quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Ciência às Seis (online) no Rómulo: "História Global de Portugal" apresentada em Coimbra hoje

Hoje, dia 21 de Outubro, às 18h, realiza-se via plataforma Zoom, uma conversa em torno do livro "História Global de Portugal" com a participação dos directores da obra, os historiadores José Pedro Paiva da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e José Eduardo Franco da Universidade Aberta e pelo físico e historiador da ciência Carlos Fiolhais do Departamento de Física da Universidade de Coimbra.

Sessão inserida no ciclo Ciência às Seis, iniciativa do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, com a coordenação de Carlos Fiolhais e António Piedade, neste semestre em formato Digital 💻📱

Destinada ao público em geral, a sessão é de participação livre e não necessita de inscrição.

SINOPSE DO LIVRO

Portugal foi ponto de chegada e de partida de gentes, culturas, línguas, ideias, tendências de gosto, comportamentos, crenças, instituições, produtos que sempre foram variáveis e que aqui e nos ubíquos lugares onde chegaram imprimiram sinais de miscigenação plurimodal, que foram enriquecendo as cores do mundo, mas também provocando disrupções, violência, tantas vezes guerra, sofrimento e fenómenos de resistência. Portugal é o resultado de incontáveis dinâmicas de diálogo e de choque com outros lugares. E o mundo tem traços das mediações que os habitantes do espaço de Portugal espalharam. É esta fascinante história que aqui se pretende contar para melhor percebermos quem somos e o mundo em que vivemos.

Aceda à sessão no Zoom através do Link
ou ID da reunião: 842 3901 0899 | Senha: 389431
 

RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra
Rua Larga - Departamento de Física da FCTUC - 3004-516 Coimbrra

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

CIÊNCIA ÀS SEIS - 5ª TEMPORADA

 



O ciclo de divulgação de ciência “Ciência às Seis” regressa em modelo online. O novo ciclo de palestras destina-se ao público em geral que poderá assistir em sua casa. Esta iniciativa do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, Centro dirigido é coordenada pelo professor Carlos Fiolhais, professor de Física, com a participação de António Piedade, Bioquímico e Comunicador de Ciência. Todas as palestras terão o seu início pelas 18h00 e os links para poder assistir serão divulgados oportunamente aqui.

Esta é a quinta temporada deste ciclo “Ciência às Seis!” que já trouxe a Coimbra várias dezenas de notáveis cientistas e divulgadores de ciência portugueses, envolvendo activamente cerca de quatro mil espectadores.

Com a edição deste ano lectivo de 2020 / 2021, constituída por 13 palestras, pretende-se dar a conhecer aos interessados o estado actual do conhecimento científico e cultural em diversas áreas da ciência e da cultura  como a Matemática, a Astronomia, a Física,  a Biologia, a Geologia, a Engenharia, a Comunicação de Ciência, a História da Ciência, a Sociologia,  a Literatura e  a Arte, numa perspectiva interdisciplinar. É um convite a uma viagem pela diversidade do conhecimento científico.

De entre os palestrantes, convidados pelo RÓMULO, encontram-se cientistas reconhecidos nacional e internacionalmente pela sua investigação científica, que são também destacados comunicadores da sua ciência.

Ao longo do ciclo, serão apresentados, numa linguagem acessível a todos, os desafios com que se deparam os cientistas das áreas atrás indicadas e destacados os contributos para o nosso dia-a-dia que resultam do avanço do conhecimento científico.  O papel da ciência na sociedade também será discutido, com particular ênfase sobre as pseudociências que inundam as redes sociais.

Indicamos a seguir a data de cada uma destas palestras, o título e nome do respectivo palestrante:


2020

- 12 de Outubro – “Lá se fazem, cá se pagam? Estórias de bactérias que se tornaram resistentes aos antibióticos…”,  por Célia Manaia, da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica no Porto.

-  20 de Outubro – “Apresentações orais: boas e más práticas”, por Luís Adriano Oliveira do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

- 21 de Outubro – “História Global de Portugal”, por José Eduardo Franco, da Universidade Aberta e investigador do CLEPUL - Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, José Pedro Paiva, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Carlos Fiolhais, Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e Director do RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra,

- 27 de Outubro – “Jornalistas, cientistas e factos alternativos”, por José Vítor Malheiros, Jornalista de Ciência.

-   3 de Novembro – “Química industrial: Baekeland e Carothers”, por Raquel Gonçalves-Maia, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

- 10 de Novembro – “Modelos: o seu lugar na relação Ciência e Arte”, por Olga Pombo, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

- 18 de Novembro – “Movimentos estudantis em Coimbra: entre 1969 e 1974”, por João Gouveia Monteiro, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Director da Biblioteca Geral da mesma Universidade, e Rui Bebiano, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais desta Universidade.

- 24 de Novembro – DIA DO RÒMULO - “Os Dinossauros de Carenque”, por António Galopim de Carvalho, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa – às 16 horas     

“Apanhados pelo vírus: factos e mitos na pandemia de COVID-19”, por David Marçal, Comunicador de Ciência- às 18 horas

- 15 de Dezembro – “ O prémio Nobel da Física 2020”, por Carlos Fiolhais, Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra .

 

2021

 - 5 de Janeiro – “Sociologia das cidades”, por Carlos Fortuna, da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.  

12 de Janeiro – “Ciência e banda desenhada” – por João Ramalho-Santos, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

- 19 de Janeiro – “A ciência em Eçã de Queiroz”, por Helena Santana, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 


domingo, 18 de outubro de 2020

O acesso aos serviços públicos por telefone 707: ordem para ‘sacar’?

 

“Em tempos, certas dependências da administração pública (a Direcção-Geral do Consumidor, CP, CTT, por exemplo, e tantas mais) dispunham de linhas 707: chamadas de valor acrescido que proporcionavam aos departamentos oficiais receita suplementar.”

A Provedora de Justiça emitira, porém, a 5 de Abril de 2018 (depois de perturbantes contradições no seio do próprio serviço) oportuno e adequado comunicado, nos termos do qual

“… adverte para a circunstância de vários serviços públicos e empresas detidas pelo Estado continuarem a usar linhas telefónicas de custos acrescidos (com os prefixos 707, …), como meio de contacto com os utentes, em desrespeito à legislação em vigor."

