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domingo, 17 de agosto de 2014

Um Sonho

"Oaristos", livro de poesia muito esquecido de
Eugénio de Castro, um poeta muito esquecido.

Nele há poemas como este de 1989: "Um sonho"

Como todos os poemas precisa de tempo.
Requer uma leitura, outra e outra...
até que as palavras e a sua musicalidade
fiquem com o leitor...


Um Sonho 

Na messe, que enlourece, estremece a quermesse...
O sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves.

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse
E o sol, o celestial girassol esmorece,
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Como aqui se está bem! Além freme a quermesse...
 – Não sentes um gemer dolente que esmorece?
São os amantes delirantes que em amenos
Beijos se beijam, Flor! à flor dos frescos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítólas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Esmaiece na messe o rumor da quermesse...
– Não ouves este ai que esmaiece e esmorece?
É um noivo a quem fugiu a Flor de olhos amenos,
E chora a sua morta, absorto, à flor dos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Penumbra de veludo. Esmorece a quermesse...
Sob o meu braço lasso o meu Lírio esmorece...
Beijo-lhe os boreais belos lábios amenos,
Beijo que freme e foge à flor dos flóreos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acento
Graves,
Suaves...

Teus lábios de cinábrio, entreabre-os! Da quermesse
O rumor amolece, esmaiece, esmorece...
Dá-me que eu beije os teus' morenos e amenos
Peitos! Rolemos, Flor! à flor dos flóreos fenos...

Soam vesperais as Vêsperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Ah! não resistas mais a meus ais! Da quermesse
O atroador clangor, o rumor esmorece...
Rolemos, morena! em contactos amenos!
– Vibram três tiros à florida flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Citolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Três da manhã. Desperto incerto... E essa quermesse?
E a Flor que sonho? e o sonho? Ah! tudo isso esmorece!
No meu quarto uma luz luz com lumes amenos,
Chora o vento lá fora, à flor dos flóreos fenos...

sexta-feira, 21 de março de 2014

"Um poema em menos de um minuto"


Rara era a conversa ou escrito em que o nosso amável filósofo Agostinho da Silva não insistisse numa ideia algo profética, que marca, aliás, a sua obra: a Pessoa - porque (quem sabe?) criada à imagem de Deus e, nessa medida, com uma centelha divina na alma - não pode existir para trabalhar, mas para contemplar. O futuro da Humanidade, esse futuro onde se situa o Céu na Terra, não seria, não poderia ser, pois, o trabalho, mas a criação.
“A reconquista do Éden comportaria para o homem a libertação do trabalho, lava-lo-ia dessa mancha de animal doméstico sob o jugo, havia de o restituir ao que é o seu essencial carácter: o ser pensante” (in Ir à Índia sem abandonar Portugal, 1994, Assírio & Alvim, p. 6).
Eis uma mensagem que nos envolve e eleva! Mesmo desconfiando deste auspício, pelo menos enquanto por cá andarmos, agrada-nos, certamente, imaginarmos máquinas, que inventamos, a executar as tarefas de subsistência - fundamentais é certo, mas que não estão à altura de "seres pensantes" - enquanto nos passeamos como "deuses por uma morna brisa da tarde", divagando, divagando... e, em resultado desse exercício, encontramos em nós, "medida de todas as coisas", belas ideias.

Belas ideias que podem ser eternizadas em artigos científicos ou em poema, por exemplo...

Deite-se a filosofia de Agostinho da Silva fora, porque, está visto, não serve!

O filósofo enganou-se, acontece. O que se delineia é, precisamente, o contrário: o nosso futuro há-de continuar a ser o trabalho; a criação, essa, vai ser privilégio da máquina.

Surgiu-me esta conjectura quando soube que artigos "científicos", produzidos por programas informáticos são, há que tempos, aceitem por revistas exigentíssimas, que previnem toda a fraude e erro com robustos requisitos de filtragem (aqui). Um espanto!

Não menos espantada fiquei quando, há pouco, li uma notícia que o Carlos Fiolhais me enviou: um programa informático produz poemas e rapidamente: "um poema em menos de um minuto". Sim senhor!

É o PoeTryMe, o "primeiro poeta artificial", que foi desenvolvido por um investigador da minha universidade, a Universidade de Coimbra. Comecei a ler o que se diz sobre a técnica, mas saltei linhas porque ainda tenho algum "preconceito" em relação a ela nesta matéria que julgo tão... (como direi?) humana. Mas, prometo voltar aos pormenores. Até porque tenho de me convencer que quem cria a técnica e a usa é... humano, logo, se calhar, vai dar ao mesmo.

