segunda-feira, 12 de outubro de 2020
OS SULCOS DO ROSTO
PLANTAS EM RISCO DE EXTINÇÃO
Mais informações (aqui)
O ensino ao ritmo humano
domingo, 11 de outubro de 2020
ATÉ DOS PÂNTANOS BROTAM NENÚFARES
OS CONIMBRICENSES REVISITADOS
Texto que publiquei recentemente no Jornal de Letras:
Coimbra é famosa pelos Conimbricenses,
ou, mais extensivamente, pelos Comentários a Aristóteles do Colégio
Jesuíta Conimbricense, o conjunto de oito volumes de discussão, em latim, das
obras de Aristóteles que os jesuítas do Colégio das Artes publicaram de 1592 a
1606 e que alcançaram rapidamente expansão global. Tirando as obras maiores da nossa
literatura, nenhuns outros livros nacionais tiveram tanto renome internacional como
os Conimbricenses, que saíram de muitos prelos estrangeiros para
proveito de numerosíssimos estudantes (só na Europa houve mais de 112 edições).
Entre os filósofos que referiram os Conimbricenses contam-se Descartes, Malebranche,
Locke, Leibniz, Marx e Peirce. Sim, Karl Marx citou-os na sua tese de doutoramento
apresentada em Jena em 1841.
Não admira, por isso, que na universidade
que é Património Mundial da Humanidade esteja em curso um projecto que visa
investigar, traduzir e comentar essa produção da Companhia de Jesus, que
detinha, no alto da colina coimbrã, duas escolas preparatórias dos estudos superiores.
O leitor pode ver esse labor no sítio conimbricenses.org, dirigido por Mário Santiago
de Carvalho, professor de Filosofia da Faculdade de Letras local. Encontrará aí
ligações que remetem para duas traduções muitos recentes de dois volumes, ambas
on-line: o IV, os Pequenos Naturais, e o V, a Ética a Nicómaco
(Imprensa da Universidade de Coimbra). As Edições Sílabo tinham publicado em
2010 Da Alma, o vol. VII. Faltam, portanto, traduções da Física (vol.
I), do Céu (vol. II), dos Meteoros (vol. III), da Geração e Corrupção
(vol. VI) e da Dialéctica, isto é, Lógica (vol. VIII). Para
ajudar a ler todos eles, acaba de sair, pela Palimage, o Dicionário do Curso
de Filosófico Conimbricense, onde, em 567 páginas, Mário Santiago de
Carvalho, após uma introdução, discute exaustivamente os termos latinos dos Conimbricenses
(há equivalências português-latim e latim-português no final). É obra de fôlego
que louvo com gosto. Só não percebo por que não foi editada pela Imprensa da
Universidade, editora que tem vindo a distribuir urbi et orbi versões electrónicas da sua produção.
O mesmo autor já nos tinha dado, pela
Imprensa da Universidade (em coedição com a Imprensa Nacional), um livrinho muito
útil que compila o essencial sobre os Conimbricenses (O Curso Aristotélico
Jesuíta Conimbricense, 2018). E, na mesma editora e sobre o mesmo tema,
Cristiano Casalini, investigador italiano, tinha publicado Aristóteles em
Coimbra (2015). Essa literatura crítica e divulgativa acresce ao clássico
de Pinharanda Gomes, o grande historiador da filosofia portuguesa recentemente
falecido, Os Conimbricenses (Guimarães, 1992; há uma edição on-line
da Biblioteca Breve, no sítio do Instituto Camões).
Talvez a glória maior dos
Conimbricenses tenha sido a contrafacção em várias imprensas estrangeiras,
a começar por uma de Francoforte em 1604, do volume sobre lógica que tardava (ignora-se
a origem do texto, mas deve ter vindo de lições lidas no colégio jesuíta de
Évora, muito ligado ao de Coimbra). O livro ficou conhecido por Lógica
Furtiva. O prefácio do vol. VIII esclarecia o roubo (muito óbvio, basta
olhar para a capa da edição, que difere das outras edições principes, todas
ostentando o grande emblema com o IHS dos jesuítas).
A autoria dos Conimbricenses pertenceu
a um colectivo de quatro jesuítas, nenhum deles de Coimbra, embora a maioria falecidos
nessa cidade: Manuel de Góis (Portel, 1543 – Coimbra, 1597), Cosme Magalhães
(Braga, 1551 – Coimbra, 1624), Baltasar Alvares (Chaves, 1560 – Coimbra, 1630) e
Sebastião do Couto (Olivença, 1567 - Montes Claros, 1639), sobressaindo o
primeiro pela amplitude e qualidade do seu trabalho. Na génese da obra está Pedro
da Fonseca (Proença-a-Nova, 1528 – Lisboa, 1599), o “Aristóteles português”,
que foi autor de dois livros aristotelianos com ampla circulação internacional (a
Dialéctica, de 1564, e a Metafísica, de 1577). Nos Conimbricenses
o volume de lógica acabou por sair, pela mão de Couto, em último em vez de ter
a primazia, como no curso oral, ao passo que o volume de metafisica nunca
conheceu a luz do dia. Fonseca pertenceu a uma comissão inicial de preparação
dos Conimbricenses, mas, devido aos seus afazeres, não avançou muito, não
tendo também participado na comissão que acabou por levar a cabo o projecto.
A recepção principal na Europa dos
Conimbricenses deu-se na Alemanha, com edições em Colónia e Mogúncia.