"Não é legal a utilização de linhas de telefone de custos acrescidos pela administração pública como meio de contacto pelos cidadãos".

Rege neste particular o art.º 11 do DL 135/99 (alterado pelos Decretos-Leis n.ºs 73/2014, de 13 de Maio; 58/2016, de 29 de Agosto e 74/2017, de 21 de Junho).

Por conseguinte, os serviços não podem adoptar tais práticas; não é lícito que sujeitem os cidadãos que os contactem a dispêndios acrescidos, para além dos normais custos de uma chamada.

TAP, CP, CTT, AT – Autoridade Tributária e Aduaneira, Lojas e Espaços do Cidadão, Instituto de Segurança Social, Serviços Municipais, Direcção-Geral do Consumidor, ADSE, Instituto da Juventude, Caixa Geral de Depósitos, entre outros, mantiveram, há não muito, tais linhas que constituíam como que uma fonte suplementar (desnecessária) de receitas no afã de se “esportular” o cidadão, avantajando a administração...

E a proibição não é, pois, de agora.

Porém, pela Lei 7/2020, de 10 de Abril, no quadro das medidas suscitadas pela pandemia, sob a epígrafe “linhas telefónicas”, surge surpreendentemente no seu artigo 9.º:

• Proíbe-se que tais entidades se socorram de números especiais de valor acrescentado com o prefixo «7» (707…), para contacto telefónico dos consumidores. Com custos que excedam os montantes de uma ligação normal.

• Consente-se apenas que haja números especiais, números nómadas com o prefixo «30», ou números azuis com o prefixo «808», disponíveis para contacto telefónico dos consumidores.

• Tais entidades devem proceder à substituição por números telefónicos com o prefixo «2», no prazo máximo de 90 dias [prazo que expirou a 09 de Julho pretérito].

Destinatários da norma são-no:

- Entidades integradas na Administração Pública central, regional ou local,

- Empresas que prestam serviços públicos essenciais, designadamente de fornecimento de água, energia eléctrica, gás natural e gases de petróleo liquefeitos canalizados, comunicações electrónicas, serviços postais, recolha e tratamento de águas residuais, gestão de resíduos sólidos urbanos e transporte de passageiros e

- Empresas concessionárias da Administração Pública central, regional ou local.

A lei impõe ao Ministério da Saúde que, prazo máximo de 60 dias, substitua o número de acesso ao Serviço Nacional de Saúde - SNS 24 de prefixo «808» por um número especial, assegurando a sua total gratuitidade para os utentes.”

É estranho que a Administração Pública se revele relapsa no cumprimento da lei e das recomendações emanadas da Provedoria de Justiça ("Ombudsperson").

E que haja sistematicamente de se tornar a situações destas para que se não agrave a posição do cidadão perante a Administração.

Até parece o processo da abolição do papel selado, em Portugal, velha pecha da burocracia do Estado Novo: foram precisos três diplomas legais para que o facto entrasse na cabeça dos burocratas… e o “papel selado” fosse, com efeito, à vida!

ADENDA:

Cfr. o artigo 11 do diploma da Modernização Administrativa (DL 135/99, de 22 de Abril, actualizado) no que tange ao acesso aos serviços públicos por telefone e outras plataformas electrónicas:

“1 - Nos serviços e organismos da Administração Pública, onde as circunstâncias o justifiquem, são afectadas exclusivamente a pedidos de informação apresentados pelos utentes, uma ou mais linhas telefónicas, designadas por linhas azuis, cuja instalação e manutenção deve ser prioritária.

 2 - As linhas azuis devem ser adaptadas ou instaladas de modo a não permitir a realização de chamadas internas ou para o exterior, garantindo assim a sua total disponibilidade para o público.

3 - As linhas azuis devem ser apetrechadas com um dispositivo especial para atendimento de chamadas por ordem de entrada, bem como para a sua gravação, nos períodos de encerramento dos serviços, para posterior resposta.

 4 - Sempre que possível e se justifique, o serviço deve ponderar a instalação de linhas de atendimento específico de custos reduzidos ou nulos para o utente.

5 - A existência destas linhas de atendimento é de referência obrigatória em todas as comunicações e suportes informativos externos, bem como nos anuários telefónicos.

 6 - Sempre que possível e adequado, os sistemas de atendimento telefónico aos cidadãos devem ser alargados de forma a poder incluir comunicações por chat em plataformas electrónicas ou por teleconferência, nomeadamente através de VoIP.

 7 - As comunicações referidas no número anterior dependem de consentimento do cidadão.”

Já o artigo 11-A (aditado pelo DL 73/2014, de 13 de Maio) prescreve, sob a epígrafe “Linha do Cidadão”:

“1 - É criada uma linha de atendimento central do cidadão, designada por «Linha do Cidadão», constituída por um número curto e facilmente memorizável, atribuído nos termos do Plano Nacional de Numeração.

2 - A «Linha do Cidadão» permite ao cidadão, através da marcação de um número único, ter acesso ao universo dos serviços públicos prestados pela Administração Pública Central que tenham serviços de atendimento telefónico nacionais.

3 - Através de resolução do Conselho de Ministros, são identificadas as linhas de atendimento telefónico da Administração Pública que se filiam na «Linha do Cidadão», e são regulados os termos dessa filiação, a entrada em funcionamento da «Linha do Cidadão» e a sua gestão.”

 

Mário Frota
apDC – DIREITO DO CONSUMO - Coimbra

PORTUGAL, PAÍS DE PARADOXOS

 


Fora da observação dos factos e da essência dos fenómenos, o espírito não pode obter nenhuma soma de verdade” (Eça de Queiroz).

Há muitos muitos anos atrás, contava-me um amigo a seguinte estória:

No norte de África estava um desgraçado amarrado a uma árvore com o corpo cheio de sulcos de chicote com as feridas cobertas de moscas que lhe aumentavam o sofrimento. 

