quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Carta Aberta aos Governantes de Portugal, Incluindo uma Modestíssima Proposta, não Original, mas muito Segura
Caro DRN, publiquei, aí, depois de o Primeiro Ministro ter anunciado que mais uma vez nos ia aos bolsos, para não ter que ir a outros bolsos mais delicados, uma carta, em clave de seriedade. Mas, ontem, o Ministro das Finanças endoideceu e anunciou medidas surrealistas. Achei, pois, que devia dirigir-me ao Governo, em clave surrealista. Caso contrário, não diria a bota com a perdigota. Aí vai:
Exmos.e Mui Amargurados Senhores,
A maior parte dos portugueses, dando mostras de uma muito punível insensibilidade para com V. Exas., não tem em devida conta as dificuldades e amarguras que implica a governação, em tempo de vacas magras. É, simplesmente tremendo!
V.Exas. sabem bem as medidas severas que haveria que tomar para se sanear, de uma vez por todas, a situação financeira do país. Mas, hélas! V. Exas. têm coração, têm também família, V. Exas. pertencem, quer se queira, quer se não queira, à pobre família dos humanos. V. Exas., em suma, sofrem e, portanto, hesitam. Custa-lhes serem desapiedadamente duros. Sabem o que se deve fazer, mas a vossa mão recua. Há em Vós uma timidez que me avassala e comove! Eu, porém, aqui estou para vos sugerir, intrepidamente, medidas bem mais radicais do que aquelas de que V. Exas., timoratamente, recuam. É que é preciso cortar a direito, enquanto é tempo! O país está de tanga: há que ser cruel, direi mesmo sanguinolento, custe o que custar. Cortar ou não cortar, eis a questão!
Vou dizer-vos, com frieza de cirurgião, ao que venho. E como não quero ser acusadode plágio, digo-vos, honestamente, que a minha modestíssima proposta nada temde original. Baseio-a, singelamente, na “Modesta Proposta, no sentido de impedir que os filhos de gente pobre, na Irlanda, se tornem um fardo para os seus pais ou para o seu país; e promover que se tornem benéficos para o público”. Esta “modesta proposta” foi apresentada, em 1729, por esse escritor de génio, que se chamou Jonathan Swift, e que foi também autor das imortais e nada inocentes Viagens de Gulliver. Havia fome na Irlanda, o povo sofria muito e os governantes, coitados e consabidamente, sofriam ainda mais. É que o governante, sempre empenhado no bem público, sofre mais, muito mais do que o povo que morre de fome. Coelho, Relvas e Gaspar sofrem hoje infinitamente mais do que sofremos eu ou tu, leitor desatento e ignaro. Por isso lhes sugiro que sejam duros, melhor, intimo-os a serem implacáveis. Cortem mais! Tiraram-nos tudo? Tirem ainda mais! Eu explico como. Swift começou por esclarecer:
“Todos os partidos estão de acordo, creio, em que esta prodigiosa quantidade de crianças [na Irlanda, em 1729], nos braços, às costas, ou coladas aos calcanhares das mães e, muitasvezes, dos pais, é, no deplorável estado em que o Reino se encontra, um pesadíssimo agravo; e, por isso, quem descobrir um método honesto, barato efácil de tornar essas crianças membros sãos e úteis da comunidade merecerátanto do público que será digno de uma estátua, como salvador da Nação.”
O método “honesto, barato e fácil” que Swift propõe, com toda a candura (que o nosso Ministro das Finanças apreciaria) é que as crianças, em vez de setornarem um fardo se transformem no necessário alimento de que tantos adultos famélicos necessitam (o autor de Gulliver exemplifica,com precisão científica: “Uma criança fará dois pratos num jantar de amigos”). A Swift parece evidente ser esta, de entre muitas, a melhor proposta para a crise. Por isso, observa:
“Pela minha parte, tendo, há muito, aplicado o meu pensamento a tão importante assunto, e amadurecidamente pesado as diferentes propostas de outros aventadores de alvitres, vi-os sempre pecar por grosseiros erros de cálculo.”