Mas também houve edições na França e na Itália. Já em Inglaterra, dominada por Oxford
e Cambridge, a difusão não foi tão ampla. Mas os livros galgaram os
mares, chegando rapidamente ao Brasil, à Índia, à China e ao Japão (onde os
portugueses tinham arribado em 1543). A difusão na China é digna de realce. Aristóteles
chegou ao Oriente com grande atraso e mais tarde seria se não fosse a intermediação
portuguesa. Chegou quase ao mesmo tempo que Galileu: o jesuíta Manuel Dias, em 1614, numa obra
escrita em mandarim, divulgou no Império do Meio as descobertas galilaicas feitas
com o telescópio.
É bem sabido que a expulsão dos jesuítas
pelo marquês de Pombal em 1759 culminou um processo de propaganda maciça, aquém
e além-fronteiras, que denegriam aqueles padres. A fama mundial alcançada pelos
Conimbricenses mostra, porém, como eram, em larga medida, injustas as acusações
do marquês. Porém, como a verdade não é a preto e branco, havia nelas algum
fundamento. De facto, na altura em que foi publicada a obra coimbrã, decerto escolástica
mas com muitos aspectos inovadores na interpretação de Aristóteles, o
estagirita começava a ser letra morta com o surgimento da “nova ciência”. Já em
1590 Galileu se erguia contra Aristóteles. E, em 1609, era pioneiro a olhar o
céu com um telescópio. Alguns jesuítas acompanhavam as novidades científicas,
como mostram as lições na Aula da Esfera, em Lisboa, onde, em 1615, já se
construíam telescópios.
Os Conimbricenses foram-se
tornando obsoletos ao longo dos séculos XVII e XVIII, e, apesar das tentativas
de renovação do curso filosófico empreendidas pelos jesuítas Soares Lusitano, o
primeiro a introduzir Descartes entre nós (1651), e por António Cordeiro, o
certo é que Luís António Verney tinha razões para, no Verdadeiro Método de Estudar
(1746), espanejar a poeira entretanto acumulada. Descartes criticou os Conimbricenses,
que ele estudou no colégio jesuíta de La Flèche, no Loire, quando numa carta ao
padre Mersenne, um físico amigo dele e de Galileu, lhe disse que os Conimbricenses
eram “longos, sendo bom que fossem mais breves”. Se a filosofia cartesiana reagiu
à escola aristotélica poder-se-á dizer que Coimbra ajudou a instaurar a
modernidade ao propiciar um bom ensejo de crítica… Mas, no meu entender, o papel
maior de Portugal na história da ciência foi ter sido interposto na transferência
de conhecimento do Ocidente para Oriente numa época de uma grande mudança do
mundo a que alguns chamam “primeira globalização”.
Carlos Fiolhais
sábado, 10 de outubro de 2020
RACISMO E ETNIAS
“No dia em que pararmos de nos preocupar com a Consciência Negra, Amarela e Branca e nos preocuparmos com a Consciência Humana o racismo desaparece” (Morgan Freeman).
Que me expliquem por
favor o que pretendem (será pedir
muito?) os pretensos antirracistas, que pediram a nacionalidade dos nados e
criados na “ocidental praia lusitana”, com os seus discursos de ódio contra o
país da sua livre escolha para viver, país cheio de defeitos e racismo, segundo eles?
Se dúvidas tiver o
leitor procure na Net os discursos incendiários de Joacine Moreira, deputada da
Assembleia da República Portuguesa, e de Mamadou Ba, ex-assessor parlamentar do Bloco de
Esquerda, nascido no Senegal que viu, inicialmente, o seu pedido de
nacionalidade ser indeferido por não ter tempo suficiente de residência em
Portugal e conhecimentos de português. Por eles poderão verificar se são paradigma de
concórdia ou se, pelo comentário,
expressam um racismo de quem tem um fígado a destilar bílis por todos os canais biliares!
Mas que querem eles
afinal? Colherem o que outros semearam? Um país em que a competição para um melhor lugar ao sol na ascenção
social seja favorecido pelo tom negro da pele? Quiçá aspirem a cotas, aliás exigidas
por Mamadou, num país que levou séculos a ser levado ao
colo por gerações em que os pais tudo sacrificaram para preparar os seus filhos,
através de estudo forçado em noites insones, por vezes, à luz de um candeeiro de petróleo, simples vela de cera ou projectada por um candeeiro de rua perto de uma janelas
de casa!
Licito será defender um
retrocesso a anos de pálida luz cultural, científica e profissional que
clareou com o esforço e o sacrifício de gerações brancas e negras?
Simplificando: aspiram eles a um lugar de deputado da Assembleia da Republica
para todas as Joacinas Katares que lhe batam histericamente à porta ou todos os Mamadou que ascendeu
meteoricamente na vida política antirracista?
Cotas para negros que chamam “bóstia” à polícia? Quando ele, nos diz, armado em poeta de três ao pataco dando-os exemplos de rimas, que activista rima com optimista, dou-lhe uma achega: também rima com arrivista! Todos iguais em direitos e deveres é o que distingue um país solidário que não defenda os direitos para si e os deveres para os outros. Este o conceito que deve subjazer a um país antirracista sem balelas que encham páginas e páginas de sofismas a tentar esconder princípios de justiça em contravenção com a realidade secular de acontecimentos verdadeiramente democráticos.
Como escreveu Raymond
Polin, “reivindicar direitos sem proclamar obrigações é querer o impossível, é
jogar às utopias ou às catástrofes”. Ora, a história de Portugal, com os seus
defeitos, porque feita e escrita por humanos, é
demasiado rica e nobre para servir de
bola de futebol chutada ainda que mesmo por pessoas com formação universitária
chancelada por um país do continente africano.
