sábado, 19 de setembro de 2020

POR QUE NÃO TE CALAS COSTA?

Em 2007, na Cimeira de Santiago de Chile, fez historia a admoestação  do rei Juan Carlos de Espanha dirigida então ao presidente da Venezuela Hugo Chavez: “Por que no te calhas”?

O jeito bem latino dos nossos políticos servirem-se da verborreia  para dizerem em centenas de frases o que os anglo-saxónicos sintetizam em poucas palavras, mereceu, no jornal “Público”, anos atrás,  a António Guterres o “nikname”de “picareta falante”, pela pena impiedosa e cáustica de Vasco Pulido Valente.

Aliás,  a nossa Assembleia da República, com raras excepções,  é o lugar de eleição para os jovens ambiciosos do Partido Socialista se iniciarem, fazerem carreira e eternizarem-se no segredo de muito dizer para nada dizer. Em adaptação de um naco de prosa acaciana, eles “hesitam, tataranham, amontoam, embaralham, e fazem um pastel confuso que nem o Diabo lhe pega, ele que pega em tudo”!

Não temos em nosso tempo  homens de barba rija  que ponham cobro às juventudes partidárias  que procuram  oportunidades numa forma de profissão  de quem se preocupa nada com o país e bastante com as benesses que a vida interesseira da  política obriga a mudar de políticos como quem muda de fraldas a putos mijões  de que é exemplo paradigmático o facto de três anos de governação do actual do Partido Socialista terem  existido, cito de memória,  54 secretários de Estado que, aposto dobrado contra singelo, não irão cair nas garras do desemprego.

O mundo e, como tal, Portugal atravessa uma cise pandémica comparável, ainda que em menor escala,  segundo espero e faço votos,  que a Gripe Espanhola que dizimou grande parte da sua população na I Grande Guerra Mundial. Sem ainda termos a noção do que pode vir a acontecer em tempos do coronavirús temos a “sorte” de termos um primeiro ministro, finalmente, liberto da responsabilidade  de fazer parte da lista de apoio de Vieira às próximas eleições do Benfica.

 Desta forma, tendo paz de espírito, para debitar  do alto da sua  cátedra politica que “o país não pode voltara a confinar”. E logo acrescentar, a título de previsão: “A manter-se esta tendência  (refere-se ele, porventura,  à manutenção nos respectivos lugares da actual ministra da Saúde, figurinha frágil de porcelana de Sèvres, e da directora-geral da Saúde, avozinha das estórias para embalar criancinhas  com medo do papão coronavírus) chegaremos aos 1.000 casos por dia, 60 óbitos e 780 infectados em 24 horas”. 

Nenhuma destas personagens, e nem sequer o Governo em peso tiveram a coragem de impedir a recente Festa do Avante sob a desculpa que iam ser tomadas medidas, ainda que pouco convincentes, para impedir o perigo de contágio sem cuidarem saber que a preparação destes três dias de festividade seriam precedidos de um tempo bem maior em que os operários/comunistas não podiam executar as grandes obras necessárias  a um evento desta grandiosidade com preocupações de natureza de saúde publica.

Peço desculpa ao leitor em voltar a  Eça, meu escritor de mesinha de cabeceira de noites insones, indagando a seu exemplo: “No meio de tudo isto que fazer? Portugal tem atravessado crises igualmente más, mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e caracter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não – pelo menos o Estado não tem -  e os homens não os há, ou os raros que  há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior – e sem cura”.

Ora, Costa não parece ter arcaboiço para  ser a solução  para a  um problema, em certa medida,  criado por ele próprio chorando, agora,  sobre o leite derramado limitando-se a previsões estatísticas sem atender  que na voz do povo: “Se a palavra  é de prata, o silêncio é de ouro”. 

Já chega de bla-bla-bla  para preencher, a título de propaganda política,  os écrans televisivos com entrevistas suportadas pelos costados de Costa!


 

 

SOBRE JORGE LUÍS BORGES

Novo post de João Ventura sobre Borges:

No Arco do Cego, onde durante muitos anos funcionou uma estação da CARRIS, existe agora o Jardim Jorge Luís Borges que, excepto quando chove, é um local de encontro dos estudantes do Instituto Superior Técnico. A um canto desse jardim, face à embaixada da Argentina, pode ver-se um Memorial a Borges, da autoria de Federico Brook. Inaugurado em 2008, é constituído por um bloco de granito, encimado por uma “nuvem” de mármore, simbolizando a imaginação. Na parte superior do bloco existe uma cavidade onde está uma mão, cópia da mão de Borges, segurando uma pena. De um lado do bloco está gravado o soneto “Los Borges”, alusivo aos antepassados lusitanos do escritor (“Nada o muy poco sé de mis mayores / Portugueses, los Borges, vaga gente…”).

Na noite de 23 de Agosto, aniversário do nascimento de Borges, há um grupo que se reúne à volta do monumento. São doze: sentam-se no chão, formando um círculo com centro no Memorial, e falam em voz baixa, um de cada vez. Um deles funciona como secretário e toma notas num pequeno caderno. Depois de todos terem falado, o secretário diz algo como: “Ainda não foi encontrada. Continuemos a percorrer os caminhos que se bifurcam.” Todos se levantam e abandonam o local, cada um numa direcção diferente.

Esta reunião apenas poderá ser observada discretamente à distância (recomenda-se o uso de binóculos com intensificador de imagem). À vista de um estranho o grupo ficará em silêncio e, se este se aproximar, o grupo dispersará rapidamente, presumindo-se que completarão a reunião em local alternativo.

A razão dos acontecimentos descritos é apenas conhecida em círculos restritos. No ano seguinte à inauguração do monumento um estudioso de Borges, pesquisando os escritos inacabados que o escritor deixara na sua casa na Suíça, encontrou uma folha de papel que tinha simplesmente escrito, em português(!):

 “Na terra antiga / está a Biblioteca / oculta por livros” 

O investigador teve a intuição que este fragmento indicava a existência física da famosa Biblioteca de Babel. Mais, que ela estaria localizada em Portugal (a designação “terra antiga” e o facto de o pequeno texto estar escrito em português) e que estaria junto de uma biblioteca “normal” que funcionaria como camuflagem.

Tendo convencido um grupo de borgianos bem colocados no mundo da finança da plausibilidade da sua tese, o investigador conseguiu reunir os fundos necessários para iniciar o projecto. Obtido o equipamento apropriado para sondagens não intrusivas do subsolo e reunida uma equipa dedicada, tudo isto feito no maior secretismo, começaram um levantamento sistemático das bibliotecas existentes em Portugal continental.

E uma vez por ano o grupo reúne-se em volta do monumento para cada membro da equipa apresentar o relatório de progresso e ser distribuído o trabalho para o ano seguinte.

Infelizmente, até à data de fecho deste Guia, a demanda da Biblioteca de Babel revelou-se infrutífera.

 João Ventura

In   Guia Turístico - Lisboa Oculta / Edições Imaginauta / Lisboa, 2018

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

NOVA ATLANTIS

 A “Atlantís” acaba de publicar o seu último número (em acesso aberto). Convidamos a navegar pelo sumário da revista para aceder à informação.

Imprensa da Universidade de Coimbra

Atlantís - review

v. 35 (2020)

Sumário

https://impactum-journals.uc.pt/atlantis/index

[Recensão a] MARUHASHI, Yutaka, The Rule of Law and the Philosophy of Dialogue: A Study in Plato’s Dialogue Laws (in Japanese). Kyoto, Kyoto University Press, 2017. xiv + 443 + 25 (indexes).

Noburu Notomi; Satoshi Ogihara

[Recensão a] DOPICO CAÍNZOS, María Dolores e VILLANUEVA ACUÑA, Manuel (Eds.), Clausus est Ianus (Augusto e a transformación do noroeste hispano). Lugo, Servizo de Publicacións da Deputación de Lugo, 2016. 438 pp. ISBN: 978-84-8192-526-5.

