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quarta-feira, 5 de junho de 2013

AVENIDA "CIÊNCIA ABERTA" Nº 200

A partir de uma nota publicada no Diário de Coimbra


Um dos principais acontecimentos editoriais deste ano, pelo menos no contexto da melhor divulgação científica em língua portuguesa, é a publicação do n.º 200 da colecção “Ciência Aberta” da editora Gardiva.

A colecção, premiada em 2012 com o Grande Prémio Ciência Viva, teve início em Junho de 1982, o que demonstra a impressiva regularidade com que o seu editor, Guilherme Valente, brindou o público português com o que de melhor se faz a nível internacional na área da divulgação de ciência. Sublinhe-se que a “Ciência Aberta” é reconhecida internacionalmente como uma das melhores colecções de divulgação de ciência. 

O n.º 200, desta grande Avenida do conhecimento, é “Ciência e Liberdade – democracia, razão e leis da natureza”, do prestigiado Timothy Ferris, por muitos considerado o melhor divulgador de ciência da sua geração. 

Leia aqui o início deste livro.

António Piedade

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O CÉU NAS PONTA DOS DEDOS

Recensão publicada na imprensa regional

Que estrela é aquela que brilha mais do que as outras? Porque é que algumas estrelas só se veem numa dada estação e a partir de uma dada hora? As estrelas também “nascem” e também se “põem” aparentemente como o nosso Sol? E aquele astro errante? É um planeta ou um satélite? Como é que sei orientar-me pelas estrelas para poder sonhar com viagens de descoberta?

A resposta a estas e muitas outras perguntas encontram-se, numa linguagem simples mas rigorosa e metodológica, no livro “O Céu nas Pontas dos Dedos” do prestigiado astrónomo amador Guilherme de Almeida, publicado em Fevereiro de 2013 pela Plátano Editora.

Este é o oitavo livro do autor do “Roteiro do Céu”, obra publicada em 1996, também pela Plátano Editora (actualmente na 5.ª edição e com uma edição em 2004 em língua inglesa pela Springer Verlag-London), título incontornável e pioneiro no panorama da divulgação científica específica à astronomia em Portugal.

Este último livro de Guilherme de Almeida é muito oportuno e, curiosamente, uma excelente introdução às suas obras anteriores, mais densas e específicas.

É um livro muito bem construído e conseguido nos seus objectivos. Possui os elementos e conteúdos fundamentais para uma iniciação segura à observação e contemplação do céu nocturno por qualquer pessoa. Mas também é útil ao astrónomo experiente uma vez que o leitor é brindado com a inclusão no livro de um mui útil planisfério celeste multifuncional, optimizado para observações a partir de Portugal continental e Regiões Autónomas. Destacável e utilizável livremente com as mãos, com ele é possível identificar estrelas e constelações em qualquer data do ano e hora do dia.

Guilherme de Almeida

Ao longo de três capítulos, curtos quanto baste, Guilherme de Almeida acompanha e guia o leitor aprendiz, passo a passo, com a virtuosa e eloquente paciência dos mestres. No primeiro capítulo são introduzidos os elementos fundamentais que constroem a linguagem e referenciais da observação astronómica. O planisfério celeste é explicado no segundo capítulo. No terceiro, o autor exemplifica casos concretos e práticos para o uso do planisfério, as suas funções básicas, e aconselha, como se estivesse ao nosso lado a observar o céu, alguns procedimentos úteis para uma melhor observação astronómica a olho nu. Por fim, descreve as funções especiais ou avançadas do planisfério celeste, o que encoraja a evolução do principiante amador para o astrónomo desfrutante.

Este livro ganha em rigor e qualidade pela existência de um quarto capítulo que inclui informações complementares e mais avançadas, respostas a perguntas que só surgem de depois da utilização efectiva do planisfério celeste, e um imprescindível glossário com a necessária terminologia astronómica.

Refira-se que o texto está muito bem compaginado com fotos, ilustrações e esquemas que reforçam e complementam a clareza da mensagem textual. Acrescente-se a existência aqui e acolá de caixas laterais que permitem uma aprendizagem complementar e mais aprofundada ao longo do livro, consoante o interesse e disponibilidade de cada leitor. É um livro que pode ser lido a vários tempos permitindo uma mesma observação celeste.

Destaquem-se as cinco magníficas fotografias astronómicas da autoria do fantástico foto-astrónomo português Miguel Claro, que acrescentam beleza e informação visual adicional ao livro.

Para saber mais, o livro acaba com indicações sobre outras obras e sítios na Internet onde o leitor poderá saciar o espanto resultante das observações que resultarão, acto contínuo, da leitura deste livro e do uso do planisfério celeste incluso.

Para ver mais, basta ter “O Céu nas Pontas dos Dedos”, com olhos contemplando o cosmos pela janela do nosso horizonte celeste.

António Piedade 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

ISTO NÃO É (SÓ) MATEMÁTICA

Recensão efectuada para a revista Papel



A literatura portuguesa de divulgação de ciência tem ganho nos últimos anos obras de qualidade internacional. Uma delas foi publicada em Outubro do ano passado (2012) e, devo escrever, eleva o patamar da excelência e da exigência para este género tão importante para o desenvolvimento da cultura científica de um povo em liberdade. Estou a referir-me ao livro feito a quatro mãos por Alexandre Aibéo, que o escreveu, e por Pedro Aibéo que o ilustrou, e que tem por título “Isto não é (só) matemática”.

