabilização dos directores, que respondem perante o ministério e as «autarquias». Directores que não são eleitos pelos pares.

Quando, há anos, apontei para a necessidade, da figura do director, acusaram-me de defender a escola «de antigamente». Escola de antigamente, alas, com que o Prof. Veiga Simão, com a sua Grande Reforma aliás, já acabara - a seguir - como escreveu, tão lucidamente, Sottomaior Cardia, foi só destruir esse projecto iluminado e corajosíssimo, que teria conduzido ao desenvolvimento do País.

(Hoje há directores nas escolas, embora a legislação que os instituiu limite a sua eficácia… ideologia oblige.)

2. Na Finlândia a educação é descentralizada, cabendo às autarquias uma grande responsabilidade na sua organização, que assenta numa autonomia estruturante das escolas.

Professores qualificados e respeitados. Numa escola hierarquizada, sob a orientação de um director, a quem cabe, em ligação com as autoridades locais, a contratação dos docentes. Mecanismos de apoio multidisciplinar para os alunos com dificuldades. Combate eficaz à retenção e ao abandono precoce. Ensino responsabilizante desde muito cedo. Uma aposta na qualidade e não tanto na quantidade (9 anos no ensino básico, sem horas excessivas na escola). Todos têm que contribuir para a qualidade do ensino: ministério, professores, alunos e pais. Uma rede de escolas «primárias», pequenas, muito ampla.

3. Com o CNE o ME estabelece a arquitectura nacional da educação, designadamente, os currículos nacionais, cabendo a cada escola complementá-los.

Escolaridade obrigatória até ao 9.º Depois, duas vias: científica (54% dos alunos), três anos, que termina com um exame nacional, base para a continuidade dos estudos; um ramo profissionalizante, de três anos, escolhido pela generalidade dos que não optaram pela via científica. Os que obtiverem uma qualificação profissionalizante adicional podem prosseguir estudos em escolas politécnicas ou em outras instituições de ensino superior. A escola, através da orientação permanente aos alunos e em contacto com os pais, encaminha-os para a via mais indicada para cada um.

(Durante anos, insistimos no facto da percentagem aberrante de abandono escolar em Portugal ser devida à inexistência de uma via profissionalizante. Uma escola igualitária -- facilitista, ignorante, iletrada e boçal -- gera, como entre nós se verifica, maior desigualdade social. O primeiro-ministro José Sócrates, parecendo perceber o problema, terá levado o ME a anunciar a possibilidade da criação de cursos técnicos profissionais nas escolas… nas escolas que tomassem a iniciativa de os propor. De facto o ME não disponibilizou os meios materiais e humanos que seriam necessários, devendo-se os cursos criados graças apenas à «carolice» de alguns directores e professores. Mas mesmo assim o abandono escolar diminuiu significativamente nas escolas que passaram a oferecer esses cursos. Na ocasião pensei tratar-se de sabotagem do que julguei ser um lúcido propósito do primeiro-ministro (até cheguei a manifestar-lhe apoio!), mas recentemente explicaram-me que a criação desses cursos não terá passado de um expediente para obter fundos da União.)

3. Na educação finlandesa não existe uma avaliação nacional de professores. A avaliação é feita nas escolas, presentes as características de cada uma, através dos resultados alcançados e do acompanhamento do trabalho dos docentes, que passa pelo director e pelo organismo de educação constituído no âmbito da «autarquia». Nada que lembre o modelo de avaliação imbecil, injusto, impraticável e desmotivador inesperadamente ainda em vigor entre nós.

4. Para transitarem, os alunos têm de obter aprovação em todas as disciplinas. Quando entram na escola percebem logo, portanto, ao que vão... A avaliação, realizada por cada escola, resulta de exames formais (no fim dos ciclos e com notas numéricas) e avaliação permanente, com provas regularmente realizadas.

5. Se não é possível, entre nós, reproduzir aquele cenário social de fundo, é no entanto, praticável e imperativo adoptar e adaptar a arquitectura do ensino, a cultura de exigência e responsabilização, que determinam a qualidade da educação na Finlândia, e… reproduzem, promovem, os valores que distinguem a sociedade finlandesa . Sem essa mudança de cultura e de ambiente nas nossas escolas – ensino centrado nos saberes que contam , valorização do papel do professor -- servirá de muito pouco aumentar o número de aulas de Matemática e Português - apenas mais aulas… iguais, mais tempo de caos e frustração dos docentes.

Exemplo duma diferença exigida pelo estado concreto do nosso ensino: um regime correctivo intensivo de exames, instrumento de regulação incontornável, de responsabilização e incentivo de toda a vida escolar, que gerará, finalmente, os bons resultados.

É tudo isto que, com o entusiasmo dos professores e a convergência patriótica das organizações sindicais e das associações de pais, gerindo bem e economizando milhões, este Ministro e este Governo novos, legislando como e quanto for necessário, seguramente querem e têm que realizar. Nunca um Ministro teve, como Nuno Crato, uma tão larga confiança dos professores, um tão largo apoio político e social para o fazer. Já. Mesmo que seja necessário assumir um ano escolar com atrasos e perturbação. Porque não poderá ser pacífico o extirpar da serpente…

Guilherme Valente

domingo, 24 de julho de 2011

A solidão do cidadão

No dia 8 de novembro de 2010, pelas 20 horas e 45 minutos, seguia de automóvel pela rua António José de Almeida, no sentido da Cruz de Celas, em Coimbra, quando, ao virar à direita para a rua Manuel Bastos Pina, senti um inesperado estrondo por baixo do carro.

Estacionei e verifiquei que um bloco de alcatrão, com cerca de setenta centímetros de comprimento, de largura irregular e bicudo numa extremidade, resultante dos cortes para uma vala para a substituição dos canos da rede das águas, se encontrava muito saliente em relação ao pavimento. Constituía um corpo pontiagudo e estranho na faixa de rodagem, e que, sobre a curva em ângulo reto, à noite, era uma verdadeira armadilha que apanhou o carro por baixo e lhe partiu o pára-choques traseiro.

