Texto que nos foi enviado pelo Professor Galopim de Carvalho e que agradecemos.
É nesta Terra, o Planeta Azul, envolto nos farrapos brancos das nuvens, que reside tudo o que temos: o ar que respiramos, a água que bebemos, o chão que pisamos e nos dá o pão. É só com isto que contamos para viver, nós, os nossos filhos e netos e as gerações que lhes possam suceder.
É, pois, fundamental, conhecer melhor esta “nossa casa” que nos transporta através da imensidão do espaço, à velocidade de 30 Km por segundo.
O nosso Planeta, velho de quase quatro mil e seiscentos milhões de anos, lar da biodiversidade, incluindo a humanidade inteira, não foi sempre como hoje o conhecemos. Esta nossa Terra é o resultado de uma longa e complexa evolução, e o homem é o fruto mais jovem dessa mesma evolução, numa cadeia imensa de interrelações em que participaram as rochas, a água, o ar e todos os seres vivos. A geologia mostra, com efeito, que a litosfera, a hidrosfera, a atmosfera e a biosfera, interagiram ao longo de milhões e milhões de anos. E o resultado dessa interacção é o mundo em que vivemos.

Na nossa sociedade, dita de desenvolvimento e em vias de globalização, em que o poder político se submete desavergonhadamente ao poder do dinheiro, em que se privatizam os lucros da produção, tantas vezes poluente, e se socializam os efeitos negativos dessa poluição, interessa ao cidadão conhecer melhor esta “nossa casa”, a fim de bem avaliar os problemas que se lhe põem no seu relacionamento com o ambiente natural.
O grau de complexidade da matéria a que chegámos foi crescente desde o início do tempo, isto é, nos cerca de 13 700 milhões de anos (com uma margem de erro de 200 milhões) de existência do Universo que julgamos conhecer. Das partículas primordiais passou-se aos átomos e, só depois, às moléculas, cada vez mais complexas. A partir destas, a evolução caminhou no sentido das células mais primitivas, que fizeram a sua aparição na Terra há mais de 3 800 milhões de anos, através de uma cadeia, inicialmente abiótica, de estádios progressivamente mais elaborados, onde o ensaio e o erro tiveram a seu favor 75% ou mais dessa enormidade de tempo.
Dos seres unicelulares mais rudimentares aos primeiros metazoários, surgidos há cerca de 600 milhões de anos (fauna de Ediacara, na Austrália), foi consumido mais cerca de 20% desse mesmo tempo. Restou, pois, pouco mais de 5% para que, numa nova cadeia de complexidade crescente e a ritmo cada vez mais acelerado, se caminhasse dos invertebrados primitivos à espécie humana.
Do nosso aparecimento no Planeta Azul (onde julgamos ocupar o topo da escala biológica) aos dias de hoje, foi um passo de apenas 0,0001% do tempo universal. Face à eternidade que falta cumprir a este nosso planeta, estimada em mais cerca de cinco a seis mil milhões de anos, a presença do Homem na natureza é ainda extraordinariamente curta, insignificante e, portanto, passível de erro e de extinção, como aconteceu no passado geológico com inúmeras espécies.
O Homem, feito dos mesmos átomos de que são feitas as estrelas, os minerais, as plantas, os outros animais e tudo o mais que existe, é matéria que adquiriu complexidade tal que se assumiu com capacidade de se interrogar, de se explicar e de intervir no seu próprio curso e no do ambiente onde foi “fabricado”. Ele é um estado muito avançado de combinação dessa mesma matéria, capaz de fazer aquilo a que chamamos Ciência, isto é, observar, descrever, relacionar, explicar, induzir, prever. O Homem, na sua possibilidade de adquirir conhecimento e de o transmitir, é a manifestação mais elaborada da realidade física do mundo que conhecemos, na qual foi consumida a totalidade do tempo do universo.
Assim, a Ciência, através do Homem, pode ser entendida também como expoente máximo da matéria que se questiona a si própria. Acreditamos (mas podemos estar enganados) que a natureza “pensa” através do cérebro humano e, assim, podemos aceitar que o Homem dá voz à natureza. Tais capacidades colocam-nos a nós, humanos, numa posição de grande vantagem entre os nossos pares no todo natural.
Podemos, então, perguntar «
temos nós o direito de gerir a natureza em nosso proveito, sobrexplorando-a e agredindo-a como tem sido regra, sobretudo a partir da Revolução Industrial, no séc. XIX, e, com particular intensidade, nas últimas décadas?».

O nosso planeta, no quadro em que se nos apresenta hoje, é o resultado de um sem número de vicissitudes, muitas delas catastróficas (vulcanismo, colisões de asteróides e cometas, entre outras), sofridas ao longo da sua velhíssima história. Contudo, e em consonância com o geólogo inglês, James Ephraim Lovelock, na sua hipótese “Gaia”, divulgada em 1972, a Terra é um corpo que se auto-regula e, como tal, sempre soube encontrar resposta a todas essas agressões e vai, sem dúvida, continuar a fazê-lo. Os danos que lhe podemos causar, no mau uso que dela estamos a fazer, é mudar-lhe as condições que nos são favoráveis e que bem conhecemos, dando origem a outras, ainda desconhecidas, que nos poderão ser altamente adversas. Assim, ao atentar contra a natureza, o Homem está, certamente, a atentar também contra si próprio, contra a humanidade.
Numa ânsia desenfreada de lucro e de prazer, a civilização industrial incontrolada pode desencadear uma nova extinção em massa que, certamente, a vitimará a ela também. Porém, o planeta – e os geólogos têm consciência disso – irá prosseguir, mesmo sem a inteligência humana, e acabará por encontrar novos caminhos, em obediência apenas às leis da física, incluindo as do acaso, podendo voltar a ensaiar um outro ser inteligente ou, até, mais inteligente do que esta versão moderna do
Homo sapiens, que somos nós. Para tal só necessita de tempo, de muito tempo, e isso não lhe irá faltar.
À pergunta generalizada «perante quem deve o Homem prestar contas da maneira como decide articular-se com a natureza?» a resposta é, sem dúvida, «aos outros homens!».
É, com efeito, à Sociedade, que cada um de nós tem de responder pelo poder de decisão e pela liberdade de acção que as nossas imensas capacidades nos conferem.
Se o Homem deu voz à natureza, a Sociedade deu-lhe ética e assume-se no direito de estabelecer regras entre os seus pares no usufruto deste vasto condomínio.
Sendo certo que a capacidade de intervenção de cada indivíduo, como elemento consciente desta mesma Sociedade, está na razão directa das suas convenientes informação e formação, importa, pois, incrementá-las. E incrementá-las é facultar-lhe o acesso aos conhecimentos que, continuamente, a ciência nos vem revelando.
A. Galopim de Carvalho
Texto adaptado do livro do autor “COMO BOLA COLORIDA – A TERRA, PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE”, Âncora Editora, Lisboa, 2007.