quinta-feira, 23 de julho de 2020

CRER OU NÃO CRER


No jornal I de hoje encontra-se uma minha  recensão ao livro "Em que crêem os que não crêem", do escritor e crítico Umberto Eco e do cardeal e teólogo jesuíta Carlo Maria Martini:

terça-feira, 21 de julho de 2020

PODE UM ALUNO NÃO FREQUENTAR A DISCIPLINA DE "CIDADANIA E DESENVOLVIMENTO"? - 1

Tem sido notícia o caso de um encarregado de educação que, alegando "objecção de consciência", não deixou que dois dos seus filhos frequentassem a disciplina de "Cidadania e Desenvolvimento", constante dos currículos de ensino básico e secundário. A decisão teve consequências, com o Ministério da Educação a obrigar os alunos a recuar dois anos no seu percurso escolar.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa fez uma análise do caso, informada e sensata, que vale a pena ler em dois textos:
João Costa, ordem para reprovar…
Dois chumbos para dois irmãos
Este texto continua aqui

0 SNS, A ADSE E O PANDEMÓNIO DO CORONA VÍRUS

“Calar-se equivale a deixar-se crer que se não julga nada e nada se deseja 
e, em certos casos, isto equivale, com efeito, a não desejar coisa alguma”
(Sophia de Mello Breyner). 

Um SNS de boa saúde foi sempre uma espinha cravada na garganta dos desígnios de uma saúde convencionada centrada em lucros à custa do Estado, com dinheiros dos nossos impostos que deviam ter sidos canalizados para manter saudável, ou mesmo revigorada, a menina dos olhos de António Arnaut, seu falecido criador. 

E porque é imperioso e urgente que algo mude na paz podre das grandes decisões adiadas, protestemos veementemente para que isso suceda e o SNS não seja apenas um opção dos nossos políticos e gente milionária, que a ele recorreram aflitos, como quem chama por Santa Bárbara em dias de trovoada, por a medicina convencionada ter estado de mãos atadas, pela sua visão de lucro, em prestar assistência a doentes atingidos pelo coronavírus em perigo letal, ainda que em muito menor escala, comparativamente com a peste bubónica, transmitida por bacilos, hoje vencidos com antibióticos, que grassou, no mundo e no nosso país tendo como origem a cidade do Porto (1899). 

Daqui o meu apelo,  tantas vezes quanto justifiquem  as causas justas (embora seja sabido que as leis nem sempre têm um suporte moral ou ético): Senhores governantes do Partido Socialista sejam, no mínimo, gratos aos médicos e enfermeiros que têm arriscado a vida por vós e por nós cidadãos anónimos deste país, porque todos somos filhos de Deus, por vezes, atingidos por demoníaca maldade dos que ocupam o poleiro não cumprindo a missão de um governo que se diz socialista na governação ainda que atrelado, num casamento de conveniência,  à chamada “geringonça”!

Este apelo faço-o, outrossim, ao Presidente da República , e a seus assessores, católico assumido que com grande mágoa minha num artigo de opinião (“Carta Aberta ao Presidente da República", “Diário as Beiras” 26/10/2017) que lhe enderecei sobre uma saga, de que darei conta lá mais para a frente, chamou a si o papel de Pôncio Pilatos, que antes de condenar Jesus à morte lavou as suas mãos na bacia da desresponsabilização.

E se da comparação me sirvo é porque a ADSE se fez prosélita de uma espécie de eutanásia desassistida por enviar idosos, por vezes, vivendo sem assistência familiar que lhes permita adaptar-se a um SNS em que a espera por uma consulta leva ou operação cirúrgica leva meses ou mesmo anos a chegar ou chegando mesmo depois do doente ter falecido. Em meu entendimento, Marcelo Rebelo de Sousa em vez de ser juiz de uma contenda que lhe enviei expressamente para avaliação, os serviços burocráticos da Presidência da República, fizeram-se dela simples mensageiros remetendo-a para a ADSE que era a raposa que tomava conta do galinheiro.

O núcleo duro dessa minha exposição assentava neste tripé:
1. Um relatório médico de minha mulher, emanado do Centro de Reabilitação Rovisco Pais, “atestou a necessidade de vigilância médica e tratamentos constantes por tetraplegia incompleta secundária e mielomalacia”.
2. Auferindo ela uma pequena pensão da Segurança Social (pouco mais de 200 euros mensais, após 12 anos contributivos) por salários auferidos numa instituição privada de que era sócia, em ofício, datado de 17/10/2016, é informada da inviabilização da respectiva manutenção de cônjuge titular, tendo como suporte a disposição do art.º 7 do Decreto-Lei 118/83, de Fevereiro, na redacção do Decreto Lei n.º 234/2005, de 30 de Dezembro. 
3.Embora reconhecendo a minha falta de conhecimento sobre direitos adquiridos em matéria tão complexa e controversa entre os próprios especialistas e, por outro lado, sentindo estar a ser vítima de espectativas goradas, numa altura da vida “com pesares que ralam na aridez e secura de uma desconsolada velhice”, em citação de Almeida Garrett, continuo a recusar-me cruzar os braços perante uma situação em que me ocorre o ditado popular: “Quem dá e tira ao inferno vai parar”! 

E esta situação é tanto mais insólita por vir acompanhado, num país de tradição cristã-judaica, pela abertura de inscrições posteriores (até então vedadas) de titulares de familiares com o estatuto de simples uniões de facto.

Fazendo fé de que “o homem livre é aquele que não receia ir até ao fim da sua razão “(Jules Renand), dada as circunstâncias actuais de um SNS sobrecarregado, e o declarado humanismo do Presidente da República, defendo (e desejava defendido por quem de direito) a remoção de uma legislação tida como inamovível Rochedo de Gibraltar pela ADSE, ainda que as respectivas tutelas directivas tenham mudado várias vezes de dirigentes e de rédeas de acção.

Por último, ”no uso da licença e da liberdade de quem pede senão justiça”, como foi hábito de vida do padre António Vieira, neste contencioso com a ADSE solicito aos senhores da política que saiam dos seus tamanquinhos e meditem neste meu apelo pondo as mãos na consciência, preocupados que parecem, unicamente, com os seus umbigos cheios de mordomias e reponham a situação de perdas de direitos usufruídos durante muito anos, por parte daqueles por que não têm idade de optarem por seguros privados.