E acrescenta, dando força à sua férrea argumentação:
“É verdade que uma criança acabada de nascer pode sustentar-se do leite materno durante um ano solar, com escasso recurso a outros alimentos, que nunca custam mais de dois xelins, que a mãe pode, com certeza, granjear, ou o equivalente em migalhas no seu legítimo ofício de pedir; e é exactamente quando as crianças têm a idade de um ano, que eu proponho olhar-se por elas, de tal maneira que, em vez de serem encargo para os pais ou para a paróquia, ou ficarem à espera de alimentos e vestuário o resto da vida, possam, pelo contrário, contribuir para alimentar e, em parte,vestir milhares de pessoas.”
Não vou transcrever, para benefício de V., Exas. e do faminto povo português, todo o riquíssimo inventário de sugestões e argumentos, que a lógica férrea do autor de Gulliver propõe, em casos de crise como aquela que atravessamos. Só mais uma amostrazinha do formoso espírito argumentativo do irlandês:
“Outra grande vantagem do projecto é que ele evitará abortos voluntários e o horrível costume que as mulheres têm de matar os filhos ilegítimos, coisa muito comum entre nós,sacrificando, suspeito eu, as pobres crianças inocentes mais para evitar as despesas do que a vergonha, o que arrancaria lágrimas de compaixão ao peito mais bárbaro e desumano.”
Aqui têm, pois, V. Exas., um texto clássico, que muita vantagem acharão em compulsar. No entanto, por vezes, o próprio Swift recua, cedendo à compaixão. Peço a V. Exas. o favor de não ceder a tais fraquezas. Aúltima transcrição que faço, por exemplo, deverá ser lida ao contrário: Swift fala no “horrível costume que as mulheres têm de matar os filhos ilegítimos”, como algo pior que o aborto. Não aceite isto, Gaspar, neste nosso tempo de abortos feitos em clínicas, com os custos que se sabe! Matar os filhos já nascidos evita, precisamente os horrorosos custos clínicos com a interrupção voluntária da gravidez. Promova, sem escrúpulos, com coragem e espírito de poupança, o assassinato da criança já formada e bem nascida e verá o seu amado défice a decrescer muito mais depressa.
O que acima fica é apenas um exemplo, uma sugestão de infinitas outras linhas de poupança e sábia administração de recursos, a seguir. A partir daqui, V. Exas. só terão que puxar pela vossa imaginação financeira e pelo vosso incomensurável gosto de cortar e de ir por aí fora, cortando, cortando... Quase não há limites para os cortes que ainda estão por fazer. Depressa, pois! O país não aguenta que lhe não cortem, com valentia e decisão, o que há ainda por cortar. Cortar é redimir. No corte se revela o forte!
Eugénio Lisboa
domingo, 9 de setembro de 2012
O amor das damas
Uma aspirante a primeira-dama explicou que se apaixonou pelo marido por ele ser alto, rir muito e, “mais importante do que isso”, por fazê-la rir. A actual primeira-dama disse que ama o marido, que o ama muito, que o ama hoje mais que há quatro anos, quando foi eleito.
Ambas lembraram que quando se casaram passaram grandes dificuldades económicas: a aspirante disse que o casal costumava comer "muita massa com atum" e a actual disse que o seu jovem esposo só tinha "um par de sapatos decentes" e que o carro do casal padecia de ferrugem. Além disto, as duas afirmarem-se como mães de família e destacarem o grande orgulho que têm da sua.
Não seria de estranhar que as senhoras tivessem dito algo tão profundo, reservado, até íntimo aos maridos… ou, vá lá, uma à outra, caso se tivessem encontrado nas lides da política e, para passar o tempo, resolvido tomar uma água ou um café num barzito acolhedor e, como palavra-puxa-palavra, entrado pelas suas vidas dentro... ou (é outro cenário), procurando encontrar um sentido para a existência, tivessem resolvido reflectir em voz alta com as suas maiores amigas, irmãs, psicanalistas… Nada disso: as senhoras disseram o que disseram... ao mundo inteiro!
E o mundo (quase inteiro) achou lindas essas declarações tão simples, directas e românticas.