Enfim, saltadas algumas linhas, li também que existe uma tal "Geração Automática de Poesia", que já tem catorze anos (não, essa não nasceu em Portugal) que é, nas palavras desse jovem informático, "uma nova forma de pensar a poesia e pode contribuir para estimular os poetas humanos, desafiando ainda mais a sua criatividade. Pode funcionar, quem sabe, como uma fonte de inspiração". 

Pois é... quem sabe? A primeira leitura do soneto escrito pelo revolucionário poeta não me deixou, digamos, muito convencida... mas, afinal, um poema não faz uma obra, espero por outros para formar melhor opinião.

que a uma natural ou nativa
onde a estação da primavera
que coisa segue inspiração fer
artificial negra sem artífice

não há sinfonia sem harmonia
onde a composição da poesia
um dia natural outro postiço
um natural porto o nascidiço

com natural e puro coração
não fica chama nem inspiração
na sua harmonia apolínea


por mais poética que poesia
por mais simetria que harmonia
a linda máquina computador


Nota: Pode o leitor dar conta da notícia aqui.

domingo, 9 de março de 2014

Dois equívocos pedagógicos muito bem explicados

Imagem retirada daqui
Henrique Raposo, um cronista do jornal Expresso que gosto de ler, publicou na passada semana um texto cujo título é "Rever Clube dos Poetas Mortos é um tormento". Assente o pó de duas décadas e meia, o maravilhamento que o filme de Peter Weir lhe proporcionou, transformou-se numa "xaropada". E isto, explica, por causa de dois equívocos que só agora percebeu.
Um é que a obra dá a entender que a "poesia é apenas emoção, uma emoção anti-razão, uma emoção não filtrada pelo intelecto. É como se a poesia fosse sinónimo de sinceridade, de pureza, de mera inspiração não conspurcada pelo trabalho intelectual. É como se escrever consistisse apenas no abrir da corrente de pensamento, é como se escrever não fosse um lento garimpar das palavras. Outro é que nela se "proclama o império da criatividade sobre o trabalho disciplinado, sobre a memória, sobre o conhecimento."
Penso que ele só agora percebeu estes dois equívocos porque, apesar de terem "barbas brancas", nos anos oitenta e noventa do passado século, na altura em que o filme foi visto por toda a gente, eles estavam no seu apogeu. As antinomias: "ensino versus aprendizagem" e "criatividade versus memória", ou, por outras palavras, os alunos "só aprendem se não forem ensinados" e "só criam se não tiverem conhecimentos" eram dois lemas (melhor, dogmas) "pedagógicos" completamente infiltrados no pensamento social. Não se pensava fora destes deles. E se alguém ousasse fazê-lo era imediatamente advertido da inconveniência da sua atitude. Ainda hoje é assim, aliás. Sobretudo se falamos de poesia.

E isto tudo à revelia da investigação científica muito séria que se fazia e se faz na área da psicologia e da pedagogia sobre a aprendizagem e sobre como o ensino deve ser organizado para que os alunos aprendam, mesmo na área da poesia, que requer, claro está, criatividade.

Mas para que o alunos manifestem as suas potencialidades criativas, diz, e diz bem, Henrique Raposo, "é preciso um trabalho de apreensão de conhecimento, de memorização, um trabalho que requer humildade perante o mundo exterior ao eu".
Maria Helena Damião

sexta-feira, 10 de maio de 2013

SONHO

Poema publicado na revista Papel


Sonho

Sonho que os Selenitas
Cultivam nas crateras lunares
Pomares de luar para os amantes,
Que iluminam Cyrano de Bergerac nos seus poemas escaldantes.
Sonho que viajo até aos Estados e Impérios do Sol
E que me plasmo em labaredas cómicas e auroras errantes.

Sonho que viajo com Micromegas,
Entre Sirius e Saturno, à velocidade da luz.
E que num instante, encontro gigantes
Companheiros de Gulliver e de outros viajantes.

Sonho que encontro uma Nova Atlântida,
Em mares para sempre imaginados,
Ilha científica, em que nasce tecnologia
Por entre canteiros de ficções oníricas
Indistinguíveis da pura magia.

Sonho que esvoaçam por entre neurónios,
Inconstantes realidades que me fazem,
Ora Monstro, ora Homem,
Numa transmutação insustentável e
Socialmente odiável.

Acordo.
Descubro o medo de já não ser mais o centro da criação,
Do sistema solar, do Universo,
De já não ser dono da consciência sem emoção
Despojado de qualquer livre-arbítrio adverso,
Como uma criatura só, por ter nascido retalhada,
Aprisionada num medo ancestral cheio de nada.

