segunda-feira, 15 de junho de 2020
Da excepção para a regra: o direccionamento da Escola
... a generalização cega e indiscriminada do “ensino à distância”, recentemente anunciada para o ano lectivo 2020-2021 por algumas universidades portuguesas, deve fazer-nos reflectir com alguma seriedade sobre a verdadeira natureza e o real impacto do ataque actualmente dirigido às fundações do modo de vida universitário tal como sempre o conhecemos.
Evidentemente, ninguém com um módico de bom senso negará ou diminuirá hoje, e por maioria de razão no interior da própria academia, as extraordinárias possibilidades abertas pelas plataformas digitais e pelo e-learning, as quais, como, aliás, bem sabemos, existiam muito antes da eclosão da actual pandemia. O ponto, porém, está na completa falta de equilíbrio e de sentido de proporção dos que pretendem passar de uma situação em que o e-learning ocupa um lugar necessariamente complementar e auxiliar face ao “ensino presencial”, para uma situação em que o ensino e a investigação em plataformas digitais passarão a ser a regra e a norma na vida académica.
quinta-feira, 11 de junho de 2020
UMA GRANDE AULA DE JOHN SEARLE
ELOGIO DE TRÊS ELOGIOS
BASTA DE TANTO CINISMO
terça-feira, 9 de junho de 2020
“Quasi” Ou Contributo para um Novo Paradigma das Praxes Académicas
(…) os oráculos gostam do seu clima [de Portugal],
e às vezes dão
nele respostas eternas às perguntas do
mundo.
(Torga)
Os mais
experimentados levantai-os,
(…)
Pois que sabem
O como, o quando,
e o onde as cousas cabem.
(Camões)
Estou numa fase razoavelmente adiantada de
um livro (de ficção, em boa parte) que propõe, em nove dias/capítulos, um
Itinerário em Lisboa, e que termina no Campo Grande.
Por que razão este Itinerário termina no
Campo Grande? Por dois motivos:
1º. Na dedicatória do livro digo:
- A todas as crianças e a todos os jovens.
- A todos os adultos que acreditam
que o tesouro/força que há em cada criança e em cada jovem tem que ser
lucidamente acarinhado, sob pena de se transformar em «marés de fel» (Cesário
Verde).
Acontece que no Campo Grande há uma densíssima população estudantil, desde o ensino pré-primário ao universitário.
2º. No Campo Grande existe um património
cultural com um valor equiparável, embora muito diferente, ao da zona de Belém.
Merece destaque particular a Biblioteca Nacional e o Arquivo Nacional da Torre
do Tombo. As sinergias que podem ser criadas entre estes dois tesouros e
fortalezas da palavra criariam condições perfeitas para a construção de um
Museu que a capital merece: O Museu da Lusofonia. Penso que em termos de
espaço e de orçamento as necessidades não são muito exigentes pois os dois
núcleos principais já existem (Biblioteca Nacional e Torre do Tombo). Por
detrás da Biblioteca existe um terreno com área suficiente, creio eu, para a
construção de um centro de interpretação e divulgação do património lusófono
existente não só no Campo Grande, mas em toda a cidade. Seria fundamental que
no referido Centro se valorizasse essencialmente as obras literárias dos
grandes escritores lusófonos, entre eles os que anualmente, desde a criação do
Prémio Camões (1989), vêm sendo galardoados. Os trabalhos de construção do
Museu poderiam ter início em 2021, durante a presidência da União Europeia por
Portugal, ou em 2022, ano em que Lisboa será palco das Jornadas Mundiais da
Juventude e das comemorações do 2º. Centenário da independência do Brasil e
do 1º. Centenário da viagem transatlântica de Gago Coutinho e Sacadura Cabral.
Mas o Campo Grande tem outros patrimónios
de grande valor. São eles: o Jardim, que nestes últimos dois anos foi alvo de
consideráveis melhoramentos e onde frondosas árvores oferecem sombra durante
todo o dia; o Museu da Cidade; o Museu Bordalo Pinheiro; as tapeçarias de
Portalegre da colecção da Câmara Municipal; as gravuras incisas de Almada Negreiros na Reitoria e Faculdades
de Direito e de Letras; e a azulejaria das três estações de Metro, com
particular destaque para as estações de Entre Campos e Cidade
Universitária.