Estando a rua livre e sem sinais de impedimento, e tendo ficado lesado pela incúria da empresa que efectuava as obras, expus o caso, descrito e fotografado, às Águas de Coimbra. Responderam-me dizendo que tinham notificado o Empreiteiro Aquino S. A.. Como o tempo passasse, contactei várias vezes esta firma, que acabou por participar o caso à Lusitânia, do Grupo Montepio, empresa onde estaria «seguro» contra acidentes de trabalho e responsabilidade civil.

Algum tempo depois veio o perito, que se inteirou do acontecido, obteve todos os dados que quis, fez o relatório, e eu fiquei a aguardar. Em 3 de Maio, isto é, sete meses depois, recebi uma carta das Águas de Coimbra dizendo que, por informação da firma Aquino Construções, «a situação reclamada estaria resolvida». Mas, «caso V. Exª entenda que a situação ainda não foi resolvida deverá responder em conformidade».

Estranhando nunca ter recebido informação da Companhia de Seguros, nem da Construtora, oficiei imediatamente as Águas de Coimbra informando que a situação, de facto, não estava resolvida. Como devem calcular, nada mais recebi: nem das Águas de Coimbra, nem da Companhia de Seguros, nem da firma Aquino.

Entretanto, tentei contactar a Lusitânia. Numa primeira tentativa, depois de infindável música não pedida, foi-me aconselhado a deixar contacto, para me informarem. Como não informaram, dias depois e de mais música telefónica, aconselharam-me aguardar «mais alguns dias», pois a funcionária do caso estava em férias. Passados tempos, depois de muita música, fui informado de que a Companhia afinal não tinha reconhecido o direito a indemnização. Como a explicação da razão invocada, via telefone, não me era clara em virtude da voz de aeroporto da funcionária, e porque, palavras, leva-as o vento, pedi as razões, por escrito, para essa decisão. A informação, como já devem calcular, ainda não chegou.

Ou seja, passados quase nove meses, nem das Águas de Coimbra, nem d’A Lusitânia, Companhia de Seguros, nem da Construtora segurada, me veio qualquer explicação, e muito menos indemnização, pelos prejuízos. Mais uma vez as instituições jogam à bola de umas para outras deixando o cidadão entregue a si mesmo. Não duvido que tudo se fez segundo as normas: concursos, contratos, apólices, caderno de encargos, papeladas; tudo legalizado e verificado. Mas, garantidas as aparências, vamos à substância: Nada de novo.

O cidadão continua só e desprotegido, embora envolvido por leis. É assim que se “resolvem” as coisas em Portugal. Uma história edificante.

João Boavida

Tanto tempo perdido!

Quando o (novo) Modelo de Avaliação do Desempenho Docente foi divulgado tive o cuidado de imprimir e de ler a informação disponibilizada pelo Ministério da Educação e pelas diversas entidades a ele ligadas neste trabalho. Perdi horas e horas a tentar compreender e sistematizar essa informação e ensaiar grelhas em função dos aspectos propostos. Quando pensava dominar um discurso mínimo sobre o assunto, surgiram reformulações e reformulações das reformulações... reli-as e integrei-as nos meus esquemas mentais, mas quando o segundo (grande) dossier ficou abarrotado, tal como havia acontecido com o primeiro, desisti de me actualizar e, nessa medida, de pensar mais no assunto.

Tal como eu, mas de modo mais competente, profundo e operacional, milhares de professores de todos os patamares de ensino investiram tempo e paciência na preparação e concretização do processo de avaliação, seu e/ou dos colegas. Tempo roubado ao processo didáctico: planificação, trabalho com os alunos e sua avaliação. Um jornal, pela mão da jornalista por Kátia Catulo, fez (felizmente) o balanço das horas gastas pelas escolas:


"Quase 20 mil professores tiveram de avaliar mais de 118 mil colegas. Segundo os dados do Ministério da Educação, cada relator (professor avaliador) teve em média cinco professores para avaliar e uma hora e meia por semana do seu tempo para fazer essa tarefa. Contas feitas, o ensino público consumiu ao todo 30 mil horas por semana neste processo, o que equivale a 1250 dias no total. Os números têm por base as horas que a anterior tutela atribuiu aos docentes para avaliarem os colegas. Daí que professores e directores façam questão de esclarecer que este tempo pode variar, uma vez que não tem em conta o facto de os professores terem sob a sua responsabilidade a avaliação de colegas que pediram aulas assistidas - condição essencial para as notas de mérito (...).
Nada melhor que um exemplo concreto para ter uma estimativa do tempo que os relatores terão gasto com o actual modelo. José Rafael, professor de Português da Secundária Oliveira do Douro, em Gaia, avaliou seis colegas (dois com aulas assistidas) e, durante oito semanas, usou em média quatro horas semanais só para definir critérios e preencher as grelhas de avaliação. O avaliador tem de apreciar relatórios de auto-avaliação e preencher fichas com dezenas de páginas e dezenas de indicadores que se multiplicam por domínios, subdividem-se em níveis ou se reproduzem em dimensões, em conceitos ou em temas associados. «A este tempo será preciso ainda acrescentar as quatro aulas assistidas, que totalizam seis horas, e ainda seis reuniões de uma hora com os avaliados. A boa notícia, diz José Rafael, é que este processo está praticamente concluído. Agora a dor de cabeça passa para a comissão de coordenação da avaliação, um júri composto pelo director e mais quatro docentes nomeados pelo conselho pedagógico de cada escola. São eles que determinam quem são os merecedores das notas - insuficiente, suficiente, bom, muito bom e excelente - em função das quotas para cada agrupamento».

sábado, 23 de julho de 2011

Como a Física e Matemática pode ajudar num melhor desempenho nos esportes?