Inconformado com esta selvajaria um europeu que por lá ia a passar pegou num ramo de folhas de  árvore para as sacudir. Com voz quase imperceptível roga-lhe o desgraçado: “Não faça isso que  estas estão quase saciedades e outras que venham serão bem piores!”

Em período de eleições, ocorre-me sempre este cenário. Talvez por isso, para determinadas pessoas votar em Marcelo para  as próximas presidenciais é o mesmo que votar em Costa, são eles unha com carne nas medidas que que vão sendo tomadas qual coro de igreja bem afinado. Em consequência pouco me espanta porque, segundo Bergson “não existe cómico fora do que é propriamente humano”, o facto de tanta gente dizer muito mal do Partido Socialista e menos de Marcelo e, paradoxalmente, à boca das urnas votarem paradoxalmente neles!

Proponho, portanto, em nome da coerência e da rotação da governação de um clima democrático,  que continuem a venerar Costa mas não votem no PS. Assim, sim, haverá coerência entre os actos e as palavras, para um governação séria, sem mentiras e sem sofismas, em mãos honradas para que “o dinheiro público não seja o dinheiro que o governo tira aos que não podem escapar e dá aos que escapam sempre”, segundo Milton Friedman.

Outro paradoxo reside em termos um regime republicano desde idos de 1910 e vivermos, em nome da verdade, actualmente numa espécie de regime dinástico em que a governação é repartida por familiares chegados como se a  arte em bem governar estivesse inscrito no código genético em herança de pais para filhos ou por contágio entre marido e mulher, mas tendo  como resultado abortivo, porquanto no dizer de António Aleixo: “Há tanto burro a mandar / Em homens de inteligência / Que, à vezes, chego a pensar / Que a burrice é uma ciência”.

Para não me alongar com casos de corrupção que se assemelham ao rol imenso de peças roupas malcheirosas lavadas no rio por lavadeiras de antanho, só sendo do conhecimento público por serem noticiadas por gente com princípios morais, éticos e de coragem para porem os seus lugares em jogo na SIC, donde são corridos como, por exemplo, o caso mais recente, de José Gomes Ferreira.

E porque, infelizmente,  nadamos desnorteados  no mar imenso, tenebroso,  desconhecido e proceloso do corona vírus, esquecimento imperdoável meu seria não me referir a duas “personas” que esbracejam por se manterem à tona de água, pese embora os alvitres públicos para a sua saída.

Refiro-me, como é óbvio, à ministra da Saúde e à respectiva directora geral, respectivamente Marta Temido e Graça Freitas que se defendem e amparam costas contra costas como no jogo do pau desdobrando-se em justificações injustificáveis, cujos nomes se prestam ao gracejo fácil  de Marta Tremida e Desgraça de Freitas.

Várias  vezes tenho lido proposta a demissão de ambas, de que eu fui um dos proponentes mais antigos, a saída  de Marta Tremido, dias atrás, por David Justino, vice-presidente do PSD, referindo-se a esta pandemia como um pandemónio, também aqui me tenho por padrinho por julgar (dir-me-ão se erradamente ou não) ter sido minha a pia baptismal da cerimónia da denominação de pandemónio a este “status quo”.

Claro que ambas mudaram desde a sua nomeação para cá: Graça Freitas de  indumentária de avozinha de aldeia de carrapito no alto da cabeça  reapareceu com lenços ao pescoço de cores garridas e cabelo tratado com esmero de cabeleireiro profissional de créditos firmado e afirmados. Por seu turno, Marta Temido de ares de defunta surgiu remoçada com um sorriso de orelha a orelha e um corte de cabelo “à garçonete” tendo como possível desculpa que o mal virótico que assola Portugal é mal que se encontra espalhado no mundo inteiro desde a poderosa América a uma China em despique de poder com ela, desde os Montes Urais à Patagónia, desde o rio Tamisa ao Amazonas, desde os os arranha-céus do Dubai às palhotas do continente africano, tentando encontrar lenitivo no mal dos outros com os quais, egoisticamente, como é costume dizer-se,  se pode bem.

Contrariando o dito de mais vale só do que mal acompanhada aparecem elas em conferências de imprensa como que geminadas a dizerem a mesmíssima coisa com o  ámen final em uníssono de ambas.

Solidariedade bem rara  de encontrar no meio feminino em  paradoxo  de um país em que, em chiste triste e previdente do brasileiro Millôr Fernandes, “acabar com a corrupção é objectivo de quem ainda não chegou ao poder!”

Vivemos hoje num mundo frágil e maltratado construído em paredes arquitectónicas de uma civilização em perigo de ruir e em que toda a realidade, para Álvaro Campos “é um excesso, uma alucinação extraordinariamente nítida”.

Compete ao cidadão de hoje ser uma sentinela alerta para esta situação tentando, na medida da possibilidade humana, deixar aos vindouros um horizonte livre de nuvens de borrasca que ameaçam o seu futuro e em que o vento da esperança, como soe dizer-se, é a última a morrer, varrendo bem para longe um pesadelo apenas sonhado.

É nesta capitosa prosa queirosiana que eu me embebedo em críticas políticas e sociais desse tempo hoje revividas por mim numa perspectiva pessoal, como tal discutível, embora apoiada no facto defendido pelo autor de “ Os Maias", de  que “fora da observação dos factos e da essência dos fenómenos” tudo quanto se diga não passa de pura especulação. Ou haverá, quando muito, fundamentos arrevesados que servem de bandeja a interesses do Partido Socialista e/ou  de Marcelo.

Mas isso é outra conversa que tem o nome de partidarite ou paixão por certas figuras públicas qual patologia inflamatória crónica de difícil, ou mesmo impossível tratamento, ainda que com corticóides com efeitos adversos para o organismo, porque contra factos não há argumentos apenas inócuas panaceias como, por exemplo, querer meter o Rocio na Rua da Betesga. Isto é, um último paradoxo de um país a abarrotar de paradoxos!

sábado, 17 de outubro de 2020

JE SUIS ENSEIGNANT / EU SOU PROFESSOR

“É assustador ver que na França do século XXI
um professor pode ser decapitado na rua por fazer o seu trabalho”
Professor sindicalista (aqui).
 
