quinta-feira, 3 de setembro de 2020

A PACIÊNCIA TAMBÉM SE ESGOTA


(Minha foto com trinta e tal anos de idade)

“Tudo deve ser discutido. Sobre isso não há discussão” (Dino Segrè, escritor e jornalista italiano, 1893-1976).

Em 1948, era eu um jovem de dezassete anos de idade, tempo em que as desavenças entre a rapaziada eram resolvidas ao murro, à chapada e, de quando em vez, com uma cabeçada, existia um indivíduo, considerado o rei da cabeçada de Lisboa, com a alcunha de “Bitas”, de estatura meã e sem físico que impusesse respeito. Hoje terminam essas rixas, por vezes, à facada ou a tiro!

Pretendia eu então inscrever-me na secção de halterofilismo do Ginásio Clube Português, cujo treinador aconselhou o franganote (moi-même): “Vai para casa, come umas sopinhas e depois aparece”! Assim fiz, passado uns tempos, voltei à sua presença que impressionado com a insistência dos meus sessentas e poucos quilos, mais de ossos e menos de músculos, pegou numa barra de ferro com poucas dezenas de quilos passando-ma para as mãos para eu a levantar. Dito e feito! Entusiasmado, pedi uma barra com o meu peso corporal que levantei acima da cabeça.
Espantado, mandou ele chamar os alunos da classe de levantamento de pesos que, simultaneamente, frequentavam, um piso abaixo, uma classe de luta greco-romana, dizendo-lhes: “Este “lingrinhas” levantou o equivalente ao seu peso corporal e vocês espremem-se todos para o conseguir em igualdade de circunstâncias"!

Começava , então, a popularizar-se a prática do culturismo em Portugal, e porque, segundo Roland Barthes, “existe uma erótica do novo, o velho é sempre suspeito”, inscrevi-me no culturismo tendo vir a ser, anos depois, campeão de Moçambique de “bench press” (supino no banco).
A malta dos levantamentos dos pesos e halteres e culturismo era uma espécie de família de farras nocturnas. Uma coisa aprendi com eles: o desforço físico dos fortes sobre os fracos é o argumento dos falhos de razão.
Isto a propósito, da maneira cordata das minhas respostas a comentários menos correctos que me são dirigidos sem comentários agressivos e, muito menos, insultuosos de fazer corar os carroceiros, com que uma comentadora me elogiou tempos atrás. Mas, por vezes, a paciência também se esgota.
Dois exemplo, um antes de 25 de Abril, outro depois desta data:

O primeiro caso, sendo eu na altura alferes miliciano, estando de oficial de dia, dirigi-me com os soldados a marchar, para o refeitório do regimento. A páginas tantas, um soldado reinadio passou uma rasteira ao camarada da frente, tendo-o eu advertido para não o voltar a fazer, mas ele repetiu a gracinha. Mandei-lhe um calduço!
Antes do toque da ordem desse dia, mandei-o chamar à minha presença explicando-lhe a razão para o calduço. Respondeu-me que eu tinha tido razão, mas não estar à espera da minha reacção por eu ser um oficial “porreiro”. Porreiro, mas a paciência também se esgota!
O segundo, durante uma aula no liceu o filho de um senhor muito importante, daqueles que tudo querem, podem e mandam, brincou numa das minha aulas, facto que me levou a dar-lhe uma palmada no ombro numa espécie de vacina para evitar a propagação do vírus da indisciplina! De pronto, ameaçou-me que se iria queixar à Associação de Pais dos Alunos, facto que achei bem por eu estar a pensar em criar uma Associação de Pais de Professores para me queixar, por minha vez, dele. Desta forma gozona tudo acabou ali!
É natural que, aqui chegado, o leitor se interrogue a que propósito vem isto aqui? Repousa no facto de já estar farto de uma telenovela de que são primeiras figuras o PCP, a ministra da Saúde e a directora-geral da Saúde, sendo os cidadãos meros figurantes sobre a realização da Festa do Avante que tempos houve não ter recolhido unanimidade por parte do próprio PCP. Estamos a três dias da Festa do Avante. Pondo o carro à frente dos bois os bilhetes vendidos para ela excedem o número definitivo de participantes e o Zé Povinho não tem direito a ser informado do que se vai passar. Apenas breves zunzuns de mentideiros.
Entrementes, a ministra e a directora-geral da Saúde continuam de pedra e cal, verdade seja dita, a ministra com ar abatido nas entrevistas televisivas que dá e a directora-geral tendo tomado medidas para melhorar a sua imagem televisiva com corte de cabelo moderno, écharpes ao pescoço de cores garridas nada condizentes com a negrura do tempo que atravessamos de um aumento de mortes pelo coronavírus que me levam a não ter o optimismo da canção de Edith Piaff, “La vien en rose”. Ou seja, “la vie en noir”, se não houver o milagre de um pulso de ferro, de coerência, de coragem e, principalmente, de honestidade para tomar medidas efectivas de segurança contra o coronavírus evocando e acusando Donald Trump e Jair Bolsonaro de incapacidade para resolver este imbróglio que se está a passar nos seus países e quase reduzindo ao segredo dos deuses o sucesso estrondoso de Ângela Merkel neste “status quo”!
A Alemanha serviu, tempos atrás, de prato forte à esquerda e extrema-esquerda portuguesas para atacar o nazismo e defender o estalinismo. E neste verdadeiro “tour de force”, em que se transformou a Festa do Avante, o prato da balança pende decididamente para o lado do PCP, assumindo o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, um papel neutral, quiçá, porque, como escreveu Hannah Arendt, “vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores a esperança”!
P.S,: Acabo de tomar conhecimento de que foi rejeitada a Providência cautelar contra a Festa do Avante restando, portanto, que sejam cumpridas à risca as condições tidas por convenientes para salvaguarda de preciosas vidas humanas.

"Democracia em queda", meu artigo no Público de hoje


OPINIÃO

Democracia em queda

Com o recente golpe do PSD e do PS torna-se mais difícil a tarefa dos cidadãos que se mobilizam pelas suas terras, que além do mais são alvo de discriminação fiscal.

Uma alteração legislativa que acaba de ser publicada pela calada, com a complacência do Presidente da República, após o PS ter apoiado uma proposta do PSD na Assembleia da República, veio limitar a participação dos movimentos independentes nas próximas eleições autárquicas, daqui a pouco mais de um ano. Os dois maiores partidos nacionais, nesta sua tentativa de monopolização da democracia, estão de facto a prejudicá-la, alienando cada vez mais o eleitorado.

