quinta-feira, 12 de novembro de 2020

POSITIVISMO DE AUGUSTE COMTE

 Texto do Professor A. Galopim de Carvalho

Uma filosofia que bem nos podia ajudar nos difíceis tempos que estamos a viver, numa conversa ficcionada com o Presidente Teófilo Braga.

Foi no Alto de São Bento, em Évora, uma colina essencialmente granítica, que a Autarquia está a valorizar como um núcleo museológico, envolvendo áreas do conhecimento que vão da Geologia à Etnografia, passando pela Arqueologia e pela História.

O dia começara ameno. Não havia ninguém por perto, nem vento, e o silêncio só era quebrado aqui e ali pelo cantar de um passarinho.

Eu estava a ultimar a observação da superfície rochosa do topo deste pequeno relevo, onde no passado, um conjunto de moinhos de vento transformou trigo em farinha.

Fora a diversidade de elementos de natureza geológica, geomorfológica, petrográfica e mineralógica que me tinham levado a propor, à Autarquia, a musealização do local como um geossítio com interesse pedagógico e, eventualmente, turístico, a valorizar em conjunto com as valências citadas atrás.

Foi aqui que, sentado numa pedra, junto a um dos moinhos em ruínas, vi um idoso de cabelos brancos, barbicha no queixo e bigode igualmente brancos. Vestia uma roupa ao estilo de começos do século XX e o seu porte era distinto.

- Não me conheceis. – Disse, quando me aproximei. Sou uma simples aparição, como se fosse um holograma. Sou a memória do que fui em vida. Fiquei conhecido por Teófilo Braga, mas o meu nome completo era Joaquim Teófilo Fernandes Braga. Nasci em Ponta Delgada, a 24 de Fevereiro de 1843, e faleci em Lisboa, a 28 de Janeiro de 1924, aos 81 anos.

- Não. Sinceramente, não vos reconheci. Sei que fostes Presidente da República no período perturbado que se seguiu à queda da monarquia e, sobretudo, que fostes um intelectual de reconhecido mérito. A história recente de Portugal lembra-vos como um positivista.

- É verdade que em todas as minhas preocupações literárias, filosóficas e políticas mostrei ser um positivista, na estricta linha de Auguste Comte o, para mim, grande filósofo francês, da primeira metade do século XIX. Como ele, acredito, sem qualquer sombra de dúvida, que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro e, também como ele, rejeito liminarmente o sobrenatural e todo o tipo de crenças religiosas, crendices, mitos e lendas. O positivismo de Comte tem por base a realidade do mundo físico e a experimentação. Além disso, acrescenta-lhe uma componente ética, social e política. É este, pois, o meu positivismo.

- Posso dizer que o positivismo é, à partida, uma forma de materialismo?

- Sim, mas é mais do que isso. O materialismo advoga que todas as coisas são feitas de matéria e que todos os fenómenos são o resultado de interações materiais. O termo foi criado em começos do século XVIII, pelo filósofo alemão Gottfried Leibniz, mas a origem desta ideia é bem mais antiga. Temos de ir buscá-la aos filósofos gregos pré-socráticos, do século V a. C., Leucipo de Mileto e Demócrito de Abdera. Está mais próximo do Empirismo ou experimentalismo do franciscano Roger Bacon, o filósofo e alquimista inglês, do século XIII, lembrado como o “Doctor Mirabilis”. O positivismo de Comte é para mim e acima de tudo, uma doutrina filosófica, sociológica e política e foi com esta que, desde muito cedo, me identifiquei e que orientou toda a minha acção como homem e como político.

- Eu também rejeito liminarmente o sobrenatural é por isso que a vossa aparição, assim, como num sonho, contraria tudo o que penso sobre o mundo que me rodeia.

- Podemos partir da ideia de que somos protagonistas de um sonho que a ficção consente, dando-me voz. Um sonho onde encarno a memória do que fui em vida e que, em parte, pode ser lida na história recente de Portugal.

- Daquilo que retive da disciplina de Filosofia, do Professor Piedade Morais, no meu 7º ano do Liceu, Auguste Comte foi também um matemático, mas que foi como filósofo que ganhou desenvolvimento e seguidores na Europa, na segunda metade do século XIX e começo do XX. Mas desculpai a interrupção, senhor Presidente. Queira continuar.

- Conhecedor das crises social e moral de finais da Idade Média e perante o desabrochar da sociedade industrial, Comte partiu do Iluminismo e dos ideais da Revolução francesa e desenvolveu-os numa vertente essencialmente sociológica, em que associou conhecimento científico e ética, com radical afastamento de preocupações teológicas e metafísicas .

- A evolução do pensamento, seja ele científico ou filosófico é como uma escada. De um degrau se sobe a outro e é assim até onde se queira.

- Exacto. Para não ir mais longe na nossa procura, partamos do degrau do iluminismo que, como sabemos, tem abaixo deles muitos outros. Entre os mais próximos lembremos, no século XVII, o pensamento racionalista do francês René Descartes, o criticismo bíblico do holandês, nascido de uma família de judeus portugueses, Bento Espinoza, o materialismo do filósofo e matemático alemão Gottfried Leibniz e da abertura ao método científico moderno, protagonizado por Galileu Galilei, em Itália, e por Isac Newton, em Inglaterra. Valia a pena desenvolver, não só cada uma destas contribuições filosóficas e científicas, como muitas outras que as antecederam. Podemos deixá-las para uma próxima conversa.

- Parece-me uma boa ideia, mas, voltando ao iluminismo, julgo saber, senhor Presidente, que começou por ser um movimento, a um tempo, filosófico, social, político, económico, científico e cultural de uma elite intelectual europeia do século XVIII.

- Sim, um movimento que, diga-se, saiu dos salões para a rua e que “explodiu” com a Revolução Francesa, quanto a mim, um dos acontecimentos mais importantes da História da humanidade. Retornando agora ao nosso tema inicial, estou convicto que o conhecimento científico é a única forma de conhecer a verdade do mundo real. E daí a minha preocupação, como cidadão e como político, pela instrução pública. No meu tempo falava-se, e bem, em Ministério da Instrução, um nome bem mais consentâneo com a realidade, do que o actual Ministério da Educação, triste reminiscência do defunto Estado Novo. A educação começa e continua em casa. A escola foi feita para ensinar ou instruir. Pode participar na educação, mas a sua função primeira é ensinar.

- Quer Auguste Comte, quer o filósofo inglês de Stuart Mill, um pouco mais recente, só aceitavam uma teoria como verdadeira se ela fosse comprovada através de métodos científicos válidos, onde a experiência está sempre presente. Poderemos, então, dizer que esta afirmação podia ser atribuída a Roger Bacon, o alquimista inglês atrás referido?

- Convenhamos que sim. É, com efeito, uma afirmação que pressupõe o primado do experimentalismo.

- Ou seja, o empirismo baconiano transportado para os acuais laboratórios científicos.

- Exacto. As crenças, superstição ou quaisquer outras ideias que não possam ser comprovadas cientificamente, são radicalmente excluídas do pensamento positivista. O positivista observa a realidade material, ou seja, o mundo físico e, com base na experiência sensível e nos dados concretos obtidos, produz conhecimento científico. A subjectividade não tem aqui qualquer lugar.

- É, afinal, o que se passa hoje com a investigação científica.

- Como positivista, sempre acreditei que o progresso da sociedade humana depende exclusivamente dos avanços científicos que for conseguindo.

- É nessa media que os países mais desenvolvidos são aqueles que mais apoiaram a investigação científica.

- Acrescentarei, por último, que o positivismo foi a recusa absoluta ao idealismo transcendental do filósofo alemão do século XVIII, Immanuel Kant. Afastou-se do romantismo, surgido na mesma época, cuja visão do mundo era contrária ao racionalismo e ao iluminismo.. Substituiu o culto a Deus pelo culto à ciência, o mundo espiritual pelo mundo humano, o espírito pela matéria.

- Sei que sois citado como filósofo.

- Digamos que sim. De facto, escrevi bastante sobre filosofia, fortemente influenciada pelo positivismo, sobretudo, quando já a residir em Lisboa. Cheguei, mesmo, a fundar, em 1878, e dirigir, com o meu cunhado Júlio de Matos a revista “O Positivismo”.

- O positivismo a que vos referis é, certamente, o de Auguste Comte. Digo isto, porque há outros.