Imagem recolhida aqui
Samuel Paty é o nome do professor que foi ontem assassinado na rua, numa localidade perto de Paris. Não havia ainda chegado aos cinquenta anos. Ensinava História e Geografia e, ainda, Educação Moral e Cívica (EMC). Terá sido neste último contexto que preparou com os seus alunos do equivalente ao 3.º ciclo do ensino básico português, um debate sobre Liberdade de expressão.


O valor em causa, perigoso desde as suas formas mais rudimentares, não deixou de o ser neste século XXI, no mesmo Ocidente que o inventou. No caso, terá desagradado a uma certa comunidade que fosse tratado numa escola pública, da maneira como o professor havia previsto: livremente. Iniciou-se um diálogo, por certo tenso, entre representantes da escola e elementos da comunidade. O professor, como era seu dever, manteve o que havia decidido. Terá dito: "continuarei a fazer o meu trabalho como o fiz até aqui". E pagou com a vida a defesa de um valor.

Imagem recolhida aqui

Em França os professores estão na rua: querem demonstrar solidariedade para com o colega e manifestar a recusa da barbárie, mas também para darem a conhecer uma certa forma de violência que os atinge em constante e que nem sempre é manifesta. Em vez de serem encorajados a defender o conhecimento universal e a racionalidade, é-lhes sugerido que tratem certos temas "sensíveis" com "prudência" ou que os evitem. Em vez de serem apoiados pela escola nesse propósito, são deixados à sorte. É a própria identidade da profissão que está em causa, dizem. 

“Não devemos mentir uns aos outros, há escolas onde certos assuntos são sensíveis”, declarou um professor e outro explicou que a "educação nacional escolheu fechar os olhos aos problemas e isso, como se vê, pode tornar-se mortal". Continuou, "os professores sentem-se profundamente desencantados, persegue-os um sentimento de abandono. Agora haverá uma homenagem um minuto de silencio (...) Muito bem, mas enquanto os professores não forem escutados, enquanto a sua palavra não for tida em conta pelas hierarquias, outros dramas poderão surgir."    
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Informação recolhida principalmente aqui, aqui, aqui, aqui

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

EUGÉNIO LISBOA EM TEMPO DE PESTE

 Meu artigo no jornal I:

https://ionline.sapo.pt/artigo/711934/eugenio-lisboa-em-tempo-de-peste?seccao=Mais_i


Ciência às Seis (online): Novo Ciclo de palestras no RÓMULO

Dia 20 de Outubro, às 18h, realiza-se via plataforma Zoom, a palestra intitulada "Apresentações orais: boas e más práticas" com o Professor Luís Adriano Oliveira do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

Sessão inserida no ciclo de Ciência às Seis, iniciativa do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, coordenado por Carlos Fiolhais (com a colaboração de António Piedade) em formato Digital 💻📱

Destinada ao público em geral, mas em especial aos estudantes universitários, a sessão é de participação livre e não necessita de inscrição.

Aceda à sessão no Zoom - https://us04web.zoom.us/j/78285713394?pwd=YUJNdm9YanVCZ21IY2hDUUNWdjBCZz09
ID da reunião: 782 8571 3394
Senha: nmb87C


RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Divulgação de Eventos

Departamento de Física da FCTUC 

Rua Larga
3004-516 Coimbra

Telefone: 239 410 699


quinta-feira, 15 de outubro de 2020

ELUCUBRAÇÕES NUM PAÍS FUTEBOLIZADO




Breve nota introdutória: Publiquei este "post", aqui no "DRN", no passado dia 05.Abril.2020, que transcrevo com ligeiríssimas alterações:

"Num país, no extremo mais ocidental da Europa, antes da pandemia do "coronavírus” que mudou por completo o “modus vivendi” da população do mundo, os jornais desportivos (e o próprio jornalismo generalista) dedicavam numerosas páginas ao chamado desporto-rei liderando a venda de jornais de todos os  géneros.
Num país em que as “coisas do espírito” são escravizadas pelo ser e endeusadas pelo ter seria bem vinda uma brisa de esperança que arejasse certas mentalidades  subjugadas e enquistadas a  revistas da chamada socialite  sobre questões de transferências faraónicas de futebolistas, de seus casarões luxuosos, de seus bólides topo de gama, de suas namoradas (qual delas a mais bela entre as belas!). etc., etc.
Num país em época de defeso forçado sem “sine die” marcado para o seu término, e em que, ainda sobrevive uma matéria arrogante que diz a um espírito submisso: “Aqui estou, arreda-te para o lado!”   
Num país em que o pensamento reflexivo da Filosofia se debate na escuridão e a ignorância se ilumina com archotes.  
Num país herdeiro de uma época de decadência desportiva romana, sem sequer ter conhecido o apogeu de uma educação helénica integral. 
Num país estupidamente futebolizado em que, porventura, corro risco de todo o apóstata de ser havido como um renegado, por estas minhas elucubrações, ao correr da pena, contra um clubismo exagerado e o ódio entre as claques, apoiando-me na máxima latina “ridendo castigat mores”, faço apelo final ao dito jocoso, de que o homem pode mudar de mulher, de partido, de clube isso é que não jamais em tempo algum. 
Neste “statu quo” virado do avesso é pretendida razão inqualificável para as disciplinas de Humanidades serem parentes pobres dos currículos escolares centrados num mundo cientificado que se encontra, apesar do seu inegável avanço, tolhido de pés e mãos, tal como há milénios atrás, incapaz de combater um vírus que atacou a Humanidade ceifando milhões de vidas. 