A referida alteração impede os movimentos de cidadãos de concorrerem com a mesma designação e símbolo à Câmara Municipal e à Assembleia Municipal, por um lado, e às Assembleias de Freguesia, por outro. Além disso, arvorando-se “donos” das palavras, PSD e PS decidiram proibir o uso das palavras “partido” ou “coligação” por esses grupos.

(ver o resto em papel ou on-line, só para assinantes) 

Ray Bradbury: A ficção Científica que é Literatura Fantástica

[Outro dos meus artigos no JL de 26 de agosto de 2020 sobre os vários centenários de autores de ficção científica. Gostei muito deste pela ligação menos conhecida ao Moby Dick. O Jornal recomenda, entretanto, várias obras dos autores publicadas recentemente. Além destes trabalhos e de outros artigos, notas e sugestões, o JL tem entrevistas a Ondjaki e João Alvim, discute as feiras do livro de Lisboa e Porto, o teatro, a fotografia e outros assuntos. Boas leituras!]

Comemora-se este ano o centenário do nascimento de Ray Bradbury (1920-2012). Em Jardins de Cristais – Química e Literatura (Gradiva, 2014) escrevi que este não era tanto um autor de ficção científica mas mais um autor de narrativas fantásticas. E dava como exemplo o conto As Maçãs Douradas do Sol, no qual, uma nave espacial arrefecida a amoníaco, vai recolher bocados do Sol para usar como energia. O autor apresenta para a nave uma temperatura de milhares de graus negativos que viola a temperatura zero (que é de -273,15ºC) colocando este livro no domínio do fantástico, e isso é interessante no que concerne à distinção entre o que é possível e que não é.

Toda a gente vê que as pessoas não voam com pó mágico e bons pensamentos e não temos dificuldade em chamar a isso fantasia. Mas podemos não saber que a termodinâmica não permite temperaturas tão baixas, por exemplo. É por isso que uma verdadeira cultura científica é tão necessária. Ajuda-nos a distinguir a fantasia da realidade e nisso a ganhar novos mundos, ou ajuda-nos a perceber um argumento científico, ou a separar a ciência da pseudociência - estou-me a lembrar dos excelentes Pipocas com telemóvel (Gradiva 2012), ou A ciência e os seus inimigos (Gradiva, 2017) de Carlos Fiolhais e David Marçal. Não quero com isto dizer que não haja franjas, complexidades e aspectos técnicos – sim há. Mas é uma grande infelicidade haver erros tão banais como errar a tabuada que nunca irão mudar e são esses que deveremos evitar sob pena de sermos enganados e não percebermos o mundo em que vivemos.

Disse ainda, nesse livro, que Ray Bradbury levantava outros problemas numéricos. Por exemplo, no seu famoso Fahrenheit 451, também datado de 1953, usa como título o suposto valor da temperatura (em Farenheint) a que o papel arde de forma espontânea (temperatura de auto-ignição). Como é bem conhecido, neste livro distópico os bombeiros não apagam fogos, antes queimam livros, quaisquer livros, pois estes foram proibidos. Disse que são muitos os aspectos químicos que podem ser encontrados neste livro. E é verdade. Os processos de combustão, os materiais incombustíveis de que são feitas as casas, os antidepressivos e as drogas, são alguns exemplos, mas salientava, e ainda saliento, muito em particular a química dos odores. Ao longo de todo o livro os cheiros têm um papel importante nas suas relações com as memórias. A tomada de consciência do bombeiro e também na perseguição deste realizada por um mastim mecânico que usa o espectro do seu cheiro para o detectar. Este cão não vai aparecer no filme, talvez pelos aspectos técnicos, talvez por não ser interessante em termos de imagem, mas acaba por ser um aspecto interessante e muito actual a considerar. Na realidade os odores e a sua relação com a memória desempanham um papel importante em boa parte da literatura. Lembro apenas os cheiros que marcam a vida de Fermina Daza em o Amor nos Tempos de Cólera de Gabriel Garcia Marques e o famoso bolo (uma madalena) que conduz o narrador à sua infância de Em Busca o Tempo Perdido de Marcel Proust.

Fahrenheit 451 é muito conhecido e teve várias versões em contos e livros até à versão final que agora conhecemos. Há várias interpretações para a queima dos livros e isso é, na minha opinião, a boa literatura – haver várias possibilidades e caminhos. O próprio Bradbury contribuiu para isso referido o seu amor incondicional aos livros e como a televisão os poderia destruir. Não foi isso que aconteceu – nem a televisão, nem  a internet, que em 1953 não era conhecida, matou os livros. Podería falar das suas Crónicas Marcianas, do Homem Ilustrado, ou de outras conhecidas obras. Mas não. 
 
Falo aqui do amor de Bradbury à literatura e de um problema que me intrigava e me fez voltar ao Moby Dick de Herman Meleville. Por que é Ray Bradbury disse e escreveu que a personagem de Persee Fedallah arruinava a obra? É verdade que este é referido de forma enigmática por Melville apenas a partir da capítulo 48 como um dos cinco fantasmas que rodeavam o capitão Ahab mas ainda não tenho um resposta convincente.     

Como jovem argumentista de Hollywood, Ray Bradbury adaptou, também em 1953, o Moby Dick para o filme do mesmo nome de 1956 de John Huston com Gregory Peck a fazer de Ahab e com o sermão do padre Mapple a ser realizado por Orson Wells. Uma equipa fantástica como John Huston referiu. Os efeitos especiais eram rudimentares pelos padrões de hoje e para dar uma cor profunda ao filme foram sobrepostas a película a cores e preto e branco (diz-me a wikipedia). E, de facto, na cópia que tenho as imagens são bastante escuras. Ray Bradbury tratou de dizer a John Huston, o seu herói, que Fedallah seria atirado borda fora e as suas melhores deixas passariam para Ahab, com o que John Huston concordou de imediato.    

Em 1992, Ray Badbury publicou Green Shadows: White Whale (que julgo não ter sido traduzido para português) o qual trata da sua ida à Irlanda e da escrita do guião do Moby Dick. Começa com a chegada ao mundo verde da Irlanda e um diálogo incrível com um inspector da alfandega sobre cultura, em particular sobre literatura, sobre o Moby Dick e o Hamlet. Muito do livro são os seus diálogos (verdadeiros ou inventados) com personagens locais ou com John Huston, enquanto escreve o guião do filme. Durante esse tempo, fala, vive e sonha com a literatura. Com Hemingway, Shaw, Chesterton, Wells entre outros, e ganhará um prémio, ele que aparentemente era conhecido como um Flash Gordon que punha toda a sua libido nos foguetões. Mas adaptar o Moby Dick era o seu sonho – conta - ele que amava a literatura e leu o livro totalmente três vezes, algumas partes cinco vezes e outras pelo menos vinte vezes.    