Editado pela QuidNovi, este livro rasga os cenários impossíveis e apresenta uma obra sui generis no panorama da divulgação científica escrita e desenhada originalmente em português. Sui generis, ou por outras palavras, única no seu género, pois os autores conseguem compaginar a divulgação acessível de conhecimento científico (com fórmulas matemáticas), com a ilustração na forma de cartoons e banda desenhada e com humor quanto baste para que o leitor não perca o fio à meada e lhe apeteça mesmo continuar a ler e ver.


Bom humor. E, se os cultores do género falam da inteligência intrínseca que existe no bom humor, então estamos perante um livro muito inteligente, que consegue, a meu ver, alcançar os seus objectivos: «abordar alguns aspectos que a Matemática trata mas sem estar muito preocupado com um formalismo muito denso, não pretendendo, com isso, carecer de rigor», conforme escreve Alexandre numa introdução intitulada “Ah não?”.

O livro está escrito num tom coloquial, com uma linguagem do dia-a-dia, o que facilita muito a eficácia com que consegue comunicar com o leitor. Prende livremente o leitor ao livro. E o leitor leva o livro com ele.

«Se “Isto não é Matemática”, então o que é?» assim começa a introdução. Os autores desafiam o leitor a descobrir a resposta a esta pergunta logo no início da introdução. O convite dos autores é ainda mais provocador, sem ser pretensioso, ao sugerirem que o leitor se prepare para uma caminhada de “mochila às costas”, ao longo de dez capítulos, cujos títulos apelam à curiosidade como uma boa inspiração de ar puro no cimo de uma montanha (ou num prado verde, como queiram): 1.º Naturais, reais e algo surreais; 2.º Balanças, baloiços e criminosos; 3.º Coelhinhos, zangões e conspirações; 4.º O que é o quê?; 5.º Bem, mal ou assim-assim?; 6.º Vou ver-me grego?; 7.º Evolução, taxas de juro, montes de dados e átomos radioativos; 8.º De origens e índios; 9.º Um mundo cheio de riscos e setinhas; 10.º Somas, cobrinhas e parêntesis indecisos?

Nuno Markl não ficou indiferente a este livro, muito pelo contrário. Sim, o autor de “O Homem que mordeu o cão”, que diz odiar matemática, «apesar de nunca lhe ter virado as costas», não só leu o livro como é dele o prefácio onde diz que tem «pena que este livro não lhe tenha aparecido mais cedo» na sua vida. Para Markl, este livro conseguiu estabelecer-lhe «o elo perdido entre os meus (dele) professores de Matemática e a Samantha Fox». «Eles (os Aibéo) conseguiram dar uma estranha espécie de sex-appeal à Matemática mas, mais importante do que isso, são pessoas inteligentes que perceberam que pelo humor é que vamos. Eles lograram criar um sacana de um livro de Matemática que tem piada», acrescenta Nuno Markl.

Por fim, e já que este é o primeiro livro de divulgação de ciência de Alexandre Aibéo, o necessário agradecimento pelo feito e o voto nesta assembleia de leitores, em que me incluo, para que seja (só) isso: o primeiro.

"Isto não é (só) Matemática" também aqui:
http://istonaoesomatematica.wordpress.com/ e https://www.facebook.com/istonaoe.matematica

António Piedade

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

TOP 3 + 2 - DIVULGAÇÃO DE CIÊNCIA EM PORTUGAL 2012


Na sequência do meu post anterior, apresento a seguir 3 + 2 livros publicados em 2012 em Portugal e que foram, no meu entender, os acontecimentos editoriais mais relevantes nas áreas da divulgação de ciência, história da ciência ou sobre ciência e tecnologia. 

Separo-os por três primeiras edições em português e duas reedições. Seguem por ordem de preferência (subjectiva e discutível) numa estante-pódio seguida de duas incontornáveis menções honrosas.


Estante-pódio

1 - “Um Céu mais Perfeito – Como Copérnico revolucionou o cosmos, publicado em Setembro de 2012 pela Temas e Debates e pelo Círculo de Leitores, Dava Sobel, tradução de Artur Lopes Cardoso, revisão Levi Condinho.



2 - “A Espiral da Vida - As Dez Mais NotáveisInvenções da Evolução”, de Nick Lane, editado pela Gradiva, colecção Ciência Aberta, nº 194. Tradução de Alexandra Nobre.



3 - “Os superficiais - O que ainternet está a fazer aos nossos cérebros”, de Nicholas Carr, editado pela Gradiva na sua colecção Trajectos, nº 92. Tradução de Luiza Alves da Costa, revisão de João Paiva. 



Menções Honrosas

Os Dragões do Édem - Especulações Sobre A Evolução Da InteligênciaHumana E Das Outras, de Carl Sagan. Premiado em 1977 com o prémio Pulitzer, para muitos (em que incluo) a mais bela obra de Carl Sagan.. Reeditado pela 8º vez pela Gradiva, para a sua colecção “Obras de Carl Sagan” (6.º título). A tradução desta obra foi efectuada por Ana Falcão Bastos, a revisão científica foi do físico José Mariano Gago e dos biólogos Maria Margarida Perestrello Ramos e Carlos Henriques de Jesus. 