José D'Encarnação

[Recensão a] BERTOLO, Fabio Massimo; CURSI, Marco; PULSONI, Carlo, Bembo ritrovato. Il postillato autografo delle Prose. Roma, Viella, 2018. 335 pp. ISBN: 978-88-6728-975-2

Rita Maria Marnoto

[Recensão a] LÓPEZ FÉREZ, Juan Antonio, Galeno. Preparación y constitución de textos críticos, entrega y publicación de obras propias o ajenas. Madrid, Ediciones Clásicas, 2018. 230 pp. ISBN: 978-84-7882-823-4

Jordi Sanchis

[Recensão a] GARDELLA, Mariana; VECCHIO, Ariel (coords.), Amantes rivales. Sobre la filosofía. Diálogo pseudo-platónico. Buenos Aires, Teseo, 2017. 102 pp. ISBN: 978-987-72-3135-9

Milena Azul Lozano Nembrot

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Atlantís

À VOLTA DE BORGES

 

Agora que Manguel, leitor de Borges, está entre nós, é bom recordar Borges, aqui num texto de João Ventura de 2006, no Forum Fantástico:



“Um  homem propõe-se a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naves, de ilhas, de peixes, de quartos, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto.”

Jorge Luís Borges

Buenos Aires, 31 de Outubro de 1960

O autor que tenciona escrever uma comunicação sobre Borges – de ora em diante o Autor – lê um pequeno texto incluido em A Cifra de 1981, intitulado “Um sonho”:

“Num deserto lugar do Irão há uma não muito alta torre de pedra, sem portas nem janelas. No único compartimento (cujo chão é de terra e tem a forma de um círculo) há uma mesa de madeira e um banco. Nessa cela circular, um homem parecido comigo escreve em caracteres que não compreendo um longo poema sobre um homem que noutra cela circular escreve um poema sobre um homem que noutra cela circular... O processo não tem fim e ninguém poderá ler o que os prisioneiros escrevem.”

Pensa então que a sua comunicação sobre Borges poderia começar assim:

Numa cidade de um país na periferia do Império, um homem escreve uma comunicação sobre um homem que escreve uma comunicação sobre um homem (...) que escreve uma comunicação sobre Borges.

Mas ao ler pela segunda vez o texto referido de Borges, repara na última frase: “O processo não tem fim (...)”. Ora terminar a sua sequência com as palavras “escreve uma comunicação sobre Borges” vai torná-la finita. Como o carácter borgesiano da sequência é precisamente o facto de ser infinita, a intervenção do Autor seria de facto a negação de Borges. E assim, dolorosamente, o Autor abandona a ideia que ao princípio lhe parecera tão promissora.

Tenta uma segunda abordagem: começa a escrever um texto sobre Borges recheado de citações apócrifas, referências de autores inexistentes, identificação detalhada de obras nunca publicadas... Mas ao fim de meia dúzia de páginas, a releitura faz-lhe ver que nunca conseguirá provocar em nenhum leitor aquela sensação indefinível que assenta na faixa estreita entre o verdadeiro e o falso, aquilo que sentimos quando lemos algumas das histórias de Borges, o acreditar minado pela suspeita ou a incredulidade com infiltrações de “até podia ser”.

E o que escreveu acaba por ser rasgado em pequenos pedaços que atira para o cesto dos papéis.

Pega em seguida num texto de Borges, um pequeno conto escolhido ao acaso, e escreve-o lentamente, criando um ficheiro no computador, copiando palavra a palavra, pronunciando-as em voz alta de forma a sentir-lhes o sabor, a densidade. Começa depois um exercício que consiste em substituir uma palavra por um sinónimo e tornar a gravar o ficheiro com outro nome, nova substituição e nova gravação, e ao fim de algumas horas de trabalho tem cerca de trezentos ficheiros no disco, todos eles variantes do mesmo texto base. Parando para olhar o conjunto, apercebe-se que embora a ideia original fosse atractiva, o resultado final será apenas e sempre uma caricatura pobre e portanto risível da famosa Biblioteca de Babel, onde se encontram todos os livros possíveis, “todas as possíveis combinações dos vinte e tal símbolos ortográficos (...) ou seja, tudo o que nos é dado exprimir: em todos os idiomas” (Ficções, 1944). Seria apenas uma pálida sombra dessa Biblioteca incidindo sobre um texto, e a simples atitude de pretender usá-la como analogia de “A Biblioteca” aparece tingida de uma arrogância que, embora não intencional, vai marcar indelevelmente o texto produzido.

E mais uma vez o Autor, com alguma relutância, destroi aquilo que escreveu. Fecha a pasta onde estão todos os ficheiros, com nomes de biblio_1 a biblio_298, marca a pasta e carrega em delete.

Nova tentativa: resolve falar de um objecto cujas propriedades sejam tais que a ligação desse objecto a si próprio, Autor, surja como única, com a inevitabilidade de uma lei matemática através da qual, conhecidas as causas, resultam fatalmente as consequências (mantendo embora uma dúvida insidiosa nos interstícios das afirmações, mesmo as mais absolutas). A ideia surge-lhe a partir de “O bastão lacado”  e de “O punhal”, pequenos contos dos livros A Cifra, de 1981 e Evaristo Carriego, de 1930.  Ambos falam de objectos que possuem como que uma vida própria, e que constituem, esses objectos, um fio de ligação entre a sua própria história e o seu actual possuidor. Para dar uma ideia mais concreta, eis alguns excertos de “O bastão lacado”:

(...)

“Observo-o. Sinto que é uma parte daquele império, infinito no tempo, que ergueu a sua muralha para construir um recinto mágico.

(...)

Observo-o. Penso no artesão que trabalhou o bambu e o dobrou para que a minha mão direita pudesse agarrar bem o punho.

(...)

Não nos veremos nunca.

(...)

No entanto, alguma coisa nos liga.

Não é impossível que Alguém tenha premeditado este vínculo.

Não é impossível que o universo necessite deste vínculo.”

Mas quando começa em casa à procura desse objecto único, sobre o qual iria escrever, o Autor verifica que tudo o que o rodeia é fruto da produção em massa dos últimos anos. Todos os objectos do seu quotidiano se caracterizam por serem iguais a milhões de outros, saídos das linhas de montagem das fábricas de mão de obra barata do extremo oriente. E a ligação entre o operário e o fruto do seu trabalho é totalmente diferente do vínculo estabelecido entre o artesão e o objecto que produziu ao longo de dias ou semanas de paciente esforço. A produção em massa gera objectos sem história. E portanto também aqui as intenções do Autor se revelam infrutíferas.

Pensa subitamente na História Universal da Infâmia, de 1935. Desde essa data, muitos infames, reais ou imaginários, percorreram os caminhos da humanidade. Ele, Autor, seria certamente capaz de inventar mais uns quantos. É quando alguém lhe diz que Rhys Hughes, do país de Gales, publicou recentemente “Uma Nova História Universal da Infâmia”. E não contente com isso, pegou numa outra fonte de inspiração riquíssima –  “O Livro de Areia”publicado em 1975 –   e escreveu “Em busca do Livro de Areia”!

O  Autor apercebe-se que regressou à estaca zero. Todas as suas tentativas de escrever sobre Borges falharam redondamente. Sente que andou à volta de Borges numa trajectória circular, ou quando muito seguindo uma espiral que se aproxima do centro com extrema lentidão, como o movimento de uma galáxia em torno do buraco negro oculto no seu centro. Provavelmente o seu conhecimento da obra do mestre não é suficiente para produzir algo de relevante sobre a mesma. 

Resolve então reler. Não da maneira semi-anárquica que tinha caracterizado o seu primeiro contacto com os escritos de Borges, mas de um modo disciplinado, seguindo um percurso rigorosamente cronológico. Começa pelas obras da juventude, a poesia de “Fervor de Buenos Aires” publicado em 1923, lê lentamente, mais poesia de 1925, o “Caderno San Martin” de 1929, “Evaristo Carriego”, os ensaios de 1932, lê com minúcia a “História Universal da Infâmia” de 1935 e a “História da Eternidade” do ano seguinte. “Ficções” e “Artifícios”, ambos de 1944, são saboreados com prazer, bem como “O Aleph” de 1949. Percorre “O Fazedor”, de 1960, onde existe um poema dedicado aos Borges, seus antepassados portugueses, e outro a Luís de Camões. Mais poesia ao longo da década de 60. “O relatório de Brodie” e  “O Ouro dos Tigres”, publicados no princípio dos anos 70.

