segunda-feira, 12 de outubro de 2020

OS SULCOS DO ROSTO

 

Publico esta minha foto tirada hoje nos meus 89 anos de idade por me fazer lembrar amigos que nesta mesma idade publicam no portal do respectivo facebook (ai esta minha ignorância informática, ou será frontispÍcio?), fotos saudosas dos seus vinte e poucos anos de idade!
Fazem-me eles lembrar aqueles vendedores ambulantes do Largo de São Domingues, em Lisboa, do meu tempo de juventude que, sob o selo de segurança das suas promessas de juras, a pés juntos e alto e bom som, ampliado por megafone, anunciavam: "Eu não estou aqui para enganar ninguém"! E com esta falsa promessa enganavam todo o mundo e arredores de papalvos!
Destarte aldrabona, vendiam frascos e frascos a carecas com com cabeças do tipo bola de bilhar, do famoso "Kuro" (se a memória me não falha, era este o nome do produto!) com o slogan: "Onde cai" Kuro cai Kuro e não cai cabelo", a que eu acrescentava baixinho para não ser ouvido pelo trapaceiro e por ele corrido à paulada: "Onde cai Kuro, cai Kuro e cai cabelo"!
Como o possível leitor poderá verificar, "in loco", mesmo sem Kuro o cabelo vai-me rareando. E porque o tempo não pára a minha foto actual, com os seus sulcos (rugas) na cara, mapeia a minha vivência com as suas vitórias (menos) e as derrotas (mais) que fui colhendo na minha vida, vivida em pleno sem artimanhas de estar de posse de um elixir que faz parar o tempo tornando-me dono, com tal, de um fortuna de fazer inveja aos políticos e deputados que enxameiam este Portugal que se diz socialista sem se preocupar com os seus pobres, os seus reformados, os seu velhinhos, as suas crianças que vão para a cama com fome; e sei eu lá que mais!
Este "sei lá que mais" deixo ao cuidado do leitor, para consulta num cardápio, passe a redundância de vergonhas vergonhosas!!
P.S.: Eu que me tenho de direita, por vezes, dou comigo a conversar com um amigo de esquerda dando nós, a certo momento de uma conversa civilizada, a dizer um para o outro: "Eu no meio desta confusão pareço de esquerda e você de direita", e vice-versa! Estou em crer que esta aparente confusão nasce do facto de sermos iguais a nós próprios num país de conveniências e conivências ocasionais!

PLANTAS EM RISCO DE EXTINÇÃO

A conferência de divulgação dos resultados finais do projeto «Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental» (POSEUR-03-2215-FC-000013) realiza-se no próximo dia 13 de outubro de 2020, na Fundação Calouste Gulbenkian (auditório 2), em Lisboa. 

Será apresentado o livro, que contém as fichas das 381 espécies ameaçadas de extinção e das 19 espécies extintas. A publicação integra-se na coleção «Botânica em Português» da iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa no âmbito da distinção de "Lisboa como Capital Verde Europeia 2020". 

A lotação do auditório será reduzida. O evento será gravado e poderá ser acompanhado em direto por videodifusão (live streaming).

Mais informações (aqui)

O ensino ao ritmo humano

Dizem Maggie Berg e Barbara K. Seeber que o livro que publicaram, com o título The Slow Professor. Challenging the Cuture of Speed in the Academy, não visa só apresentar um problema e transformar um sistema.

O problema está bem identificado: os professores e (acrescentamos nós) outros tipos de profissionais cuja acção depende da elaboração do pensamento, vêem a sua tarefa principal, aquela para a qual foram formados, a desaparecer numa infinidade de solicitações parcelares, repetitivas, burocráticas, tecnicistas... mas no pior sentido, que é a ausência de outro sentido que não seja a contabilização, a prestação de contas. 

E isto a tempo inteiro: no horário de trabalho e fora dele, sendo que, aqueles que se pautam por um elevado sentido do dever profissional, nunca conseguem ter a consciência tranquila, pois há sempre algum coisa a que não conseguem responder de imediato, como se espera que façam. A culpa persegue-os e... consome-os!

Estamos já no domínio da insanidade e isso não pode continuar, sob pena de colapso das pessoas e, com elas, das organizações.

É, pois, preciso, transformar o sistema, começando por reconhecer que, como humanos, somos lentos em certas tarefas de teor intelectual (no ensino e na aprendizagem e no que elas implicam: estudo, conceptualização, etc). Atender a isso não é perda de tempo, é condição de eficácia.

O "Movimento Slow", iniciado com a comida "slow" e ganhando terreno noutras áreas, desafia não só a velocidade a que temos submetido a vida, mas também a sua padronização desinteressante.

Ainda não tinha acontecido olhar-se para a educação e, de modo mais concreto, para a docência, que solicita o pensamento profundo. E o pensamento profundo precisa de maturação, que requer... tempo.

Situando-se na universidade, as autoras enunciam diversos factores de preocupação que bem conhecemos, relacionados com a competitividade de mercado que se instalou antes que déssemos conta dela: produtividade, métricas, concursos, prémios, evidências, resultados, financiamento, avaliação... O seu conjunto, que se mantém permanentemente no horizonte, relega para um plano cada vez mais longínquo as preocupações pedagógicas e, mesmo, as científicas que são menos "rentáveis".

É de optimismo o balanço final do livro pois a "resistência" está viva e avança, dizem Berg e Seeber. E desafiam cada professor a investir na reflexão e no diálogo, em suma, a reforçar a vida intelectual da universidade.
Maria Helena Damião e Isaltina Martins

domingo, 11 de outubro de 2020

ATÉ DOS PÂNTANOS BROTAM NENÚFARES



Acabo de ler um texto do jornalista Nicolau dos Santos, salvo erro, na revista da TAP, em que ele numa longa pesquisa exalta epicamente os progressos feitos em Portugal nestes últimos trinta anos. 

Progressos reais que não devem sofrer total contestação pelo risco de perda de isenção Pela extensão, do seu texto extraio nacos de prosa, que comento, “en passant”, opondo um amador da escrita (eu) a um profissional desse mister (ele). 

Até dos pântanos brotam nenúfares. Saudemos pois esses nenúfares do pântano em que corre o risco de se se tornar o Serviço Nacional de Saúde coroa de glória do seu criador, António Arnaut; do pântano onde é citado José Saramago e é esquecido o nosso primeiro Prémio Nobel António Egas Moniz (por não pertencer à actual geração socialista?); do pântano que calça milhões de pessoas em todo o mundo e que produz o 2.º calçado mais caro a nível planetário e onde se vê pedintes com tiras de pano roto nos pés para os proteger do frio; pântano que fabrica lençóis inovadores onde dormem 30 milhões de americanos e onde tentam adormecer portugueses na rua ou debaixo das pontes ao lado de cães seus fiéis amigos a eles abraçados aquecendo-se mutuamente do frio invernoso cobertos com os andrajos que vestem durante o dia; pântano onde se abandonam os cães na rua por deixarem de interessar aos meninos que fizeram birra para os pais os adquirirem e por eles deixarem de se interessar ; pântano de um país que tem os seus propagandistas do regime pagos para o efeito enquanto eu redijo este apontamento "pro bono", etc.etc.

