quinta-feira, 23 de julho de 2020
CRER OU NÃO CRER
terça-feira, 21 de julho de 2020
PODE UM ALUNO NÃO FREQUENTAR A DISCIPLINA DE "CIDADANIA E DESENVOLVIMENTO"? - 1
João Costa, ordem para reprovar…
Dois chumbos para dois irmãos
0 SNS, A ADSE E O PANDEMÓNIO DO CORONA VÍRUS
1. Um relatório médico de minha mulher, emanado do Centro de Reabilitação Rovisco Pais, “atestou a necessidade de vigilância médica e tratamentos constantes por tetraplegia incompleta secundária e mielomalacia”.
2. Auferindo ela uma pequena pensão da Segurança Social (pouco mais de 200 euros mensais, após 12 anos contributivos) por salários auferidos numa instituição privada de que era sócia, em ofício, datado de 17/10/2016, é informada da inviabilização da respectiva manutenção de cônjuge titular, tendo como suporte a disposição do art.º 7 do Decreto-Lei 118/83, de Fevereiro, na redacção do Decreto Lei n.º 234/2005, de 30 de Dezembro.
NA CONTINUAÇÃO DO TEXTO "ESPERA-SE QUE OS PROFESSORES LEIAM LIVROS?!"
1. Revela a família, fazendo algo que certas correntes pedagógicas muito presentes na formação de professores advogam: estabelece uma ligação entre o "professor como profissional" e o "professor como pessoa";
2. Defende a mudança: "ainda há muito para mudar", afirma, não especificando as razões, sentido e substância do que deve mudar. É a "lógica" da mudança pela mudança, presente na generalidade dos discursos que apresentam a educação do Século XXI;
3. Diz: "é preciso ver e ouvir os miúdos, trabalhar mais a partir dos contributos e expectativas que eles têm. E ir mais ao encontro daquilo que dizem (...), os relatos orais, o que são as suas próprias conceções". Pois, saiba-se que esta é uma das principais orientações/recomendações internacionais e nacionais para a construção do currículo escolar;
4. Redefine a função da aula e o papel do professor: "não gosto da expressão dar aulas e ensinar. Eu não dou aulas, ajudo os miúdos a quererem aprender, a quererem saber mais", o professor é "alguém que fala menos e ouve mais, que dá mais espaço aos alunos para falar". É isto mesmo que se vê escrito e reescrito nos documentos curriculares, em trabalhos académicos e em toda a comunicação social. Mais, usa a mesmíssima expressão dos políticos, empresários, profissionais e especialistas: "é um paradigma de aprendizagem e não de ensino" (não posso, aqui, deixar de sublinhar "paradigma");
5. Complementarmente, tem presente a "retórica do futuro", localizando-a no professor, que "será o que nunca foi, liberto de todas as amarras". Digo eu, incluindo o conhecimento reconhecido, devidamente validado, que permite ensinar: "um professor do futuro é um professor mais livre, sem receitas";
6. Põe a tónica na instrumentalidade da aprendizagem: aprender é para “escrever uma carta”, “tirar a carta [de condução]”. Retomo, no essencial, os comentários feitos ao tópico 4;
7. Emprega expressões informais ("vai dizer coisas supergiras") e na moda ("é inspirador"), no tal discurso da educação do Século XXI assumido pelos agentes acima enunciados. E usa o facebook e o instagram, chegando, portanto, facilmente, aos alunos e às famílias... bem como a todos esses agentes;Além disso,
elogia muito o Ministério da Educação que diz "teve pouco tempo para construir uma resposta (...) pude sentir a verdadeira intenção. Que era dar resposta a esses miúdos e essas famílias que não tinham escola e cujo contacto era mais difícil. Foi a que se conseguiu dar, e foi válida. A resposta foi de coração".E, como nesse discurso, denota, aparentemente sem consciência, contradições evidentes:
Diz "não sou uma leitora", mas também diz que está a tirar uma pós-graduação em "Livro infantil";
Diz, “não gosto da expressão dar aulas e ensinar”, mas também diz que é preciso "melhorar as metodologias de trabalho nas aulas".
segunda-feira, 20 de julho de 2020
ESPERA-SE QUE OS PROFESSORES LEIAM LIVROS?!
