sábado, 22 de agosto de 2020

PRECISAMOS DE SABER E DE REAGIR PARA EVITAR TORNARMO-NOS EM "WINSTON SMITH"


"... a regra geral de proibição de utilização de meios de vigilância à distância, 
com a finalidade de controlar o desempenho profissional do trabalhador, 
é plenamente aplicável à realidade de teletrabalho (...) 
a utilização de tais meios implica uma restrição desnecessária 
e seguramente excessiva da vida privada do trabalhador. 
Por esta razão, soluções tecnológicas para controlo à distância 
do desempenho do trabalhador não são admitidas."
Orientações da CNPD, 2020.


O jornal Expresso desta semana, na secção de Economia, num artigo de Cátia Mateus com o título Empresas portuguesas espiam funcionários em teletrabalho, retoma as Orientações da Comissão Nacional de Protecção de Dados, publicadas em 17 de Abril do corrente ano, sobre o controlo à distância dos empregados pelos seus empregadores.

Vai mais longe o artigo: noticia que, não obstante a clareza dessas Orientações, múltiplas empresas usam programas informáticos de monitorização/vigilância remota para recolher dados dos empregados enquanto estes se encontram ligados à "rede". Incluem-se na categoria de "dados" os estritamente profissionais, mas também os pessoais.

Acontece que, tratando-se de programas ocultos, o empregado não é informado que está a ser vigiado e, em sequência, julgado com vista a eventuais punições. E muito menos lhe é pedido o consentimento informado, o que, no caso, mesmo se obtido, carece de validade por se tratar de uma prática manifestamente ilegal.

É ilegal, mas com o argumento Covid, que se tem tornado absoluto, está em crescendo! E sem que nada de relevante aconteça a quem põe tão grosseiramente em causa "valores a que damos valor" (privacidade, responsabilidade, confiança...). Prevalece a justificação de que a detecção é muito difícil alindo-se-lhe o medo da denúncia, mas a ignorância e a indiferença também têm relevância. Por isso, é preciso tomar consciência da enormidade e da gravidade do problema.

Reproduzo palavras de uma jurista, especialista em privacidade e proteção de dados, que prestou o seu depoimento à jornalista:
[os programas facultam a possibilidade] de controlo quase ilimitada sobre as ações do trabalhador” (...) “é possível ao empregador controlar todas as ações realizadas no computador. Pode aceder a dados pessoais ou fotografias arquivados (...) externos à prestação do trabalho, controlar todas as teclas usadas [permitindo a replicação de mensagens] e a velocidade a que o faz ou até extrair capturas de ecrã que permitem saber as páginas por onde o trabalhador navega”, além dos já conhecidos registos áudio e vídeo (...) permitem “saber, a cada momento, o que o trabalhador está a fazer, quem está em casa do agregado familiar, incluindo menores”. 
A jornalista ouviu também a secretária-geral da Comissão Nacional de Proteção de Dados que reconheceu que este tipo de programas...
... “recolhe manifestamente em excesso dados pessoais dos trabalhadores, promovendo o controlo do trabalho num grau muito mais detalhado do que aquele que pode ser legitimamente realizado no contexto da sua prestação nas instalações da entidade empregadora”. 
Recomendo, pois, a leitura das Orientações desta Comissão (acima identificadas) e uma especial atenção ao modo como cada um de nós, seja empregador ou empregado, solicita e faculta os seus dados e os dados de pessoas próximas. Acrescento o dever, que nos cabe, de denúncia às entidades competentes de situações de vigilância abusiva, incompatíveis com a lei e a ética. Se não fizermos um sério esforço de consciencialização, se não quisermos saber e se não reagirmos tornar-nos-emos mais depressa do que poderemos imaginar em Winston Smith, o trágico personagem de Mil novecentos e oitenta e quatro, construído por George Orwell, que sabia bem do que falava/escrevia.

AINDA A BATALHA DE CARENQUE

Texto na sequência de vários outros entre os quais o que se pode encontrar aqui.

Devo começar por dizer que nunca abandonei as batalhas cívicas que travei. Perdi umas, mas foram mais as que ganhei. Já não tenho a saúde e a energia físicas de então, mas o cérebro ainda funciona e os dedos ainda mexem no teclado do computador. É importante acrescentar que, nestas lutas, continuo a contar com a solidariedade de muitos colegas e amigos. 

Isto para afirmar que estou determinado a levar esta até ao fim, para o que necessito da colaboração de todos os amigos e seguidores no Facebooke e Blogues e essa colaboração começa por ser partilharem, com os respectivos amigos, os desenvolvimentos que forem tendo lugar, numa espécie de reacção em cadeia, numa utilização plena das chamadas Redes Sociais. - Alma até Almeida! – dizia o meu pai. Dou, assim, início a mais uma, talvez a última, batalha para tentar salvar a importante jazida com pegadas de dinossáurios de Pego Longo, na vizinhança de Carenque, nome este por que é mais conhecida. 

É uma luta que dura há 34 anos, que teve uma fase muito dura entre 1990 e 1993, que foi ganha com a abertura dos dois túneis da CREL sob a jazida, luta que continuou e que teve outra vitória em 2001, com a aprovação, pela Câmara Municipal de Sintra (era presidente a Drª Edite Estrela) do projecto do Museu e Centro de Interpretação de Pego Longo, após luz verde do então Instituto de Conservação da Natureza. Projecto que morreu com o final desta vereação, numa qualquer gaveta da Autarquia. 

De 2001 para cá, ou seja nos últimos 19 anos, não obstante as múltiplas diligências que nunca deixei de fazer, a degradação com destruição parcial da jazida agravou-se a um ritmo exponencial sob o total abandono e negligência das entidades que tinham, por lei, obrigação de a vigiar e proteger, nomeadamente as duas últimas vereações da Autarquia e o Instituto de Conservação da Natureza que, em 2007, foi também “da Biodiversidade” e, em 2012, mudou para “das Florestas”, abandono e negligência que não estou na disposição de esquecer. 

Já o disse e volto a dizer que estamos a viver um período em que temos outras urgências bem mais gritantes, sendo imperioso que, pelo menos, se tente travar a degradação e a destruição em curso, intervindo no sentido de remediar, consolidar e, em suma, proteger eficazmente a jazida, na esperança de melhores dias, em que haja disponibilidade financeira para valorizar um património natural cuja importância extravasa as nossa fronteiras.
A. Galopim de Carvalho

Sim, há culpados pelos "piroverões"

Artigo de Jorge Paiva saído no jornal Público do passado dia 19 de Agosto e que republicamos com um outro título (aqui). Precisamos de prestar a melhor atenção às palavras de especialistas que sabem e que, além disso, se pautam pela independência. É o caso deste biólogo. Ver outro artigos seus: aquiaquiaqui.








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"O Governo do Líbano foi avisado, até por escrito, de que havia o risco do que ocorreu. Depois, demitiram-se como se isso fosse a condenação que mereciam pela mortalidade e destruição de que foram culpados.

Por cá temos a tragédia dos anuais Verões com incêndios florestais devastadores e mortíferos, apesar de há mais de 40 anos termos (eu e outros) alertado, muitas vezes, no que estavam a transformar o nosso país, particularmente as regiões Norte e Centro: numa pira contínua de lenha altamente inflamável, isto é, eucaliptal (produtos aromáticos voláteis e altamente incandescentes) e pinhal (resina, volátil e altamente incandescente) intensivos, contínuos e contíguos.

Mostrei isso de helicóptero a um Presidente da República (Mário Soares). Não valeu de nada. 

Em vez de travarem ou obrigarem a uma arborização cuidada e ordenada, fizeram ainda pior: extinguiram os Serviços Florestais. Assim, deixou de haver qualquer entidade competente para regularizar e não deixar arborizar da maneira desmesurada e contínua, como aconteceu durante estas dezenas de anos. Por outro lado, nos Serviços Florestais havia os guardas florestais que viviam no meio rural. Eram vigilantes permanentes e conheciam bem a região onde circulavam. Podia haver incêndios, mas nunca foram tão devastadores e mortíferos como os actuais. 

Os culpados são todos os governos que temos tido, particularmente a partir da extinção dos Serviços Florestais. 

Porém, todos esses governantes, não só não assumem o que fizeram, como não são capazes de admitir o erro e, no mínimo, criarem novamente os Serviços Florestais. Além disso, muito do património construído (particularmente casas florestais) ainda existe, embora a maioria bastante delapidado.

Enquanto não se tomarem medidas efectivas, vamos continuar a ter “piroverões” (pyra = fogueira) e mortes, por termos uma ignisilva (igneus = fogo; silva = floresta) contínua e contígua. 

Além dessas medidas, é fundamental também acabar com os “pirotelejornais”. Quando há incêndios, já vi telejornal inteiro com imagem de fundo de um pavoroso incêndio. Além de absurdo, é de uma tremenda falta de ética. Sabemos que não se noticiam suicídios mostrando imagens, por poderem levar à tentativa de suicídio de pessoas fragilizadas ou com essa tendência. Todos nós sabemos que existem incendiários: uns doentes (pirómanos) e outros por interesse ou vingança estúpida.

Há já muitos anos, quando ainda dava aulas (tenho 86 anos), numa altura de elevado número de fogos florestais de um piroverão, fui, uns dias, com alunos meus para a parte alta da serra da Estrela, de ampla visão panorâmica. Numa noite, depois de assistirmos a um desses pirotelejornais, fomos para cima de um rochedo observar o horizonte. Passado pouco mais de uma hora, começaram a surgir incêndios no horizonte. Foram cerca de meia dúzia, durante as horas que ali estivemos.

