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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Uma enorme tentação

Imagem retirada daqui.
Estar em todo o lado, mas mesmo todo o lado,
tudo ver e tudo ouvir,
saber, a qualquer momento, o que as pessoas fazem, dizem e, até, pensam e sentem,
e, depois, cada uma delas,
para controlar, seja de que maneira for,
tem sido é um dos sonhos mais acalentados pelo Homem.

Ser ubíquo, aproximar o poder (pessoal, de grupo, institucional, seja ele qual for) ao poder de Deus, é uma grande, uma enorme tentação.

Neste tempo em que vivemos, temos finalmente, os meios disponíveis, o que nos pode deter?

Isto a propósito de uma notícia lida aqui e aqui.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Em nome de quê?

O direito à privacidade e à dignidade, que tanto custaram a gerações passadas conquistar são, a cada dia que passa, negligenciados, ignorados ou negados.

Em nome da segurança, em nome da transparência, em nome sei lá de quê, as instituições que deviam defender esses direitos, procedem inexplicavelmente de modo contrário.

Tenho anotado no De Rerum Natura várias situações críticas, mas, neste como noutros casos, a realidade supera a imaginação. De facto, estaria fora do meu alcance imaginar que o próprio Estado pudesse sequer considerar a possibilidade de divulgar dados como o que o leitor encontra nesta notícia do jornal Público de ontem.

terça-feira, 28 de maio de 2013

O passo era pequeno

Imagem copiada daqui.
Há bastante tempo que o mundo sabe (ou seja, que nós sabemos) que alguns países, usam drones para espiar e para matar. Face ao argumento da segurança corroboramos a medida, resignamo-nos a conviver com ela ou, simplesmente, encolhemos os ombros, temos mais em que matutar.

Como seria bom de ver, o passo era pequeno, muito pequeno para que estes instrumentos passassem a estar para outros domínios. E ele aí está (teria havido passos anteriores que desconhecemos?): uma companhia de caminhos-de-ferro vai usá-los com o argumento da higiene ou algo parecido (reduzir os graffiti). É um argumento que também nos serve, é quase tão aceitável com a segurança. E hão-de aparecer mais... Todos eles serão apresentados a favor do cidadão comum, como forma de assegurar os seus direitos fundamentais; nunca contra ele, nunca pondo em causa a sua liberdade...

Substituiremos, por todo o mundo civilizado, as obsoletas câmaras de filmar fixas por estas maravilhas da técnica, móveis e programáveis cada vez mais pequenas, dissimuladas, sofisticadas, rápidas, eficazes... Sem lhe sentirmos a presença, elas andarão à nossa volta pelas ruas, pelos supermercados, pelos teatros, pelas prisões, pelos museus, pelos hospitais, pelos jardins, pelas repartições públicas, pelas escolas, talvez pelas nossas casas...

Acharemos normal que assim seja, pois o apertar do cerco sobre as pessoas, o controlo sobre o que fazem, pensam e sentem tem sido primorosamente acompanhado de uma educação soft, que usurpa o conhecimento e barra a conquista do discernimento. A obra tem sido de mestre! Conseguimos o "panóptico", senhor Jeremy Bentham (1791), conseguimos, mesmo, o panóptico senhor Michel Foucault (1975), perfeitinho!

A aqui vou-me permitir discordar de Albert Einstein: preocupo-me "com o futuro pois ele chega sempre cedo de mais".


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Andar nas nuvens para sempre...

Li hoje que uma escola (privada) do nosso país despediu dois dos seus professores. A razão é uma fotografia que terão publicado no Facebook. A revista Visão online informa que é "o primeiro caso de conflito laboral que chega a julgamento em Portugal".

A propósito, em boa hora, os jornalistas Mário David Campos e Luís Ribeiro perguntam: Qual a fronteira entre a vida pessoal e a vida profissional? 

E especificam: Num mundo cada vez mais online (...) que ética deve seguir um funcionário, mesmo fora do horário de trabalho? Como se defende um dos valores fundamentais de uma sociedade democrática (...) a liberdade de expressão? Como ter um perfil (mesmo) privado?

A terminar, lembram aquilo que todos os utilizadores da internet deveriam saber:
Depois de cair na rede é quase impossível sair de lá. E mesmo que feche o perfil, os seus dados vão andar na "nuvem" para sempre. Por isso tome algumas precauções:
- Tenha atenção às definições de privacidade. Isso não o protege daquilo que comenta nas páginas de outros mas dá-lhe mais garantias na sua página;
- Um dos truques para evitar problemas com colegas de trabalho (ou com os chefes) é organizá-los em listas, colocando-os como conhecidos e não como amigos. Assim, se lhe sair um desabafo menos agradável sobre o chefe, ele não o lê;
- Adicione apenas pessoas que conheça e não amigos de amigos;
- Tenha cuidado com o que escreve e com as fotografias que coloca, inclusive a de perfil. Mesmo que retire o que lá colocou, a informação pode já ter sido partilhada;
- Reveja as definições periodicamente. Quando surgem novas funcionalidades, por vezes sofrem alterações.

domingo, 28 de abril de 2013

... porque os velhos não querem morrer.

José Cunha Rodrigues, ex-Procurador-Geral da República e ex-Juiz do Tribunal de Justiça da União Europeia, foi entrevistado, a vinte deste mês, por António José Teixeira no programa A Propósito da SIC.

