segunda-feira, 15 de junho de 2020

"Buracos Negros sob uma nova luz" - Vídeo da palestra com Vítor Cardoso no "Ciência às Seis"


https://www.youtube.com/watch?v=vXwrfrpSBuw&feature=youtu.be&fbclid=IwAR16UP2LjTArA_N-iburbqyyL2z8VQqez2SVJ3iE0LrMvijKmTrw5dl30r4

Da excepção para a regra: o direccionamento da Escola

Aos leitores com interesse nos desígnios traçados para Escola, no seu sentido mais abrangente, e catapultados pela Covid-19, recomendamos a leitura do completíssimo e profundo artigo de um professor da Universidade da Beira Interior, António Bento, saído no jornal Público no dia 13 deste mês com o título Pandemia e “Ensino à Distância”: Hey, teachers, don’t leave your students aloneEis duas passagens:
... a generalização cega e indiscriminada do “ensino à distância”, recentemente anunciada para o ano lectivo 2020-2021 por algumas universidades portuguesas, deve fazer-nos reflectir com alguma seriedade sobre a verdadeira natureza e o real impacto do ataque actualmente dirigido às fundações do modo de vida universitário tal como sempre o conhecemos. 
Evidentemente, ninguém com um módico de bom senso negará ou diminuirá hoje, e por maioria de razão no interior da própria academia, as extraordinárias possibilidades abertas pelas plataformas digitais e pelo e-learning, as quais, como, aliás, bem sabemos, existiam muito antes da eclosão da actual pandemia. O ponto, porém, está na completa falta de equilíbrio e de sentido de proporção dos que pretendem passar de uma situação em que o e-learning ocupa um lugar necessariamente complementar e auxiliar face ao “ensino presencial”, para uma situação em que o ensino e a investigação em plataformas digitais passarão a ser a regra e a norma na vida académica.
M. Helena Damião e Isaltina Martins 

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Sobre o ensino à distância - Carlos Fiolhais (Professor da Universidade de Coimbra)

UMA GRANDE AULA DE JOHN SEARLE


Minha recensão, publicada no jornal I de hoje, do último livro do filósofo norte-americano John Searle, "Da Realidade Física à Realidade Humana":

ELOGIO DE TRÊS ELOGIOS


Minha recensão no jornal I de três livros do médico italiano Lamberto Maffei que são lições de humanismo:

BASTA DE TANTO CINISMO

“O cinismo é a única forma sob a qual as almas 
torpes tocam de leve no que se chama sinceridade”
(Friedrich Nietzsche)

Numa hora em que racistas por uma qualquer varinha mágica se transformam em anti-racistas, ocorre-me um punhado de “almas bondosas” de Lourenço Marques, que logo após 25 de Abril, passaram a frequentar espaços públicos acompanhados de crianças negras filhos de serviçais, vestidas de camisa branca, calção azul escuro e calçadas. Crianças que na véspera só tinham acesso aos quintais dos patrões com camisas rotas, púdicos calções e pés descalços.

Não, não se pense que este “status quo” foi conseguido através de um processo que transformou, de uma hora para a outra, almas negras de racistas em almas brancas de anti-racistas com a pureza da neve da montanha africana de Klimanjaro!

Seria interessante fazer um apanhado desses racistas transmutados em carpideiras em choro convulsivo pela morte de George Floyd asfixiado pelo pé no pescoço de um polícia americano branco. Teríamos enormes surpresas, pela certa.!

Entretanto, a morte de portugueses idosos falecidos pelo coronavírus, depois de ligados meses a fio a ventiladores pulmonares em indiscritível sofrimento, não merece da nossa caridosa alma lusitana mais do que um simples número estatístico ou denúncia  do fácies da nossa ministra da Saúde que se assemelha a uma espécie de “barómetro” do estado de saúde ou doença deses idosos, como tal, ora eufórica, ora compungida.,

Recentemente, foi nomeado pelo Governo um “Gabinete de Intervenção para Lisboa e Vale do Tejo”, face ao preocupante aumento de infectados pelo coronavírus. Ou seja, depois de “casa roubada, trancas na porta”, em crítica da sabedoria  popular.

Coincidência ou não (mas há coincidências levadas da breca!) este crescimento de infectados pelo coronavírus encontra correspondência nas manifestações anti-racistas aos magotes e sem quaisquer cuidados sanitários a que se têm assistido ultimamente e, concomitantemente, ao espectáculo da “Música Pimba”, com inumerável número de assistentes sem cumprir todas as medidas de confinamento exigíveis, com a presença do primeiro-ministro António Costa, ao arrepio das louváveis medidas tomadas no âmbito de um desejável confinamento do dia-a-dia.

Ou seja, levianamente são tomadas medidas elásticas que põem em causa a sobrevivência dos cidadãos e, principalmente, o sacrifício heróico dos nossos profissionais de saúde exauridos de horas e horas de trabalho fora do horário normal de serviço, longe  do seio de  família, com o credo na boca, atingida nos seus sacrossantos direitos.