Este o paradoxo de um mundo de fronteiras comunitárias que, para inglês ver, varre o lixo para debaixo do tapete e limpa as pratas da casa, por vezes, de estanho, que possam servir de espelho onde os visitantes, previamente anunciados, se possam mirar!

OS CONIMBRICENSES REVISITADOS

 


Texto que publiquei recentemente no Jornal de Letras:

Coimbra é famosa pelos Conimbricenses, ou, mais extensivamente, pelos Comentários a Aristóteles do Colégio Jesuíta Conimbricense, o conjunto de oito volumes de discussão, em latim, das obras de Aristóteles que os jesuítas do Colégio das Artes publicaram de 1592 a 1606 e que alcançaram rapidamente expansão global. Tirando as obras maiores da nossa literatura, nenhuns outros livros nacionais tiveram tanto renome internacional como os Conimbricenses, que saíram de muitos prelos estrangeiros para proveito de numerosíssimos estudantes (só na Europa houve mais de 112 edições). Entre os filósofos que referiram os Conimbricenses contam-se Descartes, Malebranche, Locke, Leibniz, Marx e Peirce. Sim, Karl Marx citou-os na sua tese de doutoramento apresentada em Jena em 1841.


Não admira, por isso, que na universidade que é Património Mundial da Humanidade esteja em curso um projecto que visa investigar, traduzir e comentar essa produção da Companhia de Jesus, que detinha, no alto da colina coimbrã, duas escolas preparatórias dos estudos superiores. O leitor pode ver esse labor no sítio conimbricenses.org, dirigido por Mário Santiago de Carvalho, professor de Filosofia da Faculdade de Letras local. Encontrará aí ligações que remetem para duas traduções muitos recentes de dois volumes, ambas on-line: o IV, os Pequenos Naturais, e o V, a Ética a Nicómaco (Imprensa da Universidade de Coimbra). As Edições Sílabo tinham publicado em 2010 Da Alma, o vol. VII. Faltam, portanto, traduções da Física (vol. I), do Céu (vol. II), dos Meteoros (vol. III), da Geração e Corrupção (vol. VI) e da Dialéctica, isto é, Lógica (vol. VIII). Para ajudar a ler todos eles, acaba de sair, pela Palimage, o Dicionário do Curso de Filosófico Conimbricense, onde, em 567 páginas, Mário Santiago de Carvalho, após uma introdução, discute exaustivamente os termos latinos dos Conimbricenses (há equivalências português-latim e latim-português no final). É obra de fôlego que louvo com gosto. Só não percebo por que não foi editada pela Imprensa da Universidade, editora que tem vindo a distribuir urbi et orbi  versões electrónicas da sua produção.


O mesmo autor já nos tinha dado, pela Imprensa da Universidade (em coedição com a Imprensa Nacional), um livrinho muito útil que compila o essencial sobre os Conimbricenses (O Curso Aristotélico Jesuíta Conimbricense, 2018). E, na mesma editora e sobre o mesmo tema, Cristiano Casalini, investigador italiano, tinha publicado Aristóteles em Coimbra (2015). Essa literatura crítica e divulgativa acresce ao clássico de Pinharanda Gomes, o grande historiador da filosofia portuguesa recentemente falecido, Os Conimbricenses (Guimarães, 1992; há uma edição on-line da Biblioteca Breve, no sítio do Instituto Camões).

Talvez a glória maior dos Conimbricenses tenha sido a contrafacção em várias imprensas estrangeiras, a começar por uma de Francoforte em 1604, do volume sobre lógica que tardava (ignora-se a origem do texto, mas deve ter vindo de lições lidas no colégio jesuíta de Évora, muito ligado ao de Coimbra). O livro ficou conhecido por Lógica Furtiva. O prefácio do vol. VIII esclarecia o roubo (muito óbvio, basta olhar para a capa da edição, que difere das outras edições principes, todas ostentando o grande emblema com o IHS dos jesuítas).


A autoria dos Conimbricenses pertenceu a um colectivo de quatro jesuítas, nenhum deles de Coimbra, embora a maioria falecidos nessa cidade: Manuel de Góis (Portel, 1543 – Coimbra, 1597), Cosme Magalhães (Braga, 1551 – Coimbra, 1624), Baltasar Alvares (Chaves, 1560 – Coimbra, 1630) e Sebastião do Couto (Olivença, 1567 - Montes Claros, 1639), sobressaindo o primeiro pela amplitude e qualidade do seu trabalho. Na génese da obra está Pedro da Fonseca (Proença-a-Nova, 1528 – Lisboa, 1599), o “Aristóteles português”, que foi autor de dois livros aristotelianos com ampla circulação internacional (a Dialéctica, de 1564, e a Metafísica, de 1577). Nos Conimbricenses o volume de lógica acabou por sair, pela mão de Couto, em último em vez de ter a primazia, como no curso oral, ao passo que o volume de metafisica nunca conheceu a luz do dia. Fonseca pertenceu a uma comissão inicial de preparação dos Conimbricenses, mas, devido aos seus afazeres, não avançou muito, não tendo também participado na comissão que acabou por levar a cabo o projecto.


A recepção principal na Europa dos Conimbricenses deu-se na Alemanha, com edições em Colónia e Mogúncia. Mas também houve edições na França e na Itália. Já em Inglaterra, dominada por Oxford e Cambridge, a difusão não foi tão ampla. Mas os livros galgaram os mares, chegando rapidamente ao Brasil, à Índia, à China e ao Japão (onde os portugueses tinham arribado em 1543). A difusão na China é digna de realce. Aristóteles chegou ao Oriente com grande atraso e mais tarde seria se não fosse a intermediação portuguesa. Chegou quase ao mesmo tempo que Galileu:  o jesuíta Manuel Dias, em 1614, numa obra escrita em mandarim, divulgou no Império do Meio as descobertas galilaicas feitas com o telescópio.   


É bem sabido que a expulsão dos jesuítas pelo marquês de Pombal em 1759 culminou um processo de propaganda maciça, aquém e além-fronteiras, que denegriam aqueles padres. A fama mundial alcançada pelos Conimbricenses mostra, porém, como eram, em larga medida, injustas as acusações do marquês. Porém, como a verdade não é a preto e branco, havia nelas algum fundamento. De facto, na altura em que foi publicada a obra coimbrã, decerto escolástica mas com muitos aspectos inovadores na interpretação de Aristóteles, o estagirita começava a ser letra morta com o surgimento da “nova ciência”. Já em 1590 Galileu se erguia contra Aristóteles. E, em 1609, era pioneiro a olhar o céu com um telescópio. Alguns jesuítas acompanhavam as novidades científicas, como mostram as lições na Aula da Esfera, em Lisboa, onde, em 1615, já se construíam telescópios.