Até “os planetas se
chocam e do caos nascem as estrelas”, disse-o Charles Chaplin! Tenhamos
esperança que assim suceda num mundo obscuro em constante convulsões rácicas,
sociais e territoriais. “Fiat lux”!
P.S.: Ampliei o título do meu "post" sobre o "Racismo" para dar uma maior amplitude ao conceito de racismo sob o ponto de vista étnico que não pode ser circunscrito apenas à etnia negra.
sexta-feira, 9 de outubro de 2020
ROGER PENROSE: O GÉNIO DA FÍSICA
Meu artigo no jornal I de ontem:
Metade do Prémio Nobel da Física
de 2020 foi há dias atribuído ao físico-matemático britânico Roger Penrose,
professor emérito de Matemática da Universidade de Oxford, que nasceu em 1931
em Colchester, no Essex, filho de Lionel Penrose, um cientista polifacetado
(médico geneticista, pediátrico e psiquiátrico, para além de teórico do
xadrez), e de Margaret Leathes, uma descendente de refugiados russos.
A razão da atribuição do prémio
mais elevado da Física foi o estabelecimento numa base matemática sólida dos
buracos negros, esses sítios do universo onde o espaço e o tempo terminam
devido à sua deformação extrema, que foi prevista pela teoria da relatividade
geral de Albert Einstein, mas cuja natureza exótica impediu durante muito tempo
que fossem considerados possibilidades reais. O artigo de Penrose de 1965 “Gravitational
Collapse and Space-Time Singularities”, publicado na revista de maior prestígio
da Física, a Physical Reviews Letters, abriu caminho a muitos outros
trabalhos que contribuíram para um melhor conhecimento desses “abismos
cósmicos”. Hoje sabemos que não são apenas soluções matemáticas de equações,
mas sim objectos que existem mesmo: a colisão de dois buracos negros emite
ondas gravitacionais que têm sido recolhidas na Terra (a primeira detecção
dessas ondas valeu o Nobel da Física de 2017 a três investigadores
norte-americanos) e técnicas sofisticadas de radioastronomia permitem obter
imagens de buracos negros supermaciços que existem no centro de galáxias. A
segunda metade do Nobel da Física deste ano foi precisamente para dois
astrofísicos observacionais: o alemão Reinhard Genzel e a norte-americana
Andrea Ghez, que identificaram o superburaco negro que existe no centro da
nossa Galáxia (ou Via Láctea) a partir das órbitas de estrelas muito próximas
dele.
Os trabalhos de Roger Penrose
sobre os buracos negros estão também relacionados coim com o Big bang, a que podemos chamar
“buraco branco”, o oposto de um buraco
negro: no buraco negro acaba o espaço e o tempo, tudo se precipitando para o
seu interior, ao passo que num buraco branco, começam o espaço e o tempo, tudo saindo do seu interior. Tanto os buracos
negros como o Big bang são os lugares mais misteriosos do Universo: são
o fim do mundo e o início do mundo. Eles estão nas fronteiras da ciência.
Sabemos hoje mais do que sabíamos ontem, mas esperamos saber mais sobre eles no
futuro. O físico britânico Stephen Hawking colaborou com Penrose sobre os
teoremas que abrangem os buracos negros e o Big bang, chamados “teoremas
da singularidade”. Os dois publicaram em 1970 um artigo onde afirmam que, aceitando
a validade da teoria da relatividade geral e de certos modelos geométricos do
cosmos, o nosso Universo tinha de começar com uma singularidade. Tanto Penrose
como Hawking continuaram, ao longo das suas “linhas do tempo”, a especular
sobre buracos negros e sobre o Big bang. Penrose formulou hipóteses a
que chamou de “censura cósmica” a propósito da existência de singularidades ditas
“nuas” (daí o nome de censura) e, mais tarde, propôs que haveria um universo
anterior ao Big bang, formulando uma teoria cíclica do tempo universal.
Penrose trabalhou, além da astronomia
e da cosmologia, em vários outros tópicos; desde o preenchimento geométrico do plano
com mosaicos especiais (um trabalho inspirado pelas gravuras do artista holandês
Maurits Cornelis Escher), até aos mistérios últimos da consciência humana. Penrose
formulou a hipótese muito controversa segundo a qual o funcionamento do cérebro
humano apenas seria explicável por um fenómeno quântico. Para ele o nosso cérebro
não pode ser imitado por um computador convencional, em clara oposição aqueles
que defendem o chamado “programa da inteligência artificial forte”. A discussão
deste assusto assunto conduziu Penrose ao campo fascinante da filosofia
da mente.
Roger Penrose é um popularizador
da ciência, que tem levado ao grande público as suas ideias mais exóticas,
tanto no domínio da astrofísica como no das neurociências. Ele é o autor de
quatro livros traduzidos em português, publicados todos eles pela Gradiva, que
vamos enumerar e comentar sucintamente.
O primeiro, escrito em conjunto
com Stephen Hawking, foi A Natureza do Espaço e do Tempo (1996): é um
diálogo entre estes dois grandes físicos. O livro, que é o n.º 3 da coleção Trajectos
da Ciência, foi traduzido pelo matemático Jorge Buescu. A discussão entre Penrose
e Hawking teve lugar num ciclo de seminários
realizados em 1994 no Instituto de Ciências Matemáticas Isaac Newton da
Universidade de Cambridge (Hawking ocupou a Cátedra Lucasiana de Matemática que
foi outrora de Newton). O conteúdo do livro é um pouco técnico, uma vez que os
autores não fogem a equações, mas mesmo quem não consiga perceber a letra, pode
ouvir a música: fala-se não só da teoria da relatividade geral como da sua eventual
combinação com a teoria quântica. Hawking propôs uma combinação ad hoc entre
as duas, da qual surgiu como resultado mais forte a emissão de luz e de partículas
pelos buracos negros: os buracos negros poderiam não ser negros. Mas essa radiação
de Hawking nunca foi observada até agora, conhecendo nós até as razões para
essa não observação: Se houve no início do mundo mini-buracos negros que
podiam evaporar dessa maneira, eles já evaporaram. Os grandes buracos negros evaporam muito
lentamente.