Mas, bem vistas as coisas (porque em questão de eleições, estas coisas são bem vistas), em primeiro lugar ficou a dama que já é primeira, porque, afinal, "falou de amor" "ao homem que não esquece as suas raízes" e, assim, "ofuscou a rival". E o homem, que é candidato, comovidíssimo respondeu, na mesma moeda e, claro está, em público também: "amo-te tanto...!"
Para completar este empolgamento, nas notícias referia-se o nome dos costureiros que assinaram os vestidos das damas, o custo dos ditos (o da aspirante muito mais caro do que o da actual) e que o costureiro da aspirante costuma criticar a indumentária da actual… e, ainda, (pasme-se!) a etnia do da primeira.
De tudo isto o que se pode tirar?
Obviamente: que o amor tudo vence! E que o apelo às raízes (sobretudo se forem ou se se fizer crer que são, pouco abastadas), bem como a referência a (algumas) etnias são "ingredientes" que ajudam!
O leitor terá percebido que tudo isto aconteceu num comício para a eleição de um Chefe de Estado. Seria de esperar que aí se debatessem os problemas que inquietam a nação em causa, bem como propostas de solução. Pois é... mas se assim fosse, conjectura-se num dos jornais que acima identifiquei, as pessoas não iam querer ouvir: "no fundo, o que (...) querem ouvir dos seus líderes é que são iguais a si". Só que não são apenas as pessoas comuns com tal querer: parece que os comentadores políticos elogiaram muito o discurso de primeira-dama, afinal ela "mostrou-se confiante e falou com paixão".
Afinal, o que mais se pode desejar!?
Camilo Pessanha

Para me acalmar, para não ouvir disparates e o que não queria ouvir, fui na sexta-feira a uma sessão de poesia de Camilo Pessanha (um poeta genial que descobri verdadeiramente nesta sessão de poesia) na Casa de Chá do Jardim da Sofia em Coimbra: estive lá desde as 18:00 até às 20:00, sem telemóveis e sem televisão.
Por isso fiquei a ouvir. Eu fico sempre calado quando vejo ou ouço coisas que me intrigam.
Ontem ouvi sobre uma pessoa que jogava com as palavras por prazer, por isso nem as escrevia, dizia-as, jogava com os sons… e isso nunca está acabado.
É, como bem dizia a Regina, uma das minhas parceiras de sessão, como cozinhar… é sempre para os outros, nunca é para nós.
Deixo-vos o poema "Na cadeia":
"na cadeia os bandidos presos!
o seu ar de contemplativos!
que é das feras de olhos acesos?!
passeiam mudos entre as grades,
parecem peixes num aquário.
- campo florido das saudades,
porque rebentas tumultuário?
serenos... serenos... serenos...
trouxe-os algemados a escolta.
- estranha taça de venenos
meu coração sempre em revolta.
coração, quietinho... quietinho...
porque te insurges e blasfemas?
pschiu... não batas... devagarinho...
olha os soldados, as algemas!"
Camilo Pessanha
Talvez Coimbra, onde Pessanha nasceu em 1867, devesse organizar um Prémio de Poesia com o nome deste grande poeta. Vou estar atento e ajudar a tornar isso realidade.
domingo, 26 de agosto de 2012
Semana de LOUCOS

Tudo isto aconteceu na mesma semana.
Cratera na execução orçamental: Ouvi (li) bem? O buraco na receita fiscal acumulada líquida em Julho de 2012 é de 3 mil milhões euros (-3.5% do que em igual período de 2011)??? 3 000 000 000 de euros??? E o saldo global da execução orçamental do subsector estado em Julho de 2010 é de 3 979 900 000 euros???
Está tudo aqui na Síntese de Execução Orçamental do Ministério das Finanças.
Victor Gaspar tem muito que explicar.
Faltam 6 mil milhões de euros: Há dias fui fazer um almoço rápido a Viseu. A menina que me atendeu enganou-se no troco, mesmo depois de várias tentativas com uma máquina de calcular. Fiquei triste, a pensar para onde vamos como país, e almocei a pensar em álgebra e em como prestamos tanta atenção ao acessório esquecendo o fundamental. O mesmo se passa com a (não) discussão sobre o OE2013, o orçamento mais importante das últimas décadas.
Nuno Crato tem muito que explicar/fazer.