Os Conimbricenses foram-se tornando obsoletos ao longo dos séculos XVII e XVIII, e, apesar das tentativas de renovação do curso filosófico empreendidas pelos jesuítas Soares Lusitano, o primeiro a introduzir Descartes entre nós (1651), e por António Cordeiro, o certo é que Luís António Verney tinha razões para, no Verdadeiro Método de Estudar (1746), espanejar a poeira entretanto acumulada.  Descartes criticou os Conimbricenses, que ele estudou no colégio jesuíta de La Flèche, no Loire, quando numa carta ao padre Mersenne, um físico amigo dele e de Galileu, lhe disse que os Conimbricenses eram “longos, sendo bom que fossem mais breves”. Se a filosofia cartesiana reagiu à escola aristotélica poder-se-á dizer que Coimbra ajudou a instaurar a modernidade ao propiciar um bom ensejo de crítica… Mas, no meu entender, o papel maior de Portugal na história da ciência foi ter sido interposto na transferência de conhecimento do Ocidente para Oriente numa época de uma grande mudança do mundo a que alguns chamam “primeira globalização”.


Carlos Fiolhais


sábado, 10 de outubro de 2020

RACISMO E ETNIAS


“No dia em que pararmos de nos preocupar com a Consciência Negra, Amarela e Branca e nos preocuparmos com a Consciência Humana o racismo desaparece” (Morgan Freeman).

Que me expliquem por favor o que pretendem (será pedir muito?) os pretensos antirracistas, que pediram a nacionalidade dos nados e criados na “ocidental praia lusitana”, com os seus discursos de ódio contra o país da sua livre escolha para viver, país cheio de defeitos e racismo, segundo eles?

Se dúvidas tiver o leitor procure na Net os discursos incendiários de Joacine Moreira, deputada da Assembleia da República Portuguesa, e de Mamadou Ba, ex-assessor parlamentar do Bloco de Esquerda, nascido no Senegal que viu, inicialmente, o seu pedido de nacionalidade ser indeferido por não ter tempo suficiente de residência em Portugal e conhecimentos de português. Por eles poderão verificar se são paradigma de concórdia ou se, pelo comentário, expressam um racismo de quem tem um fígado a destilar bílis por todos os canais biliares!

Mas que querem eles afinal? Colherem o que outros semearam? Um país em que a competição para um melhor lugar ao sol na ascenção social seja favorecido pelo tom negro da pele? Quiçá aspirem a cotas, aliás exigidas por Mamadou, num país que levou séculos a ser levado ao colo por gerações em que os pais tudo sacrificaram para preparar os seus filhos, através de estudo forçado em noites insones, por vezes, à luz de um candeeiro de petróleo, simples vela de cera ou projectada por um candeeiro de rua perto de uma janelas de casa!

Licito será defender um retrocesso a anos de pálida luz cultural, científica e profissional que clareou com o esforço e o sacrifício de gerações brancas e negras? Simplificando: aspiram eles a um lugar de deputado da Assembleia da Republica para todas as Joacinas Katares que lhe batam histericamente à porta ou todos os Mamadou que ascendeu meteoricamente na vida política antirracista?

Cotas para negros que chamam “bóstia” à polícia? Quando ele, nos diz, armado em poeta  de três ao pataco dando-os exemplos de rimas, que activista rima com optimista, dou-lhe uma achega: também rima com arrivista! Todos iguais em direitos e deveres é o que distingue um país solidário que não defenda os direitos para si e os deveres para os outros. Este o conceito que deve subjazer a um país antirracista sem balelas que encham páginas e páginas de sofismas a tentar esconder princípios de justiça em contravenção com a realidade secular de acontecimentos verdadeiramente democráticos.

Como escreveu Raymond Polin, “reivindicar direitos sem proclamar obrigações é querer o impossível, é jogar às utopias ou às catástrofes”. Ora, a história de Portugal, com os seus defeitos, porque feita e escrita por humanos, é demasiado rica e nobre para servir de bola de futebol chutada ainda que mesmo por pessoas com formação universitária chancelada por um país do continente africano.

Até “os planetas se chocam e do caos nascem as estrelas”, disse-o Charles Chaplin! Tenhamos esperança que assim suceda num mundo obscuro em constante convulsões rácicas, sociais e territoriais. “Fiat lux”!

P.S.: Ampliei o título do meu "post" sobre o "Racismo" para dar uma maior amplitude ao conceito de racismo sob o ponto de vista  étnico  que não pode ser circunscrito apenas à etnia negra.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

ROGER PENROSE: O GÉNIO DA FÍSICA


Meu artigo no jornal I de ontem:

Metade do Prémio Nobel da Física de 2020 foi há dias atribuído ao físico-matemático britânico Roger Penrose, professor emérito de Matemática da Universidade de Oxford, que nasceu em 1931 em Colchester, no Essex, filho de Lionel Penrose, um cientista polifacetado (médico geneticista, pediátrico e psiquiátrico, para além de teórico do xadrez), e de Margaret Leathes, uma descendente de refugiados russos.


A razão da atribuição do prémio mais elevado da Física foi o estabelecimento numa base matemática sólida dos buracos negros, esses sítios do universo onde o espaço e o tempo terminam devido à sua deformação extrema, que foi prevista pela teoria da relatividade geral de Albert Einstein, mas cuja natureza exótica impediu durante muito tempo que fossem considerados possibilidades reais. O artigo de Penrose de 1965 “Gravitational Collapse and Space-Time Singularities”, publicado na revista de maior prestígio da Física, a Physical Reviews Letters, abriu caminho a muitos outros trabalhos que contribuíram para um melhor conhecimento desses “abismos cósmicos”. Hoje sabemos que não são apenas soluções matemáticas de equações, mas sim objectos que existem mesmo: a colisão de dois buracos negros emite ondas gravitacionais que têm sido recolhidas na Terra (a primeira detecção dessas ondas valeu o Nobel da Física de 2017 a três investigadores norte-americanos) e técnicas sofisticadas de radioastronomia permitem obter imagens de buracos negros supermaciços que existem no centro de galáxias. A segunda metade do Nobel da Física deste ano foi precisamente para dois astrofísicos observacionais: o alemão Reinhard Genzel e a norte-americana Andrea Ghez, que identificaram o superburaco negro que existe no centro da nossa Galáxia (ou Via Láctea) a partir das órbitas de estrelas muito próximas dele.


Os trabalhos de Roger Penrose sobre os buracos negros estão também relacionados coim com  o Big bang, a que podemos chamar “buraco branco”,  o oposto de um buraco negro: no buraco negro acaba o espaço e o tempo, tudo se precipitando para o seu interior, ao passo que num buraco branco, começam o espaço e o tempo,  tudo saindo do seu interior. Tanto os buracos negros como o Big bang são os lugares mais misteriosos do Universo: são o fim do mundo e o início do mundo. Eles estão nas fronteiras da ciência. Sabemos hoje mais do que sabíamos ontem, mas esperamos saber mais sobre eles no futuro. O físico britânico Stephen Hawking colaborou com Penrose sobre os teoremas que abrangem os buracos negros e o Big bang, chamados “teoremas da singularidade”. Os dois publicaram em 1970 um artigo onde afirmam que, aceitando a validade da teoria da relatividade geral e de certos modelos geométricos do cosmos, o nosso Universo tinha de começar com uma singularidade. Tanto Penrose como Hawking continuaram, ao longo das suas “linhas do tempo”, a especular sobre buracos negros e sobre o Big bang. Penrose formulou hipóteses a que chamou de “censura cósmica” a propósito da existência de singularidades ditas “nuas” (daí o nome de censura) e, mais tarde, propôs que haveria um universo anterior ao Big bang, formulando uma teoria cíclica do tempo universal.


