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sábado, 12 de novembro de 2011
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
O tecto para as despesas na saúde
Embora não goste, alturas há em que tenho de transcrever posts já aqui publicados, quanto mais não seja para avivar a memória de todos, incluindo a dos governantes. Reproduzo, ligeiramente adaptado, parte do meu post “Um tecto para as despesas de saúde?” de 15/03/2010, na altura em que o PEC já incluía medidas desse tipo, que agora se estão a agravar. Revejo-me nas palavras de Eça: “Deixemos no bengaleiro a nossa perpétua inclinação nacional de escutar odes – e entremos só com a tendência humana de resolver problemas": "Em declarada crise económica que assola grande parte do planeta e num pequeno país como Portugal, em que há um evidente desequilíbrio entre as despesas públicas e as receitas fiscais, tomam-se medidas de desenrascanço de apertar o cinto que pouco afectam quem usa suspensórios!
Desta forma, em vez de se cortarem em esbanjamento de dinheiros públicos (finalmente e pelos vistos, pelo menos o TGV e o Aeroporto de Alcochete parecem estar em banho-maria) tenta-se cortar em despesas com pouco significado positivo para os cofres estatais e muita expressão negativa no que diz respeito à justiça social.
(...) Actualmente são deduzidos para efeitos de IRS 30% das despesas feitas nas farmácias com determinados medicamentos. Ou seja, quem tem uma saúde de ferro beneficia do dom precioso em não gastar um cêntimo em medicamentos. Por outro lado, quem tem uma saúde frágil que anda associada, frequentemente, a achaques da velhice, como sejam, por exemplo, para não falar de outras graves bem mais graves, doenças do foro reumatismal, em que, para apaziguar dores insuportáveis, o paciente é obrigado a encharcar-se em analgésicos, gastando quantias que fazem perigar, ainda mais, o seu periclitante equilíbrio financeiro em busca de uma dignidade humana que não se curve amparada por uma bengala para não abdicar da sua ascendência bípede de milhões de anos.
A ser levada a medida de cortar nas deduções para efeitos de saúde, um doente de magros ou remediados cabedais de vencimento ou esquálida reforma que, porventura, tenha uma gripe ao atingir o referido tecto terá que deitar contas à vida e pedir a Deus para que uma possível pneumonia não lhe bata à porta na pior altura. Ou, nessa infelicidade, empenhar os anéis para ficar com os dedos, ou mesmo sem os anéis e os dedos, como se a própria vida 'não fosse o último hábito que se quer perder porque é o primeiro que se toma", como escreveu Alexandre Dumas Filho'.
(...) Ir buscar umas migalhas no cotão de certos bolsos que a actual crise virou do avesso e não em ordenados escandalosos, sinecuras principescas e chorudas contas bancárias é o mesmo, como nos ensina a sabedoria popular, que "poupar no farelo para gastar na farinha", promovendo o desaparecimento de uma classe média com reformas que se degradam de ano para ano, necessitadas, como tal, de cuidados fiscais intensivos que lhes transmita e à economia portuguesa um novo e desejável alento para sair do pântano em que se encontram mergulhadas.
Num abreviar de razões, a solução deve ser procurada numa ainda mais apertada malha que taxe o cidadão com sinais exteriores de riqueza de quem "cabritos vende e cabras não tem", segundo os seus reais rendimentos e haveres e não sobre aquilo que ele dolosamente possa declarar serem os seus hipotéticos rendimentos e haveres. A isto, sim, chamar-se-ia, com toda a propriedade, justiça fiscal!"
Pelas razões atrás expostas, nunca, por nunca, baixar o tecto das despesas dos velhos reformados da classe média com a saúde para um terço do montante actual!
segunda-feira, 4 de julho de 2011
O IRS, OS MÉDICOS E OS DOENTES
Em resposta ao recente comentário de Pinto de Sá (2 de Julho; 09:41) ao meu post, “O Memorando da Troika, a Doença e o IRS”, começo por lamentar que este importante tema social tenha passado quase despercebido (com excepção honrosa do comentário supra citado) sendo, assim, desperdiçada uma oportunidade de a discutir amplamente, uma vez que envolve o bem precioso de qualquer cidadão, hoje com saúde, amanhã eventualmente doente.
Bem sei que quando se é jovem, com uma saúde de ferro, sem dificuldades de natureza económica, o futuro, como se dizia na escola de antigamente, se apresenta “risonho e franco”. Quanto à velhice, a questão não se chega a pôr mesmo com o correr vertiginoso da passagem do tempo por haver sempre o recurso ao argumento de Baruch Spinoza: “Velhos são os que têm mais quinze anos do que nós”. Mas, já no caso do sexo feminino, a questão de um corpo sadio e belo, mas que a doença degrada inexoravelmente, assume importância o desabafo gracioso de Ninon de Lenclos, célebre escritora e beleza francesa, falecida em vésperas de perfazer 90 anos de idade: “Se Deus teve a infeliz ideia de infligir rugas às mulheres, pois ao menos devia ter-se lembrado de as ter colocado nas plantas dos pés”.
Portanto, não posso deixar de me congratular com o facto de o tema ter sido perspectivado e escalpelizado por Pinto de Sá, sob o ponto de vista de uma medicina transformada num negócio que tenha por fim o lucro fácil sem olhar aos meios usados para o alcançar. Assim acontece nos dias de hoje, embora esta crítica possa levar à injustiça de generalizações sempre perigosas. De facto, pertence ao reino da ficção a figura simpática, e desinteressada de bens terrenos, do médico João Semana, personagem do livro de Júlio Dinis, “As Pupilas do Senhor Reitor”. E, em exemplo da vida real, o grande humanista Albert Schweitzer (Prémio Nobel da Paz, 1952) , em deliberado abandono do conforto da civilização, entregou-se a uma medicina de missão, dedicando-se a doentes no deserto de Lambaréné (antiga África Equatorial Francesa), onde estabeleceu uma leprosaria para tratamento de uma terrível doença que desfigurava e dizimava inúmeros gentios.
São estes exemplos de dádiva ao semelhante que dificilmente encontram exemplo nos dias egoístas do nosso tempo, seja na medicina, na advocacia, na engenharia ou em muitos outros ramos de actividade profissional. Apresenta, no seu comentário, Pinto de Sá o caso passado com o seu sogro numa clínica privada (abordarei este assunto lá mais para diante), apresentando eu, por meu lado, o exemplo do meu sogro, médico-cirurgião, que se dedicou à sua profissão, mister duro, sem horários fixos e em desempenho de horas pouco alegres porque em contacto constante com a doença e com a morte (e a certeza de se tornar sua personagem futura.) Sem fazer fortuna, fê-lo com a honradez de quem viveu em conforto económico como paga da sua “hablidade de mãos” ao serviço de um cérebro dedicado a muitos e árduos estudos e anos esforçados de prática.
Comungo plenamente do seu comentário quando escreve: “Tal corte de deduções fiscais nas despesas de saúde é sem dúvida doloroso, especialmente para os pobres reformados”. O exemplo por si apresentado é sintomático e seria dramático na actualidade em que as respectivas e exorbitantes despesas de saúde seriam excluídas para efeitos de descontos do IRS, deixando-as de fora como um luxo de quem adquire um Mercedes topo de gama em vez de se contentar com um carro utilitário de pouca cilindrada. Mas, o pior disto tudo é a realidade da pessoa doente que se preocupa em melhorar, à outrance, o seu estado patológico ou apenas em tentar evitar que ele se agrave. Como é uso no dizer do povo, “vão-se os anéis mas fiquem os dedos” Ora, as contas a pagar são os anéis que mudam de dono… ficando os seus antigos proprietários sem eles e, em casos extremos, sem os dedos.
Obviamente, em minha opinião (embora se saiba que as opiniões valem o que valem), e ao contrário do que escreveu, meu caro Pinto de Sá, não partilho do seu optimismo de que esta medida restritiva de descontos para efeitos do IRS reduzirá a procura da medicina privada que terá sempre doentes/clientela por os hospitais públicos não estarem capacitados para dar resposta atempada a casos de graves doenças em que os dias correm vertiginosos nas folhas do calendário e muito mais rápidos na esperança da respectiva cura. São estas situações demonstrativas de que a saúde pode ser uma prática humanizada e não um negócio que sirva de pretexto para debitar extras próprios de salão de beleza, como o exemplo passado com o seu sogro numa clínica privada, e por si relatado com cáustica ironia: “Faziam-lhe a barba, punham-lhe uma loção na cara para ele ficar rosado e de pele brilhante, com aspecto de novo, e cobravam milhares”.