Daqui, retiro razão, em momentos de reflexão gerados por me encontrar em clausura entre quatro paredes, qual monge tibetano, para a reprodução de um meu artigo de opinião crítico sobre a desvalorização da Filosofia no âmbito do ensino secundário (Diário de Coimbra, 13/02/2006). Trancrevo-o: 
“Vai para um ano, publiquei neste jornal (13/02/2006) um artigo de opinião em que criticava veementemente a desvalorização da Filosofia no âmbito do ensino secundário. Duas notícias de jornal trouxeram para os media esta temática: Primeira: Um artigo do professor universitário de que ressalto: «Se a filosofia deixar de ensinar nas escolas, a comunidade científica no seu todo fica mais pobre» (Diogo Pires Aurélio, Jornal de Notícias, 19/12/2006). Segunda: Algumas empresas norte-americanas decidiram recrutar para os conselhos de administração quadros com formação superior em filosofia” (Mário Bettencourt Resendes, Diário de Notícias, 04/01/2007). 
Na Grécia Antiga, através da máxima “primum vivere deinde philosophari”, zombavam dos que só sabiam filosofar não sendo capazes de ganhar meios de subsistência. Em nosso tempo, assiste-se à guerrilha institucional entre gigantes do conhecimento científico e luminares de saberes humanísticos. 

Como escreveu Georges Gusdorf, professor da Universidade de Estrasburgo, festejado autor da bem documentada obra “Da História das Ciências à História do Pensamento” (Pensamento - Editores Livreiros, Lisboa 1988), em meados de 60 do século das luzes, docentes da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Ciências de Paris, preveniam, “ex cathedra”, a família e os interessados que a passagem por um estágio na classe de filosofia representava para os futuros médicos “uma deplorável perda de tempo e de inteligência”.

Em testemunho, ainda, de Georges Gusdorf, um jornalista da radiodifusão foi então perguntar a estudantes de Medicina, escolhidos ao acaso, o que pensavam desta declaração. Com lúcida maturidade cultural, foi-lhe por eles respondido que lhes parecia, pelo menos, impensada.

Ainda segundo este mesmo autor, “os estudantes tinham cem por cento de razão em denunciar esta forma particularmente nociva de obscurantismo contemporâneo que existe entre os potentados universitários como no homem da rua”.
Ora, este descabido ataque à própria matriz de todas as ciências é tanto mais insólito porquanto nomes maiores da Ciência contemporânea se têm distinguido no deambular de uma Sabedoria sem fronteiras, v.g. Bertrand Russel e Albert Einstein. Razão de sobra para Georges Gusdorf sentenciar: “O fascínio tecnicista e cientista é um sinal dos tempos, cujas repercussões se fazem sentir na organização ou antes, desorganização do ensino a todos os níveis. Esta desorganização com espaldar no sistema educativo português, em que as reformas curriculares se sucedem em vertiginoso carrossel, tem conduzido à desvalorização da Filosofia e, “ipso facto”, ao desprezo por um importante legado da antiga civilização grega: a do Homem que se questionar e ao mundo que o rodeia, tornando-se, simultaneamente, num processo de realização ética. Desta forma, pondo em causa o generoso papel do conhecimento filosófico como personagem de um processo cultural que abriria espaçosas fronteiras à Ciência hodierna”.
Regressando ao filósofo acima citado, Platão, encontro numa das sua máximas o conselho judicioso, diria mesmo profético: 
“Não espere por uma crise para descobrir o que é realmente importante na sua vida”!

terça-feira, 13 de outubro de 2020

"Contratar docentes insuficientemente e/ou deficientemente qualificados" não é opção!

O ensino como outras profissões de educação padece de 
“... uma crónica hemiplegia profissional e de uma certa menoridade social. 
[os profissionais] reconhecem-se e são reconhecidos como profissionais 
mas, em geral, ainda não são tratados, não agem, nem se sentem como tais”
A. Reis Monteiro, 
In Deontologia das profissões da educação. Coimbra: Almedina, 2005, pág. 7.

Alguém que tem exercido diversos cargos académicos e políticos no sistema de ensino (e, de modo directo, na formação de professores), publicou um artigo de opinião sobre a já evidente falta de professores. Aí escreveu o seguinte:

"Há muito tempo que a situação é percetível e, na verdade, o problema só não é já catastrófico, devido ao adiamento da idade de reforma dos professores que mantém no sistema milhares de professores que já teriam saído. Mas, é óbvio que o tempo escasseia e vamo-nos aproximando da situação de ter de recuar aos anos 70/80 do século passado e voltar a contratar docentes insuficientemente e/ou deficientemente qualificados. Mas, convém sublinhar que, se tal vier a suceder, não se deverá a qualquer fator de crescimento inesperado ou incontrolável, mas a simples incompetência política" (ver aqui).

O destaque é meu, depurando-o fica:

"... vamo-nos aproximando da situação de ter de (...) contratar docentes insuficientemente e/ou deficientemente qualificados."

Adaptemos esta declaração a outras profissões com responsabilidade equivalente à da docência:

vamo-nos aproximando da situação de ter de (...) contratar   
médicos insuficientemente e/ou deficientemente qualificados.

pilotos de aviação insuficientemente e/ou deficientemente qualificados. 

juízes insuficientemente e/ou deficientemente qualificados.

Por certo os leitores concordarão que se alguma das declarações tivesse sido feita publicamente, a comunicação social "animar-se-ia" de imediato com uma extensa e aguerrida polémica. Tratando-se de professores, nada de especial aconteceu: uma crítica aqui e outra ali, que, por certo, não abalarão a certeza da pessoa em causa. 

Será, porém, de lembrar que temos, desde 2012, uma lei que firma a obrigatoriedade do mestrado em ensino, como a habilitação mínima para ingressar na carreira docente. Refiro-me ao Decreto-Lei n.º 41/2012 de 21 de Fevereiro que nos seus artigo 3.º e 4.º do Capítulo II diz: 

A habilitação profissional para a docência é condição indispensável para o desempenho da atividade docente (...) Têm habilitação profissional para a docência em cada grupo de recrutamento os titulares do grau de mestre (...) 