Penrose trabalhou, além da astronomia e da cosmologia, em vários outros tópicos; desde o preenchimento geométrico do plano com mosaicos especiais (um trabalho inspirado pelas gravuras do artista holandês Maurits Cornelis Escher), até aos mistérios últimos da consciência humana. Penrose formulou a hipótese muito controversa segundo a qual o funcionamento do cérebro humano apenas seria explicável por um fenómeno quântico. Para ele o nosso cérebro não pode ser imitado por um computador convencional, em clara oposição aqueles que defendem o chamado “programa da inteligência artificial forte”. A discussão deste assusto assunto conduziu Penrose ao campo fascinante da filosofia da mente.


Roger Penrose é um popularizador da ciência, que tem levado ao grande público as suas ideias mais exóticas, tanto no domínio da astrofísica como no das neurociências. Ele é o autor de quatro livros traduzidos em português, publicados todos eles pela Gradiva, que vamos enumerar e comentar sucintamente.


O primeiro, escrito em conjunto com Stephen Hawking, foi A Natureza do Espaço e do Tempo (1996): é um diálogo entre estes dois grandes físicos. O livro, que é o n.º 3 da coleção Trajectos da Ciência, foi traduzido pelo matemático Jorge Buescu. A discussão entre Penrose e Hawking  teve lugar num ciclo de seminários realizados em 1994 no Instituto de Ciências Matemáticas Isaac Newton da Universidade de Cambridge (Hawking ocupou a Cátedra Lucasiana de Matemática que foi outrora de Newton). O conteúdo do livro é um pouco técnico, uma vez que os autores não fogem a equações, mas mesmo quem não consiga perceber a letra, pode ouvir a música: fala-se não só da teoria da relatividade geral como da sua eventual combinação com a teoria quântica. Hawking propôs uma combinação ad hoc entre as duas, da qual surgiu como resultado mais forte a emissão de luz e de partículas pelos buracos negros: os buracos negros poderiam não ser negros. Mas essa radiação de Hawking nunca foi observada até agora, conhecendo nós até as razões para essa não observação: Se houve no início do mundo mini-buracos negros que podiam evaporar dessa maneira, eles já evaporaram.  Os grandes buracos negros evaporam muito lentamente.


O segundo livro de Penrose a sair entre nós foi A Mente Virtual. Sobre computadores, mentes e as leis da física (1997), n.º 93 da colecção Ciência Aberta, no original inglês The Emperor’s New Mind, uma alusão à fábula da “Nova Roupa do Rei” de Hans Christian Andersen. O prefácio é de Martin Gardner, o matemático amador que durante décadas teve uma coluna de problema matemáticos na revista Scientific American, e a tradução de Augusto José Franco de Oliveira, Carlos Lourenço e Luís Teixeira da Costa. Este livro, trata do “universo, computadores e tudo o resto”  (uso aspas pois dei esse título a um dos meus livros): fala da inteligência artificial e natural, de matemática e realidade, de verdade e demonstração,  de teorias clássicas da física e da teoria quântica, do Big bang e da evolução temporal, do problema da gravidade quântica e, finalmente, da fisica da mente, onde Penrose expõe as suas ideias que dão um lugar particular ao cérebro humano no contexto da Criação (não me entendam mal, pois Penrose é ateu). É um clássico da divulgação científica!


O livro seguinte em português foi O Grande, o Pequeno e a Mente Humana (2003), n.º 124 da Ciência Aberta, traduzido por David Resendes. Os interlocutores de Penrose numa discussão intelectual sobre o Universo e a mente são os filósofos Abner ShImony e Nancy Cartwright e o físico Stephen Hawking.


O último livro de Penrose publicado entre nós foi Ciclos do Tempo. Uma visão nova e extraordinária do Universo (2013), n.º 198 da Ciência Aberta, com o subtítulo tradução de Nelson Rei Bernardino. É neste livro – suponho que o único que não se encontra esgotado – que ele aborda o tempo antes do tempo. E é nele que fala de buracos negros no centro de galáxias. Deixo um excerto onde fala do buraco negro no centro da Via Láctea, cuja descoberta foi agora premiada pela Academia sueca: “As observações mais impressionantes… ocorrem com os movimentos orbitais muito rápidos de estrelas visíveis em volta de uma entidade invisível mas enormemente massiva e compacta no centro da Galáxia, A velocidade destes movimentos é tal que esta entidade tem de ter uma massa de quatro milhões de massas solares! É difícil imaginar que isto possa não ser um buraco negro.” Hoje temos ainda menos dúvidas.


Penrose escreveu ainda dois prefácios para obras que estão traduzidas em português, um para o livro do físico austríaco Erwin Schroedinger, A Natureza e os Mitos; e Ciência e Humanismo (Edições 70, 1999) e outro  para o livro de Einstein, O Annus Mirabilis de Einstein, que contém os seus revolucionários artigos de 1905, uma obra com edição e introdução de John Stachel (Gradiva, 2006).


Mas Penrose é autor de várias outras obras, não traduzidas entre nós. Uma delas é Shadows of the Mind, A search for the missing science of consciousness (1994), que é uma sequela de A Mente Virtual, onde  responde a várias críticas que lhe foram endereçadas (entretanto Penrose e o  médico Stuart Hameroff, tinham proposta uma explicação do cérebro baseada em efeitos quânticos em microtúbulos).  Uma que não está publicada em português é um “tijolo” com mais de mil páginas. The Road to Reality: A Complete Guide to the Laws of the Universe (2004), que li há mais de uma década quando tive de recuperar de uma demorada doença. Penrose, nessa obra, bastante técnica, é sempre estimulante por a pelo facto de a sua mente não se prender às formulações convencionais. O seu livro mais recente é Fashion, Faith and Fantasy in the New Physics of the Universe (2017), que, sendo menor que o anterior, não deixa de ser grande: tem mais de 500 páginas. Estão lado a lado na minha estante.


Penrose é, de entre as muitas mentes brilhantes que povoam a Terra, uma das que podemos com mais propriedade chamar génio.  Não sei se o funcionamento dela é quântico ou não, mas sei que a sua mente tem ousado enfrentar os grandes mistérios do cosmos e do homem.

Ajude a identificar a localização desta espécie.

 Decerto que já deve ter reparado numas aves verdes e barulhentas que esvoaçam pelos arvoredos de algumas cidades do nosso país. São os periquitos-de-colar (Psittacula krameri), uma espécie exótica de origem africana e asiática e que nas últimas décadas chegou ao nosso país e está a expandir-se. 

Agora a SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves lança-nos o desafio de identificar os locais onde estas aves se juntam para dormir. Esta organização está a preparar uma contagem inédita por todo o país, mas antes é necessário identificar os locais. Para isso, toda a ajuda é bem vinda. Entre 15 de Outubro e 15 de Novembro, pode fazer as suas observações ao fim do dia.