Mas não se pretenda ver nesta minha crítica à descida do plafond para despesas com cuidados médicos ou aquisição de medicamentos uma injusta e impiedosa discordância para com a medida tomada pelo actual Governo, pressionado pelo FMI, na tentativa hercúlea de tapar os buracos, ou mesmo crateras, de um Orçamento de Estado herdado da anterior e ruinosa gestão do Partido Socialista.
Apenas não encontro, isso sim, como solução válida esta medida, para mais associada a um imposto extraordinário e, como tal, a título excepcional (e todos nós sabemos como as excepções correm o risco de se tornarem em regra) que retira aos trabalhadores dependentes cerca de 50% do subsídio de Natal, deixando, em contrapartida, de fora desta medida “rendimentos de capitais de 80 milhões de euros”, com a discordância de fiscalistas como Vasco Valdez, que foi secretário de Estado dos Assuntos Fiscais nos Governos de Cavaco Silva e Durão Barroso (Público, 02/07/2011). Em contrapartida, são diminuídos os benefícios fiscais que deviam continuar a merecer a atenção dos poderes públicos para não abandonar os cidadãos nas garras de doenças graves crónicas ou mesmo na iminência de uma morte que o instinto de sobrevivência do homem rejeita a todo o custo. Mesmo que para isso tenha que ficar pobre como Job, engrossando a lista de novos-pobres que o espectro horrendo do desemprego criou nestes últimos, recentes e tristes tempos tornando-nos, a nós portugueses, num povo desiludido, triste e doente. Irremediavelmente abatido!
Na imagem: Esculápio, deus da Medicina da Mitologia greco-romana.
sábado, 2 de julho de 2011
O Memorando da Troika, a Doença e o IRS

“O Estado é um ogre filantrópico” (Octávio Paz, 1914-1973).
De quando em vez, somos colhidos por “novidades” que nada anunciam de novo. Ou seja, são uma espécie de fatos velhos virados do avesso que tempos de crise, ainda mesmo em meados do século passado, faziam passar por novos.
Por andar, de há muito, nas bocas do mundo, assim sucede com um estudo - apresentado hoje pela Visa Europe e pela A.T Kearne, intitulado “A economia paralela em Portugal representa quase 20% do PIB” (ou seja, 33 milhões de euros anuais) - de que se transcrevem pedaços de prosa:
Os sectores mais afectados são a venda de automóveis, restaurantes e bares, táxis, lojas com serviços não especializados e cantinas e serviços de catering. De acordo com o estudo, o valor está dentro da média europeia, representando no total 2,1 biliões de euros. No conjunto europeu, os países do leste são aqueles em que a economia subterrânea tem maior peso. Exemplo da Bulgária, em que o peso é de 33% do PIB. No sul da Europa, a Grécia tem os piores valores, com 25% e pela positiva, destaca-se a Suíça que tem uma economia fantasma de apenas 8% do PIB "(“Diário Económico”, Paula Cravina de Sousa, 30. Set. 2011).
Aqui chegado, não posso deixar de formular duas perguntas. Em Portugal, são só estes os fugitivos detectados no referido estudo? Que é feito dos outros? Ou há moralidade…
Este polémico tema social, está longe de só agora me despertar atenção crítica por me ter merecido três posts neste blogue. De um deles, “Os velhos, os doentes e os reformados que paguem a crise” ( 18/03/2010), transcrevo passagens:
“Recupero do meu post 'Francisco Louçã, o pregador' (10/09/2009), os parágrafos iniciais:
O recente debate televisivo entre José Sócrates e Francisco Louçã (RTP1, 8/09/2009) fez-me recuar aos tempos da minha juventude. Mais precisamente aos saudosos filmes de 'cowboys' em que aparecia a personagem de um pregador que, na praça pública, tentava convencer os ouvintes da bem-aventurança que aguardava as suas almas no paraíso que ele defendia com a convicção da sua inabalável fé.
Neste caso, o pregador da coboiada nacional que passou nos ecrãs televisivos foi personificado por Francisco Louçã, o festejado líder do Bloco de Esquerda, quando no referido debate defendeu que as despesas com a saúde - consequentemente, as consultas médicas em consultórios privados - deixassem de contar para efeitos de desconto no IRS’.
Esta tomada de posição pública de Francisco Louçã, perante o olhar e audição atentos dos telespectadores, obrigou-me a escalpelizar, com paciência de Job, as cento e doze páginas do 'Programa Eleitoral do Bloco de Esquerda' para me deparar, na respectiva página 22, com a seguinte medida: 'Diminuição das deduções com seguros e despesas de saúde para os escalões mais elevados'.
Surge-nos agora o Partido Socialista, em medida draconiana, a fazer-se defensor desta ideologia do Bloco de Esquerda quando, no respectivo 'Plano de Estabilização e Crescimento', defende um tecto de dedução de despesas com a saúde em função do escalão de IRS. Aliás, o Partido Socialista demonstra até 'mais coragem polític´' que o Bloco de Esquerda, por não se limitar à diminuição das deduções em seguros de saúde. Ou seja, o PS propõe, pura e simplesmente a sua abolição”.
Para espanto meu, se possível, ainda maior, surge agora o Governo recentemente empossado, apesar de no respectivo “ Programa Eleitoral” não constar esta medida, a ir recuperá-la ao baú das medidas aparentemente por si criticáveis quando era oposição ao estabelecimento de um tecto para as despesas com a saúde para efeitos de IRS. Facto me faz recordar Pessoa: “Dizem? /Esquecem. /Não dizem? /Disseram”.
Mas porque o assunto é demasiado sério, detenhamo-nos nos prós e contras que subjazem a esta medida, ainda que mesmo inscrita no exigente e doloroso Memorando da Tróika.
Por norma, os médicos são o cepo das marradas dos que se queixam desse cancro social que é a fuga aos impostos. Mas nem sempre em acusação justificada por pertenceram a uma classe profissional que mais recibos passa por poder ser descontada parte das consultas comparticipadas, por exemplo, pela ADSE, para efeitos de IRS.
Sem atender aos respectivos prejuízos em complicados e complexos cálculos matemáticos, ainda que só em simples contas de merceeiro que numa mesma gaveta deposita o dinheiro que entra e o dinheiro que sai, discuto um tecto máximo de descontos para IRS a recair em velhos e doentes, por vezes, com patologias crónicas e dores insuportáveis, a exigiram contas pesadas de farmácia, como se a velhice fosse um crime e a doença pudesse ser erradicada ao sabor do freguês. Para alem de imoral e injusta, esta medida carece de bom senso, de princípios humanitários e de massa cinzenta por parte dos respectivos responsáveis por levar a que se poupe na farelo para se gastar na farinha. Ou seja, o Estado poupa no IRS dos doentes da classe média (sempre ela a pagar a crise) e é perdulário no que respeita aos impostos deixados de pagar pela classe médica. Até comove ter quem zele, com tanto desvelo, pelos doentes e pelos velhos...
Aliás nada digno de espanto e muito menos de coragem política. Se o poder reivindicativo dos reformados pouco pesa (quando se não tem em conta a sua massa eleitoral), menos pesa a fragilidade dos que sofrem em silêncio, em adaptação de “Os Lusíadas” (Canto I) e desculpa minha ao vate pelo arrojo, tentando adiar a lei da morte que só poupa aqueles que por obras valorosas dela se vão libertando. Como escreveu Jean-Baptiste Colbert, no século XVII: “O acto de tributar é idêntico ao depenar de um ganso, procurando obter o máximo de penas com a menor gritaria”.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Fundação Champalimaud, uma fundação para o futuro

Post recebido de António Mota de Aguiar:
Quando saímos de Lisboa pela estrada marginal, na zona ribeirinha do Tejo, em direcção a Cascais, depois de passarmos a Torre de Belém, deparamos agora com um moderno e imponente edifício, a sede da Fundação Champalimaud (FC).
A Fundação foi criada por António Sommer Champalimaud (1918-2004), industrial português que deixou no seu testamento 500 milhões de euros para a criação de uma fundação em Portugal de apoio à investigação na área das Ciências Médicas. Leonor Beleza é Presidente da Fundação, conforme decisão deixada em testamento.
“O fundador não deixou grandes pistas” das áreas de investigação científica que queria para a fundação. Contudo, como antes de morrer via muito mal, foi criado um prémio de visão, o qual tem por objectivo o diagnóstico, tratamento e/ou prevenção de doenças e distúrbios de visão, visando distinguir instituições que lutem contra a cegueira. O prémio tem o valor de um milhão de euros, tendo sido atribuído até hoje quatro vezes.