A menos que se mude a lei, não é possível "contratar docentes insuficientemente e/ou deficientemente qualificados". Pelo menos, em termos formais. Neste caso, é mesmo preciso o diploma.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

OS SULCOS DO ROSTO

 

Publico esta minha foto tirada hoje nos meus 89 anos de idade por me fazer lembrar amigos que nesta mesma idade publicam no portal do respectivo facebook (ai esta minha ignorância informática, ou será frontispÍcio?), fotos saudosas dos seus vinte e poucos anos de idade!
Fazem-me eles lembrar aqueles vendedores ambulantes do Largo de São Domingues, em Lisboa, do meu tempo de juventude que, sob o selo de segurança das suas promessas de juras, a pés juntos e alto e bom som, ampliado por megafone, anunciavam: "Eu não estou aqui para enganar ninguém"! E com esta falsa promessa enganavam todo o mundo e arredores de papalvos!
Destarte aldrabona, vendiam frascos e frascos a carecas com com cabeças do tipo bola de bilhar, do famoso "Kuro" (se a memória me não falha, era este o nome do produto!) com o slogan: "Onde cai" Kuro cai Kuro e não cai cabelo", a que eu acrescentava baixinho para não ser ouvido pelo trapaceiro e por ele corrido à paulada: "Onde cai Kuro, cai Kuro e cai cabelo"!
Como o possível leitor poderá verificar, "in loco", mesmo sem Kuro o cabelo vai-me rareando. E porque o tempo não pára a minha foto actual, com os seus sulcos (rugas) na cara, mapeia a minha vivência com as suas vitórias (menos) e as derrotas (mais) que fui colhendo na minha vida, vivida em pleno sem artimanhas de estar de posse de um elixir que faz parar o tempo tornando-me dono, com tal, de um fortuna de fazer inveja aos políticos e deputados que enxameiam este Portugal que se diz socialista sem se preocupar com os seus pobres, os seus reformados, os seu velhinhos, as suas crianças que vão para a cama com fome; e sei eu lá que mais!
Este "sei lá que mais" deixo ao cuidado do leitor, para consulta num cardápio, passe a redundância de vergonhas vergonhosas!!
P.S.: Eu que me tenho de direita, por vezes, dou comigo a conversar com um amigo de esquerda dando nós, a certo momento de uma conversa civilizada, a dizer um para o outro: "Eu no meio desta confusão pareço de esquerda e você de direita", e vice-versa! Estou em crer que esta aparente confusão nasce do facto de sermos iguais a nós próprios num país de conveniências e conivências ocasionais!

PLANTAS EM RISCO DE EXTINÇÃO

A conferência de divulgação dos resultados finais do projeto «Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental» (POSEUR-03-2215-FC-000013) realiza-se no próximo dia 13 de outubro de 2020, na Fundação Calouste Gulbenkian (auditório 2), em Lisboa. 

Será apresentado o livro, que contém as fichas das 381 espécies ameaçadas de extinção e das 19 espécies extintas. A publicação integra-se na coleção «Botânica em Português» da iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa no âmbito da distinção de "Lisboa como Capital Verde Europeia 2020". 

A lotação do auditório será reduzida. O evento será gravado e poderá ser acompanhado em direto por videodifusão (live streaming).

Mais informações (aqui)

O ensino ao ritmo humano

Dizem Maggie Berg e Barbara K. Seeber que o livro que publicaram, com o título The Slow Professor. Challenging the Cuture of Speed in the Academy, não visa só apresentar um problema e transformar um sistema.

O problema está bem identificado: os professores e (acrescentamos nós) outros tipos de profissionais cuja acção depende da elaboração do pensamento, vêem a sua tarefa principal, aquela para a qual foram formados, a desaparecer numa infinidade de solicitações parcelares, repetitivas, burocráticas, tecnicistas... mas no pior sentido, que é a ausência de outro sentido que não seja a contabilização, a prestação de contas. 

E isto a tempo inteiro: no horário de trabalho e fora dele, sendo que, aqueles que se pautam por um elevado sentido do dever profissional, nunca conseguem ter a consciência tranquila, pois há sempre algum coisa a que não conseguem responder de imediato, como se espera que façam. A culpa persegue-os e... consome-os!

Estamos já no domínio da insanidade e isso não pode continuar, sob pena de colapso das pessoas e, com elas, das organizações.

É, pois, preciso, transformar o sistema, começando por reconhecer que, como humanos, somos lentos em certas tarefas de teor intelectual (no ensino e na aprendizagem e no que elas implicam: estudo, conceptualização, etc). Atender a isso não é perda de tempo, é condição de eficácia.

O "Movimento Slow", iniciado com a comida "slow" e ganhando terreno noutras áreas, desafia não só a velocidade a que temos submetido a vida, mas também a sua padronização desinteressante.

Ainda não tinha acontecido olhar-se para a educação e, de modo mais concreto, para a docência, que solicita o pensamento profundo. E o pensamento profundo precisa de maturação, que requer... tempo.

Situando-se na universidade, as autoras enunciam diversos factores de preocupação que bem conhecemos, relacionados com a competitividade de mercado que se instalou antes que déssemos conta dela: produtividade, métricas, concursos, prémios, evidências, resultados, financiamento, avaliação... O seu conjunto, que se mantém permanentemente no horizonte, relega para um plano cada vez mais longínquo as preocupações pedagógicas e, mesmo, as científicas que são menos "rentáveis".

É de optimismo o balanço final do livro pois a "resistência" está viva e avança, dizem Berg e Seeber. E desafiam cada professor a investir na reflexão e no diálogo, em suma, a reforçar a vida intelectual da universidade.
Maria Helena Damião e Isaltina Martins

domingo, 11 de outubro de 2020

ATÉ DOS PÂNTANOS BROTAM NENÚFARES



Acabo de ler um texto do jornalista Nicolau dos Santos, salvo erro, na revista da TAP, em que ele numa longa pesquisa exalta epicamente os progressos feitos em Portugal nestes últimos trinta anos. 

Progressos reais que não devem sofrer total contestação pelo risco de perda de isenção Pela extensão, do seu texto extraio nacos de prosa, que comento, “en passant”, opondo um amador da escrita (eu) a um profissional desse mister (ele). 