Nessa entrevista, num determinado momento, para explicar melhor o "pensamento societal" que tomou conta do pensamento colectivo, contou um episódio singelo de que tinha tido conhecimento: uma professora pediu aos seus meninos para dizerem o que, no seu entender, justifica a crise de que toda a gente fala.

Um dos meninos respondeu: "porque os velhos não querem morrer".

O menino, na sua inocência, deu tal resposta como poderia ter dado outra resposta qualquer que pairasse no ar, mas, insinuando-se esta de modo forte, ele não podia deixar de a apreender; depurou-a dos artifícios de que os adultos se socorrem para ficarem sempre bem vistos e verbalizou-a, certamente, num sorriso.

Dizem os psicólogos sociais que uma boa forma de aferir estereótipos é inquirir crianças porque, sem terem aprimorado a filtragem da desejabilidade social, captam-nos e reproduzem-nos na sua forma mais genuína.

Devem, por isso, as suas respostas fazer-nos pensar naquilo que, como adultos, pensamos.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A praça virtual

A relativização cultural constitui, como se sabe, um ingrediente fundamental dos discursos contemporâneos do mais diverso teor. No livro A última palavra, o filósofo Thomas Nagel chamou a atenção para a tendência de vermos tudo como relativo, menos, evidentemente, a afirmação de que tudo é relativo, a qual é, dogmaticamente, apresentada como uma evidência.

À parte a irritação causada pela consciência da fragilidade desse ingrediente e da incoerência de que padece, poderíamos conviver com isso. O problema é que, sob a capa, sempre "politicamente correcta", da relativização cultural ligada à necessidade de tudo contextualizar em múltiplos ethos, escondem-se tenebrosas imposições financeiras e ideológicas, entre outras, que chegam aos mais diversos cantos do mundo de modo uniforme e com propósitos de uniformização.

A formatação das mentes está, pois, a correr muito bem por todo o lado, porquanto dispõem agora os formatadores de um caldo de pensamento nebuloso que tudo acolhe airosamente, bem como de extraordinários meios tecnológicos para veicular e controlar os seus propósitos.

O contexto é tão perfeito que os anteriores formatadores só poderiam almejá-lo em sonhos: permite-lhe, nada mais nada menos do que aceder, simultaneamente, ao estatuto de Deus o do Diabo. 

Estabelecidos os fins e as regras para proveito próprio (nunca para proveito de outrém), como Deus, omnipresentes, seguem cada corpo que se arrogam tutelar, vigiam cada uma das suas mais ínfimas e íntimas manifestações; como o Diabo, sempre a espreitar a oportunidade, quando não apanham pecados, agarram-se a pecadilhos que elevam a estatuto de crime.

Desconhecem a decência, o respeito, o pudor e qualquer outro sentimento humano. A praça é o seu território, tanto como estratégia de ameaça como espaço para ajuste de contas. O público, que aumenta a cada dia, rejubila com a mágoa e ainda mais com a dor... exige mais e mais.

Este é o cenário que vislumbro por detrás da lamentável história (que se pode ler aqui) de uma jovem japonesa cantora, a quem o empresário impôs castidade. A falta ao estranho e abusivo compromisso foi descoberta e, como punição, dada a conhecer ao mundo. A jovem aparece num vídeo feito para constar na internet, de cabeça rapada como sinal de luto. Entre soluços pede desculpa e implora o regresso ao grupo de onde foi escorraçada.

Os jornalistas que têm reproduzido esta notícia não deixam uma única palavra de análise ou de apreensão.

Quem leu o livro Hiroshima, Meu Amor, de Marguerite Duras ou viu o filme de Alain Resnais (a imagem é desse filme), perceberá os contornos pouco visíveis dessa história que parece tão distante no espaço, mas que é, afinal, tão próxima

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

ESTA “NOSSA CASA”

Texto que nos foi enviado pelo Professor Galopim de Carvalho e que agradecemos.

É nesta Terra, o Planeta Azul, envolto nos farrapos brancos das nuvens, que reside tudo o que temos: o ar que respiramos, a água que bebemos, o chão que pisamos e nos dá o pão. É só com isto que contamos para viver, nós, os nossos filhos e netos e as gerações que lhes possam suceder.

É, pois, fundamental, conhecer melhor esta “nossa casa” que nos transporta através da imensidão do espaço, à velocidade de 30 Km por segundo.

O nosso Planeta, velho de quase quatro mil e seiscentos milhões de anos, lar da biodiversidade, incluindo a humanidade inteira, não foi sempre como hoje o conhecemos. Esta nossa Terra é o resultado de uma longa e complexa evolução, e o homem é o fruto mais jovem dessa mesma evolução, numa cadeia imensa de interrelações em que participaram as rochas, a água, o ar e todos os seres vivos. A geologia mostra, com efeito, que a litosfera, a hidrosfera, a atmosfera e a biosfera, interagiram ao longo de milhões e milhões de anos. E o resultado dessa interacção é o mundo em que vivemos.


Na nossa sociedade, dita de desenvolvimento e em vias de globalização, em que o poder político se submete desavergonhadamente ao poder do dinheiro, em que se privatizam os lucros da produção, tantas vezes poluente, e se socializam os efeitos negativos dessa poluição, interessa ao cidadão conhecer melhor esta “nossa casa”, a fim de bem avaliar os problemas que se lhe põem no seu relacionamento com o ambiente natural.