Haja, no mínimo, bom senso, onde, há corações empedernidos de governantes que nada nos sossegam com a indefinição em nos transmitir uma vida cheia de incertezas científicas e prenha de meias verdades tão criminosas como as mentiras públicas que se vão tecendo e que tanto nos rendem à esperança como nos fazem prisioneiros de horrendas masmorras da actual pandemia.

terça-feira, 9 de junho de 2020

“Quasi” Ou Contributo para um Novo Paradigma das Praxes Académicas

 


Texto que nos foi remetido por José Manuel Cymbron:

(…) os oráculos gostam do seu clima [de Portugal], e às vezes dão

nele respostas eternas às perguntas do mundo.

(Torga)

 

Os mais experimentados levantai-os,

(…)

Pois que sabem

O como, o quando, e o onde as cousas cabem.

(Camões)

 

Estou numa fase razoavelmente adiantada de um livro (de ficção, em boa parte) que propõe, em nove dias/capítulos, um Itinerário em Lisboa, e que termina no Campo Grande.

Por que razão este Itinerário termina no Campo Grande? Por dois motivos:

1º. Na dedicatória do livro digo:

- A todas as crianças e a todos os jovens.

- A todos os adultos que acreditam que o tesouro/força que há em cada criança e em cada jovem tem que ser lucidamente acarinhado, sob pena de se transformar em «marés de fel» (Cesário Verde).

Acontece que no Campo Grande há uma densíssima população estudantil, desde o ensino pré-primário ao universitário.

2º. No Campo Grande existe um património cultural com um valor equiparável, embora muito diferente, ao da zona de Belém. Merece destaque particular a Biblioteca Nacional e o Arquivo Nacional da Torre do Tombo. As sinergias que podem ser criadas entre estes dois tesouros e fortalezas da palavra criariam condições perfeitas para a construção de um Museu que a capital merece: O Museu da Lusofonia. Penso que em termos de espaço e de orçamento as necessidades não são muito exigentes pois os dois núcleos principais já existem (Biblioteca Nacional e Torre do Tombo). Por detrás da Biblioteca existe um terreno com área suficiente, creio eu, para a construção de um centro de interpretação e divulgação do património lusófono existente não só no Campo Grande, mas em toda a cidade. Seria fundamental que no referido Centro se valorizasse essencialmente as obras literárias dos grandes escritores lusófonos, entre eles os que anualmente, desde a criação do Prémio Camões (1989), vêm sendo galardoados. Os trabalhos de construção do Museu poderiam ter início em 2021, durante a presidência da União Europeia por Portugal, ou em 2022, ano em que Lisboa será palco das Jornadas Mundiais da Juventude e das comemorações do 2º. Centenário da independência do Brasil e do 1º. Centenário da viagem transatlântica de Gago Coutinho e Sacadura Cabral.   

Mas o Campo Grande tem outros patrimónios de grande valor. São eles: o Jardim, que nestes últimos dois anos foi alvo de consideráveis melhoramentos e onde frondosas árvores oferecem sombra durante todo o dia; o Museu da Cidade; o Museu Bordalo Pinheiro; as tapeçarias de Portalegre da colecção da Câmara Municipal; as gravuras incisas  de Almada Negreiros na Reitoria e Faculdades de Direito e de Letras; e a azulejaria das três estações de Metro, com particular destaque para as estações de Entre Campos e Cidade Universitária. 

No 9º. Dia do itinerário por Lisboa, chego ao Campo Grande acompanhado por quatro gigantes da nossa literatura: José Régio, Carlos Queiroz, Miguel Torga e Sophia de Mello Breyner (recorde-se que todos eles nasceram nas duas primeiras décadas do século vinte, época em que Portugal ainda era um país eminentemente rural, o que tanto contribuiu para a força das suas obras). Pouco tempo depois junta-se a este grupo Tolentino Mendonça. A eles pergunto o que seria importante dizer no início do ano académico aos caloiros que estão a iniciar uma estada de pelo menos três anos nesta zona fascinante da capital. Os cinco respondem-me que há uma palavra-chave – ALEGRIA, e que essa «provocação do espírito que nos abeira do milagre» (Tolentino) tem que ser trabalhada seguindo o conselho de Camões, citado em epígrafe deste texto e que agora repito: «Os mais experimentados levantai-os (…) pois que sabem/ O como, o quando, e o onde as cousas cabem.»

Repare-se no que nos dizem estes escritores sobre a alegria (já foi feita uma citação de Tolentino Mendonça):


José Régio (reproduzindo palavras da Ti’Pinheiro):

«…Que minhas meninas! Isto de ser temente a Deus não tira duma pessoa andar alegre e até gostar de se divertir (…) A virtude é alegre, ora não? (…) Que minhas meninas!: cá’mim ninguém me tira desta, e o senhor padre Forjaz ainda há dias o disse do púlpito: A virtude não precisa de carantonhas! Quem está de bem com Deus anda contente, pois então?! Por que há-de andar macambúzio?!»                                                             

 

Carlos Queiroz:

É urgente descobrir

Na flora da fantasia,

Uma espécie de semente

Que gere a pura alegria

E se possa introduzir

Nas almas de toda a gente.

 

Miguel Torga:

«No seu sentido mais profundo, a vida é bela e alegre. Todos nós tivemos já a experiência disso milhares de vezes (…). Mas, apegados como estamos à aparência de tudo, esquecemos a voz do profundo, e ouvimos deliciados o som da superfície. Temos o vício da tristeza.»  


