De Víbora na Mão é um livro autobiográfico de Hervé Bazin de 1948, publicado em Portugal pela coleção Unibolso, provavelmente em 1985. Neste livro, se os filhos são terríveis e planeiam (e tentam) o assassinato da mãe, esta não é menos ao bater-lhes e a castigá-los. Em suma, um livro terrível! Estava a lê-lo, desta vez para anotar os aspectos químicos. Mas não era tanto isso que me interessava. Interessava-me mais a geografia, os tempos envolvidos e a relação, em termos de lugares e atitudes, com A Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, uma obra monumental em sete volumes que acaba um pouco antes da outra começar e que também estive a reler e anotar, e, ainda, Thérèse Desqueyroux, passado nas Landes e publicado em 1927 por François Mauriac (publicado, em Portugal, recentemente pela Cavalo de Ferro, em 2015). Estava eu nisso, a viajar pela França do início do século vinte, a comparar o conservadorismo patético de uns com o sensualismo dos outros. Compararava, sem grande profundidade, é certo, as diferentes atitudes, o dinheiro que a uns, arruinados, faltaria e que, os outros, velhos burgueses, teriam em excesso. Comparava a atitude perante os banhos de mar e a praia, evitada mas verdadeira, de Le Balle na Víbora, com a Balbec imaginária da Busca.
Mas a química voltou outra vez. A verdade é que todos os livros a têm. E só falo da Víbora na Mão. Esta tem, claro, o óleo de rícino, a pólvora piroxilada, também chamada pólvora sem fumo, as gotas de beladona, o cianureto (diz-se actualmente cianeto) de potássio, a ureia e a uremia, a curiosidade de Rayon ser também um lugar, entre outros. Mas esses eu já conhecia. O que me chamou mais a atenção acabou por ser um medicamento para uma crise de fígado, chamado, no livro, Algocoline Zizine. Uma pesquisa mostrou que era uma expressão que só aparecia neste livro e que esta obra era citada ipsis verbis num artigo antroplógico a propósito da questão de serem as “doenças de fígado” uma doença tipicamente francesa. Mais umas pesquisas e estas mostraram que os laboratórios Zizine ainda existem, mas agora são dedicados ao “medicamentos alternativos,” e que “algocoline,” poderia ser outro nome para analgésico. Se fosse o caso, qual seria a sua composição? Foi aí que vi que os laboratórios Zizine não tinham fabricado o “Algocoline Zizine” mas sim o “Alcholine Zizene,” de que há bastantes caixas metálicas à venda na internet. Será que o autor se enganou? Será que teve um liberdade poética? Será que não quis usar um nome registado? Não sei, o que sei é que o Alcholine Zizene era de facto uma marca registada e descrito como um “drenante hepático” (um laxante, diríamos hoje) composto de sulfato de magnésio e pectina. E foi assim que, de uma praia redescoberta pelos parisienses, Le Balle-Escoublanc, encontrei a química de um frasco de medicamento a vajar pela França dos livros. Façamos um passeio à feira do livro e encontremos outras viagens!
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terça-feira, 1 de setembro de 2020
De víbora na mão, em busca do tempo perdido, viagens pelos livros
sexta-feira, 29 de maio de 2020
Daisy Miller: o turismo popular e (sem nada que ver) as doenças ainda sem cura
“Daisy Miller” é a novela de Henry James (1943-1916) mais conhecida, a qual aponta para as diferenças entre americanos e europeus e para a igualdade das mulheres, numa altura em que esta quase não existia. Também pode ser vista assim, claro, mas não foi isso que mais me chamou a atenção. Foi, por um lado, a popularização do turismo e, por outro, as doenças que existiam e ainda não tinham cura.
Escrita em 1878, a novela refere como o narrador encontrou Daisy Miller, uma jovem americana normal e independente, de certa forma ingénua e sem malícia, com pais ausentes e um irmão mal-educado. Sem pensar nisso nem o desejar propriamente, Daisy causa escândalo. Alguns querem proteger a sua reputação enquanto outros evitam encontrá-la. Curiosamente, Henry James coloca-a como turista americana num hotel (Trois Couronnes) da mesma cidade de Julie ou a Nova Eloisa de Rousseau, Vevy, perto do lago Lemano, em Genebra, agora com muitos turistas americanos. Uns anos antes, Lord Byron alugou um casa, a Vila Diodati, a cerca de cem quilómetros, no mesmo lago. Nesta, esteve com Mary Shelly, Percy Shelley e John Polidori, sendo nesta escrito o “Franskestein” de Mary Shelly e o “Vampiro” de Jonh Polodori.
Havia turistas de todos os países, claro, mas não tantos como os americanos. Desde meados do século dezanove que o turismo americano era uma indústria em grande crescimento. Os nobres e intectuais ricos faziam o que ficou conhecido como o “grand tour,” como parte da sua formação, mas é com os americanos que a actividade de visitar se torna verdadeiramente popular. Por exemplo, Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), último presidente da primeira república, antes da ditadura de Oliveira Salazar, trabalhava alguns meses a gerir os negócios e depois viajava durante o resto do ano. Vamos encontrar reflexos dessas viagens nas pitorescas “Novelas Eróticas” onde conhece e foge na Holanda com uma jovem judia, encontra num barco uma jovem brasileira e, em Sevilha, onde encontra uma jovem cigana, entre outras. Sabemos que Teixeira Gomes viajava muito e que tinha até uma mala especial. Por outro lado, no “Moby Dick” vamos encontrar Ismael que nunca pagava para ver o mar e viajar. Vários autores vão escrever sobre as suas viagens. As viagens eram realizadas e comentadas, mas por um grupo restito. Vai ser com os americanos que a actividade de viajar se vai generalizar como indústria. Os mais cultos seguiam os percursos dos seus autores favoritos, enquanto os outros seguiam os primeiros ou compravam os programas das agências. Gerou-se assim um grande fluxo de turistas americanos conhecidos pelo menos até aos anos setenta como “camones”. É muito curioso tentar perceber esse fluxo popular do turismo que se vai estender a todos e agora com a covid-19 está algo parado. E vai haver uma reacção contra a massificação e popularidade desta actividade. Os intelectuais achavam que viajar por motivos “fúteis” era absurdo. Ralph Waldo Emerson (1803-1883), por exemplo, escreverá que "viajar é o paraíso dos tolos." Ele refere-se a encontrar a felicidade em locais longinquos mas a ideia é generalizávela outras actividades turisticas.
Na mesma altura passavam-se fomes periódicas na Europa. Ainda não tinham sido inventados os adubos sintéticos. Os alemães, suecos, irlandeses, italianos, judeus e polacos, entre outros, vendiam-se quase como escravos para viajarem até ao novo mundo. Os portugueses iam mais para o Brasil, mas alguns também foram para a América. Muitos não tiverem sucesso, quase todos mudaram de nome ou engrossaram os conhecidos bairros étnicos, alguns tiveram sucesso e muitos foram vítimas de xenofobia. É aliás curiosa a pergunta do irmão "se o narrador era mesmo americano." Mas não se julgue que na América tudo eram rosas. A alimentação era má e perigosa. Os medicamentos um risco sem controlo. Nos anos sessenta do século XX, as coisas já tinham melhorado muito para todos, com as férias pagas na Europa os turistas europeus poderão ultrapassar os americanos, Mesmo noutras coisas, como é sabido, a América ficou para trás.
A paisagem é bela. Temos o lago, as montanhas e a neve. Mas os mosquitos e as doenças espreitam. A tuberculose, a malária e outras infecções. Algumas pessoas procuram tratamentos, outras a beleza. O lago fica no sopé dos Alpes, onde se situa Davos, a cerca de 300 km, outro local mítico, onde uns anos mais tarde será escrita a “Montanha Mágica”. Chamonix fica a cerca de cem quilómetros. Tudo parece bem. Só que não.
Em Roma, Daisy Miller vai morrer rapidamente de malária (conhecida ali como febre italiana). Como referi, é triste, mas não era uma morte inesperada. As doenças eram muito comuns. O homem mais rico do mundo, um Rothschild, morreu nessa altura de uma infecção, por exemplo. Mais tarde vieram as guerras e a gripe pneumónica.