Neste link, a SPEA explica como participar, o que tem de fazer, como identificar a espécie 

Crédito: Guilherme F. Lima, fonte: wikipedia

Se se interessa por aves, e já que estamos a falar de espécies que não são nativas de Portugal, a SPEA vai realizar um webinar gratuito sobre "Aves exóticas e invasoras em Portugal", no dia 15 de Outubro, às 18h30. Para saber mais, veja aqui.


quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Nobel da Literatura 2020 — Louise Glück

 A poetisa americana Louise Clück foi hoje distinguida com o Prémio Nobel da Literatura 2020. 

Professora universitária, Louise Clück é considerada uma das maiores poetisas dos Estados Unidos da América e conta, no seu curriculum,  com vários prémios e distinções.

Em Portugal, está representada na colectânea "Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o futuro", publicada pela editora Assírio & Alvim.


A sua poesia desenvolve, muitas vezes, os mitos clássicos dando-lhes uma actualização aos problemas contemporâneos.

Ítaca

O ser amado não

precisa viver. O ser amado

vive na cabeça. O tear

é para os pretendentes, suspenso

como uma harpa de brancos filamentos.

Ele era duas pessoas.

Era corpo e voz, o fácil

magnetismo de um homem vivo, e então

o sonho revelado ou a imagem

formada pela mulher manejando o tear,

ali sentada num salão cheio

de homens de mentes literais.

Se te causa pena

o mar enganado que tentou

levá-lo para sempre

e devolveu apenas o primeiro,

o verdadeiro marido, deverias

sentir pena desses homens: eles não sabem

para o que estão olhando;

eles não sabem que quando alguém ama dessa maneira

o manto se torna um vestido de casamento.

(Tradução de Pedro Gonzaga, poeta, tradutor, músico e professor; Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul -  https://estadodaarte.estadao.com.br/poesia-em-casa-dois-poemas-de-louise-gluck/).

Descoberta de possível subespécie de Fura-bucho-do-Atlântico nas Canárias

Segundo um estudo publicado na revista Journal of Avian Biology, uma equipa internacional que conta com quatro técnicos da SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves como autores, relata que o Fura-bucho-do-Atlântico (Puffinus puffinus), que se pensava ser uma só espécie que nidificava no Atlântico Norte (Reino Unido e Irlanda, com pequenas colónias, nos Estados Unidos da América, Canadá, Espanha e Portugal), afinal pode ter uma subespécie nas Canárias, dadas as diferenças encontradas pelos investigadores nas aves dessa população. Esta descoberta poderá ter impacto nas medidas de conservação a aplicar, principalmente atendendo a que o tamanho dessa população tem vindo a diminuir.

O artigo pode ser consultado aqui: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/jav.02633 

Créditos: Alix d'Entremont. Fontehttps://ebird.org/species/manshe?

terça-feira, 6 de outubro de 2020

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

 Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Autores Gregos e Latinos” [textos]

 - Reina Marisol Troca Pereira: Ps. Eratóstenes. Constelações do Zodíaco (’Αστροθεσίαι ζωδίων). Introdução, tradução do grego, notas e índices (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020). 164 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-1948-4

[Este escrito pseudoeratosténico retrata um grupo de episódios que não se limita a 12 constelações. Tampouco discorre acerca de influências/condicionalismos deterministas sobre eventualidades e comportamentos diários, mensais ou anuais das criaturas terrenas da Época Alexandrinista. Embora não se trate de um tratado astronómico e o estilo prima por um caráter simples e sucinto, muito há para descodificar nos pouco mais de quarenta episódios. De conotações astronómicas, apresenta-se como um exercício de aproximação, ao proporcionar ao recetor explicações de algo visível, mas não atingível - as constelações, através de imagens do saber comum, radicadas em cenas e aspetos mitológicos.]

Série “Documentos” [estudos]

- Carlota Simões, Margarida Miranda & Pedro Casaleiro, Visto de Coimbra: o Colégio de Jesus entre Portugal e o Mundo (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020). 424 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-1871-5

[Este livro resulta em grande parte das contribuições para o Colóquio 'VISTO DE COIMBRA - O Colégio de Jesus entre Portugal e o Mundo' que decorreu na Universidade de Coimbra em Maio de 2017 e culminou com a exposição homónima no Museu da Ciência da UC em Setembro do mesmo ano, mas também do ciclo 'Cultura Ciência Culto' que teve lugar durante todo o ano de 2016. Na capa reproduz-se uma gravura da Lua feita por Cristovão Borri (Collecta Astronomica, 1631), muito provavelmente o mais antigo documento gráfico de uma observação astronómica feita em Portugal e que teve lugar na cidade de Coimbra. Sobre a figura pode ler-se ‘em Coimbra, a exata face da Lua crescente, com idade de seis dias, vista por um tubo ótico em julho de 1627’.]

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UMA ABORDAGEM AO METAMORFISMO E ÀS ROCHAS METAMÓRFICAS

À atenção dos professores. 
Nota prévia. Ao cumprir o capítulo do programa oficial referente ao metamorfismo e às rochas metamórficas, o professor, ainda que ao nível das generalidades, tem de saber do que é que está a falar. Só assim, um micaxisto, um anfibolito, um mármore ou um gnaisse, entre outras rochas metamórficas mais comuns, deixam de ser pedras, apenas mais umas pedras com um nome destituído de significado (e, até, de beleza) simplesmente memorizado, predestinado a esquecer, passado que seja o exame final. Acrescente-se que esta advertência é válida para o magmatismo, sedimentogénese e respectivas rochas. 

O quartzo das areias e dos arenitos, as argilas dos argilitos, dos xistos argilosos e das ardósias, a calcite e a dolomite dos calcários e todos os outros minerais próprios da actividade geológica de superfície (também dita supergénica) podem, em certos casos, mergulhar, incluídos nas respectivas rochas, para níveis mais ou menos profundos da crosta onde vão permanecer durante milhões e milhões de anos, sujeitos a pressões e a temperaturas mais elevadas do que aquelas em que tiveram nascimento, arrastados na sequência do processo de subducção ou envolvidos no interior de uma cadeia orogénica. 

As rochas magmáticas, formadas a temperaturas relativamente elevadas, e as rochas sedimentares, geradas à superfície da crosta a temperatura relativamente baixas, representam situações extremas das condições térmicas naturais realizáveis na litosfera. No decurso da evolução da litosfera estes dois tipos de rochas ficaram por diversas vezes sujeitos a condições intermediárias daqueles dois extremos, passando também a estar sujeitos a pressões diferentes das reinantes nos respectivos ambientes que lhes deram origem. 

Também no contacto com um corpo magmático, superaquecido, os minerais das rochas sedimentares tendem a transformar-se noutros, compatíveis com as condições químicas e térmicas que aí encontram. Diz-se então que há metamorfismo. Os materiais líticos resultantes destas transformações são as rochas metamórficas ou metamorfitos, tendo os novos minerais que as integram e caracterizam nascido à custa dos elementos químicos dos minerais das anteriores rochas de que resultaram. 

Num esquema muito genérico pode dizer-se que do oxigénio, do silício, do alumínio, do potássio, do magnésio, do cálcio e de algum ferro, constituintes das argilas, nascem as sericites e as clorites e outros filossilicatos dos filádios (xistos luzentes), a moscovite e a biotite dos micaxistos, ou o talco dos esteatitos. Ainda do oxigénio, do silício e do alumínio das argilas surgem os grandes cristais (porfiroblastos) de andaluzite e de estaurolite dos chamados xistos porfiroblásticos.