- Há outros, de facto, mas nada têm a ver com o original. Só conservam o nome mas referem outras correntes de pensamento. Estou a lembrar-me do positivismo jurídico, do filósofo e político austríaco Hans Kelsen, e do positivismo lógico do “Wiener Kreis” (Círculo de Viena ).

- Lembro-me que há uma componente mística no positivismo de Comte que o tempo já me varreu da memória,.

- Há e bem definida. Vale a pena determo-nos um pouco neste verdadeiramente interessante da sua filosofia. Para ele, as religiões em geral, as que conhecemos e muitas outras, eram apenas formas provisórias da única e verdadeira – a “Religião da Humanidade” - ligada a um novo conceito, o do “Ser Supremo”, entendido como sendo a Humanidade no seu todo, que alguns referem por “Grão Ser” dos positivistas. Comte aceitava-a e defendia-a como sendo a religião positiva e caracterizava-a, não pelo sobrenatural implícito na ideia clássica de Deus, mas sim pela busca da unidade moral entre os homens.

- Quer isso dizer que tem um fundamento ético apreciável?

- Certamente e é esse o aspecto mais positivo do positivismo. Esta religião tem, de facto, como primeiro objectivo, a regeneração social e moral da humanidade, servindo-se da verdade científica para o estabelecimento da referida unidade. Assim como a Religião Cristã está fundamentada nas sagradas escrituras, a Religião da Humanidade tem por base a ciência e envolve o conjunto dos seres de todas as gerações, passadas, presentes e futuras, que contribuíram, contribuem e contribuirão para o desenvolvimento e aperfeiçoamento humano.

- Sei que devemos a Comte a palavra "altruísmo".

- É uma só palavra mas que resume o ideal da religião positivista, uma religião do “amor”, a “ordem” e do “progresso" e que tem por preceitos viver às claras, na transparência e para os outros.

- Podemos concluir que fostes um positivista activo, introdutor dessa corrente filosófica em Portugal?

– Sem dúvida e isso deu-me imensa força em momentos difíceis da minha vida. Quando, em 1880, no interior do Partido Republicano e em colaboração com Ramalho Ortigão, organizei as comemorações do Tricentenário de Camões, tive em mente substituir o culto a Deus e aos santos pelo culto aos grandes Homens.

- Mas não vos ficastes pela filosofia?!

- Também escrevi bastante sobre sociologia e política. Interessei-me por diversos ramos da história e pela etnografia, com recolhas de contos e canções tradicionais. Experimentei, ainda, a ficção, o ensaio e a poesia.

- O meu pai tinha “Os Contos Tradicionais do Povo Português” e “O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições”.

- O primeiro desses estudos saiu em 1883 e o segundo, dois anos depois.

- É verdade que haveis tido ideia de seguir uma via religiosa?

- Diga-se que, tocado pela religiosidade retrógrada açoriana, vim para o continente com o propósito de cursar Teologia e enveredar por uma carreira eclesiástica. Mas, uma vez em Coimbra, onde terminei o Liceu, matriculei-me em Direito e foi então que descobri e me deixei invadir pelo positivismo, filosofia que, como já disse, orientou toda a minha visão ética da sociedade, como homem e como político.

- Mas o vosso percurso acabou por ser outro.

- Fui bom aluno, brilhante, no dizer dos meus professores, e quando, em 1867, terminei o curso, fui encorajado por eles a doutorar-me, o que fiz no ano seguinte, com a tese “História do Direito Português - Os Forais. Tentei a carreira docente, mas apontado como militante pela causa republicana e, como tal, “persona non grata”, fui excluído nas minhas candidaturas para professor da cadeira de Direito Comercial, na Academia Politécnica do Porto, em 1868, e para lente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em 1871.

- Foi a partir daí que vos haveis fixado em Lisboa, onde exercestes advocacia.

- Já em Lisboa e em 1871, fui um dos doze signatários do programa das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense.

- E fostes, finalmente, professor universitário.

- Em 1872 candidatei-me e consegui o lugar de lente da cadeira de Literaturas Modernas do Curso Superior de Letras, de Lisboa. Nesse concurso, lembro-me, foram preteridos o Manuel Pinheiro Chagas e o Luciano Cordeiro.

- Julgo saber que o pensamento de Comte foi decisivo não só na vossa obra filosófica e literária, como fez de vós figura grada dentro do Partido Republicano Português e um dos mais destacados doutrinadores do republicanismo.

- É o que diz a História e corresponde à verdade. Nesta minha situação de simples memória do que fui, sou o melhor juiz do que fiz em vida. Posso, pois, sem modéstias nem vaidades, dizer isso mesmo. No Congresso do Partido, de 11 de Janeiro de 1891, fui um dos subscritores do Manifesto e Programa ali apresentado. Na minha opinião, na de Manuel de Arriaga, Homem Cristo e de outros, a nossa acção política não visou nunca a revolta. Mas isso acabou por acontecer, por vontade de uma maioria que nos ultrapassou. Não chegou a um mês depois, estalou a “Revolta de 31 de Janeiro”.

- Foi a primeira das três revoltas republicanas contra a monarquia constitucional?

- Sim, as outras foram o ”Golpe do Elevador da Biblioteca”, em 1908, e o “5 de Outubro”, em 1910.

- Tenho também a ideia que fostes e que chegastes a ser deputado.

- Exacto. Fui-o às Cortes da Monarquia Constitucional Portuguesa, em 1878, integrado nas listas do meu partido.

- A vossa colaboração em periódicos foi intensa e começou cedo.

- Quando ainda nos Açores, fui redactor do jornal “A Ilha”, de Ponta Delgada, e colaborei com outros periódicos da ilha de São Miguel, entre os quais os “O Meteoro” e ”O Santelmo”. Já no continente e a partir de 1880, passei a colaborar com a revista “Era Nova”, de que fui diretor. Depois, foi um nunca mais acabar, ao longo da vida, num sem número de jornais e revistas. De entre elas, merece referência a “Revista de Estudos Livres” (1883-1886), onde colaborei em parceria com Teixeira Bastos, um meu antigo aluno no Curso Superior de Letras, que foi um dos principais divulgadores do positivismo em Portugal.

- É verdade que antes de serdes Presidente da República, fostes deputado à Cortes monárquicas ?

- É verdade. Em 1 de Janeiro de 1910, eu era membro efectivo do directório político do PRP, ao lado de outros camaradas, e a 28 de Agosto desse mesmo ano fui, de facto, eleito deputado republicano, por Lisboa, às ditas Cortes, mas não cheguei a exercer essa função porque, não chegou a dois meses, o “5 de Outubro” pôs fim à monarquia, e fez nascer a República Portuguesa.

- E logo aí, assumistes as elevadas funções de um verdadeiro Chefe de Estado?!

- Sim, mas não como Presidente da República. Logo no dia seguinte, a 6 de Outubro, fui nomeado presidente do Governo Provisório da República Portuguesa. O cargo de primeiro Presidente da República Portuguesa coube ao Dr. Manuel de Arriaga, eleito a 24 de Agosto de 1911.

- Foi então que chegastes a Presidente da República.

- Nunca esperei que isso me acontecesse. Digamos que dei por mim, como tal, aos 72 anos.

- Mar por muito pouco tempo.

- Foi um mandato de apenas quatro meses, de Maio a Outubro de 1915, logo substituído por Bernardino Machado. Quando Manuel de Arriaga, ao cumprir quatro anos de mandato, foi obrigado a resignar, na sequência da Revolta de 14 de Maio de 1915, acabei por ser eleito, pelo Congresso da República, duas semanas depois desse levantamento, mas, esclareça-se, como um presidente de transição.

- Não foi fácil o vosso mandato!?.

- Curto, mas cheio de problemas. Tudo concorreu para o dificultar, em especial a instabilidade política. Estávamos a aprender a viver em república e em democracia. Por outro lado, eu era um homem marcado pela viuvez, desde 1911, e pela perda dos três filhos. A verdade é que o exercício das funções presidenciais não estava na minha maneira de ser. Recusei ostentações e honras desnecessárias. Andei na rua como toda a gente, de bengala na mão ou com o guarda-chuva no braço e, como qualquer pessoa, usei o eléctrico como meio de transporte urbano.

- É publico que, findo o mandato, vos haveis afastado definitivamente da vida política.

- Sim. Foi logo que me libertei das responsabilidades da Presidência. Afastei-me deliberadamente da sociedade e tornei-me, então, um homem solitário. Dediquei-me obcessivamente à escrita e só parei no dia em que, sozinho, no meu gabinete de trabalho, a 28 de Janeiro de 1924, disse adeus a este mundo, em que não fui feliz. Até houve quem me considerasse um misógino.