O espectáculo desses pirotelejornais é vergonhoso, particularmente as reportagens dos repórteres locais, pois estes “jornalistas” têm imensa preocupação em estarem a mostrar imagens dos incêndios enquanto falam e, muitas vezes, até parece estar a relatar um jogo de futebol. Com os noticiários das estações de rádio, também há uma enorme falta de ética e profissionalismo. Há uns anos, no início de um mês de Abril excepcionalmente quente, no noticiário das 5 da manhã da Antena 1, ouvi o locutor anunciar que o dia iria ser novamente quente como o dia anterior, “mas os incêndios ainda não começaram”. Prefiro não qualificar!... 

Por outro lado, nestes noticiários (televisão e rádio), os entrevistados são sempre os mesmos: ministros; secretários de Estado; autarcas; comandantes de bombeiros e quejandos. Este ano até ouvi o Presidente da República afirmar que os pavorosos incêndios na região de Oleiros resultaram de falta de vigilância por causa do confinamento a que a actual pandemia obriga.

Felizmente, a população portuguesa não é imbecil, como muitas vezes querem fazer transparecer as desculpas apresentadas pelos entrevistados nestes show offs televisivos. 

Deviam era anunciar o número de vítimas mortais que os piroverões já provocaram nestes últimos 40 anos, muitos dos quais bombeiros voluntários, pois faltam os profissionais que conheciam o terreno e sabiam combater fogos florestais, que eram os técnicos e guardas florestais. Além disso, os guardas florestais apercebiam-se das pessoas que circulavam pelas florestas e baldios. Assim, havia muitíssimo menos fogos postos por incendiários e por pirómanos.

Infelizmente, vamos continuar com piroverões, plenos de fogos florestais, mortes e enormes despesas, muito superiores à de uns Serviços Florestais bem estruturados e um país ruralmente ordenado. 

Finalmente, com tantos incêndios florestais e sem Serviços Florestais com capacidade de rearborizar ordenadamente, as regiões montanhosas do país, estão a transformar-se em desertos de rocha nua, por erosão pluviosa, com consequente arrastamento de solos, como já é visível, particularmente no Norte e Centro do país."
Jorge Paiva

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Pegadas de dinossáurio de Pego Longo ao abandono





Esta importante jazida, classificada como Monumento Natural, em 1997, é hoje um misto de lixeira e matagal com ervas, arbustos e árvores, tudo entretanto nascido e enraizado na própria laje que contém as pegadas.

A primeira batalha que travei com a Administração pela salvaguarda da jazida com pegadas de dinossáurio de Pego Longo (Sintra) na vizinhança imediata de Carenque (Amadora) durou três anos, entre 1990 e 1993, com larga participação da comunicação social. Saldou-se por uma feliz vitória, concretizada com a abertura dos dois túneis da CREL, sob a grande laje que contém as pegadas, o que custou cerca de oito milhões de euros à fazenda pública. À cautela, o Museu Nacional de História Natural, da Universidade de Lisboa, era eu, então, o director, procedeu à moldagem, em latex, da totalidade do trilho (132 m). De tudo isto dei pormenorizado relato no livro “Dinossáurios e a Batalha de Carenque”, Editorial Notícias, 1994.

É verdade que esta penosa batalha foi ganha, salvando-se as ditas pegadas, mas, de então para cá, deixadas ao abandono, assistimos, impotentes, à sua destruição, não obstante as múltiplas insistências que intentei ao longo destes 26 anos. Em 2001, a Câmara Municipal de Sintra, ao tempo da presidência da Drª Edite Estrela, aprovou o projecto do “Museu e Centro de Interpretação de Pego Longo” e, quando tudo se encaminhava no sentido da musealização do sítio, mudou a vereação do PS para o PSD e o projecto perdeu-se no fundo de uma qualquer gaveta.

Esta importante jazida, classificada como Monumento Natural, em 1997 (Decreto n.º 19/97 de 5 de Maio), é hoje um misto de lixeira e matagal com ervas, arbustos e árvores, tudo entretanto nascido e enraizado na própria laje que contém as pegadas. Uma vergonha para a Câmara Municipal de Sintra e uma vergonha ainda maior para o Instituto de Conservação da Natureza (e agora das Florestas, um enorme disparate como se as florestas não fizessem parte da natureza), a quem, por lei, compete fiscalizar e zelar por este valioso património.

Estamos a viver um período em que temos outras urgências bem mais gritantes, sendo de bom senso que, pelo menos, se tente travar a degradação em curso, protegendo eficazmente a jazida, na espera de melhores dias. Se mesmo isto não for feito. que se possa, ao menos, assacar responsabilidades às duas supraditas instituições.


A. Galopim de Carvalho
Artigo saído no jornal Público de dia 15 de agosto

David A. Kirby - Science & Hollywood

ESTUDO AUTÓNOMO

 

Novo post de Nuno Pereira (psiquiatra):

    Em tempo de pandemia, o ensino a distância (EAD), baseado sobretudo em aulas expositivas virtuais e nos clássicos trabalhos para casa (TPC), pôs a descoberto a falta de autonomia no estudo de muitos alunos, com a consequente desmotivação destes, apesar do empenhamento redobrado dos pais. As tecnologias da informação e da comunicação (TIC), ferramentas muito úteis de ensino e aprendizagem, não determinam o modelo pedagógico. A capacidade de autoaprendizagem constitui um pré-requisito do ensino com intermediação tecnológica e, independentemente de o sistema educativo ser presencial, digital ou híbrido, assume importância decisiva no êxito escolar e na atualização contínua. Ora, o etéreo “Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória” aprovado pelo Ministério da Educação parece não contribuir para a criação de estratégias concretas de desenvolvimento do estudo autónomo.

    A falsa dicotomia, há muitos anos ultrapassada, entre a escola antiga centrada no professor e a escola nova centrada no aluno pode fazer desfocar o objetivo primordial que é tornar o estudante capaz de transformar a informação em conhecimento e de o colocar em prática. Sendo a pessoa objeto e sujeito, aspetos polares inabordáveis em simultâneo, justifica-se uma metodologia aberta, em que o professor oscila entre transmissor e facilitador e o aluno, entre recetor e construtor. Perante a massa avassaladora de informações no mundo atual, o aluno que não sabe estudar com autonomia fica com fraca preparação académica e seriamente limitado para continuar a aprender de forma consistente. Claro que a formação integral da pessoa se realiza aprendendo a conhecer, a fazer, a conviver e a ser, em diferentes ambientes não só formais, como não formais e informais.

    Para melhorar os resultados escolares, quer o Ministério da Educação quer os professores e os encarregados de Educação adotam estratégias distintas. O primeiro tende a condicionar a escola para baixar a fasquia da exigência. Os segundos encorajam o aumento do esforço dos alunos e do número de aulas, sem contar com as explicações privadas, o que pode explicar que Portugal tenha uma das maiores cargas de aulas e de trabalhos para casa (TPC) da Europa. Nem abdicar da excelência nem investir na quantidade de esforço e de aulas representam boas soluções. Só uma prática pedagógica que envolva o ensino do conteúdo curricular e do modo de o aprender.

    Potenciar as capacidades naturais dos alunos para estudarem eficientemente, isto é, com eficácia e menor despêndio de energia, eleva a autoestima e a motivação e garante mais tempo para dedicarem a outras atividades extracurriculares e estarem com a família e os amigos. Assim, integrar, no âmbito de cada disciplina, a partir do 2º Ciclo de escolaridade, o método de estudo autónomo não só promove o sucesso escolar, como otimiza a aprendizagem ao longo da vida.

 

                                                                               Nuno Pereira (psiquiatra)

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

JERÓNIMO DE SOUSA E A FESTA DO AVANTE


Não há festa nem festança onde não vá Dona Constança” (ditado popular).


Quando eu era rapaz, lá vem a saudade de tempos idos bater-me à porta, havia o dito sem pés nem cabeça, que não resisto em reproduzir: “Há dias de manhã em que um tipo à tarde não deve sair à noite!”

Isto vem a propósito de uma notícia publicada  no “Notícias de Coimbra”, em que o Partido Comunista, não sei se de manhã, à tarde ou à noite, deu à luz esta afirmação: “PCP diz que Festa do Avante não se faz por questões financeiras, mas para dar esperança!” Deu esta Festa (2011) um lucro  de  564.128 euros, com bilhetes sem pagarem  IVA e os lucros livres de impostos, factos estes que não podem  ser considerados ganhos de simples e escassos tostões. Uma esperança lucrativa em cifrões, portanto!

É natural que as restrições impostas pelo coronavírus faça diminuir bastante estes lucros decrescendo, com um número menor de assistentes, o número de infectados e de mortes. Nem que fosse uma só morte já seria bom por não haver dinheiro que pague a perda de uma única vida humana! 

E daqui nasce a pergunta: que faz o PCP aos lucros fabulosos da sua festança, realizada ano após ano? Distribui-os pelos ricos e a esperança pelos pobres deste país com olhos gulosos de aliciamento de novas e tonificantes inscrições no chamado “Partido do Povo”? Denominação esta, aliás,  disputada, outrossim, pela classe possidente  do Bloco de Esquerda!