Vêm ainda das argilas o oxigénio, o silício, o alumínio, o potássio ou o sódio e o cálcio necessários à génese dos feldspatos renascidos nos migmatitos e que representam grande parte dos minerais das bandas claras dos bem conhecidos gnaisses como os do Passeio da Foz, no Porto. A situação paradigmática para descrever o metamorfismo é quase sempre a da evolução a partir das rochas sedimentares.

Um parêntese para dizer que o aumento da temperatura inerente ao metamorfismo não pode, por definição, atingir o ponto de fusão dos minerais mais fusíveis. Sempre que se ultrapassa este limite há fusão, ainda que parcial, e mobilidade de alguns, podendo manter-se como relíquias os de ponto de fusão mais elevado (mais refractários). Nesta situação o metamorfismo dá lugar ao magmatismo profundo, responsável, por exemplo, pela granitização, na qual rochas como os xistos acabam por se transformar em granitos, ou seja, no mesmo tipo de rocha de onde (por meteorização) vieram as argilas de que são constituídos esses xistos. 

A dita situação paradigmática para descrever o metamorfismo a partir das rochas sedimentares acontece não só porque isso corresponde à situação mais frequente ao longo de toda a evolução da litosférica, como também porque corresponde à via mais pedagógica de abordar o problema. Não deve, porém, esquecer-se que qualquer tipo de rocha pode ser envolvido no processo metamórfico, seja ela um granito ou um basalto, seja ela uma qualquer rocha metamórfica. Neste caso, ou o novo referencial termodinâmico é mais intenso (temperaturas e/ou pressões mais elevadas) e a rocha progride no grau de metamorfismo relativamente ao que já tinha, ou passa a estar a pressões e/ou temperaturas mais baixas e, então regride, isto é, sofreu retrometamorfismo. Não deve ainda esquecer-se que uma mesma rocha original pode sofrer sucessivas fases de metamorfismo, bastando para tal que seja envolvida em outras tantas situações que o desencadeiem (uma orogenia, uma intrusão magmática, um megaimpacte meteorítico, etc.). 

Os minerais próprios do metamorfismo são novas fases adaptadas às novas condições termodinâmicas e químicas do novo ambiente onde foram introduzidos e aí permaneceram o tempo geológico suficiente (dezenas ou centenas de milhões de anos), permitindo, através do seu estudo, conhecê-las. Com efeito, sabemos hoje, por via petrologia experimental, os valores das pressões e das temperaturas e o ambiente químico necessários à génese de cada um dos minerais, na medida em que os podemos sintetizar. Se nos dermos ao trabalho de fazer o compto dos minerais mais frequentes nos três grandes tipos de rochas, verificamos que há espécies exclusivas de um dado ambiente petrogenético tais como granadas, andaluzite, distena (ou cianite), silimanite, estaurolite, cordierite, epídoto, clorite, etc., nas rochas metamórficas, ou os diversos minerais das argilas (caulinite, atapulgite, ilite, sepiolite, etc.), nas sedimentares.

O quartzo é, pois, como se pode facilmente constatar, um mineral bastante versátil, ocorrendo nos três grandes domínios petrogenéticos - magmático, sedimentar e metamórfico, do mesmo modo que a moscovite ou que a calcite, que tanto nasce da precipitação das águas saturadas em carbonato de cálcio numa estalactite, como da transformação de um calcário sedimentar no seu equivalente metamórfico, que todos conhecemos - o mármore - como, ainda, por via magmática, nos carbonatitos.

Sempre que, no interior da litosfera, uma determinada rocha fica sujeita a ambiente diverso daquele em que foi gerada, os seus minerais tornam-se instáveis face aos novos parâmetros termodinâmicos e químicos, podendo recombinar-se entre si, dando origem a outras associações compatíveis com o respectivo ambiente. As estruturas cristalinas dos minerais originais, bem como as texturas das respectivas rochas, sofrem rearranjos mais ou menos acentuados.

Como resultado das reacções verificadas libertam-se água, certos componentes voláteis e determinados elementos com grande capacidade de escape que abandonam o corpo geológico em transformação, migrando daí para outras zonas, podendo, nalguns casos, aproximar-se da superfície.

A. Galopim de Carvalho

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

OS DITADORZINHOS




“A justiça é a virtude primeira das instituições sociais”
(John Rawls, professor de filosofia política, 1921-2002).

Começo a ter dificuldade em destrinçar a esquerda e a direita em Portugal em que são tidos como progressistas os que mentem em nome  do povo e fascistas os que falam em nome da verdade.

Numa análise digna de registo, Maria José Morgado, procuradora-geral adjunta do Tribunal da Relação de Lisboa, diz-nos que “no país perdeu-se um bocado o sentido de ser de esquerda ou de direita tendo fazer mais sentido ser honesto. Defender interesses de transparência e integridade que às vezes não têm a ver ser de esquerda ou de direita". E prossegue, "haver gente de esquerda que não tem princípios de  integridade e transparência e gente de direita que tem”.

De forma aleatória, sem fazer uma análise actualizada da acção dos diversos partidos políticos nos diversos momentos da vida nacional, votantes há que se limitam a colocar uma cruzinha  no quadrado do respectivo boletim de voto. Já é altura do cidadão, que Charles Dikens  nos disse "ser o homem um animal de hábitos" que, em acrescento meu, cria raízes, fazer uma reflexão  (toda a reflexão deve libertar-se de paixões que a possam deturpar ) sobre  esta notícia que pela sua extensão transcrevo parcialmente (Lusa Jornal, 03/10/2020):

“Vitor Caldeira fez vários pedidos de audiência a S. Bento, mas o primeiro-ministro não lhe respondeu.

Assim, para além da falta do princípio de civismo e de simples educação em responder a quem nos escreve, existe, passo a citar, o “desrespeito pelo presidente do Tribunal de Contas e da própria instituição” e “falta de cortesia” para com o actual titular do cargo, por este este ter exercido o cargo  de “forma isenta e tecnicamente irrepreensível” e, apesar disso, não ter sido reconduzido, mas despedido com um simples telefonema de António Costa.

De facto, como o SOL, apurou, foi pelo telefone que o primeiro-ministro e líder do PS comunicou ao presidente do Tribunal de Contas que os socialistas não iriam avalisar ao seu nome para novo mandato no Parlamento.

Como adianta a referida notícia, “o que é certo é que o Tribunal de Contas arrancou este ano com auditorias arrasadoras para o poder Central e Local que fizeram correr tinta. Com esta situação, o verniz estalou entre a entidade liderada por Vitor Caldeira e o Governo.

O SOL apurou, igualmente, que Vítor Caldeira enviou vários pedidos a S. Bento para ser recebido em audiência formal pelo primeiro-ministro, mas nunca obteve resposta positiva, etc., etc."

Mas tanto basta para ficarmos cientes de que a metodologia utilizada para esta estranha situação ultrapassa os limites do despedimento de qualquer funcionário público ou mesmo simples empregada  doméstica que estão a coberto de serem postos na rua com um simples telefonema.