Além da área da visão, a FC centra actualmente a sua atenção em doenças não transmissíveis. A FC apoia igualmente a investigação em áreas onde há menos investimentos, como as doenças neurogenerativas e psiquiátricas: “Portanto, doenças mentais, as Parkinsons, as Alzheimers, as demências, as esquizofrenias… a que juntámos a área do cancro, oncologia…”, disse recentemente a Presidente da Fundação.
O objectivo da FC é fazer uma aproximação “entre aqueles que estudam as ciências básicas e aqueles que tratam doentes. Portanto, entre investigadores e médicos. Uma coisa que se ouve falar sistematicamente em todo o lado, mesmo nos sítios cheios de meios, é na enorme dificuldade que têm em que estas pessoas trabalhem em conjunto, em conseguir que aconteça investigação clínica… ”.
E acrescentou Leonor Beleza: “Somos uma instituição de investigação, não nascemos para prestar cuidados clínicos, mas para fazermos investigação clínica em cancro temos de ter uma unidade de prestação de cuidados clínicos. Portanto, na parte do cancro, vamos abrir simultaneamente com tudo: com a investigação básica em campo e com uma unidade clínica, numa primeira fase em ambulatório”.
Isto quer dizer que vão receber doentes: “Há um sem número de pessoas que têm contactado para dizerem que estão disponíveis para serem incluídas em ensaios experimentais de tratamento” “Tem sido uma experiência muito positiva perceber que há tanta gente interessada em contribuir para o avanço da ciência”.
A FC pretende aprofundar a Medicina e a saúde pública e atingir elevados padrões éticos e científicos. Mantém para isso protocolos de colaboração com o Instituto Gulbenkian de Ciência, além de ter chegado a acordo com o Ministério da Saúde. Com o Ministério, a FC pretende que: “os beneficiários do SNS, como de outros subsistemas, poderão ter acesso a tratamentos no centro”, iniciando-se os serviços clínicos neste mês de Junho.
Na concretização do seu programa de cancro, a FC já assinou protocolos com universidades americanas (de Princeton, Harvard e Cornell) para desenvolver programas científicos, havendo já cientistas Champalimaud nessas três universidades, que vão permitir a formação de outros cientistas e contribuir com o seu saber e experiencia para a instalação do Programa de Metástases em Lisboa. Disse a Presidente: “Será o primeiro Centro mundial dedicado exclusivamente à investigação, prevenção e tratamento de metástases”.
António Mota de Aguiar
Referências:
Texto redigido com o apoio de entrevistas dadas por Leonor Beleza a:
Fernanda Câncio, DN de 14 de Setembro de 2009
http://www.dn.pt/Common/print.aspx?content_id=1172010
e Ciência Hoje
http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=48254&op=all
além de consulta ao sítio da FC www.fchampalimaud.org .
terça-feira, 31 de maio de 2011
segunda-feira, 9 de maio de 2011
PASSEIO ETÍLICO
Crónica semanal publicada no "Diário de Coimbra".
Sobre a mesa do bar cristalizavam 45 garrafas de cerveja a perfilar a evolução do cronómetro em direcção à festa da noite. Cerca de 15 litros de cerveja (contendo quase um litro de álcool etílico puro) transfegavam entre tremoços os sistemas cardiovasculares e renais de três folgazões.
Enquanto diluíam a espera, reviviam heróicas epopeias passadas em outras ilhas etílicas, viagens imóveis por todo o universo a desafiar as leis da física. Num apelo à matéria quântica mal entendida, atentavam passar de um estado sóbrio a um outro dito ébrio, sem esforço, sem qualquer barreira de activação por ultrapassar, simplesmente através de um efeito de túnel sem dimensões.
Contrastando com a volatilidade etílica, a força da gravidade mantinha os folgazões sentados, precavendo-os de uma previsível queda deambulante pela conservação do momento. Nunca a certeza fora tanta de que a menor distância entre dois pontos é, claro está, uma linha curva (no espaço euclidiano)!
De quando em quando, a fisiologia das interacções biomoleculares, choques nanométricos entre moléculas feitas de átomos de hidrogénio, carbono, oxigénio, nitrogénio, enxofre, fósforo, alguns sais e vestígios de metais, obrigava a expulsar algum do líquido ingerido, feito urina. Mas o álcool etílico, ou etanol, molécula feita de dois carbonos, seis hidrogénios e um átomo de oxigénio (formula estrutural CH3CH2OH), resiste em abandonar o corpo, rouba o lugar à água e permanece a agitar as membranas celulares, a alterar a viscosidade dos líquidos corporais, como o do ouvido interno que é garante da percepção de verticalidade (a ressaca fará disso eco em tontura, despojo de um ambiente bioquímico agudamente modificado).
Intrometido entre a funcionalidade membranar, o etanol, qual pedra na engrenagem, altera relações cooperativas entre fosfolípidos e inúmeras proteínas funcionais a nível da membrana celular. Há assim mensagens que não passam, impulsos nervosos que se não sucedem. Com limiares alterados, as integrações neuronais resultam em soluções sem sentido, crescentemente incompatíveis com a harmonia dos gestos e das palavras. Surgem combinações novas num fogo de sinapses fátuas, genialidades insuspeitas numa consciência etílica sem memória.
A cerveja é um dos primeiros inventos da biotecnologia humana. Isto é, da capacidade em utilizar seres vivos para executar determinada tarefa com vista a um objectivo bem determinado. Os seres vivos em causa na cerveja ocidental são dois, um vegetal e um fungo: a cevada (Hordeum vulgare) e as leveduras do género Saccharomyces.
Bem domesticados, a cevada há cerca de 10 mil anos em povos neolíticos do crescente fértil, a levedura há cerca de oito mil anos entre povos elamitas, sumérios e babilónicos, a conjugação dos dois seres vivos permitiu aos primeiros usuários da biotecnologia obter um suco de composição complexa, no qual parte da energia solar fixada em açúcar pela gramínea (através da fotossíntese) é transformada pela levedura em etanol, através de um processo designado por fermentação alcoólica.
Parafraseando Lavoisier (que terá bebido cerveja), pai da química moderna, “nada se perde, tudo se transforma”, e muita história fica.
terça-feira, 3 de maio de 2011
DIABETES: NOVA DESCOBERTA NA REGULAÇÃO ENERGÉTICA
Crónica semanal no "Diário de Coimbra".
“Quer açúcar?” “Não. Quero adoçante, se faz favor”, responde um senhor generosamente obeso. “Não tarda chega o Verão e é preciso perder uns quilitos...Olhe hoje até é o Dia Internacional do Sol” acrescenta, cúmplice, o funcionário. Enquanto despeja o edulcorante no café matutino, o cliente responde-lhe resignado: “Era bom se conseguisse. Mas não consigo. Sabe, sou diabético. E o medicamento que ando a tomar para controlar o açúcar no sangue, faz-me engordar. Estou melhor da diabetes, mas estou mais gordo do que antes.” “Eu não percebo nada disso…” responde-lhe o funcionário, “Mas já é muito bom se o medicamento lhe controla a diabetes.”
Na década de 90 do século passado foi introduzida uma classe de fármacos designados por tiazolidinedionas (TZDs) na terapia da diabetes mellitus tipo 2. Estes fármacos (ver aqui uma actualização dos farmacos actualmente usados no tratamento da Diabetes mellitus tipo 2), de toma oral, melhoram a sensibilidade de alguns tecidos à insulina, o que potencia a assimilação de glicose. Isto contribui para a redução de níveis altos de glicose (açúcar) crónicos no sangue. Contudo, a terapia com as TZDs causa um aumento considerável de peso e apetite. Isto faz com que a adesão a este tipo de terapêutica (que pode substituir a injecção de insulina) seja difícil, uma vez que muitos dos doentes com diabetes tipo 2 combatem uma obesidade instalada que potencia outras complicações.
As TZDs actuam num receptor localizado na membrana nuclear das células adiposas conhecido pela sigla PPAR-γ (do inglês peroxisome proliferator-activated receptor γ). Este receptor tem sido positivamente relacionado como tendo um papel integrador em vários processos metabólicos patológicos como a já citada diabetes, mas também a obesidade, a aterosclerose, e outras genericamente englobadas na síndrome metabólico.