Assessor Borges inventa uma muita gira: Portugal é o país das rendas. A ideia simples de fazer algo sem uma renda do Estado aterroriza qualquer “empreendedor”. Os contribuintes pagam para TUDO. O plano para a RTP, iniciado com um governo do PSD (Morais Sarmento), tinha já efeitos em 2013. Ou seja, a RTP não precisaria mais de indemnizações compensatórias e teria de viver com os 140 milhões da renda pública que todos pagamos na fatura da eletricidade e com os cerca de 50 milhões de publicidade.
Pedro Passos Coelho tem muito que explicar.
A TROIKA visita-nos na semana que vem, a partir de 3.ª feira.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
sábado, 11 de agosto de 2012
Falhar no SNS é um pouco como bater em retirada
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Es tiempo de vivir sin miedo
El siglo veintiuno, que también nació anunciando paz y justicia, está siguiendo los pasos del siglo anterior.
Allá en mi infancia, yo estaba convencido de que a la luna iba a parar todo lo que en la tierra se perdía. Sin embargo, los astronautas no han encontrado sueños peligrosos, ni promesas traicionadas, ni esperanzas rotas.
Si no están en la luna, ¿Dónde están? ¿Será que en la tierra no se perdieron? ¿Será que en la tierra se escondieron? ¿E estan esperando, esperando nos?"
"Objectos perdidos" do livro “Espejos: Una historia casi universal”, Eduardo Galeano, México.
Eduardo Galeano é um extraordinário autor latino-americano. Na próxima vez numa livraria compre um livro dele (Espelhos - uma quase história universal (2008), por exemplo, que está traduzido para português) e leia com tempo. Tempo para pensar e discutir, consigo mesmo. Mas aviso: ler é perigoso. Mete ideias na cabeça das pessoas. E, na verdade, vivemos um tempo de hipocrisia, de aparência, que rejeita as ideias, a liberdade e a atitude independente.
"Vivemos em plena cultura da aparência: o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e a missa mais do que Deus."
Eduardo Galeano
(Originalmente publicado em http://www.re-visto.com/es-tiempo-de-vivir-sin-miedo)
domingo, 5 de agosto de 2012
sábado, 28 de julho de 2012
O capitalismo não é ético
Teresa Forcades nasceu em 1966, é médica, teóloga e monja. E é uma mulher extraordinária. Muito corajosa, fala claro e sem complexos.
Numa entrevista a um canal catalão defende que o capitalismo não é ético e faz a sua denúncia de uma forma desassombrada. Segundo ela, o mercado "foi sempre regulado a favor de certos interesses: da realeza, interesses protecionistas, da classe dominante, do parente dos governantes de turno." Mercado livre é "uma hipocrisia, uma falácia".
Retenho um exemplo que me parece lapidar. Teresa exemplifica que "no mosteiro, temos uma pequena empresa de cerâmica e há uma pessoa de fora que lá trabalha; se lhe pagarmos um euro e ganharmos mil, o capitalismo dirá: que bem! Mas isto é indigno, pois vai contra a dignidade do trabalho." As diferenças matam a democracia, "talvez esteja bem que eu ganhe um e tu ganhes quatro ou até dez, mas mil não pode ser de modo nenhum".
Isto tem muito significado.
Eu disse coisas semelhantes numa Tedx Talk em Abril de 2012. E isto não é uma revolução (grande música de Tracy Chapman).
A ética, a responsabilização e o mérito são valores basilares de qualquer sociedade democrática justa e saudável.