Veja outros detalhes no video abaixo:



CORDEL DE CIÊNCIA - 12º ANIVERSÁRIO DO PAVILHÃO DO CONHECIMENTO

Para comemorar os 12 anos do Pavilhão do Conhecimento, cujo aniversário tem programa próprio no dia 25 de Julho, escrevi 12 textos, contos, diálogos, sobre ciência.

Cada texto é acompanhado de desenhos da ilustradora Diana Marques.

Exemplares de cada um dos doze textos, devidamente paginados e produzidos pela equipa do Pavilhão do Conhecimento, vão estar literalmente pendurados num cordel, dito de ciência, num espaço a descobrir neste Centro Ciência Viva, na Alameda dos Oceanos, em Lisboa.

Assim, no cordel estarão os textos, à espera de uma mão que os de lá tire, desdobre, leia e leve no bolso. Converse com os seus próximos sobre os temas que lá são tratados: astronomia, matemática, química, biologia, física, bioquímica, neurociências, história da ciência...

Coleccione-os. Tire-os do cordel...

Apareçam.

António Piedade

BILHETE POSTAL

“A auto-satisfação é inimiga do estudo. Se queremos realmente aprender alguma coisa, devemos começar por libertar-nos disso. Em relação a nós próprios devemos ser 'insaciáveis na aprendizagem' e em relação aos outros, 'insaciáveis no ensino'” (Mao Tsé-Tung, 1893-1976).

No meu último post, “Onde se fala do Ministério da Educação, do Processo de Bolonha e de uma Ordem dos Professores” (20/07/2011), escreveu Fartinho da Silva o seguinte comentário:

“Caro Rui Baptista: Para o lobby das 'ciências' da educação e para os restantes grupos de pressão que se sentam à mesa do Orçamento de Estado é essencial manter a divisão artificial entre ensino não superior e superior....”

Foi com o prazer que me dá ler prosa feita com “soberaníssimo bom senso”, de que nos falava Antero, que li o seu comentário e me eis a cumprir, uma vez mais, o meu hábito de responder às questões por si levantadas sob a forma de bilhete postal, caído em desuso. Assim:

Prezado Fartinho da Silva:

Na verdade, persistir no erro de continuar a haver dois ministérios, um, o da Educação, abrangente desde o ensino infantil ao ensino secundário, outro, o do Ensino Superior, era o mesmo que tolerar a aberrante separação entre um ensino propedêutico ao ensino universitário e o ensino propriamente universitário com os malefícios apontados no meu post.

Aliás, na minha idade e experiência de anos passados na docência, já nada me devia espantar. Mas o que é certo é que me espanta. Espanta-me que se possa ingressar na universidade através das “Novas Oportunidades” (ou novos oportunismos?) e, simultaneamente, se obrigue os jovens alunos a fazer exigentes exames do 12.º ano (exames aliás da minha inteira concordância); espanta-me, ainda, que o sério “Exame AD-HOC” de acesso ao ensino superior, para quem fosse um verdadeiro autodidacta (e não, como escreveu o poeta brasileiro Mário Quintana, “um ignorante por conta própria”) com exigentes provas, a nível nacional, de Português, Cultura Geral e uma prova específica em função do curso superior de candidatura, tenha sido substituído por uma "Prova de Acesso ao Ensino Superior para maiores de 23 anos", a cargo dos próprios cursos que precisam, como de pão para a boca, de angariar alunos para manterem portas escancaradas que deviam estar, há muito tempo, fechadas a cadeado. Prova essa crismada agora com a designação (por o nome de baptismo ser demasiado abreviado?) de “Provas especialmente destinadas a avaliar a capacidade para a frequência do ensino superior dos maiores de 23 anos” (Decreto-Lei n.º 64/2006, de 21 Março). Ufa!, receio bem que se fique mais cansado em pronunciar este majestático nome do que em cumprir as respectivas provas. Finalmente, espanta-me…espanta-me…espanta-me haver pessoas que julguem poder endireitar a sombra torta de uma vara sem a tirar do sol de um descarado facilitismo.

Mas que quer, meu caro Fartinho da Silva, quem se tem batido contra todos estes atropelos cometidos num ensino em que a mediocridade, pouco a pouco, e de forma insidiosa, se foi sobrepondo ao mérito, não se deve deixar abater pelo desânimo do Poeta de “Orpheu”: “Já não me importo / Até com o que amo eu creio amar /Sou um navio que chegou a um porto / E cujo movimento é ali estar”.

Importemo-nos, portanto, meu caro Fartinho da Silva! Lá virá o dia em que o prestígio do professor do ensino secundário será recuperado. Aquele prestígio de que nos falou Clara Pinto Correia que, ao referir-se aos antigo professores do liceu, escreveu que “devíamos beijar-lhes as fímbrias do manto" (“O Render dos Heróis”, Diário de Notícias, 09.Julho.1995). Em nome de um prestígio perdido granjeado, por exemplo, pelo antigo Liceu Pedro Nunes de Lisboa por ter no seu corpo docente, entre outros, a figura muito respeitada do pedagogo Rómulo de Carvalho e ter diplomado gente de grande valor no domínio da vida científica, literária, artística, económica e social do país, não seria boa altura acabar com o nome de escola secundária devolvendo-lhe o nome de liceu proscrito em resquícios revolucionários?

Ou terão sido, assim, tantos os maus serviços prestados pelo chamado liceu que justifique ter sido castigado com uma borracha que lhe apagou uma identidade secular? Ou, ainda, pior do que isso, matando dois coelhos de uma só cajadada cometendo idêntico e monstruoso agravo para com um ensino técnico industrial e comercial de muito prestígio pelos excelentes serviços prestados ao país e à sociedade portuguesa que se viu privada desses valiosos quadros técnicos.