O segundo livro de Penrose a sair
entre nós foi A Mente Virtual. Sobre computadores, mentes e as leis da
física (1997), n.º 93 da colecção Ciência Aberta, no original inglês
The Emperor’s New Mind, uma alusão à fábula da “Nova Roupa do Rei” de
Hans Christian Andersen. O prefácio é de Martin Gardner, o matemático amador
que durante décadas teve uma coluna de problema matemáticos na revista Scientific
American, e a tradução de Augusto José Franco de Oliveira, Carlos Lourenço
e Luís Teixeira da Costa. Este livro, trata do “universo, computadores e tudo o
resto” (uso aspas pois dei esse título a
um dos meus livros): fala da inteligência artificial e natural, de matemática e
realidade, de verdade e demonstração, de
teorias clássicas da física e da teoria quântica, do Big bang e da evolução
temporal, do problema da gravidade quântica e, finalmente, da fisica da mente,
onde Penrose expõe as suas ideias que dão um lugar particular ao cérebro humano
no contexto da Criação (não me entendam mal, pois Penrose é ateu). É um clássico
da divulgação científica!
O livro seguinte em português foi
O Grande, o Pequeno e a Mente Humana (2003), n.º 124 da Ciência Aberta,
traduzido por David Resendes. Os interlocutores de Penrose numa discussão intelectual
sobre o Universo e a mente são os filósofos Abner ShImony e Nancy Cartwright e
o físico Stephen Hawking.
O último livro de Penrose publicado
entre nós foi Ciclos do Tempo. Uma visão nova e extraordinária do Universo (2013),
n.º 198 da Ciência Aberta, com o subtítulo tradução de Nelson Rei
Bernardino. É neste livro – suponho que o único que não se encontra esgotado – que
ele aborda o tempo antes do tempo. E é nele que fala de buracos negros no
centro de galáxias. Deixo um excerto onde fala do buraco negro no centro da Via
Láctea, cuja descoberta foi agora premiada pela Academia sueca: “As observações
mais impressionantes… ocorrem com os movimentos orbitais muito rápidos de
estrelas visíveis em volta de uma entidade invisível mas enormemente massiva e compacta
no centro da Galáxia, A velocidade destes movimentos é tal que esta entidade
tem de ter uma massa de quatro milhões de massas solares! É difícil imaginar
que isto possa não ser um buraco negro.” Hoje temos ainda menos dúvidas.
Penrose escreveu ainda dois prefácios
para obras que estão traduzidas em português, um para o livro do físico
austríaco Erwin Schroedinger, A Natureza e os Mitos; e Ciência e Humanismo
(Edições 70, 1999) e outro para o livro de
Einstein, O Annus Mirabilis de Einstein, que contém os seus revolucionários
artigos de 1905, uma obra com edição e introdução de John Stachel (Gradiva,
2006).
Mas Penrose é autor de várias outras
obras, não traduzidas entre nós. Uma delas é Shadows of the Mind, A search
for the missing science of consciousness (1994), que é uma sequela
de A Mente Virtual, onde responde a várias críticas que lhe foram
endereçadas (entretanto Penrose e o médico
Stuart Hameroff, tinham proposta uma explicação do cérebro baseada em efeitos
quânticos em microtúbulos). Uma que não
está publicada em português é um “tijolo” com mais de mil páginas. The Road
to Reality: A Complete Guide to the Laws of the Universe (2004), que
li há mais de uma década quando tive de recuperar de uma demorada doença. Penrose,
nessa obra, bastante técnica, é sempre estimulante por a pelo facto de a
sua mente não se prender às formulações convencionais. O seu livro mais recente
é Fashion, Faith and Fantasy in the New Physics of the Universe (2017),
que, sendo menor que o anterior, não deixa de ser grande: tem mais de 500 páginas.
Estão lado a lado na minha estante.
Penrose é, de entre as muitas mentes
brilhantes que povoam a Terra, uma das que podemos com mais propriedade chamar génio.
Não sei se o funcionamento dela é
quântico ou não, mas sei que a sua mente tem ousado enfrentar os grandes
mistérios do cosmos e do homem.
Ajude a identificar a localização desta espécie.
Decerto que já deve ter reparado numas aves verdes e barulhentas que esvoaçam pelos arvoredos de algumas cidades do nosso país. São os periquitos-de-colar (Psittacula krameri), uma espécie exótica de origem africana e asiática e que nas últimas décadas chegou ao nosso país e está a expandir-se.
Agora a SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves lança-nos o desafio de identificar os locais onde estas aves se juntam para dormir. Esta organização está a preparar uma contagem inédita por todo o país, mas antes é necessário identificar os locais. Para isso, toda a ajuda é bem vinda. Entre 15 de Outubro e 15 de Novembro, pode fazer as suas observações ao fim do dia.
Neste link, a SPEA explica como participar, o que tem de fazer, como identificar a espécie
![]() |
| Crédito: Guilherme F. Lima, fonte: wikipedia |
Se se interessa por aves, e já que estamos a falar de espécies que não são nativas de Portugal, a SPEA vai realizar um webinar gratuito sobre "Aves exóticas e invasoras em Portugal", no dia 15 de Outubro, às 18h30. Para saber mais, veja aqui.
quinta-feira, 8 de outubro de 2020
Nobel da Literatura 2020 — Louise Glück
A poetisa americana Louise Clück foi hoje distinguida com o Prémio Nobel da Literatura 2020.