Em regresso ao título deste meu texto, numa altura de crise de cuidados de saúde de qualidade e atempados que deprimem grandes estratos da população mais idosa, verdadeira doença silenciosa que deve ser encarada e combatida em cumprimento do sério aviso do médico psiquiatra brasileiro Augusto Cury: “Nunca desprezes as pessoas deprimidas. A depressão é o último estágio da dor humana”.

NA CONTINUAÇÃO DO TEXTO "ESPERA-SE QUE OS PROFESSORES LEIAM LIVROS?!"

A professora a que me referi em texto anterior (Espera-se que os professores leiam livros?!) disse, na entrevista mencionada, mais do aquilo que foi repetidamente notado e criticado nos últimos dias na internet: que não era muito de ler livros. 

Pergunto-me, portanto, porque é que essa declaração foi tornada "figura", ao mesmo tempo que outras ficaram em "fundo". Na verdade, algumas destas suscitam (ou deveriam suscitar) igual preocupação, não como expressão que uma professora faz do seu do pensamento particular, mas como expressão que uma professora faz do pensamento social, que parece assumir como seu.

Atentemos em algumas destas declarações:
1. Revela a família, fazendo algo que certas correntes pedagógicas muito presentes na formação de professores advogam: estabelece uma ligação entre o "professor como profissional" e o "professor como pessoa";
2. Defende a mudança: "ainda há muito para mudar", afirma, não especificando as razões, sentido e substância do que deve mudar. É a "lógica" da mudança pela mudança, presente na generalidade dos discursos que apresentam a educação do Século XXI;
3. Diz: "é preciso ver e ouvir os miúdos, trabalhar mais a partir dos contributos e expectativas que eles têm. E ir mais ao encontro daquilo que dizem (...), os relatos orais, o que são as suas próprias conceções". Pois, saiba-se que esta é uma das principais orientações/recomendações internacionais e nacionais para a construção do currículo escolar;
4. Redefine a função da aula e o papel do professor: "não gosto da expressão dar aulas e ensinar. Eu não dou aulas, ajudo os miúdos a quererem aprender, a quererem saber mais", o professor é "alguém que fala menos e ouve mais, que dá mais espaço aos alunos para falar". É isto mesmo que se vê escrito e reescrito nos documentos curriculares, em trabalhos académicos e em toda a comunicação social. Mais, usa a mesmíssima expressão dos políticos, empresários, profissionais e especialistas: "é um paradigma de aprendizagem e não de ensino" (não posso, aqui, deixar de sublinhar "paradigma");
5. Complementarmente, tem presente a "retórica do futuro", localizando-a no professor, que "será o que nunca foi, liberto de todas as amarras". Digo eu, incluindo o conhecimento reconhecido, devidamente validado, que permite ensinar: "um professor do futuro é um professor mais livre, sem receitas";
6. Põe a tónica na instrumentalidade da aprendizagem: aprender é para “escrever uma carta”, “tirar a carta [de condução]”. Retomo, no essencial, os comentários feitos ao tópico 4;
7. Emprega expressões informais ("vai dizer coisas supergiras") e na moda ("é inspirador"), no tal discurso da educação do Século XXI assumido pelos agentes acima enunciados. E usa o facebook e o instagram, chegando, portanto, facilmente, aos alunos e às famílias... bem como a todos esses agentes;
Além disso,
elogia muito o Ministério da Educação que diz "teve pouco tempo para construir uma resposta (...) pude sentir a verdadeira intenção. Que era dar resposta a esses miúdos e essas famílias que não tinham escola e cujo contacto era mais difícil. Foi a que se conseguiu dar, e foi válida. A resposta foi de coração". 
E, como nesse discurso, denota, aparentemente sem consciência, contradições evidentes:
Diz "não sou uma leitora", mas também diz que está a tirar uma pós-graduação em "Livro infantil"; 
Diz, “não gosto da expressão dar aulas e ensinar”, mas também diz que é preciso "melhorar as metodologias de trabalho nas aulas".
Reforço a minha ideia: o "caso" da professora que tanto indignou o país em virtude de uma das várias declarações que fez no espaço mediático, está longe de ser um caso isolado, antes traduz o modo de pensar a educação que dá forma à escola pública. Ela "apenas" o assimilou, suponho que acriticamente, fazendo-o seu. É isto que acontece com tantos, tantos, tantos professores. 

Marcelo Gleiser - Matéria e Energia Escuras

segunda-feira, 20 de julho de 2020

ESPERA-SE QUE OS PROFESSORES LEIAM LIVROS?!

A professora que iniciou o #estudoemcasa, familiarmente designado por "nova telescola", tornou-se uma estrela nacional da noite para o dia e, por isso mesmo, digna de mais do que uns breves minutos de fama.

Ouviu-se falar muito dela, no imediato, quando alguém contou as dezenas de "ok" que dizia numa "aula" e, depois, quando foi divulgado o "share" que conseguiu, superior ao de uma "campeã de audiências" (ver, por exemplo aqui). Seguiu-se o que é normal e natural na comunicação social, mesmo na mais séria e crítica: foi, por exemplo, convidada para um programa de televisão do tipo "comédia-intelectual" e, quando já parecia esquecida (não obstante o seu considerável "rasto" na internet), três jornais "de referência" dedicaram-lhe atenção especial (Expresso, Público e Jornal de Letras). A um deles deu uma longa entrevista.

Disse, nessa entrevista, entre várias outras coisas admiráveis, que nunca foi de ler livros, mas que está a tentar ler e que até está a tirar uma pós-graduação em "Livro infantil". Seguiu-se, já se vê, o eco  online, nada abonatório (por exemplo, aqui aqui), que continuou nos "comentários":
Como é possível uma professora - melhor, uma professora das primeiras letras e das primeiras leituras - declarar, com toda a candura, sem medir as consequências, que nunca foi de ler livros?!; 
Como é possível que alguém se torne professor, lhe seja passado o diploma, não sendo muito de ler livros?! 
Entendo as interrogações e o tom carregado com que foram feitas. Como poderia não as entender?!