Na véspera da segunda guerra mundial ainda havia paludismo, ou, o que e sinónimo, malária, junto aos rios e lagos da Suíça, Itália, Espanha e Portugal. Eram as febres tercãs e as sezões. Foi o DDT que acabou em boa parte com o paludismo nestes paises. Podemos agora saber e dizer coisas que na altura não sabíamos, mas não deveremos esquecer as lições da história da ciência.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
Quatro centenários que celebram a humanidade
[No número 1284 do JL de 18 a 31 de dezembro de 2019 refiro o Ano Internacional da Tabela Periódica 2019 e o que aprendi com os centenários de Jorge de Sena, Sophia de Mello Andresen e Fernando Namora a ainda com Vitorino Nemésio e António Gedeão. Mas, eu também aprendi imenso com este número que refere outro centenário, o de João José Cochofel, assim como Arquimedes da Silva Santos, Nuno Maulice e Djaimilia Pereira de Almeida (na capa)]
E o rapaz abriu a caixa e acendeu um fósforo.
- A Menina deu palmas de alegria e pediu para tocar no fogo.
- disse o rapaz - é impossível. O fogo é alegre mas queima.
- É um sol pequenino - disse a Menina do Mar.
- Sim - disse o rapaz - mas não se lhe pode tocar.
E o rapaz soprou o fósforo e o fogo apagou-se.”
O Ano Internacional da Tabela Periódica 2019 celebra os 150 anos de Dmitri Mendeleiev (1904-1907) deixando espaços vazios para os actuais 118 elementos químicos ao encontro de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Jorge de Sena (1919-1974), Fernando Namora (1919-1989), Rómulo de Carvalho / António Gedeão (1906-1997) e Vitorino Nemésio (1901-1978) que deixaram espaços para nos prenchermos.
A poesia de Sophia Obra Poética (Assírio & Alvim, 2015) é luminosa e concreta. Mas o que fazem aqui a família e os amigos (e também os inimigos)? Trazem a humanidade multifacetada que precede a imortalidade como espero mostrar. Na ciência parecia mais fácil - pensar em espaços vazios de acordo com fórmulas - mas também não é. Há nesta também um factor humano. Na Menina do Mar, de 1958, fala de química. Parece simples. Sophia era enganadoramente simples.
“-Trouxe-te isto - disse. - É uma caixa de fósforos.
- Não é muito bonito - disse a Menina.
- Não; mas tem lá dentro uma coisa maravilhosa, linda e alegre que se chama o fogo. Vais ver.E o rapaz abriu a caixa e acendeu um fósforo.
- A Menina deu palmas de alegria e pediu para tocar no fogo.
- disse o rapaz - é impossível. O fogo é alegre mas queima.
- É um sol pequenino - disse a Menina do Mar.
- Sim - disse o rapaz - mas não se lhe pode tocar.
E o rapaz soprou o fósforo e o fogo apagou-se.”
Podemos encontrar ligações científicas, claro, mas o mais importante é certamente o factor humano.
O prefácio de Sena às Poesias Completas (Sá da Costa, 1965) de Gedeão, mostra que há uma ciência da literatura contra o impressionismo da crítica, com 70-80% dos seus poemas a não terem uma referência científica [corrijo a minha gralha]. Nas Memórias (Gulbenkian, 2010), no qual deixa um espaço para a sua morte, Rómulo de Carvalho diz que gostou do prefácio de Sena, mas no Hotel Tivoli em Junho de 1967, “Sentado à minha frente, na mesa do almoço, a meio metro de distância de mim, está Vitorino Nemésio que não me falou durante toda a refeição, nem antes nem após ela. Era um intelectual.” Em Nemésio, os poemas de 1971, de Limite de Idade, há hidrogénio, hélio, fósforo, carbono, ouro, azoto, polónio, chumbo, plutónio, néon, árgon, ferro, silício, sódio, cloro, alumínio, magnésio, potássio, enxofre, bromo, boro, estrôncio, mais elementos que em Gedeão! Ele que chumbara, segundo as suas palavras, por não saber a composição centésimal do metano.
Sena gosta de Nemésio, que resolveu triunfar de 1935 até a morte, numa aparentemente gratuitidade nas metáfora, “Nemésio que conhecia tudo mas aparentava não conhecer nada” ao contário de Namora, segundo Sena. Em Estudos da Literatura Portuguesa II, Sena (Edicões 70) escreve sobre Namora e Domingo a Tarde, de 1969: “«O melro eu conheci-o», perdão o Namora, eu conheci-o, somos da mesma idade, andámos no mesmo liceu. Da mesma carteira. [U]m romancista medíocre e um péssimo escritor. Ou pior: é um narrador convencional” seguindo de “concluamos com uma nota comprovativa da total isenção com que foi escrito este artigo: eu nunca li nenhum romance de Namora, e muito menos este de que me ocupei … a diferença fundamental entre a literatura autêntica e a literatura de consumo está em que para falarmos da última não é necessário lê-la.” Por seu lado, Namora, num dos seus últimos escritos “[o]s homem de letras, detestam as pessoas sem as conhecer, as obras sem as ler.”
Sena mostra uma infância solitária abatido ao contingente do Sagres, numa ocasião única, ele que sempre sonhara ser oficial de Marinha. No seu Diário, editado por Mécia de Sena refere, por cartas, que vai ser chumbado. Ganhou-se um génio contrariado, talvez, sempre a ler, que se forma em engenharia e vai para a junta autónoma, para o Brasil e depois Universidade da Califórnia. A história é conhecida da wikipedia.
Namora, também contrariado, estuda medicina, mas esta é uma fonte de inspiração. E é sobretudo um homem do seu tempo. Com tuberculosos e cancros terríveis, gente pobre e rude, acompanhamos a evolução da medicina, desde que os hospitais não eram asilos, até o serem de facto. Em Um Homem Disfarçado, de 1967, e em 1969, surgem as drogas e a crítica social do seu tempo. Em Marketing, de 1969, e depois em Cadernos de um Escritor, e sobretudo, Os Adoradores do Sol, de 1971, numa viagem aos países Escandinavos, que repeti quase cinquenta anos depois e estes não “mudaram muito mas mudaram o suficiente.” Namora traz-nos o tempo com algum bolor e tralha é certo, mas faz-nos pensar na Greta Thunberg e no Mundo em que vivemos.
Namora responde em Março de 1966 na revista Vértice a Augusto Sales que já havia feito comentários à adaptação cinematográfica de o Trigo e o Joio. É assim que os vemos, em lutas entre eles, sempre sufocados e amordaçados, mas a liberdade não os fez melhores, como hoje sabemos.
Sena que foi um grande cultor das cartas. Podemos encontrar cartas a quase todos e todas são importantes, no original. Só no original se percebe o Sena que vê no Gaspar Simões um amigo quando ao Ramos Rosa diz mal dele. Espreitar por de trás da fechadura? Não! Só a humanidade os torna imortais. Citando Sena, fora do contexto (é, de facto, muito perigoso estar morto): “Que os historiadores universitários da literatura meditem nesta tremenda verdade...”
E não deixa de ser revelador que Namora tenha reescrito, no estilo, mas não no conteúdo, nos anos 1970, o seu romance de juventude, As Sete Partidas do Mundo, de 1938, escrito entre 1936 e 1938, e Jorge de Sena reescreva toda a vida o seu romance, (também) de juventude Sinais de Fogo, publicado ainda incompleto, em 1979, e o tema seja o mesmo, o colégio que os marcou e uniu, um pobre a detestar os burgueses, outro burguês, também a detestar. Focando coisas diferentes, o primeiro as tuberculoses e as pneumonias, o segundo o pavor das gravidezes, antes do aparecimento da pílula (metonímia fantástica de um medicamento que criou um revolução), com diferentes profundidades, sempre na primeira pessoa. Como na tabela periódica que de 118 elementos se fazem mais de 15 mil moléculas todos os dias e de 26 letras se fazem incontáveis palavras todos os segundos, celebrando todos, os elementos e as letras, a humanidade.
sexta-feira, 20 de setembro de 2019
JL: Amazónia, "onde nasce o perigo, cresce também a salvação?"
[Na edição de 12 de setembro do JL, entre muitas outras coisas, um pequeno dossiê sobre os fogos da Amazónia, de costas, mas não voltadas, com Viriato Soromenho Marques, com quem, aliás, concordo com as teses. Uma visão, apesar de tudo, optimista, baseada na literatura Portuguesa e Brasileira e muito mais]
A selva, romance autobiográfico de Ferreira de Castro publicado em 1930, descreve o período de 1914/16 que este passou no seringal Paraíso, na Amazónia, no apogeu do ciclo da borracha. Dedica-o a “essa majestade verde, soberba e enigmática, que é a selva amazónica,” pelo que nela sofreu e pela coragem que lhe deu, assim como à gente que “à extracção da borracha entregava a sua fome, a sua liberdade e a sua existência,” numa “epopeia que não ajuíza quem, no resto do Mundo, se deixa conduzir, veloz e comodamente, num automóvel com rodas de borracha … que esses homens, humildemente heróicos, tiram à selva misteriosa e implacável.”