Escrevi em 2014 que um bom livro de ficção científica, policial ou de literatura fantástica, mas também de ciência, é aquele que nos abre os olhos para enigmas para os quais ainda não temos solução. Continua a ser absolutamente verdade para mim.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Nem uns nem outros, pois o "Estado não pode programar a educação segundo quaisquer diretrizes (...), políticas, ideológicas ou religiosas”

Na sequência de dois textos "Pode um aluno não frequentar a disciplina de «Cidadania e Desenvolvimento»?" (aqui e aqui).



Tem sido notícia central, nos últimos dois ou três meses, o caso de dois alunos do Ensino Básico que, por decisão da tutela, foram "reenviados" para anos de escolaridade anteriores àqueles em que se encontravam pelo facto de, por razões de objecção de consciência do encarregado de educação, não terem frequentado a componente curricular agora designada por "Cidadania e Desenvolvimento".

Explicitei, nos textos que acima refiro, a minha posição, que tem um longo passado e se encontra desenvolvida em textos académicos. 
Entendo que:
1. Toda a educação escolar implica (não pode deixar de implicar) uma preparação (também) para a "cidadania", para co-existir, para viver com o outro;
2. Nessa conformidade, tal preparação tem de ser guiada por valores éticos, que são universais e universalizantes, ainda que possam ter expressão diversa;
3. No quadro de um currículo verdadeiramente educativo (não deseducativo) a mencionada preparação acontece no âmbito da leccionação formal das disciplinas, mas também se estrutura, por via do exemplo, na relação pedagógica, que tem lugar na sala de aula e na escola;
4. Partilha a finalidade última, que deve ser a de toda a educação, de conduzir as crianças e os jovens ao exercício do livre-arbítrio, da autonomia, da liberdade, marca distintiva do ser adulto.
5. Requer ensino, explícito e implícito, exercido por professores e outros educadores com um profundo sentido de cidadania e uma capacidade efectiva para a desenvolver.
Os pontos acima enunciados nada têm de inovador. Na verdade, o seu conteúdo é tão antigo quanto a educação, estando presente nas mais diversas escolas.

O que consta no currículo escolar deste e de outros países como "educação para a cidadania" não o é. Melhor, consegue ser o contrário do que antes mencionei. 
De facto, entre muitos outros comentários que poderia fazer, recordo que essa "educação":
1. É um programa doutrinal que puxa os alunos, as famílias e a sociedade para aqui, para ali ou para o outro lado, em função das conveniências de grupos que têm poder suficiente na cena política para fazerem valer os seus interesses particulares junto da tutela, independentemente da orientação partidária que tenha num determinado momento;
2. São esses grupos que assinam os documentos curriculares que a tutela reconhece e impõe, que laboram junto das autarquias e das escolas, que se infiltram na formação de professores, que dinamizam actividades para a comunidade educativa... que atribuem prémios a alunos, professores, escolas... É um círculo que se fecha com a complacência, quando não com o entusiasmo e aplauso, daqueles que deveriam assumir a educação escolar, a começar pelo Ministério que a regula. Ficam os alunos entregues a deseducadores;
3. É constituída por temas dispersos, que se vão somando (mais um e mais outro... e ainda mais outro. No crescendo a que tenho assistido, são agora dezassete), sem outra lógica que não seja a imposição de vontades desses grupos;
4. É focalizada num "eu" retirado de uma cartilha pautada pelo hedonismo, na qual "o outro" se anula tanto quanto isso é possível. Mas, bem vistas as coisas, este "eu" liberto de todas as amarras que não sejam a produção-consumo e o "bem estar" com os seus "autos" (auto-estima, auto-conceito, auto-imagem...) é destituído de pensamento, anula a escolha, a decisão e, por acréscimo, a responsabilidade pelo mundo;
Nada de menos ético poderia ser imaginado, prevalecem pequenas e grandes ambições económico-financeiras, académicas, profissionais, guiadas pelas mais diversas intenções. Mas isso só é possível porque quem tem o dever de educar o permite e, portanto, a culpa (uso a palavra com consciência do seu significado) não pode ser atribuída a outrem. Por certo, não pode ser atribuída a esses grupos.

Numa iniciativa inimaginável, surge agora um abaixo-assinado onde, ao que li, são signatários políticos e católicos.

Quanto aos políticos, é de salientar que alguns deles foram Ministros da Educação nas décadas mais recentes, e, portanto, foi com a sua assinatura que a "Educação para a Cidadania" (e antes dela, a Formação/ Educação Cívica) adquiriu a forma e o conteúdo que agora tem. De direita ou de esquerda, conservadores ou liberais, quando podiam fazer alguma coisa em prol da educação para a cidadania, todos concordaram com o seu contrário ou, pelo menos, todos, consentiram que o seu contrário prevalecesse.

Quanto aos católicos, não compreendo, de todo, a sua indignação pois a sua religião, como outra religião qualquer, não pode, tal como acontece, ter lugar na escola pública, que, lembro, é laica, Escrevi neste blogue há bastante tempo, e mantenho, que os sistemas de ensino deveriam contemplar uma componente curricular de Religião, no sentido de dar a conhecer o pensamento religioso, como expressão do humano, e as suas múltiplas manifestações, mas nunca de modo doutrinal como acontece.

Acresce que uma análise do Programa e Metas da disciplina de opção com o nome de Educação Moral e Religiosa Católica replica muitos dos temas da Cidadania e Desenvolvimento que agora a Igreja Católica quer expugnar.

Cito, mas com fins diferentes dos que subjazem à citação no abaixo-assinado

o artigo 43.º da Constituição da República Portuguesa
“O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas”.
e o artigo 2.º da Lei de Bases do Sistema Educativo:
"3.a) O Estado não pode atribuir-se o direito de programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas;
3.b) O ensino público não será confessional"
Talvez fosse a hora de o Ministério da Educação ouvir quem, em matéria de educação, se tenta manter fora dos espartilhos habituais e "apenas" quer educar o melhor que se sabe e se pode as novas gerações na escola do Estado que é a escola de todos.

Os vírus, a ciência e o futuro


 Início do meu capítulo do livro "Pensar o futuro. Portugal e o mundo depois da COVID-19" (Porto Editora", uma recolha de contributos sobre o mundo pós-pandemia:

A pandemia causada pelo alastramento do novo coronavírus SARS-CoV-2 é apenas uma das muitas que têm acontecido ao longo da história. Houve outras e haverá mais, porque os microorganismos que as causam – vírus ou bactérias – fazem parte do património de biodiversidade do planeta. Partilhamos o planeta com eles e, no longo percurso evolucionário, houve entre todos cruzamentos e interferências. Numerosas bactérias e vírus habitam o interior do nosso corpo, em convivência pacífica. Mas, se mutações genéticas originarem novas estirpes, o nosso sistema imunitário não está, pelo menos de início, preparado para lidar com o novo intruso. Temos aprendido com as pandemias, muito em particular após a Revolução Científica dos séculos xvi e xvii, que instituiu o método científico. As medidas que estamos agora a tomar para nossa protecção colectiva provêm do conhecimento proporcionado pela aplicação do referido método.