Mas, tenho a dizer, em favor da professora em causa, que a sua declaração revela uma característica desde há muito central no perfil docente e nada me faz pensar que se vai atenuar, bem pelo contrário, julgo que se irá acentuar: ser aplicadora, animadora, dinamizadora... de "actividades pedagógicas" preparadas por outrem, paupérrimas sob o ponto de vista da estimulação intelectual e da construção do ser. Isso vê-se bem nas suas "aulas" mas também na "aulas" de outros professores do dito contexto.

Esperará a sociedade, agora tão indignada, que um professor (ou, como se tende a dizer, "um profissional de ensino") leia livros?! Lembro que tem sido a própria sociedade, através das suas diversas instituições, a retirar-lhe esse direito e esse dever. Desde que cuidem dos miúdos, que os tornem "felizes" e vão legitimando discretamente as passagens de ano, nada mais se quer deles. Falo, evidente e lamentavelmente, da escola pública.

Digo em continuação, e do que me apercebo, a excepção é um professor que lê.

E se um professor não lê, porque é que não lê? 
Porque a leitura de livros, sobretudo dos que se incluem na categoria de "literatura", tem estado (e continua) afastada de todos os níveis de ensino, incluindo o superior e, neste nível, mesmo na formação de professores. Ler esses livros não parece ser importante pois de útil nada têm, e, explicam os iluminados do "politicamente correcto", podem até ser perigosos, acentuar estereótipos, criar mal-estar pessoal, etc.; 
Porque "prescrever" obras como leitura obrigatória (e, mesmo, facultativa), ou seja, levar a ler, como explica Daniel Pennac, tem sido catalogado como heresia: cada um deve ler o que for do seu interesse muito particular, o que tiver a ver com o seu gosto, o seu ethos, a sua cultura... E isto é válido para todos, alunos e professores 
Porque os manuais e os seus muitos anexos e cadernos (em geral redigidos por professores e para professores) têm lá os recortes dos livros, com a interpretação "certa", as perguntas (e, evidentemente, as respostas). E, se isso não for suficiente, há à venda apontamentos e resumos, escritos e também em audio, conforme dê mais jeito ao "consumidor". Nem alunos nem professores precisam de ler o que quer que seja, uns para ensinar e outros para aprender; 
Porque a leitura requer entrega e, antes disso, fluência e compreensão. E isto depende do ensino/formação e implica tempo, muito tempo de aprendizagem/preparação... onde a fruição também tem de marcar presença. Ora, isto não cabe na lógica da eficácia e da eficiência, de preparação do "cidadão de sucesso" que há-de funcionar como "capital humano" num mercado de trabalho marcado pela competição produtiva; 
Porque, em suma, e para não me alongar mais, mesmo os professores que são (ou foram) leitores têm no novo paradigma da "Educação do futuro", do "Século XXI" a maior dificuldade em encontrar "cabeça" para ler, para ler como leitores, entre as mil tarefas burocráticas, inúteis e estupidificantes que lhes são atribuídas. E a leitura, tal como se aprende, também se desaprende; conforme se lhe ganha o gosto, também se lhe perde o gosto.
Não sei que "volta" podemos dar, como sociedade, ao "estado a que chegámos" em termos de formação de professores e de ingresso no ensino, de orientações e directrizes curriculares da tutela, de organização da aprendizagem na escola, mas se não achamos razoável a declaração da professora, teremos de pensar, de modo demorado e empenhado, em alguma "volta" consistente.

Isto é distinto de nos limitarmos a apontar em público este ou aquele professor, de que logo nos esquecemos para, passados uns dias, nos focarmos noutro e, depois, noutro. Entretemo-nos, é certo, com cada caso "chocante", mas não chegamos ao cerne da questão. É a esse cerne que precisamos de chegar.

sábado, 18 de julho de 2020

HOMENAGEM DA FEDERAÇÃO PORTUGUESA DE CULTURISMO E FITNESS

“A falsa modéstia é o último requinte  da vaidade”
(Jean de La Bruyère, moralista francês, 1645-1696).

Embora ciente da "vox populi" de que elogio em boca própria é vilipêndio, ouso transcrever o texto da supracitada homenagem que me foi prestada ontem por entender que elogio em boca alheia é razão de orgulho e o seu silenciar por parte do homenageado é prova e de uma falsa modéstia ou, pior do que isso, de grande ingratidão.

Transcrevo, portanto, esse texto com ligeiros acrescentos e umas tantas linhas finais de adenda em itálico da minha lavra para dar uns pós de razão a  possíveis detractores da minha possível imodéstia ao serviço de uma profissão que escolhi por paixão e exerço com todo o fervor e respeito que ela merece,  pese embora as pedras que tenho encontrado num caminho pétreo de uma falsa e perigosa intelectualidade com fundamento no cartesianismo - "res cogitans"/"res extensa" - que ousa ver neste dualismo, por um lado,  uma  formação de gente do mundo da cultura e da ciência e , por outro lado, uma usina de hercúleos mentecaptos.

“Referência incontornável, do ensino do Culturismo o Prof. Rui Baptista. Aqui o homenageamos. Evocamo-lo a vários títulos. Mas, sobretudo, em nome das gerações que formou. Foi uma das figuras mais carismáticas do Desporto Lusófono, quer como professor, quer como dirigente desportivo, quer, ainda, como comunicador dos ideais que sempre defendeu com marcante empenho e superior conhecimento de causa, seja através de escritos jornalísticos, de conferencias, seja, ainda, como praticante de pesos e halteres (Culturismo) em que se sagrou campeão de Moçambique, na categoria de médios.

Chegou RB a Lourenço Marques em 1957 – depois de formado pelo INEF, e ter cumprido o serviço militar como oficial miliciano, contratado como professor de Educação Física da “Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque”, tendo desenvolvido, para além dessa docência, uma notável acção no desporto local e uma intensa actividade no campo da Ginástica.