Sophia:

- «Porque Deus nos criou para a alegria»

- «A estrela ergueu-se muito devagar sobre o Céu, a Oriente. (…) Parecia estar muito perto da terra.  (…) Vinha desde sempre. Mostrava a alegria, a alegria una, sem falha, o vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria.»

 

Tolentino Mendonça (novamente):

O pequeno quinhão de alegria que nos resta é suficiente para relançar uma inteira vida. 

Como, Quando e Onde devem estas citações, de escritores muito «experimentados», passar para os estudantes? Comecemos pelo Onde.

No Campo Grande: aqui eles estão em casa e os patrimónios cultural e natural são magníficos (não esqueçamos que o jardim tem excelentes condições para a prática de marcha e de ciclismo).

Passemos para o Quando.

Já neste texto referi a minha simpatia pelo início do ano lectivo. E, por que não no contexto das praxes? Seria a componente cultural de uma prática ancestral que pretende unir e dar ânimo.

Entremos agora no momento mais complexo, mas também mais empolgante do processo de transmissão da mensagem: o Como.

Penso que é indispensável recorrer a vários meios, mas fiquemo-nos, neste artigo, por dois: 1º. mais textos literários; 2º. a Beleza.

António Gedeão diz-nos, na primeira parte do poema “Homem”: «Inútil definir este animal aflito./ Nem palavras,/ nem cinzéis,/ nem acordes,/ nem pincéis/ são gargantas deste grito./ (…)» É um magnífico poema, mas não concordo com o poeta. Se é verdade que nenhum ramo da arte consegue, só por si, definir o Homem, talvez seja verdadeiro afirmar que em conjunto conseguem. Régio dizia-nos: «Procuro uma expressão integral lançando mão de vários recursos vindos de vários ramos de arte.» E isto está ao nosso alcance no jardim do Campo Grande. Aqui podemos dar acolhimento às «palavras»; aos «cinzéis»; aos «acordes»; e aos «pincéis». Painéis de azulejos e esculturas de artistas consagrados e desconhecidos (por que não estudantes?) poderiam, com um caracter de rotatividade, ser colocados em vários pontos do jardim ilustrando a arte da palavra.

Vejamos mais sugestões de textos, e comecemos com propostas de Aforismos:

No Jardim:

- Nunca escolhas uma cidade para viver se não tiver jardins.

 

Junto à Faculdade de Psicologia:

- Quem não se conhece poderá ser assassino de si mesmo.

- O melhor espelho não reflecte o outro lado das coisas.

 

Entre a Faculdade de Letras e a Torre do Tombo:

- Quem não sabe de onde veio, não sabe para onde vai.

 

- Junto à Faculdade de Letras:

- Quem domina a sua língua salva a sua cabeça.

- As palavras são como a teia de aranha: para o homem habilidoso, são um abrigo; para o desajeitado, são uma armadilha.

 

- Junto à Faculdade de Direito:

- A corda para amarrar os pensamentos ainda não foi urdida.

- A mentira dá flores, mas não frutos.


No Centro Alameda da Cidade Universitário

- Quem estuda com um só mestre desconhece a abundância.

- Uma só cabeça nunca se põe de acordo.

- O bico da pena penteia a cabeleira da linguagem.

- Aquele que confessa a sua ignorância mostra-a uma vez; o que tenta escondê-la mostra-a várias vezes.

- O espírito nunca chega tão longe quanto o coração.

Passemos agora para textos com registo da autoria:

Régio:

[Algumas casas são (e muitas deveriam ser) como A Velha Casa]

Se ninguém mais o sabia – sabia ele [Lélito] que a sua casa tinha alma e nervos. (…) tinha personalidade própria (…) insubmissa às coisas e pessoas que a povoavam (…) acabava por pesar sobre os seus gestos, palavras, atitudes, sentimentos…

Queiroz:

Quem sabe se era

Dentro de algum

Lugar-comum

Que estava à espera

De nós (em vão)

A salvação?...

Torga:

Ibéria

(…)

Uma antena da Europa a receber

A voz do longe que lhe quer falar…


Estes dois versos torguianos e a realidade cultural do Campo Grande-Cidade Universitária (onde encontramos tantos estudantes do Programa Erasmus) levam-me a sonhar com um monumento escultórico, a ser colocado em frente ao edifício da Reitoria, e alusivo à União Europeia, com os seguintes versos da Ode à Alegria, de Schiller, inspiradores da nona sinfonia de Beethoven e do Hino da União Europeia:

  

Alegria, mais belo fulgor divino,

(…)

Ébrios de fogo entramos

Em teu santuário celeste!

(…)

Todos os homens se irmanam

Onde pairar teu voo suave. .

A quem a boa sorte tenha favorecido

De ser amigo de um amigo,

(…)

Rejubile-se connosco!

(…)

Abracem-se milhões de seres!

Enviem este beijo para todo o mundo!

 

Este «beijo para todo o mundo» deve ser enviado pelos estudantes da Universidade. É esta a mensagem, datada de 1534, de André de Resende e gravada no terraço fronteiro ao edifício da Reitoria: «É vosso dever conseguir, com empenho e trabalho fiéis, que a universidade de Lisboa se torne não menos celebrada em todo o mundo do que a própria cidade.»