Ouviu-se falar muito dela, no imediato, quando alguém contou as dezenas de "ok" que dizia numa "aula" e, depois, quando foi divulgado o "share" que conseguiu, superior ao de uma "campeã de audiências" (ver, por exemplo aqui). Seguiu-se o que é normal e natural na comunicação social, mesmo na mais séria e crítica: foi, por exemplo, convidada para um programa de televisão do tipo "comédia-intelectual" e, quando já parecia esquecida (não obstante o seu considerável "rasto" na internet), três jornais "de referência" dedicaram-lhe atenção especial (Expresso, Público e Jornal de Letras). A um deles deu uma longa entrevista.
Disse, nessa entrevista, entre várias outras coisas admiráveis, que nunca foi de ler livros, mas que está a tentar ler e que até está a tirar uma pós-graduação em "Livro infantil". Seguiu-se, já se vê, o eco online, nada abonatório (por exemplo, aqui e aqui), que continuou nos "comentários":
Como é possível uma professora - melhor, uma professora das primeiras letras e das primeiras leituras - declarar, com toda a candura, sem medir as consequências, que nunca foi de ler livros?!;
Como é possível que alguém se torne professor, lhe seja passado o diploma, não sendo muito de ler livros?!Entendo as interrogações e o tom carregado com que foram feitas. Como poderia não as entender?!
Mas, tenho a dizer, em favor da professora em causa, que a sua declaração revela uma característica desde há muito central no perfil docente e nada me faz pensar que se vai atenuar, bem pelo contrário, julgo que se irá acentuar: ser aplicadora, animadora, dinamizadora... de "actividades pedagógicas" preparadas por outrem, paupérrimas sob o ponto de vista da estimulação intelectual e da construção do ser. Isso vê-se bem nas suas "aulas" mas também na "aulas" de outros professores do dito contexto.
Digo em continuação, e do que me apercebo, a excepção é um professor que lê.
E se um professor não lê, porque é que não lê?
Porque a leitura de livros, sobretudo dos que se incluem na categoria de "literatura", tem estado (e continua) afastada de todos os níveis de ensino, incluindo o superior e, neste nível, mesmo na formação de professores. Ler esses livros não parece ser importante pois de útil nada têm, e, explicam os iluminados do "politicamente correcto", podem até ser perigosos, acentuar estereótipos, criar mal-estar pessoal, etc.;
Porque "prescrever" obras como leitura obrigatória (e, mesmo, facultativa), ou seja, levar a ler, como explica Daniel Pennac, tem sido catalogado como heresia: cada um deve ler o que for do seu interesse muito particular, o que tiver a ver com o seu gosto, o seu ethos, a sua cultura... E isto é válido para todos, alunos e professores
Porque os manuais e os seus muitos anexos e cadernos (em geral redigidos por professores e para professores) têm lá os recortes dos livros, com a interpretação "certa", as perguntas (e, evidentemente, as respostas). E, se isso não for suficiente, há à venda apontamentos e resumos, escritos e também em audio, conforme dê mais jeito ao "consumidor". Nem alunos nem professores precisam de ler o que quer que seja, uns para ensinar e outros para aprender;
Porque a leitura requer entrega e, antes disso, fluência e compreensão. E isto depende do ensino/formação e implica tempo, muito tempo de aprendizagem/preparação... onde a fruição também tem de marcar presença. Ora, isto não cabe na lógica da eficácia e da eficiência, de preparação do "cidadão de sucesso" que há-de funcionar como "capital humano" num mercado de trabalho marcado pela competição produtiva;
Porque, em suma, e para não me alongar mais, mesmo os professores que são (ou foram) leitores têm no novo paradigma da "Educação do futuro", do "Século XXI" a maior dificuldade em encontrar "cabeça" para ler, para ler como leitores, entre as mil tarefas burocráticas, inúteis e estupidificantes que lhes são atribuídas. E a leitura, tal como se aprende, também se desaprende; conforme se lhe ganha o gosto, também se lhe perde o gosto.