Ao longo deste trabalho dedicado e minucioso, a vista do Autor vai piorando. É já com grande dificuldade que termina  “O Livro de Areia” de 1975. A partir daí é obrigado a recorrer aos amigos para lhe lerem em voz alta. E é já pela voz deles que visita a poesia de 1975 a 77, “A Cifra” de 1981, que percorre os “Nove ensaios dantescos” de 1982,  “Atlas” de 1984 e “Os Conjurados” de 1985.

Mas de alguma forma, com a perda da vista, a compreensão dos textos aumenta, como se com o progressivo desaparecimento do sentido da visão, do apagamento das imagens, as palavras fossem ganhando mais intencionalidade e consistência. O Autor identifica-se cada vez mais com Borges, agora que, como ele, vive na escuridão, tendo como ligação privilegiada ao mundo exterior a sonoridade das palavras. E a tal ponto se torna forte esta identificação com o centro, o ponto alfa do universo borgesiano, Jorge Luís Borges himself que, repetindo o que o mestre escreveu na linha final do conto “Borges e eu”, o Autor poderá dizer:

“Não sei qual dos dois escreve esta página.

João Ventura

 

ANTÓNIO TENREIRO: O TRAGA-LÉGUAS

Minha recensão no jornal I de quinta-feira:


https://ionline.sapo.pt/artigo/709095/antonio-tenreiro-um-traga-leguas?seccao=Mais_i

Viajando virtualmente pelas ruas Fleming de Espanha

O nome de Alexander Fleming (1881-1955) é usado em mais quinhentas ruas, avenidas e monumentos em Espanha. É normal, dirão. Uma vez que se lhe atribui a descoberta do primeiro antibiótico, a penicilina. Talvez, mas o nome é usado em mais lugares do que o nome do grande Prémio Nobel da medicina espanhol, Santiago Ramón y Cajal (1852-1934), e, obviamente, que o de Severo Ochoa (1905-1993), Prémio Nobel também, mas naturalizado americano. Ainda não está completa esta investigação, mas eu mostro o que descobri. É uma historia pouco conhecida que se conta pelas suas entrelinhas. Tudo comecou aparentemente com a festa dos pescadores de Gijón, os quais pretenderam homenagear Fleming nos anos 1950. Fizeram uma procissão com estandartes alusivos, a qual foi noticiada internacionalmente, em particular na revista Time. E convidaram-no para discursar na festa, o que este aceitou com prazer. Entretanto, Fleming morreu, mas foi substituído pela viúva. E fizeram um subscrição pública para um monumento em Gijón que ainda hoje é homenageado todos os anos. O fenómeno e o entusiasmo estendeu-se a toda a Espanha. Penso que isto foi de alguma forma incentivado até porque Ramón y Cajal (que já tinha morrido) não era muito favorável ao regime que se veio a instalar. O curioso é que a homenagem não tinha só que ver com a cura das feridas mas também com a da tuberculose que grassava na Peninsula Ibérica. Acontece que Fleming foi só um peça do conjunto (o prémio Nobel foi atribuido a três pessoas) e a penicilina, embora um marco fundamental da medicina, é pouco eficaz contra a micobactéria causadora da tuberculose.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

COMO SE FORMA UMA MONTANHA

(numa visão muito esquemática, mas, no essencial, muito clara) 

Excerto do livro “O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA”, Âncora Editora, já em 3ª edição (2020). Com ilustração do meu amigo Francisco Bilou. 

- Ó avô, – pediu o Domingos. – Eu ainda não percebi bem como é que se forma uma montanha. 
- Como disse, havemos de falar sobre isso mais tarde. Mas para terem uma ideia geral que vos ajude a entender melhor esta nossa conversa de hoje, vamos imaginar uma série de lençóis, mantas de diversas qualidades e espessuras, cobertores, um édredon, uma porção de colchas, e o mais que quiserem, tudo bem esticadinho em cima da cama. Imaginemos que este empilhamento representa a espessura de camadas de sedimentos depositados no fundo de um oceano, ao longo de muitos e muitos milhões de anos, como é, por exemplo, o que está a acontecer no Oceano Atlântico, aqui ao nosso lado. Vamos agora abrir bem os braços e agarrar esta pilha de roupa, uma mão de cada lado, e apertá-la para o meio da cama. Fica tudo amarrotado, com dobras para cima e outras para baixo. Com a força dos nossos braços, em menos de dois metros de extensão desta roupa e em menos de dois segundos, fazemos, assim, o que a Terra faz, em milhares de quilómetros de fundo de um oceano e ao fim de muitos milhões de anos, usando para tal todas as forças que resultam da enormíssima fonte de calor armazenada no seu interior. 
- Então, uma montanha são rochas dobradas. – Interrompeu o neto. 
- É mais do que isso. Continuando a nossa explicação. A porção das dobras que fica para cima representa a parte de uma cadeia montanhosa que se eleva à superfície do terreno. Nos Himalaias esse valor atinge os 8000 metros de altitude. 
- E a porção que fica para baixo, avô? – Perguntou, de imediato, o mesmo neto, interessadíssimo numa explicação que, pela primeira vez fazia luz na sua muita curiosidade. 
- A porção dobrada que fica para baixo, – continuou o avô – representa a parte que se afunda na crosta terrestre, como se fossem as suas raízes que, volto a dizer, podem atingir os 70 km de profundidade. Como já disse e não é demais repetir, em virtude das elevadas pressões e temperaturas a que passam a estar sujeitas, as rochas sedimentares que assim se afundam na crosta, sofrem processos de metamorfismo, transformando-se em rochas metamórficas. Na parte ainda mais profunda destas raízes, reparem que estou a insistir no que já disse, com temperaturas na ordem dos 800 a 900 oC, as rochas começam a fundir, gerando um magma que, arrefecendo ao longo dos milhões e milhões de anos, se transforma em rochas magmáticas como os granitos, os sienitos, os dioritos, os gabros e outras menos conhecidas. Entendido? - Sim, avô.

A. Galopim de Carvalho 

DESCER DO PANO DO CASO VIEIRA

Acaba de ser anunciado pela televisão que Vieira retirou Costa e Medina da lista de apoio da sua candidatura à presidência do Benfica.

Menos uma dor de cabeça a atormentar a anunciada reunião para hoje entre a primeira e a terceira figuras do Estado! 

O que estará por detrás deste acordo de "cavalheiros de luva branca"? 

Ao que penso, está tudo no segredo dos deuses que subscreveram esta manobra nas costas dos cidadãos. Irá ser perdoada, ou adiada para as "calendas gregas", a dívida de Vieira à Banca que, entrementes, será paga pelos nossos impostos?

Já nada me espanta, mas enoja, num país em que, segundo Guerra Junqueiro, “somos um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião um mostrar de dentes, a energia de um coice, pois já nem com as orelhas é capaz de sacudir as moscas”.

Para tudo isto ser possível, Vieira pôs a cabeça no cepo onde deveriam rolar , também, outras cabeças da nossa vida politiqueira. Espero que as próximas eleições fazem justiça por mãos próprias. Acordai, Portugueses - a maiúscula é intencional- nem que seja só junto das urnas fazendo descer, finalmente o pano do proscénio desta tragicomédia e pateando os seus protagonistas!

Mexei as as orelhas para sacudir as moscas de corrupção. É o mínimo o que podeis fazer, mas, como nos diz a "vox populi", "devagar se vai ao longe".

Calarmo-nos é tornarmo-nos cúmplices de um crime de lesa-república!

ANTÓNIO COSTA ENTRE DOIS AMORES!

“A memória é a consciência inserida no tempo”
(Fernando Pessoa). 

Quer queiramos ou não, as recordações da juventude são como uma segunda pele que nos acompanha na velhice. Assim, de quando em vez, emerge em mim de profundezas freudianas a memória de um filme que correu, nas telas portuguesas, em princípios da década de 50, intitulado “Francis, o Macho que Fala”, cuja principal personagem era o actor Donald O´Conner. 

Ou seria, em dúvida hamlética, Francis com quem o actor de carne e osso estabelecia diálogo? Passando à frente, é desse meu tempo de trintão um professor do ensino liceal com prognatismo, ”habitué” de um café frequentado por ambos, que lhe dava o aspecto de queixada asinina.