 

Sophia:

 

O Rei de Ítaca

A civilização em que estamos é tão errada que

Nela o pensamento se desligou da mão

 

Ulisses de Ítaca carpinteirou seu barco

E gabava-se também de saber conduzir

Num campo a direito o sulco do arado        

 

Tolentino Mendonça:

- O encontro com a beleza é tão decisivo que há um antes e um depois, é uma estação nova que começa para a nossa vida.

- Talvez o que de mais significativo somos capazes de partilhar não encontre no mundo linguagem melhor do que o silêncio.

- Na diversidade das tradições religiosas e espirituais da humanidade, o silêncio é um traço de união extraordinariamente fecundo.

Apesar do aspecto caótico da actual sociedade internacional, acredito que a Humanidade poderá, a curto prazo, atingir um patamar civilizacional muito alto. Penso que podemos aplicar ao nosso tempo os versos que Mário de Sá-Carneiro utilizou, para se definir, no poema “Quasi”:

Um pouco mais de sol – eu era brasa.

Um pouco mais de azul – eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa…

(…)

Quasi o amor, quasi o triunfo e a chama

(…)

- Ai a dor de ser quasi, dor sem fim…

(…)

Aos jovens que entram agora para a Universidade é preciso dar-lhes condições para que dêem o «golpe de asa» que lhes permita propôr à ONU um provisório 31º. Artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, com uma redacção semelhante à seguinte:

Cada ser humano tem o direito (e o dever) de exigir a ele próprio e às Instituições Nacionais e Internacionais que no início da segunda metade deste século o mundo seja um Reino Maravilhoso, isto é, uma comunidade onde reine aquilo a que Torga chamava «uma paz lúdica e laboriosa».

                                                                                            «Valete, Fratres.» (Pessoa)  

José Manuel Cymbron

jose_cymbron@sapo.pt

Professor do Ensino Superior e Investigador na área do Turismo Cultural


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Opinião dos professores portugueses sobre o E@D

“Este tipo de ensino revela e acentua claramente as 
desigualdades económicas e sociais dos alunos.” 

“Estou preocupada com a privacidade dos meus dados pessoais 
e com a minha privacidade enquanto professora.”

“O ME deu abertura para que o negócio das editoras 
se apropriasse dos emails dos alunos.”

Extractos de respostas de professores portugueses ao questionário da FENPROF


Foram divulgados os resultados de um estudo promovido pela Federação Nacional dos Professores (FENPROF) cujo objectivo era conhecer a opinião dos docentes sobre o trabalho que têm realizado online, simpaticamente represetado por E@D (ver aqui e aqui). Li os documentos disponibilizados e, centrando-me nas respostas abertas transcritas, destaco as preocupações reveladas, que se me afiguram mais salientes (sem a preocupação de uma análise de conteúdo devidamente validada).
Preocupações para com a profissão:
1. Falta de identificação com a modalidade de trabalho (que não se pode chamar ensino) a que estão a ser obrigados;
2. O sentimento de experimentação subjacente a essa modalidade e também de isolamento, fazendo o que podem, mas com a consciência de estarem muito afastados do que é desejável;
3. A sobrecarga de tarefas (muitas delas burocráticas, técnicas e tecnológicas) e as infindáveis horas de trabalho que redundam num enorme cansaço;
4. Ao escrutínio imediato e directo feito pelas famílias do trabalho docente, interferindo nele, desvalorizando-o... 
Preocupações para consigo:
1. Uso dos seus equipamentos, da sua casa, dando a tutela a entender que têm obrigação de converter o seu espaço privado em espaço público, que pode ser invadido a qualquer momento;
2. Segurança quanto à sua saúde física, o risco de contrair a doença é elevado;
3. Os seus dados pessoais ficarem na internet, a sua privacidade ficar comprometida...  
Preocupações para com os alunos:
1. Manter-se o ano lectivo a funcionar para que funcione, mas, na verdade, não se adiantar significativamente a aprendizagem;
2. As tecnologias usadas de rompante geram novas desigualdade, entre os que têm um ambiente caseiro adequado para estudar e tecnologias disponíveis e os que não têm;
3. Não ser possível atender-se às especificidades de cada turma, de cada aluno;
4. Disponibilizarem-se dados pessoais (que serão bem aproveitados pelo "negócio da educação"),  à sua privacidade...
Estes (e outros) resultados geram, naturalmente, grande apreensão (bastaria um deles para que siso acontecesse), mas vejo que é, sobretudo, uma apreensão decorrente dos acontecimentos, por referência (e reacção) ao contexto, ao país e ao Ministério. Infiro que poucos foram os professores (até porque o questionário não se prestava a isso) que tiveram por referência um horizonte mais abrangente. Na verdade, vêem-se ligeiramente afloradas questões como:
- O que é que tudo isto significa na transformação da educação escolar? Para onde caminhamos? Ou onde estamos já e ainda não percebemos exactamente?
- Que papel têm os Governos no futuro da educação escolar? Em que mãos está ela, de facto?
- A quem beneficiam as mudanças que a doença precipitou? Aqueles a quem deve beneficiar ou aqueles que tiram benefícios dela?
- Feito um balanço, tem valido a pena o enorme esforço dos professores (e de alguns alunos e pais), os atropelos a valores fundamentais... em nome da escolarização? 
A FENPROF defende as condições laborais dos professores portugueses sindicalizados, logo, é compreensível que ponha aí a tónica, mas acontece que a mudança radical do trabalho docente não se restringe a um país: há uma agenda global que tem vindo a consolidar-se, conseguindo agora, com a doença, o pretexto de que precisava para se afirmar irreversível. 