Nota: este texto foi originalmente publicado em http://www.re-visto.com
quarta-feira, 25 de julho de 2012
História

Novo post de Ângelo Alves (na imagem a Biblioteca Municipal de Cantanhede)
«Neste país sem olhos e sem boca/ hábito dos rios castanheiros acostumados»
Ruy Belo
«A bicicleta foi o foguetão que permitiu a minha entrada no espaço»
François Mitterrand
Desço a ladeira da fonte, no sentido de Cantanhede, com a sensação de que percorro este caminho pela primeira vez; o baldio ontem inculto e hoje lavrado, o adventício das pegas e dos corvos, que crocitam nos teixos e nos ciprestes; cada dia é um dia novo. Vou aos esses pela fímbria da estrada, sempre encostado à direita. Uma vertigem… Caio no pretérito, nos tempos da monarquia. A monarquia absoluta e a constitucional: atravesso séculos de injustiça, vejo o povo miserável, esfomeado, doente, escravo, e o rei e seus acólitos que jogam xadrez, valsam, comem com as suas mãos untuosas, entre outros prazeres apetitosos. O povoléu cobarde. Vai de praia a praia a matar, espoliar, e roubar em nome de sua majestade. Continuo pela orla da estrada. Estou no fim da monarquia com as algibeiras vazias. Depois de tanta epopeia e ventura, o governo faz orçamentos falsos, pede empréstimos e o Banco de Portugal está falido. Deixo D. Carlos e D. Luís Filipe, esticados, a meio da viagem. E deixo o último rei. Na Primeira República vejo a mesmíssima coisa: o primeiro presidente eleito por sufrágio universal é assassinado, sucedem-se crises económicas, instabilidade, e desemprego. Dobro alguns anos. Passo pelo Estado Novo e encontro Salazar a preparar endechas para as mulheres católicas e a ler Mussolini: «é necessário existir pobres a trabalhar para os ricos». Enquanto nas colónias se derrama sangue, no Continente o povo morre tuberculoso. As eleições são fraudulentas e Humberto Delgado jaz morto. Estado ético? Neste caso eu sou um anjo. Quantos relatórios sobre o caso? Nenhum. Atravesso lânguido a rua 25 de Abril, em Cantanhede, sentindo no ar o odor dos cravos. Chego à democracia ou ao neo-liberalismo - a máscara de nova ditadura. Ainda ontem 70 por cento das pessoas era fascista, hoje 70 por cento é democrata. A marcha, liderada pelo trio PS, PSD e CDS, conduz o povo à ruína, à falência, à ajuda externa sem que ninguém antes tenha dado por isso. José Miguel Júdice, um neoliberal, define assim democracia: «é, etimologicamente, o governo do povo, e afinal o sistema em que a sociedade gera em si mesma, intrinsecamente, os mecanismos políticos de expressão da sua vontade». O povo está viciado em crédito, vive obcecado por dinheiro e pela promoção própria e dos seus familiares, e os políticos limitam-se pura e simplesmente a segui-lo. Povo sem cultura, sem coragem e sem coração. A cultura per se é estéril – vejam-se os casos de Richard Strauss e a sua ligação ao nazismo, de Céline, de Hamsun…
Desemboco no átrio da Biblioteca, a copa da palmeira rebenta no céu, as folhas glaucas morrem de velhas, reparo nelas pela primeira vez, ao fim de anos. Dois homens altos saem da Biblioteca:
- Isto é um país de ladrões! Andamos a roubar-nos uns aos outros.
Caio no presente. Entro na biblioteca. Sinto que piso a Lua. Deixei Molière, Tchekhov, Shakespeare e Brecht à entrada. Não há palco para eles. Sinto que piso a Lua. O cérebro, o progresso e a vaidade. Sento-me no sofá vermelho. Abro um jornal diário: o Jean Valjean, de Os Miseráveis, de volta! Alguém roubou um pão num supermercado e foi condenado com celeridade. Um ministro, simultaneamente cristão e maçónico, doutor sem estudos, regozija-se com o feito: «Há justiça, hoje.». Mas será que Vítor Hugo não escreveu Os Miseráveis? Os processos de quem desbarata e forra milhões andam em bolandas. Ingénuo Jean Valjean! Não tens a astúcia dos políticos. Estes, quando confrontados com as dívidas, respondem: “Abaixo de...” Porque sabem que o povo não sabe, porque é uma bagatela, porque hoje é “abaixo de” e amanhã será “abaixo de”. Leio que as bibliotecas públicas portuguesas estão 86% abaixo do valor corrente na Europa no que toca a aquisições de livros. Leio que os pobres vão pagando as dívidas dos ricos. Esta troika em nada fica atrás da outra (Estaline, Zinoviev, Kamenev), em medidas draconianas. Os chefes dos municípios abismados com a crise, mas neles há dirigentes a pontapé, alguns deles recebendo dois salários mensais. Já agora não terão um gabinete para mim, eu, que sou iletrado, filho de iletrado e cavador? Não, porque não sou astuto. O caminho é o do passado.