Professora universitária, Louise Clück é considerada uma das maiores poetisas dos Estados Unidos da América e conta, no seu curriculum, com vários prémios e distinções.
Em Portugal, está representada na colectânea "Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o futuro", publicada pela editora Assírio & Alvim.
Ítaca
O ser amado não
precisa viver. O ser amado
vive na cabeça. O tear
é para os pretendentes, suspenso
como uma harpa de brancos filamentos.
Ele era duas pessoas.
Era corpo e voz, o fácil
magnetismo de um homem vivo, e então
o sonho revelado ou a imagem
formada pela mulher manejando o tear,
ali sentada num salão cheio
de homens de mentes literais.
Se te causa pena
o mar enganado que tentou
levá-lo para sempre
e devolveu apenas o primeiro,
o verdadeiro marido, deverias
sentir pena desses homens: eles não sabem
para o que estão olhando;
eles não sabem que quando alguém ama dessa maneira
o manto se torna um vestido de casamento.
(Tradução de Pedro Gonzaga, poeta, tradutor, músico e professor; Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - https://estadodaarte.estadao.com.br/poesia-em-casa-dois-poemas-de-louise-gluck/).
Descoberta de possível subespécie de Fura-bucho-do-Atlântico nas Canárias
Segundo um estudo publicado na revista Journal of Avian Biology, uma equipa internacional que conta com quatro técnicos da SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves como autores, relata que o Fura-bucho-do-Atlântico (Puffinus puffinus), que se pensava ser uma só espécie que nidificava no Atlântico Norte (Reino Unido e Irlanda, com pequenas colónias, nos Estados Unidos da América, Canadá, Espanha e Portugal), afinal pode ter uma subespécie nas Canárias, dadas as diferenças encontradas pelos investigadores nas aves dessa população. Esta descoberta poderá ter impacto nas medidas de conservação a aplicar, principalmente atendendo a que o tamanho dessa população tem vindo a diminuir.
O artigo pode ser consultado aqui: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/jav.02633
Créditos: Alix d'Entremont. Fonte: https://ebird.org/species/manshe?terça-feira, 6 de outubro de 2020
NOVOS CLASSICA DIGITALIA
Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto
NOVIDADES EDITORIAIS
Série “Autores Gregos e Latinos” [textos]
- Reina Marisol Troca Pereira: Ps. Eratóstenes. Constelações do Zodíaco (’Αστροθεσίαι ζωδίων). Introdução, tradução do grego, notas e índices (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020). 164 p.
DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-1948-4
[Este escrito pseudoeratosténico retrata um grupo de episódios que não se limita a 12 constelações. Tampouco discorre acerca de influências/condicionalismos deterministas sobre eventualidades e comportamentos diários, mensais ou anuais das criaturas terrenas da Época Alexandrinista. Embora não se trate de um tratado astronómico e o estilo prima por um caráter simples e sucinto, muito há para descodificar nos pouco mais de quarenta episódios. De conotações astronómicas, apresenta-se como um exercício de aproximação, ao proporcionar ao recetor explicações de algo visível, mas não atingível - as constelações, através de imagens do saber comum, radicadas em cenas e aspetos mitológicos.]
Série “Documentos” [estudos]
- Carlota Simões, Margarida Miranda & Pedro Casaleiro, Visto de Coimbra: o Colégio de Jesus entre Portugal e o Mundo (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020). 424 p.
DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-1871-5
[Este livro resulta em grande parte das contribuições para o Colóquio 'VISTO DE COIMBRA - O Colégio de Jesus entre Portugal e o Mundo' que decorreu na Universidade de Coimbra em Maio de 2017 e culminou com a exposição homónima no Museu da Ciência da UC em Setembro do mesmo ano, mas também do ciclo 'Cultura Ciência Culto' que teve lugar durante todo o ano de 2016. Na capa reproduz-se uma gravura da Lua feita por Cristovão Borri (Collecta Astronomica, 1631), muito provavelmente o mais antigo documento gráfico de uma observação astronómica feita em Portugal e que teve lugar na cidade de Coimbra. Sobre a figura pode ler-se ‘em Coimbra, a exata face da Lua crescente, com idade de seis dias, vista por um tubo ótico em julho de 1627’.]
_______________________________________________ Classicadigitalia_pt mailing list Classicadigitalia_pt@uc.pt http://ml.ci.uc.pt/mailman/listinfo/classicadigitalia_pt
UMA ABORDAGEM AO METAMORFISMO E ÀS ROCHAS METAMÓRFICAS
Nota prévia. Ao cumprir o capítulo do programa oficial referente ao metamorfismo e às rochas metamórficas, o professor, ainda que ao nível das generalidades, tem de saber do que é que está a falar. Só assim, um micaxisto, um anfibolito, um mármore ou um gnaisse, entre outras rochas metamórficas mais comuns, deixam de ser pedras, apenas mais umas pedras com um nome destituído de significado (e, até, de beleza) simplesmente memorizado, predestinado a esquecer, passado que seja o exame final. Acrescente-se que esta advertência é válida para o magmatismo, sedimentogénese e respectivas rochas.