Isto é distinto de nos limitarmos a apontar em público este ou aquele professor, de que logo nos esquecemos para, passados uns dias, nos focarmos noutro e, depois, noutro. Entretemo-nos, é certo, com cada caso "chocante", mas não chegamos ao cerne da questão. É a esse cerne que precisamos de chegar.
sábado, 18 de julho de 2020
HOMENAGEM DA FEDERAÇÃO PORTUGUESA DE CULTURISMO E FITNESS
Transcrevo, portanto, esse texto com ligeiros acrescentos e umas tantas linhas finais de adenda em itálico da minha lavra para dar uns pós de razão a possíveis detractores da minha possível imodéstia ao serviço de uma profissão que escolhi por paixão e exerço com todo o fervor e respeito que ela merece, pese embora as pedras que tenho encontrado num caminho pétreo de uma falsa e perigosa intelectualidade com fundamento no cartesianismo - "res cogitans"/"res extensa" - que ousa ver neste dualismo, por um lado, uma formação de gente do mundo da cultura e da ciência e , por outro lado, uma usina de hercúleos mentecaptos.
Chegou RB a Lourenço Marques em 1957 – depois de formado pelo INEF, e ter cumprido o serviço militar como oficial miliciano, contratado como professor de Educação Física da “Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque”, tendo desenvolvido, para além dessa docência, uma notável acção no desporto local e uma intensa actividade no campo da Ginástica.
“Depois da sua acção no campo da reabilitação ter tido o reconhecimento do mais notável cirurgião ortopedista da África do Sul, (país tido no pódio da Medicina Mundial), David Roux, que enviava para os seus cuidados de Reabilitação, em Lourenço Marques, pacientes que o consultavam em Joanesburgo, após 25 de Abril, veio viver para Coimbra onde prosseguiu com esta actividade ( de que fora docente na Faculdade de Ciências e do Desporto da Universidade do Porto) tendo continuado com ela, durante breves anos, através de convenções assinadas com diversos organismos públicos e privados. Mas isto são contas de um outro rosário de prepotências de políticos de um país em que a palavra dada não é honrada!”
quinta-feira, 16 de julho de 2020
O SENHOR BORGES
CRENÇAS MÁGICAS
As crenças constituem juízos não
conscientes com raízes em experiências anteriores, os quais permanecem latentes
e, quando ativados por acontecimentos críticos, se transformam, por processos
cognitivos (normalmente de modo deficiente), em juízos conscientes. Estes, por
sua vez, determinam emoções, que fazem emergir novos juízos, em círculo
vicioso. As crenças mágicas, nomeadamente em poderes paranormais ou virtudes
curativas, assentam na necessidade de conhecer e controlar uma realidade
adversa. Ao tornarem “inteligíveis” fenómenos misteriosos, isto é, darem
sentido ao desconhecido, exercem por vezes função adaptativa com efeitos
tranquilizadores e de bem-estar. Outras vezes, quando são interpretações de
poder maléfico ou carácter nocivo, podem provocar ansiedade ou mesmo terror. Apesar
do avanço científico e tecnológico da sociedade atual, persistem de modo
significativo, não só na infância e em algumas perturbações mentais, bem como em
pessoas ditas “normais”, até com formação superior. Fazem parte do conteúdo do
pensamento primitivo que envolve distorções cognitivas correspondentes a erros
de raciocínio, que “turvam” a visão da realidade.
Para o crente, segundo o seu ponto de
vista, as suas crenças são verdadeiras, o que as torna praticamente
insuscetíveis de correção pela argumentação lógica, quando reforçadas ao longo
dos anos quer por desvio confirmatório, como tendência a selecionar informações
favoráveis e a ignorar as desfavoráveis, quer por apelos à autoridade, à
maioria e também à falta de provas da inexistência de forças ocultas, cabendo a
prova da sua existência ao próprio crente.
De facto, acontecem por vezes fenómenos
estranhos e curas extraordinárias, mas atribuíveis a causas diferentes das
supostas pelo crente. Promover o pensamento crítico, que privilegia o método
científico, permite focar primeiro na busca de explicações naturais antes de
recorrer às sobrenaturais. Para tal é útil ter algumas noções, por um lado, de
ilusionismo, que consegue reproduzir todos os fenómenos alegadamente paranormais,
e, por outro lado, de efeito placebo, sugestão e remissão espontânea de certas
doenças, motivos por que “funcionam” às vezes as denominadas “medicinas não
convencionais”.