- O reconhecimento pela vossa obra está patente na decisão de vos sepultar no Panteão Nacional, na Igreja de Santa Engrácia.

- Decisão, diga-se, tomada por um governo que não tinha grande estima pelos republicanos. Desde o meu falecimento, até 1966, o meu corpo repousou na Sala do Capítulo do Mosteiro dos Jerónimos. Só então, nesse ano de 1966, se procedeu, contra o meu gosto, à transladação solene, precisamente, no dia 5 de Dezembro. Como positivista e homem simples que fui, dispensava esse tipo de manifestações

- Antes do euro, como moeda oficial, tivemos uma nota de mil escudos com a vossa imagem.

- Foi impressa em 1983. Diga-se que esta homenagem e essa outra do panteão, revelam-me, contudo, que a memória que vos deixei, não se apagou com as mudanças de regimes, o que não me envaidece, mas muito me honra. 

A. Galopim de Carvalho

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Lançamento da revista ENTRELER


Falo a partir do minuto 17,52

TREINADORES ACADÉMICOS E NÃO ACADÉMICOS DE FUTEBOL

A auto-estima de José Jesus não académico do futebol chegou ao extremo de afirmar com a "imodéstia" do outro que dizia ser muito inteligente e muito modesto : "O meu grande objectivo é deixar marca portuguesa como o Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e por aí fora" (CM/TV, 17/07/2018). E julgava eu ingenuamente que tinha sido pelo "cachet" que iria ganhar em Terras de Santa Cruz!

Em contraste, afirmou o académico José Mourinho: “Seria sempre treinador de futebol, mas sem a faculdade seria assim-assim e nunca muito bom” (“Record”, 24/03/09).

O doutoramento honoris causa, pela Universidade Técnica de Lisboa do licenciado em Educação Física pelo ISEF/Faculdade de Motricidade Humana José Mourinho (1984) fez-me folhear páginas de recortes de artigos de jornais por mim escritos ao longo de várias décadas para neles rebuscar um tema que tem sido motivo de discussão pública.

Nessas páginas, encontrei fundamento para a evolução e teorização do actual futebol nacional que longe se afastou do tempo das chamadas “balizas às costas” por ser o que é hoje: uma indústria que faz correr rios de dinheiro e apaixona multidões de todo o mundo e o tornou matéria de estudo académico, como demostra a cerimónia que serve de título a este texto.

Décadas atrás, Carlos Miranda, ao tempo director de A Bola, ao escrever que “Carlos Queirós é um caso de predestinação comparável a Mozart” (que, como se sabe, aos quatro anos já tocava cravo e aos cinco ensaiava os primeiros passos da composição) deu o mote a uma discussão que corre o risco de se eternizar. A razão parece-me simples: nasce-se poeta e escritor, por exemplo. Mas não se nasce médico ou professor de Educação Física.

Sustento esta opinião no facto de na proliferação de licenciaturas por todos os escaninhos do país, numa girândola de matérias impensáveis há poucos anos atrás, não haver cursos universitários de Poesia e os melhores escritores portugueses não serem licenciados em Letras: Ferreira de Castro tinha a 4.ª classe do ensino primário, José Saramago o extinto curso industrial, António Lobo Antunes o curso de Medicina, etc., etc. Assim, de igual forma, nasce-se predestinado para a prática do futebol de alta competição (Carlos Queirós e José Mourinho foram-no só medianos), mas não se nasce treinador de futebol. E é essa confusão que tem retardado o progresso do futebol, uma arte e uma técnica hoje com foros de cidadania académica.

Mas esta discussão não é apenas dos dias de hoje. Do mundo distante de milénios das actividades corporais da Antiga Grécia chegou até nós a polémica entre práticos e teóricos. Segundo Galeno (célebre médico grego da escola de gladiadores, tido como pai da actual Medicina Desportiva), os treinadores troçavam das teorias dos professores de ginástica (pedótribas) e dos médicos sob o pretexto de que quando se não tem a prática do ofício não deve ser reconhecido o direito de discutir sobre coisas desconhecidas!

Como escrevi na altura, Severiano Correia, treinador e antigo jogador de futebol, já falecido, fez-se prosélito desta teoria ao subscrever parte da entrevista de Balmanya, então treinador do Bétis de Sevilha, em A Bola, e em que este “se mostrava muito surpreendido com o facto de o Sporting, para além de um treinador de futebol, também ter um preparador físico, situação que não compreendia, uma vez que o técnico deve ser o único responsável por toda a orientação da equipa” (“Tribuna”, Lourenço Marques, 05/03/64).

Por sempre ter defendido a necessidade de ser um professor de Educação Física a ministrar a preparação física das equipas de futebol (e das outras modalidades desportivas), da resposta que me mereceu esta provocatória opinião, respigo: “Ainda recente, o caso até de um treinador de futebol que, pela experiência de 30 anos, reduz à expressão mais simples os conceitos laboratoriais da Medicina Desportiva e da Metodologia do Treino” (“Notícias da Tarde”, Lourenço Marques, 06/03/64). Reacendia-se uma polémica tendo como protagonistas professores de Educação Física, médicos de Medicina Desportiva e treinadores de futebol!

Anos volvidos, ao ler na imprensa que, numa reunião do Sindicato Nacional de Treinadores de Futebol, fora levantado o problema dos técnicos de Educação Física orientarem a preparação técnico-táctica das equipas profissionais de futebol (a preparação física tornara-se já matéria de consenso), não pude deixar de intervir nesta matéria, escrevendo: “Claro que quando um bacharel em Educação Física [de posse do então curso médio de instrutores de Educação Física] nos dá conta de muito ter aprendido, no aspecto da preparação física, com um treinador de futebol, ainda que de gabarito, mas sem preparação académica escolar, todas as conclusões, a partir daqui, são possíveis: até a de considerar exercício ilegal de profissão o facto de um licenciado em Educação Física treinar uma equipa de futebol” (“Jornal Novo”, 15/01/77).

Contrariando os que julgaram ver no futebol uma actividade profissional em que os antigos jogadores de futebol, agora treinadores de futebol, seriam os seus teorizadores, seguiu o desporto-rei a evolução dos outros domínios do saber, reconhecendo a vantagem de uma formação superior para os respectivos agentes.

Assim, numa primeira fase (ou fase empírica) o futebol esteve entregue a práticos, antigos jogadores de nomeada com cursos de treinadores de fim-de-semana (ou pouco mais), merecedores de gratidão porque cabouqueiros do actual futebol português, de que é justo realçar os nomes de Pedroto, Tony ou António Oliveira, por exemplo. Numa segunda fase (ou fase pré-científica), surgiram os então instrutores de Educação Física, Henrique Calisto e Hernâni Gonçalves. Na fase actual ou terceira fase (fase científica), aparecem, entre outros, os teóricos de formação superior em Educação Física (com ou sem a recente “Opção de Futebol”), Carlos Queirós, Jesualdo Ferreira e Carlos Carvalhais.

Consequentemente, não posso deixar de subscrever a opinião categorizada de Joseph Blatter, então secretário-geral da FIFA, quando afirmou que “Carlos Queirós e os seus jogadores praticam o verdadeiro futebol do futuro” (“A Bola”, 23/06/91). Todavia, o messianismo de um super-treinador, capaz de tudo vencer, é carga demasiado pesada para os frágeis ombros humanos, ainda que musculados com os mais altos graus académicos ou títulos honoris causa universitários. Ora, como se leu, em letra de caixa alta, e em título de reportagem in’ “O Jogo” de 24/03/09, “o doutor Mourinho também é humano”. E, como tal, sujeito a errar, como ele próprio humildemente reconhece (ibid.): “Estou disposto a trabalhar o jogo até à exaustão, a perder horas e horas. A ideia é a de tentar reduzir a imprevisibilidade do jogo”, explicando que nunca o conseguirá fazer na totalidade uma vez que “há sempre uma bola que vai ao poste ou um jogador que comete um erro” (a que eu acrescento um imponderável não menor: o árbitro que desvirtua o resultado dos jogos deliberadamente ou não). Não é a bola redonda havendo árbitros que não descortinam um palmo à frente do nariz?

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, A ADSE E O CORONA VÍRUS


“A não retroactividade das leis é o que distingue a civilização da barbárie"
(Augusto dos Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros do Partido Socialista ).