Este docente, por tudo e por nada, principalmente por nada, perorava com ar doutoral de quem debitava as maiores vulgaridades como, por exemplo, o estado do tempo com uma convicção de quem de posse de infalível certeza científica, houvera consultado o boletim meteorológico para anunciar, “urbi et orbi”, estar um bom dia não permitindo dúvidas nos ouvintes até porque isso estava à vista desarmada do cidadão que tinha saído à rua sem gabardina ou chapéu de chuva.

De igual modo, sem dar deixar lugar a duvidas, assume esse papel de forma profética António Costa ao dizer aos benfiquistas estarem eles em vésperas de dias venturosos e radiosos de sol se votarem em Luís Filipe Vieira para presidente da direcção das “águias. Salvo o respeito, que nos deve merecer a terceira figura da hierarquia do Estado, encontro no cidadão António Costa uma simbiose entre duas personagens: uma do mundo da política e outra do desporto-rei.

Esta duplicidade de papéis faz correr o perigo das eleições do “glorioso” secundarizarem os graves problemas que o País atravessa de âmbito, da Saúde, da Economia, do Ensino, etc. Perante este problema, apenas diviso uma solução para tanta e tamanha complexa situação que faz palpitar o coração de Costa entre dois amores, não sabendo “lui-même”, a exemplo de Marco Paulo, de qual deles gosta mais se de Portugal ou do Benfica.

Este facto, impõe das duas uma. Ou a demissão de Costa de primeiro-ministro ou a retirada do apoio a Luís Filipe Vieira para as eleições da presidência da direcção dos encarnados.

De nada lhe vale consultar a Pitonisa de Delfos ou, mais simplesmente, deitar uma moeda ao ar que seja capaz de lhe dar a solução de um dilema que envolve questões de natureza moral, ética e, neste caso, essencialmente, política. Até à sua decisão final o país fica em suspenso porque um “valor mais alto se alevanta”!

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Olival Freire - David Bohm e a Física Quântica

EM CUMPRIMENTO DE UMA PROMESSA

“Um médico que só sabe de medicina nem isso sabe”
(Abel Salazar). 

Em resposta a um comentário, subscrito pelo professor Carlos Ricardo Soares, ao meu “post” publicado neste blogue, intitulado “A polémica e razões com razão e sem razão” (10/09/2020), prometi: 
“Possivelmente, em breve, publicarei um texto pedindo a sua benevolência para a sua leitura e apreciação”. 
Brevíssima nota: A título justificativo, seja tomada em atenção que este texto foi escrito por um amante (aquele que ama) devotado aos complexos caminhos da Filosofia, embora, apenas, habilitado com estudos académicos de manuais do antigo 7.º do antigo ensino liceal, correspondente ao actual 12.º ano do ensino secundário, para prosseguimento de estudos superiores de natureza científica com foi o meu caso.

Posto isto, segue-se o cumprimento da minha promessa com este texto: Abel Salazar foi professor universitário de Medicina, em inícios e meados do século passado, com um notável e ecléctico saber nos diversos domínios científicos e culturais: médico, escritor, pintor, escultor e filósofo, tendo-se doutorado, em 1915, com 20 valores com a tese Ensaio de Psicologia Filosófica.

Destarte, a questão que se põe reside na pergunta e respectiva resposta. Deverá a Filosofia ser sobrevalorizada no âmbito dos cursos de humanidades e descreditada no domínio das ciências naturais? Aliá, a questão nem sequer é nova! 

Segundo Georges Gusdorf, “na primavera de 1964, assistiu-se ao facto de “os decanos da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Ciências da Universidade de Paris, proclamarem que a Medicina é doravante uma ciência; ninguém poderá pretender ser iniciado se não for geómetra, se não possuir noções de base como as de função, logaritmo, derivadas. A formação médica pressupõe uma escolaridade secundária que passa pelas classes terminais de ciências e de matemática dos liceus”. (“Da História das Ciências à História do Pensamento”).

Ainda segundo este autor, “os distintos decanos preveniam os interessados e as famílias contra a deplorável perda de tempo e de inteligência que representaria um estágio na classe de Filosofia. Um jornalista foi, então, perguntar a estudantes de Medicina, escolhidos ao acaso, o que pensavam desta declaração. Responderam-lhe que lhes parecia, pelo menos, impensada.

O conhecimento dos logaritmos é talvez útil ao médico, mas o conhecimento do homem e da condição humana é primordial; é deplorável que não entre em linha de conta na aprendizagem médica. Os estudantes tinham cem vezes razão em denunciar esta forma particularmente nociva de obscurantismo contemporâneo, que existe entre os potentados universitários como no homem da rua” (id., ibid.). Este descabido, ridículo e insolente ataque à matriz de todas as ciências é tanto mais insólito quando nomes grados da Ciência se distinguiram no frutuoso deambular pelos caminhos de um Conhecimento sem fronteiras. 

Três exemplos, de entre muitos: Max Planck, físico e Prémio Nobel da Física (1918), preocupado com a relação entre a ciência e religião ; Ernest Krestchemer, médico psiquiatra alemão, doutor “honoris causa” em Filosofia pelas Universidades de Wurzburgo e Católica do Chile; e Bertrand Russell, matemático e filósofo britânico, “Prémio Nobel da Literatura”, em 1950. E isto para não falar já em Albert Einstein, presença obrigatória em diversos manuais de Filosofia!

Na verdade, chegou-se a níveis de ignorância que campeiam entre os próprios diplomados do ensino superior e que não são escamoteáveis por mais tempo, pese embora, como escreve Mario Perniola, professor de Estética da Universidade Tor Vergata de Roma, “haver sempre uma caterva de ingénuos prontos a escrever a história da última idiotice, a solenizar as tolices, a encontrar significados recônditos nas nulidades, a conceder entrada às imbecilidades no ensino de todas as ordens e graus, pensando que fazem obra democrática e progressista, que vão ao encontro dos jovens e do povo, que realizam a reunião da escola com a vida”.

Num contexto de elevada qualidade e numa tradição multissecular na formação de elites porque, como sentenciou A.Tchekov,"a universidade revela todas as capacidades, até as incapacidades", numa altura em que novas e, ainda mais, facilitadoras formas de ensino são ministrados cursos técnicos superiores profissionais despojados de uma necessária formação cultural a que a leitura constante de textos literários e a reflexão filosófica conduzem.

Tempos houve de formação de uns tantos diplomados pelo ensino superior universitário privado, sem mencionar o estafado exemplo do ex-ministro Miguel Relvas, que sancionavam a ignorância. "Ipso facto", os claustros universitários do ensino oficial devem manter-se como guardiães esforçados da Cultura Humanística, do Conhecimento Científico e da Investigação Pura e Aplicada. 

O ensino não deve nem pode ser um prometedor de promessas não cumpridas.

domingo, 13 de setembro de 2020

O METRO DA LOUSÃ E O METROBUS DE SERPINS.

“Eu gosto de escrever quando estou despeitado; é como dar um bom espirro” 
(D. H. Laurence).

Segundo a Antena 1, no programa de João Reis, a construção do Metro em Coimbra, prometido de há trinta anos atrás, arranca hoje (12/09/2020), amputado para Metrobus nas mãos de privados. Em vésperas de eleições, curiosamente, as obras de Santa Engrácia, estas já cumpridas embora compridas, é anunciada, em Serpins, com pompa e circunstância por Pedro Nuno Santos, ministro da Infra-Estruturas e Habitação, a sua adjudicação a privados. Anteriormente, pondo o carro à frente dos bois, foi desactivada a linha férrea do ramal ferroviário da Lousã - Coimbra, tendo desaparecido essa quantidade valiosa de ferro sem que ninguém tivesse dado por isso e, muito menos, por isso se responsabilizasse. 

Aparece agora o Estado Português, pelo voz lamuriosa do supracitado ministro,  a pedir desculpa pelo atraso no início da adjudicação das obras do Metrobus a privados. Não sei se o povo prejudicado por este “status quo”, desculpa ou não a esta entidade governativa. Embora a minha opinião pessoal para nada conte, manifesto-me apenas como cidadão interessado nas questões da minha urbe em que a prioridade têm sido, obras de encher de orgulho desatinado Manuel Machado, presidente da edilidade de Coimbra, através da construção de novas rotundas. 