O ilusionismo, através de artefactos,
prestidigitação, ventriloquia e mentalismo, oferece as explicações necessárias
para desvendar alegados poderes de telepatia, clarividência, psicocinese,
levitação, materializações, curas psíquicas, comunicação mediúnica e leituras
psíquicas. Por exemplo, para o sucesso das putativas leituras psíquicas, como
astrologia, cartomancia, quiromancia, clarividência, comunicação mediúnica,
contribui, em grande parte, a técnica de “leitura fria” do mentalismo para
criar a ilusão de conhecer a personalidade, o passado e o futuro duma pessoa,
com utilização ardilosa de frases declarativas vagas e gerais e de outras em
tom declarativo, mas interrogativas, imperativas e exclamativas, nem
verdadeiras nem falsas. Todas estas frases, formuladas de modo ambíguo, levam a
pessoa a admitir como verdadeiras e exatas a descrição da personalidade e a
visão do passado e do futuro por efeito de validação pessoal combinada com
desvio confirmatório, erro cognitivo em que se recordam os palpites certos e se
esquecem os errados.
O placebo (agente desprovido de ação terapêutica)
produz efeitos inespecíficos resultantes das crenças do doente acerca do seu
poder curativo. Os ensaios clínicos comparam grupos experimentais com grupos de
controlo (que recebem placebo) para verificar a eficácia real do tratamento, a
qual se restringe à resposta terapêutica subtraída do efeito placebo. Ora, os
tratamentos das “medicinas alternativas” (caso ilustrativo dos produtos
homeopáticos) não apresentam provas de eficácia superior ao placebo e os seus
resultados devem-se também à sugestão e à evolução natural de certas doenças,
com exceção da eficácia devida às propriedades intrínsecas dalguns tratamentos
naturais já conhecidos da medicina. Mesmo falsos diagnósticos, baseados em
teorias exóticas, têm efeito placebo com melhoria do estado do doente, mas
possíveis consequências deletérias pelo atraso no adequado tratamento da
verdadeira doença. Obviamente que a regulamentação das “medicinas não
convencionais” não confere validade científica.
Perante a alegação de poderes paranormais ou de virtudes curativas exigem-se provas inequívocas, mediante ensaios controlados, aleatorizados e duplamente cegos, com revisões sistemáticas por grupos de investigação independentes. Reduzir a credulidade implica a procura de explicações racionais através da experiência. Para desenvolver o pensamento crítico, na escola desde a adolescência, não basta conhecer as descobertas da ciência e realizar experiências de comprovação, torna-se necessário aprender a distinguir a ciência das suas imitações.
Nuno Pereira (psiquiatra)
quarta-feira, 15 de julho de 2020
A APATIA POLÍTICA NESTE CANTINHO EUROPEU
terça-feira, 14 de julho de 2020
O fim do El Dorado
SEM IDADE
As lombrigas
domingo, 12 de julho de 2020
"Com o silêncio de uns e a cumplicidade de outros", desaparece a Filosofia do currículo escolar
Na verdade este texto não consta no "Programa de Filosofia dos 10.º e 11.º anos", nem no documento curricular mais recente "Aprendizagens Essenciais", mas nada impede um professor de Filosofia de apresentar às suas turmas um texto que é, pelo menos, fundador do pensamento filosófico e educativo. Conheço quem o faça e se recuse a deixar de o fazer. Isto porque reconhecem aos textos clássicos uma potencialidade cognitiva que se mantém viva e inultrapassada.
Surgiu-me esta nota a propósito de um texto publicado no jornal "Observador", assinado por Orlindo Farinha, professor do Ensino Secundário. Diz ele, presumo que surpreendido como eu:
(...) supunha que a Filosofia envolvia a capacidade de compreensão de textos complexos, como são os produzidos por algumas das mentes mais profundas e interessantes que a civilização ocidental criou e colaboraram para a definir tal como ela é; o confronto estimulante entre as teses que esses textos exibem; o entendimento dos argumentos e das razões que as sustentam; e, finalmente, o que tudo isto pode contribuir para a formação de pessoas que querem ter a audácia de pensar pela sua própria cabeça.