O quartzo das areias e dos arenitos, as argilas dos argilitos, dos xistos argilosos e das ardósias, a calcite e a dolomite dos calcários e todos os outros minerais próprios da actividade geológica de superfície (também dita supergénica) podem, em certos casos, mergulhar, incluídos nas respectivas rochas, para níveis mais ou menos profundos da crosta onde vão permanecer durante milhões e milhões de anos, sujeitos a pressões e a temperaturas mais elevadas do que aquelas em que tiveram nascimento, arrastados na sequência do processo de subducção ou envolvidos no interior de uma cadeia orogénica.
segunda-feira, 5 de outubro de 2020
OS DITADORZINHOS
Começo a ter
dificuldade em destrinçar a esquerda e a direita em Portugal em que são tidos
como progressistas os que mentem em nome
do povo e fascistas os que falam em nome da verdade.
Numa análise digna de
registo, Maria José Morgado, procuradora-geral adjunta do Tribunal da Relação
de Lisboa, diz-nos que “no país
perdeu-se um bocado o sentido de ser de esquerda
ou de direita tendo fazer mais sentido ser honesto. Defender interesses
de transparência e integridade que às vezes não têm a ver ser de esquerda ou de
direita". E prossegue, "haver gente de esquerda que não tem princípios de integridade
e transparência e gente de direita que
tem”.
De forma aleatória,
sem fazer uma análise actualizada da acção dos diversos partidos políticos nos
diversos momentos da vida nacional, votantes há que se limitam a colocar uma
cruzinha no quadrado do respectivo
boletim de voto. Já é altura do cidadão, que Charles Dikens nos disse "ser o homem um animal de hábitos" que, em acrescento meu, cria raízes, fazer uma reflexão (toda a reflexão
deve libertar-se de paixões que a possam deturpar ) sobre esta notícia que pela sua extensão transcrevo
parcialmente (Lusa Jornal, 03/10/2020):
“Vitor Caldeira fez
vários pedidos de audiência a S. Bento, mas o primeiro-ministro não lhe
respondeu.
Assim, para além da
falta do princípio de civismo e de simples educação em responder a quem nos escreve, existe, passo a citar, o “desrespeito pelo presidente do Tribunal de
Contas e da própria instituição” e “falta de cortesia” para com o actual
titular do cargo, por este este ter exercido o cargo de “forma isenta e tecnicamente irrepreensível”
e, apesar disso, não ter sido
reconduzido, mas despedido com um simples telefonema de António Costa.
De facto, como o SOL, apurou, foi pelo telefone que o primeiro-ministro e líder do PS comunicou ao presidente
do Tribunal de Contas que os socialistas não iriam avalisar ao seu nome
para novo mandato no Parlamento.
Como adianta a
referida notícia, “o que é certo é que o Tribunal de Contas arrancou este ano com
auditorias arrasadoras para o poder Central e Local que fizeram correr tinta. Com esta situação, o verniz
estalou entre a entidade liderada por Vitor Caldeira e o Governo.
O SOL apurou, igualmente, que Vítor Caldeira enviou
vários pedidos a S. Bento para ser recebido em audiência formal pelo
primeiro-ministro, mas nunca obteve resposta positiva, etc., etc."
Mas
tanto basta para ficarmos cientes de que a metodologia utilizada para esta
estranha situação ultrapassa os limites
do despedimento de qualquer funcionário público ou mesmo simples empregada doméstica que estão a coberto de serem postos na rua com um simples telefonema.
Como cereja em cima do bolo, em publicação
nas redes sociais, confirmada pelo polígrafo, ressalta o facto de
uma deselegância rancorosa de um "deputado do PS chamar mentecaptos a
juízes do Tribunal de Contas". Este deputado de sua graça, Ascenso Simões, julgará, arregaçando as mangas em atitude provocatória, dar lições de civismo que não cumpre minimamente?
E
é tanto mais estranho num país em que se distribuem condecorações e louvores a tantos medíocres que
curvam a cerviz aos seus superiores de quem esperam favores. Mas já nada me espanta,
outrossim, num país em que ao forte é permitido fazer o que quer e ao fraco exigido o que,
despoticamente, lhe mandam fazer. Como eu escrevi em tempos baseado na minha experiência de vida, quem faz o que
lhe manda o partido é progressista quem faz o que lhe manda a consciência é
reacionário!
Tendo em mente a previsão dos quatro cavaleiros do Apocalipse, anunciando a peste, a guerra, a fome e a morte, hoje encavalitadas na garupa do corona vírus com o freio nos dentes, não deverá este estado de coisas servir de motivo, “per se”, para que os votos não sejam depositados nas urnas como uma coisa que se cumpre levianamente? A perigosidade do mundo actual exige do acto democrático votar após uma reflexão demorada não já apenas de sobrevivência nacional, mas planetária!
Não
deixemos para amanhã o que deve se feito
hoje porque amanhã pode ser tarde. Como
dizia um dos nossos companheiros de café do meu tempo de rapaz, filho de um construtor civil de grandes
cabedais e escassos estudos e ele igualmente, que gostava de falar difícil perante uma assistência de estudante de
ensino superior avisando-os, ainda que na procura das coisas mais corriqueiras
a decidir que o tempo “ruge”!
Ou
seja, o tempo não “ruge”, mas urge, isso sim, em votar em plena consciência para evitar arrependimentos futuros cujos reflexos
incidem sobre o votante de cabeça ao vento levando-o a chorar, mais tarde, sobre o leite por por ele próprio derramado ainda que mesmo em poucas
gotas. Saiba ele assumir a sua responsabilidade não a atirando para cima das
costas dos outros!
sábado, 3 de outubro de 2020
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
A FILANTROPIA DE PEDRO ABRUNHOSA

“Há épocas de tal corrupção que, durante elas, só o excesso de fanatismo pode, no meio da imoralidade, servir de escudo à nobreza e à dignidade das almas rijamente temperadas”
(Alexandre Herculano).