Sonho que converso com Frankenstein,
Sobre a origem das espécies.
E que ele me fala de um Homem velho,
Num Admirável Mundo Novo.
Sonho que ao sonhar compreendo melhor,
E que a consciência irradia em expansão acelerada pelo Cosmos.

Sonho.


António Piedade
04 de Maio de 2013

quinta-feira, 2 de maio de 2013

LÁGRIMAS COM RISOS DENTRO

Poema publicado primeiramente na nova revista Papel












De tanto rir,
Desvendo as lágrimas que alegram o rosto com riso.
Uma lágrima cai na palma da mão.
Impressão bioquímica do meu ser,
Cai cheia de risos num caleidoscópio de emoções.
O espanto mora nesta gotinha de líquido translúcido,
Tão perfeita na sua redondeza feita de tensão superficial.
Dentro dela explodem miríades de pequenos arco-íris,
Que vestem a luz de cor.
É o brilho do olhar no nosso céu.
Um céu reinventado nos risos com que a lágrima se fez.
De tanto rir, uma lágrima diz-me quem sou,
Na palma da minha mão.

António Piedade
24 de Abril de 2013

Ilustração de Lucy Pepper

terça-feira, 23 de abril de 2013

Com novas íris te universo

Poema publicado primeiramente na revista Papel




Com novas íris te universo.
Vejo-te para além do ar,
Até onde não sabia que ainda começas.
Com novas íris despojo-te das poeiras cósmicas,
Descubro-te onde não tens cor,
Com novas íris alianço-me nos deuses antigos,
E redesenho a abóbada celeste com mitos modernos,
Cegos de contemplação e de tanto espanto.
Com novas íris volto a ser criança a olhar o céu
E tento apanhar as estrelas num gesto, num salto.
Com novas íris me visto de ti,
Num novo cosmos invisível à nudez dos meus olhos.
E pinto no céu um arco-íris, que começa nos raios gama,
E acaba nas ondas do meu rádio.

António Piedade

Coimbra, 09 de Abril de 2013

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

The Bell Jar



Novo texto do nosso colaborador Ângelo Alves:

Foi com o sorriso de Sylvia Plath, o sorriso de seus dentes ebúrneos, que abri “The Bell Jar”. Tinha o livro há algum tempo na estante e resolvi pegar nele como quem pega num jarro de flores, com minhas duas mãos azuis. Da menina Plath já tinha lido o livro de poesia “Ariel”, que gostei muito, como gosto de toda a poesia que rebenta do sangue. Nesse livro é evidente a sua visão sobre o mundo, governado por um Deus maquiavélico e sádico, pelo destino que a poetisa não aceita, apesar do mesmo a agarrar pelos cabelos. Ela não o aceita porque ele não tem coração, não encaminha a humanidade pelo amor, mas para a dor de não poder amar. A saída que a menina Plath encontrou para a sua dor foi o suicídio - a morte, a paz. Eu diria que é um Jack Kerouak com tendência para o suicídio brutal e com uma vida quase exemplar (apesar do sofrimento), cheia de desejos, em detrimento do álcool e da marijuana. A morte era para ambos a beatitude e ambos escreveram sobre o que viveram. Leiam-se os seguintes versos:

Poema “Sheep in Fog “, sobre a paz dos campos distantes – “They threaten/ To let me through to a heaven/ starless and fatherless, a dark water. “

Poema “Lady Lazarus” – “And I a smiling woman”

Poema “The Couriers” – “Love, love, my season”

Poema “Elm” – I am inhabited by a cry”

Poema “Contusion”, sobre o destino – “The size of a fly, / The doom mark / Crawls down the wall.” 

Poema “Poppies in July” – “Little poppies, little hell flames, / Do you do no harm?”

Poema “Years” – “O God, I am not like you…./ Eternity bores me, / I never wanted it.”

Poema “Words” – “Words dry and riderless, / The indefatigable hoof-taps. / While/ From the bottom of the pool, fixed stars/ Govern a life.

Alguns críticos classificam-na como niilista, porque odiou a moral da igreja católica, não acreditou na infalibilidade do papa, no progresso, etc. Isto tudo sob a influência de James Joyce. Todavia, se niilismo é sinónimo de transparência, de pôr a alma a nu, penso que não é um defeito, mas uma virtude.  