É nisso que os professores, pelo menos aqueles que têm consciência do seu dever de ensinar, precisam de se concentrar, unindo-se no sentido de manter, tal como se diz na lei, a sua "nobre tarefa" num contexto relacional adequado à aprendizagem. Todos o ventos são contrários (e alguns são soprados por professores) mas, num momento tão crítico como o que passamos, é preciso encontrar o discernimento inerente à profissionalidade e agir de acordo com ela.

BURACOS NEGROS SOB UMA NOVA LUZ




O ciclo de palestras de divulgação científica “Ciência às Seis” está de volta!

O regresso será já no próximo dia 12 de Junho, pelas 18h00, dia em que o astrofísico Vítor Cardoso dará, por vídeo conferência, a palestra intitulada “Buracos negros sob uma nova luz”. Os interessados podem seguir a vídeo conferência através do link: https://us02web.zoom.us/j/4748462924?pwd=dWV3clhtWHRYUFR6ZlpDYzdSMmFCZz09

O ciclo de palestras de divulgação científica “Ciência às Seis” é uma iniciativa do Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, com coordenação do bioquímico e comunicador ciência António Piedade.

Resumo da palestra: Desde há milhares de anos que tentamos entender porque e como é que as coisas caem. Esta busca permitiu-nos entender a luz, o sistema solar, a galáxia e o próprio universo com uma precisão sem precedente. Nesta palestra vamos discutir um pouco do que aconteceu nos últimos 300 anos, com um foco especial nos últimos anos, em que vimos ondas gravitacionais e buracos negros pela primeira vez na história da humanidade.




Vítor Cardoso é Professor Catedrático no Departamento de Física do Instituto Superior Técnico, onde lidera o Grupo de Gravitação (GRIT) do CENTRA. Os seus interesses de investigação incidem sobre astrofísica e gravitação, em particular ondas gravitacionais e buracos negros e a física do espaço. É autor de um livro e de cerca de 200 artigos publicados em revistas internacionais. A sua investigação foi distinguida duas vezes pelo European Research Council. Em 2015 foi agraciado pelo Presidente da República com a Ordem de Santiago D’Espada, pelas suas contribuições para a ciência. Neste momento, é líder de um consórcio internacional de mais de 30 países europeus e centenas de cientistas, que se dedica ao estudo de ondas gravitacionais e buracos negros. É membro fundador da Sociedade Portuguesa de Relatividade e Gravitação.

Público alvo: todos os interessados em conhecimento!
Link para o evento no Facebook

domingo, 7 de junho de 2020

A HISTÓRIA DA TERRA ESCRITA NAS ROCHAS SEDIMENTARES

A história da Terra lê-se nas rochas. Com efeito, as rochas podem ser entendidas como documentos que os geólogos aprenderam e ensinam (se for caso disso) a ler. 

Os fósseis que muitas delas encerram, como é o caso das rochas sedimentares, e os minerais são duas das letras dessa escrita. Como constituintes mais peliculares da litosfera acessíveis à curiosidade dos geólogos, as rochas sedimentares constituem um domínio particularmente importante da Geologia e são o fulcro das preocupações dos sedimentólogos, uma especialização relativamente recente que se fica a dever aos interesses das grandes empresas petrolíferas. 

Armazéns ou arquivos de vultuosa informação, estas rochas têm-nos permitido descodificá-la e, assim, conhecer grande parte da história da Terra e da vida. Numa linguagem com preocupações de estilo, poder-se-ia dizer que as rochas sedimentares trazem consigo não só as marcas dos seus progenitores, mas também as das condições ambientais em que foram geradas, ou seja, como e onde nasceram. No mesmo estilo de linguagem, muitas delas revelam-nos, ainda, a data do seu nascimento. 

É, pois, nesta medida que podemos comparar as camadas de rochas sedimentares às páginas de um grande livro onde está escrita uma história com milhares de milhões de anos. Em 1941, o russo, George Gamov, físico, cosmólogo e conhecido divulgador de ciência, escreveu: "O Livro dos Sedimentos, reconstruído pelo esforço de diversas gerações de geólogos, equivale a um extensíssimo documento histórico, ao lado do qual todos os alentados volumes da História da Humanidade não passam de insignificantes opúsculos”. 

SE o cidadão abarcar os “como” e os “porquês”, os “quando” e os “onde” da dinâmica inerente aos processos que levam à génese das rochas sedimentares: 
(1) alteração das rochas em superfície por efeito dos agentes externos (meteorização), 
(2) erosão, 
(3) transporte e 
(4) sedimentação; 

SE interiorizar os principais conceitos sobre os mais variados ambientes de sedimentação (fluvial, deltaico, estuarino, lacustre, palustre, marinho litoral ou profundo, desértico, glaciário, entre outros) que hoje nos rodeiam em todas as latitudes, a ponto de os poder correlacionar com os do passado, e se souber que foram ambientes iguais ou semelhantes a esses que, ao longo de milhares de milhões de anos, estiveram na origem de uma parte substancial das rochas sedimentares e das que delas derivaram por metamorfismo e anatexia (fusão em profundidade e transformação num magma); 

SE adquirir preparação de base nestes domínios, irá entender a maravilhosa história do planeta que nos deu e assegura a vida, e deixará de olhar para a Geologia como uma disciplina desinteressante e fastidiosa, que, tantas vezes, professores não habilitados debitam, acriticamente e sem entusiasmo, por dever de ofício, matérias estereotipadas e isoladas de um todo harmonioso, matérias que o aluno decora por obrigação curricular e que lança no caixote do esquecimento, passado que foi o exame final. 