Ferreira de Castro descreve com precisão as duras condições de vida dos seringueiros, a extracção do látex da Hevea brasiliensis e o processo insalúbre de obtenção da borracha, usando o que descreve como fumo ácido e asfixiante. Mais recentemente, em 2008, Milton Hatoum, em Orfãos do Eldorado inventou o bairro “Cegos do Paraíso” onde viviam invisuais vítimas da defumação do látex. A procura mundial por borracha originou, de 1890 a 1908, no “Estado Livre do Congo” do rei Leopoldo II da Bélgica, um regime de escravatura e atricidades para extrair o látex de um tipo de liana africana. Esta situação foi denunciada por Joseph Conrad em “O coração das trevas”, de 1902, assim como por Mark Twain e Conan Doyle, entre outros. No Brasil não foi tão duro, mas Ferreira de Castro descreve como os trabalhadores ficavam na prática “presos” por terem de pagar as dívidas que se acumulavam. Tudo isso é agora uma memória, mas a recordação do sofrimento ficou.
Monteiro Lobato, em A Geografia de Dona Benta, de 1935, coloca Pedrinho a perguntar por que razão a produção de borracha brasileira foi ultrapassada pelas plantações dos Holandeses e Ingleses que levaram a seringueira para a Ásia. Enquanto no Brasil se explorava a floresta nativa, com umas dez árvores da borracha por hectare, misturadas com muitas outras espécies, na Ásia usava-se o sistema de plantação. Como é também referido por Ferreira de Castro, houve interesse internacional em introduzir esse sistema no Brasil, nomeadamente por Henry Ford, mas tal nunca se concretizou.
O fim do ciclo da borracha, que agonizou até meados do século XX, não foi apenas devido ao aparecimento de outros locais de produção de borracha natural. Foi também causado pelo desenvolvimento da produção de borracha sintética a partir do petróleo. Claro que podemos dizer que subtituímos um problema por outro, mas a necessidade de plantações intensivas, a exploração dos seringueiros e a pressão sobre os ecossistemas, desapareceu.
Mário de Andrade que faz sair Macunaíma – o herói sem nenhum carácter, publicado em 1928, da Amazónia, embora crítico da ideia de progresso de Monteiro Lobato, não a rejeita. Nas suas notas das viagens, realizadas de 1926 a 1929 e publicadas em “O turista aprendiz,” descreve o progresso da Amazónia como algo bom. Está no espírito dos tempos actuais a rejeição filosófica (não na prática) da ideia de progresso. A história da ciência e da técnica mostra-nos que o anacronismo é dificil de evitar e que muitas supostas relações causais ou situações sem saída são ilusões causadas pela nossa falta de conhecimento.
Os incêndios na Amazónia são uma situação grave mas não são uma catástrofe global. Um pico de queimadas, o fumo nas grandes cidades, as imagens de satélite e as redes sociais, chamaram a atenção para um desperdício de energia e recursos ambientais que, infelizmente, acontece há muitos anos. Estes podem – e não é pouco - provocar perturbações nos equilíbrios dos ciclos da água, ameaçar a biodiversidade, aumentar as partículas de fumo na atmosfera, entre outras coisas, mas não vão causar a diminuição do oxigénio no planeta nem originar um grande aumento do dióxido de carbono na atmosfera pois este já havia sido fixado pelas plantas.
O uso do fogo para criar terra livre é referido por Ferreira de Castro, mas usá-lo hoje para criar espaços livres, pastagens e terrenos de cultura na Amazónia não parece fazer sentido. Não é eficiente nem sustentável - em poucos anos esgota os terrenos e acelera a desflorestação - sendo possível manter e até aumentar de outras formas os níveis de produção dos solos já em uso, controlando a erosão, sem ameaçar ecossistemas e aumentar a desflorestação.
Outra fonte de problemas na Amazónia é a mineração. Para além dos receios em relação à possibilidade de serem atribuídas licenças para exploração mineira de grandes dimensões na Amazónia, um grande problema têm sido as muitas minas artesanais ilegais que vão causando desflorestação e contaminando os solos e as pessoas que nelas trabalham ou com elas contactam.
O mapeamento das espécies e o registo das assinaturas genéticas e das composições químicas, são fundamentais para a preservação e valorização da biodiversidade da Amazónia - o conhecimento aberto e público dificultam a apropriação e contribuem para o uso racional. No entanto, a ideia, sustentada pelas estimativas de espécies ainda desconhecidas, de que poderemos encontrar com maior probabilidade novos medicamentos na floresta da Amazónia é uma ilusão. A maior parte dos cerca de quarenta novos medicamentos descobertos anualmente no mundo é sintética. E poderemos igualmente encontrar, tal como no conto de Borges, tesouros no nosso quintal: moléculas de novos medicamentos escondidas nas plantas do nosso jardim. E não tenhamos receio: se descobrirem novos fármacos em plantas amazónicas, a indústria preferirá inventar um processo de síntese a partir de materiais sustentáveis e baratos do que enfrentar o problema do cultivo da planta, ou, o que seria inaceitável, da sua exploração ilegal.
Como nos mostra a história da borracha e da química medicinal, os problemas vão criando novas soluções que criam novos problemas que, em todo o caso, só se resolvem com mais ciência. Não esqueçamos o verso de Hölderlin que se reinventa em Heidegger, Ulrich Beck e Hubert Reeves: “onde há o perigo, cresce também a salvação.”
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
Descer na Lua com as mãos na Terra
Artigo do JL de 28 de Agosto de 2019 (número com destaque para o centenário de Fernando Namora, a literatura de Cabo Verde, fotos de minas abandonadas e o regresso da coluna de Carlos Reis) a propósito dos cinquenta anos da descida na Lua e da relação desse feito notável com a literatura e outros feitos igualmente épicos que se repercutem no mundo actual. [corrigi algumas gralhas da minha responsabilidade]
A 20 de Julho de 1969, Miguel Torga escreveu no Diário: “O homem desceu na Lua. Ensacado num fato espacial e de foguetão no rabo, tanto teimou que conseguiu pôr os pés fora da Terra. E lá anda aos saltos, a lutar com a imponderabilidade, ridículo mas triunfante.” Mas logo de seguida, Torga reflete sobre o seu entusiasmo com o feito e a tristeza perante as “monótonas e desconsoladas aventuras que restam à humanidade” que, em vez de “arredondarem a fraternidade”, alargam a solidão, completando o que havia escrito em Dezembro de 1968: “O homem tem pela primeira vez a grandeza do universo cósmico.”
Referi alguns aspectos da relação entre a ciência e a literatura, a propósito da ida à Lua, em Jardins de Cristais (Gradiva, 2014), mas uma evocação mais completa foi feita por David Seed no artigo Moon on the mind: two millenia of lunar literature da revista "Nature" de Julho de 2019. Já em 1943, Agostinho da Silva, numa publicação de divulgação cultural, "Viagem à Lua", editada por Helena Briosa e Mota, em Páginas Esquecidas (Quetzal, 2019), analisou a ciência de algumas ficções sobre a ida à Lua. Mas ainda mais interessante é a discussão do que para Agostinho é uma certeza – que o homem irá chegar à Lua - envolvendo o leitor na análise do que se sabe sobre a Lua e sobre os problemas dessa viagem, mais de 25 anos antes desta ter ocorrido!
O primeiro passo na Lua foi dado, como é sabido, por Neil Armstrong às 2 horas e 56 minutos (hora de Greenwich) do dia 21 de Julho. Na manhã seguinte, os jornais fizeram edições especiais com imagens de capa dos astronautas na Lua, passando quase despercebida, também na primeira página de alguns jornais, uma pequena notícia sobre o primeiro transplante realizado em Portugal - em Coimbra, a equipa de Linhares Furtado fez nessa mesma noite o transplante de um rim. Será que podemos comparar os dois feitos, aparentemente tão díspares? Será que a literatura dá atenção suficiente e compreende o que representa, em termos científicos e técnicos, a possibilidade de realização de transplantes, para além das muitas distopias que nos questionam – e bem - como Nunca de deixes de Kazuo Ishiguro?