“O Sistema Periódico”, escrito por Primo Levi em 1975, foi considerado em 2006 “o melhor livro de ciência jamais escrito”, pela Real Academia de Londres. Reeditado este ano pela Teorema, com tradução de Maria do Rosário Pedreira e revisão de Fernando Milheiro. Esta distinção deu visibilidade à valência química de “um dos escritores italianos mais marcantes do séc. XX”, no dizer de Umberto Eco.



Boas leituras.

António Piedade

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

DIVULGAÇÃO DE CIÊNCIA EM PORTUGUÊS – OS LIVROS DE 2012


Neste final de 2012, é altura de fazer uma pequena nota sobre uma selecção, por contingência de espaço e local sempre incompleta e subjectiva, dos livros de divulgação de ciência originalmente escritos por autores portugueses e que foram publicados em 2012 em Portugal.

Este ano não foi muito abonado em livros de autores portugueses dedicados à divulgação de ciência. Contudo, os que foram publicados são de qualidade e contribuem para uma melhor divulgação de ciência em língua portuguesa.

Assim, chamo a vossa atenção para os seguintes livros (por ordem alfabética do autor) que considero de referência no panorama da literatura de divulgação de ciência em Portugal: 

“Isto não é (só) matemática”, da autoria de Alexandre Aibéo com ilustração de Pedro Aibéo, editado pela QuidNovi, um livro que divulga a matemática de uma forma cativante, enlevada pelo humor.

“A Nova Medicina”, do neurocirurgião João Lobo Antunes, que nos retracta a actual realidade da medicina e da sua prática no século XXI - o título é o nº 22 da colecção “ensaios” da Fundação Francisco Manuel dos Santos, coordenação editorial Relógio D’Água Editores.

“Cetáceos de Portugal – Passado, Presente e Futuro”, um conjunto de textos de vários autores, coordenação de Cristina Brito e Inês Carvalho, que também assinam alguns dos textos, editado pela Escola de Mar, na sua coleção Paleta Natura, constitui o único livro dedicado exclusivamente aos cetáceos numa linguagem direta de quem escreve para quem lê.

“Uma nova História da Matemática em Portugal?” de Jorge Buescu, o nº 27 da colecção “ensaios” da Fundação Francisco Manuel dos Santos, com a coordenação editorial Relógio D’Água Editores – uma nova perspectiva e reflexão sobre a história da Matemática mas extensível à generalidade da ciência portuguesa.

“Rómulo de Carvalho / António Gedeão - Príncipe Perfeito”, uma biografia intimista escrita por Cristina Carvalho, filha do incontornável professor e poeta, publicada pela editora Estampa.



"AstroFotografia - Imagens à luz das estrelas", do excelente astrofotógrafo português Miguel Claroeditado pela Centro Atlântico. Um magnífico e belíssimo volume sobre o céu astronómico fotografado com a arte do Miguel Claro coadjuvado pelos avanços tecnológicos nos equipamentos de fotografia.


"A Ação da Física na Nossa Vida”, autoria de Maria Teresa Escoval, e ilustrado por Sara Naves, publicado pela Editorial Presença, este volume tem como objetivo demonstrar e explicar, de forma acessível a todos, como a física ocupa um lugar tão preponderante no nosso quotidiano.

“Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência”, autoria de David Marçal e Carlos Fiolhais, publicado pela editora Gradiva, incluído na sua colecção “Ciência Aberta”. Com o número 196, este livro apresenta e desmascara a pseudociência que tende a crescer entre nós.

“Por que choramos quando cortamos uma cebola”, autoria das jornalistas de ciência Teresa Firmino e Filomena Naves, publicado pela Esfera dos Livros. Uma introdução portuguesa na esfera de um género de livros de divulgação de ciência que respondem a questões do dia-a-dia. Escrito com rigor e humor aqui e acolá debruado com ironia, o que torna a sua leitura muito agradável.

Histórias dos roazes do Sado”, livro escrito por Raquel Gaspar dedicado ao público infantil com ricas e profusas ilustrações de Marcos Oliveira, numa edição da Tróia Natura SA, no âmbito do Plano de Acção para a Salvaguarda e Monitorização dos Roazes do Sado, como resultado de um projeto da autora (Associação Viver a Ciência) e da Reserva Natural do Estuário do Sado (ICNF).

“O Primeiro Alquimista – A Idade do Bronze em Portugal”, autoria de Sofia Martinez, editado pela A Esfera dos Livros, sobre um povo do início da Idade do Bronze e que poderia, de forma credível, ter habitado há cerca de 3750 anos a Fraga dos Corvos, situada na actual aldeia de Vilar do Monte no concelho de Macedo de Cavaleiros.

“Penas, o Investigador”, da autoria de Sofia Quaresma, com ilustrações de André Lopes, editado pela Escola de Mar, na sua colecção “Paleta Azul” para a sensibilização e educação das novas mentalidades das crianças portuguesas sobre a conservação do meio ambiente.

“Outras Terras no Universo. Uma história de descoberta de novos planetas”, livro que nos transmite a visão de três cientistas, Nuno Santos, Luís Tirapicos e Nuno Crato, sobre a fronteira da descoberta de novos planetas extra-solares. Editado pela Gradiva, último título de 2012 da sua colecção “Ciência Aberta”, com o número 197.