O grau de complexidade da matéria a que chegámos foi crescente desde o início do tempo, isto é, nos cerca de 13 700 milhões de anos (com uma margem de erro de 200 milhões) de existência do Universo que julgamos conhecer. Das partículas primordiais passou-se aos átomos e, só depois, às moléculas, cada vez mais complexas. A partir destas, a evolução caminhou no sentido das células mais primitivas, que fizeram a sua aparição na Terra há mais de 3 800 milhões de anos, através de uma cadeia, inicialmente abiótica, de estádios progressivamente mais elaborados, onde o ensaio e o erro tiveram a seu favor 75% ou mais dessa enormidade de tempo.

Dos seres unicelulares mais rudimentares aos primeiros metazoários, surgidos há cerca de 600 milhões de anos (fauna de Ediacara, na Austrália), foi consumido mais cerca de 20% desse mesmo tempo. Restou, pois, pouco mais de 5% para que, numa nova cadeia de complexidade crescente e a ritmo cada vez mais acelerado, se caminhasse dos invertebrados primitivos à espécie humana.

Do nosso aparecimento no Planeta Azul (onde julgamos ocupar o topo da escala biológica) aos dias de hoje, foi um passo de apenas 0,0001% do tempo universal. Face à eternidade que falta cumprir a este nosso planeta, estimada em mais cerca de cinco a seis mil milhões de anos, a presença do Homem na natureza é ainda extraordinariamente curta, insignificante e, portanto, passível de erro e de extinção, como aconteceu no passado geológico com inúmeras espécies.

O Homem, feito dos mesmos átomos de que são feitas as estrelas, os minerais, as plantas, os outros animais e tudo o mais que existe, é matéria que adquiriu complexidade tal que se assumiu com capacidade de se interrogar, de se explicar e de intervir no seu próprio curso e no do ambiente onde foi “fabricado”. Ele é um estado muito avançado de combinação dessa mesma matéria, capaz de fazer aquilo a que chamamos Ciência, isto é, observar, descrever, relacionar, explicar, induzir, prever. O Homem, na sua possibilidade de adquirir conhecimento e de o transmitir, é a manifestação mais elaborada da realidade física do mundo que conhecemos, na qual foi consumida a totalidade do tempo do universo.

Assim, a Ciência, através do Homem, pode ser entendida também como expoente máximo da matéria que se questiona a si própria. Acreditamos (mas podemos estar enganados) que a natureza “pensa” através do cérebro humano e, assim, podemos aceitar que o Homem dá voz à natureza. Tais capacidades colocam-nos a nós, humanos, numa posição de grande vantagem entre os nossos pares no todo natural.

Podemos, então, perguntar «temos nós o direito de gerir a natureza em nosso proveito, sobrexplorando-a e agredindo-a como tem sido regra, sobretudo a partir da Revolução Industrial, no séc. XIX, e, com particular intensidade, nas últimas décadas?».

O nosso planeta, no quadro em que se nos apresenta hoje, é o resultado de um sem número de vicissitudes, muitas delas catastróficas (vulcanismo, colisões de asteróides e cometas, entre outras), sofridas ao longo da sua velhíssima história. Contudo, e em consonância com o geólogo inglês, James Ephraim Lovelock, na sua hipótese “Gaia”, divulgada em 1972, a Terra é um corpo que se auto-regula e, como tal, sempre soube encontrar resposta a todas essas agressões e vai, sem dúvida, continuar a fazê-lo. Os danos que lhe podemos causar, no mau uso que dela estamos a fazer, é mudar-lhe as condições que nos são favoráveis e que bem conhecemos, dando origem a outras, ainda desconhecidas, que nos poderão ser altamente adversas. Assim, ao atentar contra a natureza, o Homem está, certamente, a atentar também contra si próprio, contra a humanidade.

Numa ânsia desenfreada de lucro e de prazer, a civilização industrial incontrolada pode desencadear uma nova extinção em massa que, certamente, a vitimará a ela também. Porém, o planeta – e os geólogos têm consciência disso – irá prosseguir, mesmo sem a inteligência humana, e acabará por encontrar novos caminhos, em obediência apenas às leis da física, incluindo as do acaso, podendo voltar a ensaiar um outro ser inteligente ou, até, mais inteligente do que esta versão moderna do Homo sapiens, que somos nós. Para tal só necessita de tempo, de muito tempo, e isso não lhe irá faltar. À pergunta generalizada «perante quem deve o Homem prestar contas da maneira como decide articular-se com a natureza?» a resposta é, sem dúvida, «aos outros homens!». É, com efeito, à Sociedade, que cada um de nós tem de responder pelo poder de decisão e pela liberdade de acção que as nossas imensas capacidades nos conferem.

Se o Homem deu voz à natureza, a Sociedade deu-lhe ética e assume-se no direito de estabelecer regras entre os seus pares no usufruto deste vasto condomínio. Sendo certo que a capacidade de intervenção de cada indivíduo, como elemento consciente desta mesma Sociedade, está na razão directa das suas convenientes informação e formação, importa, pois, incrementá-las. E incrementá-las é facultar-lhe o acesso aos conhecimentos que, continuamente, a ciência nos vem revelando.

A. Galopim de Carvalho

Texto adaptado do livro do autor “COMO BOLA COLORIDA – A TERRA, PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE”, Âncora Editora, Lisboa, 2007.

sábado, 12 de janeiro de 2013

QUERO...