No 9º. Dia do itinerário por Lisboa, chego
ao Campo Grande acompanhado por quatro gigantes da nossa literatura: José
Régio, Carlos Queiroz, Miguel Torga e Sophia de Mello Breyner (recorde-se que
todos eles nasceram nas duas primeiras décadas do século vinte, época em que
Portugal ainda era um país eminentemente rural, o que tanto contribuiu para a
força das suas obras). Pouco tempo depois junta-se a este grupo Tolentino
Mendonça. A eles pergunto o que seria importante dizer no início do ano
académico aos caloiros que estão a iniciar uma estada de pelo menos três anos
nesta zona fascinante da capital. Os cinco respondem-me que há uma
palavra-chave – ALEGRIA, e que essa «provocação do espírito que nos abeira do
milagre» (Tolentino) tem que ser trabalhada seguindo o conselho de Camões,
citado em epígrafe deste texto e que agora repito: «Os mais experimentados
levantai-os (…) pois que sabem/ O como, o quando, e o onde as cousas cabem.»
Repare-se no que nos dizem estes
escritores sobre a alegria (já foi feita uma citação de Tolentino Mendonça):
José
Régio (reproduzindo palavras da Ti’Pinheiro):
«…Que
minhas meninas! Isto de ser temente a Deus não tira duma pessoa andar alegre e
até gostar de se divertir (…) A virtude é alegre, ora não? (…) Que minhas
meninas!: cá’mim ninguém me tira desta, e o senhor padre Forjaz ainda há dias o
disse do púlpito: A virtude não precisa de carantonhas! Quem está de bem com
Deus anda contente, pois então?! Por que há-de andar macambúzio?!»
Carlos
Queiroz:
É urgente descobrir
Na flora da
fantasia,
Uma espécie de
semente
Que gere a pura
alegria
E se possa
introduzir
Nas almas de toda
a gente.
Miguel
Torga:
«No seu sentido mais profundo, a vida é bela e alegre. Todos nós tivemos já a experiência disso milhares de vezes (…). Mas, apegados como estamos à aparência de tudo, esquecemos a voz do profundo, e ouvimos deliciados o som da superfície. Temos o vício da tristeza.»
Sophia:
-
«Porque Deus nos criou para a alegria»
-
«A estrela ergueu-se muito devagar sobre o Céu, a Oriente. (…) Parecia estar
muito perto da terra. (…) Vinha desde
sempre. Mostrava a alegria, a alegria una, sem falha, o vestido sem costura da
alegria, a substância imortal da alegria.»
Tolentino
Mendonça (novamente):
O pequeno quinhão de alegria que nos resta é suficiente para relançar uma inteira vida.
Como, Quando e Onde devem estas citações,
de escritores muito «experimentados», passar para os estudantes? Comecemos pelo
Onde.
No Campo Grande: aqui eles estão em casa e
os patrimónios cultural e natural são magníficos (não esqueçamos que o jardim
tem excelentes condições para a prática de marcha e de ciclismo).
Passemos para o Quando.
Já neste texto referi a minha simpatia
pelo início do ano lectivo. E, por que não no contexto das praxes? Seria a
componente cultural de uma prática ancestral que pretende unir e dar ânimo.
Entremos agora no momento mais complexo,
mas também mais empolgante do processo de transmissão da mensagem: o Como.
Penso que é indispensável recorrer a
vários meios, mas fiquemo-nos, neste artigo, por dois: 1º. mais textos
literários; 2º. a Beleza.
António Gedeão diz-nos, na primeira parte
do poema “Homem”: «Inútil definir este animal aflito./ Nem palavras,/ nem
cinzéis,/ nem acordes,/ nem pincéis/ são gargantas deste grito./ (…)» É um
magnífico poema, mas não concordo com o poeta. Se é verdade que nenhum ramo da arte
consegue, só por si, definir o Homem, talvez seja verdadeiro afirmar que em
conjunto conseguem. Régio dizia-nos: «Procuro uma expressão integral lançando
mão de vários recursos vindos de vários ramos de arte.» E isto está ao nosso
alcance no jardim do Campo Grande. Aqui podemos dar acolhimento às «palavras»; aos
«cinzéis»; aos «acordes»; e aos «pincéis». Painéis de azulejos e esculturas de
artistas consagrados e desconhecidos (por que não estudantes?) poderiam, com um
caracter de rotatividade, ser colocados em vários pontos do jardim ilustrando a
arte da palavra.
Vejamos mais sugestões de textos, e
comecemos com propostas de Aforismos:
No Jardim:
- Nunca escolhas uma cidade para viver se não tiver jardins.
Junto à Faculdade de Psicologia:
- Quem não se conhece poderá ser assassino de si
mesmo.
- O melhor espelho não reflecte o outro lado das
coisas.
Entre a Faculdade de Letras e a Torre do Tombo:
- Quem não sabe de onde veio, não sabe para onde vai.
- Junto à
Faculdade de Letras:
- Quem domina a sua língua salva a sua cabeça.