Pedro Abrunhosa virou filantropo com o dinheiro dos contribuintes ao defender o aumento dos ordenados dos deputados da Assembleia da República.Perguntas que me
obrigo a fazer numa altura em que Portugal atravessa uma
grave crise financeira a ponto de “nuestros hermanos” estarem a pensar diminuir
o número dos seus deputados bem menor quando comparado com os nossos
deputados, medida que seria bem vinda para o nosso país pelas
respectivas implicações económicas.
Será que ele, Abrunhosa, julgue que os
vencimentos auferidos pelos deputados se reduzem à declaração feita para
efeitos de pagamentos de impostos sem tomar em linha de conta prebendas com seja o restaurante gourmet da AR
onde pagam por lautas refeições dez reis de mel coado? Ou o facto de serem subsidiados por morarem longe de Lisboa. Claro que se essa deslocação se fizer a pé,
nem que sejam simples metros de
distância, é um sacrifício que gasta
solas devendo ser bem recompensados por os sapatos da moda custarem os
olhos da cara. E isto para já não falar
no facto, ao que se diz, da AR ser um mercado rendoso de trocas de influências
e favores? Serão apenas as más línguas a falar? Mesmo que assim seja, com respaldo
num ditado latino, “à mulher de César
não basta ser honesta, tem que o parecer!”
Como é sabido, os artistas, por vezes, têm devaneios que a sua imaginação prodigiosa justifica. Pelo que deduzo, Abrunhosa com voz rouca de tanto gritar num mundo de lamúrias por justiça social chegue ao exagero de pedir o aumento de deputados, uns tanto deles, que se não fosse a política estariam no desemprego aumentando os cerca de 8% (ou mais?) de desempregados, alguns licenciados outros doutorados, conquanto Leite Pinto, ministro da Educação do tempo do Estado Novo, ter dito haver duas maneiras de mentir: "Uma é não dizer a verdade, outra fazer estatística".
Por hipótese, concedamos que os deputados ganham pouco tendo, quando escolheram esta “profissão miseravelmente paga”, prescindido de ordenados chorudos acenados de outras bandas. Então sim, o povo teria a obrigação de lhes dever eterna de gratidão pelo sacrifício devotado à causa pública!
Libertando-nos de situações meramente congemináveis, comunguemos do desânimo de Eça no século XIX.
“No meio de tudo isto que fazer? Portugal tem atravessado crises igualmente más, mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e caracter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não – pelo menos o Estado não tem - e os homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior – e sem cura”.
Resta-nos a ténue esperança que os raros homens, de que nos falava Eça, se os há neste século, apareçam à luz do dia sacrificando-se pela Pátria, embora a palavra pátria tenha entrado no rol das palavras indesejáveis na tentativa de refazer a História de Portugal de que dei conta num post, por mim publicado recentemente no “DRN” (28/09/2020), intitulado: “Texto de António Barreto para Meditação”. Meditemos, portanto, que a hora que o país atravessa assim o exige!
"Vínculos filosóficos"
João Ferreira Annes de Almeida - O Primeiro Tradutor da Bíblia para Português
A BARCA DO INFERNO
Meu artigo no Público de ontem:
“Auto” tanto pode ser uma peça de um processo judicial como uma peça de teatro. Os autos da Operação Lex fizeram-me lembrar o Auto da Barca do Inferno, que Gil Vicente escreveu em 1517. Neste último há um corregedor, carregado de papéis, que o diabo manda entrar na sua barca. O diabo, que é velho, não tem dúvidas em condená-lo por corrupção. Diz-lhe, misturando latim: “— Quando éreis ouvidor/ Nonne accepistis rapina? [não aceitastes subornos?]/ Pois ireis pela bolina/ onde nossa mercê for.../ Oh! que isca esse papel/ pera um fogo que eu sei!” Quando o juiz se defende – “Sempre ego justitia fecit [sempre fiz justiça]” –, o diabo responde: “— E as peitas [subornos] dos judeus/ que a vossa mulher levava?” O corregedor culpa a esposa: “— Isso eu não o tomava,/ eram lá percalços seus.” Surge depois um procurador, carregado de livros, que beija os mãos do corregedor e afirma: “— Eu mui bem me confessei,/ mas tudo quanto roubei/ encobri ao confessor... (...)
Ver o resto (só para assinantes em:
https://www.publico.pt/2020/10/01/opiniao/opiniao/barca-inferno-1933436
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
JOSEPH CAMPBELL E OS MITOS
Meu texto no jornal I de hoje (na figura Moers e Campbell):
O professor de Literatura, antropólogo,
ensaísta e conferencista norte-americano Joseph Campbell (1904-1987) dedicou
praticamente toda a sua vida ao estudo e à explicação dos mitos, procurando
poentes entre os mitos da Antiguidade Clássica, das religiões orientais, da
Igreja cristã, da moderna cultura popular e até dos índios americanos. Para
Campbell há temas comuns nessas várias mitologias: ele defendeu a tese do
monomito, ou “jornada do herói”, que é tratada num dos seus primeiros livros O
Herói de Mil Faces (1949): o herói sente uma chamada para a aventura, entra,
após um período de iniciação, num mundo extraordinário, onde experimenta
provações, enfrenta a certa altura um desafio mortal, vence trazendo consigo
uma recompensa e, de volta ao mundo comum, vai com ela ajudar as pessoas
comuns. O leitor encontrará ressonâncias nas histórias de Prometeu, Buda e
Jesus Cristo, mas também nalguns filmes da Disney e na série Star Wars
de George Lucas (nestes casos houve influências claras de Campbell).