A odisseia que foi (e continua a ser) o desenvolvimento das técnicas de transplante não envolve os meios financeiros e humanos da ida à Lua, mas é, em termos científicos, um feito com mais novidade científica. De facto, a ida à Lua é um resultado tecnológico que congregou, de forma fascinante e enorme complexidade, ciência e tecnologia já existentes, enquanto que o sucesso dos primeiros transplantes envolveu algo novo e desconhecido: o controlo químico da imunidade. Para além da perícia e excelência cirúrgica, os transplantes tornaram-se possíveis devido à sintese, por Gertrude Elion, no final dos anos 1950, da primeira molécula imunossupressora eficaz - a azatiotropina. É a invenção desta molécula que permitirá a Roy Calne nos anos 1960 iniciar um programa de transplantes que se generalizou a todo o planeta e está em contínuo desenvolvimento científico. Para além disso, a possibilidade de realização transplantes envolveu uma grande quantidade de descobertas e desenvolvimentos prévios como a anestesia, a assepsia, os grupos sanguíneos e transfusões de sangue e antibióticos, entre outros feitos da química medicinal e da medicina. Curiosamente, Miguel Torga no Diário refere o “milagre da ciência moderna” que são os antibióticos, mas não encontrei referências a imunossupressores. Muitos feitos médicos de base química, são quase invisíveis, mesmo para médicos, e, obviamente, também para a literatura.
No dia 5 Julho de 1963, depois de ter salvo um doente com muito esforço, Torga compara a dignidade das actividade humanas que se fazem todos só dias de forma competente, como salvar um doente, ou apertar bem um parafuso, com os feitos ainda por realizar. Para estes últimos escolhe a ida à Lua, referindo com melancolia: “Lá chegaremos, na mesma tristeza com que pisámos pela primeira vez as terras da Patagônia.” Essa tristeza é, para mim, a condição humana que a literatura ajuda a dar sentido, humanizando a ida à Lua, dando grandiosidade às coisas comuns, ou mostrando que os desenvolvimentos científicos e técnicos quase não mudam a natureza humana.
No Poema do Homem Novo, António Gedeão começa por enumerar alguns dos maravilhosos aspectos científicos e tecnológicos que envolvem o passeio na Lua de Neil Armstrong, concluindo de forma crua que o “Homem Novo” fez exactamente o que faria o “Homem Velho:” espetou a bandeira da sua pátria na Lua! É revelador que o fato espacial de Neil Armstrong seja um catálogo dos polímeros (plásticos) sintéticos disponíveis na altura – não, não foi a NASA que inventou o teflon ou qualquer dos polímeros usados no fato – e as suas várias camadas tenham sido cosidas por costureiras de uma fábrica especializada em sutiãs e cintas. Seis camadas de poliamidas, algumas aluminadas, uma de policloreto de vinilo, uma de elastano, duas de poliacrilonitrilo, nove de poliésteres, algumas com tecido de fibra de vidro, e duas de politetrafluoroetileno, com nomes comerciais, nylon, vinyl, spandex, nomex, neopreno, mylar, dacron, kapton e teflon, para além do capacete de policarbonato e das luvas com silicone. O sucesso da aventura da ida do homem à Lua envolveu mais de 400 mil pessoas, muitas delas engenheiros e operários nas muitas companhias que contribuíram para o projecto. Não é, por isso, estranho que muitas companhias tenham feito anúncios em que de forma directa, ou indirecta, ligavam os seus produtos à ida à Lua.
A ida à Lua foi um feito notável, mas os objectos e processos que nos rodeiam, ligados ou não à ida à Lua, têm histórias que podem ser igualmente épicas. Reflectindo com base no conhecido poema de Sophia, a civilização em que estamos é errada, talvez não tanto porque o pensamento se desligou da mão, uma vez que os arados são desde há muitos anos demasiado complexos, mas porque o pensamento não sabe qual o poder e os limites do alcance da mão nem se apercebe da real complexidade dos arados.
Frankenstein 200.0
Recupero um ensaio breve publicado no JL em 2018 a propósito dos duzentos anos do Frankenstein de Mery Shelley
Imagine-se a comissão de ética de uma universidade a analisar um projecto a submeter por uma equipa multidisciplinar de cientistas de vários países e empresas de biotecnologia a financiamento europeu: criar um ser humano a partir de tecidos e órgãos cultivados em laboratório ou colhidos em cadáveres. Um cenário equivalente é proposto na revista Science de Janeiro de 2018 para evocar os duzentos anos de Frankenstein de Mary Shelley: Victor Frankenstein propõe ao comité de ética da Universidade de Ingolstadt usar um “mecanismo de animação electroquímica” numa montagem de “peças anatómicas” e “restaurar a vida” assegurando que seguirá as melhores práticas éticas em relação à criatura obtida. Para além das dúvidas científicas sobre a viabilidade destes projectos, as propostas seriam muito provavelmente rejeitadas devido aos problemas éticos que levantam. Em Frankenstein o projecto é realizado em segredo e somos convidados a reflectir sobre as consequências deste ter sido realizado.
Ao longo dos últimos duzentos anos, os detalhes do processo de animação da criatura têm sido imaginados, a partir dos indícios presentes no texto e da ciência da época, como sendo de natureza eléctrica e química. Humphrey Davy, químico e poeta, protótipo do cientista do Romantismo, autor de trabalhos pioneiros de electroquímica, é citado de forma quase literal pela voz do professor de química Waldman, “com as mãos sujas e debruçados sobre os seus microscópios e cadinhos, [os químicos] fazem milagres; penetraram nos segredos da Natureza, sobem aos céus; descobriram a circulação do sangue e a natureza do ar que respiramos. Adquiriram poderes quase ilimitados; comandam o raio do céu, simulam os terramotos e até zombam do mundo invisível servindo-se das suas sombras“. Também a influência de Percy Shelley, amante e futuro marido de Mary, com o seu fascínio pela alquimia, química e electricidade, assim como os ecos das demonstrações com electricidade e cadáveres de Aldini, são relevantes para a formação desta imagem. O fascínio pela electricidade, vista como uma panaceia, mantém-se até ao século XX, mas já está presente no final do século XVIII. A ideia de que a electricidade poderia ser usada para ressuscitar pessoas “aparentemente mortas”, que conduziu ao desfibrilador actual, já aparece, embora de forma tímida, por exemplo, num texto do químico, farmacêutico e médico português, Manuel Henriques de Paiva, publicado em 1790, Método de restituir a vida às pessoas aparentemente mortas por afogamento ou asfixia.
Embora Victor Frankenstein refira a passagem por cemitérios, morgues e matadouros, quase nada no texto de Frankenstein se opõe a uma visão actualizada, obviamente anacrónica mas plausível, dos processos usados para animar a criatura. É certo que no livro não encontramos o trabalho de equipa da ciência actual, nem a participação de empresas, nem o financiamento público, ou a submissão prévia a uma comissão de ética, pois a narrativa segue os padrões da ciência romântica e a imagem do cientista solitário. Mas as possibilidades actuais de transplante de corpo (ainda em discussão), o uso de imunossupressores, a fecundação in vitro, a genética, a modificação genética, a edição de genes e a terapia genética, a clonagem, a biotecnologia, o crescimento de tecidos e órgãos in vitro, por exemplo, não são excluídos pelo texto. O facto de não “desvendar” o processo de animação da vida, um segredo que só Victor Frankenstein possuía e ainda hoje não conhecemos, faz com que um livro escrito antes da síntese da primeira molécula orgânica a partir de matéria inorgânica, do desenvolvimento da assepsia, da anestesia e do coma induzido, da identificação dos microorganismos e dos vírus, do estabelecimento da estrutura tridimensional das moléculas, em particular dos aminoácidos e das proteínas, da descoberta do ADN e dos genes, entre tantas outras coisas desconhecidas no tempo de Mary Shelley, continue relevante para a discussão dos problemas éticos e científicos actuais.
Frankenstein é muito mais do que a primeira obra de ficção científica no sentido contemporâneo ou um reflexo do Romantismo e do deslumbramento e temor perante a ciência. É um livro com múltiplas leituras que propõe dilemas éticos mais do que problemas técnicos e científicos. No final, o que acaba por ser mais importante são as questões morais que o livro coloca. Podemos ou deveremos fazê-lo? Se o fizermos como deveremos agir? De acordo com isso, vários autores têm referido Frankenstein como uma história a ser lida por todos os cientistas, como parte da sua formação.
O professor Waldman, ecoando Davy, diz a Victor que “para ser um cientista e não apenas um experimentador, deve estudar todos os ramos da ciência”. Abel Salazar, mais tarde, dirá que “um médico que só sabe medicina, nem medicina sabe”. A formação humana é fundamental, mas Frankenstein vai mais longe e interroga-nos sobre os limites da ciência e as falhas do escrutínio científico e ético realizados pelos pares e sociedade.