Destarte, como cidadão da cidade das margens do Mondego, limito-me ao reparo de que sendo o convento rico e os frades poucos escassa importância parece ter um atraso de uma trintena de anos pese embora custar ao Estado Português (ou seja, a quem paga impostos por civismo ou por a eles não poder fugir), uma fortuna para além dos prejuízos causados à população trabalhadora de Coimbra a viver na Louçã.

Como disse o almirante Pinheiro de Azevedo, numa manifestação na Praça do Comércio durante a época quente, ao ser lançado gás lacrimogénio sobre os manifestantes: “Não há perigo. O povo é sereno, ouçam é só fumaça”.

De igual modo, o povo das povoações servidas pelo Metrobus, no dia da inauguração deste empreendimento, estará presente para ovacionar os seus governantes que a hora é de festa com foguetes a estalejar no ar e a fanfarra a tocar, em reminiscência do tempo do Estado Novo em que o almirante Américo Tomás se limitava a cortar fitas durante as obras que eram inauguradas sem a novidade das selfies.

Ou seja, é apenas uma questão de tempo a solução deste imbróglio (quanto tempo?), mas há que dar tempo ao tempo e ter paciência de Job. Que diacho o ministro Pedro Nuno dos Santos já pediu cavalheirescamente desculpa à populaça, tentando salvar, “in extremis”, a honra do convento.

Vá lá, aceitem as suas desculpas governativas “sans rancune”, porque ele é o menos culpado em todo este estado vergonhoso!

sábado, 12 de setembro de 2020

"Ou nos unimos ou estamos condenados"

Há poucos dias, António Guterres, Secretário-geral da Organização das Nações Unidas, dirigindo-se ao mundo, recordou o que bem sabemos, o que que não podemos deixar de saber, mas que incompreensível e desastrosamente continuamos a fazer de conta que não sabemos: a séria possibilidade de extinção da nossa espécie, caso teimemos em destruir a Terra.

Temos sido peritos a extinguir outras espécies animais e vegetais, sem que isso nos traga problemas de consciência. E, mesmo constatando as consequências devastadoras a chegar à nossa porta, somos incapazes de mudar seja o que for de substancial e de reivindicar a mudança por parte daqueles que têm efectivo poder para a concretizar. É com a maior leviandade que encaramos o nosso fim, que encerramos o capítulo da existência humana, que abdicamos do futuro. 

Recupero as palavras de António Guterres:
“Ou nos unimos ou estamos condenados. Estamos a enfrentar um desafio dramático com a covid-19. Mas este desafio terrível, que causou grande sofrimento e teve um impacto devastador nas economias e sociedades, é uma oportunidade. Precisamos de reconstruir. Precisamos de investir massivamente na reconstrução. Ou reconstruímos o mundo como estava, o que é um grande erro, devido às fragilidades do mundo, ou podemos reconstruir economias e sociedades mais inclusivas e sustentáveis. É por isso que recomendamos investimento massivo em tecnologias verdes, em indústria verde, em energia verde. Precisamos de ter justiça climática, ou seja, energia verde cria três vezes mais emprego do que investir em energia de combustíveis fósseis. Mas ao mesmo tempo ter medidas sociais e económicas que respondam às necessidades das pessoas afectadas pelas transformações da sociedade, nomeadamente a acção climática, e que fazem desaparecer os seus empregos.”
Este, sim, é um problema de cidadania: o dever ético que temos de cuidar do mundo (fixo-me na ideia de "amor ao mundo" de Santo Agostinho, retomado por diversos filósofos alemães do pós II Grande Guerra) precisa de ser ensinado nas escolas. Mas com base em conhecimento verdadeiro, trabalhado de forma honesta, e no exemplo empenhado.

Sem a interferência da sociedade - que balança, ao ritmo das notícias passageiras, entre a indignação superficial e a permissividade laxista -, dos interesses financeiros - que sabem bem como manipular tudo e todos em seu favor, incluindo o que entra na currículo e se faz nas escolas - e da política que , mesmo em regimes democráticos, se subordina ao momento, sem capacidade de olhar além do partido, da eleição. 

A escola, só a escola, com os seus professores e alunos, poderá fazer a diferença. Falo de uma escola capaz de assumir, com inteireza e coragem, o "valor de educar", na expressão do filósofo Fernando Savater.

Isaiah Berlin: uma raposa


Meu artigo no último I:

O poeta grego Arquíloco do século VI a.C., talvez o mais antigo poeta da Antiguidade cuja existência pessoal é conhecida (Homero não passa de uma lenda), escreveu um poema num fragmento que se pode traduzir prosaicamente em português: “A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante.” Uma tradução mais literal será: “Raposa sabe muitas./ Ouriço uma./ Manha consistente”. Uma outra tradução, mais elaborada: “Raposa sabe/ Enésimas/ Manhas e ainda/ É apanhada: Ouriço sabe/ Uma, mas ela/ Funciona sempre.”

Esta frase teria ficado esquecida, como muitos outros fragmentos do grego antigo, não fora Isaiah Berlin (1909-1997), filósofo, politólogo e historiador das ideias britânico, ter intitulado um dos seus ensaios O Ouriço e a Raposa, com o subtítulo Ensaio sobre a filosofia da história de Tolstói. A expressão tornou-se desde aí proverbial e é citada à exaustão nas ciências sociais e humanas.

Nascido em Riga, na Letónia, que na altura fazia parte do Império Russo, Berlin estava com a sua família judaica em Petrogrado (São Petersburgo), quando estalou a Revolução de Outubro. Mas, aos 12 anos, já estava, exilado com a família, no Reino Unido, tendo estudado em Londres e Oxford. O seu pensamento caracteriza-se pela ideologia liberal, pela apologia do pluralismo e pela oposição ao marxismo e comunismo. Embora não gostasse de escrever, Berlin escrevia muito bem, procurando ser claro e seduzir pelo estilo. A maior parte da sua obra, não muito extensa, é formada por transcrições de palestras que proferiu ou por textos que ditou às secretárias.

O Ouriço e a Raposa, que acaba de ser reeditado entre nós pela editora Guerra e Paz, é um exemplo desse seu modo de trabalhar. Trata-se da transcrição de uma palestra original dada em Oxford em 1951 e cujo texto ficou “sepultado” numa revista obscura sobre cultura eslava. O título inicial era “O cepticismo histórico de Lev Tolstói”. Dois anos depois, por sugestão do editor Weidenfeld (como são importantes os editores, como este que mandou o autor escrever mais!), foi publicado o texto em forma de livro, não só revisto como também acrescentado com a discussão de uma eventual influência em Tolstói de Joseph de Maistre, o pensador católico ultramontano que se opôs à Revolução Francesa. O texto de Berlin tinha sido publicado entre nós noutra tradução, como um capítulo do livro A Apoteose da vontade romântica (Bizâncio, 1999), que saiu na colecção Leviatã - Biblioteca de Ciência Política dirigida por João Carlos Espada. Aí ocupava umas escassas 62 páginas, enquanto agora, dado o seu menor formato,  chega às 124. O resto do recente volume de 180 páginas é preenchido por uma nota inicial do incansável editor de Berlin, Henry Hardy, por uma nota inicial do próprio autor, por um interessante apêndice, que contém correspondência de Berlin a propósito do seu ensaio e algumas recensões críticas – com explicações do autor, e um útil índice. A tradução escorreita é de Maria João Madeira. O volume, muito bem produzido (parabéns Manuel Fonseca, que tem ampliado o seu catálogo da Guerra e Paz de uma forma muito consistente), conta com um apelativo grafismo de capa de Ilídio Vasco, ostentando uma raposa e um ouriço dentro de um círculo que evoca o do homem de Vitrúvio.

Não sendo autor de muitas obras em inglês, Berlin também não pode ter muitas traduzidas em português. Enumero aqui as restantes, por ordem cronológica de publicação, para benefício dos leitores que não conheçam o seu pensamento e que, depois de devorarem o pequeno ensaio com o ouriço e a raposa na capa, queiram embrenhar-se na sua clarividente obra: A busca do ideal : uma antologia de ensaios (Bizâncio, 1998), O poder das ideias (Relógio d'Água, 2006), Karl Marx (Edições 70, 2014), e Rousseau e outros cinco inimigos da liberdade (Gradiva, 2005). 