“Quando os macacos se apaixonam - a vida afectiva do animais, das pequenas formigas aos gigantes elefantes”, do médico veterinário George Stilwell, editada pela A Esfera Dos Livros, um livro sobre os afectos e emoções que são naturais nos animais.

Feita esta recensão de 2012, ficamos a aguardar o que o ano novo trará para expandir a literatura de divulgação científica de autoria portuguesa. 

E, como também já foi referido pelo Carlos Fiolhais aqui, 2013 será o ano em que se publicará o número 200 da colecção "Ciência Aberta" da Gradiva, colecção pela qual o seu editor, Guilherme Valente, recebeu em 2012 o primeiro Grande Prémio Ciência Viva.

António Piedade
Texto publicado primeiramente na imprensa regional.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência. Entrevista.


Entrevista a Carlos Fiolhais e David Marçal publicada primeiramente no Diário de Coimbra e outra imprensa regional.

 Pipocas com Telemóvel e outras histórias de falsa ciência” é o novo livro de Carlos Fiolhais e de David Marçal, acabado de ser publicado pela editora Gradiva, incluído na sua prestigiada colecção “Ciência Aberta”, número 196.

António Piedade (AP) - Porque é que escreveram este livro?

David Marçal (DM) - É um tema que interessa a ambos, sobre o qual escrevemos habitualmente no nosso blogue "De Rerum Natura". E é um tema muito relevante porque somos diariamente confrontados com afirmações aparentemente baseadas na ciência, mas que de ciência não têm mesmo nada. Há coisas que caracterizam a ciência e outras a falsa ciência. Com este livro, esperamos ajudar os leitores a distinguirem umas das outras. Comunicamos ciência apresentando, com algum humor, casos de não-ciência.

AP - Que tipo de leitores é que tinham em mente quando o escreveram?

Carlos Fiolhais (CF) - Procurámos chegar ao maior público possível. Não desejamos menos do que um "best-seller"! A maior parte dos temas abordados vêm do dia-a-dia das pessoas. Na internet, nos jornais, nos supermercados, em anúncios televisivos, nas farmácias, etc. Os leitores estarão interessados em saber mais sobre as alegações de validade científica com que são confrontados em inúmeras situações. Há muitas tretas que são servidas como verdades. Não é só a astrologia, muito antiga: hoje prometem-se curas quânticas, que não têm a ver com a teoria quântica.

AP - Que tipo de leitores esperam que o leiam?

DM - Leitores interessados em ciência, decerto, mas não necessariamente com formação científica. basta que tenham curiosidade. Mesmo quem seja especialista numa determinada área vai ficar a saber coisas que não sabia. Quem não seja especialista, ficará a saber mais sobre várias áreas. Deixar-se-á enganar menos facilmente.

AP - Porque é que escolheram este título para o livro?

CF - Pensámos que muita gente se iria lembrar de um famoso video que circulou na Internet, que mostrava a preparação de pipocas com telemóveis. Uma treta, claro. E porque essa situação ilustra bem as características da ciência e a atitude crítica que desmascara a falsa ciência. Mesmo não sabendo nada acerca de milho, telemóveis ou radiações, basta uma experiência simples para concluir que não é possível fazer pipocas com telemóvel. A experiência é a base do conhecimento científico. E, neste caso, o leitor pode experimentar.

AP - Há mais adesão às pseudociências em Portugal do que em outros países? Porquê?

DM - Apesar de haver situações específicas em cada país, também a falsa ciência está globalizada. Há cá como nos outros lados. Os produtos de consumo (como iogurtes milagrosos e remédios homeopáticos) ou as notícias disparatadas não conhecem fronteiras. Claro que há coisas que encontram mais adesão nuns países do que noutros. No livro indicamos alguns casos nacionais.

AP - Fazia falta um livro deste género escrito por portugueses. Porque é só agora é que o escreveram?

CF - No livro "Darwin aos Tiros", que já vai na 3.ª edição, o último capítulo é sobre falsa ciência e achámos que seria um bom tema para aprofundar no livro seguinte. Disseram-nos que era uma das partes mais interessantes do livro anterior. Mas pode ler-se este livro sem o outro.

AP - Como classificam a evolução da divulgação de ciência em Portugal nas últimas décadas?

DM - Ímpar. Temos que destacar o papel da Gradiva, designadamente através da sua colecção Ciência Aberta, que conta já com 30 anos e quase 200 obras publicadas. A Ciência Viva, assim como várias associações e instituições de investigação científica, têm sido excelentes nesta área. É uma aposta que deve ser mantida e reforçada pois sem ciência não temos futuro.

sábado, 27 de outubro de 2012

UM CÉU MAIS PERFEITO.



Recensão publicada primeiramente na imprensa regional.



Desde o “Nascer do Sol” ao “Pôr-do-Sol”.

O trânsito do "astro rei" no firmamento marca desde sempre a actividade da vida nas sociedades humanas, em particular, e de toda a vida em geral. Aquelas duas expressões estão presentes em muitas, se não mesmo em todas as línguas humanas.

Nos outros seres vivos, que connosco coabitam este planeta, estão também identificados sons anunciadores daqueles acontecimentos celestes. Quem não se recorda ou ainda acerta o seu acordar pelo cantar do galo a romper a madrugada num anúncio de luz? Ou o chilrear da passarada a discutir o condomínio de um ramo ao anoitecer?