Haja decoro, já que vergonha nem vê-la, em distribuir esperança por quem mal tem dinheiro para comprar o pão que o diabo amassou! Nem as criancinhas acreditam mais em histórias do tipo da carochinha depois do aluimento do Muro de Berlim e queda do comunismo na ex-URSS e países seus satélites. 

Actualize-se, Senhor Jerónimo de Sousa, para não ser tido por dinossauro português do século em curso, a viver o sonho da Coreia do Norte longe, portanto, da realidade do mundo em que nasceu e vive! Vivemos em resquícios de um tempo  em que "Moscovo era o sol da terra" (Cunhal) e longe, muito longe, de tempos em que a palavra patriotismo era um honra tendo passado a uma espécie de vilipêndio. Assim decorrem os dias num país triste e melancólico no final do segundo decénio do  século XXI.

Um mundo de fronteiras lusitanas, que ultrapassou o perigo de cair no comunismo durante a época gonçalvista, não fosse a coragem dos militares da Amadora, sob o comando do falecido e corajoso Coronel Jaime Neves, a quem Portugal deve a  doação de amor pátrio: “Mama sumae” (aqui estamos prontos para o sacrifício).

Saiba a Pátria honrar os Comandos dessa conturbada época sem os deixar cair num esquecimento que desonra!

domingo, 16 de agosto de 2020

FAZER O SOL NA TERRA: MINHAS DECLARAÇÕES AO EXPRESSO


No Expresso de há duas semanas foram publicadas algumas das declarações que fiz à jornalista Catarina Vasconcelos sobre o ITER - o grande reactor de fusão internacional que está em construção perto de Marselha.  Divulgo aqui o meu depoimento na íntegra:

CV - Porque se crê que este projeto possa ser mais revolucionário do que outras experiências de fusão nuclear? 

CF - A máquina é do mesmo tipo de outras já existentes, designadamente a máquina europeia JET- Joint European Torus, perto de Oxford, no Reino Unido, mas bastante maior. Máquinas desse tipo são chamadas "tokamaks", nome que vem de um acrónimo russo para "câmara toroidal com bobinas magnéticas", inventada  no final dos anos 50 pelos físicos russo Igor Tamm (Nobel da Física em 1958) e Andrei Salharov (este muito conhecido pela defesa que fez dos direitos humanos; ganhou o Nobel da Paz em 1975). O tokamak do ITER, em Cadarache, perto de Marselha, que começou agora a ser montado uma vez que a base acabou de ser construída, é um grande "donut" metálico no interior do qual está um vácuo onde se injecta um plasma: núcleos de deutério (hidrogénio pesado: um protão e um neutrão; o núcleo de hidrogénio normal é só um protão) e trítio (hidrogénio muito pesado, com um protão e dois neutrões) e electrões.  O gás é aquecido por uma resistência eléctrica e mantido afastado das paredes (que derreteriam à temperatura atingida pelo plasma) graças a um enorme enorme magnete.

Com o aquecimento o deutério pode-se fundir com o trítio dando hélio, libertando neutrões e energia.  esta forma de energia nuclear  é parecida com a que é produzida pelo Sol e do qual depende toda a vida na Terra, embora a reacção seja um pouco diferente (e também com as das bombas de hidrogénio, que são parte dos actuais arsenais nucleares). 

Portanto, a ideia é imitar o Sol (ou outra estrela, já que o Sol é uma estrela banal entre muitas outras)  na Terra. A promessa é ter energia limpa (ao contrário das actuais centrais nucleares, não se formam produtos radioactivos de longa duração, que seja necessário armazenar algures) e segura (ao contrário de Chernobyl é possível desligar o reactor numa fracção de segundo) usando combustível que temos em abundância (o hidrogénio, que está na água, por exemplo a do mar; o trítio é uma forma muito rara de hidrogénio, que se regeneraria no ITER a partir do choque do hélio com o lítio num lençol envolvente).

O JET não conseguiu produzir mais energia do que a que lá se mete. O ITER pretende obter dez vezes mais energia do que lá se mete. Não será ainda suficiente para produzir electricidade com uma normal central eléctrica que funciona com uma turbina. Tal é o objectivo de um projecto que se sucederá ao ITER, denominado DEMO, que terá um output 25 vezes maior do que o input. O ITER vai fornecer a potência de 500 MW ao passo que o DEMO vai fornecer 2000 MW (para comparação, a central termoeléctrica de Sines dá 1256 MW).

Mas há bastantes problemas a resolver: a engenharia é muito complicada e os custos têm vindo a derrapar. Não haverá fusão no ITER antes de 2035 e os custos até lá estão previstos  oficialmente em 20 mil milhões de euros, mas há quem diga que vão ser mais do triplo disso. O custo  real passou é mais do dobro do previsto  há 10 anos. Por dificuldades políticas, económicas e técnicas o ITER tem-se atrasado. Antes de haver fusão em 2035 prevê-se que haja plasma dentro da máquina em 2025.  Receio que os preços aumentem e os prazos deslizem. Actualmente estão a gastar 2 mil milhões por ano (para comparação a ajuda este ano à TAP vai ser  1200 milhões) e os custos vão subir à medida que o reactor for sendo construído.

A ideia é boa em princípio, mas será que em 2050, quando o DEMO poderá levar a um modelo, o PROTO, comercialmente viável. Noto que o ITER não é um reactor, mas uma experiência: nunca ser+a ligado à rede eléctrica. O DEMO será um reactor experimental, com ligação à rede eléctrica. O PROTO será já um reactor comercial.  Não haverá formas economicamente mais competitivas de obter energia, usando as chamadas "energia alternativas", designadamente a solar? A questão é: será mais viável construir o Sol na Terra ou aproveitar melhor a energia que o Sol nos envia? 

CV - Qual é a importância, na sua perspectiva, de juntarem esforços países como o Japão, os Estados Unidos, a Coreia do Sul, a Índia à União Europeia, na corrida a uma energia "limpa"? 

CF - E também a Rússia e a China, que são superpotências rivais dos EUA. Só este facto é extraordinário, juntarem-se os países que têm mais de 80% do PIB do mundo e mais de 50% da população num grande projecto científico. O CERN - um projecto de física fundamental - não tem a mesma amplitude geográfica (basicamente é a União Europeia mais a Suíça, o Reino Unido e a Noruega) e custou menos  (o acelerador LHC  custou cerca de 15 mil milhões até agora).

Há ainda projectos espaciais, tendo os Estados Unidos uma agência (NASA), a União Europeia outra muito menor (ESA), e a Rússia e a China outras, havendo forte concorrência entre algumas delas (a NASA e a ESA vão cooperando).

Aprende-se muito a trabalhar em conjunto. O ITER mostra que é possível a cooperação científico-técnica à escala global. Só por isso vale a pena! Não faz muito sentido que os países que estão a trabalhar em conjunto para preparara o futuro se enfrentem numa guerra. Portanto, o ITER pode ser visto como uma espécie de vacina que previne uma terceira guerra mundial. Mas não nos iludamos: não há projectos muito concretos para o DEMO. Tanto os Estados Unido como a Rússia como a China podem ter no futuro projectos próprios para produzir energia de fusão nuclear. A verdade é que ninguém sabe como vai ser, a prazo, o futuro da fusão nuclear controlada.

Um aspecto positivo para nós, portugueses e europeus, é que o ITER se situa-se num sítio da Europa, não longe daqui, e dá  oportunidades de trabalho a físicos e engenheiros portugueses e negócios à indústria portuguesa. Mas temos de o ajudar a pagar: 45% dos custos são cobertos pela União Europeia (agira sem o Reino Unido, que está a negociar como é que vai continuar associado). 

CV - Ian Chapman defende a fusão em detrimento da cisão. De que forma é a fusão nuclear mais vantajosa? 

CF - Chapman é um jovem físico especialista em fusão nuclear que preside à agência nuclear britânica. Está a defender  a sua dama, como é natural, mas a energia nuclear convencional ainda há cerca de 10% da energia eléctrica em todo o mundo (muito mais do que isso em países como a França). A produção de energia nuclear de cisão está levemente ascendente, provavelmente porque essa forma de energia não produz gases de efeito estufa como o dióxido de carbono.

A grande vantagem da energia nuclear de fusão, que também não produz esses gases pois a combustão não é química mas nuclear, é que não temos que armazenar resíduos radioactivos, além de as operações serem potencialmente mais seguras. Além disso, a energia libertada por processo é cerca de três vezes maior na fusão do que na cisão. Mas a energia nuclear de cisão é uma tecnologia bem desenvolvida ao contrário do que se passa com a energia nuclear de fusão.  que com o ITER está ainda no seu início. 

CV - O que falta para que a fusão nuclear possa resultar numa energia comercialmente viável? Ou, por outra, acredita que poderá vir a ter um papel importante no sector da energia a nível mundial? 

CF- Falta desenvolver a tecnologia. É um grande desafio... Claro que há simulações em computador, mas têm de se fazer  o processo na realidade. As temperaturas são elevadíssimas, pelo menos tão altas como no interior mais profundo do Sol. Os campos magnéticos  têm de ser muito fortes para manter o plasma apertado longe das paredes do tokamak; o íman deve dar para levantar um avião!

Os neutrões, que são neutros e por isso incontroláveis pelos magnetes, saem do interior do tokamak a velocidades muito grandes (há até quem receia que eles possam prejudicar os materiais de que é feita a máquina e o seu invólucro, tornando alguns componentes radioactivos, uma posição que é contestada por outros; há que experimentar).