QUERO

Que deixes de fumar
Que uses o cinto de segurança
Que comas legumes
Que não te ponhas ao Sol
Que emagreças
Que garantas a segurança aos teus filhos no banco traseiro
Que fales de questões raciais
Que uses preservativo
Que te ofereças como voluntário
Que comas menos carne vermelha

Em torno de um cartaz do Tio Sam apontando um dedo ao leitor (1997)

(Reprodução duma nota do capítulo Vida e tempos demócritos da extraordinária obra Da alvorada à decadência, de Jacques Barzun, Gradiva, 2003, página 763).

João Bénard da Costa explicou clara e ironicamente a ideologia que se infiltra em cada uma destas frases. Não é comum isso ser reconhecido e muito menos contestado, sobretudo em público, pois sobre quem o faz recaem, de imediato, vários anátemas pouco confortáveis de que o próprio tem dificuldade em se defender.

Tal acontece porque qualquer frase deste tipo apresenta-se invariavelmente como "a" verdade, "a única" verdade. A verdade "natural", "evidente", que qualquer um com o mínimo de discernimento a reconhece e aceita como se da verdade divina se tratasse. A verdade "bondosa", que salva, a única que salva (seja da morte espiritual, da morte física, ou de outra qualquer morte), estando, por isso, acima de qualquer suspeição e, logo, de crítica.

Por isso, esta verdade "tendo de" ser levada a todos e a cada um, sendo que todos e cada um "têm de" acolhê-la inequívoca e alegremente no seu modo de pensar, sentir e agir.

Estamos, como se perceberá, no campo da ideologia.

Mas (e aqui que está o carácter distintivo das ideologias) nunca se dando a entender a origem particular das "verdades", os seus mentores particulares, os seus propósitos particulares... E muito menos dar a conhecer o modo muito específico e organizado como opera.

Porque a real essência e manifestação da ideologia é a mistificação. Uma mistificação de tal modo perfeita que oculta a sua real essência e manifestação.

Leni Riefenstahl teve este vislumbre e conseguiu traduzi-lo genialmente no Triunfo da Vontade

Se ao menos filmes como este conseguissem fazer perceber (no fundo, desmistificar) (algumas) ideologias do presente... Ideologias que convergem para a escola ocidental e de que ela está completamente refém...

Volte o leitor ao texto reproduzido por Barzun e pense em cada linha...

QUERO...

Não é o "bem" maternalista (mais do que paternalista), o "bem" superior pré-estabelecido que ali se torna imposição?

sábado, 5 de janeiro de 2013

A confusão

Há um ano A.S decidiu mudar de vida. Deixou o trabalho que tinha e lançou-se na aventura de viver 11 meses e 11 dias com 1111 euros. Em troca das coisas de que precisava fez de tudo: maquilhagem, currículos, limpezas e até alimentou galinhas. Agora já não tem mil euros, mas não vai voltar a trabalhar.
O extracto acima, dum texto recente do jornal Público, levou-me a abrir a ligação do blogue de A.S., um diário centrado numa experiência pessoal. O tom é mais do que entusiástico, é eufórico...
Nestes dois dias recebi mais de 2000 subscrições, mais de 1500 pedidos de amigos, uma data de convites para dar palestras, entrevistas para a tv e rádio e inúmeras trocas, tais como: telecomunicações, calças usadas, gelado e bolas de berlim, horta de cogumelos, alojamento em Cabo Verde, almoços e jantares, retratos em caricatura, a revisão do meu livro, a edição do meu livro em formato digital... eu sei lá!!!
Este discurso é apenas um exemplo dos muitos discursos ligeiros, sintonizados e alheados do real, que têm sido acolhidos e corroborados na comunicação social.

Para perceber o seu sentido e implicações é importante retomar a diferença, a enorme diferença, entre "frugalidade", como opção de vida, e "pobreza", como acidente de vida, feita aqui por Norberto Pires.

Diferença que devia ser tida em conta pelos jornalistas, que, em tempos mais recentes, têm, muito airosamente e sem ponta de crítica, insistido no "relato de casos" de pessoas que dizem viver felizes à míngua. Melhor, que por viverem à míngua, acabam (enfim!) por se encontrarem a si próprias, por encontrarem um sentido para a sua vida, por encontrarem sei-lá-mais-o-quê... A míngua é, pois, a «condição» de plenitude.

O livre arbítrio, que necessariamente recai sobre cada um de nós, pode conduzir-nos a essa escolha, que alguns considerarão franciscana mas que terão de aceitar como legítima, tão legítima quanto outra qualquer escolha adulta e responsável.

O problema não está aí, o problema está na falta de discussão de tal «condição», sobretudo quando emerge em toda a sua pujança, confundindo pobreza com frugalidade. Confusão que é particularmente grave em tempos perigosos, como os que atravessamos, em que a mistificação avança e submete cada um a desígnios que não escolheu.

Concretizo esta afirmação socorrendo-me de três aspectos que entendo serem os mais óbvios.

(1) Essa falta de discussão faz passar a mensagem oculta, mas fortíssima, de que os bens materiais a que nos «acostumámos» e tomámos como certos, seguros e eternos, mesmo os mais elementares - trabalho, casa, alimentos disponíveis no frigorífico, uns trocos no bolso... - não são fundamentais.

(2) Daí decorre facilmente a generalização: só o desprendimento (por parte de todos) desses bens materiais, acessórios e obstaculizantes, conduzem (sem qualquer sacrifício, antes com alegria) à verdadeira existência.