Qual é a tese de Berlin, que se serve do ouriço e da raposa, neste seu ensaio que o The Guardian considerou um dos cem melhores de sempre? Ele começa por dividir grandes autores da filosofia e da literatura universal em dois grupos, os que são ouriços, e os que são raposas. Ser ouriço é ver o todo, a “manha” mais importante…. E ser raposa é ver as partes, as várias “manhas” avulsas. Nas palavras do autor, “existe um grande abismo entre, por um lado, aqueles que se colam tudo a uma visão única central, um sistema mais ou menos coerente e articulado (…) e, por outro lado, aqueles que perseguem muitas pontas frequentemente não relacionadas e até contraditórias.” Entre os ouriços coloca Dante, Platão, Pascal, Hegel, Dostoiévski, Nietzsche e Proust (há mais, escolhi sete). E, entre as raposas, Aristóteles, Shakespeare, Montaigne, Goethe, Pushkin, Balzac e Joyce (outros sete).

 Dividir os pensadores e criadores em dois únicos grupos não deixa de ser um pouco arriscado. Já alguém comentou ironicamente que se pode dividir a humanidade em dois grupos: os que dividem a humanidade em dois tipos de pessoas e os outros (eu reclamo-me do segundo grupo). Pode muito bem haver situações intermédias. Poder-se-á, tal como o gato de Schrödinger que está meio-vivo meio-morto, ser ao mesmo tempo ouriço e raposa. O ensaio de Berlin analisa essencialmente o romance Guerra e Paz, que ele, Berlin, leu no original russo e que os portugueses podem ler numa excelente tradução do russo de Nina e Filipe Guerra: Presença, 2005, obrigado Francisco Espadinha (e que, diz José Pacheco Pereira, ninguém lê no telemóvel). O romance, publicado em folhetim entre 1865 e 1869, descreve o tempo de Napoleão entre 1805 e 1813 (a campanha da Rússia é de 1812, como lembra uma abertura de Tchaikovsky). A pergunta de Berlin sobre Tolstói é: “Assemelha-se mais a Shakespeare ou Púchkin do que a Dante e Dostoiévski?” A sua resposta, apresentada como hipótese, era: “Tolstói era uma raposa, mas acreditava ser um ouriço.” No fundo, uma raposa que queria ser ouriço. O grande autor russo tinha uma atenção muito desenvolvida para as visões diversas dos indivíduos, mas idealizava alcandorar-se a uma visão coerente da história, uma espécie de “teoria unificada” para usar uma expressão da física moderna. Segundo Berlin, o drama de Tolstói foi não conseguir ligar esses dois aspectos, o micro e o macro: há verdade em qualquer deles, mas não é nada fácil a ligação. Como é que as grandes correntes da história, algumas delas parecendo ter um certo determinismo, emergem da acção aleatória das partes? O problema é um  pouco semelhante, digo eu, ao que se encontra na Segunda Lei da Termodinâmica: como é que do movimento aleatório e reversível das partículas se pode extrair o inexorável aumento da entropia para o sistema global, que exibe uma clara irreversibilidade?

A metáfora de Berlin, como todas, tem as suas fragilidades, como é discutida no apêndice, mas o seu exercício é engraçado.  Será Berlin  uma raposa ou um ouriço? Ele define-se como raposa, mas um crítico diz que há algo de auto-referente e que Berlin se sente como Tolstói, apertado entre  dois modos de ser. O leitor, se pertence ao grupo das pessoas que gostam de dividir o mundo em dois grupos de pessoas, pode dividir os filósofos e escritores da sua predilecção entre ouriços e raposas. Direi que se alinhar mais ouriços, terá tendência para ouriço. Se alinhar mais raposas, terá tendência para raposa. Eu, tal como Berlin, sinto-me mais raposa: confesso que me sinto um pouco constrangido e até intimidado por uma visão única, supostamente  coerente do mundo, a tal “teoria unificada”. Parece-me até algo perigoso. Lembro que entre os inimigos da sociedade aberta de Popper estavam Platão, Hegel e Marx, todos eles ouriços.

 Vejamos num excerto o estilo de Berlin: “A tese central de Tolstói – em determinados aspectos não dissemelhante da inevitável teoria da ‘auto-ilusão’ de Karl Marx. Salvo que Tolstói vê em quase toda a humanidade o que Marx reserva a uma classe –  é que existe uma lei natural de acordo com a qual e num grau não inferior ao da natureza, as vidas dos seres humanos são determinadas; mas que os homens, incapazes de encarar este inexorável processo, procuram representá-lo como uma sucessão de escolhas livres, atribuir a responsabilidade para aquilo que acontece às pessoas por eles dotadas de virtudes heróicas ou vícios heróicos, e a que chamam  ‘grandes homens’.” Tolstói não via Napoleão como um grande homem. Via-o apenas como um carneiro, que engordou, antes de ir para o matadouro, como não podia deixar de ir.

E o que faz o reaccionário Maistre neste ensaio, ao lado de Tolstói? Responde Berlin: “Um dos mais impressionantes elementos comuns ao pensamento destes penseurs distintos, e de facto, antagónicos, é a sua preocupação com o carácter ‘inexorável’ – a ‘marcha´ dos acontecimentos.” Inexorabilidade histórica? Quem sou eu para achar, mas acho que não existe.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

O SONHO




 Crónica primeiramente publicada em diversa imprensa regional


O sonho é, de facto, uma constante da vida, ou mais precisamente dos seres vivos.

Demócrito sonhou com o átomo. Mas foi Aristóteles, que não possuía equipamentos de ressonância magnética, o primeiro a observar que até insectos, como as abelhas, sonham. Que sonham, quiçá com coreografias, desenhos de néctar, no palco hertziano de uma passarola solar. Mas sonham!

Freud, que não sabia como Damásio da natureza molecular, fisiológica e anatómica das emoções, pressentiu nos sonhos os desejos por interpretar da terra do subconsciente. Desejos de terras distantes, de superfícies lunares.

Aserinsky e Kleitman, que não sabiam bolinar, encontraram ilhas de sonho no mar do sono. Designaram estas janelas interiores por sono R.E.M. (Rapid Eye Movement). Por elas, a actividade neuronal expressa nos registos electrofisiológicos, é semelhante à do estado de vigília, quando estamos acordados!

Mas por essas janelas cogitamos sem nos movermos. Mas o sonho, esse avança por essas ilhas de sono R.E.M.

Hobson e McCarley, sem saberem voar, postularam que os sonhos são experiências sensoriais cerzidas pelo tear do cortéx cerebral, que usa fios de sinais aparentemente caóticos, emanados desde a Ponte de Varólio, estrutura primeva do tronco cerebral, que partilhamos com os répteis e com as aves.

Payne e Nadal, que não eram poetas, definiram o sonho como o resultado de uma semântica feita com memórias, que nele se consolidam numa fluida narrativa, como pedaços de vida acordada, mas intangível e que foge à recordação mais consciente.

Se o sonho ocorre, é porque tem uma função específica e útil para as redes neuronais e suas complexas interacções entre as diferentes partes do cérebro. É porque foi uma melhor adaptação para a realidade evolutiva segundo Darwin!  

Mas quais são os caminhos do sonho? Em que vagas de ondas de impulsos, ditos nervosos, avança ele, por entre milhões de neurónios, até à praia da nossa consciência?

No oásis onírico revoltam-se as essências, ocorrem flutuações na concentração de iões e moléculas. Mas há átomos e moléculas do sonho?

Sim. Alguns iões, principalmente os de sódio e potássio. E que moléculas? Certas combinações de não mais de duas dúzias de átomos de carbono, oxigénio, nitrogénio e hidrogénio. Átomos forjados em estrelas, mais ou menos distantes, e que hoje formam neurotransmissores, quais caravelas transportando mensagens.

Allan Hobson sonhou quantificar as moléculas do sonho. Mostrou que no sono do sonho, as concentrações nos fluidos cerebrais de neurotransmissores como a serotonina, a histamina e a noradrenalina estão diminuídas, e isto inibe as vias neuro-motoras, relaxando o corpo.

Por outro lado, neurónios colinérgicos na Ponte de Varólio aumentam as vagas de acetilcolina em direcção ao córtex e em níveis semelhantes ao estado acordado. Será a acetilcolina (C7H16NO2) a molécula do sonho?