Com toda a franqueza, eu  tenho esperança que a energia nuclear de fusão possa satisfazer as grandes necessidades de energia da humanidade, mas não tenho - ninguém tem a certeza - absoluta. O processo pode-se revelar caro demais. Ou complicado demais, dada a escala do reactor comercialmente viável. Há quem prossiga com o desenho de  máquinas alternativas mais leves, que possam interessar investidores provados já que o ITER é um projecto público  internacional. Ou pode haver descobertas tecnológicas que levem a outras formas de produção de energia.

É muito arriscado  fazer previsões! Eu direi que, com 64 anos, já não vou ver a fusão nuclear a operar de forma corrente, oxalá veja de forma experimental. Talvez o meu filho vá ver: antes de 2060 não deve haver energia de fusão comercialmente viável. Sendo assim, acho que a fusão nuclear não vai contribuir para resolver o problema grave das alterações climáticas. Virá, se vier, demasiado tarde. Temos de desenvolver mais ainda as energias alternativas, tecnologias que são mais leves e baratas.

UM PROFETA DO CONTÁGIO

 Minha recensão no jornal I da passada quinta-feira:





Acaba de sair na editora Objectiva o livro Contágio. Uma história dos vírus que estão a mudar o mundo (no original, Spill-over: Animal Infections and the next human pandemic, W. W. Norton, 2012), a mais proeminente das obras do norte-americano David Quammen, 72 anos, autor de 11 títulos de não-ficção sobre temas de ciência, natureza e viagens, e de cinco de ficção.  Nas obras de não-ficção já tinha escrito sobre o vírus Ébola, que causa a doença com o mesmo nome, e sobre o vírus VIH, que causa a SIDA. 

De entre os livros de ficção distingue-se Walking Out, por ter sido guião de um filme.  A sua escrita é muito apelativa, pela proximidade que revela e suscita em relação à ciência e à Natureza. Ele é um dos autores da National Geographic, que, há muitos anos, muito mais do que um magazine popular, é uma instituição que zela pela nossa consciência planetária. Quammen é um grande viajante: tem corrido as sete partidas do mundo, incluindo os lugares mais recônditos, para poder ser testemunha directa dos fenómenos que relata.

O novo coronavírus tornou Quammen famoso porque, em Contágio, ele tinha, de certo modo, previsto a “Próxima Grande Epidemia,” isto é, a que hoje grassa.  A Covid-19, com mais de 700.000 vítimas mortais até à data, situa-se entre o Ébola, cujo surto em 2014-2016 causou 11.300 mortos, e o VIH, que já causou desde 1981 mais de 30 milhões de mortos. Mas, no livro agora saído em português, Quammen discutiu, além dessas duas epidemias, várias outras, como a SARS, que em 2002-2003 causou 800 mortos. e outras menos conhecidas, como as causadas pelo vírus Hendra, que surgiu na Austrália em 1994, e pelo vírus Nipah, que surgiu na Malásia em 1998. 

Todos elas são exemplos de zoonoses, a passagem, ou spillover, de microorganismos de animais para humanos. Dada a previsão feita em Contágio, o New York Times solicitou a Quammen em Janeiro passado um artigo de opinião sobre o novo coronavírus que começava então a grassar na China, artigo este que foi incluído na edição portuguesa. O autor estava nessa altura a escrever um livro sobre o cancro, mas o seu editor pediu-lhe para pôr esse tema de lado e começar a escrever, a todo o vapor, um livro sobre a pandemia causada pelo SARS-CoV-2. Estou certo de que o novo livro, agora em elaboração, vai sobressair na lista, a aumentar todos os dias, de obras sobre vírus e infecções virais.

Vale a pena ler Contágio por que está muito bem escrito e traduzido (não se nota a heterogeneidade que se poderia recear de haver quatro tradutores e dois revisores). Impressiona o rol de referências e de pessoas que ajudaram o autor nas suas pesquisas. O livro tem a mais valia de um prefácio de Pedro Simas, o virologista português que ganhou visibilidade nos últimos meses, no qual é identificada Odette Ferreira, a cientista portuguesa de quem Quammen fala, embora por alto, no Cap. VIII, ao referir a descoberta do VIH de tipo 2.

Contágio não é bem uma história, como vem no subtítulo português, mas diversas histórias, entrelaçadas pelo fenómeno da zoonose. Algumas delas são trepidantes não só pelo grau de destruição viral e pelos dramas humanos associados, mas também e sobretudo pelos avanços no conhecimento conseguidos por médicos, virologistas e outros cientistas em vários sítios do globo. As conversas com esses cientistas são muitas vezes reproduzidas ipsis verbis, em diálogos que parecem cinematográficos. Ao ler Contágio sentimo-nos na linha da frente, ansiosos como o próprio autor por saber mais. Ficamos inteirados em directo e ao vivo das catástrofes acontecidas ou a acontecer. É raro encontrar autores de ciência que escrevam com tanta vivacidade.

Como é que Quammen previu, no seu livro de há oito anos, a actual pandemia? No seu website diz com alguma modéstia que não foi ele, mas sim os especialistas com quem falou. Tem razão. Mas o seu mérito foi ter estado com as pessoas certas nos lugares certos. Sim, a probabilidade era grande de haver uma nova pandemia causada por um vírus passado de animais para humanos, uma mensagem, bem clara no livro, que o autor resume no seu site do seguinte modo: “Sim, haverá uma Próxima Grande Pandemia. Será causada por um vírus. Esse vírus será novo para os seres humanos, saindo de um animal selvagem. Que tipo de animal? Muito possivelmente um morcego. Que tipo de vírus? Muito possivelmente, um vírus influenza ou um coronavírus. Sob que circunstâncias o vírus entraria nos seres humanos? Alguma situação de contacto próximo e desastroso entre humanos e animais selvagens - como no interior ou perto de um mercado de animais vivos na China, por exemplo.”

Portanto, embora a data, local e circunstâncias exactas fossem imprevisíveis de todo, o início da actual pandemia foi prevista, não só por Bill Gates e por especialistas da Organização Mundial de Saúde, mas também por escritores de ciência. Vejamos o que Quammen escreve no final do Cap. IV, “Jantar na quinta dos ratos” (o título remete para um jantar que lhe foi oferecido por uma família chinesa), um capítulo dedicado à SARS: “A história muito mais sombria ainda está por ser contada provavelmente não sobre este vírus, mas sobre outro. Podemos adivinhar que, quando, a Próxima Grande Pandemia chegar, agirá provavelmente em conformidade com o mesmo padrão perverso com uma alta infecciosidade a preceder sintomas perceptíveis. Isto vai ajudá-lo a percorrer cidades e aeroportos como um anjo da morte.”

Hoje, os contágios por casos assintomáticos soam-nos, infelizmente, familiares. Quammen estava muito bem informado. Falou com muita gente nas suas viagens à volta do mundo –a África em busca do Ébola, à China em busca do SARS, à Austrália em busca do Hendra e à Malásia em busca do Nipah (as únicas figuras do livro são mapas que ajudam a localizar a acção).

Como os capítulos são mais ou menos independentes, comecei pelo último, intitulado “Depende – Comportamento humano e epidemias”, onde, para além de tratar brevemente dos vírus influenza – em poucas páginas está o essencial da informação científica sobre uma terrível doença que nos aflige há séculos (o livro já ia em maias de 500 páginas) ­ –  Quammen fala dos malefícios da acção humana.  

A sua tese é que a espécie humana está a aumentar de um modo muito rápido (já somos mais de sete milhões) e está a ocupar zonas do planeta que eram selvagens, aumentando com isso as probabilidades de zoonoses. Ele diz que a espécie humana é um surto, uma expressão que se pode usar tanto para doenças como para espécies em crescimento explosivo. Seremos uma doença para o planeta, que é como quem diz para nos próprios.

Vamos todos morrer. Como diz o autor com ironia: “Sim, vamos todos pagar impostos e vamos todos morrer.” Mas não vamos morrer de varíola nem de políomelite, doenças para as quais já desenvolvemos vacinas (curiosamente, essas não são zoonoses). Mas poderemos morrer com um vírus novo recentemente saído de uma ave (a gripe pode vir das aves), de um macaco (a SIDA veio de um macaco), ou de um morcego (a SARS, tanto na primeira como na actual forma, veio provavelmente de morcegos). Quammen escreveu profeticamente: “Quando o próximo vírus novo passar de um chimpanzé, morcego, murganho, pato ou macaco para um ser humano, e talvez desse humano para outro humano, e e começar assim a causar um pequeno número de doenças letais, eles os cientistas vão dar por isso (….) e fazer soar o alarme. O que quer que aconteça depois disso vai depender da ciência, da política, dos hábitos sociais, da opinião pública e de outras formas de comportamento humano. Vai depender de como nós, cidadãos, reagirmos.”

Que lição podemos aprender com os vírus vindos de animais?  Quammen responde: “As doenças zoonímicas lembram-nos, como fez São Francisco, que nós, humanos, somos inseparáveis do mundo natural. Na verdade, não existe um ‘mundo natural’, trata-se de uma expressão má e artificial. O que existe é apenas o mundo.