Como cereja em cima do bolo, em publicação nas redes sociais,  confirmada pelo polígrafo, ressalta o facto de uma deselegância rancorosa de um "deputado do PS chamar mentecaptos a juízes do Tribunal de Contas". Este deputado  de sua graça, Ascenso Simões, julgará, arregaçando as mangas em atitude provocatória, dar lições de civismo que não cumpre minimamente?

E é tanto mais estranho num país em que se distribuem  condecorações e louvores a tantos medíocres que curvam a cerviz aos seus superiores de quem esperam favores. Mas já nada me espanta, outrossim,  num país em que ao forte é permitido  fazer o que quer e ao fraco exigido o que, despoticamente, lhe mandam fazer. Como eu escrevi em tempos baseado na minha experiência de vida, quem faz o que lhe manda o partido é progressista quem faz o que lhe manda a consciência é reacionário!

Tendo em mente a previsão dos quatro cavaleiros do Apocalipse, anunciando a peste, a guerra, a fome e a morte, hoje encavalitadas na garupa do corona vírus  com o freio nos dentes, não deverá este estado de coisas servir de motivo, “per se”, para que os votos não sejam depositados nas urnas  como uma coisa que se cumpre levianamente?  A perigosidade do mundo actual exige do acto democrático votar após uma reflexão demorada não já  apenas de sobrevivência nacional, mas planetária!

Não deixemos para  amanhã o que deve se feito hoje porque amanhã pode ser tarde. Como dizia um dos nossos companheiros de café do meu tempo de rapaz, filho de um construtor civil de grandes cabedais e escassos estudos e ele igualmente, que gostava de falar difícil perante uma assistência de estudante de ensino superior avisando-os, ainda que na procura das coisas mais corriqueiras a decidir  que o tempo “ruge”!

Ou seja, o tempo não “ruge”, mas urge, isso sim, em votar em plena consciência para evitar arrependimentos futuros cujos reflexos incidem sobre o votante de cabeça ao vento levando-o a chorar, mais tarde, sobre o leite por por ele próprio derramado ainda que mesmo em poucas gotas. Saiba ele assumir a sua responsabilidade não a atirando para cima das costas dos outros!

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

A FILANTROPIA DE PEDRO ABRUNHOSA

“Há épocas de tal corrupção que, durante elas, só o excesso de fanatismo pode, no meio  da imoralidade, servir de escudo à nobreza e à dignidade das almas rijamente temperadas” 

(Alexandre Herculano).

Pedro Abrunhosa virou filantropo com o dinheiro dos contribuintes ao defender o aumento dos ordenados dos deputados da Assembleia da República. 

Será que ele está disposto a doar parte dos  seus cachet’s para esse efeito? Ou será este o caminho em linha recta para ser contratado para os espectáculos comicieiros do Partido Socialista agora que se aproximam, a passos largos, as eleições autárquicas?

Perguntas que me obrigo a fazer numa altura em que Portugal atravessa uma grave crise financeira a ponto de “nuestros hermanos” estarem a pensar diminuir o número dos seus deputados bem menor quando comparado com os nossos deputados, medida que seria bem vinda para o nosso país pelas respectivas implicações económicas.

Será que ele, Abrunhosa, julgue que os vencimentos auferidos pelos deputados se reduzem à declaração feita para efeitos de pagamentos de impostos sem tomar em linha de conta prebendas com seja o restaurante gourmet da AR onde pagam por lautas refeições dez reis de mel coado? Ou o facto de serem subsidiados por morarem longe de Lisboa. Claro que se essa deslocação se fizer a pé, nem que sejam simples metros de distância, é um sacrifício que gasta solas devendo ser bem recompensados por os sapatos da moda custarem os olhos da cara. E isto para já não falar no facto, ao que se diz, da AR ser um mercado rendoso de trocas de influências e favores? Serão apenas as más línguas a falar? Mesmo que assim seja, com respaldo num ditado latino, “à mulher de César não basta ser honesta, tem que o parecer!”

Como é sabido, os artistas, por vezes, têm devaneios que a sua imaginação prodigiosa justifica. Pelo que deduzo, Abrunhosa com voz rouca de tanto gritar num mundo  de lamúrias por justiça social chegue ao exagero de pedir o aumento de deputados, uns tanto deles, que se não fosse a política estariam no desemprego aumentando os cerca de 8% (ou mais?) de desempregados, alguns licenciados outros doutorados, conquanto Leite Pinto, ministro da Educação do tempo do Estado Novo, ter dito haver duas maneiras de mentir: "Uma é não dizer a verdade, outra fazer estatística".

Por hipótese, concedamos que os deputados ganham pouco tendo, quando escolheram esta “profissão miseravelmente paga”, prescindido de ordenados chorudos acenados  de outras bandas. Então sim, o povo teria a obrigação de lhes dever eterna de gratidão pelo sacrifício devotado à causa pública!

Libertando-nos de situações meramente congemináveis, comunguemos do desânimo de Eça no século XIX.

“No meio de tudo isto que fazer? Portugal tem atravessado crises igualmente más, mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e caracter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não – pelo menos o Estado não tem - e os homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior – e sem cura”.

Resta-nos a ténue esperança que os raros  homens, de que nos falava Eça, se os há neste século, apareçam à luz do dia sacrificando-se pela Pátria, embora a palavra pátria tenha entrado no rol das palavras indesejáveis na tentativa de refazer a História de Portugal  de que dei conta num post, por mim publicado recentemente no “DRN” (28/09/2020), intitulado: “Texto de António Barreto para Meditação”. Meditemos, portanto, que a hora que o país atravessa assim o exige!

"Vínculos filosóficos"

Mauricio João Farinon, professor na Universidade do Oeste de Santa Catarina, acaba de me dar notícia da publicação do livro Vínculos filosóficos, em homenagem a Luiz Carlos Bombassaro, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Inscrito na área da Filosofia da Educação, é formado por um vasto conjunto de textos, assinados por autores do Brasil, Alemanha, Suíça, Argentina, Uruguai, Itália e Espanha. Diversos desses textos aproximam-se da educação, facultando novos e interessante olhares a que vale a pena prestar atenção

O livro, com download gratuito, pode ser encontrado aqui.

João Ferreira Annes de Almeida - O Primeiro Tradutor da Bíblia para Português

João Ferreira Annes de Almeida - O Primeiro Tradutor da Bíblia para Português: A Bíblia é o livro mais editado de sempre em Língua Portuguesa. Estima-se que as diversas edições do Novo e do Antigo Testamentos, bem como da Bíblia

A BARCA DO INFERNO


 

Meu artigo no Público de ontem:

“Auto” tanto pode ser uma peça de um processo judicial como uma peça de teatro. Os autos da Operação Lex fizeram-me lembrar o Auto da Barca do Inferno, que Gil Vicente escreveu em 1517. Neste último há um corregedor, carregado de papéis, que o diabo manda entrar na sua barca. O diabo, que é velho, não tem dúvidas em condená-lo por corrupção. Diz-lhe, misturando latim: “— Quando éreis ouvidor/ Nonne accepistis rapina? [não aceitastes subornos?]/ Pois ireis pela bolina/ onde nossa mercê for.../ Oh! que isca esse papel/ pera um fogo que eu sei!” Quando o juiz se defende – “Sempre ego justitia fecit [sempre fiz justiça]” –, o diabo responde: “— E as peitas [subornos] dos judeus/ que a vossa mulher levava?” O corregedor culpa a esposa: “— Isso eu não o tomava,/ eram lá percalços seus.” Surge depois um procurador, carregado de livros, que beija os mãos do corregedor e afirma: “— Eu mui bem me confessei,/ mas tudo quanto roubei/ encobri ao confessor... (...)