Sabemos também que, por mais danos que possam causar na humanidade, todas as epidemias são temporárias. Ganhamos imunidade, naturalmente ou com a ajuda de vacinas. Passada esta epidemia, de duração incerta, saberemos ainda mais. A ciência é acumulação: de dados e de teorias que os integram. Uma previsão segura que podemos fazer é que a ciência estará mais avançada. A história da ciência mostra que sempre assim foi e é lícito esperar que assim continue a ser.

Mas ciências como a biologia e a medicina são apenas algumas das componentes do conhecimento humano. Todas as pandemias têm consequências sociais, que as ciências sociais estudam: nos comportamentos, no trabalho, na economia, na política, na geoestratégia, etc. É muito difícil fazer previsões para a sociedade em geral. Houve epidemias no passado, mas o mundo de hoje é bastante diferente. Como as circunstâncias são outras, os problemas são outros e as soluções terão, pelo menos nos seus pormenores, de ser outras. As pandemias passadas tiveram consequências de vária ordem e podemos, com base no seu conhecimento, tentar adivinhar as consequências desta. A questão é complexa, mas há quem fale na contribuição da peste negra que grassou na Idade Média para o fim do feudalismo, ou no papel da gripe espanhola, que coincidiu com o final da Primeira Guerra Mundial, para a economia dos anos 20. Há quem defenda que as epidemias, tal como as guerras, as revoluções e os colapsos governamentais, são aplanadoras de desigualdades. Contudo, a actual está a mostrar o contrário, ao agravar as desigualdades.

Proponho-me, com base na história das epidemias e numa descrição sumária da actual, apresentar uma perspectiva do papel da ciência no mundo pós-pandémico. Vai ter talvez um papel ainda maior do que o de hoje, que já é grande. Mas a ciência, que produz tecnologia, é apenas um dos factores da evolução da sociedade. Se na ciência o progresso é certo, a incerteza reina quanto aos outros factores, que dependem do livre-arbítrio humano. Como disse o físico dinamarquês Niels Bohr: «É muito difícil fazer previsões. Especialmente sobre o futuro.»

(...) (as receitas do livro revertem a favor de uma instituição de ajuda aos sem-abrigo)

 

JORNAL ‘VIVA DOURO’: GRANDE ENTREVISTA A CARLOS FIOLHAIS

 


https://issuu.com/jornalvivadouro/docs/vivadouro_edespecial_viticulturaduriense_agosto202

DESTAQUE  |  JORNAL ‘VIVA DOURO’Edição 08/20

Grande Entrevista a CARLOS FIOLHAIS

 APRENDEMOS COM ESTE VÍRUS QUE SOMOS, TAL COMO OS MICROORGANISMOS. PARTE DO MUNDO NATURAL 

André Rubim Rangel, jornalista

Foto: Escola Portuguesa de São Tomé e Príncipe

ARR-Comecemos pelas raízes. O facto de o pai ter sido militar da GNR fez com que tivesse uma educação mais rígida e regrada do que a dos seus colegas de infância?

CF- Talvez, mas, francamente, não sei. O meu pai era militar e gostava de o ser. Antes de falecer pediu para ter honras militares na hora da despedida, desejo que, juntamente com os meus irmãos, fiz por satisfazer. Mais do que profissional do seu ofício, o meu pai foi uma pessoa do seu tempo, um tempo austero e autoritário, que não foi fácil para Portugal. Não tenho particulares traumas de infância, até porque fui sempre bastante mimado e apoiado. Mas confesso que não aprecio quartéis e a obediência cega que lá se cultiva. Fiquei, por isso, muito contente no dia em que livrei da tropa. Receava que o serviço militar fosse uma perda de tempo. Costumo dizer a brincar que o 25 de Abril veio para mim mesmo na hora certa. Nessa altura havia demasiados intelectuais nas forças armadas e não eram precisos mais… Claro que as forças armadas e de segurança prestam um grande serviço a todos nós, mas penso que o serviço nelas deve ser para quem tenha a devida vocação. Eu não me via nada no “esquerdo-direito-um-dois”.

ARR- Nos anos de liceu mostrou que tinha muito jeito para as artes, mas seguiu mais tarde pelas ciências. Por que não enveredou pela pintura? A ver pelos muitos prémios conquistados na altura…

 CF- Não foram muitos. Alguns prémios escolares e principalmente, aos 16 anos, um prémio primeiro nacional e depois internacional num concurso juvenil  de tema ferroviário. Sim, na altura desenhava e pintava. Dei nessa altura a minha primeira entrevista a um jornal, ao desaparecido “Diário Popular,” e embora as minhas respostas já estejam nas brumas da memória – nem sei onde tenho o recorte – julgo ter dito a arte não me parecia ser um meio de vida no nosso país. Curiosamente, tendo tido sempre boas notas, a única negativa que tive no liceu foi uma vez a Desenho, por não me entender com a Geometria Descritiva. Poderia, a avaliar pelas notas, ter ido tanto para ciências como para letras, mas, quando tive de escolher, no fim do antigo 5.º ano, hoje 9.º ano, estava já apaixonado pelas ciências. Quando, dois anos volvidos, entrei na Universidade de Coimbra para Física – o meu pai perguntou-me “isso dá para quê?”  e eu não soube responder - , embrenhei-me no curso e deixei de pintar. Ainda tenho uns quadros meus pendurados em casa. Não sei se a veia artística morreu ou só está em sono profundo.

ARR- Curiosamente, com esta questão da pintura, interrogo-me se já na altura sofria de daltonismo?

CF- Sim, descobri na adolescência que era daltónico, uma condição que é sempre hereditária, o que me ajudou a evitar o serviço militar: Tenho até uma história curiosa da inspecção militar: quando disse que era daltónico fizeram-me uns tentes com umas bolas coloridas onde devia reconhecer uns números (teste de cores de Ishihara). E eu disse que não via números nenhuns. E o militar de serviço respondeu: “Ah sim? Está a gozar com a tropa? Sabe que só os daltónicos é que vêem estes números”… Não sabia, mas fiquei logo a saber, porque aprendo rápido. Passei a ver todos os números que ele queria que eu visse. O daltonismo é uma condição transmitida pelas mães. Na Europa, cerca de 10% dos homens são daltónicos – muitos deles não fazem ideia – mas apenas 0,5% das mulheres o são. Isso explica, pelo em parte, a maior sensibilidade feminina para discernir as cores do vestuário…  Também é um facto que nenhum grande pintor é daltónico, ao contrário do que se passa com alguns grandes cientistas, a começar logo pelo químico inglês John Dalton que identificou a deficiência em si próprio (já foi feito um exame genético post-mortem, que o confirmou). De qualquer modo há toda uma gradação de severidade e eu não tenho uma caso severo de daltonismo, ao contrário de Dalton. Um oftalmologista assegurou-me que que eu podia guiar.