Até dos pântanos brotam nenúfares. Saudemos pois esses nenúfares do pântano em que corre o risco de se se tornar o Serviço Nacional de Saúde coroa de glória do seu criador, António Arnaut; do pântano onde é citado José Saramago e é esquecido o nosso primeiro Prémio Nobel António Egas Moniz (por não pertencer à actual geração socialista?); do pântano que calça milhões de pessoas em todo o mundo e que produz o 2.º calçado mais caro a nível planetário e onde se vê pedintes com tiras de pano roto nos pés para os proteger do frio; pântano que fabrica lençóis inovadores onde dormem 30 milhões de americanos e onde tentam adormecer portugueses na rua ou debaixo das pontes ao lado de cães seus fiéis amigos a eles abraçados aquecendo-se mutuamente do frio invernoso cobertos com os andrajos que vestem durante o dia; pântano onde se abandonam os cães na rua por deixarem de interessar aos meninos que fizeram birra para os pais os adquirirem e por eles deixarem de se interessar ; pântano de um país que tem os seus propagandistas do regime pagos para o efeito enquanto eu redijo este apontamento "pro bono", etc.etc.

Este o paradoxo de um mundo de fronteiras comunitárias que, para inglês ver, varre o lixo para debaixo do tapete e limpa as pratas da casa, por vezes, de estanho, que possam servir de espelho onde os visitantes, previamente anunciados, se possam mirar!

OS CONIMBRICENSES REVISITADOS

 


Texto que publiquei recentemente no Jornal de Letras:

Coimbra é famosa pelos Conimbricenses, ou, mais extensivamente, pelos Comentários a Aristóteles do Colégio Jesuíta Conimbricense, o conjunto de oito volumes de discussão, em latim, das obras de Aristóteles que os jesuítas do Colégio das Artes publicaram de 1592 a 1606 e que alcançaram rapidamente expansão global. Tirando as obras maiores da nossa literatura, nenhuns outros livros nacionais tiveram tanto renome internacional como os Conimbricenses, que saíram de muitos prelos estrangeiros para proveito de numerosíssimos estudantes (só na Europa houve mais de 112 edições). Entre os filósofos que referiram os Conimbricenses contam-se Descartes, Malebranche, Locke, Leibniz, Marx e Peirce. Sim, Karl Marx citou-os na sua tese de doutoramento apresentada em Jena em 1841.


Não admira, por isso, que na universidade que é Património Mundial da Humanidade esteja em curso um projecto que visa investigar, traduzir e comentar essa produção da Companhia de Jesus, que detinha, no alto da colina coimbrã, duas escolas preparatórias dos estudos superiores. O leitor pode ver esse labor no sítio conimbricenses.org, dirigido por Mário Santiago de Carvalho, professor de Filosofia da Faculdade de Letras local. Encontrará aí ligações que remetem para duas traduções muitos recentes de dois volumes, ambas on-line: o IV, os Pequenos Naturais, e o V, a Ética a Nicómaco (Imprensa da Universidade de Coimbra). As Edições Sílabo tinham publicado em 2010 Da Alma, o vol. VII. Faltam, portanto, traduções da Física (vol. I), do Céu (vol. II), dos Meteoros (vol. III), da Geração e Corrupção (vol. VI) e da Dialéctica, isto é, Lógica (vol. VIII). Para ajudar a ler todos eles, acaba de sair, pela Palimage, o Dicionário do Curso de Filosófico Conimbricense, onde, em 567 páginas, Mário Santiago de Carvalho, após uma introdução, discute exaustivamente os termos latinos dos Conimbricenses (há equivalências português-latim e latim-português no final). É obra de fôlego que louvo com gosto. Só não percebo por que não foi editada pela Imprensa da Universidade, editora que tem vindo a distribuir urbi et orbi  versões electrónicas da sua produção.


O mesmo autor já nos tinha dado, pela Imprensa da Universidade (em coedição com a Imprensa Nacional), um livrinho muito útil que compila o essencial sobre os Conimbricenses (O Curso Aristotélico Jesuíta Conimbricense, 2018). E, na mesma editora e sobre o mesmo tema, Cristiano Casalini, investigador italiano, tinha publicado Aristóteles em Coimbra (2015). Essa literatura crítica e divulgativa acresce ao clássico de Pinharanda Gomes, o grande historiador da filosofia portuguesa recentemente falecido, Os Conimbricenses (Guimarães, 1992; há uma edição on-line da Biblioteca Breve, no sítio do Instituto Camões).

Talvez a glória maior dos Conimbricenses tenha sido a contrafacção em várias imprensas estrangeiras, a começar por uma de Francoforte em 1604, do volume sobre lógica que tardava (ignora-se a origem do texto, mas deve ter vindo de lições lidas no colégio jesuíta de Évora, muito ligado ao de Coimbra). O livro ficou conhecido por Lógica Furtiva. O prefácio do vol. VIII esclarecia o roubo (muito óbvio, basta olhar para a capa da edição, que difere das outras edições principes, todas ostentando o grande emblema com o IHS dos jesuítas).


A autoria dos Conimbricenses pertenceu a um colectivo de quatro jesuítas, nenhum deles de Coimbra, embora a maioria falecidos nessa cidade: Manuel de Góis (Portel, 1543 – Coimbra, 1597), Cosme Magalhães (Braga, 1551 – Coimbra, 1624), Baltasar Alvares (Chaves, 1560 – Coimbra, 1630) e Sebastião do Couto (Olivença, 1567 - Montes Claros, 1639), sobressaindo o primeiro pela amplitude e qualidade do seu trabalho. Na génese da obra está Pedro da Fonseca (Proença-a-Nova, 1528 – Lisboa, 1599), o “Aristóteles português”, que foi autor de dois livros aristotelianos com ampla circulação internacional (a Dialéctica, de 1564, e a Metafísica, de 1577). Nos Conimbricenses o volume de lógica acabou por sair, pela mão de Couto, em último em vez de ter a primazia, como no curso oral, ao passo que o volume de metafisica nunca conheceu a luz do dia. Fonseca pertenceu a uma comissão inicial de preparação dos Conimbricenses, mas, devido aos seus afazeres, não avançou muito, não tendo também participado na comissão que acabou por levar a cabo o projecto.