A sua poesia, cheia de metáforas, não é tão fácil como a de um Eugénio de Andrade. No entanto é de uma sinceridade sem paralelo. Para o confirmar basta confrontar “Ariel” com “The Bell Jar” – romance autobiográfico, onde S. Plath surge com o pseudónimo Esther. Neste último ficamos a saber que perdeu o pai muito nova, que foi uma estudante brilhante, que vivia com o anelo de perder sua virgindade, que queria casar e ter filhos, ser uma poetisa reconhecida, uma professora exemplar, enfim que queria um rumo vitorioso para a sua vida. Ora, no meio destes desejos, surgiram dores de cabeça, insónias, psiquiatras, choques eléctricos, tentativas de suicídio….
 
Depois de confrontar estas duas obras, para mim, é evidente que a sua depressão resultara, não da perca do pai, porque apenas tinha oito anos, mas de um esgotamento nervoso provocado pelo seu afinco nos estudos. Leia-se este excerto:
«Na escola era obrigada a frequentar cadeiras de física e química. Além disso tinha-me já saído bastante bem na cadeira de botânica. Nunca errei uma resposta num teste, e cheguei mesmo a alimentar a ideia de me formar nessa área para investigar gramíneas selvagens algures na África, ou as encarnadas na América do Sul porque é muito fácil conseguir bolsas de estudo para estudar coisas desse tipo em sítios estranhíssimos do que para estudar arte na Itália ou na Inglaterra. Não há tanta competição.Botânica era óptima porque eu gostava de cortar as folhas e de as observar ao microscópio, assim como de desenhar diagramas do bolor do pão. Havia ainda aquela folha em forma de coração no ciclo reprodutivo dos fetos que me parecia tão real.
No dia em que fui para a aula de física foi a morte do artista.
Um homem atarracado, com uma voz aguda e ciciosa, chamado Manzi, erguia-se no seu fato azul, em frente da turma, com uma pequena bola de madeira na mão. Colocou a bola num plano inclinado e deixou-a rolar até à outra extremidade. Em seguida começou a dissertar sobre uma aceleração igual a, e com um tempo igual t, e depois desatou a escrever letras, números e sinais de igualdade por todo o quadro. Foi então que desliguei por completo.
Levei o livro de física para o meu quarto. Era um livro enorme feito em stencil, com uma capa de cartolina vermelha, e quatrocentas páginas sem desenhos ou fotografias, apenas com diagramas e fórmulas. Este livro tinha sido escrito pelo próprio Manzi para ensinar física a alunos do nosso nível; se desse resultado connosco tentaria publicá-lo.
Bom, eu lá ia estudando aquelas folhas e assistindo às aulas onde bolas desciam pelos planos inclinados e a campainha tocava às horas predestinadas. No fim do semestre a maioria teve negativa e eu um A. Em determinada altura, um grupo de colegas queixou-se ao professor pelo facto de a matéria ser demasiado difícil. «Não, não pode ser demasiado difícil pois houve uma aluna que teve um A.» «Quem foi? Diga-nos quem foi», interrogaram eles, mas o senhor Manzi limitou-se a abanar a cabeça ao mesmo tempo que me transmitia um sorriso cúmplice.
Foi isso que me deu a ideia de desistir no semestre seguinte de química. Podia ter conseguido um A em física mas tinha ficado de rastos. Muita dor de cabeça me custou aquela nota. Não conseguia suportar aquela lógica reduzir tudo a letras e números.»
Depois de concluir os estudos teve uma passagem muito breve pela docência, o casamento com Ted Hughes, e a entrega total à poesia.

Sylvia Plath acabou por conseguir apanhar, pelo menos, um figo da sua figueira – a poesia. E foi, sem dúvida, uma das grandes poetisas do século vinte, penso que só superada por Marina Tsvetaieva, e ao nível de Anna Akhmatova. A Física, afinal, não foi o fim da artista, mas o começo da eternidade. Não há morcelas sem sangue, este é o ditado que melhor se aplica à sua vida. Apesar de uma vida turbulenta, para mim, continua a ser um exemplo de tenacidade. O mesmo não posso dizer de alguns senhores que apostrofam os outros com o “niilismo” e depois compram cartas de condução, tiram cursos de quatro cadeiras, empregam seus parentes por meio de cunhas, levam os bancos e o país à falência, erguem mansões sem dores de cabeça, passeiam pelas estradas com carros de luxo, etc. O “niilismo” não será o neo-liberalismo?

Agora, desculpai-me, a campainha está a tocar! Como dizia Sylvia Plath, já ouço os cascos dos cavalos...

Ângelo Alves

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Manifesto anti-Dantas

A propósito do Manifesto anti-Relvas, lembramos o Manifesto anti-Dantas, escrito por José de Almada Negreiros, publicado em 1915 por ocasião da estreia da peça Soror Mariana Alcoforado de Júlio Dantas. Aqui, dito por Mário Viegas.