De facto, sabe-se que o PPAR-γ é activado por lípidos (gorduras) para induzir a expressão de genes envolvidos nos metabolismos lipídico e dos hidratos de carbono (açúcares). É uma espécie de tradutor de sinais provindos da nossa nutrição em respostas metabólicas, via activação da expressão de determinados genes. A compreensão do seu papel transporta o nosso enfoque no entendimento das doenças metabólicas para dentro do núcleo celular.
A acção das TZDs é a de “estimular” o PPAR-γ e a resposta metabólica é a de aumentar a assimilação de glicose para dentro das células do tecido adiposo, através de um aumento de sensibilidade à acção da insulina. Contudo, verifica-se um aumento concomitante na síntese de lípidos o que leva ao aumento da massa gorda armazenada. A hiperglicémia diminui, mas o paciente engorda! Para além disso, um aumento no apetite é verificado em pacientes tradados com TZDs o que não ajuda nada na vontade de perder ou pelo menos não aumentar de peso!
Mas há boas notícias. Num estudo publicado a 1 de Maio na revista Nature Medicine investigadores da Universidade norte-americana de Cincinnati, liderados pelo endocrinologista Randy Seeley, desvendaram o papel, até agora desconhecido, de receptores nucleares PPAR-γ existentes em neurónios do sistema nervoso central, na regulação do balanço energético do organismo. Descobriram que a sua activação por TZDs está envolvida na manutenção do apetite. Ao bloquear os recetores PPAR-γ, ou ao diminuir a sua expressão no sistema nervoso central, os investigadores conseguiram restaurar a sensibilidade à leptina (uma hormona responsável pelo controlo do apetite no cérebro) e modelar um balanço energético negativo em ratos sujeitos a uma dieta rica em gorduras.
Os resultados agora divulgados têm implicações positivas na utilização clínica de drogas derivadas das TZDs e vem permitir também racionalizar a etiologia da obesidade induzida pela dieta.
Segundo os autores do estudo, a acção diferencial do receptor PPAR-gama no tecido adiposo e no cérebro, quando activado por TZDs, produz efeitos aparentemente paradoxais. Este estudo pode melhorar quer as terapias existentes para a Diabetes mellitus tipo 2 baseadas nas TZDs, quer a dieta recomendada para modelar a acção do PPAR-γ a nível cerebral.
António Piedade
domingo, 1 de maio de 2011
O GENE ANTI-ANTIBIÓTICO
Post na continuação de outros dois (aqui e aqui) sobre a nova resistência bacteriana associada à sigla NDM-1.
O que significa NDM-1?
NDM-1 é a sigla inglesa para “New Delhi metallo-beta-lactamase-1”, uma enzima (proteína com actividade catalítica) que inactiva a acção de uma classe ampla de antibióticos designados por beta-lactâmicos. A sua designação advém de ter sido identificada primeiramente em num doente, turista sueco acidental, em Nova Deli, Índia (há alguma polémica sobre se não teria sido identificada antes).
Os antibióticos beta-lactâmicos são bactericidas, ou seja, causam a morte de bactérias. Alguns exemplos são as penicilinas, a amoxicilina, as cefalasporinas, os carbapenémicos (e.g., Meropeném) e o ácido clavulânico. Na prática, eles impedem que um amplo grupo de bactérias classificadas por bacilos gram-negativos, que nos causam doenças, consiga sintetizar a sua parede externa. A integridade desta parede, qual muralha inexpugnável de uma fortaleza, é feita de uma substância designada por peptidoglicano, e é essencial para a bactéria. Sem ela, a bactéria não consegue sobreviver.
Qual o perigo?
A enzima NDM-1, ao inactivar por hidrólise os antibióticos beta-lactâmicos, confere às bactérias que a possuem resistência a estes. Por outras palavras, os antibióticos de última geração, e até de algum uso restrito hospitalar, tornam-se “subitamente” ineficazes no tratamento de doenças causadas por bactérias que adquiriram o gene que codifica a NDM-1.
Acrescente-se que o gene da NDM-1 não está sozinho. Isto é, esta adaptação bacteriana a uma adversidade ambiental resultou numa solução tipo pacote de genes. O da NDM-1 faz parte de um determinado elemento distinto do cromossoma circular bacteriano, e que contém outros genes que amplificam e facilitam o “trabalho” da NDM-1. Há nele genes que facilitam a rápida disseminação desta resistência para outras bactérias, genes que codificam proteínas que funcionam como autênticas bombas que expulsam os antibióticos para fora das bactérias a eles antes susceptíveis, genes que estimulam as defesas anti-oxidantes das bactérias.
Em resumo: o mecanismo, ainda desconhecido, que levou ao desenvolvimento deste complexo genético, dotou o mundo bacteriano de uma nova arma antibacteriana multifacetada.
Que proteína é a NDM-1?
A NDM-1 é uma metalo-proteína que possui na sua constituição 158 aminoácidos e um átomo de zinco (Zn). A sua estrutura tridimensional foi resolvida recentemente.Aliás, para se perceber o mecanismo de acção desta enzima e como ela altera a estrutura dos antibióticos com grupos beta-lactâmicos, é essencial conhecer a sua estrutura tridimensional. Por isso esforço científico multidisciplinar foi efectuado no sentido de conseguir o mais rápido possível esse conhecimento. A caracterização da sua estrutura molecular pode ser consultada aqui.
No banco público de estruturas proteicas, vulgo PDB (protein data bank), a sua estrutura está codificada por 1ko3.
A novela da multi-resistência.
O uso excessivo e muitas vezes desnecessário de antibióticos, a resistência bacteriana a eles, é um assunto sempre em cima da mesa da Organização Mundial de Saúde. O problema não é de hoje. Aliás, o desenvolvimento de antibióticos semi-sintéticos beta-lactâmicos de última geração já resultou de um esforço para ultrapassar problemas de resistência bacteriana adquirida contra os primeiros antibióticos, muitos deles já totalmente inócuos.
O caso da descoberta e confirmação da dispersão da NDM-1 entre várias espécies de bactérias que nos causam doenças mortais (entéricas, pneumónicas, etc.) é, contudo, alarmante uma vez que representa um novo mecanismo muito eficaz de resistência bacteriana e que pode colocar-nos numa situação muito semelhante à que existia antes da descoberta e desenvolvimento dos antibióticos (Fleming, penicilina, 1928). A diferença, saliente-se, reside nas incomparáveis condições de higiene, alimentação e saúde pública que hoje caracteriza os países ditos desenvolvidos.
Mas, se nada mudarmos, a nossa capacidade em matar bactérias patogénicas pode reduzir-se alarmantemente.
E outros casos continuam a permanecer explosivos.
O caso da tuberculose extremamente resistente às drogas que possuímos contra ela é um exemplo muito preocupante, relativamente pouco mediatizado, que causou a morte de 150 mil pessoas no ano passado.
É preocupante o número crescente de bactérias que causam infecções hospitalares, como é o caso da Staphylococcus aureus, causadora de pneumonia, endocardite, síndrome do choque tóxico entre outras doenças, e que apresentam multi-resistência à panóplia de antibióticos e drogas de que dispomos.

Também está a evoluir rapidamente a ineficácia dos antibióticos para tratar a gonorreia, doença grave e sexualmente transmissível, causada por Neisseria gonorrhoeae, bactéria que tem adquirido multi-resistência aos antibióticos a ela dirigidos.
Os mecanismos através dos quais as bactérias adquirem resistência aos antibióticos são ainda muito pouco conhecidos e mal compreendidos. É ainda espantosa a rapidez com que novas resistências se espalham e se “instalam” em outras bactérias que não as que a adquiriram primeiramente. É que as bactérias são há muitos milhões de anos assinantes de meios de comunicação muito eficazes na eficiência com que comunicam informação.E muitos sintomas indicam que o problema se vai agravar e espalhar... entre nós, noutras doenças.
O que fazer?
É necessário implementar todas as medidas de saúde pública que combatam o uso inadequado de antibióticos. A educação e o aumento de cultura científica na população são das melhores defesas que temos contra o desconhecido e contra as doenças.

Por outro lado, o arsenal de conhecimento científico e biotecnológico que hoje possuímos, as robustas metodologias de biologia molecular, bioinformáticas emergentes que permitem um rápido escrutínio de candidatos a novas drogas, a rapidez com que identificamos as biomoléculas alvo para o desenvolvimento de novos medicamentos e a resolução com que identificamos genes e determinamos a sua estrutura tridimensional das proteínas funcionais, cartilha da sua função bioquímica, catapultam a nossa confiança no esforço multidisciplinar científico da humanidade para encontrar novas soluções para novos problemas de saúde.António Piedade
terça-feira, 19 de abril de 2011
NDM-1: UM PERIGO PARA A SAÚDE PÚBLICA?