Este último ponto sempre me pareceu o escopo final de todos os outros.
(...) a compreensão das teses, o domínio dos argumentos e a capacidade de elaboração autónoma de um pensamento (...) está sempre marcado pela linguagem e pelo seu domínio próprio.
Por isso, a Filosofia é linguagem e discurso escrito (malgré Sócrates) e é neles que tudo se resolve.
O ensino da Filosofia tem sido, assim, confronto com discursos e produção de discursos ou, pelo menos e no caso que aqui nos ocupa, tentativa de neste sentido formar os alunos.
Nem vale a pena mencionar o sentido universal e transversal que o ensino da Filosofia poderia, nesta concepção, suscitar, qualquer que seja o domínio em que se possa pensar. Nomeadamente, e sobretudo, o da formação de uma personalidade integral e crítica e livre.
Mais uma vez, parece que estava errado.
Tenho usado até aqui o tempo passado. Isto porque o domínio “escolar” da Filosofia tem vindo a ser tomado por umas soi disantes mentes analíticas, mas que são, sobretudo, tristemente dogmáticas e que se manifestam agora em apoteose no exame deste ano e respectivos critérios de correcção (...).
Podem esconder-se por detrás das tais “Aprendizagens Essenciais”, do sentido analítico do pensamento filosófico, encher a boca com palavras mágicas como formação para a cidadania, sentido crítico e promoção da autonomia…
Para mim, tudo isto não passa de mais uma triste fraude a acrescentar a muitas outras na área da Educação, algumas até bem mais graves, mas quase todas elas cobertas com o silêncio de uns e a cumplicidade de outros (...).
Uma reflexão sobre o afastamento que é feito na Escola dos livros “perigosos, poderosos, desapiedados”.
Nunca se leu tanto como hoje. A afirmação poderá parecer estranha a quem da leitura valorize a qualidade e a profundidade, mas lê-se de facto muito mais em quantidade e em regularidade.
A prática da leitura sistemática aumenta continuamente, se nela incluirmos as necessidades práticas da vida quotidiana, das organizações e do mundo do trabalho, a intervenção da publicidade ou da imprensa light e desportiva, e sobretudo a articulação com a televisão, a comunicação móvel e a Internet, com os seus largos milhões de sites e a omnipresença do email e das redes sociais.
Já a leitura mais densa, crítica e reflexiva, apoiada na literatura de ficção e de não-ficção, para além da escrita académica e da produção ensaística, parecem, de facto, enfrentar um bloqueio.
O império do zapping, associado à estridência do sensacionalismo e ao destaque dado à informação superficial, por vezes nada fidedigna, determinam um desvio que afeta até espaços onde há poucos anos seriam impensáveis, com ecos no próprio sistema de ensino, inclusive no universitário, onde os hábitos de leitura, se excetuarmos os níveis de formação mais elevados, são cada vez mais escassos e simplistas.
Esta situação tem imposto, no campo da escrita, a perigosa tentação do facilitismo.
Tornou-se regra produzir livros e artigos curtos e breves, cortar alguns para expurgar partes mais complexas ou julgadas incómodas, usar uma linguagem cada vez mais rasa, fácil e previsível, relegar para a obscuridade tudo o que possa escapar a este padrão sem rasgo ou ousadia, e quem o não faz enfrenta dificuldades para publicar.
Com o desaparecimento dos suplementos ou das páginas literárias dos jornais de referência, a escassa crítica literária que se pratica em Portugal acaba por deixar espaço, em termos de divulgação e impacto, quase apenas para os livros que obedecem a um padrão de gosto reduzido ao menor denominador comum ou que remetem para as opções dominantes em termos políticos e ideológicos, aos quais se junta o destaque concedido a “autores” conhecidos principalmente pelo seu rosto surgir com regularidade nos ecrãs da televisão, ainda que sem experiência alguma nesse campo.