Em 2009, um Manifesto anti-Ricardo Pais (encenador e ex-director dos dois teatros nacionais) causou alguma polémica no Festival ao Largo, uma iniciativa promovida pelo Teatro Nacional D. Maria II (na altura dirigido por Diogo Infante).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Uma estranha conversa


Numa das últimas edições do programa da Antena 2 da Rádio Televisão Portuguesa Câmara Clara (também este programa de artes e literatura vai acabar no final deste mês), uma conversa sobre Carlos Drummond de Andrade com Arnaldo Saraiva, professor da Universidade do Porto, que  conviveu com o escritor brasileiro.

Uma estranha conversa, marginal até, no quadro desta lógica social, política e económica inenarrável que insiste em se impor por todos os meios: o "evitamento diplomático" de Arnaldo Saraiva para dissertar sobre a suposta "vida dupla" de Drummond de Andrade; a recordação da recusa do poeta em aceitar a candidatura ao Nobel que estava em adiantada preparação e da reposição que fez duma injustiça na atribuição da autoria dum livro...

Quando mais precisamos destas conversas, mais os canais de difusão se fecham.

domingo, 23 de setembro de 2012

Esperando os Bárbaros

Em dia de espera de comboio e de país, Alexandre O´Neill salva-me do tédio. Numa loja de restos de edições, encontro Coração Acordeão, colectânea de crónicas que escreveu para um jornal e alguns dispersos (Independente e Assírio e Alvim, 2004). No idos de 76, O´Neill vê-nos desorientados entre o passado e o futuro, sem grande ideia do que fazer no presente. E lembra-se dum poema, Esperando os Bárbaros, dum grego, Constantino Cavafy (1863-1933) (páginas 153-155):

“Que esperamos agrupados nesta praça?
      Hoje chegam os bárbaros.  
Porque está inactivo o Senado e, imóveis, 
os pais da pátria não legislam?
      É porque hoje chegam os bárbaros. 
      Que leis irão votar os senadores? 
      Quando chegarem os Bárbaros serão eles a ditar a lei. 

E o imperador, já a pé de madrugada,
que faz sentado no seu alto trono,
coroado e solene às portas da cidade?
     É que hoje chegam os Bárbaros 
     o imperador vai acolher o chefe 
     dos Bárbaros, a quem fará entrega
     de um extenso pergaminho repleto das menções honoríficas, de títulos retumbantes.
Por que vestes os nossos dois cônsules e os pretore
suas togas vermelhas e brocado fino
e ostentam braceletes de ametista,
anéis de esmeraldas refulgentes?
Por que trazem bastões de ouro e prata cinzelados a capricho?
      Por hoje chegam os Bárbaros
      e todas essas coisas os bárbaros deslumbram. 

Por que não acorrem como sempre nossos ilustres oradores
a oferecer-nos com o chorilho feliz de sua eloquência?
       Porque hoje chegam os Bárbaros
       que odeiam a retórica e os discursos compridos.

E a que vêm, agora, essa inquietação 
e esse agitação?
(Como os nossos rostos se tornam graves!).
E por que esvazia a multidão ruas e praças
e cada um, com ar sombrio, volta a cada?
      E que a noite caiu e Bárbaros não chegam.
      Pessoas recém-vindas das fronteiras
      garantem que já não há Bárbaros.

E agora que será de nós sem os Bárbaros?
Essa gente, apesar de tudo, sempre era uma solução."

Na nota sobre o poema, O´Neill não entra nos sentidos que a palavra "bárbaro" tem, que são muitos, deixa carta branca ao leitor para se socorrer do seu próprio entendimento. E escreve: "...as sociedades ensimesmadas desdobram passadeiras vermelhas para, trajadas a rigor, darem passagem e homenagem aos Bárbaros, que estão a chegar. Experimentam o terror? Nem isso! Incapazes de sentimentos fortes, a tudo puseram surdina para se esvaziarem voluptuosamente nas formas que quiseram perpetuar".

sábado, 22 de setembro de 2012

SINFONIA DE OUTONO TRISTE



Ocorreu o equinócio de Outono boreal. Nos antípodas, renasce a natureza no esplendor da Primavera austral.
Por aqui, os dias vão ficar cada vez mais escuros até ao solstício de Inverno. 
Hoje, a Terra espreguiça-se ociosamente antes de entrar para os tempos mais difíceis que agora chegam. 
Só hoje, o dia é igual à noite. Numa singularidade cósmica, uma harmonia celestial na eclíptica e na órbita elíptica de Kepler. 
O amanhã, será mais escuro, cada vez mais escuro. Apesar do colorido deslumbrante com que as plantas se despedem da clorofila. Amanhã, só as estrelas nos darão esperança e sonho, embalados na viagem sideral por mais uma sinfonia outonal, música das esferas perdidas, do "fá" e do "mi" terrestres.

