Agora que Manguel, leitor de Borges, está entre nós, é bom recordar Borges, aqui num texto de João Ventura de 2006, no Forum Fantástico:
“Um homem propõe-se a tarefa de
desenhar o mundo. Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias,
de reinos, de montanhas, de baías, de naves, de ilhas, de peixes, de quartos,
de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer
descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto.”
Jorge Luís Borges
Buenos Aires, 31 de Outubro de 1960
O autor que tenciona escrever uma
comunicação sobre Borges – de ora em diante o Autor – lê um pequeno texto
incluido em A Cifra de 1981, intitulado “Um sonho”:
“Num deserto
lugar do Irão há uma não muito alta torre de pedra, sem portas nem janelas. No
único compartimento (cujo chão é de terra e tem a forma de um círculo) há uma
mesa de madeira e um banco. Nessa cela circular, um homem parecido comigo
escreve em caracteres que não compreendo um longo poema sobre um homem que
noutra cela circular escreve um poema sobre um homem que noutra cela
circular... O processo não tem fim e ninguém poderá ler o que os prisioneiros
escrevem.”
Pensa então que a sua comunicação
sobre Borges poderia começar assim:
Numa cidade de um país na periferia
do Império, um homem escreve uma comunicação sobre um homem que escreve uma
comunicação sobre um homem (...) que escreve uma comunicação sobre Borges.
Mas ao ler pela segunda vez o texto
referido de Borges, repara na última frase: “O processo não tem fim (...)”. Ora
terminar a sua sequência com as palavras “escreve uma comunicação sobre Borges”
vai torná-la finita. Como o carácter borgesiano da sequência é precisamente o
facto de ser infinita, a intervenção do Autor seria de facto a negação de
Borges. E assim, dolorosamente, o Autor abandona a ideia que ao princípio lhe
parecera tão promissora.
Tenta uma segunda abordagem: começa
a escrever um texto sobre Borges recheado de citações apócrifas, referências de
autores inexistentes, identificação detalhada de obras nunca publicadas... Mas
ao fim de meia dúzia de páginas, a releitura faz-lhe ver que nunca conseguirá
provocar em nenhum leitor aquela sensação indefinível que assenta na faixa
estreita entre o verdadeiro e o falso, aquilo que sentimos quando lemos algumas
das histórias de Borges, o acreditar minado pela suspeita ou a incredulidade
com infiltrações de “até podia ser”.
E o que escreveu acaba por ser
rasgado em pequenos pedaços que atira para o cesto dos papéis.
Pega em seguida num texto de
Borges, um pequeno conto escolhido ao acaso, e escreve-o lentamente, criando um
ficheiro no computador, copiando palavra a palavra, pronunciando-as em voz alta
de forma a sentir-lhes o sabor, a densidade. Começa depois um exercício que
consiste em substituir uma palavra por um sinónimo e tornar a gravar o ficheiro
com outro nome, nova substituição e nova gravação, e ao fim de algumas horas de
trabalho tem cerca de trezentos ficheiros no disco, todos eles variantes do
mesmo texto base. Parando para olhar o conjunto, apercebe-se que embora a ideia
original fosse atractiva, o resultado final será apenas e sempre uma caricatura
pobre e portanto risível da famosa Biblioteca de Babel, onde se encontram todos
os livros possíveis, “todas as possíveis combinações dos vinte e tal símbolos
ortográficos (...) ou seja, tudo o que nos é dado exprimir: em todos os
idiomas” (Ficções, 1944). Seria apenas uma pálida sombra dessa
Biblioteca incidindo sobre um texto, e a simples atitude de pretender usá-la
como analogia de “A Biblioteca” aparece tingida de uma arrogância que, embora
não intencional, vai marcar indelevelmente o texto produzido.
E mais uma vez o Autor, com alguma
relutância, destroi aquilo que escreveu. Fecha a pasta onde estão todos os
ficheiros, com nomes de biblio_1 a biblio_298, marca a pasta e carrega em delete.
Nova tentativa: resolve falar de um
objecto cujas propriedades sejam tais que a ligação desse objecto a si próprio,
Autor, surja como única, com a inevitabilidade de uma lei matemática através da
qual, conhecidas as causas, resultam fatalmente as consequências (mantendo
embora uma dúvida insidiosa nos interstícios das afirmações, mesmo as mais
absolutas). A ideia surge-lhe a partir de “O bastão lacado” e de “O punhal”, pequenos contos dos livros A
Cifra, de 1981 e Evaristo Carriego, de 1930. Ambos falam de objectos que possuem como que
uma vida própria, e que constituem, esses objectos, um fio de ligação entre a
sua própria história e o seu actual possuidor. Para dar uma ideia mais
concreta, eis alguns excertos de “O bastão lacado”:
(...)