Eu sou mais pequeno do que o Sol. Emudecer? – Nunca. A gota mais pequena tem voz na vaga do destino. A poesia, sempre a poesia. Eles preferem falar no milhão. Expoente seis na base dez, qualquer coisa desse tipo. Mas nós perdemos a noção de ordem de grandeza, já não sabemos sequer fazer contas. Eles lá saberão as linhas com que se cozem e nos cozem. É o fim. Bicicleta e Biblioteca abandonadas, dois atavismos. Meio e fim. Tremo com a ideia do eterno retorno.
Leio, neste blogue, António José Saraiva - “Este mundo é duro: haverá sempre inquisidores e fogueiras”- e não posso estar mais de acordo, no que se refere à história de Portugal. O que não posso também é negar a barbárie e apagar da memória os autores das fogueiras. A justiça está, para mim, acima do talento e da sabedoria. Ezra Pound foi um grande poeta, mas não posso ignorar o seu apoio a Mussolini, assim como o apoio de Céline ao nazismo. Não posso ignorar que o fascismo, no meu país, foi o responsável pela divisão da sociedade em Intelligentsia e o resto. Desta Intelligentsia, uma minoria, não saiu ninguém que acrescentasse valor ao país (António José Saraiva foi uma das poucas excepções). Um país que não lê é um país criminoso, escreveu Joseph Brodsky. O fascismo, durante décadas, foi responsável pela iliteracia. Porquê? Porque o povo tinha de alimentar os ditadores (o meu pai teve muitas refeições de uma só sardinha).
Contudo, há, hoje, oportunidades. Alguns meninos apoderaram-se da frase do papagaio de Raymond Queneau «Eles falam, falam, mas não fazem nada» - leiam “Zazie dans le métro” – e são, hoje, jornalistas, cronistas, humoristas, enfim… Por vezes dá-me ganas de arranhar o rosto como Juliette Gréco quando grita J’Arrive, tantas e tão grandes são hoje as injustiças.
Ângelo Alves
quinta-feira, 19 de julho de 2012
quarta-feira, 18 de julho de 2012
O DOUTOR QUE ANTES DE O SER JÁ O ERA

Ainda o caso Miguel Relvas:
Toda a gente a discutir se o "curso" foi tirado em 2006/2007, e afinal já tínhamos Dr. em 2004!!...
terça-feira, 17 de julho de 2012
Praça Do Santo Sepulcro

Novo texto recebido de Ângelo Alves:
«Sou um homem que, logo desde a juventude, sempre esteve possuído da convicção profunda de que o caminho mais fácil, é, na vida, o melhor»
H. Melville in Barttleby
Em Cantanhede não existe o hábito de ler. Só assim se compreende que, num texto onde escrevi que antes da 25 de Abril a maioria da população era fascista e após a maioria passou a ser democrática, com algum humor hrabaliano, me acusassem de lhes chamar fascistas. Estava, como é óbvio, a referir-me a Portugal. Mas resolvi introduzir no texto a rua 25 de Abril de Cantanhede porque, na minha viagem da minha casa na Póvoa até à Biblioteca em Cantanhede, seguia por essa rua por altura do 25 de Abril. Nem sei que nome tinha a rua nessa época, decerto que não era o de hoje. Não culpem o costureiro pela fatiota, ele fê-la para essa maioria mascarada do país. Se escrevesse que a praça do Santo Sepulcro em Milão (berço do fascismo, surgindo berço e cova de braço dado) está situada em Cantanhede, creio que ninguém me acreditaria.
Por outro lado, a escolha de um partido ou ideologia não é uma simples transmissão afectiva de pai para filho. É o resultado da soma dos valores que estão em jogo, do carácter do líder e da leitura do que ele faz. Na Madeira, enfim, em Portugal, pouco ou nada mudou. Votam sempre no mesmo partido, por estes motivos: para os filhos é o partido dos pais e gostam do trabalho efectuado (nenúfares, feiras, cunhas e dívidas). Por estes motivos o cidadão Alberto João Jardim permanece líder na Madeira. O PPD, fundado – por ironia do destino! - em 1974, nunca lutou pela democracia. Sentiu o fim e enfiou a máscara. Sá Carneiro alguma vez enfrentou a ditadura? Não.