Ora, quer se queira ou não, a tomada de medidas terapêuticas corajosas para a educação passa, também, por um actividade docente com poderes de autoridade pública que não se compadeça com uma simples aspirina para acalmar uma sintomatologia dolorosa deixando que as maleitas do sistema educativo prossigam o seu devastador caminho. Enganam-se os seus detractores, de natureza sindical ou não, que, em veredas de influências políticas ou em vielas esconsas de inconfessáveis interesses pessoais ou institucionais, teimam em não ver que a criação de uma Ordem dos Professores deixou de ser uma pequena bola de neve para se tornar numa avalanche que alguns adultos teimam em ter em suas mãos para brincadeiras de inverno de crianças.

Mas esta criação deve ser acompanhada da derrogação da medida que sonegou às ordens profissionais do provir a sua própria essência, descaracterizando-as, et pour cause, transformando-as numa caricatura de si próprias por deixarem de poder certificar os diplomas que dão acesso à profissão docente retirando-lhes, assim, a garantia de que os cursos de má qualidade não sobrevivam até que o escândalo público, ou o mau exercício dos seus diplomados, os obrigue fechar.

Felizmente, caro Fartinho da Silva, o actual governo de coligação corrigiu o erro, com escreve no seu comentário, da “divisão artificial entre o ensino não superior e superior”. Mas porque pouco ou nada se resolve, segundo a parábola de Marcos, com “remendo novo costurado em vestes velhas”, são estas questões a merecerem uma resposta de um tempo presente que não deve ficar para a história por se acomodar aos erros do passado devolvendo aos vindouros um futuro sem ter erradicado as verdadeiras asneiras de uma educação nacional em que se joga o futuro da juventude e o destino do própria sociedade portuguesa.

Cumprimentos amistosos,
Rui Baptista.

12 livros de ciência + 12

Na próxima segunda-feira, dia 25 de Julho, o Pavilhão do Conhecimento em Lisboa, Centro Ciência Viva, faz doze anos e inaugura uma biblioteca nas suas instalações. Pediu-me para destacar 12 livros de divulgação científica de autores portugueses mais 12 livros de ciência infanto-juvenis também de autores portugueses. Fi-lo com todo o gosto e acabei, apesar de hesitar, de não excluir dois títulos de grande circulação da minha autoria, Física Divertida e Ciência a Brincar (este em co-autoria). A ordem é a alfabética do título.

- A Física no dia-a-dia, Rómulo de Carvalho, Relógio d’Água
- A matemática das coisas, Nuno Crato, Gradiva
- Conceitos fundamentais de Matemática, Bento de Jesus Caraça, Gradiva (nova edição)
- Como uma bola colorida: a Terra, património da Humanidade, Galopim de Carvalho, Âncora
- Como respiram os astronautas, Manuel Paiva, Gradiva
- Einstein... Albert Einstein, Jorge Dias de Deus e Teresa Peña, Gradiva
- Egas Moniz: uma biografia, João Lobo Antunes, Gradiva
- Física Divertida, Carlos Fiolhais, Gradiva
- Haja luz!, Jorge Calado, IST Press
- Mais rápido do que a luz, João Magueijo, Gradiva
- O Erro de Descartes: Emoção, Razão e Cérebro Humano, António Damásio, Publicações Europa-América
- O mistério do Bilhete de Identidade e outras histórias, Jorge Buescu, Gradiva

Lista Infantil/Juvenil

- As velas que abriram o mundo, Jorge Casimiro, Lisboa Editora
- Cadernos de Iniciação Científica, Rómulo de Carvalho, Relógio d'Água
- Ciência a Brincar, Constança Providência, Helena Alberto e Carlos Fiolhais, Bizâncio
- Ciência a Brincar 5 Descobre a Matemática, Carlota Simões, Bizâncio
- Descobrir as ribeiras, Mike Weber, Ana Ferreira e Assunção Santos, Afrontamento
- O bosque das figuras planas, Andreia Hall e Ângela Luzia, Âmbar
- O Coelho de Porto Santo e outras zoo-histórias de Portugal, Gradiva, Ana Isabel Queiroz e Carlos Pimenta, Gradiva - Júnior
- Os amigos da Menina do Mar, Raquel Gaspar e Ângelo Encarnação, Associação Viver a Ciência
- Pedro Nunes, Henrique Leitão, Plátano
- Pelo sistema solar vamos todos viajar, Regina Gouveia, Gatafunho
- Vamos cuidar da Terra: fazer pouco pode mudar muito, Catarina Schreck Reis e Anabela Marisa Azul e Helena Freitas Imprensa da Universidade de Coimbra
- Viagem pelo cérebro para pais e filhos, Luísa Albuquerque e Isabel Abreu, Sociedade Portuguesa de Neurociências e Ciência Viva

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Verbos da economia


Voltamos a destacar a crónica de J.L. Pio Abreu saída no "Destak" de hoje:

Há verbos simples e complicados. Os mais simples são aqueles que não têm argumentos. O verbo chover e nevar não têm qualquer argumento. Simplesmente chove ou neva, sem que se queira saber o que é que chove ou para quem é que neva. Mas o verbo rir, tal como morrer e chorar, tem um argumento. Se existe riso, é porque alguém está a rir: eu, o vizinho do lado, a plateia ou o boneco animado.

Depois temos os verbos com dois argumentos: matar, ferir, pintar, e tudo aquilo que alguém ou alguma coisa tem de fazer acontecer noutra coisa ou alguém: o António feriu o Joaquim, o carro matou o transeunte, o artista pintou o quadro. Os verbos com três argumentos são mais complicados, porque temos de pensar em três coisas à volta deles: alguém deu uma moeda ao pobre, o João trouxe o automóvel de casa, o Rui enviou uma carta à namorada ou o barco levou os navegantes até à costa.

Os verbos mais complicados têm quatro argumentos. Exemplos: um coleccionador trocou com outro uma moeda por um selo, o Francisco comprou um automóvel no stand por trinta mil euros, eu emprestei dinheiro ao Estado por um certo juro. É certo que as expressões matemáticas podem relacionar mais argumentos. Mas no discurso verbal, o limite fica por aqui. O curioso é que os verbos mais complexos, que mais obrigam a pensar, se usam no domínio da economia. Nem toda a gente consegue ter na cabeça quatro argumentos ao mesmo tempo. Será por isso que os políticos mal se entendem sobre assuntos económicos?