“Observo-o.
Sinto que é uma parte daquele império, infinito no tempo, que ergueu a sua
muralha para construir um recinto mágico.
(...)
Observo-o.
Penso no artesão que trabalhou o bambu e o dobrou para que a minha mão direita
pudesse agarrar bem o punho.
(...)
Não nos veremos
nunca.
(...)
No entanto,
alguma coisa nos liga.
Não é
impossível que Alguém tenha premeditado este vínculo.
Não é
impossível que o universo necessite deste vínculo.”
Mas quando começa em casa à procura
desse objecto único, sobre o qual iria escrever, o Autor verifica que tudo o
que o rodeia é fruto da produção em massa dos últimos anos. Todos os objectos
do seu quotidiano se caracterizam por serem iguais a milhões de outros, saídos
das linhas de montagem das fábricas de mão de obra barata do extremo oriente. E
a ligação entre o operário e o fruto do seu trabalho é totalmente diferente do
vínculo estabelecido entre o artesão e o objecto que produziu ao longo de dias
ou semanas de paciente esforço. A produção em massa gera objectos sem história.
E portanto também aqui as intenções do Autor se revelam infrutíferas.
Pensa subitamente na História
Universal da Infâmia, de 1935. Desde essa data, muitos infames, reais ou
imaginários, percorreram os caminhos da humanidade. Ele, Autor, seria
certamente capaz de inventar mais uns quantos. É quando alguém lhe diz que Rhys
Hughes, do país de Gales, publicou recentemente “Uma Nova História Universal da
Infâmia”. E não contente com isso, pegou numa outra fonte de inspiração
riquíssima – “O Livro de Areia”publicado
em 1975 – e escreveu “Em busca do Livro
de Areia”!
O Autor apercebe-se que regressou à
estaca zero. Todas as suas tentativas de escrever sobre Borges falharam
redondamente. Sente que andou à volta de Borges numa trajectória circular, ou
quando muito seguindo uma espiral que se aproxima do centro com extrema lentidão,
como o movimento de uma galáxia em torno do buraco negro oculto no seu centro.
Provavelmente o seu conhecimento da obra do mestre não é suficiente para
produzir algo de relevante sobre a mesma.
Resolve então reler. Não da maneira
semi-anárquica que tinha caracterizado o seu primeiro contacto com os escritos
de Borges, mas de um modo disciplinado, seguindo um percurso rigorosamente
cronológico. Começa pelas obras da juventude, a poesia de “Fervor de Buenos
Aires” publicado em 1923, lê lentamente, mais poesia de 1925, o “Caderno San
Martin” de 1929, “Evaristo Carriego”, os ensaios de 1932, lê com minúcia a
“História Universal da Infâmia” de 1935 e a “História da Eternidade” do ano
seguinte. “Ficções” e “Artifícios”, ambos de 1944, são saboreados com prazer,
bem como “O Aleph” de 1949. Percorre “O Fazedor”, de 1960, onde existe um poema
dedicado aos Borges, seus antepassados portugueses, e outro a Luís de Camões.
Mais poesia ao longo da década de 60. “O relatório de Brodie” e “O Ouro dos Tigres”, publicados no princípio
dos anos 70.
Ao longo deste trabalho dedicado e
minucioso, a vista do Autor vai piorando. É já com grande dificuldade que
termina “O Livro de Areia” de 1975. A
partir daí é obrigado a recorrer aos amigos para lhe lerem em voz alta. E é já
pela voz deles que visita a poesia de 1975 a 77, “A Cifra” de 1981, que
percorre os “Nove ensaios dantescos” de 1982,
“Atlas” de 1984 e “Os Conjurados” de 1985.
Mas de alguma forma, com a perda da
vista, a compreensão dos textos aumenta, como se com o progressivo
desaparecimento do sentido da visão, do apagamento das imagens, as palavras
fossem ganhando mais intencionalidade e consistência. O Autor identifica-se
cada vez mais com Borges, agora que, como ele, vive na escuridão, tendo como
ligação privilegiada ao mundo exterior a sonoridade das palavras. E a tal ponto
se torna forte esta identificação com o centro, o ponto alfa do universo
borgesiano, Jorge Luís Borges himself que, repetindo o que o mestre
escreveu na linha final do conto “Borges e eu”, o Autor poderá dizer:
“Não sei qual
dos dois escreve esta página.
João Ventura