- As palavras são como a teia de aranha: para o
homem habilidoso, são um abrigo; para o desajeitado, são uma armadilha.
- Junto à
Faculdade de Direito:
- A corda para amarrar os pensamentos ainda não foi
urdida.
- A mentira dá flores, mas não frutos.
No Centro Alameda da Cidade Universitário
- Quem estuda com um só mestre desconhece a
abundância.
- Uma só cabeça nunca se põe de acordo.
- O bico da pena penteia a cabeleira da linguagem.
- Aquele que confessa a sua ignorância mostra-a uma
vez; o que tenta escondê-la mostra-a várias vezes.
- O espírito nunca chega tão longe quanto o coração.
Passemos agora para textos com registo da autoria:
Régio:
[Algumas casas
são (e muitas deveriam ser) como A Velha Casa]
Se ninguém mais o sabia – sabia ele [Lélito] que a sua casa tinha alma e nervos. (…) tinha personalidade própria (…) insubmissa às coisas e pessoas que a povoavam (…) acabava por pesar sobre os seus gestos, palavras, atitudes, sentimentos…
Queiroz:
Quem sabe se era
Dentro de algum
Lugar-comum
Que estava à espera
De nós (em vão)
A salvação?...
Torga:
Ibéria
(…)
Uma antena da Europa a receber
A voz do longe que lhe quer falar…
Estes dois versos
torguianos e a realidade cultural do Campo Grande-Cidade Universitária (onde
encontramos tantos estudantes do Programa Erasmus) levam-me a sonhar com um
monumento escultórico, a ser colocado em frente ao edifício da Reitoria, e
alusivo à União Europeia, com os seguintes versos da Ode à
Alegria,
de Schiller, inspiradores da nona sinfonia de Beethoven e do Hino da União
Europeia:
Alegria, mais belo fulgor divino,
(…)
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
(…)
Todos os homens se irmanam
Onde pairar teu voo suave. .
A quem a boa sorte tenha favorecido
De ser amigo de um amigo,
(…)
Rejubile-se connosco!
(…)
Abracem-se milhões de seres!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Este «beijo para todo o mundo» deve ser enviado
pelos estudantes da Universidade. É esta a mensagem, datada de 1534, de André
de Resende e gravada no terraço fronteiro ao edifício da Reitoria: «É
vosso dever conseguir, com empenho e trabalho fiéis, que a universidade de
Lisboa se torne não menos celebrada em todo o mundo do que a própria cidade.»
Sophia:
O Rei de Ítaca
A civilização em
que estamos é tão errada que
Nela o
pensamento se desligou da mão
Ulisses de Ítaca
carpinteirou seu barco
E gabava-se
também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado
Tolentino Mendonça:
- O encontro com a beleza é tão decisivo que há um antes e um depois, é
uma estação nova que começa para a nossa vida.
- Talvez o que de mais significativo somos capazes de partilhar não
encontre no mundo linguagem melhor do que o silêncio.
- Na diversidade das tradições religiosas e espirituais da humanidade, o silêncio é um traço de união extraordinariamente fecundo.
Apesar do aspecto caótico da actual
sociedade internacional, acredito que a Humanidade poderá, a curto prazo,
atingir um patamar civilizacional muito alto. Penso que podemos aplicar ao
nosso tempo os versos que Mário de Sá-Carneiro utilizou, para se definir, no
poema “Quasi”:
Um pouco mais de sol – eu era brasa.
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
(…)
Quasi o amor, quasi o triunfo e a chama
(…)
- Ai a dor de ser quasi, dor sem fim…
(…)
Aos jovens que entram agora para a
Universidade é preciso dar-lhes condições para que dêem o «golpe de asa» que
lhes permita propôr à ONU um provisório 31º. Artigo da Declaração Universal dos
Direitos Humanos, com uma redacção semelhante à seguinte:
Cada ser humano tem o direito (e o dever) de exigir a ele próprio e às Instituições Nacionais e Internacionais que no início da segunda metade deste século o mundo seja um Reino Maravilhoso, isto é, uma comunidade onde reine aquilo a que Torga chamava «uma paz lúdica e laboriosa».
«Valete, Fratres.» (Pessoa)
José Manuel Cymbron
Professor do Ensino Superior e Investigador na área do Turismo Cultural
segunda-feira, 8 de junho de 2020
Opinião dos professores portugueses sobre o E@D
Preocupações para com a profissão:1. Falta de identificação com a modalidade de trabalho (que não se pode chamar ensino) a que estão a ser obrigados;2. O sentimento de experimentação subjacente a essa modalidade e também de isolamento, fazendo o que podem, mas com a consciência de estarem muito afastados do que é desejável;3. A sobrecarga de tarefas (muitas delas burocráticas, técnicas e tecnológicas) e as infindáveis horas de trabalho que redundam num enorme cansaço;4. Ao escrutínio imediato e directo feito pelas famílias do trabalho docente, interferindo nele, desvalorizando-o...