J.L. Pio Abreu

quinta-feira, 21 de julho de 2011

O FIM DOS VAIVÉNS



Acabaram os vais e os vens, com o último vem, do Atlantis, na noite-passada. Estava escuro e não se vê muito, mas o momento histórico, com uma aterragem perfeita, fica aqui registado.

Comentário sobre os resultados dos exames nacionais

O "Jornal de Leiria" disse-me:

"O exame nacional de Português para os alunos do 12º ano teve, este ano, o pior resultado em 14 anos de prova, com uma média de 8,9. Também Matemática A voltou aos resultados negativos. Depois de, no ano passado, a média do exame nacional de Matemática ter sido de 10,8, este ano baixou para os 9.2. Em reacção, o novo ministro da Educação, anunciou o reforço nas horas lectivas dedicadas à Matemática e ao Português, disciplinas que Nuno Crato considera “estruturantes” para o desenvolvimento dos alunos. Para o governante, que durante anos foi presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, as dificuldades reveladas pelos alunos a Português e a Matemática “não devem ser escondidas simplificando drasticamente os exames ou qualquer outro mecanismo”, mas têm de ser enfrentadas com “mais horas de trabalho para o Português e para a Matemática”.

Que comentários lhe merece o assunto?"

E eu respondi, nos poucos caracteres disponíveis:

"Os resultados dos exames nacionais continuam a ser muito preocupantes, apesar das comparações com anos anteriores não serem fiáveis. Como o GAVE não consegue fazer provas com grau de dificuldade semelhante, o ministro da Educação estará a pensar numa alternativa. A educação nacional constitui um enorme desafio para todos. Mais horas de trabalho na escola são decerto precisas. Assim como mais trabalho dos alunos em casa. E, nesta altura, é sobretudo necessário restaurar a confiança dos professores, muito abalada por um perverso sistema de avaliação docente."

2 Cyborgs Num Quarto Vazio



A marionet estreia esta quinta-feira, dia 21 de Julho, pelas 21h30,

2 Cyborgs Num Quarto Vazio

no regresso da companhia ao Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra. Esta é a terceira produção da companhia em 2011 e a estreia de Alexandre Lemos na encenação.


O corpo humano actualizado pelo seu próprio vício em extensões tecnológicas é o ponto de partida de mais uma produção da marionet. Tudo acontece num espaço vazio, muito vazio, ou muito cheio do desconforto que esse esvaziamento provoca em nós, habituados a um quotidiano sobrepovoado de informação. Nesse espaço encontramos um homem e uma mulher entregues à sua condição de cyborgs perceptível nas ausências de humanidade entre eles nesse quarto vazio que habitam por um tempo indefinido.

Como habitualmente nas peças da marionet a composição faz-se num diálogo entre forças criativas diversas desarrumando as noções disciplinares que encerram práticas como o Teatro e a Ciência em compartimentos isolados. E como já é habitual também, os profissionais das artes e das ciências beneficiam de desconto para assistir ao espectáculo.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Revista sobre pseudo-ciência

O blogue de astronomia astro.pt disponibiliza uma revista só sobre pseudo-ciência, cujos artigos desmontam todo o tipo de tretas das mais ingénuas às mais sofisticadas: aqui.

MAIS UM NACO DO DIÁLOGO ENTRE PEPINO E ALCUÍNO


Em continuação de post anterior deixo mais um naco, este tirado do início do "Diálogo entre Pepino e Alcuíno", uma discussão da Alta Idade Média entre uma criança francesa, Pepino (P), e um sábio monge beneditino, Alcuíno (A). O texto vem no pequeno livro reproduzido em cima:
"P.: O que é a escrita?
A.: O guarda da história.

P.: O que é a palavra?
A.: A delatora dos segredos da alma.

P.: Quem gera a palavra?
A.: A língua.

P.: O que é a língua?
A.: O chicote do ar.

P.: O que é o ar?
A.: O guarda da vida.

P.: O que é a vida?
A.: A alegria dos ditosos, aflição dos miseráveis, espera da morte.

P.: O que é a morte?
A.: Um fato inevitável, uma incerta peregrinação, lágrimas dos vivos, confirmação dos testamentos, ladrão do homem

P.: Que é o homem?
A.: Servo da morte, caminhante passageiro, sempre um hóspede em qualquer lugar.

P.: A que é semelhante o homem?
A.: A um fruto

P.: Qual a condição humana?
A.: A de uma candeia ao vento.”

Onde se fala do Ministério da Educação, do Processo de Bolonha e de uma Ordem dos Professores

“O tempo passado e o tempo presente, fazem ambos parte do tempo futuro” (T.S.Eliot, 1888-1965).

Na vigência do anterior Governo, do Partido Socialista, havia dois ministérios a tutelar o ensino não superior (infantil, básico e secundário) e o ensino superior (universitário e politécnico). Hoje, em que o Governo de coligação PSD/CDS tem um único ministério que abrange desde o ensino infantil ao universitário, começa-se a assistir a uma polémica, ainda que em quase surdina, contra a inclusão de todos os graus de ensino num único ministério.

Mas esta solução parece-me mais vantajosa por evitar um ministério de ensino superior desarticulado dos restantes graus de ensino, a exemplo de um corpo tetraplégico em que os comandos motores cerebrais se encontram desligados do resto do corpo. Mas, como não há bela sem senão, em argumento contrário poderá ser objectado que se torna uma missão demasiado vasta e complexa para ficar na dependência de um único ministério, ainda que compartimentado em diversas secretarias de Estado. Suporto a minha posição de um único ministério a tutelar a Educação com a analogia da direcção das orquestras sinfónicas por um único maestro para uma sintonia perfeita entre todos os seus executantes.