Sinto-me  desiludido com o presente e sem esperança no futuro, num tempo  em que o lucro fácil e imoral é a mola real que impulsiona a vida de certos estratos da sociedade portuguesa, mas também sei, a exemplo de Millôr Fernandes, dramaturgo, escritor e jornalista satírico brasileiro, que “acabar com a corrupção é o objectivo de quem ainda não chegou ao poder”. 

Pela força das circunstâncias, em tempo de corona vírus, regresso a uma carta por mim escrita ao Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa tendo-a redigida na esperança, que hoje sei ter sido ingénua, de que ele, como mais alto magistrado da Nação, com o fervor público pelos princípios da moralidade cristã em proteger os velhos e doentes, intercedesse num caso de barbárie em que houve retroactividade da lei, nunca para que, em falta de respeito, pretendesse fazer desta personagem simples caixa de correio. Mas foi o que aconteceu por má interpretação de zelosos burocratas?

Nessa carta escrevi:

“Excelência:

Auferindo minha mulher uma pequena pensão da Segurança Social [por ter sido minha sócia num Ginásio de Recuperação Física], de cerca de metade do ordenado mínimo nacional, após 12 anos contributivos, em ofício datado de 17 de Outubro de 2016 da ADSE, é ela informada da inviabilização da respectiva manutenção de cônjuge de beneficiária titular, com suporte na disposição do art.º  7.º do Decreto-Lei 118/83, de 25 de Fevereiro, na redacção do Decreto-Lei n.º 234//2005,de 30 de Dezembro. Consumava-se, assim, a retroactividade da lei  tida, em epígrafe, como barbárie por Augusto Santos Silva.

Em 2 de Dezembro de 2016,”ipso facto”, endossei uma exposição à ADSE em que apresentei um relatório médico, emanado do Centro de Reabilitação Rovisco Pais, atestando a sua “necessidade de vigilância médica e tratamentos médicos contantes por tetraplegia incompleta  secundária a mielomalacia. Reportava-se se a essência da questão supracitada em saber se esta determinação se aplicava, apenas, a futuras inscrições sem efeitos retroactivos, não abrangendo, consequentemente, o caso de minha mulher  inscrita na ADSE,  desde o ano de 1975  na sua qualidade de cônjuge de benificiário titular.

Embora reconhecendo a minha falta de conhecimento em evocar direitos adquiridos, na  área da jurisprudência, como tal, apenas como amador (aquele que ama), em matéria tão complexa e controversa entre os próprios especialistas, mas, por outro lado, sentindo o desconforto de expectativas criadas e depois goradas numa altura da vida “com pesares  que ralam na aridez e  secura de uma desconsolada velhice”, em citação de Garrett, recuso-me a cruzar os braços perante uma situação que mereceu da minha parte acerba crítica em quatro artigos de opinião publicados no jornal [ “Diário as Beiras”], a saber: A ADSE e as gorduras o Estado” (05/11//2016); “O Partido Socialista a ADSE e a ´praga cinzenta’” (14/09/2017); “A ADSE e o soberaníssimo bom senso’ preconizado por Antero”; “O ziguezaguear a ADSE” (17/10/2017”).

Fazendo eu fé de que “o homem livre é quele que não receia ir até ao fim da sua razão” (Jules Renand), predispus-me em escrever esta “Carta Aberta” a Vossa Excelência, com respaldo no vosso humanismo em defesa dos que sofrem, para lhe dar conhecimento público da injustiça representada pela impossibilidade de inscritos na ADSE continuarem com o estatuto de cônjuges de beneficiários de titulares na parte derradeira das suas vidas.

Desde a publicação desta legislação até à sua aplicação mediaram 33 anos, quiçá, pelo receio dela poder vir a ter reflexos negativos em posteriores eleições nacionais, até que em euforia do estado de graça do Partido Socialista, foi ela despertada do seu estado de letargia despejando para um Serviço Nacional de Saúde,  a rebentar pelas costuras, nova “clientela” originária da ADSE. E este “status quo” é tanto mais insólito por não se tratar de acudir com urgência a uma ADSE em declarada falência. Bem pelo contrário, uma auditoria recente do Tribunal de Contas denunciou que o Governo está a financiar à custa da ADSE por os funcionários públicos estarem a pagar mais 228 milhões de euros do que seria necessário” (“Expresso”, 17/07/ 2015). No dia seguinte, noticiava o semanário “SOL”(18/07/2015) haver doentes que têm de recorrer a consultas privadas de Dermatologia  por elas poderem levar anos a ser feitas no Serviço Nacional de Saúde.

O que constatamos hoje? Com o título, ”Tutela falseou tempos de espera nos hospitais” foi noticiado que o acesso a consultas e cirurgias piorou nos últimos três anos e que, entre 2014 e 2016 , mais de 27 mil doentes ficaram em lista de espera  por uma cirurgia e mais de 2600 morreram antes de serem operados (“Público”, 18/10/2017). “Ergo”, quantos ex-cônjuges de beneficiários titulares terão que entregar a alma ao Criador por serem vítimas desta calamitosa situação numa altura em que o Conselho Geral de Supervisão da ADSE se limita a debitar publicamente, depois de numerosos conciliábulos, o agravamento draconiano da idade de 65 para 60 anos como data limite para inscrições de novos cônjuges deixando em dúvida se a exclusão  de inscritos, em data anterior à publicação da legislação em causa, é para se manter.

E se for esse o caso, responsabilizar os seus autores por depressões graves em velhos e doentes, em grande sofrimento por esta epidemia do nosso tempo que reforça o conselho do médico psiquiatra brasileiro Augusto Cury: “Nunca desprezes as pessoas deprimidas. A depressão é o último estágio da dor humana”.

Finalmente, por considerar que se trata de importantes questões de natureza social por atingirem pessoas velhas e doentes, por vezes, em situações, como soe dizer.se, em que se vão os anéis para ficarem os dedos, “no uso da licença e da liberdade de quem não pede favor senão justiça”, como foi hábito de vida do padre António Vieira, submeto estas considerações à consideração de Vossa Excelência.

Respeitosamente, 

Rui Vasco Júlio Pereira da Silva Baptista”.

Em boa verdade, vos digo leitores que escrevi esta carta na esperança ingénua de que Marcelo Rebelo de Sousa  no seu declarado fervor pelos princípios da moral e caridade cristãs intercedesse num litígio que encontra causa no corte de direitos anteriores a familiares dos seus beneficiários, nunca, por nunca, em desprimor do seu estatuto de mais elevado magistrado da Nação, fazendo dele simples mensageiro ou caixa de correio de uma missiva que lhe era dirigida, mas que não lhe terá chegado às mãos por ter ficado retida em gavetas não interessadas nisso. Mas foi o que terá acontecido ficando eu na dúvida se zelosos  burocratas quisessem que ela não seguisse o seu caminho  até ao seu destinatário.

Desgostoso com tudo isto, escrevi um derradeiro artigo de opinião em que prometia retirar-me deste contencioso entre o Estado e um simples cidadão, nunca, por nunca ser, por me considerar “um vencido que se retira, mas um  enfastiado que se safa “ (Eça). No caso presente, além de enfastiado, revoltado “em frente desta gente, ignorante pisado como a pedra do chão, humilhada e calcada”, em versos de uma poetisa em luta contra todas as injustiça deste mundo cão, de seu nome Sophia  de Mello Breyner.

Mas  hoje,  em que o corona vírus  ampliou, com as lentes de microscópio, a desgraça deste "status quo" tornarem-se as minha palavras,  numa espécie de profecia  do pandemónio que assola a Saúda Portuguesa previsível, mas a que o Partido Socialista fechou os olhos. Acreditai leitores em Jorge de Sena quando nos diz “que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais do que uma vida ou a alegria em tê-la”. A ADSE,com medidas estapafúrdias, para não lhes chamar estúpidas ,muito contribuiu para que antigos beneficiário por si  expulsos, possam aumentar o número de doentes velhos desafortunado tidos  como trapos velhos  lançados para o terreno das cruzes ou crematórios por um passado em que deixarem de ter cuidados de saúde humanizados e prestimosos.

Esta é a verdade nua, crua e cruel  que deveria   atormentar os governantes de remorsos  em que fortes e fracos,  gente ilustre ou modesta, rica o pobre é igualizada  por um vírus que tomou conta do mundo conseguindo a utopia de um mundo socialista que todos prometia igualizar mas que a realidade do universo comunista, cada vez mais decadente, desfalcado e falso, demonstrou tratar-se de um enorme mentira comprovada pelos seus dirigentes que chamam a si todas as riquezas e benesses qual rio caudaloso que comporta com todos os bens e favores para a classe dirigente sem comportas de distribuição equitativa. Esta outra verdade nua, crua e cruel!