Todavia, existe o outro lado da palavra, onde habitam os livros “perigosos, poderosos, desapiedados”, aqueles que perturbam e que jamais nos deixam indiferentes.
Eles são “difíceis”, na medida em que não nos deixam passivos, em que não se limitam a distrair-nos, antes nos forçando a interagir e requerendo sempre algum esforço. Existem até os que causam medo, por o seu conteúdo levar a que questionemos verdades sobre as quais assentámos a compreensão do mundo.
“A Paixão do Jovem Werther”, de Goethe, publicado em 1774, foi múltiplas vezes acusado de levar aqueles que o liam ao suicídio, apenas porque integra uma tentativa romântica de compreensão dos processos que conduzem ao desespero.
Obras fundadoras do pensamento contemporâneo, como “O Bom Selvagem”, de Rousseau, “Cândido”, de Voltaire, ou “A Origem das Espécies”, de Darwin, foram repetidamente apontados como perigosos, por retificarem o modo de o ser humano repensar a sua centralidade no mundo.
“Ulisses”, de Joyce, ou “O Livro do Desassossego”, de Pessoa, têm sido classificados como muito perturbantes. Já vi mesmo um dos mais embriagadores livros de história que pude ler, “Sussurros”, de Orlando Figes, vigoroso e documentado testemunho sobre a vida quotidiana na União Soviética entre os anos 20 e 50, ser rejeitado por poder levar quem o lê, como escutei a alguém que temia ter de rever algumas convicções, “a perder a fé no comunismo”.
Lembra o escritor e bibliómano argentino Alberto Manguel, em “A Biblioteca à Noite”, publicado em 2006 e entretanto editado pela Tinta da China, que “os livros podem não alterar o nosso sofrimento, os livros podem não nos proteger do mal, os livros podem não nos dizer o que é bom e o que é belo, e por certo que não nos salvam do destino comum da cova, mas garantem-nos uma miríade de possibilidades: a possibilidade da mudança, a possibilidade da iluminação”.
E estas são-nos principalmente doadas por aqueles julgados difíceis. Os que não nos deixam adormecer e por isso podem tornar-nos mais capazes, mais atentos e mais fortes.
quinta-feira, 9 de julho de 2020
Defender o Herbário da Universidade de Coimbra
terça-feira, 7 de julho de 2020
O PORTUGAL QUE AINDA SOMOS
“Fomentar o pensamento crítico, criativo e independente, contribuindo assim para a promoção da tolerância e da paz”,
“munido de múltiplas literacias que lhe permitam analisar e questionar criticamente a realidade, avaliar e selecionar a informação, formular hipóteses e tomar decisões fundamentadas no seu dia a dia”,
“seja livre, autónomo, responsável e consciente de si próprio e do mundo que o rodeia”,
“colaborar em diferentes contextos comunicativos, de forma adequada e segura, utilizando diferentes tipos de ferramentas (analógicas e digitais), com base nas regras de conduta próprias de cada ambiente”.
segunda-feira, 6 de julho de 2020
domingo, 5 de julho de 2020
NOVIDADES EDITORIAIS DOS CLASSICA DIGITALIA
[This volume is the fruit of a highly productive international research gathering academic and professional (field- and museum) colleagues to discuss new results and approaches, recent finds and alternative theoretical assessments of the period of transition and transformation of classical towns in Late Antiquity. Experts from an array of modern countries attended and presented to help compare and contrast critically archaeologies of diverse regions and to debate the qualities of the archaeology and the current modes of study. While a number of papers inevitably focused on evidence available for both Spain and Portugal, we were delighted to have a spread of contributions that extended the picture to other territories in the Late Roman West and Mediterranean. The emphasis was very much on the images presented by archaeology (rescue and research works, recent and past), but textual data were also brought into play by various contributors.]
[This volume publishes the Proceedings of the 1st International Meeting "Thinking Baroque in Portugal" (26-28 June 2017), which dealt with the metaphysical, ethical and political thinking of Francisco Suárez. Counting on the collaboration of some of the greatest international specialists in the work and thought of this famous professor of the University of Coimbra in the 17th century, this volume celebrates the 400th anniversary of his death and marks the productivity of his philosophical-theological legacy.]