Assim, devidamente autorizado pelo então presidente da Secção Regional de Coimbra da Ordem dos Engenheiros, Eng.º Celestino Quaresma, tive a oportunidade de defender este meu ponto de vista no Seminário “Reflexos da Declaração de Bolonha” (Coimbra, 12 e 13 Nov. 2004), promovido pelo Conselho Nacional de Profissões Liberais, em que participei como uma espécie de “outsider” tendo como credencial a minha condição de presidente da Assembleia Geral do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados, defensor da criação de uma Ordem dos Professores.

Nessa qualidade assisti a diversos debates, respeitantes a directivas emanadas da União Europeia sobre o ensino superior, entre eles a discussão do grau académico a atribuir aos três primeiros anos de estudos universitários, tendo em linha de conta a sua uniformização e livre circulação de diplomados entre países da União Europeia com profissões acreditadas pelas nove ordens profissionais portuguesas existentes na altura, por ordem alfabética: advogados, arquitectos, biólogos, economistas, engenheiros, farmacêuticos, médicos, médicos dentistas e médicos veterinários.

Embora tendo o destino das coisas para inglês ver, saiu deste seminário o parecer unânime de que o grau académico a atribuir ao diploma inicial de estudos universitários deveria ser o de bacharel, em tradução da palavra inglesa bachelor, utilizado nos Estados Unidos e nos países anglo-saxónicos. Assim, desta forma e por decisão governamental de um país que, à sombra de princípios democráticos de audição dos interessados, parece ter prazer sádico em auscultar os parceiros sociais, ainda que com o estatuto de “interesse público”, para decidir precisamente o contrário, criando a actual confusão entre licenciados anteriores e posteriores a Bolonha que se assemelham, entre si, como as imagens distorcidas dos espelhos das feiras populares.

Participei activamente no Workshop 2, subordinado ao tema “O Acesso às Profissões”, com a minha experiência docente em faculdades da Universidade do Porto e Universidade de Coimbra. Nesse workshop ficou evidenciada a necessidade de uma sólida formação técnica, científica e cultural para o exercício das profissões tuteladas por ordens com a duração mínima de cinco anos. Houve consenso em que só com um exercício profissional devidamente creditado por uma Ordem os professores poderão ter voz activa e decisiva, por exemplo sobre os programas do ensino secundário propedêuticos ao ingresso no ensino superior.

Ainda nessa mesma altura tive a oportunidade de chamar a atenção para a desarticulação entre o ensino secundário e o ensino universitário, dando como exemplo o facto de o professor universitário António Manuel Baptista se queixar de haver alunos universitários de Física que desconheciam o princípio de Arquimedes. Mais aduzi, como reforço, uma conversa havida com um professor catedrático de Química que me confidenciou que parte do ano inicial da licenciatura sob a sua regência é ocupada a ensinar matérias descuradas, ou deficientemente dadas, nos programas do ensino secundário.

Aparentemente, estavam estas minhas considerações um tanto a latere do núcleo duro do referido workshop como, aliás, foi reconhecido no preâmbulo das respectivas conclusões que aqui reproduzo:

“Torna-se imperativo referir que este workshop foi pautado por uma excelente intervenção de todos os participantes, quer qualitativa quer quantitativamente. Por diversas vezes, houve ligeiros desvios em relação ao tema conduto, desvios estes que, genericamente, não se desenquadraram do cerne da questão, apenas lhe atribuíram uma visão mais global e enriquecedora. Assim, tornou-se consequente a obtenção de várias conclusões, algumas das quais poderão extravasar o tema supracitado, mas que julgamos serem pertinentes para todo este processo”.


Tendo como corolário o preâmbulo atrás citado, foram registadas seis conclusões, transcrevendo eu a segunda:

“O Processo de Bolonha deverá repensar todo o ensino e não apenas o ensino superior. Torna-se difícil, se não mesmo impossível, reestruturar cursos do ensino superior quando há falhas na formação do aluno que se evidenciam aquando da sua presença no mesmo. Estas falhas funcionam como um entrave à fluidez do ensino superior”.


Nesta conclusão saiu reprovada uma tutela ministerial bicéfala para o ensino superior e ensino não superior em desobediência ao princípio de Saint Exupéry: “Se cada tijolo não estiver no seu lugar não haverá construção”. Ou haverá uma construção em caboucos defeituosos que tanto têm prejudicado a qualidade do sistema educativo nacional posta à prova nos desastrosos e recentes exames nacionais de Português e Matemática do 9.º ano do básico e 12.º ano do secundário.

NÓS DOS SEM-GRAVATA


Nova crónica da escritora Cristina Carvalho:

As piadas ministeriais existem. Aquelas piadas que mergulham e nadam velozmente sob as secretárias dos gabinetes, pelo meio de cardumes e cardumes de peixitos ávidos de mesuras, pelo meio das pernas das secretárias. Existem naqueles ambientes soturnos, tão soturnos como o mais negro coração. Pesadonas e desajeitadas, as piadas dos ministérios são inventadas e proferidas ali atrás dos violentos reposteiros de veludo grená: primeiro quase em silêncio, num dissimulado balbuciar, apenas um mexer de lábios; depois vão-se escapulindo por bocas, por gestos, por olhares, por esgares e por sorrisos tão rápidos e tão fugazes que num espaço de minutos já toda a gente sabe e já todos riem e já todos aplaudem a graçola! Se esta situação se passasse há quarenta anos era normal. Mas também se passa hoje. E a situação mais engraçada que tenho lido - boa piada de ministério - é a recente e já desgastada piada da autorização dos “sem gravata”. Com comunicado e tudo!