É assim desde que há memória, desde que há história. Os sentidos assim nos iludiram durante milhares ou mesmo milhões de anos: é o Sol que se move ao redor da Terra, que irrompe o dia a nascente, que encerra a jornada a poente, num ciclo eterno. Mas será mesmo assim como as línguas nos dizem? O que fez com que alguém pusesse a hipótese de poder ser diferente? A progressiva observação do céu, o registo meticuloso e acumulado ao longo de séculos do movimento dos outros planetas visíveis a olho nu.

O modelo geocêntrico servia para a organização da vida humana na Terra, mas era insuficiente para compreender a organização, o comportamento dos astros no céu. Incompleto para o conhecimento, última morada do destino humano (como apontou Carl Sagan). Mas para romper com a ilusão sensorial sedimentada pelos poderes seculares e intemporais, doutrinas centradas no umbigo da humanidade, foi preciso a coragem de alguns para erguer a verdade, qual vela acesa, na noite escura.

Nicolau Copérnico (1473 – 1543)


Por volta de 1510, o polaco Nicolau Copérnico (1473 – 1543), então com cerca de 40 anos de idade, estabeleceu uma nova concepção do nosso sistema solar, na qual o Sol, em vez da Terra, estava no centro: o modelo heliocêntrico. Mas, com um medo visceral de poder ser alvo da chacota dos seus colegas matemáticos e da irra de outros senhores, ocultou a sua teoria durante outros 40 anos!

O que é que fez com que tivesse mudado de ideias e escrito as suas teorias no livro “Das Revoluções dos Corpos Celestes”, que marca o início de uma nova era para o conhecimento e para o lugar da humanidade no Cosmos? Um jovem matemático alemão de nome Georg Joachim Rheticus (1514 – 1574). Foi Rheticus quem convenceu Copérnico e levou o manuscrito para que este fosse impresso em 1539 em Nuremberga, no melhor impressor de textos científicos da Europa de então.

Georg Joachim Rheticus (1514 – 1574)


Ninguém sabe até hoje como é que Rheticus terá convencido o seu mestre a mudar de ideias quanto à publicação da obra que tanto impacto causou até hoje. E é neste epicentro misterioso de confronto de personalidades e circunstâncias da história do séc. XVI, que a premiada escritora Dava Sobel (que foi editora de ciência do New York Times) desenvolve e nos oferece mais um livro soberbo.


Em “Um Céu mais Perfeito – Como Copérnico revolucionou o cosmos”, publicado em Setembro de 2012 pela Temas e Debates e pelo Círculo de Leitores, Dava Sobel, com a mesma maestria cativante presente em “Longitude” e “A Filha de Galileu” (publicados entre nós pela Temas e Debates) narra-nos a vida de Nicolau Copérnico. Apresenta-nos, numa primeira parte, o ser humano na antecâmara da obra que o celebrizou como um dos gigantes da ciência moderna, assim como descreve as consequências e o impacto da sua publicação, o que apresenta na terceira e última parte do livro.

Na parte segunda e parte central (“E o Sol Imobilizou-se”), Dava Sobel coloca-nos como espectadores privilegiados de um diálogo, em dois actos, entre Copérnico e Rheticus. Baseando-se em “palavras que eles escreveram em diversas cartas e tratados”, a autora tece, num contexto histórico e factual, uma ficção sobre como Rheticus terá persuadido Copérnico a deixar que o seu manuscrito visse a luz do dia.


Das Revoluções dos Corpos Celestes


Com este livro somos transportados até ao debate crucial ocorrido em meados do séc. XVI, que redefiniu o nosso lugar no Cosmos. Entre séculos e séculos de alvoradas e ocasos, a Terra sempre girou ao redor do Sol. A consciência deste conhecimento não nos retirou qualquer fascínio com o esplendor do nascer e do pôr-do-sol, os quais continuam a fertilizar a nossa emotividade e poesia. E este é um livro a ler entre qualquer um desses momentos e registos, à luz da nossa humanidade.

António Piedade



Ficha Bibliográfica
Título: Um Céu Mais Perfeito
Autor: Dava Sobel
Editor: Temas e Debates / Círculo de Leitores
ISBN: 9789896441814
Número de páginas: 316
Edição: 1ª – Setembro de 2012
Encadernação: Brochado

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

“O NÚMERO DE OURO”

Recensão primeiramente publicada na imprensa regional portuguesa.

O que é que têm em comum a bela distribuição das pétalas de uma rosa, as esplendorosas conchas em espiral dos moluscos, o famoso quadro de Salvador Dali “o Sacramento da Última Ceia”, a reprodução dos coelhos e a forma das galáxias? O “número de ouro”.

O “número de ouro”, igual a 1,6180339887…(uma dizima infinita não periódica) é comummente identificado pela letra grega fi (ϕ), a primeira letra do nome Fídias, escultor grego (c. 490 a c. 430 a.C.) cujas esculturas terão sido supostamente influenciadas pela proporção indicada pelo “número de ouro”.

Esta ligação entre a matemática e as artes é muito mais comum e antiga do que normalmente temos presente, remontando seguramente à civilização jónica. O “número de ouro” tem fascinado não só artistas plásticos mas também biólogos, físicos, astrónomos, músicos, historiadores, arquitectos, psicólogos, filósofos, místicos, entre outros. De facto, o "mistério" da frequência com que este número aparece ao longo da vida inspirou e influenciou pensadores de todas as disciplinas como nenhum outro na história da matemática.