P.S.: Discriminatório, seria eu não mencionar o papel de Carlos Liberato Baptista em todo este relambório, corriam então de feição os ventos para a ADSE que viraram repentinamente  para um verdadeiro vendaval por as receitas não cobrirem as receitas: “A ADSE  gastou mais 40 euros por beneficiário em 2017. A despesa com cuidados de saúde disparam e ameaçam contas do sistema”. Passou-se, como tal, do estado de graçaao estado de desgraça! (“Público”, 10/05/2018). 

Em face disto, em vez de  solucionar o problema com o fortalecimento do Serviço Nacional de Saúde, o Estado aciona novas convenções, por vezes, para satisfazerem um mercado não carenciado.

Finalmente, é anunciado o pedido de demissão de Liberato Baptista alegando ele razões pessoais (“Público”, 02/05/2018) contraditado pelo anúncio público de que “Governo e beneficiários querem esclarecer eventuais dúvidas sobre a gestão de Liberato Baptista”. Era o fim de uma época, continuada por Sofia Portela, antiga vice-presidente da ADSE, três meses depois, dando aso a que numa  casa desarrumada  o  lixo pudesse ser varrido para debaixo do tapete em dias de visitas  de cerimónia para  que o anfitrião a possa  apresentar a olhos indiscretos limpa, arrumada, bem cheirosa e com as pratas da casa a brilhar nos escaparates!

domingo, 8 de novembro de 2020

Olga Pombo vai estar em directo nas palestras "Ciência às Seis" no Rómulo


Tema: "
As imagens com que a ciência se faz" por Olga Pombo

Hora: 10 nov 2020 06:00 PM Lisboa
Entrar na reunião Zoom
https://videoconf-colibri.zoom.us/j/85719374774?pwd=eFZYOXB6ZjN0U2xib2piVFZJc1RaUT09
ID da reunião: 857 1937 4774
Senha de acesso: 812782

Evento criado no Facebook e no Site

Realiza-se na terça-feira, dia 10 de Novembro, pelas 18 horas, a palestra intitulada "As imagens com que a ciência se faz", inserida no novo ciclo  “Ciência às Seis! (temporada 5)”, com a coordenação de Carlos Fiolhais e colaboração de António Piedade. O evento on line destina-se a todo o público.  Será palestrante Olga Pombo, Professora jubilada da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Para aceder à sessão via zoom bastará entrar no evento criado no Facebook e no Site:

https://videoconf- colibri.zoom.us/j/85719374774?pwd=eFZYOXB6ZjN0U2xib2piVFZJc1RaUT09
ID da reunião: 857 1937 4774
Senha de acesso: 812782

Resumo:

As ciências sempre fizeram imagens. Desde a geometria grega que o destino da ciência se cruza, não apenas com a palavra escrita, mas também com o delinear da figura, com o desenho da forma, com a configuração do espaço. Também hoje as ciências continuam a fazer-se de e com imagens que elas mesmas produzem. Imagens cada vez mais sofisticadas, que envolvem processos de produção sempre novos que a ciência mesma vai tornando possíveis. 

Imagens que, ontem como hoje, estiveram sempre lá, não apenas para comunicar a outros um saber já constituído, não apenas para tornar fácil o que é difícil, para dar a ver o que já se sabe, mas - suspeitamos nós - para contribuir, de forma decisiva, para a constituição desse saber, para compreender o que sem elas não se compreenderia.

Todos olhámos, mas nunca vimos, as imagens com que a ciência sempre se fez. Como se elas não estivessem lá. Pretendemos contrariar este alheamento, esta espécie de desatenção face ao lugar das imagens em ciência. Que funções lhes são atribuídas? Que papel desempenham?

Biografia:

Olga Pombo foi investigadora principal de vários projectos científicos e investigadora associada de diversos projectos internacionais desenvolvidos, por exemplo, pela Université de Lille III (França), Hebrew University of Jerusalem (Israel) ou Centre for the Studies of the Sciences and Humanities da University of Bergen (Noruega). Organizou ou co-organizou dezenas de eventos científicos, nacionais e internacionais.

É membro fundador da “Société de Philosophie des Sciences” (Paris) e membro de várias sociedades científicas, nacionais e internacionais. Fundadora e directora, desde 2010, da revista científica “Kairos. Journal of Philosophy & Science”, publicado pela De Gruyter, é autora e editora de numerosas publicações nacionais e internacionais sobre Leibniz, Filosofia da Ciência (unidade da ciência, interdisciplinaridade, epistemologia, imagem cientifica, ciência e arte, Poincaré, Neurath, Bachelard), mas também sobre Enciclopedismo, Hypertexto, Filosofia da Linguagem (Hobbes, Spinoza, Rousseau, Hegel) e Filosofia da Escola.

É actualmente, membro do conselho científico do “Réseau National des Maisons des Sciences de l’Homme” (Paris), do “Centro di Studi sulla Natura, l’Umano e l’Unità del Pensiero” (Roma), do conselho consultivo da “International Association for the Study of Controversies” e da comissão de honra do ”Plano Nacional de Leitura”.

Livros publicados:

Olga Pombo escreveu um elevado número de títulos dos quais se destacam:

Olga Pombo (2013), Tarefas da Epistemologia da Ciência para o século XXI. Lisboa: CFCUL.

Olga Pombo (2012), O Círculo dos Saberes. Lisboa: CFCUL/Gradiva.

Olga Pombo (2010), Palavra e Esplendor do Mundo. Estudos sobre Leibniz. Lisboa: Fim de Século.

Olga Pombo (2006), Unidade da Ciência. Programas, Figuras e Metáforas. Lisboa: Editora Duarte Reis.

Olga Pombo (2004), Interdisciplinaridade: Ambições e Limites. Lisboa: Relógio d’Água.

Olga Pombo (2002), A Escola, a Recta e o Círculo. Lisboa: Relógio d’Água.

Olga Pombo (2000), Quatro Textos Excêntricos (Hannah Arendt, Eric Weil, Bertrand Russell e Ortega y Gasset). Lisboa: Relógio d’Água.

Olga Pombo (1987), Leibniz and the Problem of a Universal Language. Münster: Noduz Publikationen.


Os Cafés Históricos na Europa: O Seu Lugar na Sociedade


Do livro: Os Cafés Históricos como património Cultural: o Encontro" (Coimbra: Café Santa Cruz, 2020)

O ensaísta Georges Steiner escreveu em “A Ideia de Europa” (Gradiva, 2005):

 “A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo (…). Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da 'ideia de Europa'.”

No Ano Europeu do Património Cultural celebramos os cafés históricos como locais patrimoniais da cultura.

Portugal é, sempre foi, parte da Europa e a confirmá-lo está o facto de aqui existirem alguns dos mais belos cafés históricos – de que é exemplo o magnífico Café de Santa Cruz de Coimbra, que nos acolhe, hospitaleiro como sempre.

Steiner enfatizou o papel dos cafés como lugares de cultura: a ideia de Europa é eminentemente uma ideia cultural.

Em cafés como o de Santa Cruz, no encontro convivial das mentes que a cafeína se encarrega de estimular, fez-se, faz-se cultura.

Há não só uma História que liga os europeus, mas. também, enraizada profundamente nessa História, uma arte (que se espraia em diversas formas, que vão da literatura à música, passando pelas artes visuais e artes de palco) e uma ciência europeias, uma arte e uma ciência de que os cafés foram muitas vezes, na vida urbana, cenários propícios. Recordar o papel dos cafés europeus como lugares de cultura é também projectá-los para o futuro, porque a Europa só terá futuro se, com base na sua rica herança, alimentar um projecto cultural comum.

António Sousa Ribeiro, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Graça Índias Cordeiro, professora do ISCTE da Universidade de Lisboa, e Fernando Franjo, autor do livro “50 Cafés Históricos de España e Portugal”, são, como eu, frequentadores de cafés. Eles trazem-nos aqui os seus depoimentos sobre o passado, o presente e o futuro dos cafés, com base nas suas experiências à mesa dos cafés.

Os cafés continuam a ser locais de cultura, numa sociedade com novos meios de comunicação, designadamente à distância? A dinâmica social das cidades ainda passa pelos cafés?

Na sociedade de consumo o que pode levar os consumidores aos cafés? E o que é que eles podem de lá levar?