E o que é que faz um ser humano do género masculino sem gravata? Nada! Praticamente não rende! Um homem, num ministério, a trabalhar sem gravata é como fazer um leite-creme sem leite, um pastel de nata sem creme, é um dia perdido! Onde é que se deita a mão, naquele tique acostumado de ajeitar o nó da gravata, se não há gravata? Com que é que um cristão se enfeita pela manhã, se envaidece, o que é que tem para admirar em si próprio senão uma bela e boa gravata? Então durante o verão não se compram gravatas? E a produção de gravatas? Um homem sentado a uma secretária para uma reunião, mas sem gravata, não inspira as mesmas vénias nem os mesmos olhares nem os mesmos cumprimentos. E transpira na mesma. Um homem sem gravata é um desprotegido, é preciso que se note. Um homem sem gravata insinua uma espécie de desprazer, de solidão. Um sem-gravata é um desajeitado, um nu, um infeliz. É que a carga psicológica é enorme, temos de perceber isto! Mas existe alguém feliz sem gravata? É um caminhar lento, um avançar medroso por aqueles imensos corredores, é um bater envergonhadamente à porta «desculpe-me! Posso entrar? Hoje não me sinto muito bem…» E uma pessoa olha de repente e vê uma ave aflita ali a piar, entre-portas, desamparada e tímida, camisa aberta até ao segundo botão, pêlos peitorais que espreitam «é que estou sem gravata…!»

É o mesmo que abrir a porta ao homem que vem contar o gás ou a água ou a luz em cuecas e t-shirt «ai desculpe! Ainda não me arranjei!» Deve ser a mesma sensação de infelicidade, de apanhados na vertigem da negligência, o facto de serem confrontados com alguém sentado a uma secretária bem vestido e de gravata, alguém que desprezou as normas. Porque isto é assim mesmo: há sempre alguém nas margens da rebeldia! Mas esses são os felizes que trabalham engravatados e que se lhes apetecer, amanhã, até vêm em fato de banho.

CRISTINA CARVALHO
Crónica APNET do mês de Julho 2011

Quantas estrelas se vêem no céu?


Novo artigo de Guilherme de Almeida, tal como os outros guardado como recurso educativo no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, em Coimbra. Começa assim:

"É opinião corrente que as estrelas observáveis a olho nu, num dado local e num dado instante, são incontáveis. E há também quem afirme que são milhões. De facto, sobretudo num local escuro, afastado de poluições, luminosas e outras, somos tentados a concordar com este ponto de vista. No entanto, o número de estrelas visíveis sem ajuda óptica - mesmo em condições muito favoráveis- é relativamente modesto, muito abaixo das especulações enraizadas no senso comum. Neste artigo apresenta-se um processo expedito e acessível para estimar o número de estrelas visíveis a olho nu do local, bom ou mau, em que o observador se encontra. "

E o resto pode ser lido aqui:

LISBOA, GEODIVERSIDADE E GEOCONSERVAÇÃO


Com a devida vénia republicamos o artigo do geólogo Galopim de Carvalho que saiu na revista “arquitectura paisagista”, Nº 07, Junho a Dezembro de 2011)

Se perguntarmos aos nossos governantes, juristas, economistas, quadros técnicos e científicos, agentes de cultura, opinion makers e outros intelectuais se conhecem a natureza e a história do terreno onde nasceu e cresceu a sua cidade, a esmagadora maioria, à semelhança do cidadão comum, vai dizer-nos que não sabe. E não sabe porque, desde sempre, o nosso sistema de ensino não dispensou à geologia a atenção que esta disciplina justifica e merece, situação que tenho denunciado. Os cidadãos, que tiveram formação académica e profissional nos domínios da Geologia, são excepção ao grosso da população que desconhece o chão que pisa e no qual assentam as fundações do prédio onde vive.

A urbanização de Lisboa, como em muitas outras cidades, cobriu e ocultou quase toda a área em que se expandiu e os poucos testemunhos das rochas que formam o substrato da cidade, e que o acaso permitiu que sobrevivessem ao camartelo, ao betão e ao asfalto, muito pouco ou nada dizem a quem todos os dias passa por eles.

Relativamente à história da cidade, são muitos os que conhecem a lenda do desafortunado Martim Moniz, entalado nas portas do Castelo de S. Jorge, em 1147. Nem todos sabem o que aqui aconteceu entre esta data e o tempo dos primeiros humanos que pisaram estas terras no Paleolítico inferior, há mais de cem mil anos, sendo relativamente raros os que têm uma ideia de uma história mais antiga que aqui recua ao chamado período Cretácico, quando, bem perto, ainda havia dinossáurios, como o demonstram as pegadas deixadas em Pego Longo, na vizinhança de Carenque, vergonhosamente deixadas ao abandono. Desse período da Era Mesozóica lembremos o lioz usado na construção dos Jerónimos, da Torre de Belém, do Palácio da Ajuda e da maior parte da estatuária e cantaria local. Esta bela pedra ornamental, explorada na região, por vezes, incorrectamente referida como mármore, é um calcário gerado há cerca de 95 a 97 milhões de anos, num mar litoral, muito pouco profundo, de águas mais quentes do que as que hoje banham as nossas praias no pino do verão. Nesse tempo toda esta região era mar e as serras de Sintra e da Arrábida estavam a muitos milhões de anos de surgirem, alterosas, acima dele. Nesse mar raso, populações imensas de um tipo muito particular de moluscos, a que chamamos rudistas, com conchas mais espessas do que as das ostras, cobriram os fundos e, proliferando umas sobre as outras, edificaram, camada após camada, os estratos de calcário que ainda podemos ver, por exemplo, nas Avenidas Infante Santo, perto da Cova da Moura, e Calouste Gulbenkian, sob o aqueduto das Águas Livres, ou na base do bairro dos Sete Moinhos, à entrada de Lisboa pela ponte Duarte Pacheco.

A pedra negra das velhas calçadas da cidade é basalto, ou seja, lava consolidada de vulcões que aqui estiveram em grande actividade há uns 70 milhões de anos, já o mar tinha abandonado toda esta região. Um esplêndido testemunho das potentes escoadas deste basalto ainda pode ser admirado num enorme escarpado, resto de antiga pedreira, no interior de um espaço desportivo, na Rua Aliança Operária.