A Humanidade faz parte desse mundo assim como o vírus Ébola, assim como as influenzas e o VIH, assim como o Nipah, o Hendra e a SARS, assim como os chimpanzés, os morcegos, as civetas e os gansos-de-cabeça-listada, assim como o próximo vírus assassino - aquele que ainda não detectámos.” Concordo com o autor que as possibilidades de infecções virais estão a aumentar, mas penso que essa é uma tendência que vem de há muitos anos. Com a Revolução Neolítica, há 10.000 anos, passámos a viver próximo dos animais que domesticámos. E, depois disso, espalhámo-nos pelo planeta, designadamente na “primeira globalização”, quando viajávamos em barcos à vela, na “segunda”, quando viajávamos em barcos a vapor, e na “terceira”, em que viajamos de avião. Não vejo como voltar atrás.

Vale-nos alguma margem de livre-arbítrio. Podemos fazer escolhas: “Um ser humano individual pode escolher não beber a seiva da palmeira, não comer o chimpanzé, não construir a pocilga debaixo do mangue, não limpar a traqueia de cavalo sem luvas, não fazer sexo desprotegido, não partilhar a agulha ao consumir droga, não tossir sem tapar a boca, não apanhar um avião se estiver a sentir-se mal, ou não abrigar as galinhas juntamente com os patos.”

Acrescentaria, nos dias e contágio que hoje vivemos, que podemos usar uma máscara, manter o distanciamento social, lavar as mãos com frequência. “Tudo depende,” são as últimas palavras do livro. O início de novo vírus depende, de facto, do acaso, uma vez que vem da lotaria genética. Mas o seu espalhamento já depende principalmente de nós.
Carlos Fiolhais

sábado, 15 de agosto de 2020

MAMADOU E A "BOSTA DA BÓFIA"

Acaba de pedir protecção policial esta personagem do “SOS Racismo”. Tem razão, ele que bota da boca para fora os maiores insultos e ameaças biliosas de mau fígado, ao povo português não pode ser molestado ainda que mesmo por mera hipótese Vai daí pede esta ilustre pessoa a protecção da “bosta da bófia” (nome com que ele mimoseia a PSP).

Salvo melhor opinião, a melhor protecção é hospedarem-no numa suite do Hotel Ritz, em Lisboa, com um batalhão de guarda-costas armados de fisgas com dinheiro pago com os nossos impostos, para o defenderem de moscas inoportunas, com uma reforma de muitos, mas mesmo muitos milhares de euros mensais, pagos também com os nossos impostos, claro está, automóvel Mercedes e “chauffeur” de fato, gravata e boné e, "last but not least", a direcção de jornal privativo para espalhar "urbi et orbi" as suas mensagens de “paz e amor ao próximo”.

Que diacho, um cavalheiro culto, pacífico e inteligente a viver num país de ignorantes não deve pedir menos ou exigir coisa menor. Isto é o mínimo dos mínimos, habituado que devia estar ele, Mamadou, a uma vida de luxo no Senegal. (Como veio esta “avis rara” cá parar sacrificando-se a viver no torrão lusitano?). Já agora, um doutoramento "honoris causa" vinha mesmo a calhar. Chega, senhor Mamadou Ba ou falta alguma coisa ao rol de coisas que merece? O respeitinho é muito bonito, mais bonito que o bigode que lhe ornamenta o beiço superior à Clark Gable que isto de modas, mesmo do tempo de ouro de Hollyood , não admite que Mamadou esteja démodé! 

“PS”: Isto, claro está, retiro se se provar , em hipótese de ser encontrada agulha em palheiro, que as ameaças de que ele diz ser vítima forem provadas não se tratando de uma imaginação fértil ou fertilizada com a mania da perseguição (para que ele habituado a uma linguagem elaborada melhor perceba: delírio persecutório) estando sempre a olhar para trás a ver se a sombra do seu avantajado corpo o deixou de perseguir. Mas continua a persegui-lo!

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

A COR DO RACISMO

“Eu lutei contra a dominação branca, eu lutei contra a dominação negra. 
Eu nutri o ideal de uma sociedade democrática e livre, 
na qual todas as pessoas vivem juntas 
em harmonia e com oportunidades iguais”
(Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul)


Causa-me bastante frisson a maneira tendenciosa e unillateral como alguns plumitivos da imprensa nacional e regional abordam a complexa questão do racismo e, por arrasto, as posições dos partidos de esquerda atribuindo, a si próprios, o monopólio  abusivo do anti-racismo.

Ainda mesmo tendo como uma patetice dar cobertura à mensagem que circulou, anos atrás, de que os “comunistas [chineses] comiam a criancinhas ao pequeno almoço”, esse facto não invalida que o comunismo tenha como pesada herança, na denominada “Primavera de Praga” (1968), o assassinato em massa de  indefesa população  checoslovaca. 

Bem sei eu que isto se passou numa época de transição para estados de operariado menos opressores condicionados pela necessidade de uma mudança da política do Leste europeu de que o muro de Berlim foi paradigma difícil de digerir por parte daqueles que chegaram ao extremo de argumentar que essa barreira de betão fora construída para evitar o êxodo da população da zona ocidental de Berlim para a zona Oriental desta cidade! Ao que chega o descaramento!

Actualmente, sinto dificuldade em me pronunciar sobre o espectro político actual português em que o Bloco de Esquerda se situa. Uma coisa me confunde neste caso por ter beneficiado este partido de um casamento de conveniência com o Partido Socialista, no altar da “geringonça”, embora com prazo  previsível de um divórcio litigioso que escaqueire a louça comum. No que respeita ao recente “CHEGA”, os seus opositores nem sequer lhe dão o benefício da dúvida, taxando-o, "a priori", de extrema-direita com uma carga de ódio de bradar aos céus, de quem tem o insulto como “ultima ratio”!

Curiosamente, hoje eu próprio começo a ter dúvidas sobre as fronteiras que separam a esquerda, da extrema-esquerda e a direita da extrema-direita. Nesta  espécie de dança das cadeiras, talvez algum politólogo, ou leigo mais atrevido, que acusa o “CHEGA” de ser de extrema-direita me possa elucidar como situar o Bloco de Esquerda. Desde já agradeço!

No meu caso, de uma coisa estou certo. Situo-me politicamente do lado daquilo que tenho por honesto, justo e digno propalado, ainda que só para inglês ver, nos programas eleitorais dos partidos políticos em disputa pelo poder prontos a vender a alma ao diabo se necessário.

Curioso, ainda, ou mesmo extraordinário, é o anti racismo ser agitado pela esquerda como coisa exclusivamente sua atribuindo, consequentemente, o racismo à direita, sendo que o combate da esquerda ao racismo chega a cometer a injustiça de defender cotas de emprego para negros. Podendo, se levado avante, teria como resultado que incompetentes negros ocupassem lugares de brancos competentes, através de um racismo negro que validasse uma situação que prejudicaria o desenvolvimento social, cultural e económico do país mais ocidental da Europa.

Acabar com o ódio entre raças é o melhor antídoto para combater o racismo sem manifestações tumultuosas de ódio latente  em que se misturam várias tonalidades de pele mancomunadas na finalidade em lançar gasolina para a fogueira do ódio sob o pretexto do combate ao racismo.

Dá-se o caso de eu ter mais receio dos que se arvoram em prosélitos do anti racismo, normalmente, só da boca para fora, como tal, em que os actos não correspondem às palavras, do que daqueles outros que assumem o racismo por ignorância: a ignorância pode ser combatida pela educação, o cinismo é mais difícil de combater! Ou mesmo impossível!

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

UMA VERGONHA ENTRE AS MUITAS QUE NOS ENVERGONHAM


A Jazida com pegadas de dinossáurios de Pego Longo (Carenque), classificada como Monumento Natural, em 1997, completamente deixada ao abandono é hoje um misto de lixeira e matagal com ervas, arbustos e árvores, tudo entretanto nascido e enraizado na própria laje que contém as pegadas. 

Uma vergonha para a Câmara Municipal de Sintra e uma vergonha ainda maior para o Instituto de Conservação da Natureza e (agora das Florestas, um grandessíssimo disparate como se as florestas não fizessem parte da natureza), a quem, por lei, compete fiscalizar e zelar por este valioso património.

A última visita que fiz ao local deixou-me apreensivo quanto a estado da laje (uma delgada camada de calcário margoso muito frágil) que contem as pegadas. Não sei nem tenho quem me aconselhe se há maneira de intentar qualquer acção contra os responsáveis por este crime.