ARR- De que forma foi todo esse processo de habituação e de ver um mundo sem todas as cores ou sem algumas das cores: como é no seu caso? Custou-lhe a adaptação à realidade?

CF- Como físico, estou em crer que existe uma realidade objectiva. Mas nós vemos sempre a realidade pelos nossos sentidos, isto é, a nossa realidade não é à primeira vista necessariamente a realidade dos outros. Dou um exemplo: cada um de nós tem direito ao seu próprio arco-íris, centrado em si. Eu não me queixo nada da minha realidade, o meu arco-íris é bastante bonito. Somos todos diferentes: uns são mais baixos e vêem o mundo mais de baixo e outros, como eu, são mais altos e vêem o mundo mais de alto. Uns são mais lentos e outros são mais rápido: eu sou lento numas coisas e rápido noutras, a avaliar pelo que me dizem. Mas somos todos iguais. Todos somos diferentes – porque há pequena variabilidade genética – mas somos todos iguais – porque partilhamos a quase totalidade do genoma.

ARR- É sabido que não há cura universal para o daltonismo ou discromopsia. Porém, sendo um cientista premiado e reconhecido, sonha – ou alguma vez sonhou – em encontrar a cura?

CF- Eu fui o comissário nacional de 2015- Ano Internacional da Luz, uma iniciativa da UNESCO,  e li muita coisa sobre a luz. Tem toda a razão ao dizer que actualmente não há cura. Mas, em princípio, nos tempos de hoje já se  pode fazer edição genética, pelo que podemos conceber tecnologias capazes de corrigir deficiências como essa. Já foram feitas experiências em animais, que têm em geral uma visão mais limitada do que a nossa. Mas não me ofereço para cobaia. Experiências genéticas envolvem dilemas éticos muito sérios:  não devemos fazer tudo aquilo  que podemos fazer. A certa altura, um ser humano “melhorado” pode passar a ser desumano.

ARR- Dos seus mais de 40 livros publicados, constam as obras de divulgação científica «Física Divertida» e «Nova Física Divertida». A que conclusões chegou sobre o modo  de tornar a Física mais atraente e compreensível aos jovens? Dado que nem sempre o é…

 CF- Nesta data, e sem contar com prefácios e capítulos, já conto mais de 60 livros, mas cerca de metade são manuais escolares. Os dois que refere foram dos que obtiveram mais êxito, tendo merecido edições internacionais. Há até uma edição brasileira de “Física Divertida”, onde em vez de “impulsão” – a força de Arquimedes mergulhado numa banheira – vem “empuxo” e em vez de “protão” vem “próton”.  O título do meu primeiro livro, de 1991, foi deliberadamente provocatório. Queria contrariar a visão estabelecida de que a Física é uma disciplina aborrecida. Não concordo. A Física é uma das facetas mais empolgantes da vasta aventura do conhecimento humano. É divertido saber como é o Universo, de que são feitas todas as coisas, é divertido penetrar nos grandes mistérios do espaço, do tempo, a matéria, da energia… É sempre um prazer saber mais.  Começa por ser um prazer para os cientistas, mas devia ser um prazer para todos, uma vez que a ciência não é dos cientistas, mas de todos.

ARR- Como este é um jornal da região duriense, permita-me duas questões sobre a mesma. O que conhece do Douro, como o sente e descreve, o que realça de mais significativo nele? E até comparativamente com outras regiões nacionais…

CF- O meu pai é de uma aldeia do peso da Régua: Sedielos, a terra do escritor Guedes de Amorim. Disseram-me que uma avó ou bisavó minha aparecia no livro “Aldeia das Águias,” precisamente Sedielos, sítio onde o Douro acaba e o Marão começa. A casa bastante humilde dos meus avós e dos meus pais era frente à enorme Quinta de Sá de Baixo. No Douro, onde passei férias em miúdo, impressiona-me não só a grandeza da paisagem, mas também o contraste na vida das pessoas. O Douro era e julgo que em parte ainda é um local de bastante pobreza.  As quintas no Douro são muito bonitas, mas a vida dos trabalhadores da terra – eu vi como eram as vindimas nos socalcos - é muito dura. Modernamente o turismo mundial descobriu o Douro e ainda bem, porque o vale do Douro é único no mundo. Andei pelos vales do Reno e do Meno, na Alemanha, mas o nosso vale é único, pela força da paisagem, pelo trabalho do homem e pelo produto da Terra. Na terra do meu pai não se dizia “vinho do Porto”, porque o vinho “fino” ou “generoso” era dali, longe do Porto. É só pena não termos tido nas suas margens o desenvolvimento que houve noutras margens.

ARR- O Douro, certamente, não é apenas Turismo e Cultura. Será, também, portador de Ciência. Em que patamar está esta região no quadrante científico e o que tem desenvolvido na amplitude desta área?

CF- Em Vila Real existe há décadas a UTAD – Universidade de Trás os Montes e Alto Douro que, em colaboração com outras universidades nortenhas, tem produzido conhecimento, em particular sobre a terra e sobre o vinho. Portugal evoluiu muito no sector  do vinho, em particular no controlo da qualidade e na afirmação de marcas. No início da minha carreira, ensinei em part time Física na UTAD. Mas lembro-me a odisseia que era chegar de Coimbra a Vila Real… Vila Real era mesmo longe e hoje não é. Perto de Vila Real fica uma terra com o meu nome, Fiolhais, onde evidentemente já fui…

ARR- Passemos ao assunto que, infelizmente e desde há meio ano, continua a ser actualidade mundial. Com melhor conhecimento presente do vírus, e depois de tanto ruído e informações falsas iniciais, o que importa ter em conta da covid-19 para vivermos melhor o  último trimestre deste ano?