Tem sido este o quadro nas nossas escolas, amarradas ao programa oficial, onde a Geologia sempre foi subalternizada. Quadro em que o cidadão comum, marcado por uma conhecida e lamentável iliteracia geológica (e não só), cresceu e cumpriu a escolaridade obrigatória. Quadro em que, salvo as sempre honrosas excepções, cresceram e se formaram as mulheres e os homens que hoje temos na política, na administração, nas empresas, na cultura, na comunicação social. 

Na Enciclopédia (com mais de 50 volumes) de “Os Irmãos da Pureza” (nome de uma fraternidade de filósofos ismaelitas que se admite terem vivido em Bassorá, no Iraque) obra colectiva, inspirada nas filosofias pitagóricas, platónicas e neoplatónicas, aristotélicas e na do próprio Corão, acabada por volta do ano de 980, diz-se, numa notável antecipação aos conceitos modernos, que “a erosão destrói perpetuamente as montanhas e que o escorrer das águas pluviais arrasta rochedos, pedras e areia para o leito das torrentes e rios; diz-se ainda que, por seu turno, ao escoarem-se, os rios acarretam tais materiais para os pântanos, lagos e mares, onde os acumulam sob a forma de camadas sobrepostas”. 

Diga-se que o principal objectivo destes “Irmãos” era o conhecimento do Universo, na sua grande harmonia e beleza, apontando a necessidade de uma preocupação que fosse para além da existência material. No século XIII, Alberto, o Grande (1206-1280), aludia ao “lodo agarradiço e viscoso, trazido pelas águas, que cimenta a terra (material detrítico, desagregado) e a transforma em rocha dura”. 

No século XIV, Jean Buridan (circa 1300-1360), filósofo francês e reitor da Universidade de Paris, questionou algumas das concepções aristotélicas. Escrevia ele, reformulando uma ideia vinda da Antiguidade: “Onde hoje se encontra o mar foi outrora terra e, inversamente, onde a terra firme está no presente, esteve o mar e aí voltará”. 

No século XV, Leonardo da Vinci (1452-1519) admitia que “os fósseis encontrados nas montanhas eram restos de seres vivos depositados no fundo dos mares”. Polemizando entusiasticamente com os defensores de ideias conservadoras, contrárias às suas, da Vinci descreveu notavelmente os grandes processos actuais e passados da erosão, transporte, sedimentação e fossilização, numa óptica muito próxima das concepções actuais. 

No século XVII, o dinamarquês Niels Steensen (1638-1686), mais conhecido entre nós por Nicolau Steno, médico e cientista, teve papel igualmente importante na área da geologia sedimentar, no seu todo, incluindo a estratigrafia, muito antes desta disciplina se ter afirmado como tal, dizia: “se as conchas e outros restos de antigos seres vivos, encontrados nas rochas de uma dada região, são despojos de animais marinhos, as camadas que os contêm são necessariamente marinhas”, concluindo que o mar ocupara essa região. 

Por outro lado, ao dizer que “as camadas são formadas paralelamente à horizontal, em obediência à gravidade terrestre”, Steno introduziu o que ficou conhecido por “princípio da horizontalidade original”, concepção que lhe permitia concluir: “quando as camadas se encontram inclinadas, tal é devido a deformação posterior”. Uma outra sua afirmação, segundo a qual, “qualquer camada é mais moderna do que a que lhe fica por baixo e mais antiga do que a que lhe está por cima”, foi considerada o “princípio fundamental da estratigrafia”, pois mostrou que as camadas sedimentares são cada vez mais modernas à medida que se sobe na série. 

Estas afirmações constituem hoje verdades mais do que evidentes, mas foram, na época, grandes passos em frente. Com este autor, as sucessões de camadas sedimentares passaram a funcionar como “arquivos da natureza”, como lhes chamou, mais tarde, o naturalista e geólogo alemão Peter Simon Pallas (1741-1811), e o geólogo francês Faujas de Saint-Fond (1741-1819), ou como “anais do mundo físico”, no dizer do padre francês, Giraud Soulavie (1752-1813), fundador da moderna estratigrafia paleontológica. 

Por esta altura, o inglês James Hutton (1726-1797), considerado o pai da geologia moderna, ensinava que “a história da Terra pode ser decifrada a partir do estudo das rochas sedimentares estratificadas, uma vez que estas rochas se geraram de modo comparável ao dos modernos sedimentos em formação sob os nossos olhos”. Este raciocínio é hoje usado, automaticamente, sem qualquer hesitação, quando, através do estudo das rochas sedimentares, procuramos conhecer o ambiente e as condições em que foram geradas, ou seja, a “fácies”. 