Nesta janela bioquímica que também é o sonho, o córtex cerebral tenta organizar as incessantes e anacrónicas vagas de impulsos. E com a matriz de padrões feitos de sensações e emoções quotidianas, o cérebro cortical vê, sente, ouve sem gastar os sentidos. Revisita a caderneta das nossas vivências, dos nossos planos futuros e compara-os, mistura-os, experimenta-os em novos cenários interiores, para forjar no silêncio sonoro e visual uma alquimia de novos e úteis padrões de comportamento. E faz tudo isto e muito mais, sem cansar o corpo.

Mas no mar da vigília, também há ilhas de sonho. Ao sonhar acordados, co(a)gitamos as ressonâncias entre experiências passadas com as possibilidades futuras, permitimos que soluções novas, para problemas velhos, floresçam de entre razões enrodilhadas.

E através da paleta das ressonâncias magnéticas funcionais, sonhamos nós um dia poder ver as cores de um sonho qualquer, “como bola colorida entre as mãos de uma criança” como escreveu, sonhando, Rómulo de Carvalho na sua pérola poética enquanto António Gedeão.

 

Sonhemos…

 

António Piedade

Comunicador de Ciência


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

A POLÉMICA E RAZÕES COM E SEM RAZÃO

Breve Introdução: Faz quase meio século que, em Lourenço Marques, tive um polémica com uma revista local, "TEMPO", que se recusou publicar a minha resposta a um texto polémico por si despoletado

Como "ultima ratio", publiquei, a expensas minhas, 1.000 exemplares do livro "Sem contemporizar", cuja edição se esgotou em poucas semanas.

Na 1.ª página desse meu livro, em posição de destaque, transcrevi este pensamento de Raúl Proença ( um dos fundadores da "Revista  Seara Nova), que transcrevo na íntegra:

"Chama-se liberdade de imprensa o direito exclusivo que têm certos potentados ou certos malfeitores, graças à sua fortuna ou às suas chantagens, de influir na opinião do país. O problema não está, evidentemente, em impedir a liberdade desses homens, mas em pôr a imprensa ao alcance de todos, de maneira que os argentários não continuem a possuir o monopólio da opinião" (in "Seara Nova", 1928). 

Porque tenho um conceito de  polémica que desejo partilhada com os meus leitores, encontro razão para transcrever este meu "post", saído neste blogue, em  16/11/209:

"Razão teve Johann Wolfgang von Goethe quando disse: “Qualquer ideia proferida desperta outra ideia contrária”. Julgo residir aqui a semente deitada à terra da polémica nem sempre bem sucedida quando, em húmus de teimosia, não é “possível discutir com alguém que prefere matar-nos a ser convencido pelos nossos argumentos”, em citação de Karl Popper.

Sei, por experiência de vida, que a polémica nem sempre é um campo de peleja de bons costumes e discussões bem intencionadas, na qual o manejo destro e elegante do florete da palavra deve substituir os golpes violentos e desajeitados da espada, que chegou a ser a arma de séculos passados para sustentar argumentos em que a força da razão deixava cair o lábaro aos pés da razão da força. 

Dois vultos maiores da nossa literatura, Antero de Quental e Ramalho Ortigão, foram protagonistas desse tipo de disputa, na “Questão Coimbrã”. A própria definição de polémica, “herdada da arte da guerra” (Vitorino Nemésio), nos diz da belicosidade que lhe está subjacente: “Polémico (a) adj. (do grego ‘polémicos’, belicoso, derivado de ‘polemos’, guerra)” – António de Morais Silva, Dicionário da Língua Portuguesa.

 Mas, para que não paire a sombra pesada de eu mais não ter feito que tornar-me refém de um hábito que, quase diria, me está na massa do sangue, confesso, com o “segredo” de uma confissão pública, que mais não fiz do que ser eu próprio no perfil que de mim traço (embora saiba do perigo em ser, em simultâneo, observador e observado), como aprendiz dessa difícil arte. E por que o fiz e o faço ainda? Porque entendo pessoalmente que o refúgio na tibieza do nosso silêncio, em conceito colhido e adaptado de Sophia de Mello Breyner, “equivale a deixar crer que se não julga e que nada se deseja e, em certos casos, isso equivale, com efeito, a não se desejar coisa alguma” .

Em observância a Fialho de Almeida - “a luta é legítima; eu não respeito as suas ideias, respeito-o a si” -, na polémica fui entusiasta na argumentação, firme nas convicções, retumbante no grito de revolta que levei à planície calma dos indiferentes ou ao palácio ardiloso dos poderosos sem, jamais, esquecer no adversário a pessoa a respeitar. Discuti ideias, contradisse opiniões, mas nunca procurei desabonos desnecessários nos homens que entendi falhos ou diminuídos de razão. Mas porque vivi em época madrasta da vigência da censura (e mesmo hoje numa liberdade de expressão condicionada pelo medo da ameaça de processos judiciais ainda que a razão nos faça companhia), quando defendi acalorados pontos de vista em letra impressa, sofri ameaças, veladas ou à luz do descaro público. Outras vezes, pedi a exoneração de cargos por me não curvar à vontade de vizires ou, à boa maneira camiliana, por “não respeitar os tolos”.

Merecedor de benevolência pública, me entendo! Mesmo quando cruzei ferros, empunhando na mão a pena (e, recentemente, o teclado do computador mesmo sem a preocupação em ser moderno por esta "ser a única coisa que não podemos evitar," segundo Salvador Dali) em desatino de que me penitencio numa idade em que não deve ser desculpado o moço ardor por causas que nos arrebatam em despropositado entusiasmo. Quis sempre caminhar na vida com o arrimo que busquei, quantas vezes, em esforçada e vã busca daquilo que eu tinha como verdade. Hoje, órfão da utopia de a ter como minha, desapossado de certezas, reverencio Ortega Y Gasset quando ele nos diz que “a verdade, do ponto de vista da verdadeira cultura, não é o mais importante de decidir; cultura é, frente ao dogma, discussão permanente”.

António Gedeão, perante a teimosia dos que só veem aquilo que querem ver, ainda que chamados à realidade por um humilde e dedicado Sancho Pança, legou-nos estes versos de difícil subtracção para as nossas teimosas maneiras e conveniências de torcermos as questões: “Onde Sancho vê moinhos / D. Quixote vê gigantes. / Vê moinhos? São moinhos. / Vê gigantes? São gigantes”. Hoje, e cada vez mais, interiorizo em mim a razão que assiste ao axioma de que “quem feio ama bonito lhe parece”, bem presente em D. Quixote ao transmutar uma feiosa Aldonsa numa formosa Dulcineia. E, se a ilusão do sentido da visão nos pode enganar, mais nos pode enganar o sentimento de termos razão mesmo quando não a temos. Mas só muito raramente a vaidade tem a humildade em o reconhecer!"(fim de citação).


quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Um artigo com interesse na polémica da educação para a cidadania

Paulo Guinote assina o artigo com o título "Cidadania e Desenvolvimento: uma polémica hipócrita" saído no jornal Público do passado dia 5 de Setembro.

Tendo em conta o que disse em textos anteriores (aqui e aqui), subscrevo a importância que este professor atribui a uma educação escolar que tenha presente, de modo constante e transversal, a formação cidadã.

Subscrevo, também, a sua resistência a comentar em público a polémica relativa à disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, que parece ter fracturado o país em dois blocos: os prós e os contra.
Tenho evitado escrever sobre a polémica em torno da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento porque acho que, em termos técnicos e “científicos”, a polémica se tem caracterizado pelo que se pode classificar como “parvoíce” com uma fortíssima base ideológica.  
Subscrevo, igualmente, a sua posição de partida: educativa, ou seja, não doutrinária:
• Sou favorável à abordagem na escola (...) de alguns dos temas mais polémicos que despertam a fúria a alguns encarregados de educação e a alguns jarretas políticos.
• Acho que esses temas não devem ser leccionados de forma doutrinária (...) não me choca que se abordem na escola pública temas como a tolerância, a diversidade religiosa ou mesmo a identidade de género (...) discordando das teses da “lavagem ao cérebro”.
Sendo grande a confusão criada por pessoas que alinham por este ou aquele sector social, sem nunca terem estudado objectivamente o assunto, vale a pena ler este artigo que se distancia das posições desses sectores. 