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Bernardino António Gomes (1768-1823): 250 anos do nascimento, 206 anos da purificação do primeiro alcalóide
Em 29 de Outubro de 2018, assinalaram-se os 250 anos do nascimento de Bernardino António Gomes (1768-1823), médico e cientista português, aniversário que já foi aqui lembrado por Carlos Fiolhais. A sua contribuição pioneira para a extracção e purificação do primeiro alcalóide na forma de base pura, obtido da casca da quina (cinchona), usada no tratamento da malária, foi um feito notável que está na origem do desenvolvimento da química medicinal moderna baseada em compostos bioactivos.
Ao composto que obteve na forma cristalina e identificou com a “virtude febrífuga” das quinas, chamou cinchonino, nome que a partir de 1819, passou a ser cinchonina, seguindo a nomenclatura adoptada universalmente para os alcalóides. Este composto que apresenta as mesmas caracterísiticas terapêuticas da casca de quina, não existia noutras cascas de árvores que eram comercializadas, por fraude ou desconhecimento, também como medicamento para as febres intermitentes da malária. Este trabalho notabilíssimo, realizado em 1812 por solicitação da Academia das Ciências de Lisboa, no Laboratório da Casa da Moeda, de que era director Bonifácio de Andrada e Silva, abria assim o caminho para métodos de controlo de qualidade químicos e de programas de pesquisa de outras plantas que tivessem o mesmo princípio activo.
A descoberta de Gomes foi confirmada em 1820 por Pelletier e Caventou, autores que identificaram um outro dos alcalóides na casca da quina, a quinina, que existe em maior quantidade na casca, e que haviam já descoberto e purificado, em 1817 a estricnina, seguindo em ambos os casos o procedimento de Bernardino António Gomes. É de realçar que a morfina havia já sido isolada em 1806 por Friedrich Serturne, mas a obtenção do primeiro alcalóide puro e o estabelecimento dos princípios do método corrente que permitiu, a partir das primeiras décadas do século XIX, purificar dezenas de compostos alcalóides podem ser atribuídas à publicação de Bernardino António Gomes.
Podemos perguntar por que razão não são mais conhecidas estas contribuições de Bernardino António Gomes e por que razão esta efeméride tão redonda (250 anos) está a passar, tanto quanto sabemos, quase despercebida. Obviamente a questão de Portugal ser um país periférico, sem grande tradição científica, tem sido relevante, mas não é essa a única razão.
Gomes, embora com grande entusiasmo pela investigação irá continuar essencialmente um médico (notável e pioneiro também na vacinação contra a varíola e no estudo da elefantíase entre outros trabalhos), mas não continuou o trabalho sobre a quina, nem o estendeu a outras plantas, nem motivou outros investigadores portugueses a continuaram esse trabalho. Se o trabalho analítico e químico de Bernardino António Gomes tivesse tido continuidade, teria tido com certeza muito mais visibilidade. Assim, aquilo que seria provavelmente a grande motivação e o resultado mais importante do trabalho: identificar a “virtude febrífuga das quinas” que designaríamos actualmente pela busca do princípio activo ou do composto responsável pelo efeito terapêutico, abrindo a possibilidade pioneira na ciência da época de obter este composto de outras formas, substituíndo a necessidade de recorrer à quina, foi rapidamente esquecido e não teve continuidade.
Podemos perguntar por que razão não são mais conhecidas estas contribuições de Bernardino António Gomes e por que razão esta efeméride tão redonda (250 anos) está a passar, tanto quanto sabemos, quase despercebida. Obviamente a questão de Portugal ser um país periférico, sem grande tradição científica, tem sido relevante, mas não é essa a única razão.
Gomes, embora com grande entusiasmo pela investigação irá continuar essencialmente um médico (notável e pioneiro também na vacinação contra a varíola e no estudo da elefantíase entre outros trabalhos), mas não continuou o trabalho sobre a quina, nem o estendeu a outras plantas, nem motivou outros investigadores portugueses a continuaram esse trabalho. Se o trabalho analítico e químico de Bernardino António Gomes tivesse tido continuidade, teria tido com certeza muito mais visibilidade. Assim, aquilo que seria provavelmente a grande motivação e o resultado mais importante do trabalho: identificar a “virtude febrífuga das quinas” que designaríamos actualmente pela busca do princípio activo ou do composto responsável pelo efeito terapêutico, abrindo a possibilidade pioneira na ciência da época de obter este composto de outras formas, substituíndo a necessidade de recorrer à quina, foi rapidamente esquecido e não teve continuidade.
Para o abandono do projecto e para o quase esquecimento do feito concorreram em grande medida razões locais. Os resultados de Bernardino António Gomes foram duramente criticados por José Feliciano de Castilho no "Jornal de Coimbra" com repercussões internacionais no "Investigador Português em Inglaterra". Tomé Rodrigues Sobral que arbitrou a disputa, optou por uma resposta inconclusiva sugerindo que a “virtude febrifúga” poderia ter uma origem múltipla, pondo-se assim termo à continuação do projecto.
Mais tarde, com a República e com o Estado Novo, Bernardino António Gomes foi sendo evocado, embora de forma tímida, como um grande cientista português. Mas estas evocações que podem confundir-se com as formas propagandísticas do nacionalismo não ajudaram a consolidar a sua memória num país com tão pouca tradição em homenagear de forma devida a sua ciência. Tem um busto no Jardim Botânico de Lisboa, o nome em algumas ruas, foi declarado fundador da dermatologia portuguesa e patrono da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e, este ano, foi incluído numa emissão filatélica “Vultos da História e da Cultura”, a qual inclui o Padre Himalaya, outro cientista português que deveria ser mais conhecido, mas é pouco, muito pouco, como reconhecimento de tão notável personagem da história da ciência e da cultura portuguesas.
Bernardino António Gomes nasceu a 29 de Outubro de 1768 e foi baptizado, segundo Virgílo Machado, em Paredes do Coura, embora haja autores, incluindo o próprio filho homónimo, indicam como local de nascimento Arcos de Valdevez. Doutorou-se em medicina na Universidade de Coimbra em 1793, tendo ido exercer medicina para Aveiro até 1797. O interesse pela investigação chamava-o e muda-se para Lisboa onde pouco tempo depois é médico da Armada, embarcando para o Brasil. Dessa viagem surge uma publicação sobre a canela do Rio de Janeiro a que se seguirão vários outros trabalhos sobre plantas medicinais do Brasil. Casa em 1801 com Leonor Violante Mourão, jovem viúva sete anos mais nova com quem tem cinco filhos, o mais conhecido é o homónimo Bernardino António Gomes filho que foi professor da Universidade de Coimbra. Este casamento foi tumultuoso e envolveu separações e um divórico público que foi até já alvo de um estudo académico. Em 1806 publicou um trabalho sobre o tifo. Em 1812, esteve envolvido na fundação do Instituto Vacínico de que foi o primeiro director. Incansável investigador e autor, escreveu também sobre as boubas (peste bubónia), a desinfecção de cartas, doenças de pele, a elefantíase e a ténia. Em 1817 acompanhou como médico a princesa Maria Leopoldina até ao Rio de Janeiro. Morreu com 54 anos em Lisboa de “afecção malígna no estômago”. Foi sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa (1812), cavaleiro da Ordem de Cristo (1812), Médico Honorário da Câmara Real (1813), entre outras distinções.
Há ainda bastantes aspectos da vida e dos trabalhos de Bernardino António Gomes que merecem ser melhor estudados. Felizmente, há neste momento pelo menos duas investigadoras, estudantes de doutoramento, que estão a realizar estudos que poderão lançar mais alguma luz sobre os seus trabalhos. Conhecer e divulgar na justa medida a história das descobertas e polémicas em que se viu involvido é uma contribuição importante para entendermos melhor a nossa História e as razões das nossas dificuldades passadas e pode contribuir para uma maior confiança colectiva na ciência portuguesa.
Bibliografia
AMORIM DA COSTA, A. M., "Thomé Rodrigues Sobral (1759-1829). A Química ao serviço da Comunidade" in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1 (1986), 373-402.
GOMES, Bernardino António, Ensaio sobre o cinchonino e sobre a sua influencia na virtude da quina, e d''outras cascas, Memórias de Mathemática e Physica da Academia das Sciencias, 1812 (disponível online em várias fontes, republicado na Revista Portuguesa de Química Pura e Aplicada em 1908)
HEROLD, Bernardo, "Bernardino Gomes, pai e Agostinho Lourenço, precursores portugueses da química dos alcalóides e dos polímeros sintéticos" in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1 (1986), 417-433.