Para quem não sabe o que foi o fascismo transcrevo algumas passagens do diário de Mussolini (o professor de Salazar): «O Fascismo é partidário da liberdade.» «Fascismo é contrário à democracia». «Crê, agora e sempre, na santidade e no heroísmo.» «Nega que o número, pelo simples facto de ser número, pode dirigir a sociedade humana,» «Afirma a desigualdade irremediável, fecunda e benéfica dos homens.» «Nenhuma acção escapa ao juízo moral.» «Fora da história o homem não existe.» «Vontade de poder e de império.» «Não crê possível a “felicidade na terra”.» «Anti-individualista, a concepção fascista é do Estado». Foi este conjunto de contradições que guiou o espírito e o pensamento paupérrimos de Salazar ao Paraíso. Se o homem fascista é espiritual, será que existe o Estado moral depois de falecer? Um Estado moral aceita a desigualdade, a conquista e o imperialismo? Que liberdade existe neste Estado? Salazar é santo ou herói? O homem espiritual é o que explora o pobre? A desigualdade não é fruto do individualismo? A exploração escapa ao juízo moral? Não serão os ricos o expoente máximo do individualismo? Por que meios explora o rico o pobre, se o mundo não é materialista? Pela moral? Quem assassina é herói ou santo? Homem activo é o que frui a vida ao ver os outros trabalhar?
Com esta incoerente ideologia vivemos quatro décadas de fascismo seguidos de neo-liberalismo (PS, PSD, CDS). As únicas diferenças entre ambos são: o (falso) anti-capitalismo do fascismo e o facto de a razão estar no povo para o neo-liberalismo. A crise hodierna é o fruto da mentalidade fascista. A notícia deixou-me estupefacto: O senhor doutor Relvas concluiu a sua licenciatura, em apenas meio ano, com 160 créditos caídos do céu, um corridinho. Só em Portugal! Nem Einstein seria capaz de tal feito... O caminho é fácil para estes senhores, mas eles avaliam-se no fim, nunca a meio. Sófocles escrevera, há muito, no Rei Édipo, que o momento certo para avaliar a obra do homem é no fim da sua vida. Por agora, senhor Relvas repita cem vezes Barttleby:-I would prefer not to (Preferia não o fazer) - e repita cem vezes o papagaio de Raymond Queneau em “Zazie dans le metro”: Eles falam, falam, mas não fazem nada.
Tenho, caro leitor, procurado denunciado situações impensáveis no meu país, infelizmente sem qualquer resultado, mormente tenho dito que há pessoas a laborar em bibliotecas públicas sem quaisquer requisitos mínimos, sem nenhuns conhecimentos básicos, sem nunca terem sequer aberto um livro para o lerem, e continuarei a fazê-lo. O senhor Relvas diz que prefere “fazer” em vez de “falar”, mas para “fazer” terá que estar preparado, pois, caso contrário, terá de ficar relaxado durante dezenas de anos, sentadinho numa cadeira, como acontece por este país fora. Amanhã continuarei a lutar com a máxima do escritor de Cantanhede Carlos De Oliveira: “A minha voz de morte é a voz da luta”. Sem voz não há justiça. Não quero solidariedade, mas sim justiça. De acordo com as palavras do Presidente da República “a verdade é fonte de confiança”. Nesse sentido, exige-se um esclarecimento sobre o corridinho de Relvas.
Ângelo Alves
quinta-feira, 12 de julho de 2012
sexta-feira, 29 de junho de 2012
segunda-feira, 25 de junho de 2012
BOLSEIROS DE INVESTIGAÇÃO SOBRE O ATRASO DE PAGAMENTOS DA FCT
segunda-feira, 18 de junho de 2012
domingo, 17 de junho de 2012
A nomeação de Vitor Pinheiro por Miguel Relvas
Na fotografia: Miguel Relvas.