Preocupações para consigo:1. Uso dos seus equipamentos, da sua casa, dando a tutela a entender que têm obrigação de converter o seu espaço privado em espaço público, que pode ser invadido a qualquer momento;2. Segurança quanto à sua saúde física, o risco de contrair a doença é elevado;3. Os seus dados pessoais ficarem na internet, a sua privacidade ficar comprometida...
Preocupações para com os alunos:1. Manter-se o ano lectivo a funcionar para que funcione, mas, na verdade, não se adiantar significativamente a aprendizagem;2. As tecnologias usadas de rompante geram novas desigualdade, entre os que têm um ambiente caseiro adequado para estudar e tecnologias disponíveis e os que não têm;3. Não ser possível atender-se às especificidades de cada turma, de cada aluno;4. Disponibilizarem-se dados pessoais (que serão bem aproveitados pelo "negócio da educação"), à sua privacidade...
- O que é que tudo isto significa na transformação da educação escolar? Para onde caminhamos? Ou onde estamos já e ainda não percebemos exactamente?- Que papel têm os Governos no futuro da educação escolar? Em que mãos está ela, de facto?- A quem beneficiam as mudanças que a doença precipitou? Aqueles a quem deve beneficiar ou aqueles que tiram benefícios dela?- Feito um balanço, tem valido a pena o enorme esforço dos professores (e de alguns alunos e pais), os atropelos a valores fundamentais... em nome da escolarização?
BURACOS NEGROS SOB UMA NOVA LUZ
domingo, 7 de junho de 2020
A HISTÓRIA DA TERRA ESCRITA NAS ROCHAS SEDIMENTARES
sábado, 6 de junho de 2020
A desigualdades sociais combatem-se com uma educação escolar que verdadeiramente o seja, não com recursos digitais
sexta-feira, 5 de junho de 2020
Avança a consolidação da "barbárie tecnológica"
"Costa anunciou ontem um pacote de transição digital nas escolas. Este era o momento para anunciar redução alunos por turma, melhoria dos salários de professores e funcionários. Retorno a aulas de grande curiosidade e valor cientifico, num turno, presenciais, e deixar muitas horas livres para brincadeira e socialização, noutro turno.
Em vez disso vai-se colar as crianças a um ecran. Este foi o momento excepcional em que aprendemos neste experimento mundial obrigados pelas medidas da pandemia que o «ensino» online não funciona – em vez disso prego a fundo rumo ao desastre.
Os professores, até agora, empenhados e descontentes, ou reagem impedindo isto ou vão descobrir que com o ensino em casa não se livram da escola de que não gostavam (...).
Para o país, se esta “transição” avançar, imposta sem qualquer discussão democrática, vai ser um retrocesso civilizacional. Esperamos a lista de empresas que vão vender estes pacotes ao Estado e respectivos mediadores de interesses.
Já que vendem o último pedaço de Estado social – a educação – ao mercado, acabando com um serviço que estava fora da alçada do mercado – que nos digam de forma transparente quem vai ficar com o dinheiro dos nossos impostos, enquanto transformam os nossos filhos em autómatos, obsesos, e (ainda mais) desfuncionais do ponto de vista relacional.
Quem acha que isto é um problema de pais, alunos e professores, que pensam na qualidade do trabalho e na felicidades das pessoas (e esse deve ser o objectivo), desengane-se. Não seremos 4 milhões os afectados, mas 10 milhões. Esta força de trabalho sairá da escola sem qualquer capacidade de pensar a totalidade, autonomia ou complexidades de raciocínio, saberão carregar o polegar num ecran (...).
Assumi há muito com confiança o meu papel de “velho do Restelo” neste campo. Tenho anos, já décadas, de trabalho cientifico nesta matéria. Sou contra qualquer aparelho na escola, acho que os telemóveis deviam ser proibidos, até no recreio, que quadros interactivos, e mesmo o famoso power point, só servem para dispersar.
Acho que uma escola seria apaixonante para os alunos e professores se tivesse aulas magistrais clássicas, de manhã, dadas por professores de excelência cientifica muitíssimo bem pagos, e um amplo espaço verde e de convívio livre onde o desporto, os trabalhos manuais diversos (construir coisas com as mãos) e o lazer fossem pelo menos metade do dia. Isto que assistimos é tudo o contrário do que defendo – a “transição digital” é, como já tantos no campo da filosofia alertaram, a barbárie tecnológica."