A recepção principal na Europa dos Conimbricenses deu-se na Alemanha, com edições em Colónia e Mogúncia. Mas também houve edições na França e na Itália. Já em Inglaterra, dominada por Oxford e Cambridge, a difusão não foi tão ampla. Mas os livros galgaram os mares, chegando rapidamente ao Brasil, à Índia, à China e ao Japão (onde os portugueses tinham arribado em 1543). A difusão na China é digna de realce. Aristóteles chegou ao Oriente com grande atraso e mais tarde seria se não fosse a intermediação portuguesa. Chegou quase ao mesmo tempo que Galileu:  o jesuíta Manuel Dias, em 1614, numa obra escrita em mandarim, divulgou no Império do Meio as descobertas galilaicas feitas com o telescópio.   


É bem sabido que a expulsão dos jesuítas pelo marquês de Pombal em 1759 culminou um processo de propaganda maciça, aquém e além-fronteiras, que denegriam aqueles padres. A fama mundial alcançada pelos Conimbricenses mostra, porém, como eram, em larga medida, injustas as acusações do marquês. Porém, como a verdade não é a preto e branco, havia nelas algum fundamento. De facto, na altura em que foi publicada a obra coimbrã, decerto escolástica mas com muitos aspectos inovadores na interpretação de Aristóteles, o estagirita começava a ser letra morta com o surgimento da “nova ciência”. Já em 1590 Galileu se erguia contra Aristóteles. E, em 1609, era pioneiro a olhar o céu com um telescópio. Alguns jesuítas acompanhavam as novidades científicas, como mostram as lições na Aula da Esfera, em Lisboa, onde, em 1615, já se construíam telescópios.


Os Conimbricenses foram-se tornando obsoletos ao longo dos séculos XVII e XVIII, e, apesar das tentativas de renovação do curso filosófico empreendidas pelos jesuítas Soares Lusitano, o primeiro a introduzir Descartes entre nós (1651), e por António Cordeiro, o certo é que Luís António Verney tinha razões para, no Verdadeiro Método de Estudar (1746), espanejar a poeira entretanto acumulada.  Descartes criticou os Conimbricenses, que ele estudou no colégio jesuíta de La Flèche, no Loire, quando numa carta ao padre Mersenne, um físico amigo dele e de Galileu, lhe disse que os Conimbricenses eram “longos, sendo bom que fossem mais breves”. Se a filosofia cartesiana reagiu à escola aristotélica poder-se-á dizer que Coimbra ajudou a instaurar a modernidade ao propiciar um bom ensejo de crítica… Mas, no meu entender, o papel maior de Portugal na história da ciência foi ter sido interposto na transferência de conhecimento do Ocidente para Oriente numa época de uma grande mudança do mundo a que alguns chamam “primeira globalização”.


Carlos Fiolhais


sábado, 10 de outubro de 2020

RACISMO E ETNIAS


“No dia em que pararmos de nos preocupar com a Consciência Negra, Amarela e Branca e nos preocuparmos com a Consciência Humana o racismo desaparece” (Morgan Freeman).

Que me expliquem por favor o que pretendem (será pedir muito?) os pretensos antirracistas, que pediram a nacionalidade dos nados e criados na “ocidental praia lusitana”, com os seus discursos de ódio contra o país da sua livre escolha para viver, país cheio de defeitos e racismo, segundo eles?

Se dúvidas tiver o leitor procure na Net os discursos incendiários de Joacine Moreira, deputada da Assembleia da República Portuguesa, e de Mamadou Ba, ex-assessor parlamentar do Bloco de Esquerda, nascido no Senegal que viu, inicialmente, o seu pedido de nacionalidade ser indeferido por não ter tempo suficiente de residência em Portugal e conhecimentos de português. Por eles poderão verificar se são paradigma de concórdia ou se, pelo comentário, expressam um racismo de quem tem um fígado a destilar bílis por todos os canais biliares!

Mas que querem eles afinal? Colherem o que outros semearam? Um país em que a competição para um melhor lugar ao sol na ascenção social seja favorecido pelo tom negro da pele? Quiçá aspirem a cotas, aliás exigidas por Mamadou, num país que levou séculos a ser levado ao colo por gerações em que os pais tudo sacrificaram para preparar os seus filhos, através de estudo forçado em noites insones, por vezes, à luz de um candeeiro de petróleo, simples vela de cera ou projectada por um candeeiro de rua perto de uma janelas de casa!

Licito será defender um retrocesso a anos de pálida luz cultural, científica e profissional que clareou com o esforço e o sacrifício de gerações brancas e negras? Simplificando: aspiram eles a um lugar de deputado da Assembleia da Republica para todas as Joacinas Katares que lhe batam histericamente à porta ou todos os Mamadou que ascendeu meteoricamente na vida política antirracista?

Cotas para negros que chamam “bóstia” à polícia? Quando ele, nos diz, armado em poeta  de três ao pataco dando-os exemplos de rimas, que activista rima com optimista, dou-lhe uma achega: também rima com arrivista! Todos iguais em direitos e deveres é o que distingue um país solidário que não defenda os direitos para si e os deveres para os outros. Este o conceito que deve subjazer a um país antirracista sem balelas que encham páginas e páginas de sofismas a tentar esconder princípios de justiça em contravenção com a realidade secular de acontecimentos verdadeiramente democráticos.

Como escreveu Raymond Polin, “reivindicar direitos sem proclamar obrigações é querer o impossível, é jogar às utopias ou às catástrofes”. Ora, a história de Portugal, com os seus defeitos, porque feita e escrita por humanos, é demasiado rica e nobre para servir de bola de futebol chutada ainda que mesmo por pessoas com formação universitária chancelada por um país do continente africano.

Até “os planetas se chocam e do caos nascem as estrelas”, disse-o Charles Chaplin! Tenhamos esperança que assim suceda num mundo obscuro em constante convulsões rácicas, sociais e territoriais. “Fiat lux”!

P.S.: Ampliei o título do meu "post" sobre o "Racismo" para dar uma maior amplitude ao conceito de racismo sob o ponto de vista  étnico  que não pode ser circunscrito apenas à etnia negra.