Uma consequência positiva da batalha que travei, a partir de 1990, com a administração, visando a defesa da Jazida com pegadas de dinossáurios de Pego Longo (Carenque) foi a publicação do Decreto-Lei 19/93, de 23 de Janeiro, que criou a figura de Monumento Natural e a publicação de um livro “Dinossáurios e a Batalha de Carenque”, Editorial Notícias, 1994 /esgotado). Segundo o citado Decreto-Lei, 
“Entende-se por Monumento Natural uma ocorrência natural contendo um ou mais aspectos que, pela sua singularidade, raridade ou representatividade em termos ecológicos, estéticos, científicos e culturais, exigem a sua conservação e a manutenção da sua integridade”. 
Quatro anos mais tarde, era Primeiro Ministro o Dr. António Guterres e Presidente da República, o Dr. Jorge Sampaio, o Decreto n.º 19/97 de 5 de Maio, estabeleceu a classificação desta jazida como Monumento Natural, tendo por objectivos fundamentais a prosseguir,
“a preservação e conservação da jazida de icnofósseis da Pedreira de Santa Luzia, bem como o seu estudo científico e divulgação numa perspectiva de educação ambiental”.
No Artigo 4.º deste diploma, Condicionamentos e interdições, podemos ler:
“1 - Na área abrangida pelo Monumento Natural deverá ser privilegiada a protecção e valorização dos bens paleontológicos, em especial os icnológicos, sendo ali permitidas as seguintes actividades, mediante parecer favorável do ICN:
a) Investigação científica;
b) Educação ambiental relacionada com os bens patrimoniais do Monumento Natural;
c) Instalação de equipamento para a valorização do património geológico e paleontológico, particularmente o icnofóssil, e o apoio às actividades referidas nas duas alíneas anteriores (...).
3 - Na área abrangida pelo Monumento Natural são interditos os seguintes actos e actividades:
a) A realização de quaisquer obras de construção civil, nomeadamente urbanísticas, industriais, viárias ou de saneamento, não abrangidas pela alínea c) do n.º 1;
b) A exploração dos recursos geológicos, bem como a colheita ou detenção de materiais geológicos;
c) A alteração da morfologia do solo, nomeadamente mediante escavações, aterros, depósitos de inertes e vazamento de entulhos, resíduos, lixos ou sucatas, com excepção das operações imprescindíveis ao estudo e valorização da jazida;
d) A instalação de linhas eléctricas ou telefónicas, tubagens de gás e condutas de água ou saneamento, salvo as destinadas exclusivamente e consideradas imprescindíveis ao abastecimento das instalações referidas na alínea c) do n.º 1;
e) A prática de actividades desportivas motorizadas e equestres;
f) O lançamento de águas residuais. 
O Artigo 5.º, Administração, determina que
“O Monumento Natural é administrado directamente pelo ICN.” 
Finalmente, no Artigo 7.º, Fiscalização, lê-se: 
“A fiscalização do disposto no presente diploma compete ao ICN, em colaboração com as autarquias locais e demais entidades competentes, nos termos da legislação em vigor."
A. Galopim de Carvalho 

QUARTZO, UM POUCO DE HISTÓRIA

Desde a Antiguidade e até, pelo menos, ao século XVIII, se acreditou que os cristais de quartzo hialino, isto é, incolor e transparente, eram ocorrências de água no estado sólido, num grau de congelação tão intenso que era impossível fazê-los voltar ao estado líquido. Aristóteles (384-322 a. C.) chamava cristal ao gelo (krystallos, em grego) e foi sob este nome que esta espécie mineral passou aos domínios da alquimia, primeiro, e da mineralogia, depois. 

Theophrastus (372-287 a. C) distinguia o cristal-água (o gelo) do cristal-pedra (o quartzo hialino). No século I a. C., Diodoro da Sicília reafirmava que os cristais-pedra eram água congelada e Séneca, no séc. I d. C., precisava que eram água celeste congelada durante um período de grandes frios. Os romanos mantiveram este entendimento, latinizando o nome para cristallus, como se pode ler num dos 38 volumes da “História Natural”, de Plínio, o Velho, (23-79 d. C.).

Foi o carácter transparente e incolor do cristal-pedra que acabou por dar o nome ao vidro industrial de alta qualidade, a que hoje chamamos simplesmente cristal. A expressão cristal-de-rocha, aplicada ao quartzo hialino, surgiu muito mais tarde (no séc. XIX) para distinguir o mineral do produto manufacturado. A palavra cristal acabou, depois, por se generalizar aos corpos poliédricos minerais ou orgânicos, naturais e artificiais, tendo sido, por isso, usada como étimo do nome da disciplina que os estuda – a Cristalografia – afirmada como ciência no início do século XIX com René-Just Haüy, em França.

O termo quartzo atribuído a um mineral surgiu no século XVI, com Agricola (nome do médico e alquimista alemão Georg Baüer). No seu livro, "Bermannus de re metallica" (1530), descreveu o mineral que designou como Quartzum, por latinização de Quartz ou Quarz, jargões utilizados pelos mineiros alemães para referir o mineral maciço, branco, a que hoje chamamos quartzo leitoso ou quartzo filoniano, então visto como material desaproveitado (ganga) associado ao minério, a que os nossos mineiros chamam “seixo bravo”.

Figurado em versos do século XIV, oriundos da Saxónia ou da Boémia, o termo Quartz, deriva, segundo alguns autores, por contracção, de Querklufter, o material rochoso branco associado aos minérios; segundo outros, tem origem na palavra Quaderz, a parte desaproveitada do minério (ganga).

Existe em português o termo quarço, do alemão Quarz, mais correcto no entender dos especialistas da língua. Todavia, foi a forma quartzo, que nos chegou através do francês quartz, que fez vencimento.

Agricola não assimilava o Quartzum ao cristal-de-rocha, mineral que continuava a designar por Cristallus, ou pela expressão mais erudita, cristallus montanus (cristal da montanha), equivalente ao termo alemão Bergkrystal.

Em Inglaterra, no século XVII, o quartzo hialino era referido por “pedra de Bristol” ou “diamante de Bristol” e também por “pedra da Cornualha” ou “diamante da Cornualha”. No século seguinte já ali se usava o termo quartz para a variedade filoniana, maciça e leitosa, e crystal para a variedade hialina. Crystal foi ainda o termo utilizado por Lineu (1707-1778), ao descrever esta variedade, no seu "Systema Naturæ".

Na expressão bola de cristal, corrente entre magos, esotéricos e adivinhos, a palavra cristal é o único exemplo de reminiscência do seu uso como sinónimo de quartzo hialino. Deve dizer-se que são hoje raras as verdadeiras “bolas de cristal”. A imensa maioria das que estão disponíveis no mercado, são de vidro.

Dadas as suas propriedades físicas e químicas (dureza, tenacidade, fractura conchoidal, grande resistência à meteorização) o quartzo, na forma de mineral individual, ou como componente praticamente exclusivo de rocha siliciosa (sílex, quartzito, entre outras), foi usado pelos nossos antepassados da Pré-história em utensílios, armas e adornos, à semelhança do que fizeram, até muito recentemente, algumas populações primitivas, como é o caso dos papuas, na Nova Guiné.

Dos bifaces mais frustres do Paleolítico inferior, com mais de 2 milhões de anos, às delicadas pontas de seta e contas de colar do Neolítico superior, este tipo de material assegurou a indústria lítica, que marcou a Idade da Pedra, e não mais deixou de ser procurado e usado ao longo do tempo e à escala do Planeta.

Do antigo Egipto ficaram-nos os “escaravelhos sagrados”, em quartzo lilás (ametista), um brinco de quartzo hialino e ouro encontrado no túmulo de Tutankhamon, e os olhos na mesma variedade de quartzo, com que se procurava dar vida às estátuas. No Egipto surgiu ainda a primeira actividade transformadora do quartzo com a produção de vidro, arte que legaram aos romanos nos primeiros tempos do Império.

Esta manufactura foi transferida para Bizâncio, prosperando no Império do Oriente até à Idade Média. Só então ressurgiu na Europa, no século XVI, primeiro na Alemanha, depois em Veneza.

No Novo Mundo, os Maias perscrutavam o futuro, olhando através de um cristal de quartzo hialino, numa antecipação à bola de cristal dos adivinhos. Populações antigas do Vietname viam no quartzo hialino uma transformação da cera das abelhas, ao longo do tempo, por força de fluxos mágicos e vitais.

A tradicional associação do quartzo ao gelo e, portanto, ao frio, fazia com que alguns romanos mais abastados usassem bolas de quartzo para refrescarem as mãos ou atenuarem a febre, colocando-as no rosto dos doentes.

No campo científico cabe aqui lembrar que foi sobre cristais de quartzo que, em 1669, o dinamarquês Nicolau Steno (1638-1686) reconheceu a igualdade de ângulos diedros entre faces homóloga, constatação só mais tarde formulada em termos de lei – “Lei da Constância dos Ângulos” – por Romé d l’Isle (1736-1790). Esta mesma constância foi verificada e defendida pelo italiano Domenico Guglielmini (1665-1710) e pelo russo Mikhail Lomonosov (1711-1765).

Foi estudando os cristais de quartzo, nos seus aspectos geométricos, recorrendo a medidas de ângulos diedros e à utilização de índices numéricos, que Romé d l’Isle e o seu sucessor René-Just Haüy criaram a Cristalografia Morfológica, disciplina que, durante cerca de um século, constituiu complemento indispensável à Mineralogia.

Com o advento dos raios X, a investigação científica do quartzo ganhou nova dimensão, esclarecendo muitas das dúvidas dos mineralogistas e cristalógrafos e criando outras como, aliás, é próprio em Ciência.

Da pedra lascada, passando pelo vidro, considerado uma das primeiras indústrias na história da actividade económica humana, à electrónica e às novas tecnologias do futuro, o quartzo sempre acompanhou e continua a acompanhar a História da Humanidade como uma das principais matérias-primas.
A. Galopim de Carvalho

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

FESTA DO AVANTE

Acabo de publicar este meu comentário num texto do Doutor Diniz Freitas, professor catedrático da Faculdade de Medicina (Universidade de Coimbra), a alertar para o perigo evidente da “Festa do Avante”! 