(3) A ausência de crítica relativamente aos dois aspectos anteriores afasta a atenção de carências materiais que são uma realidade bem concreta para cada vez mais pessoas, que, de repente e sem terem feito qualquer opção, deram consigo e com os seus no estado de pobreza. Mais do que isso, obscurece essas carências, e as angústias que desencadeiam, bem como a possibilidade de se pensar em alternativas dignas.

Em suma, essa confusão redunda em (mais) uma manifestação do «politicamente correcto»: quem se desvia do discurso ascético deve tratar de perceber que está no caminho errado e, naturalmente, desalinhado. Resta-lhe, portanto, alinhar-se, sob pena de ser apontado, punido, excluído...

Esta estratégia é muito usada por governantes, porque, infelizmente, a verdade está longe de constituir o cerne das suas preocupações. Sabemos isso e defendemo-nos, reagimos. Mas o mesmo não acontece quando passa para a lavra de jornalistas, que ainda acreditamos terem um compromisso com a verdade, apurada e validada a partir de diversos ângulos.

A terminar, volto a Norberto Pires: "muitas vezes essa «confusão» é intencional e tem objetivos obscuros (entram aqui conceitos ideológicos muito perigosos), outras vezes é o resultado de se falar com o coração (sob efeito da emoção) e não se prestar a devida atenção ao que diz".

De facto, não sei a que se deve essa confusão, mas concordo que é, "de facto, muito grave!"

domingo, 9 de dezembro de 2012

A mistificação e a perfectibilidade


De tempos a tempos e com as condições a seu favor, a mistificação, como anti-realidade, ressurge com o propósito de ficar instalada.

Procede, primeiro, por pequenos passos sorrateiros. Tal como a hera, infiltra-se pelas brechas da realidade  mais desprotegidas e agarra-se, inabalável, ao que está à volta.

Quando tem a sensação de segurança, expande-se em todos os sentidos, ganha confiança e arrogância, mostra-se e, a seguir, impõe-se. Mas não de qualquer maneira: impõe-se ameaçadora, em cenários de inacessibilidade e inatacabilidade. Pontapeia a verdade e outros princípios fundamentais. Relativiza, distorce e nega evidências; despreza pessoas e instituições.

Na sua euforia de seguir sempre em frente, a mistificação esquece-se de um pequeno pormenor, mas um daqueles pormenores que fazem toda a diferença: a lucidez de quem está de fora e que consegue distingui-la da realidade.

Isto vem a propósito do financiamento de certas escolas portuguesas que têm contrato de associação e dos relacionamentos políticos, económicos e outros que o asseguram, tudo o que foi mostrado com grande clareza numa reportagem da TVI – Dinheiros públicos, vícios privados – que passou na semana que termina e que, naturalmente, causou grande assombro.

Estou certa de que esse assombro deriva do facto de sabermos que o ambiente relacional duma escola, a ética que assume, os valores que veicula, a filosofia que integra, se traduzem na acção pedagógica, que pode (ou não) ser favorável à estruturação da personalidade dos aprendizes.

Cabe a quem entenda que a educação escolar é um Bem de todos, o qual, em circunstância alguma, se pode manipular em favor de interesses particulares qualquer que seja a natureza destes, estar atento e reagir a mistificações, por muito atraentes que elas se afigurem.

Não podemos, como sociedade (ainda) organizada e civilizada, entregar as crianças e jovens, que temos a responsabilidade de proteger e desenvolver, a instituições ou pessoas que não se movam pelo propósito de as encaminhar no sentido da perfeição humana.

É a perfectibilidade, nada mais nem nada menos do que isso, que os responsáveis educativos devem ter como horizonte. Doze anos de escolaridade obrigatória, que são doze anos de vida de uma pessoa, farão, certamente, a diferença.

Por isso, o que está subjacente ao denunciado nessa reportagem é pior, muito pior, do que aquilo que é denunciado.

O que está em causa é a entrega de crianças e jovens a escolas que, em vez de se guiarem claramente pelo propósito de alcançarem a perfectibilidade em cada um e em todos eles, se guiam, mistificadamente, pelo propósito auto-centrado do mercantilismo.

sábado, 1 de dezembro de 2012

A função do Estado

Há poucas semanas, três, quatro no máximo, estavam identificados mais de cinco mil alunos com fome manifesta. O número depressa foi corrigido para dez mil e tal; na quinta-feira passada era já de treze mil.

Um certo Secretário de Estado havia "descansado" o país, assegurando que o Governo estava a fazer chegar "reforço alimentar" a alguns desses alunos. Inferi eu que era o próprio Governo que, na impossibilidade de as famílias proporcionarem alimento aos filhos, assumia a responsabilidade de o fazer. Afinal, sem ser paternalista, compete-lhe, em primeira e última instância, garantir a protecção dos menores.

Inferi mal, pois soube agora que esse senhor esclareceu, em sede parlamentar, que o Ministério a que pertence se encontra apenas ("apenas", é expressão minha) “a gerir um projecto que nasce da vontade da sociedade civil”: empresas dão os alimentos, o Estado gere-os. É essa, em rigor, a função do Estado nesta calamidade.