(ver o resto aqui:
https://ionline.sapo.pt/artigo/710467/joseph-campbell-e-os-mitos?seccao=Mais_i
)
UM MÉTRICA IRRACIONAL E TRANSCENDENTE
Meu artigo no último número de "As Artes entre as Letras":
Qual é a relação entre o poema do matemático francês oitocentista Alphonse Rebière
“Que
j’aime à faire apprendre un nombre utile aux sages !
Immortel
Archimède, artiste ingénieur,
Qui
de ton jugement peut priser la valeur ?
Pour moi, ton problème eut de pareils avantages.”
e o número pi, que é a
razão entre o perímetro e o diâmetro de qualquer circunferência:
pi =
3,14159 26535 89793 23846 26433 83279… ?
É fácil ver que o pi está
contido no poema: basta contar o número de letras das sucessivas palavras… Portanto, para saber a sucessão de algarismos
do pi basta memorizar o poema.
Num livro recente da
Editora da Universidade do Porto, António Machiavelo, professor de Matemática
daquela Universidade, e Graça Brites, técnica superiora do ISCTE de Lisboa, propõem-nos
32 poemas do mesmo tipo em língua portuguesa, cada um deles com 32 palavras.
Escolho como exemplo um, intitulado precisamente “Pi”:
“Ama o real e
muito hermético Pi,
Eterno, fugaz, mas
razão circular constante.
Exótica incógnita,
não se lhe encontra rota.
Número de remota
raiz, tem tal mistério
Que dá intenso
acrotismo sério.”
Assim como um soneto é um
formato poético com uma determinada métrica, os autores recorrem neste curioso
livro a uma métrica estranha, a que podemos chamar irracional e transcendente,
porque o pi é um número irracional e transcendente.
O que significa neste
contexto irracional? E transcendente? Depois de uma curta introdução, os
autores, num capítulo intitulado “Prelecções” (eles colocam o pi no lugar do p),
expõem brevemente o que é o pi, mostrando como ele é ubíquo na matemática.
Fornecem aí uma explicação dos referidos termos, bem conhecidos de quem tem alguma
formação matemática. Números irracionais
são aqueles que não podem ser obtidos pela divisão de dois números inteiros
(os racionais podem). E números transcendentes são aqueles que não podem ser a
solução de nenhuma equação algébrica de
coeficientes racionais:
por exemplo, é impossível a igualdade a + b pi + c pi^2 = 0 (uma equação
de segundo grau), com a, b e c números racionais. A demonstração
da transcendência de pi foi feita em 1882 pelo matemático alemão
Ferdinand von Lindemann. Ela resolveu de
vez a velha questão da quadratura do círculo, que consiste em construir
geometricamente num número finito de etapas um quadrado com a área de um dado círculo.
Outra definição curiosa,
devida ao matemático francês Émile Borel, em 1909, é a de “número absolutamente
normal”. Um número é designado por este nome, se, escrito em qualquer base (o pi
foi atrás escrito na base decimal, mas pode ser escrito nas bases 2, 3, etc.),
todas as combinações possíveis com um determinado número de dígitos surgem com
igual probabilidade. Nunca foi provado que o número pi é “absolutamente normal”,
embora se suspeite que seja. Há uma aplicação à “Biblioteca de Babel”: Escrevendo
o o pi na base 27 (o número de letras do alfabeto) e substituindo os números pelas letras do alfabeto,
o número pi escreve-se C,CVEZCVBMLYZX…
A frase “IR À LUA” (mais propriamente IRALUA) encontra-se então na posição
123045765. A representação nessa base de um número absolutamente normal, como será
eventualmente o pi, contém todos os textos jamais escritos, incluindo Os
Lusíadas, e todos os que estão ainda por escrever (lembremos que a sucessão
de letras que representam o pi é infinita e que todas as combinações
devem aparecer…). No romance “Contacto”, de Carl Sagan, o autor sugere que o
criador do Universo escreveu uma mensagem secreta nos dígitos do pi. O autor é
cientista, mas a história é de ficção científica.
Não deve ter sido fácil
aos autores a escrita dos poemas. Podem ter começado com uma ideia, mas depois
o rígido formato levou-os a tergiversar. Eles explicam:
”No processo de
construção dos poemas praticámos várias abordagens e testámos diversos pontos
de partida. Por vezes uma ideia muito apetecida foi obrigada a sucumbir à
tirania de um algarismo, pois as palavras que melhor a descreveriam não eram
permitidas à luz da métrica escolhida. Tivemos, por isso, que ajustar os
vocábulos ao número de letras e, chegados ao fim do poema, o tópico inicial
tinha sido substituído por outro completamente diferente daquele que tinha sido
planeado inicialmente.
Outras vezes tomámos por
mote uma palavra com o número de letras permitidas. A partir delas surgiram-nos
darandinas de ideias que tivemos de ir moderando, demarcando. Foi como se,
caminhando ao longo de um regato, fôssemos de enxada nas mãos amanhando a
terra, assim reedificando os bordos, evitando resvalos de águas e cheias
desnecessárias.”
Machiavelo e Brites não dizem como fizeram o seu trabalho: terá sido um
“cadáver esquisito”, em que um tinha de continuar a escrita do outro sem saber
qual era? Qualquer que tenha sido o método, o resultado é bastante curioso e o
livro uma boa contribuição para a cultura científica. Suspeito que um crítico
literário dirá que a maior parte dos poemas não serão muito bons, mas poder-se-á
responder que o formato é uma verdadeira “camisa de onze varas”. Ou, talvez
melhor, uma “camisa de 3,141592654… varas”.