Entretanto, teve, também, uma papel  importante no campo literário, através da publicação de cinco livros, dois deles titulados, um "Educação Física Ciência ao Serviço da Saúde Pública", outro "Os Pesos e Halteres, a Função Cardiopulmonar e o Doutor Cooper". Desempenhou a função de presidente da Secção de Ciências da Sociedade de Estudos de Moçambique, onde proferiu duas conferências no âmbito da Educação Física, tendo entrado, assim, o Desporto e a Educação Física pela porta grande dessa notável instituição cultural e científica.

Em 1975 fez parte do grande contingente de Portugueses que voltou para Portugal. Foi colocado em Coimbra, como professor efectivo de Educação Física do Liceu D. João III. Foi também docente do ISEF da Universidade do Porto e docente da Faculdade de Educação Física e Ciências do Desporto da Universidade de Coimbra. Na cidade das margens do Mondego continuou a desenvolver uma intensa actividade através da realização de  conferências e palestras, por exemplo, nos Rotários, na Escola do Magistério Primário, na Delegação da Direcção Geral de Desportos e na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (Universidade de Coimbra), a convite do seu docente Professor Doutor Manuel Viegas de Abreu. Tem publicado alguns artigos em revistas da especialidade e quase um milhar de artigos de opinião nos jornais “Diário de Coimbra”, “Jornal as Beiras”. “Correio da Manhã”, “O Primeiro de Janeiro” e  “Público”. É co-autor do blogue científico/cultural "De Rerum Natura". No dirigismo desportivo foi presidente da Associação Provincial de Halterofilia de Moçambique (1971),e vice-presidente das Associações Provinciais de Moçambique  de Natação  (1963) e de Voleibol (1964). Desempenhou durante vários anos funções sindicais docentes (presidente de Assembleia Geral do SNPL).
“Depois da sua acção no campo da reabilitação ter tido o reconhecimento do mais notável cirurgião ortopedista da África do Sul, (país tido no pódio da Medicina Mundial), David Roux, que enviava para os seus cuidados de Reabilitação, em Lourenço Marques, pacientes que o consultavam em Joanesburgo, após 25 de Abril, veio viver para Coimbra onde prosseguiu  com esta actividade ( de que fora docente na Faculdade de Ciências e do Desporto da Universidade do Porto) tendo continuado com ela, durante breves anos, através de convenções assinadas com diversos organismos públicos e privados. Mas isto são contas de um outro rosário de prepotências de políticos de um país em que a palavra dada não é honrada!”

quinta-feira, 16 de julho de 2020

O SENHOR BORGES


Mais uma recensão minha saiu no jornal I de hoje, desta vez sobre Jorge Luís Borges (na foto) relembrado por Alberto Manguel:

CRENÇAS MÁGICAS

Novo artigo de Nuno Pereira (psiquiatra):

    As crenças constituem juízos não conscientes com raízes em experiências anteriores, os quais permanecem latentes e, quando ativados por acontecimentos críticos, se transformam, por processos cognitivos (normalmente de modo deficiente), em juízos conscientes. Estes, por sua vez, determinam emoções, que fazem emergir novos juízos, em círculo vicioso. As crenças mágicas, nomeadamente em poderes paranormais ou virtudes curativas, assentam na necessidade de conhecer e controlar uma realidade adversa. Ao tornarem “inteligíveis” fenómenos misteriosos, isto é, darem sentido ao desconhecido, exercem por vezes função adaptativa com efeitos tranquilizadores e de bem-estar. Outras vezes, quando são interpretações de poder maléfico ou carácter nocivo, podem provocar ansiedade ou mesmo terror. Apesar do avanço científico e tecnológico da sociedade atual, persistem de modo significativo, não só na infância e em algumas perturbações mentais, bem como em pessoas ditas “normais”, até com formação superior. Fazem parte do conteúdo do pensamento primitivo que envolve distorções cognitivas correspondentes a erros de raciocínio, que “turvam” a visão da realidade.

    Para o crente, segundo o seu ponto de vista, as suas crenças são verdadeiras, o que as torna praticamente insuscetíveis de correção pela argumentação lógica, quando reforçadas ao longo dos anos quer por desvio confirmatório, como tendência a selecionar informações favoráveis e a ignorar as desfavoráveis, quer por apelos à autoridade, à maioria e também à falta de provas da inexistência de forças ocultas, cabendo a prova da sua existência ao próprio crente.

    De facto, acontecem por vezes fenómenos estranhos e curas extraordinárias, mas atribuíveis a causas diferentes das supostas pelo crente. Promover o pensamento crítico, que privilegia o método científico, permite focar primeiro na busca de explicações naturais antes de recorrer às sobrenaturais. Para tal é útil ter algumas noções, por um lado, de ilusionismo, que consegue reproduzir todos os fenómenos alegadamente paranormais, e, por outro lado, de efeito placebo, sugestão e remissão espontânea de certas doenças, motivos por que “funcionam” às vezes as denominadas “medicinas não convencionais”.

    O ilusionismo, através de artefactos, prestidigitação, ventriloquia e mentalismo, oferece as explicações necessárias para desvendar alegados poderes de telepatia, clarividência, psicocinese, levitação, materializações, curas psíquicas, comunicação mediúnica e leituras psíquicas. Por exemplo, para o sucesso das putativas leituras psíquicas, como astrologia, cartomancia, quiromancia, clarividência, comunicação mediúnica, contribui, em grande parte, a técnica de “leitura fria” do mentalismo para criar a ilusão de conhecer a personalidade, o passado e o futuro duma pessoa, com utilização ardilosa de frases declarativas vagas e gerais e de outras em tom declarativo, mas interrogativas, imperativas e exclamativas, nem verdadeiras nem falsas. Todas estas frases, formuladas de modo ambíguo, levam a pessoa a admitir como verdadeiras e exatas a descrição da personalidade e a visão do passado e do futuro por efeito de validação pessoal combinada com desvio confirmatório, erro cognitivo em que se recordam os palpites certos e se esquecem os errados.