Crónica semanal publicada no Diário de Coimbra.
Tem-se verificado nos últimos anos um reacender constante do debate sobre a eficácia dos antibióticos que usamos para combater as doenças causadas pelas bactérias patogénicas que nos colonizam.
Após algumas décadas de aparente controlo e eficácia garantida por um conjunto de antibióticos ditos de última geração, começam a surgir casos de preocupação para a saúde pública, caracterizados por um aumento da resistência bacteriana às “balas mágicas”.
Inúmeros relatórios oficiais e artigos em revistas científicas generalistas como a “Nature” ou a “Science”, ou de especialidade médica como a “The Lancet” ou a “New England Journal of Medicine", têm posto a nu algumas fragilidades na luta contra várias bactérias causadoras de doenças severas e mesmo mortais.
No meio de várias preocupações com diversos microrganismos que adquiriram resistência aos antibióticos a eles específicos, a bactéria do momento, ou melhor, o grupo de bactérias colunáveis e de primeira página são aquelas que possuem o gene que codifica uma enzima designada por NDM-1 (de New Delhi metallo-β-lactamase 1). Descoberta em 2008 em Nova Deli, num paciente sueco, em viagem pela Índia, contaminado com uma estirpe de klebsiella pneumoniae (causadora de pneumonia), aquela enzima confere a estas estirpes uma “super-resistência” aos antibióticos que actuam pela “destruição” da parede externa feita de peptidoglicano, protecção essencial das bactérias classificadas por gram-negativas. No geral as bactérias que possuem esta enzima resistem a todos os antibióticos excluindo as polimixinas. Estas são antibióticos polipeptídicos, abandonados da prática clínica entre 1970 e 1980 devido à sua elevada toxicidade sobre o organismo humano. O aparecimento de estirpes bacterianas multirresistentes “obrigou” à sua utilização de última linha em ambiente hospitalar.
Estudos subsequentes permitiram identificar a nova estratégia resistente presente em vários géneros de bactérias da família Enterobacteriaceae (que inclui muitas das que nos são patogénicas como a Salmonella ou a Escherichia), em vários países incluindo a Inglaterra, em ambiente hospitalar e muito recentemente em águas de abastecimento público em Deli (http://www.thelancet.com/journals/laninf/article/PIIS1473-3099(11)70059-7/abstract). A maior parte das investigações indica que o elemento genético que codifica a NDM-1 possui também informação genética para proteínas que funcionam com bombas que expulsam os antibióticos para fora das bactérias, assim como ainda outras informações que facilitam a sua disseminação no mundo microbiano. É um exemplo de adaptação bacteriana de última geração que faz uso da rede global de partilha de informação genética bacteriana útil em prática há milhões de anos.
Apesar da “contaminação” da rede de água pública na cidade indiana referida, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou na semana passada vários comunicados para os media retirando peso ao alarme do perigo para a saúde pública, quer local quer mundial, contrapondo a necessidade de mais investigação para determinar o grau de perigo efectivo. De facto, os poucos estudos já publicados sobre as bactérias que apresentam a NDM-1, mostram que as bactérias não se tornaram mais patogénicas, “apenas” adquiriram uma multiressistência alargada a todos os antibióticos em uso! Segundo a OMS, são necessários mais estudos para fundamentar a necessidade de alterar ou alargar os procedimentos de prevenção.
Enquanto isso, os meios de comunicação bacterianos partilham o elemento genético que contém o gene para a super-multi-ressistência e espalham a boa nova bioquímica no “In Bacteria News”: Com NDM-1 sobrevives a qualquer droga humana!
quarta-feira, 2 de março de 2011
Afinal o exercício físico é bom ou não?

“Sem exercício físico quotidiano apropriado é difícil mantermo-nos de boa saúde" (Arthur Schopenhauer, 1778-1860).
O post da nutricionista Ana Carvalhas, publicado neste blogue,“Apanhado na rede: comer bem em tempo de crise” (01/03/2011), e os diversos textos em que ela se tem debruçado no seu blogue “Comer bem até aos 100 anos…” tecem considerações sobre os benefícios da alimentação e do exercício físico em tempo de declarada crise económica, uma crise tão penosa para a bolsa dos portugueses. Entre outros, os gastos com a saúde têm vindo a ocupar uma fatia cada vez maior dos gastos pessoais, com tudo aquilo que não é coberto por inteiro pela protecção social.
O tema da saúde pública não tem tido entre nós a atenção que merece. Por exemplo, não está devidamente salvaguardada em algumas direcções técnicas dos pomposamente propagandeados Health Centers a responsabilidade por parte de licenciados universitários em Educação Física e Desporto, como acontece no caso das farmácias, que estão sob a direcção técnica de farmacêuticos.
Mereceu o assunto vários posts meus neste blogue. Trago, agora e aqui, à colação um deles, Gerontomotricidade, saúde e boa forma física (20/08/2007), que foi seguido de um outro, em 2/10/2008, intitulado A actividade física e o sistema cardiovascular. Naquele post entendi conveniente advertir: “O exercício físico de que aqui me ocupo, nada tem a ver com um desumanizante desporto que transforma o atleta numa máquina de alto rendimento para alcançar o pódio, tendo atrás de si um perigoso arsenal químico em que os esteróides se tornam vedeta em nome de uma pátria, de uma ideologia ou apenas de um clube.”
Nele relatei a saborosa história de Bernard Shaw, em boa forma física aos 90 anos de idade, que, ao ser-lhe perguntado, por um jornalista, quais eram os exercícios físicos que praticava, respondeu: “Pegar nas bordas dos caixões dos meus amigos que praticaram muito exercício físico”. Foi-me colocada a seguinte questão num comentário (08/11/20O7) que serve de título a este meu novo post: “Afinal o exercício físico é bom ou não?” Rezava assim esse comentário: “Tardiamente venho aqui perguntar ao Professor Rui Baptista se afinal o exercício físico é ou não bom? Gostei muito do artigo. Parabéns. JCM”.
Em 3 de Janeiro do ano seguinte mereceu-me este comentário a seguinte resposta:
“Meu Caro JCM: Veja lá como são as coisas. Só hoje, passados quase dois meses, tomei conhecimento do seu comentário. A minha resposta é esta. Claro que o exercício físico é bom se for feito com conta peso e medida. Por exemplo, se um indivíduo em jovem tiver feito muito exercício físico, e depois parar, deverá ter muito cuidado na sua (re)adaptação ao exercício físico. Suponhamos que, quando for cinquentão, resolve, de supetão, praticar uma carga de esforço físico não adaptado à sua idade e à sua má forma. É mais que certo que pode ter como destino um enfarte ou um AVC ou até uma morte súbita. Claro que este comentário é feito um tanto 'à vol d'oiseau', por não ter em conta muitos outros factores. O caso de Bernard Shaw é uma simples graça. Se morreu velho e viu morrer muitos dos seus amigos que faziam muito exercício físico isso se ficou a dever a questões genéticas: os indivíduos cujos progenitores morrem velhos têm muitas probabilidades de chegarem a uma idade provecta. É quase um lugar-comum dizer-se que é mais importante acrescentar vida aos anos que anos à vida. Ou seja, chegar-se a velho cheio de achaques, por vezes amarrado a uma cama, não é, de certeza, um futuro risonho para ninguém. Espero que leia este meu comentário para que cheguem a si os meus votos de um novo ano com muita saúde e exercício físico adaptado à sua idade e à sua forma física actual”.
Se fosse hoje teria citado, depois de ter voltado a folhear a noite passada o livro de Christiaan Barnard, célebre médico sul-africano, pioneiro na técnica dos transplantes cardíacos, Como defender o coração - tudo o que precisa saber sobre o ataque cardíaco (Livros do Brasil, Lisboa, 1971), este saboroso naco de prosa, ínsito nas respectivas, pp. 88-89:
“Muitas vezes me tem sido feita esta pergunta de ordem geral: ‘Doutor, se um homem saudável de 45 anos o procurasse e lhe perguntasse o que deveria fazer para evitar a doença coronária, o que é que lhe diria?’ Invariavelmente, quem faz a pergunta espera uma espécie de resposta do tipo frase-feita, como por exemplo: ‘Dir-lhe-ia que aprendesse estes simples versos:
'Deitar cedo e cedo erguer;
Não fazer exercício de competição:
Evitar todo o stress:
Ter cuidado em não comer
Manteiga ou ovos ou creme ou carne.