O “Número de Ouro” é também o título no novo volume (n.º 195) da incontornável colecção “Ciência Aberta, da editora Gradiva que o acaba de publicar. Com a autoria do astrofísico Mario Livio (do Instituto de Ciência do Telescópio Espacial Hubble), “O Número de Ouro – a história de Φ , o número mais assombroso do mundo”, recebeu o Prémio Internacional Pitágoras - Peano - para melhor livro de divulgação matemática. Este livro é de facto fascinante e está escrito de uma forma muito cativante.

Mario Livio vai muito para além de descrever as propriedades matemáticas, geométricas, associadas ao número de ouro. Ao longo de nove capítulos (1 - Prelúdio a um número; 2 - A frequência e o pentagrama; 3 - Debaixo de uma pirâmide a apontar para as estrelas?; 4 - O segundo tesouro; 5 - Filho afortunado; 6 - A divina proporção; 7 - A liberdade poética também é um direito dos pintores; 8 - Dos mosaicos aos céus; 9 - Deus será matemático?), o autor guia-nos através da história da matemática e da humanidade, numa linguagem sóbria e fluída, contida no entusiasmo que o número desperta constantemente.

Mario Livio desmistifica e desmonta inúmeras associações, forçadas, erradas, documentadas em fontes dúbias ou mesmo inexistentes, e que existem na literatura sobre a presença do “número de ouro” em várias obras de arte e arquitectónicas da história da humanidade. Através de uma análise rigorosa às fontes e aos argumentos que vários autores usaram ao longo da história do “número de ouro”, o autor deste livro eleva-nos ao interesse genuíno sobre este número de forma arrebatadora e despojada de falsa ciência.

O astrofísico escreve no primeiro capítulo do livro (Prelúdio a um número) que o objectivo de nos ajudar a obter alguns conhecimentos sobre as bases daquilo a chama a “numerologia de ouro” assim como o de transmitir o lado humano que sempre esteve presente na história deste número, norteou a sua escrita.

Para Roger Penrose, emérito matemático da Universidade de Oxford, este livro é “um trampolim maravilhoso para o extraordinário mundo da matemática e da sua relação com o mundo físico tal como encarado da Antiguidade aos tempos modernos”. 

Ao sabor de inúmeras histórias, e à “boleia” do “número de ouro”, Mario Livio consegue transmitir de forma simples inúmeros conceitos e elementos que são fundamentos de várias áreas da matemática. Ao descrever as propriedades implícitas no “número de ouro”, faz um apelo à nossa atenção para mundo à nossa volta e usa a matemática para salientar a sua beleza e o fascínio, o espanto, que as coisas misteriosas sempre despertaram na mente humana. 

Recomendável, ou mesmo imprescindível, para mostrar o quanto a matemática é útil para o conhecimento do cosmos e como ela está presente na sua beleza.

António Piedade

Ficha bibliográfica:
O Número de Ouro - A história de Fi, o número mais assombroso do mundo
Autor: Mario Livio
Editora: Gradiva
Colecção: Ciência Aberta
Páginas: 392
Ano de edição: 2012
ISBN: 978-989-616-496-6
Capa: Brochado (capa mole)

terça-feira, 31 de julho de 2012

"A ESPIRAL DA VIDA"



Recensão crítica publicada primeiramente na imprensa regional.

A Espiral da Vida - As Dez Mais Notáveis Invenções da Evolução”, da autoria do eminente Bioquímico e divulgador científico Nick Lane, é o novo título, nº 194, da incontornável colecção “Ciência Aberta” da editora Gradiva. É a 1ª edição portuguesa (Julho de 2012) de “Life Ascending—The Ten Great Inventions of Evolution” (publicado em 2009 – ano do bicentenário de Darwin), que venceu em 2010 o prémio para livros de ciência atribuído pela Royal Society.


Realce para a tradução para o português do original inglês efectuada por Alexandra Nobre, do Departamento de Biologia da Universidade do Minho, que conseguiu manter a linguagem acessível mesclada com a frontalidade, o humor e a ironia que caracterizam a escrita de Nick Lane. Mas talvez o aspecto mais positivo da tradução seja o ter mantido a beleza da escrita recorrentemente poética de Nick Lane, que nos oferece inúmeras sínteses poéticas de aspectos da evolução da vida. Frases para mais tarde recordar. De facto, muitas das frases originais que preenchem o livro sobre fenómenos essenciais à vida permanecerão na memória do leitor que revisitará este livro como fonte de informação e inspiração futura.

“Se Charles Darwin saísse do túmulo, eu dar-lhe-ia este livro fabuloso para o animar” disse sobre este livro Matt Riddley, autor de “Genoma” e “A Rainha de Copas” (também publicados pela Gradiva). De facto, se a vida é só por si uma realidade fascinante, enveredar pela aventura espantosa de apreender como é que ela evoluiu desde as primeiras moléculas até à complexidade da consciência, torna-a ainda mais deslumbrante. É este um dos aspectos mais cativantes deste terceiro livro de divulgação científica de Nick Lane, que nos oferece uma admirável compreensão da relação entre a história da vida e do planeta em que evoluiu. A componente animadora reside na perspectiva de que há válidas razões para esperarmos que através do método científico possamos revelar e compreender o longínquo desconhecido berço da vida.