Ver o resto (só para assinantes em:

https://www.publico.pt/2020/10/01/opiniao/opiniao/barca-inferno-1933436



quinta-feira, 1 de outubro de 2020

JOSEPH CAMPBELL E OS MITOS

Meu texto no jornal I de hoje (na figura Moers e Campbell):

O professor de Literatura, antropólogo, ensaísta e conferencista norte-americano Joseph Campbell (1904-1987) dedicou praticamente toda a sua vida ao estudo e à explicação dos mitos, procurando poentes entre os mitos da Antiguidade Clássica, das religiões orientais, da Igreja cristã, da moderna cultura popular e até dos índios americanos. Para Campbell há temas comuns nessas várias mitologias: ele defendeu a tese do monomito, ou “jornada do herói”, que é tratada num dos seus primeiros livros O Herói de Mil Faces (1949): o herói sente uma chamada para a aventura, entra, após um período de iniciação, num mundo extraordinário, onde experimenta provações, enfrenta a certa altura um desafio mortal, vence trazendo consigo uma recompensa e, de volta ao mundo comum, vai com ela ajudar as pessoas comuns. O leitor encontrará ressonâncias nas histórias de Prometeu, Buda e Jesus Cristo, mas também nalguns filmes da Disney e na série Star Wars de George Lucas (nestes casos houve influências claras de Campbell).

(ver o resto aqui:

https://ionline.sapo.pt/artigo/710467/joseph-campbell-e-os-mitos?seccao=Mais_i

)

UM MÉTRICA IRRACIONAL E TRANSCENDENTE


Meu artigo no último número de "As Artes entre as Letras":

Qual é a relação entre o poema do matemático francês oitocentista Alphonse Rebière

“Que j’aime à faire apprendre un nombre utile aux sages !

Immortel Archimède, artiste ingénieur,

Qui de ton jugement peut priser la valeur ?

Pour moi, ton problème eut de pareils avantages.”

e o número pi, que é a razão entre o perímetro e o diâmetro de qualquer circunferência:

pi = 3,14159 26535 89793 23846 26433 83279… ?

É fácil ver que o pi está contido no poema: basta contar o número de letras das sucessivas palavras…  Portanto, para saber a sucessão de algarismos do pi basta memorizar o poema.

Num livro recente da Editora da Universidade do Porto, António Machiavelo, professor de Matemática daquela Universidade, e Graça Brites, técnica superiora do ISCTE de Lisboa, propõem-nos 32 poemas do mesmo tipo em língua portuguesa, cada um deles com 32 palavras. Escolho como exemplo um, intitulado precisamente “Pi”:

“Ama o real e muito hermético Pi,

Eterno, fugaz, mas razão circular constante.

Exótica incógnita, não se lhe encontra rota.

Número de remota raiz, tem tal mistério

Que dá intenso acrotismo sério.”

 

Assim como um soneto é um formato poético com uma determinada métrica, os autores recorrem neste curioso livro a uma métrica estranha, a que podemos chamar irracional e transcendente, porque o pi é um número irracional e transcendente.

O que significa neste contexto irracional? E transcendente? Depois de uma curta introdução, os autores, num capítulo intitulado “Prelecções” (eles colocam o pi no lugar do p), expõem brevemente o que é o pi, mostrando como ele é ubíquo na matemática. Fornecem aí uma explicação dos referidos termos, bem conhecidos de quem tem alguma formação matemática.  Números irracionais são aqueles que não podem ser obtidos pela divisão de dois números inteiros (os racionais podem). E números transcendentes são aqueles que não podem ser a solução de nenhuma equação algébrica de coeficientes racionais: por exemplo, é impossível a igualdade a + b pi + c pi^2 = 0 (uma equação de segundo grau), com a, b e c números racionais. A demonstração da transcendência de pi foi feita em 1882 pelo matemático alemão Ferdinand von Lindemann. Ela  resolveu de vez a velha questão da quadratura do círculo, que consiste em construir geometricamente num número finito de etapas um quadrado com a área de um dado círculo.

Outra definição curiosa, devida ao matemático francês Émile Borel, em 1909, é a de “número absolutamente normal”. Um número é designado por este nome, se, escrito em qualquer base (o pi foi atrás escrito na base decimal, mas pode ser escrito nas bases 2, 3, etc.), todas as combinações possíveis com um determinado número de dígitos surgem com igual probabilidade. Nunca foi provado que o número pi é “absolutamente normal”, embora se suspeite que seja. Há uma aplicação à “Biblioteca de Babel”: Escrevendo o o pi na base 27 (o número de letras do alfabeto)  e substituindo os números pelas letras do alfabeto, o número pi  escreve-se C,CVEZCVBMLYZX… A frase “IR À LUA” (mais propriamente IRALUA) encontra-se então na posição 123045765. A representação nessa base de um número absolutamente normal, como será eventualmente o pi, contém todos os textos jamais escritos, incluindo Os Lusíadas, e todos os que estão ainda por escrever (lembremos que a sucessão de letras que representam o pi é infinita e que todas as combinações devem aparecer…). No romance “Contacto”, de Carl Sagan, o autor sugere que o criador do Universo escreveu uma mensagem secreta nos dígitos do pi. O autor é cientista, mas a história é de ficção científica. 

Não deve ter sido fácil aos autores a escrita dos poemas. Podem ter começado com uma ideia, mas depois o rígido formato levou-os a tergiversar. Eles explicam:

”No processo de construção dos poemas praticámos várias abordagens e testámos diversos pontos de partida. Por vezes uma ideia muito apetecida foi obrigada a sucumbir à tirania de um algarismo, pois as palavras que melhor a descreveriam não eram permitidas à luz da métrica escolhida. Tivemos, por isso, que ajustar os vocábulos ao número de letras e, chegados ao fim do poema, o tópico inicial tinha sido substituído por outro completamente diferente daquele que tinha sido planeado inicialmente.

Outras vezes tomámos por mote uma palavra com o número de letras permitidas. A partir delas surgiram-nos darandinas de ideias que tivemos de ir moderando, demarcando. Foi como se, caminhando ao longo de um regato, fôssemos de enxada nas mãos amanhando a terra, assim reedificando os bordos, evitando resvalos de águas e cheias desnecessárias.”

Machiavelo e Brites não dizem como fizeram o seu trabalho: terá sido um “cadáver esquisito”, em que um tinha de continuar a escrita do outro sem saber qual era? Qualquer que tenha sido o método, o resultado é bastante curioso e o livro uma boa contribuição para a cultura científica. Suspeito que um crítico literário dirá que a maior parte dos poemas não serão muito bons, mas poder-se-á responder que o formato é uma verdadeira “camisa de onze varas”. Ou, talvez melhor, uma “camisa de 3,141592654… varas”.