 Carlos Fiolhais, Professor de Física da Universidade de Coimbra

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Carlota Simões - A Viagem de Fernão de Magalhães

Jornalistas, cientistas e factos alternativos | Ciência às Seis online

E OS "DOENTES NÃO-COVID"?


Meu artigo no Público de hoje:

 "A doença atacou também a nossa língua. Ninguém repara no português lamentável que é dizer “doentes covid” e “doentes não-covid”? É como dizer “doentes gripe” e “doentes não-gripe” ou doentes “cancro” e “doentes não-cancro”. 

 Ontem, quando foi anunciado o número mais alto de mortos diários (59), ficou claro que estamos a viver o segundo surto da covid-19, uma situação semelhante à que se vive em Espanha, Itália e noutros sítios. No livro Apanhados pelo Vírus. Factos e mitos sobre a Covid-19 (Gradiva, no prelo), David Marçal e eu sumariamos o que hoje se sabe sobre a doença e combatemos a desinformação que campeia pelas redes sociais. A doença é grave não apenas pela sua transmissibilidade e letalidade, mas também pelas suas sequelas, sobre as quais se conhece muito pouco. E pela confusão que causa. Numa altura em que o Governo e o Presidente da República parecem confusos sobre o rumo a seguir – não ajuda o facto de não haver um corpo de conselheiros científicos independentes –, vale a pena reflectir, com base na melhor informação, sobre os doentes com covid-19 e também todos os outros. (...)

Disponível na totalidade só para assinantes:

REPENSAR A HISTÓRIA DE PORTUGAL

Entrevista exclusiva à revista do Círculo de Leitores e concedida em conjunto por Carlos Fiolhais, José Eduardo Franco e José Pedro Paiva – diretores de História Global de Portugal 

DESTAQUES

 Esta é «uma proposta de repensar a História de Portugal. […] a nossa esperança é que este nosso contributo ajude a repensar a complexidade histórica, e que isso entusiasme outros autores a aprofundarem algumas das linhas aqui sugeridas, gerando uma dialética frutuosa.» 

«[…] muitos processos históricos só têm cabal compreensão quando lidos à luz de dinâmicas transnacionais. Para serem bem percecionados exigem as noções de transferência, fluxo, relações entre espaços e tempos, e conectividade.» 

«A obra que agora saiu ao fim de um amplo esforço coletivo é, sem dúvida, pioneira. […] é a primeira a propor uma leitura integral de uma série de acontecimentos que refletem dinâmicas de receção e de difusão que não se podem perceber numa leitura exclusivamente nacional.» 


  Círculo de Leitores (CL) – A História era, como se lê na introdução da obra, «conhecida de forma bipolar», ou seja, «existíamos nós e os outros [...]. Nos casos mais extremos, a história nacional [...] era concebida e ensinada como uma realidade quase autónoma em relação à história do mundo.» No entanto, «a história global tem milénios, ao passo que a história das nações não tem mais que alguns séculos.» Parece-nos útil elucidar os leitores sobre esta nova abordagem do passado. Quando surgiu a história global? Como se pode definir e que importância tem para a nossa compreensão do passado e do presente? 

A história global é uma tendência historiográfica que despontou há 30 anos. Começou com a world history, adquiriu depois uma identidade conceptual, distinta da sua congénere anterior, nos anos 70, com o conceito de global history, conquistando depois um lugar institucional com o surgimento, em 2006, do Journal of Global History. Citando um recente livro do historiador alemão Sebastian Conrad, é «uma forma de análise histórica na qual os fenómenos, os acontecimentos e os processos são colocados num contexto global». Como esta obra deixa claro, muitos processos históricos só têm cabal compreensão quando lidos à luz de dinâmicas transnacionais. Para serem bem percecionados exigem as noções de transferência, fluxo, relações entre espaços e tempos, e conectividade. As fronteiras apareceram tarde – ainda que a portuguesa seja uma das mais antigas – e nunca estancaram a circulação de pessoas, ideias e bens. Elas foram mais porosas do que as histórias nacionais supuseram, sobretudo a partir do século XIX, quando se consolidaram os estados-nação. Para dar um exemplo: o primeiro rei dos portugueses era filho de um imigrante. 

CL – Não existia, ainda, no nosso país, uma análise da nossa História à luz dos Estudos Globais. Podemos afirmar que foi precisamente essa lacuna na bibliografia que esteve na origem do projeto? E avançar que esta nova síntese se trata, portanto, de uma obra pioneira em Portugal? 

A génese deste livro está ligada ao dinamismo do José Eduardo Franco, que se tem interessado por Estudos Globais. Viu aparecer uma história global de França, em 2017, que suscitou polémica naquele país, e pensou num projeto semelhante em Portugal. A ideia era excelente e foi logo acolhida. A obra que agora saiu ao fim de um amplo esforço coletivo é, sem dúvida, pioneira. Não que tenhamos sido os primeiros a pensar a história no território que é hoje Portugal numa perspetiva de história global. Mas ela é a primeira a propor uma leitura integral de uma série de acontecimentos que refletem dinâmicas de receção e de difusão que não se podem perceber numa leitura exclusivamente nacional. 

CL – A História Global de Portugal está organizada por textos, que «partem de um acontecimento criteriosamente escolhido pelos diretores da obra e pelos responsáveis científicos de cada uma das épocas.» Como se definem estes «momentos de charneira»?   E como se estabelecem os limites de análise, já que a interligação cronológica e territorial alarga os assuntos a estudar? 

De facto, essa foi uma das maiores dificuldades da nossa empresa. Ai residirá talvez o foco de polémicas que uma proposta desta natureza pode desencadear. Nas apresentações das partes em que se estrutura este livro, os coordenadores científicos das várias épocas históricas anteciparam essas dúvidas, explicitando que poderiam ter escolhido outros eventos também relevantes. 

A dimensão da obra forçou a escolhas. Os limites da análise espacio-temporal de cada tema dependem de múltiplos fatores, pelo que se deixou essa decisão aos diversos autores. Nalguns casos, os vínculos de encadeamento têm uma impressionante duração. Um exemplo talvez útil no atual contexto de uma pandemia é o da peste negra, do século XIV, também ela originária da Ásia. Teve surtos no nosso país até final do século XIX. Mas só com descobertas científicas ocorridas no século XXI é que se puderam desvendar as causas e efeitos desta doença. 

CL – Qual poderá ser o contributo desta obra para a reescrita da nossa História? 

A obra é uma proposta de repensar a história de Portugal. Fica bem claro que não é possível entender tudo o que por aqui se passou desde há cerca de 250 mil anos se nos encerrarmos em barreiras, de certo modo, artificiais. A construção apresentada realça como muitos dos fenómenos que foram contribuindo para a configuração de uma certa identidade deste espaço e das suas populações não germinaram aqui. Mas também houve processos que tiveram como primeiro palco este território e como protagonistas os seus habitantes, que contribuíram para transformações com impressionante impacte no mundo: houve processos de descoberta e de encontro de culturas, mas houve também marcas de brutal violência, como foi o caso da escravização maciça de populações sobretudo africanas. 

A nossa intenção não foi propor uma só leitura. Pelo contrário, a nossa esperança é que este nosso contributo ajude a repensar a complexidade histórica, e que isso entusiasme outros autores a aprofundarem algumas das linhas aqui sugeridas, gerando uma dialética frutuosa. 

Não se trata de uma «reescrita da História», pois esta pode remeter para a ideia de revisionismo do passado, mas sim de uma reanálise desse fascinante percurso que foi a vida das populações que durante vários milhares de anos habitaram este espaço no canto da Europa. O nosso contributo poderá ser o de lançar o debate sobre a relação entre Portugal e o mundo. Como é que o mundo nos moldou e como é que nós moldámos o mundo.