António Piedade

domingo, 9 de setembro de 2012

Camilo Pessanha


Para me acalmar, para não ouvir disparates e o que não queria ouvir, fui na sexta-feira a uma sessão de poesia de Camilo Pessanha (um poeta genial que descobri verdadeiramente nesta sessão de poesia) na Casa de Chá do Jardim da Sofia em Coimbra: estive lá desde as 18:00 até às 20:00, sem telemóveis e sem televisão.

Por isso fiquei a ouvir. Eu fico sempre calado quando vejo ou ouço coisas que me intrigam.
Ontem ouvi sobre uma pessoa que jogava com as palavras por prazer, por isso nem as escrevia, dizia-as, jogava com os sons… e isso nunca está acabado.

É, como bem dizia a Regina, uma das minhas parceiras de sessão, como cozinhar… é sempre para os outros, nunca é para nós.


Deixo-vos o poema "Na cadeia":

"na cadeia os bandidos presos!
o seu ar de contemplativos!
q
ue é das feras de olhos acesos?!
pobres dos seus olhos cativos

passeiam mudos entre as grades,
parecem peixes num aquário.
- campo florido das saudades,
porque rebentas tumultuário?

serenos... serenos... serenos...
trouxe-os algemados a escolta.
- estranha taça de venenos
meu coração sempre em revolta.

coração, quietinho... quietinho...
porque te insurges e blasfemas?
pschiu... não batas... devagarinho...
olha os soldados, as algemas!"

Camilo Pessanha

Talvez Coimbra, onde Pessanha nasceu em 1867, devesse organizar um Prémio de Poesia com o nome deste grande poeta. Vou estar atento e ajudar a tornar isso realidade.

:-)

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O valor simbólico das palavras

Chegou-me às mãos o livro Reinventar Portugal, saído no passado mês de Fevereiro, na Editorial Estampa. Com textos de diversas personalidades das mais distintas proveniências, detenho-me num que tem por título Reflexão sobre o sentido de ensinar, da lavra de Maria do Carmo Vieira.

Detenho-me de modo particular numa passagem sobre o texto poético que esta professora diz, e eu sei que assim é, ser "bastante menorizado" no ensino básico (página 183).

Como podemos explicar isso (a interrogação é minha), se as crianças são "atraídas pela musicalidade das palavras, essência da poesia, não constituindo motivo de perturbação o facto de, por vezes, não compreenderem integralmente o seu significado"?

E continua: "Esta é a nossa experiência, passada e presente: a leitura de poemas desde a infância e o trabalho de análise daí decorrente desenvolvem a imaginação, capacidade crucial em todo o acto criativo, artístico ou científico, e despertam as crianças para o valor simbólico das palavras e para a sua sonoridade, treinando a interpretação e fazendo nascer uma afeição pela poesia que, fortalecida por uma convivência regular, na sala de aula, prolongar-se-á naturalmente no tempo."

Pode perguntar-se o que tem o ensino da poesia a ver com a necessidade de reinventar - voltar a inventar - o nosso país, neste estranho início de século? Tem tudo a ver.

Nacionalismos à parte, que não interessam para aqui, a (única) possibilidade de ganharmos consciência, sensibilidade e dignidade é reinventar a educação, ainda que isso não se faça de uma vez, ainda que seja preciso recuar para voltar a avançar, ainda que isso leve anos a conseguir.

Mas sempre sem deixar de ter os olhos postos naquilo que nos permite encontrar-nos connosco próprios. Para isso serão vários os conhecimentos que teremos de oferecer às novas gerações. A poesia está entre eles, ou, melhor, pelo "valor simbólico das palavras" de que é feita, sobressai entre eles.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

"Poesia Matemática" de Millôr Fernandes



Em homenagem ao grande humorista brasileiro recentemente desaparecido, deixamos aqui a sua "Poesia matemática":

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Texto extraído do livro "Tempo e Contratempo", Edições O Cruzeiro - Rio de Janeiro, 1954, pág. sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

TRÊS POEMAS DE FERNANDO LANHAS


Retirados do catálogo "FERNANDO LANHAS" (Asa, 2001) da exposição retrospectiva no Museu de Serralves:

I
Deus não é
a forma que lhe atribuímos,
mas a sua verdade,
que inventamos,
é a única que entendemos.

XXVI

O Sol
os sóis
os navios.
Os navios usam-se;
entendemos os navios que fizemos.

Os sóis
não os inventamos.