Sem provavelmente estremecer, o dito Secretário "voltou a frisar que [o tal "reforço alimentar] não representa qualquer despesa" para o orçamento. Eis um Estado, que não cumprindo o que, politica e moralmente, tem por obrigação cumprir, apresenta o não cumprimento como uma proeza digna de realce e exortação.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Nem todos chegaremos vivos

A cada dia que passa, as escolas detectam mais e mais crianças com fome. Treze mil, diz-se nos jornais de hoje. Agora são os hospitais que falam. Um grande hospital comunicou ao país, sem sofismas de qualquer espécie, que lhe chegam inúmeras crianças cuja doença é a fome. Não, nem todos "chegaremos vivos" aonde quer que se entenda que temos de chegar.

domingo, 4 de novembro de 2012

Estado Social


Terá algum dos partidos autoridade e legitimidade para repensar o Estado Social? 
Não. 
Porque nunca pararam para dizer que o caminho que seguíamos era insustentável. 

É esse o papel dos líderes e das elites que, mais uma vez, falharam: havia eleições para ganhar e um discurso de facilidade para vender.

Agora é altura de tomar consciência do problema e resolvê-lo de forma definitiva, tendo o tempo e a folga necessária para o fazer.

Vai doer?
Vai.
Muito!

http://re-visto.com/estado-social

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Não será por acaso

Em véspera de feriado, tentando pôr-me a par da realidade, passei por alguns canais de televisão. Comecei pelos especializados em informação, onde as mais variadas vozes, da esquerda à direita, alinhadas e dissidentes, convergiam em afirmar que o estado da economia deste e doutros países não tem solução, é um castelo de cartas que se abate a cada dia, hora, minuto que passa. A miséria misturada com a falta de esperança expandem-se como uma mancha de tinta que engrandece, as populações vão para as rua e gritam. Num debate, dois convidados notavam que nas discussões políticas as pessoas (as pessoas mesmo) não constam nem contam, desapareceram.

Esta nota pode alargar-se ao reality show, que estava no canal que visitei de seguida, pessoas numa montra, a que o mundo tem acesso, a comportarem-se como não-pessoas. E o mundo com o nariz em frente duma televisão ou dum computador a assistir, deliciado, às transgressões do estado humano. Avanço para um telejornal onde se continua a dar cobertura ao caso dum certo jovem que, por tanto querer entrar nesse programa que exige um segredo escabroso de cada concorrente, denunciou a uma jornalista o seu próprio pai por crimes horríveis, que terá ou não cometido. À saída do julgamento, o jovem disse que tudo não passou duma brincadeira combinada com o pai...

O nonsense fez-me avançar e cheguei à RTP Memória, percebi que estava no ar um longo programa de homenagem a Mário Viegas: entrevistas antigas e actuais a quem o conheceu, filmezinhos e filmes que fez e em que entrou, o teatro... o seu mais-que-amado teatro. E (não podia faltar) a poesia. Foi passado o último episódio de Palavras Ditas que revi com o sentimento de, tal como Mário Viegas, já não estar neste mundo.

Ainda carreguei noutro botão do comando e fui dar a uma entrevista sobro o futuro da RTP: irá no arrasto deste sistema, disse o convidado e explicou porquê. Não é de admirar num ambiente (político? económico? ideológico?) onde o sentido de Pessoa se desvanece e a memória de cada uma também. É bem provável que no próximo dia 1 de Novembro, dia de lembrar quem já partiu, não seja possível fazer nada parecido com esse programa da RTP Memória.

Não será por acaso que este dia de feriado passará a vulgar.

domingo, 28 de outubro de 2012

É uma tristeza

O Governo anda desnorteado, mas muitos ainda ajudam à festa, acrescentando a desorientação e não percebendo (ou percebendo muito bem) que o prejuízo é geral.

É claro que o Governo fez alguns grandes disparates, desbaratando o capital de confiança e de esperança que lhe tínhamos dado e que tanta falta faz. Estaríamos por certo melhor em termos de coesão social e de motivação sem as trapalhadas e as jogadas do incrível Relvas, a solidariedade do Primeiro-Ministro para com ele e a falta de jeito de António Borges. Passos Coelho não percebeu o desgaste a que, por causa do Relvas, estava a ser sujeito, numa altura em que tudo o que conseguisse em termos de confiança e de coesão era pouco.

Perdeu-se um capital precioso, e isso é dramático. Não falo da nossa Esquerda, para quem esta erosão é muito boa. A nossa Esquerda que está sempre contra tudo, para quem o gasto público é a lei, mesmo sem dinheiro, e que fala para os 15, 16% da população que gosta de ouvir as suas vozes. Refiro-me aos outros, à grande massa. Os que compreendem que se andaram a fazer asneiras, em termos internos e externos, e que alguém tem que as pagar. Mesmo vendo nisto alguma perfídia, porque a maior parte foi apanhada por uma estratégia de gastos incentivada em clima de facilidade, que agora nos é cobrada à má cara. E de injustiça, porque durante anos nos andaram a dizer: gastem, gastem, porque favorece a economia, e agora nos dizem poupem e paguem porque o que gastaram não era produtivo, nem rentável, ou seja, era economicamente um logro.

Tirando uns poucos (Ernâni Lopes, Ferreira do Amaral, Medina Carreira, Manuela Ferreira Leite, vistas como aves de mau agouro) ninguém, de entre os que tinham obrigação de o fazer, nos preveniu ou nos aconselhou prudência. O certo é que, face às dificuldades, o País está a radicalizar-se e a perder clarividência. E pior, há muitos, sem pudor nenhum, a querer saltar da carroça dos sacrifícios comuns. Aí está de novo o PREC.