Coimbra e o Futuro II


Segunda parte do manifesto por Coimbra, publicado ontem pelo Diário de Coimbra; mais pormenores no post Coimbra Criativa 
(na foto a anquilosada Penitenciária plantada na Alta com manifesto prejuízo para a cidade e os cidadãos; esta é apenas uma das aberrações de uma Coimbra parada no tempo, que contrasta com a Coimbra pujante já visível nalguns aspectos, mas  bloqueada por provincianismo político):

Carlos Faro, Carlos Fiolhais, Fernando Seabra Santos e Gonçalo Quadros

Em texto anterior (“Coimbra e o Futuro I”) manifestámo-nos pela necessidade de dar um rumo diferente a Coimbra. Na construção do futuro de que Coimbra carece importa sobretudo não esquecer o óbvio: São sempre as pessoas que contam. Como indivíduos de uma comunidade solidária e inclusiva, a prossecução do seu bem-estar e da sua felicidade é a razão de ser de uma qualquer política pública moderna. Contrariando a situação do passado mais recente, os habitantes de Coimbra podem ser pessoas felizes numa cidade exemplar na capacidade de produzir riqueza e de disponibilizar emprego; uma cidade justa, solidária e inclusiva; um modelo do ponto de vista ambiental; um município na primeira linha da transição digital; e uma cidade em articulação equilibrada e fecunda com a sua região. Coimbra deve salientar-se na qualidade e igualdade de acesso aos serviços públicos de saúde e educação, ao trabalho e à cultura, ao desporto e ao lazer. Em especial, Coimbra tem de ser a extraordinária cidade de Cultura que pode ser e ainda não é.

Em todas estas vertentes, em articulação com grandes instituições da cidade como a Universidade, o Politécnico e o Centro Hospitalar, Coimbra tem de ser uma cidade criativa, aproveitando as suas enormes potencialidades humanas e materiais. Existem hoje oportunidades de investimentos públicos e privados, algumas alicerçadas pela União Europeia, que têm de ser aproveitadas. Para isso são precisas boas ideias e bons projectos: na rede de mobilidade, onde o impasse foi demasiado longo e onde as soluções que se anunciam poderão não ser suficientes, mas também nas infraestruturas empresariais, sociais, digitais, ambientais, sanitárias e culturais. Precisamos, por exemplo, de um grande processo de regeneração urbana na Baixa e de garantir o usufruto colectivo do rio Mondego – Coimbra criativa tem de emergir com esplendor a partir da sua Baixa e do seu rio. Precisamos, também, de uma estação multimodal com comboios de alta velocidade, uma estação sem o B de Coimbra-B, de um Centro de Congressos, melhor uso para o parque dos SMTUC que desbarata o nosso rio, e de uma Casa do Conhecimento, que nos liberte de vez da Penitenciária que nos prende a todos.

Uma maior e melhor articulação do concelho com os concelhos vizinhos e com a sua região é fundamental: Coimbra, com toda a região Centro, tem de contar no País. No quadro actual e futuro, e contrariando práticas que têm sido infelizmente usuais, faz mais sentido a cooperação do que a competição - a região tem de falar a uma só voz. Propomos uma articulação permanente com os outros municípios da região de Coimbra e uma aproximação às expectativas de Aveiro, Leiria, Viseu e Guarda, com vista à consolidação de estratégias aglutinadoras. Reforçando a participação e juntando vontades para a prossecução de fins comuns, será por todos compreendido e por todos aceite que um núcleo mais forte, desde que atento às necessidades e expectativas dos outros, é uma condição de sucesso para o conjunto.

Coimbra é de todos e, com a ajuda de todos, tem de ser mais de todos. Coimbra é do País e do mundo. Coimbra precisa mais do que nunca dos seus cidadãos e de construir com eles uma visão arrojada e inovadora. Precisamos de um futuro de desenvolvimento para o nosso concelho e, portanto, para o nosso país. Precisamos de uma Coimbra Criativa.

Coimbra e o Futuro I

 

Manifesto por Coimbra publicado no Diário de Coimbra no domingo passado:

Carlos Faro, Carlos Fiolhais, Fernando Seabra Santos e Gonçalo Quadros

Coimbra é uma cidade intimamente associada à História do País e detentora de uma marca prestigiada no mundo. Cada edifício tem um passado, cada rua conta uma história, cada canto evoca uma lenda. Estando assegurado o passado de Coimbra, é responsabilidade colectiva dar-lhe um futuro. É a nossa visão de futuro que queremos partilhar com os nossos concidadãos.

É uma visão de uma Coimbra cosmopolita, vibrante, ambiciosa, capaz de criar e de aproveitar as oportunidades que se lhe oferecem, e de ombrear, ou mesmo ultrapassar, com as cidades da mesma dimensão mais desenvolvidas do país e do mundo. É uma visão de progresso e modernidade que queremos partilhar e construir com as pessoas de Coimbra: as que cá nasceram, cá viveram, ou cá vivem, ou aquelas que, estejam onde estiverem, se sentem de alguma forma ligados a ela.

Orienta-nos um conjunto de ideias-força: fixação de empresas e criação de emprego; justiça social, inclusão e participação; bom uso dos recursos naturais; e digitalização e universalização de serviços ao cidadão.

É preciso em primeiro lugar criar riqueza fixando e atraindo talentos: Coimbra tem de ser competitiva e desenvolvida. Em Coimbra, a população de estudantes do ensino superior esconde uma crise demográfica séria. Muitos jovens deixam actualmente a cidade quando concluem a sua formação, pelo que uma política de retenção e atracção de população jovem é imperiosa. É preciso investimento que traga à cidade futuro para esses jovens. A actual pandemia acelerou a transição para o mundo digital, antecipando uma evolução inexorável. As empresas apostarão cada vez mais em políticas de teletrabalho. Se, no passado, Coimbra falhou na captação de iniciativas empresariais, no futuro tem uma oportunidade de ouro de garantir o regresso de quadros ligados à cidade por laços familiares ou afectivos.

 

A crise pandémica trouxe-nos tempos difíceis do ponto de vista económico e social: hoje é ainda mais evidente que Coimbra tem de ser solidária e inclusiva. Nenhuma comunidade moderna atingirá a plenitude com as desigualdades económicas e sociais que Coimbra, infelizmente, ainda exibe. São precisas políticas de erradicação da pobreza com particular foco nos mais jovens e nos mais idosos. O direito à habitação digna tem de ser assegurado. São precisas medidas corajosas de combate ao desemprego e ao emprego precário, à desnutrição e à solidão. Solidariedade, inclusão, justiça social e democracia devem ser pilares maiores de uma política de desenvolvimento.

Enfrentamos hoje o grave problema das alterações climáticas, que não podemos deixar, sem mais, às novas gerações: Coimbra tem de ser verde e ambientalmente responsável. A solução das questões globais começa no contexto local: a boa qualidade da água, do solo e do ar, o combate ao desperdício e a boa gestão energética têm de ser asseguradas. É nossa obrigação garantir que os sonhos e ambições dos nossos filhos e netos não sejam destruídos ou limitados pelas nossas acções ou omissões. Um desenvolvimento sustentável implica também uma mais harmoniosa ligação entre o centro urbano e a periferia.

Um bom acesso à Internet é hoje condição indispensável de desenvolvimento: Coimbra tem de ser digital e eficiente. É indispensável a cobertura total do concelho em fibra óptica, assim como uma cobertura de wifi em espaços de grande circulação. Coimbra deve ter os melhores serviços públicos do País, garantindo o investimento para a sua ampliação, modernização e universalização. Escolas, Serviços de Saúde, Serviços Camarários e Serviços Municipalizados, têm de se destacar pela sua qualidade e apostar numa relação próxima com os cidadãos. É necessário criar a rede que caracteriza as cidades inteligentes, de modo a assegurar a melhor funcionalidade dos serviços e uma gestão moderna do município. Usando recursos digitais ir-se-á mais longe no combate a lentidão e à burocracia, e ganhar-se-á na rapidez, facilidade e conveniência dos serviços às pessoas.

Coimbra tem futuro: é só querermos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

FEIRANTES E SUPERMERCADOS


Horas atrás, num comentário na Net sobre a proibição da realização de feiras e, em “revanche", de igual medida para os supermercados, escrevi este texto/resposta que reproduzo abaixo:

“As feiras, de uma forma geral, realizam-se uma vez por semana e não vendem os restantes alimentos dos supermercados: carne, peixe, produtos de desinfeção e limpeza de casas, etc. Por outro lado, pessoas doentes e/ou deficientes tendo que pedir a familiares que trabalham para o fazerem por elas,  essas pessoas terão dificuldades para conciliarem os seus horários com as horas em que as feiras estão abertas. Ou seja, tentar defender um ponto de vista em detrimento de outro não me parece medida acertada.

Para mais, sabendo-se que os supermercados dão trabalho a muitos milhares de pessoas, este o meu ponto de vista: defendam-se os feirantes sem prejudicar os empregados das grande superfícies. Os dados desta discussão estão lançados por mim que não sou feirante, empregado de supermercados e, muito menos, proprietário de grandes superfícies podendo ser havido, se tal acontecesse, suspeitosamente, advogado em causa própria. Seja como for, um mal não se resolve com outro mal, mas com o soberaníssimo bom senso de que nos falou Antero de Quental!”.