No tempo imenso que se seguiu a este mar de fogo e cinzas, toda esta região evoluiu num ambiente continental, cuja idade remonta aos 40 milhões de anos, marcado pela secura do clima, propício à deposição de calcários lacustres, como são os de Alfornelos e da Brandoa, e a grandes enxurradas, como as que ainda se podem observar na Calçada de Carriche, nas camadas sedimentares repletas de calhaus arredondados.

Há cerca de 23 milhões de anos, o mar regressou a esta região e gerou, de novo, um ambiente construtor de calcário, mas, desta vez, por um grupo de minúsculos invertebrados coloniais – os briozoários – à semelhança dos corais. Um belo exemplo deste ambiente marinho recifal está protegido como geomonumento, na Rua Sampaio Bruno.

A geologia ensina-nos que as antigas fábricas de cerâmica que moldaram o barro extraído dos próprios locais, hoje desactivadas ou demolidas, invadidas pela cidade, só existiram porque esse mar recuou e passou a haver nesta região uma paisagem aplanada, propícia à sedimentação argilosa de um grande rio, povoada por grandes crocodilos, mastodontes (grandes herbívoros ancestrais dos elefantes), e muitos outros mamíferos, entretanto extintos. Ossadas destes animais têm sido desenterradas dos respectivos sedimentos, como são os areeiros que deram nome à praça que remata, no topo, a Avenida Almirante Reis. Graças ao trabalho de geólogos e paleontólogos que, a partir de finais do século XIX, estudaram, minuciosamente, os restos fósseis de animais e plantas recolhidos nestes terrenos, atribuídos ao período Miocénico, permitiram-nos ter uma ideia muito razoável da biodiversidade que caracterizou esta pequena parcela da Estremadura no respectivo intervalo de tempo, estimado entre 23,5 e 5,3 milhões de anos.

A geologia ensina-nos, ainda, que o chamado gargalo do Tejo não passava por aqui. Se, há uns 2 milhões de anos, já houvesse humanos nestas terras, eles poderiam ir a pé até à Outra Banda. Este troço final do grande rio resultou de abertura facultada por um importante sistema de fracturas, posterior a essa data, que o desviou do caminho que levava para a sua antiga foz, mais a sul, na península de Setúbal, numa faixa de terreno vizinha da actual Lagoa de Albufeira.

No que se refere às paisagens que marcaram este nosso espaço urbano, apenas é possível referir com objectividade a dos últimos tempos marcados pela presença dos nossos antepassados humanos. Para trás tudo se perdeu em consequência das convulsões tectónicas que elevaram umas áreas e deprimiram outras e dos efeitos da erosão que, sendo imperceptível à escala da nossa dimensão temporal, é bem visível quando se trata de milhões de anos. As chamadas sete colinas de Lisboa são o resultado da dialéctica entre as forças que elevam e constroem relevos e as que, por via dos agentes de erosão, os escavam e arrasam.

Desta acção erosiva resultaram vales como, para citar os mais importantes na determinação do tecido urbano, o Vale de Alcântara, bastante encaixado, ao estilo de um canyon, nos calcários do Cretácico, o Vale de Arroios, percorrido pela Avenida Almirante Reis, que conflui, no Rossio, com o da Ribeira de Valverde, que deu traçado à Avenida da Liberdade. Na zona oriental da cidade tem importância a bacia hidrográfica do Vale de Chelas, uma das últimas áreas de expansão de Lisboa.

Páginas de toda esta história, milagrosamente conservadas na densa malha urbana, visíveis em alguns raros locais e afloramentos rochosos na capital, despertaram, em começo dos anos 90 do século que findou, a atenção do Museu Nacional de História Natural (MNHN). À semelhança de um qualquer património construído e aceite como um monumento, também estas ocorrências geológicas começaram a ser entendidas como tal e, assim, justifica-se o cuidado de as protegermos e legarmos aos vindouros como documentos de um património natural que, não raras vezes, a civilização, o progresso e, também, a ignorância vão destruindo ou soterrando. Alertada a Câmara Municipal de Lisboa (CML) para este valioso património, ao tempo do vereador Rui Godinho, que, em boa hora, tomou este assunto em mãos, algumas destas ocorrências foram intervencionadas no sentido de as colocar à fruição por parte do público.

Após alguns anos de estagnação, a actual vereação retomou esse trabalho pioneiro, e que foi exemplo para outras cidades do País, havendo, neste momento, um projecto visando concluir o que havia sido iniciado e estender esta mesma preocupação a outros sítios entretanto referenciados por funcionários da Câmara com preparação geológica adequada.

Lisboa dispõe, hoje, de um conjunto de geomonumentos já musealizados ou em vias de musealizaçao, no espírito do que definimos como um Exomuseu da Natureza (1.º Encontro Nacional do Ambiente, Turismo e Cultura, reunido em Sintra, em 1989, por iniciativa do Centro Nacional de Cultura, ao tempo da saudosa Helena Vaz da Silva). Concebido como um conjunto de ocorrências naturais, esta estrutura museológica, geograficamente dispersa, pode ser coordenada a partir de um museu, de uma autarquia, de uma universidade ou de uma fundação que as identifica, inventaria, e as aceita como “peças de museu” que, como tal, protege, estuda, valoriza e explica ao cidadão. Sendo evidente que tais ocorrências não cabem, fisicamente, dentro do edifício de um museu convencional e tendo em atenção que o seu enquadramento natural, no local onde se encontram, é essencial à sua compreensão, elas têm, forçosamente, de permanecer fora das paredes da referida instituição.

Na letra do protocolo, então assinado pela CML e pelo MNHN (22 de Junho de 1998), os geomonumentos da capital, sendo propriedade material da Autarquia, são considerados pólos científicos, pedagógicos e culturais da Universidade de Lisboa.

Galopim de Carvalho

HUMOR - BACTÉRIAS 3

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...