    O placebo (agente desprovido de ação terapêutica) produz efeitos inespecíficos resultantes das crenças do doente acerca do seu poder curativo. Os ensaios clínicos comparam grupos experimentais com grupos de controlo (que recebem placebo) para verificar a eficácia real do tratamento, a qual se restringe à resposta terapêutica subtraída do efeito placebo. Ora, os tratamentos das “medicinas alternativas” (caso ilustrativo dos produtos homeopáticos) não apresentam provas de eficácia superior ao placebo e os seus resultados devem-se também à sugestão e à evolução natural de certas doenças, com exceção da eficácia devida às propriedades intrínsecas dalguns tratamentos naturais já conhecidos da medicina. Mesmo falsos diagnósticos, baseados em teorias exóticas, têm efeito placebo com melhoria do estado do doente, mas possíveis consequências deletérias pelo atraso no adequado tratamento da verdadeira doença. Obviamente que a regulamentação das “medicinas não convencionais” não confere validade científica.

    Perante a alegação de poderes paranormais ou de virtudes curativas exigem-se provas inequívocas, mediante ensaios controlados, aleatorizados e duplamente cegos, com revisões sistemáticas por grupos de investigação independentes. Reduzir a credulidade implica a procura de explicações racionais através da experiência. Para desenvolver o pensamento crítico, na escola desde a adolescência, não basta conhecer as descobertas da ciência e realizar experiências de comprovação, torna-se necessário aprender a distinguir a ciência das suas imitações.

                    Nuno Pereira (psiquiatra)


quarta-feira, 15 de julho de 2020

A APATIA POLÍTICA NESTE CANTINHO EUROPEU

Perante a apatia nacional, mais ou menos generalizada, sobre o que se passa na vida política portuguesa, admito a minha quota-parte  neste “status quo” embora não pertença à legião dos que se demitem definitivamente, sem fé nem esperança,  das suas responsabilidade de portuguesismo (palavra quase sem sentido actualmente).

Deste modo, naturais de países sem estarem em estado de guerra entram em Portugal com o estatuto de refugiados sendo instalados em hotéis e pensões, com subvenções económicas para vícios burgueses pagando em troca, sem generalizar, desacatos públicos. Em contrapartida, uma pequena legião de nacionais, de alma e coração, sem abrigo, dormem na rua e a passam fome. Vá lá gente entender os nossos caritativos governantes de olhos fechados ao que se passa à sua volta  sonhando serem santificados como Santa Teresa de Calcutá. Em resumo, a caridade portuguesa deve passar por assistir prioritariamente por assistência aos seus muito pobres que  dormem ao relento acompanhados dos seus cães de estimação, verdadeiros e fiéis amigos, repartindo as suas migalhas, quando as há, com eles ou mesmo deixando de comer se necessário.

Quando se forma um partido político, sem ser para dar emprego a juventudes inúteis que se entretêm em festanças de multidões em disseminar o coronavírus, deve ele atender, isso sim,   à miséria mais desgraçada,  a melhorar a vida dos remediados, a não enriquecer ainda mais os milionários deste país com fortunas multimilionárias nascidas à vista de  olhos cegos ou simplesmente míopes, quais  tortulhos germinados em terrenos húmidos de desavergonha nacional. Pouca ou nenhuma consolação nos deve merecer o argumento de  que isto  se passa, também,  no resto do nosso globo terrestre. Cuidemos, portanto e preferencialmente,  do nosso cantinho mais ocidental de uma Europa em decadência!

Por haver um ditado que nos avisa “que gato escaldado de água quente tem medo”, caem em descrédito partidos políticos criados para dar trabalho bem remunerado a quem na vida pouco ou nada sabe fazer, e por outro lado, nesta minha mania de citar anexins, trago à colação estoutro: “Quem fala no barco é porque quer embarcar”. Não, não é este o meu caso por uma questão de dignidade pessoal de que não abdico, nem por dinheiro que queima as mãos, nem por honrarias desonrosas. 

Mas mesmo que eu fosse um dos numerosos mentirosos que juram a pés juntos não estarem ao serviço da política para dela se servirem, a minha condição de velho de 89 anos de idade não me permitiria tal devaneio deixando-me apenas a possibilidade de emitir opiniões de cidadania ao serviço da "polis". Ora, dessa posição não abdico por viver num país em que é permitido o direito de liberdade de expressão, tendo a obrigação de honrar a memória de meu Avô materno, José Pereira da Silva, presidente da Câmara Municipal do Porto (princípios da década vinte do século passado), deportado político para Angola, por ter participado na fracassada  Revolução do Porto (Fevereiro de 1927), onde viria a falecer  em  na cidade angolana de Benguela.

Devo este esclarecimento público, essencialmente,  a meus filhos, netos e um bisneto por desejar ser recordado por eles como simples cidadão herdeiro de uma genética impoluta de que tenho razão de me orgulhar. Aliás. como desejo ser recordado (eles dirão se sim ou não, digam-no agora ou calem-se para sempre!) por meus alunos de uma docência de várias dezenas de anos maioritariamente na saudosa Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque de Lourenço Marques, durante 18 anos.

De igual modo, devo, ainda, aos meus familiares supracitados,   a notícia do passado do seu ascendente chegado,  meu sogro, major médico (falecido no posto de tenente coronel) Jerónimo  Carlos da Silveira, Comendador da Ordem Militar de Aviz e Cavaleio da Ordem Militar de  Cristo.

Teias que, para além de fontes documentais, a memória de um Antigo Império, teceu em mim e nelas me enreda enquanto a minha memória permitir e desejo perpetuadas nas minhas gerações actuais e vindouras!

terça-feira, 14 de julho de 2020

Ildeu de Castro Moreira - Ciência e Ética

O fim do El Dorado

O programa da SIC "Original é a Cultura" em que participo com Rui Vieira Nery, Dulce Maria Cardoso e Cristina Ovídio é emitido todas as sextas-feiras depois da uma da manhã. O último - ver em baixo o respectivo vídeo - foi sobre a queda do turismo em Portugal. O próximo será sobre Amália, no centenário dela.