CF- O novo coronavírus foi, está a ser, uma surpresa para a maior parte de nós. Os cientistas sequenciaram-no logo no início da epidemia e é com base nesse conhecimento que funcionam os testes genéticos. Estamos cada vez mais a saber mais sobre o vírus. Estamos a procurar medicamentos antivirais específicos. E estamos a procurar vacinas: já há várias, que estão em várias fases de teste. Tenho esperança que algumas venham a funcionar bem.  Mas mais vale prevenir do que remediar: manter o distanciamento social, usar máscara, ter sempre cuidados de higiene. Estes métodos funcionam garantidamente: o vírus precisa de um hospedeiro e, se não o encontra, fica impossibilitado de se multiplicar.  Aprendemos com este vírus – embora já o devêssemos saber - que somos, tal como os microrganismos, parte do mundo natural. E aprendemos – espero que a lição venha para ficar – que a espécie humana ganha com a cooperação. Nós somos inteligentes e os vírus não, são meras máquinas de fotocópia biológica. 

ARR- Entrando na questão científica da vacina, que tanta especulação temporal e funcional tem gerado, o que há a esclarecer com precisão – neste momento – sobre a mesma? 

CF- Não sou especialista do assunto. Mas acompanho-o com interesse. Há várias candidatas a vacinas e estamos a ver as respectivas segurança e eficácia. A de Oxford parece que está bem encaminhada. Há muitas incertezas: por exemplo, a duração da imunidade. Havendo vacina, persistem problemas: Quem vacinar primeiro? Quem paga? Uma vez que não haverá cem por cento de eficiência, como enfrentar os “inimigos das vacinas”, que são também – cito o título de um livro meu e do David Marçal na Gradiva - “inimigos da ciência”. A ciência não é tudo, há questões éticas, políticas, económicas…

ARR- A Rússia já anunciou e aprovou, este mês, a primeira vacina contra a covid-19: o que se seguirá? Competição e negócios comerciais estapafúrdios de patentes entre os outros países na corrida da descoberta curativa?

CF-  Há sérias dúvidas sobre a vacina russa, que quis ser a primeira, arrepiando todo um caminho que havia a fazer. Os humanos sempre competiram uns com os outros, como agora mais uma vez está à vista. Mas, nalguns casos, como neste, poderiam ganhar se cooperassem mais. Claro que esta é uma oportunidade de negócios milionários e, como sempre no mundo dos negócios, não faltará quem vai querer vender gato por lebre.  Convém estar atento e, sabendo que há estupidez e maldade, confiar na inteligência e na bondade dos homens.

ARR- Acredita que haverá vacina para todos sem excepção ou não? Irão os países mais ricos e desenvolvidos apoderar-se da mesma e ficarem os mais pobres a perder, lamentavelmente, como de costume ou de que modo se equilibrará a distribuição?...

CF- Desigualdades sempre houve. Não é só em Portugal e no Douro, é no mundo todo. Infelizmente, o seu fim não está à vista. Não tenho grandes ilusões: os ricos procurarão ser ainda mais ricos e os pobres poderão ficar ainda mais pobres. Não há um governo do mundo, mas competição desenfreada entre as nações. A Europa, na qual nos inserimos, tem de encontrar o seu papel no mundo global. Parece andar um pouco perdida, num mundo onde o eixo está a passar do Ocidente para o Oriente.

ARR- Em Portugal, o que está a ser feito na ciência e com que resultados visíveis – passando, por vezes, despercebidos e ofuscados com notícias paralelas e menos importantes – no âmbito da resolução desta pandemia?

CF- Os cientistas portugueses juntaram-se aos esforços mundiais. Ainda é cedo para fazer uma apreciação objectiva e isenta: esta epidemia não tem ainda meio ano entre nós. Vejo muita propaganda, com muita gente a querer chamar a atenção para si própria: veja-se o caso do “ventilador nacional.” Mas gostava que esta fosse uma ocasião para apostar mais na ciência e na tecnologia nacionais. Aqui há poucos anos o primeiro-ministro prometeu 2,1% do PIB em ciência e tecnologia. No ano passado foram apenas 1,4%. Já chegámos a ter 1,6% em 2009 e recuámos. A média europeia é hoje de 2,1%, o que significa que em vários países está bem acima. Acho que há falta de liderança na ciência em Portugal e não há suficiente participação da comunidade científica na gestão.  A nossa comunidade científica cresceu, mas não tem ainda afirmação política. O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior estava desaparecido antes da epidemia e continua desaparecido, sem carisma nem poder. Não o vimos activo  dentro de um gabinete de crise. Não o vemos como voz da ciência e, mais em geral, da razão. A FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia, tal como está, não passa de uma direcção geral do Ministério, quase desligada dos cientistas e dos centros de investigação. A Ciência Viva, uma grande ideia do saudoso José Mariano Gago, anda entretida com coisas menores, com o seu financiamento quase todo concentrado na capital. Portugal continua a ser Lisboa e o resto é paisagem. No plano de recuperação do país, era preciso dar à ciência e à tecnologia, em particular na área da saúde, uma outra visibilidade. A ciência é a semente do nosso futuro. 

ARR- Depois destes meses todos há quem já se tenha habituado ao uso da máscara e faça já parte, naturalmente, da sua vida. Contudo, vêem-se ainda muitas pessoas, em público, que não a usam. Cientificamente, ela é imprescindível e eficaz?

CF- Não há nunca risco zero. Mas a máscara, dentro ou fora de espaços fechados, diminui obviamente o risco de transmissão viral. Eu uso e recomendo o uso. Não percebo o que estava a fazer a DGS quando, no início da epidemia, não recomendava o uso da máscara. Mais do que isso, criticava-a, por dar uma “falsa sensação de segurança”…  Houve entre nós erros na gestão da epidemia.

ARR- Considera que a medida do uso obrigatório de máscara devia ser geral, que não apenas em algumas regiões planetárias? E punível por lei para quem não usa, por respeito aos outros no não contágio?

CF-  Sim, o uso de máscara deveria ser obrigatório de um modo mais geral do que é hoje entre nós. Pode não ser agradável, mas mais vale esse desconforto do que uma infecção com consequências incertas quiçá graves para nós e para os outros. Devemos pensar não só em nós, mas também nos outros. A epidemia vai passar, como passaram outras, mas com uma acção colectiva responsável  passará mais rapidamente.

ARR- Como habitual nesta rubrica de grande entrevista a figuras públicas, peço-lhe uma mensagem final aos leitores, de cariz motivacional, para o presente e o futuro…

CF- Confiar no conhecimento e na inteligência humana, que constituem o melhor meio de alcançar o conhecimento, de distinguir o verdadeiro do falso, na complexa realidade em que vivemos.  Sem conhecimento e sem o exercício da inteligência que o proporciona, seríamos muito mais frágeis. Como espécie já não estaríamos aqui. Este planeta, que partilhamos com os vírus, é a nossa casa e devemos usar o nosso melhor conhecimento para morar nela da melhor maneira possível.