Uma tal concepção, que constituiu um passo decisivo no conhecimento geológico à escala global, assenta no que foi o trabalho deste professor da Universidade de Edimburgo e o do seu concidadão Charles Lyell (1797-1895), corroborado por Charles Darwin (1809-1882) através do estudo do evolucionismo. Conhecido por “Princípio do Uniformitarismo”, do “Actualismo”, ou das “Causas Actuais”, dele se conhece a expressão que ficou clássica, “O presente é a chave do passado”. 

Esta frase diz concretamente, na situação em que aqui é usada, que qualquer corpo de rocha sedimentar foi depositado por agentes como gravidade, chuva, vento, água corrente, gelo, acções marinhas, etc., todos eles processos familiares nos dias de hoje. As rochas sedimentares, no geral, sedimentos antigos posteriormente litificados, guardam as marcas deixadas pelos ambientes e agentes deposicionais semelhantes aos actuais.

É, pois, com base neste princípio que se elaboram reconstituições paleoambientais contemporâneas das rochas sedimentares que vemos por todo o lado. Hutton dizia que “a Terra é um sistema dinâmico, cuja superfície está constantemente em transformação em virtude, não só do calor armazenado no seu interior, mas também dos efeitos causados em superfície pela energia solar”. Por outro lado, no desenvolvimento da teoria plutonista (formação de rochas magmáticas em profundidade), de que foi o protagonista mais visível, as rochas sedimentares ganharam o significado que não tinham tido até então.

Com efeito, o modelo cíclico de renovação da crosta terrestre, implícito nesta visão, resulta, segundo ele, “de um equilíbrio dinâmico entre a elevação das montanhas, por efeito do calor interno, e a sua posterior erosão”. Hutton mostrou, ainda, que os materiais resultantes desta erosão eram acumulados em sucessivas camadas sedimentares e aí consolidavam, originando rochas como conglomerados, arenitos, argilitos, calcários, entre outras. 

Ao dizer que “as camadas de rochas sedimentares foram antigos sedimentos que se transformaram em rochas”, este fundador da moderna geologia dava ênfase à petrificação ou litificação dos sedimentos, habitualmente referida por diagénese. Dizia ainda Hutton que “não via vestígios nas rochas que lhes indicassem um começo”. 

Esta outra particularidade da sua concepção cíclica trouxe, novamente, para a ribalta das grandes controvérsias científicas da época, o problema da dimensão do tempo geológico, imenso na concepção huttoniana, em contraste com os cerca de 6000 anos defendidos pela Igreja de então. 

As ideias inovadoras de Hutton, nomeadamente as referentes ao Actualismo e ao Plutonismo, marcaram o princípio do fim do Neptunismo, um tema a desenvolver num próximo texto…

A. Galopim de Carvalho

sábado, 6 de junho de 2020

A desigualdades sociais combatem-se com uma educação escolar que verdadeiramente o seja, não com recursos digitais

“Esta crise demonstrou bem como é essencial 
combater as desigualdades, 
designadamente aquelas do ensino à distância”
António Costa, Primeiro Ministro de Portugal 

A notícia corre (aqui, aqui, aqui, etc.): foi aprovado em Conselho de Ministros que, no âmbito do Programa de Estabilização Económica e Social, se gastem muitos milhões de euros na promoção do "ensino digital", pois é preciso "assegurar a universalização do acesso e utilização de recursos educativos digitais"

A designação do Programa diz tudo e, portanto, o meu comentário poderia ficar por aqui: não se trata de um programa educativo, mas de um programa de "estabilização económica e social". A formação do ser humano não está no horizonte, o que está no horizonte é a formatação de "capital humano". Logo, quanto mais dinheiro se gasta nesta formatação maior é o desvio da função formativa que é a da escola pública.

O "maravilhoso" futuro que o Programa promete - a universalização da "escola digital" - é, portanto, desassombradamente isso. Não é outra coisa. Não fico por aqui no meu comentário, vou continuar:

Leio que as escolas terão mais computadores, conectividade e licenças de ‘software’, os manuais serão desmaterializados... Lembremo-nos de que as escolas frequentados pelos filhos dos grandes empresários das tecnologias são escolas onde o papel e o lápis, o quadro e outras "antiguidades" são os recursos usados: lembremo-nos também das muitas investigações credíveis que demonstram a superioridade desses recursos relativamente aos tecnológicos (estudar num bom manual em papel não é o mesmo do que estudar num bom manual digital). Já mencionei neste blogue bibliografia que corrobora tanto uma afirmação como outra, mas se algum leitor precisar de se informar, poderei recordá-la.

Não fica por aqui o Governo: vai "também apoiar a produção de novos recursos didáticos e educativos". Reafirma-se a concepção do professor como técnico-executor. Concepção nada nova que tem permitido que uma panóplia de entidades, incluindo a tutela, considere legítimo pôr nas mãos de profissionais aquilo que lhes cabe engendrar e fazer para utilizar. Ser professor é ter essa capacidade, esse empenho de pensar em cenários e de os criar, para, nas aulas, ensinar os seus alunos.

E, de modo a que os professores apliquem, adequada e convictamente, o que quer que seja, está, ainda, previsto um "programa de capacitação digital dos docentes". Vejo serem dados passos de gigante no sentido de se obterem professores-aplicadores-de-materiais-e-operadores-de-máquinas.