E porque é mau ser varão,
Como está claramente provado,
Faça extirpar os seus testículos!’ ”
Os versos que atribuem o malefício para a saúde coronária à condição de varão fundamentam-se em estudos epidemiológicos que atribuem esta morbilidade em percentagem estatística bem maior aos homens. Mas isso era em tempos em que o cigarro não era um vício feminino herdado de um certo diletantismo propagandeado por Hollywood.
Sobre o stress, apontado como um dos factores da diminuição da esperança de vida humana, conta Christiaan Barnard ter-lhe sido dito por um condutor de táxi em Nova Iorque: “Sossegue. Só há duas coisas que tem de fazer. Tem de pagar os impostos e tem, um dia, de morrer”. Isto em resposta ao apelo feito por este cirurgião à entrada deste meio de transporte: “Vamos embora. Tenho de estar lá às oito e um quarto!”
A última linha destes versos propõe uma medida draconiana - não fundamentada em dados estatísticos sobre a longevidade dos eunucos - que poderá evitar a doença coronária, tal como faz, reconhecidamente, a actividade física, retardando assim o "dia da prestação de contas a Deus". Mas valerá a pena aos quarentões terem um coração saudável, com as coronárias “desentupidas” de ateromas, isto é, placas de degeneração adiposa localizadas na túnica íntima das artérias, mas serem incapazes de amar? Sempre é melhor a prática do exercício físico devidamente orientada por quem para isso se encontra habilitado porque, como escreveu Leonardo da Vinci, “os que se encantam com a prática sem a ciência são como os timoneiros que entram no navio, sem timão nem bússola, nunca tendo a certeza do seu destino”.
Na imagem: Christiaan Barnard na capa da revista Time.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Biomarcadores para a Doença de Alzheimer?
:
Publicado no "Diário de Coimbra":
A detecção precoce de doenças neurodegenerativas (Alzheimer, Parkinson) constitui um aspecto da maior relevância clínica. Para além da sintomatologia associada à doença, até há muito pouco tempo o diagnóstico definitivo de muitas doenças passava pela identificação post-mortem de determinadas fisiopatologias.
O espantoso desenvolvimento da Biologia Molecular e os avanços no conhecimento na área da Imunologia molecular, principalmente no entendimento do funcionamento do sistema imunitário adaptativo à experiência bioquímica de cada indivíduo, tem permitido o desenvolvimento de testes de diagnóstico molecular precisos, que permitem antecipar nalguns casos anos no diagnóstico de determinada doença.
Contudo, se por um lado a identificação de determinada patologia pela presença de anticorpos a ela específicos no plasma sanguíneo tem permitido o desenvolvimento de testes de rastreio e diagnóstico rápidos, mais ou menos económicos, o desconhecimento das substâncias antigenas, que potenciam e elicitam a geração desses mesmos anticorpos, tem retardado o desenvolvimento desses mesmos testes para algumas doenças como é o caso da doença de Alzheimer.
A nova estratégia pode traduzir-se pela possibilidade de elaborar sinteticamente um número pequeno de potenciais moldes para fazer chaves que já existem e são funcionais sem conhecermos a fechadura dessas chaves! Esta estratégia permite-nos identificar a presença das chaves e deduzir a existência ou presença das respectivas fechaduras. (Este exemplo é igualmente válido se trocarmos a chave pela fechadura).
No último número da revista Cell, é apresentado uma nova abordagem molecular que permite a selecção de um número reduzido de moléculas sintéticas que interagem com anticorpos presentes no sangue de pacientes com determinada doença. No caso em questão, os investigadores conseguiram, através desta metodologia, detectar anticorpos presentes no sangue de modelos animais com Alzheimer que estão ausentes no sangue de indivíduos aparentemente saudáveis.
Abre-se uma nova era no diagnóstico biomolecular.
António Piedade
Publicado no "Diário de Coimbra":
A detecção precoce de doenças neurodegenerativas (Alzheimer, Parkinson) constitui um aspecto da maior relevância clínica. Para além da sintomatologia associada à doença, até há muito pouco tempo o diagnóstico definitivo de muitas doenças passava pela identificação post-mortem de determinadas fisiopatologias.
O espantoso desenvolvimento da Biologia Molecular e os avanços no conhecimento na área da Imunologia molecular, principalmente no entendimento do funcionamento do sistema imunitário adaptativo à experiência bioquímica de cada indivíduo, tem permitido o desenvolvimento de testes de diagnóstico molecular precisos, que permitem antecipar nalguns casos anos no diagnóstico de determinada doença.
Contudo, se por um lado a identificação de determinada patologia pela presença de anticorpos a ela específicos no plasma sanguíneo tem permitido o desenvolvimento de testes de rastreio e diagnóstico rápidos, mais ou menos económicos, o desconhecimento das substâncias antigenas, que potenciam e elicitam a geração desses mesmos anticorpos, tem retardado o desenvolvimento desses mesmos testes para algumas doenças como é o caso da doença de Alzheimer.
A nova estratégia pode traduzir-se pela possibilidade de elaborar sinteticamente um número pequeno de potenciais moldes para fazer chaves que já existem e são funcionais sem conhecermos a fechadura dessas chaves! Esta estratégia permite-nos identificar a presença das chaves e deduzir a existência ou presença das respectivas fechaduras. (Este exemplo é igualmente válido se trocarmos a chave pela fechadura).
No último número da revista Cell, é apresentado uma nova abordagem molecular que permite a selecção de um número reduzido de moléculas sintéticas que interagem com anticorpos presentes no sangue de pacientes com determinada doença. No caso em questão, os investigadores conseguiram, através desta metodologia, detectar anticorpos presentes no sangue de modelos animais com Alzheimer que estão ausentes no sangue de indivíduos aparentemente saudáveis.
Abre-se uma nova era no diagnóstico biomolecular.
António Piedade
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
A primeira administração de Insulina: 11 de Janeiro de 1922
Publicado em "O Despertar":
Antes da descoberta e purificação da molécula Insulina, a doença diabética era, na maior parte dos casos, fatal!
A associação de que determinados grupos de células no tecido exócrino pancreático, identificados pela primeira vez por Paul Langerhans, em 1869, estavam envolvidos no processo digestivo e na regulação dos níveis do açúcar glicose no sangue, foi progressivamente estabelecida por várias gerações de cientistas.
Em 1889, o fisiologista Oskar Minkowski e o médico Joseph von Mering mostraram que, se o pâncreas de um cão fosse removido, o animal desenvolvia diabetes. Em 1901, Eugene Opie demonstrou a relação causa-efeito entre o estado, a integridade, dos grupos de células identificados por Langerhans (em sua honra denominados ilhéus de Langerhans) e o desenvolvimento da Diabetes mellitus.
Nas duas décadas seguintes foram várias as tentativas de tentar isolar as secreções dos ilhéus de Langerhans eventualmente responsáveis pela regulação da glicemia no sangue, mas sem sucesso clínico apreciável.
A história da descoberta está também condimentada com alguma controvérsia em torno de quem terá sido o primeiro cientista a demonstrar a acção de extractos de ilhéus de Langerhans na redução da glicemia e glicosúria. Entre eles estão cientistas como Georg Ludwig Zuelzer (1906), E. L. Scott (1911-12), Israel Kleiner (1919) e Nicolau Paulescu (1921). Este último, romeno, foi, para muitos, o primeiro cientista a descobrir a insulina, mas “problemas” no registo e patente da sua descoberta impediram que fosse galardoado com o prémio Nobel pelo seu trabalho.
De facto, o comité Nobel atribuiu em 1923 o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina a Frederick Banting e a J. J. R. Macleod pela sua descoberta da insulina e sua administração num humano diabético. Estes laureados, descontentes com a decisão do comité Nobel, dividiram o reconhecimento com outros dois cientistas que, segundo eles, tinham sido decisivos no isolamento e purificação da insulina: Charles Best, assistente de Macleod, e o bioquímico Bertram Collip, convidado por Banting para o trabalho laboratorial “pesado” de isolamento e purificação.
Deve-se a Collip a obtenção do primeiro extracto de insulina purificado a partir de ilhéus de Langerhans de fetos de bezerro. Esta foi a fonte para o extracto a ser utilizado no primeiro ser humano a ser injectado com insulina: Leonard Thompson. Com 14 anos de idade, o adolescente diabético foi injectado pela primeira vez no dia 11 de Janeiro de 1922 (há 89 anos) com um extracto impuro, o que lhe causou uma reacção alérgica severa.