Muitos dos que reclamam e fazem barulho são dos que menos motivos têm. Desde as corporações tradicionalmente mais protegidas (Forças Armada, magistrados, juízes, autarcas, etc.) aos sindicatos das profissões mais defendidas e bem pagas (pilotos, maquinistas, estivadores, por exemplo). Ao fim de tantos anos de Democracia não conseguimos integrar harmonicamente no conjunto estas aristocracias profissionais. As corporações estão em alta, essa é que é a verdade. Vindas do salazarismo, que fez delas ideologia política e dinâmica económico-social, e nelas assentou a estrutura jurídica e laboral do Estão Novo, as corporações ganharam raízes. Tão fortes, que não só se manteve o corporativismo entranhado nas mentalidades, como, por via sindical e intersindical nasceram, depois da Revolução de Abril, outras ainda mais fortes e poderosas. E que agora gritam por privilégios, se manifestam, ameaçam, fazem abanar governos, destroem ministros, arrasam a economia, e sem problema nenhum, porque a lei os protege.

Para quem não tem formação, moral e legal é a mesma coisa. Fazendo o mal e a caramunha, transformam-se em arautos da desgraça muitos dos próprios agentes dela. Todos estão puxando para o buraco sem querer perceber que, se nele cairmos, também eles para lá vão. Lembrem a passagem de São Mateus: «Cegos são e condutores de cegos, e quando um cego guia outro cego ambos vão cair no barranco».

João Boavida

domingo, 21 de outubro de 2012

"O país precisa de políticos que façam do realismo um hábito, e não da propaganda um vício."


É um problema de cultura democrática aquilo que temos vindo a ser sujeitos. E a culpa é de toda a sociedade que, de alguma forma, se deixa enganar (assumo a minha quota parte de responsabilidade). De forma que observamos todo o tipo de coisas a acontecer: a última é a divisão de um político em duas pessoas distintas que, para cúmulo, não comunicam entre si.

Porque razão não exigimos que o que é dito em campanha eleitoral seja um contrato com a sociedade, e por isso, seja cumprido?

E se isso não puder ser cumprido, porque entretanto as condições mudaram, e tudo tiver de ser mudado radicalmente, isso implique perguntar de novo aos eleitores se mantêm o voto anterior. Não se chama a isso legitimidade?

:-(

domingo, 30 de setembro de 2012

Os números falam por si


Circula pelas caixas de correio a seguinte mensagem: "45 mil candidatos ao ensino superior e 85 mil à casa dos segredos". É caso para se dizer que os números falam por si.

Não estranhei particularmente os quarenta e cinco mil candidatos ao ensino superior, pois estou a par do decréscimo de ano para ano (Clara Viana, jornalista do Público, muito precisa nas notícias que escreve, apurou nas duas primeiras fases de candidatura 50 641).

O que não pude deixar de estranhar foi o número de pessoas que se candidatou ao tal programa de televisão que se chama Casa dos Segredos: não foram oitenta e cinco mil, mas cem mil (mais vinte mil do que na anterior edição). São pessoas adultas, escolarizadas, algumas (talvez muitas) com um diploma superior.

Li, de seguida, que apenas uma reduzida "elite" de dezasseis "corpos trabalhados e mentes abertas" foi seleccionada. "Elite", também estranhei!

Voltei a deter-me no redondo cem mil, que é, afinal, um número insignificante quando comparado com os muitíssimos mais milhares de telespectadores que, incentivados por uma palavra de ordem ("Agora toca a mexer... toca a descobrir segredos!") vêem o programa, seguem avidamente o programa, interagem (!?) no programa.

Isto acontece pela Europa, pela América do Norte e do Sul... onde os sistemas de ensino, nas suas diversas instâncias, têm destacado e imposto a educação cívica, para a cidadania, para as atitudes, para os valores, para a formação pessoal e social, para o respeito, para a crítica, para a intervenção social...

Ora, o cruzamento de intenções tão elevadas com números como os que acima se indicaram coloca-nos perante a perplexidade: uma coisa é o que se pretende em termos educativos; outra coisa são os resultados que, de vez em quando, nos chamam à realidade.

Quem tem a responsabilidade de educar não pode adiar a pergunta: Que princípios nos guiam? O que andamos a fazer? Para onde conduzimos as sociedades ocidentais?

domingo, 23 de setembro de 2012

Esperando os Bárbaros

Em dia de espera de comboio e de país, Alexandre O´Neill salva-me do tédio. Numa loja de restos de edições, encontro Coração Acordeão, colectânea de crónicas que escreveu para um jornal e alguns dispersos (Independente e Assírio e Alvim, 2004). No idos de 76, O´Neill vê-nos desorientados entre o passado e o futuro, sem grande ideia do que fazer no presente. E lembra-se dum poema, Esperando os Bárbaros, dum grego, Constantino Cavafy (1863-1933) (páginas 153-155):

“Que esperamos agrupados nesta praça?
      Hoje chegam os bárbaros.  
Porque está inactivo o Senado e, imóveis, 
os pais da pátria não legislam?
      É porque hoje chegam os bárbaros. 
      Que leis irão votar os senadores? 
      Quando chegarem os Bárbaros serão eles a ditar a lei. 