Para que tudo isto seja bem acolhido na sociedade, em especial para os mais directamente implicados, usa-se o estafado argumento da igualdade social: parece que será dada “prioridade aos alunos abrangidos por apoios no âmbito da ação social escolar”. Em nome de um valor como este, que remete para outro que é a justiça social, os governos (repito, este não está só), o que têm para oferecer? Recursos digitais?

Recursos digitais que, note-se e note-se bem, uma panóplia de empresas, como é da sua natureza, faz tudo para vender.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Avança a consolidação da "barbárie tecnológica"

Não ouvi as declarações do governante a que se refere a historiadora e professora Raquel Varela, num texto que hoje publicou online com o título Por uma escola humanizada, mas confio no que diz, até porque estou inteiramente a par das recomendações supranacionais que circulam a nível global para a "Educação do Futuro" e, em particular, do "New Normal", que constitui a sua última e mais rematada versão. Estou também a par da sedutora pressão que as grandes empresas de tecnologia fazem junto dos poderes políticos, de escolas e de professores para que o ensino presencial seja substituído por inenarráveis configurações tecnológicas. E conheço o discurso (lamentavelmente) legitimador de muitos académicos.

Mas, até certo ponto, o futuro é o que quisermos que seja: Raquel Varela e outros cumprem o seu papel ao explicar a corrida que, cegamente, estamos a fazer para uma nova era de barbárie. Outros terão de se envolver, sindicatos, directores, professores, pais, académicos... E, de entre estes, destaco os directores e professores pela responsabilidade profissional que lhes toca na educação formal e da qual têm de ter plena consciência.
"Costa anunciou ontem um pacote de transição digital nas escolas. Este era o momento para anunciar redução alunos por turma, melhoria dos salários de professores e funcionários. Retorno a aulas de grande curiosidade e valor cientifico, num turno, presenciais, e deixar muitas horas livres para brincadeira e socialização, noutro turno. 
Em vez disso vai-se colar as crianças a um ecran. Este foi o momento excepcional em que aprendemos neste experimento mundial obrigados pelas medidas da pandemia que o «ensino» online não funciona – em vez disso prego a fundo rumo ao desastre. 
Os professores, até agora, empenhados e descontentes, ou reagem impedindo isto ou vão descobrir que com o ensino em casa não se livram da escola de que não gostavam (...). 
Para o país, se esta “transição” avançar, imposta sem qualquer discussão democrática, vai ser um retrocesso civilizacional. Esperamos a lista de empresas que vão vender estes pacotes ao Estado e respectivos mediadores de interesses. 
Já que vendem o último pedaço de Estado social – a educação – ao mercado, acabando com um serviço que estava fora da alçada do mercado – que nos digam de forma transparente quem vai ficar com o dinheiro dos nossos impostos, enquanto transformam os nossos filhos em autómatos, obsesos, e (ainda mais) desfuncionais do ponto de vista relacional. 
Quem acha que isto é um problema de pais, alunos e professores, que pensam na qualidade do trabalho e na felicidades das pessoas (e esse deve ser o objectivo), desengane-se. Não seremos 4 milhões os afectados, mas 10 milhões. Esta força de trabalho sairá da escola sem qualquer capacidade de pensar a totalidade, autonomia ou complexidades de raciocínio, saberão carregar o polegar num ecran (...). 
Assumi há muito com confiança o meu papel de “velho do Restelo” neste campo. Tenho anos, já décadas, de trabalho cientifico nesta matéria. Sou contra qualquer aparelho na escola, acho que os telemóveis deviam ser proibidos, até no recreio, que quadros interactivos, e mesmo o famoso power point, só servem para dispersar. 
Acho que uma escola seria apaixonante para os alunos e professores se tivesse aulas magistrais clássicas, de manhã, dadas por professores de excelência cientifica muitíssimo bem pagos, e um amplo espaço verde e de convívio livre onde o desporto, os trabalhos manuais diversos (construir coisas com as mãos) e o lazer fossem pelo menos metade do dia. Isto que assistimos é tudo o contrário do que defendo – a “transição digital” é, como já tantos no campo da filosofia alertaram, a barbárie tecnológica."

quinta-feira, 4 de junho de 2020

MAIS DESIGUAIS


Meu artigo no Público de hoje: 

São factores de risco associados à covid-19 a idade avançada e doenças crónicas como a doença coronária, a hipertensão e a diabetes. Mas um outro factor de risco, que está de resto ligado aos outros, é a debilidade económica. Com o avolumar das estatísticas, tornou-se claro, no mundo em geral e em Portugal em particular, que as pessoas mais afectadas pela pandemia têm menor poder económico. Por falta de meios ou de conhecimentos, não tomam as indispensáveis medidas de protecção. 

 A crise económica, devida à travagem da produção, está aí. Os trabalhadores em lay-off viram minguar os seus salários e o desemprego subiu, mesmo que as estatísticas ainda não o reflictam. Quem era remediado está a ficar pobre e quem já era pobre está a ficar mais pobre, por vezes miserável. Se o pico da crise sanitária já passou, pelo menos entre nós, o pico da crise económica, que favorece um eventual ressurgimento da doença, ainda está por vir. A crise económica mundial vai exceder a Grande Recessão de 2007-2009, que chegou a Portugal em força em 2011, faltando saber como se vai comparar com a Grande Depressão iniciada com a queda da bolsa em Nova Iorque em 1929.

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