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Esclarecimento a todos os idiotas

 Artigo do advogado Santana-Maia Leonardo nas Beiras de hoje:

Perante todas as evidências, políticos, gestores públicos, dirigentes associativos e clubes de futebol, suspeitos ou acusados de corrupção e crimes afins, assessorados pelos comentadores avençados do regime, pretendem convencer os idiotas de que apenas os tribunais, após trânsito em julgado da sentença que, tal como o Narciso, só ocorrerá quando não for preciso, poderão avaliar a bondade ou maldade das suas condutas ou comportamentos e com base nas leis que eles próprios ou alguém por eles fabricou à sua medida. 

Ora, antes de mais, importa esclarecer todos os idiotas (e são muitos) que se encontrarem a sua mulher na cama com o seu melhor amigo, não estão obrigados a continuar a viver com ela e a conviver com o seu amigo, respeitando a presunção de inocência, até o tribunal se pronunciar se foi crime a mulher e o amigo lhe terem posto os palitos. 

Com efeito, nem todos os comportamentos e condutas reprováveis são crime pelo que, quer os militantes e dirigentes dos partidos, quer os governantes, quer os sócios e dirigentes dos clubes, da Liga e da FPF, não têm de pactuar, nem estão impedidos de agir contra aqueles que têm comportamentos reprováveis e lesivos do património, da honra e da dignidade das instituições que representam, mantendo-os nos cargos. 

Por outro lado, cada um de nós não está obrigado a fazer a avaliação das condutas de quem quer que seja pelo filtro da lei, como se a lei fosse a nossa consciência moral, quando ressalta aos olhos do mais míope que a maioria das leis portuguesas são iníquas. 

Qual a diferença entre as leis justas e as leis iníquas? É muito fácil perceber a diferença. As leis justas são aquelas que se aplicam a todos, por igual e na mesma medida, e que todos reconhecem sem necessidade de ler ou consultar. Nem precisavam sequer de estar escritas. 

As leis iníquas são aquelas que são fabricadas à medida e por medida e que servem para proteger os amigos, perseguir os inimigos e extorquir o máximo de dinheiro a quem trabalha. E Portugal, a fazer fé no que apregoava Tácito, é a pátria das leis iníquas. 

Santana-Maia Leonardo


E agora: ganha (e impõe-se) a posição que obteve mais assinaturas?!

"Como en otros lugares de Europa y el mundo occidental, 
hace algunos años surgió con fuerza en la escena española 
el concepto de Educación para la ciudadanía (…) que, desde la utopía 
de una educación para la participación social y la convivencia 
en una sociedad democrática, globalizada y cambiante, 
se ha convertido en obsesión, cuasi fetichista, 
que ha polarizado el debate político y ciudadano suscitando adhesiones y rechazos 
y generando al tiempo un gradual clima de crispación social." 
Andrés Palma Valenzuela, 2011.







Na continuação de texto anterior (aqui).

Passados poucos dias após a publicação do “Manifesto em Defesa da Educação para a Cidadania”, onde se exige o carácter opcional da disciplina de “Educação para a Cidadania e Desenvolvimento” no currículo do ensino obrigatório público, surge um “Manifesto em Defesa da Educação para a Cidadania”, onde se exige o seu carácter obrigatório.

Está declaradamente na praça pública o problema que há muito anda na mesma praça em Espanha. Falo de Espanha porque é o país em que tenho acompanhado mais de perto esta questão. Aos leitores a quem ele interessar, recomendo a exploração de um artigo de Andrés Palma Valenzuela, meu colega, publicado na "Revista Portuguesa de Pedagogia" com o título “La educación para la ciudadanía en España, 2004-2011

Voltando aos documentos citados, reportando-se a matéria que lecciono na universidade, tanto em cursos de ciências da educação como de formação de professores, li-os e comparei-os a partir de critérios que costumo usar. Complementei esse trabalho com a análise de artigos de jornal disponíveis online. A conclusão é desanimadora: 
1. Antes de mais, percebe-se, tanto por parte dos manifestantes como dos articulistas, um profundo desconhecimento do campo que é o da Educação para a Cidadania, agora designada por “Cidadania e Desenvolvimento”. Noto que se trata de um campo extensíssimo (pela quantidade documentos que a Direção-Geral da Educação disponibiliza relativas às dezassete áreas de cidadania previstas) tortuoso (pelas diversas “camadas” em que esses documentos se organizam, uns fazem ligação a outros, cada um deles fazendo ligação a outros), e de difícil interpretação (pela linguagem usada, cujas características mais marcantes são a circularidade e a opacidade que tende a ocultar orientações que são incompatíveis com a missão da escola pública, fruto de sociedades democráticas);  
2. Em função do que mencionei em 1, os argumentos de que se socorrem, tanto em prol da tal componente de “Cidadania e Desenvolvimento” como contra ela, são frouxos ou erróneos, mobilizam modos pessoais de pensar a educação. Falo de opiniões que não vão além do senso-comum. Ora, quem opina na praça pública tem o especial dever (que é um dever de cidadania) de estudar em profundidade aquilo sobre o que opina, sob pena de induzir outrem em erro, de criar dissensões desnecessárias, de, enfim, manipular em vez de discutir e esclarecer;  
3. E, lamentavelmente, mais uma vez emergem velhos clichés de base antinómica que marcam posições inconciliáveis na educação e que, por isso mesmo, deviam ser afastados de uma vez por todas da reflexão racional, baseada em conhecimento, de que a educação necessita na comunidade: o pensamento de esquerda e o da direita, a “agenda” dos conservadores e a dos inovadores, etc… Quanto ao todo poderoso neoliberalismo, posto em marcha pelas tendências citadas, verdadeiro pano de fundo dos sistemas educativos, passa aqui despercebido, como se nada tivesse a ver com a educação no domínio da “cidadania”. Acontece que tem tudo a ver. 
A situação a que chegamos e que iremos manter é aquela que o citado autor refere:
No cabe duda de que nos hallamos ante un elocuente desencuentro entre dos posicionamientos, hoy por hoy irreconciliables, en el que no se atisba posibilidad alguna de convergencia.
Quando a questão é a cidadania, dá que pensar: aqueles que se esgrimem em público para fazer valer a sua vontade esquecem-se da importância do debate informado para se conseguir a melhor educação possível para todos.

E agora: ganha (e impõe-se) a posição que obteve mais assinaturas?

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

BALANÇO DA PANDEMIA NA VIDA CULTURAL EM LIVRO DE ENTREVISTAS

 Comunicado da Sociedade Portuguesa de Autores:


Encontra-se realizada a série de entrevistas que integra o projecto "O Vírus,

a Cultura e o Futuro" (título provisório), que dará origem a um livro, com a

chancela da Guerra e Paz, antes do final do ano, a um ciclo de divulgação

regular no site da SPA e ainda, eventualmente a um programa de televisão

com periodicidade a anunciar.

Esta série de entrevistas com figuras centrais da nossa vida artística e

cultural pretende fazer um levantamento dos danos causados pela actual

pandemia e também um escrutínio amplo das perspectivas quanto ao que o

futuro nos reserva.

Os entrevistados foram Lídia Jorge, José Barata-Moura, Fernando Rosas,

António Victorino d'Almeida, Mário de Carvalho, Carlos Fiolhais. Olga Roriz,

José de Guimarães, José Manuel Castanheira, Mário Vieira de Carvalho,

Mário Mesquita, Nicolau Santos, Álvaro Cassuto, Rui Vieira Nery e José

Pacheco Pereira. As entrevistas têm cerca de 25 minutos cada e foram feitas

por José Jorge Letria, presidente das SPA, tendo as filmagens estado a cargo

de Jaime Serôdio, que também fez a cobertura fotográfica dos diálogos para

efeitos de publicação em livro.

Os entrevistados, com base nas suas experiência pessoais e profissionais,

traçam, na área da cultura e das artes, a primeira grande perspectiva global

que envolve a vivência da pandemia e dos seus efeitos na nossa vida

colectiva em termos culturais, artísticos, políticos e sociais. Esta é mais uma

das iniciativas dinamizadas e concretizadas pela SPA neste difícil ciclo da

vida cultural portuguesa. Outras surgirão em breve, designadamente um

livro sobre a ligação das mulheres à cultura, com a participação de

importantes nomes da nossa vida literária e artística.

Lisboa, 7 de Setembro de 2020

Mais informações em www.spautores.pt