HEROLD, Bernardo, CARNEIRO, Ana, Bernardino António Gomes, Biografias, SPQ (http://www.spq.pt/files/docs/Biografias/BAGomesport.pdf acedido 29 de Outubro de 2018).
MACHADO, Virgílio, O Doutor Bernardino Gomes (1768-1823) : a sua vida e sua
obra. Lisboa : Portugalia, 1925
(disponível em http://purl.pt/420)
REIS, Fernando, Bernardino António Gomes, Ciência em Portugal: personagens e episódios. Instituto Camões (http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/p21.html, acedido 29 de Outubro de 2018)
SIMÕES, Manuela Lobo da Costa, Um divórcio na Lisboa oitocentista. Livros Horizonte: Lisboa, 2006.
SUBTIL, Carlos,
Bernardino António Gomes: ilustre médico iluminista nascido em
Paredes de Coura. Município de Paredes do Coura, 2017.
sexta-feira, 18 de maio de 2018
sexta-feira, 11 de maio de 2018
POÇÕES E PAIXÕES
Texto primeiramente publicado na imprensa regional.
Podemos imaginar que a vida é uma Ópera em que um número astronómico de moléculas e iões contracenam para desencadear uma experiência única na história do planeta: a humanidade. Esta ideia é inspirada e fundamentada pela leitura de um livro que deve fazer parte de todas as bibliotecas portuguesas, públicas (incluindo as dos Conservatórios e Escolas de Música) e privadas: “Poções e Paixões – Química e Ópera”. É um livro magistralmente composto pelo químico João Paulo André, Professor de Química na Universidade do Minho, que nele nos mostra a sua extensa cultura operática, para além da sua grande capacidade de divulgar ao grande publico a ciência que domina: a Química.
Podemos imaginar que a vida é uma Ópera em que um número astronómico de moléculas e iões contracenam para desencadear uma experiência única na história do planeta: a humanidade. Esta ideia é inspirada e fundamentada pela leitura de um livro que deve fazer parte de todas as bibliotecas portuguesas, públicas (incluindo as dos Conservatórios e Escolas de Música) e privadas: “Poções e Paixões – Química e Ópera”. É um livro magistralmente composto pelo químico João Paulo André, Professor de Química na Universidade do Minho, que nele nos mostra a sua extensa cultura operática, para além da sua grande capacidade de divulgar ao grande publico a ciência que domina: a Química.
Este livro teve 1ª edição
em Março deste ano, 2018, e foi publicado pela editora Gradiva na sua
incontornável colecção “Ciência Aberta”, dirigida desde o número 201 pelo
Professor Carlos Fiolhais. Nesta biblioteca de cultura científica, este é o
volume número 226. Fascinante! Deve passar a fazer parte da bibliografia das
disciplinas de História da Música e da Química, onde as houver!
É que esta obra é singular,
mesmo a nível internacional, na sua mestria de mostrar sem artifícios que a
Química está presente de forma natural num número inimaginável de Óperas,
género que teve o seu início em 1597, em Florença, com a Ópera “Dafne”, de
Jacopo Peri, no seio da Camerata Fiorentina. A Química moderna “nasce” cerca de
dois séculos depois, em 1789 e em Paris, com a obra “Tratado Elementar de
Química” de Antoine Lavoisier (saliente-se, que em Coimbra, Vicente Coelho de
Seabra, antecipa, a meu ver, este “nascimento” da Química, com a publicação
menos conhecida do primeiro volume de “Elementos de Chimica”, em 1788).
Ao longo de 450 páginas
(fôlego impossível para qualquer cantor ou actor operático, apesar de algumas
óperas se desenvolverem ao longo de muitas horas), João Paulo André não se
limita à Química e à Ópera. Para as contextualizar, descrever e eventualmente
explicar, escreve amplamente sobre a cultura humana no seu todo. A Ópera, afinal
de contas, aborda temas de toda a história e natureza da humanidade. E a
Química, apesar de muitos não o entenderem, está em toda a parte: somos feitos
de compostos químicos.
Pautadamente, em dez capítulos, o autor escreve com uma fluidez melódica e
surpreendente, sobre a cultura humana. Após um preâmbulo em que o autor
apresenta e discute algumas afinidades gerais entre a Química e a Ópera, o
livro começa com o fogo (“O elemento roubado”), terminando na radioactividade e
na bomba atómica. Pelo meio, revisita o universo alquímico, a metalurgia, o
ouro, os metais pesados, as plantas venenosas e farmacêuticas, o tabagismo, as
bebidas alcoólicas, o cianeto dos campos de concentração nazis, os neurotransmissores
e as hormonas do amor.
Da vasta galeria de personagens que são referidas nesta obra, fazem parte
os grandes envenenadores da História e Mitologia (Medeia, Mitridates,
Cleópatra, Agripina, Locusta, família Bórgia, Marquesa de Brinvilliers…),
vários pares amorosos célebres (Romeu e Julieta, Tristão e Isolda…), passando
por Marilyn Monroe ou Rasputin. São os condimentos de poções e paixões que dão
corpo ao título deste livro.
Este livro está profusamente ilustrado ao longo de uma narrativa de leitura
mais do que acessível: cativante. Sem perder o rigor próprio da ciência, o autor “delicia-nos” com uma prosa elegante. Isto debruado com a referência cuidada a
inúmeras óperas e árias líricas, e à história da música e da ciência centrada,
neste caso, principalmente na Química.
Como nota de referência, refira-se que na génese deste livro de divulgação
científica encontra-se a palestra “Ópera, Venenos e outros Químicos”, proferida
pelo autor na Universidade do Minho em Novembro de 2011, no âmbito do Ano
Internacional da Química.
João Paulo André
Neste livro, para além das oportunas notas de rodapé, encontramos uma
cuidada bibliografia que, para além de referenciar o conhecimento descrito,
permite novas descobertas para o leitor mais interessado. Ademais, o autor
proporciona-nos no final um muito interessante glossário de “termos científicos
e musicais, onde, num encontro inesperado de culturas, a par de entradas como
“agonista” ou “barbitúrico” se pode encontrar, por exemplo, “atonal” ou
“barítono”, refere-nos João Paulo André.
"Poções e Paixões - Química e Ópera" mostra, segundo o autor, “que, se por um lado, a
Química é a ciência central que está em toda a parte, até mesmo no amor, a
Ópera é muito mais do que o espectáculo em que “o barítono ama a soprano, que ama
o tenor”.
Ainda na primeira edição, na minha opinião, este livro merece uma outra dimensão editorial: capas duras que suportem um tamanho superior que permita ao
leitor desfrutar melhor das inúmeras ilustrações que compaginam a escrita
magistral. Mas, nessa eventual outra edição, a actual capa, autoria de Armando
Lopes, deve manter-se, tão interessante que é! Deve-se também referir que a
presente edição teve o apoio da Sociedade Portuguesa de Química e da Ciência
Viva.
Neste livro, que é para todos, o Professor Carlos Fiolhais escreve o
prefácio. E nele, diz sobre o autor: “há poucos, muitos poucos, mestres de
Química e de Ópera, sábios que consigam fascinar-nos com o entrelaçamento da
ciência e da arte. O autor do livro que o leitor tem (pode ter, acrescento eu)
entre mãos é um mestre das duas culturas, que afinal são uma só”.
Num país onde, infelizmente, os espectáculos de Ópera praticamente só
ocorrem em Lisboa, este livro é uma aurora que permite a quem o lê aprende e
desfrutar o melhor da cultura humana. Não hesite. Tome a poção que é este livro
e apaixone-se pelo conhecimento!
António Piedade
quarta-feira, 21 de março de 2018
Poema "Marketing" (1969) de Fernando Namora
O
poema “Marketing”, de 1969, é um exercício de ironia sobre o
mundo moderno e o consumismo, tendo como base mensagens
publicitárias da época em que foi escrito (e outros aspectos sociais
e políticos que não vou aqui comentar). O que gostaria de referir,
ainda que superficialmente, são os
muitos produtos referidos que, em alguns casos, têm uma história
química interessante e positiva para o bem-estar da humanidade e a
sustentabilidade do planeta. Embora a poesia seja para ser lida sem
interrupções, olhemos para algumas partes do poema:
Aqui a meu
lado o bom cidadão
escolheu Sagres
que é tudo
tudo cerveja
a pausa que
refresca
a longa pausa de
um longo cigarro King Size.
atenção ao marketing.