XXVII

Seguimos
à beira de saber;
a cumprir
aquilo que não sabemos,
do lado
em que não se sabe.

Fernando Lanhas

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

No descomeço era o verbo

Um poema gentilmente enviado por Maisa Lins, professora de Artes no Brasil.

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é a voz do poeta, que é a voz de fazer
nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

De Manoel de Barros, in Livro das Ignorãças (1994).

sábado, 31 de dezembro de 2011

RECEITA DE ANO NOVO


Poema de Carlos Drummond de Andrade, que nos foi enviado por Regina Gouveia:

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Feliz 2012 com ou sem bosão de Higgs


Post recebido da Prof.ª Regina Gouveia:

Os físicos acreditam que o tímido bosão de Higgs se revelará em 2012

O "ultra-tímido" bosão de Higgs pode, finalmente, ter-se mostrado no LHC. Ambos os detectores principais, ATLAS e CMS, descobriram indícios de um Higgs leve. A ser verdade, o Modelo Padrão de Partículas estaria completo.

Ainda mais emocionante, um Higgs com uma massa perto de 125 gigaelectrõesvolt/c^2 seria também o início de um caminho num terreno inexplorado. Ser tão leve implicaria pelo menos um novo tipo de partícula para estabilizá-lo. "É muito emocionante", afirmou o porta-voz do CMS, Guido Tonelli. "Este poderá ser o primeiro anel de uma cadeia de descobertas."

Sendo a principal teoria do modo como partículas interagem por meio de forças, o Modelo Padrão tem sido um sucesso espectacular desde que foi proposto na década de 1960. Mas ele só funciona no pressuposto de que o bosão de Higgs existe realmente. A partícula é o cartão de visitas de uma entidade invisível chamado campo de Higgs, que conferirá a massa às partículas. O problema é a impossibilidade do Modelo Padrão prever a massa do Higgs. Os físicos começaram, há vários anos, a sua caça em aceleradores de partículas na sua versão menos massiva. Experiências têm vindo a descartá-la num intervalo de massas, com excepção de uma janela estreita entre os 115 e 141 GeV/c^2.

Agora (…) os físicos do Large Hadron Collider, do CERN, perto de Genève, Suíça, Tonelli e Fabiola Gianotti, responsável do detector ATLAS, apresentaram, separadamente, os resultados de mais de 300 mil milhões de colisões de partículas de alta velocidade efectuadas no ano passado. "Esta é a primeira vez que nós estamos realmente a explorar a sua massa em toda a região com a sensibilidade certa, o que permitirá que se há algo lá então começaremos a ver alguma coisa", diz Tonelli

Ainda a propósito do bosão de Higgs Carlos Fiolhais disse respondendo ao filósofo Fernando Belo, que lhe tinha perguntado:"Uma tribo de milhares de físicos, suspensa dum acontecimento anunciado numa máquina de 27 km de percurso. Se se provar que o famoso bosão de Higgs existe (embora sem 'aparecer'), a pergunta ingénua que faz o leigo é: e depois, a Física fica completa, acaba?"
"Não, não está de maneira nenhuma à vista o fim da Física, quer apareça, quer não apareça a partícula de Higgs. Não sendo especialista na área, tenho defendido o fantástico empreendimento que a numerosa "tribo" de físicos tem realizado no CERN, entre a Suíça e a França. Trata-se de um exercício colectivo de física fundamental, da união internacional de esforços para verificar se uma dada peça prevista pelos físicos teóricos para compreender a existência de massa de partículas existe ou não no nosso Universo. Ninguém melhor que o Nobel da Física Steven Weinberg expressou melhor a nossa necessidade da Física fundamental: "O esforço para compreender o Universo é uma das poucas coisas que eleva a vida humana acima da comédia e lhe confere um pouco da dignidade da tragédia.” Não penso que tenha sido bom para a ciência a não-notícia que foi, há dias, o anúncio em Genebra da não-descoberta (até agora) do Higgs. Esta partícula só merecerá uma conferência de imprensa quando, de facto, for notícia. Pode ser que o venha a ser. Ou pode ser - surpresa, surpresa! - que não. A Física avançará tanto num caso como noutro."
A existência do bosão de Higgs foi postulada na década de 1960 pelo físico britânico Peter Higgs. Muito antes dele, Isaac Newton descobrira que a gravidade é a força de atracção que existe entre todas as partículas com massa e Albert Einstein demonstrara a equivalência entre massa e energia, mas nada disso serviu para responder a duas questões: o que é, afinal, a massa, e de onde é que ela provém?