Asimov: centenário da escrita e leitura compulsivas

[O JL de 26 de agosto de 2020, traz artigos meus que vou aqui colocar sobre os vários centenários de autores de ficção científica. Falo de vários autores (aproveito para corrigir algumas gralhas), nascidos em 1920, que transbordaram, ou estão ligados, a a este universo.O Jornal recomenda, entretanto, várias obras dos autores publicadas recemente. Além destes trabalhos e de outros artigos, notas e sugestões, o JL tem entrevistas a Ondjaki e João Alvim, discute as feiras do livro de Lisboa e Porto, o teatro, a fotografia e outros assuntos. Boas leituras!]

Isaac Asimov, nome inglês de Isaak Yudavich Azimov, nasceu na Rússia, antigo União Soviética, a dois de janeiro de 1920, segundo o próprio, e morreu em Brooklyn a 6 de abril de 1992. Os dados parecem estar na Wikipédia, mas olhemos para eles com mais atenção.

Isaac descreve numa sua autobiografia desde que nasceu até aos anos 1950, publicada em 1979, que queria inicialmente ser médico e que se formou em ciências com um major em química, em 1939. Que fez um mestrado em química, insistindo muito com os professores, nomeadamente com Urey, prémio Nobel em 1934. Refere que adorava a química mas que pensava ganhar a vida a escrever. Embora, por essa altura, muitos manuscritos seus fossem rejeitados. A guerra apanhou-o e foi para a Marinha e só se doutorou em 1948. Ao mesmo tempo que fazia um pós-doc, concorria para vários lugares e foi sendo recusado. Acabou num inesperado lugar de professor de bioquímica numa escola médica de Boston, ele que desistiu de ser médico! Hoje, muitas pessoas acham que ele era bioquímico e de facto foi (mas antes foi químico). Fez alguma investigação e ensinou esta matéria. Mas o que gostava mais, diz, era de ensinar, escrever e divulgar. É engraçado que o seu primeiro livro famoso tenha surgido quando conseguiu esse lugar e na contracapa apareça a sua afiliação, o que o faz pensar em demissão. Diz-lhe o presidente da escola que se o livro era bom a escola não se importava de ficar associada a ele.

Muitos professores ensinam aquilo que não aprenderam, como é óbvio. Tiveram de estudar. As pessoas podem tornar-se especialistas se estudarem a sério. Lavoisier não era formado em química, mas sim em direito. Quando as coisas correm mal gostamos de dizer que as pessoas eram de outra área. Thomas Midgley Jr., ligado à gasolina com chumbo e os CFC, formou-se em mecânica e só depois obteve um doutoramento em química. Dirac era formado em engenharia antes de tornar o génio matemático e físico que conhecemos. Em Portugal atualmente (não vou referir nomes) torcem o nariz às pessoas que ensinam uma coisa e tiveram formação inicial noutra. São raros os que têm lugares fora do sua área inicial. Gostamos de referir o percurso, por exemplo, de Bento de Jesus Caraça, mas quando as coisas correm mal lembramo-nos da formação inicial...

Gosto especialmente do conto de Asimov sobre a galinha dos ovos de ouro (Mistérios, Vega, 1990). É a mesma história, mas travestida de ciência e tecnologia. Está muito bem feita porque as pessoas quase acreditam. A bioquímica é razoável, assim como a física nuclear. Mas nunca vimos uma galinha dos ovos de ouro e o investigador, levando-a para o laboratório, desmontando-a, mata-a e acaba com os ovos de ouro.

São também muito famosos os seus livros de contos sobre robôs. Mais ainda as suas leis da robótica que como é sabido têm mais de 70 anos. Hoje em dia, tempo da inteligência artificial (AI), de Internet das coisas (IoT), de e Big Data e comunicação permanente, presentes de forma ubíqua, em particular nos telemóveis, lembramo-nos por vezes que muitas das atividades decididas pelos computadores e feitas por máquinas. Os pilotos automáticos deram lugar às aterragens conduzidas por máquinas. Os carros autónomos comunicam como se fosse telepatia entre condutores gentis. As profissões e atividades transformam-se de forma imprevisível. Claro que temos as distopias do controlo como o 1984 e o Admirável Mundo Novo, mas não era isso que referia.

Referia-me ao conto do robô que aprendeu a mentir. Esse conto é admirável por si só e, na minha opinião, não precisa de sobrenatural. O robô lê pensamentos, ninguém sabe como, mas não era necessário explicitar que ele lia mesmo pensamentos. Ler pensamentos é interpretar os pensamentos, pensar o que os outros pensam. E as máquinas podem fazer isso muito bem. Podem aprender a perceber os sentimentos e agir em conformidade. Podem aprender a identificar padrões melhor que os humanos. Voltando atrás, um robô aprende a perceber o que as pessoas querem ouvir, mas ele dá também conta que de isso é muito complexo. Então pede romances e livros humanos, que segundo ele, seriam muito mais complexos do que os livros de mecânica quântica. O robot começa a perceber que a psicóloga de robôs de meia idade está a apaixonada, que um cientista quer o lugar do outro, e diz-lhes o que eles querem ouvir. Assim, temos uma psicóloga que se arranja e pinta e um cientista que é arrogante com o chefe que se vai demitir, o que surpreende por os robot nunca mentirem. Confrontado com a contradição, o robô não a consegue resolver e autodestrói-se. Hoje não seria assim com a lógica difusa, por exemplo.


Isaac Asimov morreu relativamente novo (pelos padrões de hoje), com 72 anos, e só começou a publicar regularmente depois dos 30 anos. Mais de quatrocentos dos seus cerca de quinhentos livros foram publicados depois dos cinquenta anos. Tem uma produtividade média de onze livros por ano e atingirá a sua produtividade máxima aos 69 anos com quase quarenta livros. A escola estava tão contente por ter esse autor entre os seus académicos que não lhe dava aulas regulares.

Em oposição, António Nobre só publicou um livro. Harper Lee também o queria fazer, mas descobriram um livro dela depois de morta (é muito perigoso estar morto).

Outro livro que acaba por conter todos os estilos e preocupações de Asimov é o Planeta dos deuses (Livros do Brasil, 1980) de 1972 publicado na coleção Argonauta. Na Terra, passado um século, em 2070, houve uma grande crise (não sabemos qual) e a população passa de seis para dois mil milhões, havendo uma colónia na Lua. Entretanto, descobriram um bomba de energia, chamada “bomba eletrónica” baseada na estabilidade inesperado do inexistente tungsténio 186. Esta bomba era conduzida por para-universo de leis diferentes que usava a segunda lei da termodinâmica para obter energia nos dois universos. Parecia violar aquela lei, mas lançando os problemas no outro universo mutuamente parecia não violar. Há obviamente vários problemas e contradições na ideia, mas parece plausível como toda a boa ficção. Mas os dois universo convergem para ter as mesmas leis e no final morrerão. Esperava-se que passado muito tempo. Os cientistas que duvidam são renegados e postos na prateleira. Há aqui um vislumbre de meio académico tacanho mas muito estilizado. O capítulo acaba (aliás todo o livro se baseia nesta citação) referido uma peça de Schiller, “mesmo os deuses são impotentes perante a estupidez.” Devemos notar que Asimov fez muitos guias, desde Shakespeare à medicina, passando pela Bíblia e era (a contragosto diz-se) presidente de uma das associação de sobredotados mais conhecida.