SEM IDADE


Minha última recensão no jornal I sobre o último livro de Maria João Valente Rosa, "Um tempo sem idades" (há uma recensão minha todas as quintas-feira; estão todas on-line):

As lombrigas

Novo texto, curto mas grosso, de Santana-Maia Leonardo no jornal As Beiras:

Quanto mais porca for a política, mais atraente se torna para as lombrigas. É precisamente essa a razão por que os partidos do sistema estão hoje infestados de lombrigas. Ou seja, desses parasitas de marca branca, pequeninos, moles, viscosos e escorregadios, que necessitam de um hospedeiro para viver e que mudam de hospedeiro com muita facilidade. 

Já repararam que, quanto mais suspeitas de corrupção incidem sobre um autarca ou um governante, mais votos o seu partido tem? E sabem porquê? Porque as lombrigas têm direito a voto, reproduzem-se com extrema facilidade no meio da porcaria e ainda têm o condão de afastar das mesas de voto e dos partidos políticos aquelas pessoas que Sá de Miranda tão bem definiu: “Homem de um só parecer, d’um só rosto, uma só fé, d’antes quebrar, que torcer”. 

Mas os partidos do sistema que não pensem que podem sobreviver muito tempo infestados de lombrigas… Não façam a desparasitação rapidamente e vão ver o que lhes sucede.

Santana-Maia Leonardo 

domingo, 12 de julho de 2020

"Com o silêncio de uns e a cumplicidade de outros", desaparece a Filosofia do currículo escolar

Quando, nas minhas aulas, refiro  a "atitude educativa de Sócrates" e o "método socrático", muitos dos meus alunos, de diversas licenciaturas que aprendem Educação, dizem-me que mal estudaram Sócrates no ensino secundário, que não leram a "Alegoria da Caverna" de Platão.

Na verdade este texto não consta no "Programa de Filosofia dos 10.º e 11.º anos", nem no documento curricular mais recente "Aprendizagens Essenciais", mas nada impede um professor de Filosofia de apresentar às suas turmas um texto que é, pelo menos, fundador do pensamento filosófico e educativo. Conheço quem o faça e se recuse a deixar de o fazer. Isto porque reconhecem aos textos clássicos uma potencialidade cognitiva que se mantém viva e inultrapassada.

Surgiu-me esta nota  a propósito de um texto publicado no jornal "Observador", assinado por Orlindo Farinha, professor do Ensino Secundário. Diz ele, presumo que surpreendido como eu:
(...) supunha que a Filosofia envolvia a capacidade de compreensão de textos complexos, como são os produzidos por algumas das mentes mais profundas e interessantes que a civilização ocidental criou e colaboraram para a definir tal como ela é; o confronto estimulante entre as teses que esses textos exibem; o entendimento dos argumentos e das razões que as sustentam; e, finalmente, o que tudo isto pode contribuir para a formação de pessoas que querem ter a audácia de pensar pela sua própria cabeça. 
Este último ponto sempre me pareceu o escopo final de todos os outros. 
(...) a compreensão das teses, o domínio dos argumentos e a capacidade de elaboração autónoma de um pensamento (...) está sempre marcado pela linguagem e pelo seu domínio próprio. 
Por isso, a Filosofia é linguagem e discurso escrito (malgré Sócrates) e é neles que tudo se resolve. 
O ensino da Filosofia tem sido, assim, confronto com discursos e produção de discursos ou, pelo menos e no caso que aqui nos ocupa, tentativa de neste sentido formar os alunos. 
Nem vale a pena mencionar o sentido universal e transversal que o ensino da Filosofia poderia, nesta concepção, suscitar, qualquer que seja o domínio em que se possa pensar. Nomeadamente, e sobretudo, o da formação de uma personalidade integral e crítica e livre. 
Mais uma vez, parece que estava errado. 
Tenho usado até aqui o tempo passado. Isto porque o domínio “escolar” da Filosofia tem vindo a ser tomado por umas soi disantes mentes analíticas, mas que são, sobretudo, tristemente dogmáticas e que se manifestam agora em apoteose no exame deste ano e respectivos critérios de correcção (...).
Podem esconder-se por detrás das tais “Aprendizagens Essenciais”, do sentido analítico do pensamento filosófico, encher a boca com palavras mágicas como formação para a cidadania, sentido crítico e promoção da autonomia… 
Para mim, tudo isto não passa de mais uma triste fraude a acrescentar a muitas outras na área da Educação, algumas até bem mais graves, mas quase todas elas cobertas com o silêncio de uns e a cumplicidade de outros (...).

Uma reflexão sobre o afastamento que é feito na Escola dos livros “perigosos, poderosos, desapiedados”.