Nick Lane surpreende-nos magistralmente numa síntese original, rigorosa mas acessível, do conhecimento acumulado nos últimos 150 anos sobre a evolução da vida que permitiu que hoje estejamos aqui a ler este texto.

Ao longo de 10 capítulos dedicados a outros tantos marcos evolutivos substanciais à vida, Nick Lane problematiza e actualiza-nos o conhecimento sobre a sua evolução. “Começamos com a origem da vida em si e terminamos com a nossa própria morte e procura de imortalidade, passando por pontos altos como o ADN, a fotossíntese, as células complexas, o sexo, o movimento, a visão, o sangue quente e a consciência”, resume o autor na Introdução.


Nick Lane, Bioquímico, escritor e divulgador científico


Nick Lane transmite, de forma original, questões complexas com uma facilidade cativante. Com coragem intelectual confronta teorias concorrentes, relata episódios de como a ciência se processa e produz conhecimento, pelo que acresce a este livro uma dimensão didáctica sobre como a ciência funciona. Ao longo da leitura do livro, sentimo-nos em cima do promontório do conhecimento actual, sentados na sua fronteira a contemplar o desconhecido no horizonte que se espraia em todas as direcções do tempo (passado, presente e futuro), e sentimos a vertigem do abismo que nos atrai para o erro, que evitamos e minimizamos, nesta humanidade conscientemente falível.

A Espiral da Vida que recebeu as melhores críticas internacionais, é por tudo o que se disse, de leitura aconselhável e agradável para todos, mas imprescindível para todos os que se interessam pela aventura da vida no Universo.

António Piedade
Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva

segunda-feira, 4 de junho de 2012

30 anos de “Ciência Aberta” ou cerca de 200 títulos depois.



Crónica publicada no Diário de Coimbra:

Portugal mudou muito nos últimos 30 anos!

A ciência, na sua globalidade, é uma das áreas em que essa mudança surge pela positiva como um facto quantificável, qualificável e substancialmente significativo em Portugal.

Mudança elevadíssima no número de investigadores doutorados em instituições portuguesas, mudança majoral no número de laboratórios e instituições de ciência reconhecidas internacionalmente, centros de incubação e produção de conhecimento científico de referência e excelência internacional, mudança no aumento do número de museus e centros interactivos dedicados à apresentação do conhecimento científico e tecnológico a todos.

Neste mês de Junho assinala-se o aniversário de uma colecção de literatura de divulgação de ciência que faz parte da história literária e editorial portuguesa contemporânea e que influenciou um número maioritário de cientistas portugueses: o 30.º aniversário da colecção “Ciência Aberta”, da editora Gradiva.

Em Junho de 1982, Guilherme Valente, editor da Gradiva, iniciou a referida colecção com a publicação de “O Jogo dos Possíveis”, de François Jacob (prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina de 1965), começando a colmatar, paciente e persistentemente, uma lacuna (salvaguardando não mais do que algumas excepções no passado): permitir o acesso, em bom português, ao conhecimento científico actualizado e apresentado pelos melhores divulgadores de ciência e tecnologia do nosso Cosmos.

Título após título, com o pulsar de transumâncias fertilizantes, o crescimento da colecção “Ciência Aberta” apresentou, em excelentes traduções, revistas por especialistas e cientistas portugueses, uma exposição viva e intelectualmente estimulante de sínteses sobre o conhecimento que as várias disciplinas científicas teciam e tecem sobre o Universo em que evoluímos e somos humanos.

O Editor Guilherme Valente

A “Ciência Aberta”, livre, sem preconceitos, sem espartilhos doutrinários, sem fronteiras geográficas nem agendas políticas (o conhecimento científico é de e para todos), motivou e deslumbrou toda uma geração de jovens dos “7 aos 77”.

Há quem (pelo menos o Professor Doutor Carlos Fiolhais no seu livro “A Ciência em Portugal”) designe a geração de cientistas que, no início da década de 80 do séc. XX (e décadas sequentes), desabrocharam solida e compaginadamente para a ciência com a “Ciência Aberta”, como a “Geração Gradiva”.

Dezenas de investigadores com quem tenho conversado sobre este assunto incluem-se, sem hesitações, no que esta designação implícita: foi muito devido à “Ciência Aberta” da Gradiva que as suas formações científicas se fizeram e/ou completaram, que as suas escolhas e opções de investigação se definiram.

As novidades sobre um horizonte possível e tangível, numa escala de amplitude sem precedentes entre o atómetro (milésima milionésima parte do nanómetro) e os mais de 13 mil milhões de anos do Universo, foram sendo primeiramente reveladas através da “Ciência Aberta”. Conhecimento acessível nas fronteiras do saber e para além do que se ensinava e ensina nas nossas Universidades.


Hoje, passados 30 anos, a colecção que cresceu ininterruptamente com uma média impressionante de um novo título em cada dois meses, tem vindo a incluir no seu seio e de forma crescente, vários autores portugueses: só nos últimos 11 anos publicou 27 obras de cientistas portugueses, num total de 37 publicados desde o início da colecção (a lista não cabe no espaço desta crónica!).