No segundo capítulo aparecem os “deuses”, extraterrestres avançados e muito diferentes. A ficção científica clássica - derivada da fantasia - em toda a sua glória. Duros e flexíveis, racionais e sensitivos, tríades cuja fusão é dificultada pelas variações das leis.  Finalmente temos um capítulo passado na Lua que tem um sincrotrão e pessoas que tendo nascido lá não têm músculos e ossos adaptados à gravidade da terra (este tema é tratado também por Robert Heinlein) que nunca teve um bomba eletrónica. Foi aí que aparecem a notícia da bomba contrária mas fica em aberto o que se passará a seguir. 

Este é grande mote da ficção científica, da literatura e da vida. Não sabermos o que se passará a seguir.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Malas no chão, Decerto que não.


Publicamos um texto que nos foi envido pelo Professor Mário Frota que, de uma forma original, traduz a posição da (Associação Portuguesa de Direito do Consumo) em relação à controvérsia das passagens e das viagens canceladas em virtude da COVID-19.

Das Viagens Canceladas às Restituições Postergadas
Às Viagens Canceladas e às Devoluções Decretadas



A TAP fecha-se em "copas"
"Marimba-se" pró passageiro
Direitos? Nem vê-los! Topas?
Dá "vouchers" que não dinheiro...


Viagens canceladas
Por motivos excepcionais
Têm as quantias reembolsadas
Pelos valores originais...


Pois as viagens canceladas
Por circunstâncias excepcionais
Têm de ser reembolsadas
Sem se ter de ir p'rós tribunais...


Viagens organizadas
Em tempos de Pandemia
Foram todas canceladas
Ficou tudo numa "fria"
E as devoluções postergadas
Por bizarra Portaria...


As viagens canceladas
Por causa da Pandemia
Prestam-se a grandes tiradas
De quem peçonha irradia


As viagens canceladas
Em razão da Pandemia
São pasto de enormes tiradas
De quem mentiras dizia


As viagens canceladas
Por causa da Pandemia
Prestam-se a grandes tiradas
De quem inverdades exprimia


Em assunto de importância tal
Evitai o Provedor Cliente
Ide, pois, ao Tribunal Arbitral
Que em tudo é independente!


Viagens organizadas
Arruinadas pela Pandemia
Têm de ser reembolsadas
'Inda que doa à "Confraria"...


O Governo decretou
Um ror de insanidades
E a seguir enganou
Com um lote de inverdades
(E o mais que ocultou...)
As gentes das Comunidades


Processo nada escorreito
Negando aos consumidores
O seu legítimo direito
Aos seus lídimos valores...


Viagens canceladas
Em razão da Pandemia
Têm de ser resgatadas
Assim da noite para o dia...


Viagens canceladas
Por mor da Pandemia
Têm de ser reembolsadas
Pelas tabelas da Academia?


As “viagens organizadas”
Arruinadas pela Pandemia
Têm de ser reembolsadas
P’ra retorno à harmonia...

Mário Frota
apDC –DIREITO DO CONSUMO - Coimbra

De víbora na mão, em busca do tempo perdido, viagens pelos livros

De Víbora na Mão é um livro autobiográfico de Hervé Bazin de 1948, publicado em Portugal pela coleção Unibolso, provavelmente em 1985. Neste livro, se os filhos são terríveis e planeiam (e tentam) o assassinato da mãe, esta não é menos ao bater-lhes e a castigá-los. Em suma, um livro terrível! Estava a lê-lo, desta vez para anotar os aspectos químicos. Mas não era tanto isso que me interessava. Interessava-me mais a geografia, os tempos envolvidos e a relação, em termos de lugares e atitudes, com A Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, uma obra monumental em sete volumes que acaba um pouco antes da outra começar e que também estive a reler e anotar, e, ainda, Thérèse Desqueyroux, passado nas Landes e publicado em 1927 por François Mauriac (publicado, em Portugal, recentemente pela Cavalo de Ferro, em 2015). Estava eu nisso, a viajar pela França do início do século vinte, a comparar o conservadorismo patético de uns com o sensualismo dos outros. Compararava, sem grande profundidade, é certo, as diferentes atitudes, o dinheiro que a uns, arruinados, faltaria e que, os outros, velhos burgueses, teriam em excesso. Comparava a atitude perante os banhos de mar e a praia, evitada mas verdadeira, de Le Balle na Víbora, com a Balbec imaginária da Busca.

Mas a química voltou outra vez. A verdade é que todos os livros a têm. E só falo da Víbora na Mão. Esta tem, claro, o óleo de rícino, a pólvora piroxilada, também chamada pólvora sem fumo, as gotas de beladona, o cianureto (diz-se actualmente cianeto) de potássio, a ureia e a uremia, a curiosidade de Rayon ser também um lugar, entre outros. Mas esses eu já conhecia. O que me chamou mais a atenção acabou por ser um medicamento para uma crise de fígado, chamado, no livro, Algocoline Zizine. Uma pesquisa mostrou que era uma expressão que só aparecia neste livro e que esta obra era citada ipsis verbis num artigo antroplógico a propósito da questão de serem as “doenças de fígado” uma doença tipicamente francesa. Mais umas pesquisas e estas mostraram que os laboratórios Zizine ainda existem, mas agora são dedicados ao “medicamentos alternativos,” e que “algocoline,” poderia ser outro nome para analgésico. Se fosse o caso, qual seria a sua composição? Foi aí que vi que os laboratórios Zizine não tinham fabricado o “Algocoline Zizine” mas sim o “Alcholine Zizene,” de que há bastantes caixas metálicas à venda na internet. Será que o autor se enganou? Será que teve um liberdade poética? Será que não quis usar um nome registado? Não sei, o que sei é que o Alcholine Zizene era de facto uma marca registada e descrito como um “drenante hepático” (um laxante, diríamos hoje) composto de sulfato de magnésio e pectina. E foi assim que, de uma praia redescoberta pelos parisienses, Le Balle-Escoublanc, encontrei a química de um frasco de medicamento a vajar pela França dos livros. Façamos um passeio à feira do livro e encontremos outras viagens!