Pela importância da reflexão que proporciona para a educação escolar, recuperamos um texto de opinião saído ontem no jornal As Beiras com o título Para que servem os livros difíceis, assinado por Rui Bebiano, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (Maria Helena Damião e Isaltina Martins).
Nunca se leu tanto como hoje. A afirmação poderá parecer estranha a quem da leitura valorize a qualidade e a profundidade, mas lê-se de facto muito mais em quantidade e em regularidade. 
A prática da leitura sistemática aumenta continuamente, se nela incluirmos as necessidades práticas da vida quotidiana, das organizações e do mundo do trabalho, a intervenção da publicidade ou da imprensa light e desportiva, e sobretudo a articulação com a televisão, a comunicação móvel e a Internet, com os seus largos milhões de sites e a omnipresença do email e das redes sociais. 
Já a leitura mais densa, crítica e reflexiva, apoiada na literatura de ficção e de não-ficção, para além da escrita académica e da produção ensaística, parecem, de facto, enfrentar um bloqueio. 
O império do zapping, associado à estridência do sensacionalismo e ao destaque dado à informação superficial, por vezes nada fidedigna, determinam um desvio que afeta até espaços onde há poucos anos seriam impensáveis, com ecos no próprio sistema de ensino, inclusive no universitário, onde os hábitos de leitura, se excetuarmos os níveis de formação mais elevados, são cada vez mais escassos e simplistas. 
Esta situação tem imposto, no campo da escrita, a perigosa tentação do facilitismo. 
Tornou-se regra produzir livros e artigos curtos e breves, cortar alguns para expurgar partes mais complexas ou julgadas incómodas, usar uma linguagem cada vez mais rasa, fácil e previsível, relegar para a obscuridade tudo o que possa escapar a este padrão sem rasgo ou ousadia, e quem o não faz enfrenta dificuldades para publicar. 
Com o desaparecimento dos suplementos ou das páginas literárias dos jornais de referência, a escassa crítica literária que se pratica em Portugal acaba por deixar espaço, em termos de divulgação e impacto, quase apenas para os livros que obedecem a um padrão de gosto reduzido ao menor denominador comum ou que remetem para as opções dominantes em termos políticos e ideológicos, aos quais se junta o destaque concedido a “autores” conhecidos principalmente pelo seu rosto surgir com regularidade nos ecrãs da televisão, ainda que sem experiência alguma nesse campo. 
Todavia, existe o outro lado da palavra, onde habitam os livros “perigosos, poderosos, desapiedados”, aqueles que perturbam e que jamais nos deixam indiferentes. 
Eles são “difíceis”, na medida em que não nos deixam passivos, em que não se limitam a distrair-nos, antes nos forçando a interagir e requerendo sempre algum esforço. Existem até os que causam medo, por o seu conteúdo levar a que questionemos verdades sobre as quais assentámos a compreensão do mundo. 
“A Paixão do Jovem Werther”, de Goethe, publicado em 1774, foi múltiplas vezes acusado de levar aqueles que o liam ao suicídio, apenas porque integra uma tentativa romântica de compreensão dos processos que conduzem ao desespero. 
Obras fundadoras do pensamento contemporâneo, como “O Bom Selvagem”, de Rousseau, “Cândido”, de Voltaire, ou “A Origem das Espécies”, de Darwin, foram repetidamente apontados como perigosos, por retificarem o modo de o ser humano repensar a sua centralidade no mundo. 
“Ulisses”, de Joyce, ou “O Livro do Desassossego”, de Pessoa, têm sido classificados como muito perturbantes. Já vi mesmo um dos mais embriagadores livros de história que pude ler, “Sussurros”, de Orlando Figes, vigoroso e documentado testemunho sobre a vida quotidiana na União Soviética entre os anos 20 e 50, ser rejeitado por poder levar quem o lê, como escutei a alguém que temia ter de rever algumas convicções, “a perder a fé no comunismo”. 
Lembra o escritor e bibliómano argentino Alberto Manguel, em “A Biblioteca à Noite”, publicado em 2006 e entretanto editado pela Tinta da China, que “os livros podem não alterar o nosso sofrimento, os livros podem não nos proteger do mal, os livros podem não nos dizer o que é bom e o que é belo, e por certo que não nos salvam do destino comum da cova, mas garantem-nos uma miríade de possibilidades: a possibilidade da mudança, a possibilidade da iluminação”. 
E estas são-nos principalmente doadas por aqueles julgados difíceis. Os que não nos deixam adormecer e por isso podem tornar-nos mais capazes, mais atentos e mais fortes.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Defender o Herbário da Universidade de Coimbra

Ontem circulou a notícia, no website da Universidade de Coimbra, de que o Herbário da Universidade poderia fechar. Em causa está a falta de financiamento da Universidade que impede a contratação de funcionários. Como todos sabemos, sem pessoas não se faz trabalho e como consequência os serviços fecham. Entretanto a notícia foi retirada do site, mas a mensagem que lá estava foi guardada pelos internautas, fazendo jus ao lema "o que vai para a internet, fica na internet". A notícia pode ser encontrada em baixo: 


Se isto vier a acontecer é lamentável. O herbário tem várias coleções de plantas, algas, fungos e líquenes com cerca de 800 mil exemplares de todo o mundo, incluindo coleções de frutos e sementes. O que está em causa é um património científico importantíssimo e que ainda hoje é utilizado para o estudo de várias disciplinas, da botânica à ecologia, passando pela genética até à evolução. 

Numa altura em que temas como a preservação da biodiversidade e o combate às alterações climáticas são tão falados e estão no centro da política global e da investigação académica, não se entende como é que uma importante Universidade do nosso país está pronta a desistir de um espólio central para a investigação nessas áreas. 

Mas há mais: para além do material do Herbário ser importante para a pesquisa de várias disciplinas e ser consultado por diversos investigadores - que é uma aplicação prática e que gera resultados (produção de conhecimento e publicações científicas) - há ainda o valor patrimonial que é intrínseco às próprias coleções e que são património de todos nós. 

Sejamos intransigentes: há que defender o Herbário da Universidade de Coimbra!

terça-feira, 7 de julho de 2020

O PORTUGAL QUE AINDA SOMOS

A propósito do momento político que estamos a viver pergunto: como é que a democracia consente o crescimento de um poder que a irá destruir?

O protagonismo que, em especial, as televisões estão a prestar ao partido neonazi (a cumprir muito bem o seu papel) está a dar-lhe, precisamente, o que ele pretende: crescer. A resposta só pode ser uma: elevar o nível cultural e civilizacional dos cidadãos.
“Fomentar o pensamento crítico, criativo e independente, contribuindo assim para a promoção da tolerância e da paz”, 
está contemplado no teórico e ilusório propósito oficial da nossa escolaridade obrigatória, agora de 12 anos. Basta ler os textos de alguns dos responsáveis pelo nosso ensino para verificar que assim é. 

A verdade é que continuamos a ser um povo em que ainda são muitos os desinteressados pelos valores da ciência e da cultura, alienados pelo “jogo da bola” e outro venenos, e em que muitos militantes e a maioria dos simpatizantes dos partidos políticos desconhecem os fundamentos das respectivas ideologias. Basta, aquando dos congressos partidários, estar à entrada e entrevistar os participantes que vão chegando.

A Revolução de Abril, escancarou as portas, os portões e as janelas ao conhecimento dos mais variados temas das culturas científica, humanística e artística. Mas a grande maioria do povo (a maioria que dá vitórias em eleições) continua a viver de costas voltadas para estes valores, entretida com futebol e três televisões que nos entram portas adentro, duas delas, privadas, essencialmente vocacionadas no lucro (o que não choca, como empresas que são e garantem trabalho a muita gente) e uma, pública, paga por todos nós, que “dá ao povo aquilo de que o povo gosta” e que, assim, não sai da incultura em que cresceu, vive e vai despedir-se deste mundo.