Reproduzo esse meu comentário, com ligeiras alterações, por entender que o assunto é tão grave que todos somos poucos para chamar a atenção para uma questão de cidadania que é a defesa da vida humana. Nesse meu comentário, escrevi: 
“E assim em Portugal o PCP, não seguindo o exemplo do congénere francês, insiste em levar avante uma perigosa festa com a impassividade do Partido Socialista e da "geringonça". E o pior de tudo, é que o povo, o eterno sacrificado, de olhos vendados não os castiga por um evidente perigo podendo continuar a ir às urnas pondo o seu voto neste partido . Em boa verdade, o PCP nesta possível (?) eventualidade, tem a garantia de assistência, até de indivíduos de outros partidos ou apartidários porque festa é festa bastando tocar a charanga para o povo saltar de alegria, sem vergonha e sem pudor. E isto é tanto mais gravoso por se passar na zona de Lisboa em que o coronavírus tem feito vítimas em número preocupante. 
Acorda povo "que lavas no rio" para não seres responsável pela morte de qualquer um dos teus familiares mais velho ou jovem mais propenso a estas festarolas! Destino esta missiva para as irresponsáveis (se não puserem cobro a tal "crime") ministra da Saúde e respectiva directora geral, tendo o meu nome como remetente e o aval científico do Professor Diniz Freitas. Perceberam estas duas personagens estatais ou a sua cegueira não lhes permite ver um palmo à frente do nariz? 
Seja como for, não têm perdão possível como perdão não tem o Partido Socialista se as não demitir antes de darem o seu aval ou obrigá-las a voltarem atrás se já dado!”

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

A DINASTIA DOS REFORMADOS DA POLÍTICA

“A justiça não consiste em ser neutro entre o certo e o errado, 
mas em descobrir o certo e sustentá-lo, 
onde quer que ele se encontre, contra o errado”
(Theodore Roosevelt, antigo presidente dos Estados Unidos, 1858-1919).

Acabo de ler um artigo do “Correio da Manhã” (17/11/2016) que se deixasse passar em claro daria aso a  eu ser tido por tendencioso por criticar umas coisas e desculpar outras. 

Bem sei que há crimes que prescrevem e outros que estão à espera de uma ansiada prescrição numa espécie de, citando Fernando Pessoa, “cadáveres adiados” mantidos em cuidados de saúde intensivos com bons advogados à mesinha de cabeceira. Segundo o artigo supracitado, 
“há políticos a quem foi atribuída a subvenção vitalícia com menos de 40 anos (repito, 40 anos!), sendo possível, por esse cálculo, apurar desse benefício 75 políticos com idade igual ou inferior a 50 anos”. Refere ainda essa notícia que a “análise permite concluir que esse grupo de 75 políticos representa 22,5 % no universo total de 3.222 de beneficiários da subvenção mental vitalícia”. 
Tendo a maioria desses beneficiários requerido essa pensão quando já tinha mais de 51 anos de idade. Para evitar ser acusado de navegar em águas turvas de maledicência (do género ouvi dizer que tinham dito!) tive o cuidado de consultar o polígrafo da SIC que deu a notícia como provada preto no branco. 

Por outro lado, não querendo passar por crítico selectivo que se atira como gato esfaimado a inocentes ratos em determinadas situações e, em outras, afaga com ternura os ratos prevaricadores, transcrevo apenas, uns tantos exemplos , colhidos a eito, por serem tantos que se tornava impossível num texto desta natureza a listagem completa de requerentes desta mordomia - mas tendo o cuidado de eles pertencerem aos diversos espectros políticos - acumulável com outras pensões ou rendimento até 2005, ano em que foram extintas, mas sem efeitos retroactivos (aliás, a retroactividade das leis é um pau de dois bicos utilizado conforme as conveniências ocasionais do legislador).

Destarte, exemplifico com os nomes de Bagão Félix (CDS), Fernando Nogueira (PSD), José Sócrates (PS) e Jerónimo de Sousa (PCP). De entre eles Zita Seabra, digna de destaque, como personagem de proscénio de operariado em tempos do PCP, anos depois rendida ao charme da burguesia por num habilidoso golpe de rins se filiar no PSD. Ia a escrever “engajar” , mas emendei a tempo por ser uma palavra de tempos gloriosos de pretensiosos eruditos revolucionários que a traduziram do francês “engagé”, e copiada, anos depois pelos frelimistas.

Algumas destas personagens viveram a política, segundo apregoam aos sete ventos, e mais ventos houvesse, como uma doação ao mundo dos pobres e remediados, mas deitando, simultaneamente, o rabo de olho para o crescimento da sua conta bancária  que bem os recompensou de uma vida de sacrifício em prol da “ res publica”, embora, em boa verdade, fosse uma forma de enriquecimento dos seu largos e sem fundo bolsos de fatos de corte impecável ou "tailleurs" de custo inacessível à quase totalidade da população portuguesa.

E assim decorre a política portuguesa no final desta primeira vintena de anos do século XXI. Nada como estar “à la page” que eu nesta coisas de francesismos não gosto de os deixar em mãos alheias. Desunho-me pelo “dernier cri”!

AINDA SOBRE O ENSINO EM PORTUGAL

Quando o Primeiro Ministro, em 2018, afirmou que o nosso maior défice era o da Educação, fiquei a saber que a análise que ele fazia deste importantíssimo sector da vida nacional coincidia com a minha. Por isso afirmo uma vez mais que é preciso e urgente que o Ministério da Educação chame a si gente realmente capaz de proceder à necessária e profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino, a começar nos programas, passando pelo negócio dos livros e outros manuais adoptados e, a terminar, na conveniente formação e necessária dignificação dos professores e em tudo mais que lhes diga respeito, como seja, por exemplo, a libertação de todas as tarefas alheias à sua real missão de ensinar.

Em 2002 a UNESCO instituiu o Dia Mundial da Filosofia, no propósito de promover a reflexão sobre os acontecimentos actuais, fomentar o pensamento crítico, criativo e independente, contribuindo assim para a promoção da tolerância e da paz. 

Todo o ideal que aqui se pretende promover está contemplado no teórico e ilusório propósito oficial da nossa escolaridade obrigatória, agora de 12 anos. Basta ler os textos de alguns dos responsáveis pelo nosso ensino para verificar que assim é. Mas a verdade é que continuamos a ser um povo em que ainda são muitos os desinteressados pelos valores da ciência e da cultura, alienados pelo “jogo da bola” e em que muitos militantes e a maioria dos simpatizantes e, até mesmo, militantes dos partidos políticos desconhecem os fundamentos das respectivas ideologias. Basta vê-los, à entrada dos congressos, sem saberem responder às perguntas dos jornalistas sobre esta ou aquela noção. 

A Revolução de Abril, escancarou não só as portas, como os portões e as janelas, ao conhecimento dos mais variados temas das culturas científica, humanística e artística. Mas vivemos 46 anos, praticamente, de costas voltadas para estes valores, entretidos com futebol, lutas entre os aparelhos partidários, e três televisões, duas delas, privadas, essencialmente vocacionadas no lucro (o que não choca, como empresas que são e garantem trabalho a muita gente) e uma, pública, paga por todos nós que, no seu canal de maior audiência, “dá ao povo aquilo de que o povo gosta” e que, assim, não sai da vulgaridade em que cresceu, vive e vai despedir-se deste mundo, sem ter aproveitado o prazer de saber e com isso ter participado numa sociedade melhor.

Não obstante os belos propósitos, que eu diria falhos de convicção, de responsáveis pelo ensino como, por exemplo o que diz que a escolaridade obrigatória estabelece que um aluno, no final dos respectivos 12 anos, esteja: “munido de múltiplas literacias que lhe permitam analisar e questionar criticamente a realidade, avaliar e selecionar a informação, formular hipóteses e tomar decisões fundamentadas no seu dia a dia”. Grande e lamentável falhanço!

A verdade é que são muitos os adolescentes que pouco ou nada leram, que chegam à universidade falhos de todas as culturas, sem saberem escrever português. Os teóricos que aconselham os governos pretendem (ilusoriamente e estou em crer que sem convicção) que, cumprida a escolaridade obrigatória, o jovem: “seja livre, autónomo, responsável e consciente de si próprio e do mundo que o rodeia”.

Mas basta vê-los, irracionalizados, saltando e gritando, na Praça do Marquês de Pombal, aquando das vitórias deste ou daquele clube de futebol e constatar a elevada percentagem de abstenções nos actos eleitorais, para verificar a falência deste nobre propósito. Os programas oficiais estabelecem que, nas diferentes áreas de competências, os alunos aprendam a “colaborar em diferentes contextos comunicativos, de forma adequada e segura, utilizando diferentes tipos de ferramentas (analógicas e digitais), com base nas regras de conduta próprias de cada ambiente”.

Um belo e elevado propósito que não teve e continua a não ter realidade visível na média dos nossos cidadãos e cidadãs. O que salta à vista nos dias que correm e nesta geração de adolescentes, que teve e tem o privilégio de fruir da condição de estudante, é o uso obsessivo dos telemóveis, onde quer que estejam e seja a que horas forem. 