A
marca de cerveja Sagres surgiu em 1940 para a Exposição do
Mundo Português, lançada pela Sociedade Central de Cervejas e
Bebidas, fundada em 1934. A marca de cerveja Super Bock surgiu
em 1927, mas a sua distribuição fazia-se apenas no Norte até aos
anos 1970, além de que não se colava tanto ao regime como a Sagres.
A tecnologia da produção de cerveja industrial envolvem muitos
aspectos químicos.
Os
cigarros King Size foram muito populares. Fernando Namora,
como muitos médicos da altura, assim como as suas personagens, era fumador.
Embora já fossem conhecidos os malefícios do tabaco, os anúncios
eram livres e, em muitos casos, envolvendo a sugestão de benefícios.
Há várias outras referências a tabaco no poema, nomeadamente às
marcas Estoril, Valetes, Kaiakes
e Marialvas, já desaparecidas e ao uso de filtro nos
cigarros.
Eu
não gosto de cerveja
mas
tenho de gostar que os outros gostem de cerveja
sobretudo
da Sagres
para
não contrariar os fabricantes de cerveja.
atenção ao marketing.
Ninguém
contraria os fabricantes de cerveja
ninguém
contraria os fabricantes do Opel e da Super Silver
nem
os fabricantes de alcatifas para panaceias
nem
as panaceias nem os códigos e os édredons macios
nem
as mensagens de natal dos estadistas
nem
os negociantes de armas da Suíça
nem
o homem de capa negra que virou as costas ao Palmolive.
Está
tudo perfeito e deito-me no conforto de um Lusospuma
a
ver as procissões passar mesmo sem anjos mesmo sem anjos
que
são agora selvagens e voam numa Harley.
As
marcas de automóveis Opel
e Ford, com o modelo
Escort desta última a
aparecer
mais à frente, são aparentemente,
na altura, publicitados em
Portugal. Os carros desse
tempo eram muito menos
seguros e fiáveis,
além de mais
poluentes e muito mais
consumidores de combustível.
Usavam gasolina com chumbo e ainda não estavam em uso, ou não
tinham sido inventados, o airbag, os catalisadores,
os vidros duplos, a injecção
electrónica,,
entre muitas outras coisas que nos parecem normais
hoje em dia. As marcas de
motas Harley Davidson
e Super Silver
aparecem aqui num estatuto quase mítico. O Palmolive
e o Lux, que aparecerá
mais à frente, são sabonetes. Este objecto de higiene que
permitia um uso mais frequente do
que os sabões, como o Clarim
para lavar a roupa, referido
mais à frente, está
hoje quase completamente substituído pelos sabonetes líquidos que
envolvem surfactantes líquidos, na altura ainda não inventados,
foi uma revolução.
Lusoespuma
era uma marca de colchões de espuma de poliuretano, material ainda
hoje usado. Este material sintético substituiu com grande vantagem e
versatilidade materiais naturais, como a palha, nos colchões mais
económicos e populares. E com a evolução da tecnologia, surgiram
colchões de poliuretano e materiais mistos que rivalizam com os
melhores e mais caros colchões de materiais naturais mais nobres.
Além disso, não seria sustentável nem possível usar sumaúma ou
outros materiais naturais para tanto colchão do mundo moderno. No
entanto, a reciclagem e a reutilização de tecidos pode abrir novos
caminhos.
Deito-me
e obedeço aos fabricantes do Clarim
que
é uma alta onda ou uma onda alta
sem
esquecer as fitas do John Waine e a chama viva do Butagás
e
se calhar sentir fome terei toda a frescura serrana
numa
fatia de pão.
atenção ao marketing.
Vitonizo-me
desodorizo-me atravesso as ruas nas passagens dos peões
louvo
quem me dizem para louvar e desconfio dos negros americanos
e
dos blousons noirs que não usam Lux
e
não compram um frigorífico a prestações
e
com o meu escudo invisível
protejo-me
dos vírus subversivos
sou
um bom cidadão sou um bom cidadão
obedeço
ao marketing à General Motors e ao Pentágono.
Dantes
tinha problemas era o odor corporal
e
eu não o sabia até me higienizar seis vezes ao dia com o sabonete
[das estrelas
[das estrelas
e
as paradas marciais e os 5-3 do Eusébio à Coreia
e
o talco Cadum que ama demoradamente roucamente tepidamente
os
corpos que merecem ser amados...
O
Butagás é (era?) uma marca de botijas de gás butano, usado
para cozinhar e aquecimento. Por esta altura o gás já tinha
substituído praticamente todos os usos equivalentes do petróelo,
mas em boa parte do país em que se cozinhava a lenha e em Lisboa
existia o gás de cidade. Vitonizar-se, é aparentemente,
tomar um tónico de ferro e fósforo que era publicitado na altura –
hoje em dia publicitam-se os de mangustão e cálcio. O desodorizante
(mais à frente é referido o Rexina, agora Rexona) é um produto em
contínua evolução e desenvolvimento, desde os perfumes aos
materiais bactericidas e absorventes do suor. O frigorífico é um
objecto que só na segunda metade do século XX se tornou popular,
graças ao desenvolvimento e baixo custo dos fréons. O talco (Cadum)
é um material natural (rocha) que misturado com perfumes e outros
ingredientes era muito popular pelas suas propriedades paradoxalmente
simultaneamente hidrofóbicas e hidrofílicas.
Obedeço
ao marketing não contrario.
Ninguém
contraria os fabricantes das ideias e os fabricantes do Fula
que
é o da cor do sol
ninguém
pisa os riscos brancos do tráfego
nem
chama os bombeiros sem concorrer ao sorteio
concorro
concorro e vejo nos sinaleiros o pai natal vestido de
Scotchgard
ninguém
sai do emprego antes de assinar o ponto a horas fixas
e
gastar o dinheiro da semana sábado à tarde
no
Dardo que é tudo a prestações e é mesmo em frente da Música
no Coração.
Fazendo
Portugal mais alegre com o folclore da TV e a tinta Robbialac
não
contrario obedeço obedeço e meto os meninos na cama
quando
me dizem vamos dormir.
atenção ao marketing.
O
óleo Fula ainda hoje existe e é bem conhecido. A
obtenção de óleos a partir de plantas foi algo que se desenvolveu
muito no século XX e permitiu acabar com a caça da baleia entre
outras práticas pouco sustentáveis. Scotchgard era e é um
protector de tecidos, repelente de água, desenvolvido pela 3M.
Robbialac é uma marca de tintas que tinha já na altura, se
não estou em erro, tintas plásticas que polimerizam ao secar. Hoje
em dias a paleta de cores e de propriedades das tintas é muito mais
extensa que no tempo de Namora e estes materiais são ambientalmente
muito mais eficientes e responsáveis, nomeadamente há cada vez mais
tintas e vernizes à base de água e com materiais não tóxicos. Os
pigmentos brancos são agora de dióxido de titânio em vez do antigo
e tóxico carbonato de chumbo.
Sagres
é uma boa cerveja
e
eu acabarei por gostar da Sagres
como
gosto do Rexina.
Sagres
é a pausa que refresca e tem vitaminas
todas
as bebidas da televisão têm vitaminas
mesmo
as do programa literário que é detergente
e
eu uso-as e sou um cidadão perfeito
e
até já consigo adormecer com hipnóticos
depois
de tomar o Tofa descafeinado
e
no Verão visto calções de banho de fibras sintéticas
para
me banhar na Torralta
cidadão
perfeito perfeitamente bronzeado com o Ambre Solaire.
Também
hoje os refrigerantes e bebidas continuam a ter reforços de
vitaminas adicionadas, nomeadamente ácido ascórbico
(vitamina C). Já não se usam hipnóticos para dormir, os
quais eram muito perigosos. Desde o tempo que Namora refere
apareceram muitas outras moléculas e terapias que são mais eficazes
e seguras. Os processos de obtenção de café solúvel e
descafeinado evoluiram também muito. Já não são usados solventes
orgânicos, mas fluidos supercríticos, por exemplo. Os calções e
muitas roupas são actualmente de fibras sintéticas. Estas acabam
por ser mais sustentáveis em termos de produção e têm
propriedades de elasticidade e de contacto com a água muito mais
alargadas. Há hoje muitos mais protectores solares que o Ambre
Solair. E são mesmo protectores solares testados para a
protecção anti-UV física ou química.