Enquanto esta partícula subatómica não for detectada, os cientistas não conseguirão explicar a existência da própria matéria massiva, à luz do actual modelo das partículas e das forças que a unem - o Modelo Padrão. Por outras palavras, sem o bosão de Higgs fica mais difícil explicar porque é que existem coisas no Universo.

Termino com um poema meu dedicado ao bosão de Higgs e o desejo de que 2012, revelando-o ou não, seja para todos o melhor possível:

Existirá desde o primeiro momento
ainda sem espaço, ainda sem tempo,
sem quando, nem onde,
em que o tudo era simplesmente o nada?

Afinal, a massa de onde é que provém?
É este, em essência, o segredo que, cioso, esconde,
mau grado o empenho de toda a ciência.

Cioso, acanhado, quiçá temeroso de um qualquer depois,
ainda mais terrível do que eme cê dois
na bomba de Hiroshima

O bosão de Higgs existirá ou não?
Eis a questão.

Regina Gouveia, Ano Novo de 2011

sábado, 24 de dezembro de 2011

POEMA DO HOMEM NOVO

NA véspera de Natal um poema de António Gedeão:

Niels Armstrong pôs os pés na Lua
e a Humanidade saudou nele
o Homem Novo.
No calendário da História sublinhou-se
com espesso traço o memorável feito.

Tudo nele era novo.
Vestia quinze fatos sobrepostos.
Primeiro, sobre a pele, cobrindo-o de alto a baixo,
um colante poroso de rede tricotada
para ventilação e temperatura próprias.
Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,
catorze, no total,
de película de nylon
e borracha sintética.
Envolvendo o conjunto, do tronco até aos pés,
na cabeça e nos braços,
confusíssima trama de canais
para circulação dos fluidos necessários,
da água e do oxigénio.
A cobrir tudo, enfim, como um balão ao vento,
um envólucro soprado de tela de alumínio.
Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,
auscultadores e microfones,
e, nas mãos penduradas, tentáculos programados,
luvas com luz nos dedos.

Numa cama de rede, pendurada
da parede do módulo,
na majestade augusta do silêncio,
dormia o Homem Novo a caminho da Lua.

Cá de longe, na Terra, num borborinho ansioso,
bocas de espanto e olhos de humidade,
todos se interpelavam e falavam,
do Homem Novo,
do Homem Novo,
do Homem Novo.

Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.
Caminhava hesitante e cauteloso,
pé aqui,
pé ali,
as pernas afastadas,
os braços insuflados como balões pneumáticos,
o tronco debruçado sobre o solo.

Lá vai ele.
Lá vai o Homem Novo
medindo e calculando cada passo,
puxando pelo corpo como bloco emperrado.

Mais um passo.
Mais outro.

Num sobre-humano esforço
levanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.
Com redobrado alento avança mais um passo,
e a Humanidade inteira,
com o coração pequeno e ressequido,
viu, com os olhos que a terra há-de comer,
o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria,
exactamente como faria o Homem Velho.

António Gedeão, in 'Novos Poemas Póstumos'

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

MAIS POEMAS DE EUGÉNIO LISBOA


Em continuação de outros poemas de Eugénio Lisboa - que muito nos têm honrado com a sua já vasta e muito preciosa colaboração neste blogue -, publicados, respectivamente, nos postsPoemas de Eugénio Lisboa sobre Gigantes da Física” (25/11/2010) e “Alguns Poemas de Eugénio Lisboa” (06/12/2011), extraídos do seu livro “O Ilimitável Oceano” (Quasi Edições, 2001), transcrevem-se quatro novos poemas:

Empédocles

Julgava-se um deus?
Pensavam que o era?
Com argumentos seus
e o uso de uma esfera,
ao ar deu existência.
Mostrando o invisível,
na sua transparência,
ele disse o indizível:
crê só na experiência.
E teve morte ardente,
saltando à lava quente.


Teodoro, o Engenheiro

A Teodoro, modesto engenheiro,
nenhum monumento se dedicou.
Contudo, o esquadro de carpinteiro,
o nível, a chave, o torno – inventou,
e também o aquecimento central,
a régua, a fundição em bronze e tanta
outra humilde invenção, essencial
depois que se inventou. Mas glória, quanta?

Ptolomeu

Como todos, sou mortal:
minha vida é um dia.
Mas quando sigo, fatal,
no céu que nos alumia,
a multidão das estrelas,
em seu curso circular,
sinto, deslumbrado nelas,
meus pés, no chão, levantar.

Bartolomeu Dias

Dobrado o Assombro, foi que tu viste.
não ser o mar diferente. Então, voltaste.
Desflorado o mistério, não existe

motivo para novo esforço: cessaste.


Na imagem: fotografia de Eugénio Lisboa.