As injecções foram suspensas enquanto Collip não conseguiu melhorar o protocolo experimental e conseguir purificar o extracto. Conseguiu-o depois de 12 dias de intenso trabalho laboratorial. No dia 23 de Janeiro de 1922, Leonard recebeu uma injecção do novo extracto purificado, o que lhe retirou os sintomas diabéticos sem lhe causar reacções e complicações indesejadas.
Foi um sucesso das ferramentas laboratoriais químicas aplicadas à saúde e o início de uma nova era na bioquímica clínica. A Diabetes mellitus deixava de ser uma doença fatal e passava a ser uma doença crónica. O conhecimento bioquímico conquistava qualidade de vida onde antes a esperança morria doce.
António Piedade
Partilhar Piolhos
Publicado no "Diário de Coimbra" na sequência de uma outra crónica:
"Companheiros" de evolução, os piolhos, insectos parasitas sugadores de sangue, sem asas, continuam a parasitar-nos por maior que seja a tecnologia e medicina de que disponhamos. A espécie humana é parasitada por três espécies: o piolho da cabeça (Pediculus humanus capitis), o do corpo (Pediculus humanus humanus) e o piolho da zona púbica (Phthirus púbis). Qual deles o mais chato!?
Em idade escolar, pela maior extensão do contacto físico directo entre muitas crianças no mesmo espaço físico, é comum este parasita infestar o couro cabeludo da criançada. Refira-se que ele não escolhe cabeças, afectando indiscriminadamente infantes de todas as classes sociais e intelectuais, independentemente do seu cabelo, da sua cor de pele, simpatia política ou crença religiosa paternal. A sua atracção é pelo sangue humano de que são específicos. E todos os cabelos são bons para ancorar as suas lêndeas.
Como estes insectos de corpo achatado não possuem asas, está excluída a sua transmissão por via aérea. Acrescente-se que a sua presença não é sinónimo de falta de higiene mas sim de que houve um contacto directo entre um portador e o novo hospedeiro. Basta que exista uma criança contaminada para que a disseminação ocorra, sendo que a única forma de travar a infestação é a de uma acção de desparasitação colectiva sem excepções.
Assim, os avisos da detecção de piolhos numa determinada classe escolar devem ser levados a sério e com a necessária consciência de responsabilidade social e de higiene pública por todos os encarregados de educação, sem excepção. Basta a incúria de um para que todos continuem parasitados com os piolhos da sub-ordem Anoplura.
Consequências? Vergonha pública é a menor das consequências. Pediculose, incómodo devido à comichão e prurido que pode infectar secundariamente com Staphylococcus aureus ou Streptococcus pyogenes. Mas o efeito mais imediato é o do eventual menor rendimento escolar por noites mal dormidas, devido a comichão intensa, o que aumenta a sonolência da criança durante as aulas e testes. Ironicamente, um piolho da cabeça não suga conhecimento mas pode contribuir para uma negativa numa prova.
Pelo bem-estar de todos, assuma a sua responsabilidade social e ajude as suas crianças a eliminar esses chatos bichinhos parasitas!
António Piedade
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
O piolho do corpo nu
Crónica publicada no "Diário de Coimbra":
Para além do incómodo que o piolho causa ao seu hospedeiro humano, existe nele um potencial único de informação sobre a evolução da nossa própria espécie.
Estes insectos parasitas sugadores de sangue e sem asas (da ordem Phthiraptera, sub-ordem Anoplura) são muito específicos ao seu hospedeiro e co-evoluem com ele. Assim, estudos sobre a evolução dos piolhos têm fornecido informação valiosa sobre a evolução da nossa espécie. De facto, há mais de uma década que antropólogos e geneticistas têm recorrido ao estudo do DNA (nuclear e mitocondrial) do piolho para nele recolherem informações não fossilizáveis.
Uma primeira abordagem geral sobre como os parasitas podem ser bons indicadores para o estudo da evolução humana pode ser consultada aqui.
O estabelecimento de árvores genealógicas (filogenéticas, para ser mais preciso) da evolução das diversas espécies de piolhos que parasitaram especificamente diferentes espécies humanas, antepassados hominídeos e actuais símios, tem fornecido informação complementar e independente da do hospedeiro, corroborando teorias migratórias em vagas sucessivas para fora de África do género homo, e questionando a eventual convivência directa entre espécies diferentes.
Há alguns anos (2004), num artigo publicado na PLOS Biology, David Reed mostrava a possibilidade de Homo sapiens modernos terem convivido com espécies mais “arcaicas” como o H. erectus e H. neanderthalensis pela co-divergência de espécies de piolhos que parasitaram aquelas espécies na mesma época.
Num artigo publicado no último número da revista Molecular Biology and Evolution (28(1):29–32. 2011), uma equipa de investigadores, do Museu de História Natural da Universidade da Florida, liderado por Reed, vem mostrar que humanos anatomicamente modernos começaram a usar vestuário ainda em África. O estudo indica que os nossos antepassados começaram a usar roupa para cobrir o corpo sem pelos há cerca de 170 mil anos, altura em que os piolhos do corpo (Pediculus humanus humanus) terão divergido dos piolhos da cabeça (Pediculus humanus capitis) e da pele coberta com pelos.
Refira-se, a propósito, que o genoma do Pediculus humanus humanus foi sequenciado em 2010 e publicado na revista PNAS.
O uso de vestuário terá facilitado aos nossos antepassados a migração para latitudes mais elevadas com climas mais rigorosos. Uma vez que as peças de vestuário raramente fossilizam, o estudo indirecto recorrendo ao nosso mais velho insecto parasita, vem reforçar a perspectiva do desenvolvimento cultural e tecnológico ocorrido em humanos modernos em África em períodos mais recentes da nossa evolução e antes de novas e últimas migrações por todo o planeta.
António Piedade
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
O PRAZER DAS ESTATÍSTICAS
Hans Rosling mostra o progresso no mundo nos últimos 220 anos. Espectacular!
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Entrevista a Alexandre Trindade sobre Cancro (2)
Segunda parte de uma entrevista (ver primeira parte aqui), sobre cancro, com o Doutor Alexandre Trindade, Investigador do grupo de "Desenvolvimento Vascular" da Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade Técnica de Lisboa, e do Instituto Gulbenkian de Ciência. Publicada no “Diário de Coimbra”.
António Piedade - O que é que se sabe sobre o potencial neoplásico de células estaminais somáticas? Há alguma semelhança entre as primeiras células de um tumor e as células estaminais somáticas?
Alexandre Trindade - A ideia vigente é que, retirando da equação factores ambientais, todas as células têm o mesmo potencial de mutação. Assim, o factor mais importante para que um conjunto de células de um tecido tenha um potencial oncogénico mais elevado é a existência de mutações herdadas. A ideia de que existem células com carácter estaminal num tumor é relativamente recente e alvo de um grande esforço na investigação. Descobriu-se que essas células são muitas vezes responsáveis pelos relapsos tumorais que acontecem a seguir a tratamentos de quimioterapia, pois estas células não são sensíveis a estes tratamentos. Pensa-se também que estas células tumorais estaminais podem ser também responsáveis pelo processo de metastização. Portanto, estas células, que compõem apenas uma percentagem mínima da população de células tumorais, têm uma importância elevadíssima no desenvolvimento tumoral e uma relevância muito alta também para a eficácia dos tratamentos.
É muito complicado confirmar se as primeiras células de um tumor são estas células tumorais estaminais ou se estas se desdiferenciam em algum momento após o aparecimento do tumor. Pensa-se que na realidade ambas as situações possam acontecer. Haverão tumores que se formam a partir de células estaminais somáticas que ganham características cancerígenas e tumores que se formam a partir de células diferenciadas e que ao longo do seu desenvolvimento ganham um conjunto de células que, através de desdiferenciação, ganham características de células estaminais.
AP - Apesar da gravidade para um organismo quando nele se desenvolve um cancro, é conhecido no processo tumoral algum papel na evolução das espécies?