Fui ontem surpreendido pelo desnorte das medidas tomadas por um Governo tipo catavento que diz e se diz com a mesma facilidade de quem, sedento, bebe um copo de água. De entre essas medidas, a que me reporto no meu texto acima, esta entidade que tem as rédeas do poder nas mãos , segundo notícia do “Observador”, resolveu recuar, passando tudo a estar como dantes, ou seja, citando um dito popular: “Quartel em Abrantes tudo como dantes”.

A pitonisa consultada pelo Governo, que aconselhou esta entidade a resolver este imbróglio, foi a directora-geral  do Ministério da Saúde, Graça Freitas, que habitualmente de parceria com a ministra da Saúde, Marta Temido, quando entrevistadas em conjunto fazem-me lembrar, o Senhor Feliz” e o Senhor Contente”, respectivamente Herman José e Nicolau de Melo Breyner, que anos atrás, fizeram na televisão parte do imaginário popular.

Ao que se diz oficialmente,  têm sido tomadas medidas de contenção que as estatísticas deveriam confirmar, mas não confirmam por mais que se manipulem os dados para lhes dar  o ar de honestidade. Para o efeito, seria necessário recorrer à realidade dos factos que se confina em meninas e meninos a rodopiar cabeças tontas em festas de formatura ou aniversário com um número proibitivo de participantes. Em nome da verdade é imperioso que toda a gente e, muito mais, quem tem em mãos o combate estrénuo entre a vida e a morte nesta epidemia que virou pandemia ou mesmo pandemónio, prevenisse  em vez remediar,  tendo, como tal,  a prevenção como  desígnio nacional que não se compraz com governantes desgastados e  desorientados pelo insucesso.

Nova gente (não confundir com gente nova e  sem experiência ) numa altura de evidente crise económica que não pára de crescer, mas como costumo dizer, julgo que em paternidade minha, para "serrarem serradura", é desastre estrondoso porque crendo em Stephen Covery, “se continuarmos a fazer o que estamos a fazer continuaremos a consegui o que estamos a conseguir”!

E a hora não é de simples blá-blá em reuniões de urgência entre o Presidente da República e o Primeiro-ministro, mas da sua reunião de emergência com o  Governo  em peso! E com todos os partidos políticos com representação na Assembleia da República porque viajamos todos num mesmo gigantesco barco em perigo de se afundar por desvios traiçoeiros de rota com timoneiros que discutem o sexo dos anjos com um Orçamento de Estado que deveria incidir prioritariamente no combate ao corona vírus que se poderá tornar numa espécie de icebergue que afundou o "Titanic" enquanto os passageiros valsavam nos seus sumptuosos salões.

Em tempo de guerra não se limpam armas, combate-se! Em tempos de pandemia não se discutem linhas de comboios de alta velocidade entre Lisboa e o Porto, tomam-se todas as possíveis medidas em evitar a devastação das respectiva população nacional e a falência da economia nacional com o sistema financeiro quase exaurido, com imenso número de mortos  e sem certezas sobre o seu términus! 

Aquando do grande Terramoto de Lisboa (1755), um político de acção e não de inacção,  o Marquês de Pombal, teve uma frase lapidar que ficou na História: "Enterrem-se os mortos e cuide-se dos vivos!" Tomam-se, hoje em dia, medidas profiláticas sobre o enterro dos mortos para evitar a propagação viral, enquanto as medidas em defesa dos vivos permanecem numa espécie de letargia que vive em paz consigo própria!

LANÇAMENTO DA HISTÓRIA GLOBAL NO PORTO NA QUARTA -FEIRA COM TRANSMISSÃO GLOBAL


Convidamos para o lançamento da História Global de Portugal,
dirigida por Carlos FiolhaisJosé Pedro Paiva e José Eduardo Franco,
numa edição do Círculo de Leitores/Temas e Debates.

A presente sessão decorrerá dia 4 de novembro, pelas 18h00,
no Salão Nobre da Reitoria da Universidade do Porto.
Inscrições para participar presencialmente: catedraestudosglobais.ceg.uab@gmail.com.
(Decorrerá também em simultâneo via Zoomhttps://videoconf-colibri.zoom.us/j/84086194888)

A apresentação estará a cargo dos historiadores Inês Amorim e Jorge Flores.

Convidamos vivamente à participação e agradecemos ampla divulgação.

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Para conhecer desde já um pouco mais a presente obra:
- João Miguel Tavares apresenta a História Global de Portugal no programa Governo Sombra (ao minuto 1'10):

Ciência às Seis (online): Os pais dos plásticos e do Nylon, pela química e escritora Raquel Gonçalves-Maia.


D
ia 3 de Novembro, às 18h, realiza-se via plataforma Zoom, a palestra intitulada "Química Industrial: Baekeland e Carothers” com a Professora Raquel Gonçalves-Maia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Sessão inserida no ciclo Ciência às Seis, iniciativa do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, com a coordenação de Carlos Fiolhais e António Piedade, neste semestre em formato Digital 

Destinada ao público em geral, a sessão é de participação livre e não necessita de inscrição.

Entrar na reunião Zoom
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"Química industrial: Baekeland e Carothers"

Chamamos químicos a produtos químicos como o plástico e o nylon, que invadiram o mundo, mas químicos são, de facto, as pessoas que trabalham em química e que desenvolvem novos produtos químicos. Baekeland são dois dos nomes mais influentes da Química Industrial. Leo Baekeland (1863-194) foi o químico e empresário belga, que é chamado o “pai dos plásticos” A baquelite, que desenvolveu nos Estados Unidos, vem do seu nome. Por seu lado, Wallace Carothers (1896-1937) foi um químico norte- americano, que trabalhou para a empresa Dupont, que inventou o nylon. Apanhado por uma depressão profunda, suicidou-se pouco antes do nascimento de uma sua filha.

BIOGRAFIA SUMÁRIA :

Raquel Gonçalves-Maia, química por formação mas renascentista por vocação, é Professora  da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Tem trabalhado a Ciência, a História da Ciência, a Filosofia da Ciência e estabelecido pontes entre a Ciência, a Arte e a Literatura. Tem numerosos livros publicados, em particular, uma série, em Portugal (na editora Colibri)  e no Brasil, de biografias de químicos famosos.

Para mais informações:

RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Maria Manuela Serra e Silva

Telefone – 239 410 699

E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com



"Apresentações Orais: boas e más práticas": apresentação oral de Luís Adriano Oliveira no RÓMULO

domingo, 1 de novembro de 2020

As Fouxas e Complacentes Medidas no Combate ao Corona Vírus

As frouxas e complacentes medidas tomadas pelo Governo no combate ao corona vírus não param de surpreender pela negativa. Das coisas que mais contribui para incubadora  deste vírus, ao que se diz,  é a  aglomeração de indivíduos em multidões.

 Neste torrão natal, assistiram-se, por exemplo, a estes funestos acontecimentos no abrir do pano do palco com a “Festa do Avante”, e porque o precedente abre caminho a novos caminhos, a que outros se seguiram. Os mais recentes, a corrida de carros Fórmula 1 a roncar pelas pistas do  Estoril com devotos das velocidades e as ondas gigantes da Nazaré com a assistência dos seus imensos basbaques.

 Para  que o portuguesinho armado em valente desobedeça nada mais eficaz do que proibi-lo de qualquer coisa porque ele gosta de faze orelhas moucas às leis sem castigo efectivo permitindo a impunidade dos infractores. Isto já para não falarmos das meninas e meninos a rodopiarem  as suas cabecinhas tontas em festinhas de fim de curso ou de aniversário com um número despropositado de finalistas ou aniversariantes.

Continuarmos a fechar os olhos a este lamentoso estado de coisas é o mesmo que andar à chuva, ao vento e ao frio outonal ou invernoso  de corpinho ao léu e depois de ser vitimado por uma pneumonia tentar curá-la com uma simples aspirina e caldos de galinha enquanto a morte não chega vestida de negro com a sua foice numa das mãos!

Porque para grandes males grandes remédios, na  emergência desta mortal pandemia  só encontro um paliativo no cumprimento estrito de cidadania: cada um cada um nós  ser guardião da saúde pública. Ou seja, guerra sem quartel contra esta espécie de “serial killers”, porque a desobediência dos homens paga um preço muito elevado  quando atenta contra o sagrado direito das vidas humanas!