Também
vou arear as caçarolas e os nervos e os miolos
com
um pó azul de que não me lembra o nome
não
me lembra mas a culpa já não é minha
porque
na mesma noite
massajado
com Aqua Velva
fiz
a barba com Gillette, e Schick e Nacet
e
fui não sei aonde sempre com a mesma lâmina
e
oito dias depois (eu era actor ou toureiro?)
a
lâmina ainda me escanhoou mais uma barba
antes
de eu descer no aeroporto
onde
me esperava um agente do marketing.
Os
produtores viram-me à descida do avião
primeiro
julgaram que era o filho da Sophia Loren
ou
o Onassis mas era eu
e
gostaram da minha barba bem feita.
(Da
barba bem feita
ou
do casaco Dralon que não se amarrotara
durante
a viagem da Polinésia para Lisboa?)
Confesso
que já não me lembra mas a culpa não é minha
pois
na mesma noite
fui
o homem de não sei quê que marca o rumo
por
vestir regras ou camisas ou calças que não enrugam
e
fartei-me de assistir a discursos e a inaugurações
e
fartei-me de comer chocolates Regina e pescada congelada
e
de lavar a roupa com Ajax e com o Rino
e
de me banhar com Omo ou seja uma onda de brancura
e
fiz-me mecânico de automóveis
só
para que o cavaleiro da armadura branca
me
tocasse com a sua lança mágica
e
me pusesse branco branco branco
três
vezes branco como as páginas do Reader’s
de
cérebro irrepreensivelmente lexivizado
pelos
locutores da televisão pela oratória dos políticos
e
passado a ferro com um ferro eléctrico automático
que
talvez fosse – ou não? – uma enceradora Philips.
Tudo
coisas admiráveis e desesperadamente necessárias
que
eu devo ao marketing
e
me são cozinhadas num abrir e fechar de olhos
nas
palavras de pressão
de
todo o bom cidadão.
E
no intervalo bebi café puro o do gostinho especial
Sical
Sical que é um luxo verdadeiro
Por
pouco dinheiro.
Vitonizado
esterilizado comprando e concorrendo
esqueci-me
de amar do amor das árvores e do rio
esqueci-me
de mim tão entretido estava a admirar a Lisnave
esqueci-me
do rio e dos barcos
e
da saudade de pedra do Fernando Pessoa
e
esqueci-me de sonhar que era marinheiro.
Aqua
Velva, é um after-shave criado em 1935, que tem na sua composição,
segundo o site Fragrantica.com, além do solvente, álcool e águas,
bergamota, lavanda, hortelã, petitgrain, limão verdadeiro ou
siciliano, sálvia esclaréia, jasmim, vetiver, sândalo, cedro,
ládano, âmbar, musgo e couro. Estas essências envolvem moléculas
odoríficas provenientes de plantas e muitas podem ser hoje obtidas
de forma sintética. O âmbar referido pode referir-se a um material
obtido dos cachalotes, mas hoje subtituído por um análogo
semi-sintético. Gilette, Schick e Nacet são
marcas de lâminas de barbear. Os desenvolvimentos técnicos e
metalúrgicos que permitiram as lâminas de segurança e mais tarde
descartáveis não podem reduzir-se numa frase. Dralon é um
tipo de tecido sintético acrílico que ainda hoje se fabrica e é
usado. A tecnologia e a química do chocolate, em particular dos
Chocolates Regina, tem muito que pode ser referido, nomeadamente as
reacções envolvidas na preparação do cacau e o controlo do ponto
de fusão e estrutura cristalina do produto final. Ajax, Rino
e Omo são detergentes em pó que foram desenvolvidos para
serem solúveis e não terem problemas com águas duras, envolvendo
fosfatos e surfactantes sólidos solúveis (paralelamente para as
máquinas de lavar, foram desenvolvidos detergentes envolvendo
persulfatos e silicatos, sendo um dos mais antigos o Persil).
Hoje em dia os fosfatos forma substituídos devido ao seu efeito
eutrofizante das águas e os surfactantes não biodegradáveis foram
substituídos.
Concorra
concorra foi isso que não reparei
que
uma rapariga cortou as veias
talves
fosse com uma Diplomatic
que
tem o fio e o silvo de uma espada a degolar avestruzes.
No
programa só havia bombeiros
nem
uma rapariga a cortar as veias (não era a Caprília)
nem
o rio nem o amor nem a raiva da Venezuela.
Se
mágoa sentia era a de ter esquecido
dar
murros no espião da Missão Impossível
(atenção ao marketing)
e
já não saí de casa para ver o rio
só
pelo gosto de me aquecer com um Ignis.
E
na mesma noite noite boa noite branca
fumei
Estoril Valetes Kayakes e bebi Compal
depois
da Salus e da Schweppes
fumei
quilómetros e quilómetros de prazer
quilómetros
e mais quilómetros – há um Ford no meu futuro –
mais
facturas mais fomes mais prazer
e
agora já não sei qual dos cigarros com filtro
me
soube melhor.
Foram
todos foram todos de certeza
pois
se me dizem que preciso de Omo
do
Ajax do Estoril do Dralon
do
esquentador e das alcatifas sem nódoas
não
me preocupo não te preocupes
o
Meraklon não preocupa ninguém
mando
para o diabo o amor e o rio e a rapariga que cortou as veias
não
me preocupo não me preocupo
digo
pois pois ao Jota Pimenta e ao Escort
e
hei-de virar-me do avesso para os possuir.
Os
corpos que merecem ser amados merecem o talco Cadum.
Numa
onda de brancura obedeço ao marketing. Sou um bom cidadão.
Compal,
Salus (marca de água da Vidago) e Schweppes são
marcas bem conhecidas. No caso das águas, há que contar com as
análises química e em alguns casos com a adição de dióxido de
carbono ou aromatizantes, caso da Schweppes. A
marca Meraklon ainda
hoje existe e está relacionada com fibras de polipropileno, entre
outras.
E
na mesma noite
vi
umas bombas que caíam muito ao longe
numa
lonjura mais longe que a Lua
onde
as pessoas podiam estar quietas a fumar Marialvas
e
a lavarem-se com Rino que lava lava lava
lava
três vezes mais lava ou mata que se farta
e
me ajuda a ser bom cidadão.
atenção ao marketing.
Vi
uns homens a inaugurarem estátuas
e
vi fardas e paradas e conferências
e
crianças a sorrir
para
os homens sorridentes que inauguravam estátuas
e
vi homens que falavam e pensavam por mim
a
escolherem por mim o bom e o mau
de
modo a que eu não possa ser tentado
a
confundir o mau com o bom ou vice-versa ou vice-versa.
Deitado
no conforto de um Lusospuma
vi
os porcalhões dos hippies nas ruas de Estocolmo
bem
longe nas ruas de Estocolmo
mesmo
a pedirem uns safanões
dos
homens que acariciam crianças
e
têm todas as verdades na mão
só
para que eu seja um bom cidadão.
É
isto: marco o rumo. As minhas cuecas marcam o rumo.
Preciso
e gosto de uma data de coisas
e
só agora o sei.
Menos
da Sagres. Mas acabarei por gostar.
Ninguém
contraria o marketing por muito tempo.
Ninguém
contraria os fabricantes de bem fazer
o
bom cidadão.
E tudo graças ao marketing.
(na foto a capa da 4ª edição de 1978 rodeada de alguns produtos referidos no poema e de alguns outros que ainda não existiam, ou eram pouco conhecidos em Portugal, em 1969)
(na foto a capa da 4ª edição de 1978 rodeada de alguns produtos referidos no poema e de alguns outros que ainda não existiam, ou eram pouco conhecidos em Portugal, em 1969)
quarta-feira, 22 de novembro de 2017
A QUÍMICA DO AMOR
Na próxima 4ª feira, dia 29 de Novembro, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a 2ª palestra do Ciclo "Ciência às Seis"* de 2017/2018, intitulada "A Química do Amor" com Paulo Ribeiro-Claro, Professor do Departamento de Química da Universidade de Aveiro.
Resumo da Palestra:
"O amor é frequentemente celebrado como um fenómeno místico, muitas vezes espiritual, por vezes apenas físico, mas sempre como uma força capaz de determinar o nosso comportamento. Na verdade, é um fenómeno neurobiológico complexo, baseado em actividades cerebrais de confiança, crença, prazer e recompensa, que envolvem um número elevado de mensageiros ou actores químicos. Esta conversa aborda o amor romântico do ponto de vista da química: que substâncias actuam no nosso organismo – no cérebro em particular – e são responsáveis pelas sensações e comportamentos que associamos ao Amor."
*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência.
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