É, pois, preciso e urgente olhar para esta realidade do nosso ensino. É, pois, preciso e urgente que o Ministério da Educação chame a si gente realmente capaz de proceder à necessária e profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino, a começar nos programas, passando pelo negócio dos livros e outros manuais adoptados e, a terminar, na conveniente formação e necessária dignificação dos professores e em tudo mais que lhes diga respeito, como seja, por exemplo, a libertação de todas as tarefas alheias à sua real missão de ensinar.
A. Galopim de Carvalho

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

SOBRE O ENSINO DA GEOLOGIA EM PORTUGAL

Escrevi aqui, aquando do começo desta pandemia que a todos aflige, que devíamos aproveitar esta grave crise para parar e pensar. Na fatia de responsabilidades que me cabem como profissional e como cidadão, deixo aqui, nestas linhas, algo do que penso sobre o ensino da geologia em Portugal. 

De há muito que venho alertando, em textos escritos e em conversas públicas, para a relativamente pouca importância dada à Geologia nas nossas escolas do ensino básico e do secundário. Até parece que quem decide sobre o maior ou menor interesse das matérias curriculares, desconhece que a geologia e as tecnologias com ela relacionadas estão entre os principais pilares sobre os quais assentam a sociedade moderna, o progresso social e o bem-estar da humanidade.

Basta olhar em redor e ver que as grandes fontes de energia que usamos e de que dependemos e que a imensa maioria das estruturas, equipamentos, utensílios e objectos têm origem ou estão relacionados com rochas e ou minerais. Assim, não se compreende a relativamente pouca importância desta disciplina nos nossos “curricula” de ensino. A minha proposta para a necessária valorização do ensino desta disciplina, explicitada nas linhas que se seguem, visa, antes de mais, a sua discussão pelos eventuais interessados.

Para além do seu valor utilitário na procura, exploração e gestão racional das rochas ornamentais e industriais (gesso, sal-gema eoutras) e das matérias-primas minerais metálicas e não metálicas indispensáveis no mundo actual, a geologia ensina-nos, ainda, a encontrar águas subterrâneas e recursos energéticos, como são, entre outros, o carvão, o petróleo e o gás natural. 

Essencial no estudo dos solos e da natureza dos terrenos sobre os quais temos de implantar grandes obras de engenharia (pontes, barragens, aeroportos), a geologia dispõe dos conhecimentos necessários à defesa do ambiente natural, numa política de desenvolvimento sustentado, ensina a valorizar e preservar o nosso património mais antigo e, ainda, dá resposta a muitas preocupações de carácter filosófico.

Exceptuando aqueles que, por formação académica e profissional, possuem os indispensáveis conhecimentos deste interessante e útil ramo da ciência, a generalidade dos nossos concidadãos não conhece nem a natureza, nem a história do chão que pisa e no qual assentam as fundações da casa onde vive. Uns mais, outros menos, sabem algo do que aqui se passou desde o tempo em que o primeiro humano pisou estas terras, milhares de anos atrás, mas, muitíssimo pouco ou nada sabem do que aqui aconteceu há milhões e milhões de anos. 

Marcados por um ensino livresco, tantas vezes desinteressante, fastidioso e sem qualquer utilidade prática, são muitos os cidadãos deste nosso país que frequentaram disciplinas do âmbito da geologia e que, terminada esta fase das suas vidas, atiraram para o caixote do esquecimento o pouco que lhes foi ministrado, tantas vezes, sem entusiasmo nem beleza.

Por exemplo, os habitantes da cidade, que me acolheu há sete décadas, não sabem que o lioz, ou seja, o calcário, repleto de história, usado na cantaria e na estatuária de Lisboa e arredores, nasceu num mar de há pouco mais de 95 milhões de anos, muito pouco profundo e de águas mais quentes do que as que hoje banham as nossas praias no pino do verão. 

Não sabem que esta pedra resultou da acumulação de um tipo particular de moluscos cujas conchas, mais grossas do que as das ostras, deram origem às bancadas bem visíveis em alguns pontos da cidade (sob o aqueduto, na Av. Calouste Gulbenkian, por exemplo). Não sabem que o basalto das velhas calçadas da cidade brotou, como lava incandescente, de vulcões que aqui existiram há uns 70 milhões de anos, e qua a grande pedreira que o explorou está escondida no interior da conhecida Estufa Fria, no Parque Eduardo VII, nem sabem que o nome da freguesia de S. Sebastião da Pedreira alude a esss importante exploração do século XIX. Não imaginam que o Tejo já desaguou mais a Sul, por uma série de canais entrançados, numa larga planura entre, aproximadamente, a Caparica e a Aldeia do Meco.

E o mesmo se passa com a generalidade dos portugueses, governantes e governados, sejam eles juristas, economistas, médicos e enfermeiros, militares ou marinheiros, poetas, romancistas ou jornalistas, vendedores de automóveis ou jogadores de futebol. Não sabem que grande parte do Ribatejo e do Alto Alentejo foi uma área lacustre e pantanosa há poucas dezenas de milhões de anos onde entre outros viveram crocodilos e grandes animais (mastodontes) parecidos com elefantes. Ignoram que a bela Serra de Sintra, património mundial da humanidade, é o resultado de uma “bolha” de magma que, por pouco, não rebentou (há uns 85 milhões de anos). 

Ninguém lhes explicou como e quando surgiram e evoluíram as serras e os rios de Portugal, porque é que há granito em abundância no Centro e no Norte de Portugal, mármores em Estremoz, areias brancas em Coina e em Rio Maior, pirites no Alentejo e caulinos na Senhora da Hora. Desconhecem porque é que se fala do Barrocal algarvio, da “planície alentejana” e do “Norte montanhoso”.

Sabem dizer granito, basalto, mármore, calcário, xisto, barro, quartzo, feldspato e mica, petróleo, gás natural e carvão-de-pedra, mas ignoram a origem, a natureza e o significado destes materiais como documentos da longa história da Terra. Todos estes temas e muitos outros, bem explicados são susceptíveis de prender a atenção dos alunos. 

Páginas desta história, conservadas nas rochas, nos minerais e nos fósseis, estão à disposição dos professores e dos alunos nos terrenos que rodeiam as suas escolas. Conhecer esses terrenos e os processos geológicos aí envolvidos, desperta a curiosidade dos alunos, abrindo-lhes as portas não só ao conhecimento da sua região, em múltiplos domínios desta disciplina, constantes de um programa convenientemente elaborado.

Tais conhecimentos, mais sentidos e interiorizados do que, simplesmente, decorados, para debitar em provas de avaliação, conferem dimensão cultural à geologia, tornam os alunos mais receptivos ao conhecimento das respectivas matérias e formam cidadãos mais conscientes da sua posição na sociedade e defensores activos do nosso património natural. À semelhança de um velho pergaminho, de um achado arqueológico, ou de uma ruína, as rochas, com os seus minerais e os seus fósseis, são documentos que a geologia ensina a ler e a interpretar.

Se há matérias que têm características passíveis de serem ministradas numa política de regionalização do ensino e que muito conviria considerar, a maioria das incluídas na disciplina de Geologia satisfaz esta condição.

Portugal, de Norte a Sul e nas ilhas dispõe de uma variedade de terrenos que cobrem uma grande parte do tempo geológico, desde o Pré-câmbrico, com mil milhões de anos, aos tempos recentes. Temos, muito bem documentadas, as duas últimas grandes convulsões orogénicas. A Orogenia Varisca ou Hercínica, que aqui edificou parte da vasta e imponente cadeia de montanhas de há mais de 300 milhões de anos e hoje quase completamente arrasada pela erosão, e a Orogenia Alpina que, nas últimas dezenas de milhões de anos, entre outras manifestações, elevou o maciço da Serra da Estrela, à semelhança de uma tecla de piano que se levanta acima das outras, e dobrou o espectacular anticlinal tombado para Sul, representado pela serra da Arrábida.

Tudo isto para dizer que, no ensino da geologia, para além de um conjunto de bases gerais consideradas essenciais e comuns a todas as escolas do país, em especial, as do ensino secundário, deveriam ministrar um complemento criteriosamente escolhido sobre a geologia da região onde se inserem. Assim, e a título de exemplo, as escolas das regiões autónomas, aproveitando as condições especiais que a natureza lhes oferece, deveriam privilegiar o ensino da geologia própria das regiões vulcânicas, incluindo a geomorfologia, a petrografia, a mineralogia, a geotermia (nos Açores) e a sismicidade.

Do mesmo modo, o citado vulcanismo extinto, entre Lisboa e Mafra, a Serra da Arrábida, o maciço de Sintra, o mar tropical pouco profundo que aqui existiu, durante uma parte do período Cretácico, deveriam ser objecto de estudo dos alunos destas regiões. A orla mesocenozóica algarvia, a serra de Monchique, as pegadas de dinossáurios da Serra d’Aire, de Vale de Meios (Alcanede) e Cabo Espichel, os mármores de Estremoz, Borba e Vila Viçosa, as pirites alentejanas, a volframite da Panasqueira, os minerais de urânio das minas da Urgeiriça, o termalismo em Chaves, São Pedro do Sul e em outras localidades, os vestígios de glaciações deixados nas serras da Estrela e do Gerez, o complexo metamórfico e os granitos da foz do Douro, os “grés de Silves”, os quartzitos das Portas do Ródão e a espectacular e hoje mundialmente conhecida discordância angular da Praia do Telheiro (Vila do Bispo) deveriam constar dos programas das escolas das redondezas.

Não pretendo pronunciar-me em relação às outras disciplinas dos nossos ensinos básico e secundário, mas no que se refere à geologia, o nosso Ministério da Educação é uma tristeza cega e surda que nunca viu nem ouviu o que, desde há muito lhe temos vindo a mostrar e a dizer.

A Galopim de Carvalho