E o imperador, já a pé de madrugada,
que faz sentado no seu alto trono,
coroado e solene às portas da cidade?
     É que hoje chegam os Bárbaros 
     o imperador vai acolher o chefe 
     dos Bárbaros, a quem fará entrega
     de um extenso pergaminho repleto das menções honoríficas, de títulos retumbantes.
Por que vestes os nossos dois cônsules e os pretore
suas togas vermelhas e brocado fino
e ostentam braceletes de ametista,
anéis de esmeraldas refulgentes?
Por que trazem bastões de ouro e prata cinzelados a capricho?
      Por hoje chegam os Bárbaros
      e todas essas coisas os bárbaros deslumbram. 

Por que não acorrem como sempre nossos ilustres oradores
a oferecer-nos com o chorilho feliz de sua eloquência?
       Porque hoje chegam os Bárbaros
       que odeiam a retórica e os discursos compridos.

E a que vêm, agora, essa inquietação 
e esse agitação?
(Como os nossos rostos se tornam graves!).
E por que esvazia a multidão ruas e praças
e cada um, com ar sombrio, volta a cada?
      E que a noite caiu e Bárbaros não chegam.
      Pessoas recém-vindas das fronteiras
      garantem que já não há Bárbaros.

E agora que será de nós sem os Bárbaros?
Essa gente, apesar de tudo, sempre era uma solução."

Na nota sobre o poema, O´Neill não entra nos sentidos que a palavra "bárbaro" tem, que são muitos, deixa carta branca ao leitor para se socorrer do seu próprio entendimento. E escreve: "...as sociedades ensimesmadas desdobram passadeiras vermelhas para, trajadas a rigor, darem passagem e homenagem aos Bárbaros, que estão a chegar. Experimentam o terror? Nem isso! Incapazes de sentimentos fortes, a tudo puseram surdina para se esvaziarem voluptuosamente nas formas que quiseram perpetuar".

terça-feira, 18 de setembro de 2012

PORTUGAL, UM PAÍS DE CIDADÃOS

Novo texto do Professor Galopim de Carvalho, nosso estimado colaborador.



Se é certo que a política é uma ciência que se estuda e ensina, da qual, devo começar por dizer, não tive escola, a política partidária afigura-se-me como uma arte que visa adaptar a dita ciência ao sabor de interesses, nem sempre confessados, pela qual nunca me senti atraído e pela qual me não deixei envolver, logo ensinada às juventudes partidárias e bem aprendida por estas, como está bem à vista, e apenas para citar dois exemplos, na actuação de dois dos seus rapazes mais brilhantes, bem parecidos, bem falantes e convencidos, mas sem a imprescindível preparação e experiência de vida: o que recebeu de nós a missão de governar e o que, por direito e dever, assume o principal papel da chamada oposição.

Na Grécia antiga, cidadão era aquele - nunca aquela - que gozava do direito de participar na vida política da cidade, um direito igualmente vedado a estrangeiros e a escravos. Mais tarde, na Europa, e até finais do século XVIII, foi condição de dignidade do homem – nunca da mulher - que recebia esse título honorífico. A cidadania plena é uma vitória das ideias do iluminismo e do liberalismo, saídas do pensamento de John Locke, naturalista, filósofo e político inglês do século XVII. Visa a valorização de todos os indivíduos e encoraja a cooperação entre eles, sem estabelecer distinções de sexo, de idade, de religião, de etnia ou de condição sociocultural, num propósito bem assumido de desenvolvimento das suas formações ética e estética, das suas faculdades intelectuais e profissionais e do seu bem-estar físico e social.

Há quase dois séculos e meio, Pierre Auguste Beaumarchais, dramaturgo francês, autor dos textos que inspiraram as óperas “O Barbeiro de Sevilha”, de Rossini, e “As Bodas de Fígaro”, de Mozart, gritava para uma multidão, em Paris: «Não sou nem um cortesão nem um favorito. Sou um cidadão!». Tendo por meta a defesa intransigente da liberdade individual contra a autoridade ilegítima, a cidadania ganhou dimensão com a Revolução Francesa, vingou com a tomada da Bastilha e afirmou-se com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, proclamada em 1789 (na figura ao lado). A cidadania nasceu, assim, fundamentada na liberdade, na igualdade e na fraternidade.

A liberdade, por enquanto, está bem de saúde e recomenda-se. Conquistámo-la nós, portugueses da minha geração, há quase quatro décadas, não o esqueçamos, graças aos capitães de Abril, com cravos nos canos das espingardas. Essa liberdade temos sabido defendê-la e conservá-la e uma das evidências dessa sabedoria foi dada pelas centenas de milhares de homens e mulheres de todas as idades que, no último Sábado, saíram civilizadamente à rua, por todo o País, numa manifestação de maturidade e cidadania ímpares.

Porém, a igualdade e a fraternidade estão cada vez mais longe de atingir o patamar eticamente exigível e legitimamente esperado pela esmagadora maioria dos povos e, entre eles, os portugueses, que o mundo do dinheiro na sociedade dita do desenvolvimento tem vindo e continua a negligenciar ou, pior ainda, a explorar.

Uma das formas de combater as flagrantes desigualdades e injustiças que, ao invés das esperanças de Abril, têm vindo a agravar-se, é alargar a cidadania onde for preciso, criá-la onde ela anda esquecida, e encorajar o cidadão a fazer pleno uso dela, como contribuição pessoal no tecido social de que é parte. Neste capítulo estamos no bom caminho. Vamos em frente! E que cada um se regozije e envaideça com a expressão inteligente e ordeira da unidade de um povo que mostrou no passado dia 15 de Setembro.

Com esta grandiosa manifestação, Portugal deu ao Mundo uma magnífica lição de cidadania.

Galopim de Carvalho