AT - Que eu tenha conhecimento não. A única ligação que se pode fazer está no facto de ambos os processos se basearem na acumulação de mutações genéticas. O crescimento de um cancro procede de forma análoga à evolução de uma espécie, em que mutações vão sendo acumuladas e seleccionadas. A maioria não tem grande consequência directa, sendo consideradas silenciosas, mas algumas têm impacto na função de um ou vários genes. Nesse momento ocorre selecção e a célula pode ser eliminada por apoptose ou como alvo do sistema imunitário. Se por acaso a mutação não induzir a morte celular directa ou indirecta então vai permanecer. No caso de conferir a perda do controlo do ciclo replicativo celular, por exemplo, vai conferir a essa célula uma vantagem replicativa, fazendo com que ela acabe por se multiplicar muito mais depressa que as células vizinhas, não transformadas, dando origem a um tumor. Esse tumor vai continuar a acumular mutações, mais depressa que as células não transformadas devido ao ciclo celular acelerado, aumentando a possibilidade de ganhar características malignas. Por outro lado, a evolução das espécies baseia-se largamente na aquisição de novas características que confiram vantagem reprodutiva ao nível do organismo, o que não é caso do cancro em que o conceito é aplicado ao nível celular.
AP - Regressando ao processo de angiogénese, podemos dizer que ele é crítico para o desenvolvimento de um cancro? Que factores influenciam a arquitectura e a construção de vasos sanguíneos a partir dos já existentes?
AT - O processo de angiogénese é um dos marcos da tumorigénese. O desenvolvimento da vasculatura procede de maneira descontínua. É baseado na interacção de factores que promovem a activação das células endoteliais, componentes celulares dos vasos sanguíneos, e factores que inibem a activação dessas mesmas células. Permanentemente há uma luta entre factores que promovem e inibem, promovendo no global um estado de estabilidade à vasculatura e permitindo um crescimento controlado quando há necessidade. Quando um cancro atinge um tamanho crítico ele necessita de recrutar vasos sanguíneos para permitir que continue a crescer. Assim ele começa a secretar factores de crescimento endoteliais que vão activar a vasculatura vizinha. É este estímulo externo que acaba por virar a balança em favor dos factores activadores e assim permitir que a vasculatura seja activada e comece a crescer na direcção do tumor. Como a vasculatura dos tumores é formada neste processo acelerado, em que a balança dos reguladores está fortemente virada para a activação, os vasos que se formam são largamente malformados e pouco funcionais, quando comparados com vasos sanguíneos de qualquer outro orgão normal. Estes vasos não são maduros, tendo uma camada de músculo liso, que normalmente cobre os vasos sanguíneos dando-lhes estrutura, mal organizada e muito permeável. Esta anormalidade é responsável por um aumento de pressão entre as células do tumor, que se reflecte numa maior dificuldade em que drogas quimioterapêuticas entrem no tumor para matar as suas células.
AP - Travar a angiogénese parece ser um bom alvo terapêutico para tratar tumores e cancros sólidos. Quais são as fronteiras do conhecimento nesta área?
AT - Em 1971 Judah Folkman, médico e investigador, lançou a ideia pioneira que os tumores necessitavam de formar novos vasos sanguíneos para crescer e que uma terapia que impedisse esses vasos de crescer poderia impedir o crescimento tumoral. Em 1998 o mesmo investigador disse que se alguém tivesse cancro e fosse um ratinho ele podia tratá-lo. Desde essa altura já saíram para o mercado vários agentes biológicos que actuam sobre a neo-vasculatura tumoral, bloqueando o seu desenvolvimento. No entanto nós ainda aqui estamos a estudar esta área. A razão para isso é que as drogas actuais não revelaram ter nos humanos o mesmo efeito que no modelo ratinho. Não se sabe bem porque é que isto acontece, talvez tenha a ver com a estratégia terapêutica usada mas o mais provável é que no fundo acabe por, mais uma vez, apenas reflectir a heterogeneidade desta classe de doenças que chamamos de cancro. Os trabalhos em modelo ratinho de um tipo de cancro reflectem apenas uma pequena proporção dos pacientes humanos com esse cancro. Daí que administrar uma dada terapia em pacientes humanos acabe por produzir os efeitos observados em ratinho apenas num subgrupo de pacientes. Na minha humilde opinião, a maior fronteira está na detecção de quais pacientes serão responsivos às várias formas de terapia que vão surgindo, no fundo, ao detectar quais dos pacientes têm tumores mais semelhantes àqueles em que as drogas foram estudadas em modelo de ratinho. Para que este modelo possa funcionar serão necessários agentes biológicos que sejam dirigidos a todas as vias de sinalização molecular envolvidas na regulação do crescimento tumoral e da angiogénese para que, no futuro, os médicos possam escolher quais combinações serão mais efectivas para cada paciente.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Entrevista a Alexandre Trindade (1)
Primeira parte de uma entrevista, sobre cancro, que fiz ao Doutor Alexandre Trindade, Investigador do grupo de "Desenvolvimento Vascular" da Faculdade de Medicina Veterinária, UTL e do Instituto Gulbenkian de Ciência.
António Piedade - O que é o cancro?
Alexandre Trindade - Existe um conjunto de doenças caracterizadas por multiplicação acelerada de células de um tecido. Normalmente o resultado mais visível dessas doenças é a formação de uma massa tumoral, embora no caso das leucemias tal possa não acontecer. Inicialmente estas doenças são benignas, o que não quer dizer que não tenham um efeito negativo para a vida dos pacientes. A palavra cancro descreve o estado em que estas doenças adquirem características malignas comuns, multiplicação descontrolada de um conjunto de células de um tecido, invasão e destruição do tecido saudável rodeante e propagação para locais secundários no organismo, formando metástases. Cada cancro em cada paciente é um caso único e em permanente alteração devido à sua instabilidade genética. Esta é a razão pela qual é tão difícil tratar um paciente com cancro.
AP - No geral e no contexto de um mesmo tecido, há células mais propensas do que outras a serem nucleares no desenvolvimento tumoral?
AT - O processo de tumorigénese é totalmente dependente da acumulação de mutações génicas, ou seja, de alterações no código genético, em genes promotores ou supressores de tumores. Como o processo de mutação é aleatório, um indivíduo que nasça sem mutações nesses genes terá basicamente a mesma probabilidade de desenvolver um tumor a partir de qualquer célula de qualquer tecido. No entanto, como é o caso em formas de cancro hereditárias, se um indivíduo nascer com uma mutação específica num determinado gene promotor ou supressor de tumores irá ter maior probabilidade de desenvolver cancro num determinado tecido. Como exemplo, uma pessoa que nasça com uma mutação em BRCA1, um supressor tumoral, terá maior probabilidade de desenvolver cancro da mama, e um pessoa que nasça com uma mutação em APC, outro supressor tumoral, terá maior probabilidade de desenvolver cancro colorectal.
Dentro de um mesmo tecido, o processo de acumulação de mutações acontece de forma independente em cada célula. Assim, num processo estocástico acaba por ser seleccionada uma célula, que mais depressa acumulou um conjunto de mutações suficientes para que deixe de ter a sua replicação, o processo pelo qual se divide, regulada. Esta célula dará então início à formação de uma massa celular, um tumor, que poderá continuar a acumular mutações e a desenvolver-se até constituir um cancro.
No contexto do organismo, retirando a questão de mutações pré-existentes, o factor mais importante para o desenvolvimento tumoral é o ambiental. Por exemplo, o fumo do tabaco ou contaminantes químicos na comida vão produzir uma pressão carcinogénica sobre os pulmões ou o tracto digestivo, respectivamente, acelerando o processo cancerígeno nesses respectivos orgãos.
AP - Como é que as células tumorais, em acelerada divisão, "comunicam" as suas necessidades em nutrientes e oxigénio aos tecidos sãos circundantes?
AT - As células tumorais fazem uso de todas as ferramentas celulares que lhe estão disponíveis. No fundo acabam por actuar de forma viral, subvertendo não só a maquinaria celular como também alterando o microambiente que as rodeiam de forma a torná-lo mais favorável a suportar o seu crescimento.
Nesse sentido, as células tumorais secretam factores de crescimento que promovem a formação de novos vasos sanguíneos. A irrigação sanguínea do tumor permite que lhe cheguem mais nutrientes e oxigénio, de modo a suprir as suas necessidades e permitir a continuação do seu crescimento.
AP - O que é que provoca a construção de novos vasos sanguíneos até elas?
AT - Todos os tumores conseguem crescer até ter cerca de 2mm de diâmetro sem necessitarem de formar novos vasos sanguíneos. A partir desse volume um tumor só consegue crescer se activar o "interruptor angiogénico", ou seja, se activar a expressão de factores angiogénicos que estimulam o crescimento de novos vasos sanguíneos. Esses vasos crescem a partir da vasculatura rodeante e invadem o tumor, aumentando a sua irrigação sanguínea. O estímulo que desencadeia este interruptor é precisamente a falta de oxigénio, mais conhecida por hipóxia, no centro do tumor em crescimento.
(continua)
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