É de justiça dizer que não é o que se passa com a RTP2, com propostas muito louváveis, mas que, infelizmente, não conseguem captar audiências. Não obstante os belos propósitos, que eu diria falhos de convicção, de responsáveis pelo ensino como, por exemplo o que diz que “a escolaridade obrigatória estabelece que um aluno, no final dos respectivos 12 anos, esteja 
“munido de múltiplas literacias que lhe permitam analisar e questionar criticamente a realidade, avaliar e selecionar a informação, formular hipóteses e tomar decisões fundamentadas no seu dia a dia”, 
a verdade é que, com as sempre existentes, mas raras excepções, são muitos os rapazes e as raparigas, que pouco ou nada leram, que chegam à universidade, tendo faltas notórias de todas as culturas, sem saberem escrever português. 

Entre os objectivos da referida escolaridade pretende-se que o jovem, cumprida a escolaridade obrigatória, 
“seja livre, autónomo, responsável e consciente de si próprio e do mundo que o rodeia”, 
mas basta ver a elevada percentagem de abstenções nos actos eleitorais, para constatar a falência deste nobre propósito. 

Os programas oficiais estabelecem que, nas diferentes áreas de competências, os alunos aprendam a
“colaborar em diferentes contextos comunicativos, de forma adequada e segura, utilizando diferentes tipos de ferramentas (analógicas e digitais), com base nas regras de conduta próprias de cada ambiente”. 
Um belo e elevado propósito que não teve e continua a não ter realidade visível na média dos nossos cidadãos e cidadãs. O que salta à vista nos dias que correm e nesta geração de adolescentes, que teve e tem o privilégio de fruir da condição de estudante, é o uso obsessivo dos telemóveis, onde quer que estejam e seja a que horas forem.

Ninguém da geração dos homens e mulheres com mais de 60 anos duvida que a revolução iniciada com o 25 de Abril nos trouxe grandes progressos materiais e sociais, por demais apontados pelos profissionais do comentário e das análise políticas, aos quais não pretendo acrescentar nada que eles não saibam. Mas há um sector para o qual basta estar atento para se ter opinião. Pouco ou nada mudámos nas mentalidades.

Vimos um vislumbre de um real propósito de elevação do nível cultural dos portugueses no fugaz e efémero programa da 5ª Divisão de Estado-Maior-General das Forças Armadas, logo após a Revolução dos Cravos, chefiada pelo saudoso primeiro-tenente médico Ramiro Correia, mas não vimos nada que se lhe comparasse em nenhum dos governos constitucionais destes quarenta e quatro anos de democracia.

À semelhança do sempre esquecido mundo rural, as nossas cidades têm, ainda, uma lamentável percentagem de analfabetos funcionais, a par de uma classe média a que a escola deu diplomas mas não deu cultura nem o gosto pelo saber, marcada pela iliteracia de quase tudo, alienada, como disse atrás, pelo futebol e pelos programas televisivos de entretenimento que nos impõem e nos entram pela casa dentro a toda a hora.

Com um povo assim, não admira assistir ao crescimento, ou melhor, ao reaparecimento da extrema direita, a mesma que matou a democracia e nos privou da liberdade e nos manteve em pobreza nos quarenta anos do Estado Novo. Basta pensar em Trump e Bolsonaro para ver como é que um povo inculto se deixa arrastar por populismos e tudo o que eles escondem. 

A classe política, particularmente interessada nas lutas pelo poder, esqueceu de facultar, aos cidadãos, cultura civilizacional e humanística.

Assim, continuamos a ser o mesmo povo que, embora materialmente mais avançado, permanece maioritariamente alheado dos valores da democracia e do conhecimento científico e cultural, o mesmo povo que a minha geração viu encher Praças, como a do Comércio, em Lisboa, ou a da Liberdade, no Porto, com vivas a Salazar. 

Termino com outra pergunta: como é que, em democracia. um partido antidemocrático, que, todos sabemos, nega a liberdade, pode crescer e, até, conquistar o poder? 

Foi o que aconteceu na Alemanha, em 1933.
A. Galopim de Carvalho

domingo, 5 de julho de 2020

NOVIDADES EDITORIAIS DOS CLASSICA DIGITALIA

Duas novas publicações dos Classica Digitalia com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Todos os volumes são editados em formato de papel e digital, em acesso aberto. Além do usual circuito de distribuição da IUC, a versão impressa encontra-se disponível nas lojas Amazon.

Série “Humanitas Supplementum” [Estudos] 

- A. Carneiro, N. Christie & P. Diarte-Blasco (eds.), Urban Transformations in the Late Antique West: Materials, Agents, and ModelsCoimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020, 384 p. 
 [This volume is the fruit of a highly productive international research gathering academic and professional (field- and museum) colleagues to discuss new results and approaches, recent finds and alternative theoretical assessments of the period of transition and transformation of classical towns in Late Antiquity. Experts from an array of modern countries attended and presented to help compare and contrast critically archaeologies of diverse regions and to debate the qualities of the archaeology and the current modes of study. While a number of papers inevitably focused on evidence available for both Spain and Portugal, we were delighted to have a spread of contributions that extended the picture to other territories in the Late Roman West and Mediterranean. The emphasis was very much on the images presented by archaeology (rescue and research works, recent and past), but textual data were also brought into play by various contributors.] 

Série “Ideia” [Estudos] 

- Mário Santiago de Carvalho, Manuel Lázaro Pulido & Simone Guidi (eds), Francisco Suárez: Metaphysics, Politics and EthicsCoimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020, 580 p.
[This volume publishes the Proceedings of the 1st International Meeting "Thinking Baroque in Portugal" (26-28 June 2017), which dealt with the metaphysical, ethical and political thinking of Francisco Suárez. Counting on the collaboration of some of the greatest international specialists in the work and thought of this famous professor of the University of Coimbra in the 17th century, this volume celebrates the 400th anniversary of his death and marks the productivity of his philosophical-theological legacy.] 

 Votos de boas leituras. Delfim Leão (Classica Digitalia)