Para além do que ficou dito, acrescente-se que a “Ciência Aberta” compõe-se no presente por 193 obras de incontornáveis divulgadores de ciência como sejam Hubert Reeves, Carl Sagan, Richard Feynman, Stephen Jay Gould, Stephen Hawking, Richard Dawkins, entre muitos, muitos outros.

Por fim, aproxima-se uma outra celebração: a do título número 200! 

Cá estaremos para o ler. 

António Piedade

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

REEDIÇÃO DE “OS DRAGÕES DO ÉDEN” DE CARL SAGAN

“Os Dragões do Éden - Especulações Sobre A Evolução Da Inteligência Humana E Das Outras”.



Eram tardes de início do Verão de 1985.

Quatro jovens, estudantes de Bioquímica, Química, Física e Biologia, passeavam sem fim determinado por vários terraços, recantos, estufas, entre outros espaços, do deslumbrante Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, cuja biodiversidade permite, mesmo ao mais desatento, viajar pela história da vida e da sua dispersão e evolução no planeta Terra. Evidências de evolução por toda a parte. De criação, só a que resulta do cultivo que os jardineiros executam para manter o Jardim!

Passeavam empolgados como se tivessem descoberto todo um mundo novo. A conversa, ou melhor, as conversas bolinavam adentro a história da vida, pela capacidade que a inteligência humana tinha em fazer eclodir conhecimento. Numa confrontação multidisciplinar, cada um esgrimia pontos de vista diferentes e tentava a partir deles levar os outros a especular sobre constelações de “e se o cosmos”, “e se a vida”, “e se o acaso”, “e se a evolução”, “e se o espanto fosse surpreendido a partir de outra inteligência, não humana, talvez artificial, ou melhor, talvez extraterrena?”.

Naquele passeio imerso no ecossistema do Jardim Botânico, primeiramente escola de descobertas, os quatro estudantes não iam sós mas acompanhados por um livro. Liam, uns para os outros, as passagens que lhes tinham fertilizado a curiosidade e alimentado a inteligência com destino marcado para o conhecimento. O que liam? Liam, reliam e discutiam o livro de Carl Sagan, premiado em 1977 com o prémio Pulitzer, e que a editora Gradiva tinha acabado de publicar em português: “Os Dragões do Édem - Especulações Sobre A Evolução Da Inteligência Humana E Das Outras”.

Depois de termos viajado pelo “Cosmos” através da escrita de Carl Sagan, este foi o segundo livro traduzido para português e incluído, com o n.º 8, na ininterrupta colecção “Ciência Aberta”, da editora Gradiva, do Guilherme Valente. Lembro-me bem o impacto que teve ao abrir-nos outras perspectivas, novas formas de abordar certos assuntos, tirando-lhes o pó dogmático e cómodo do saber não questionado. Ao mostrar as insuficiências do criacionismo para explicar todo um mundo de evidências evolutivas.


Ao longo das nossas formações académicas iriam ficar (e ficaram) bem vivas na memória essas discussões edificantes e sedimentadas pela Alameda da Tílias do referido Jardim, que mantiveram atenta a nossa capacidade para questionar a inteligência humana, a sua evolução, a sua relação com a possibilidade de outras inteligências, aqui e nas estrelas.

Passados que foram 26 anos, a memória dessas tardes foi de novo espoletada com a reedição, em Novembro de 2011, de “Os Dragões do Éden”, a 8.ª edição em Portugal, agora incluída na colecção “Obras de Carl Sagan” (6.º título) que a Gradiva dedica a esse incontornável comunicador e divulgador de ciência e tecnologia, passados 15 anos da sua morte.



Esta nova edição daquela que “para alguns é a mais bela obra de Carl Sagan” apresenta-se agora mais agradável, com uma paginação mais generosa e cómoda à leitura, com as anotações cuidadas na sua localização mais apropriada, com uma melhor impressão das imagens originais e constantes na primeira edição portuguesa. Recorde-se que a tradução desta obra foi efectuada pela Ana Falcão Bastos e que a revisão científica foi do físico José Mariano Gago e dos biólogos Maria Margarida Perestrello Ramos e Carlos Henriques de Jesus.

O volume actual, com 269 páginas, compagina a introdução, nove capítulos principais, mais um outro de agradecimentos, uma extensa, rica e diversificada bibliografia, e por fim, um glossário generoso. Capítulo a capítulo, Carl Sagan apresenta-nos uma progressiva problematização, a um só tempo lúcida, estimulante e sem preconceitos, da evolução do cérebro e da inteligência humana. Numa abordagem interdisciplinar, facilitada pelo amplo domínio que Sagan tinha de várias áreas do conhecimento científico, filosófico e histórico da humanidade, somos embalados numa leitura cativante que questiona a nossa importância, lugar e presença na evolução da vida e do Universo.

Sem receio de revisitar e desmistificar as origens incrustadas na diversidade cultural humana, provoca o leitor com hipóteses ainda hoje arrojadas e que incendeiam aquilo que porventura julgava bem estabelecido. De capítulo em capítulo, Sagan leva-nos por uma viagem sem nunca nos desacompanhar. Compara, confronta a evolução e a actividade do cérebro, visitando e transmitindo o que então se conhecia da biologia daquele órgão, presente em nós e noutros seres vivos.

Sagan contagia-nos com a sua paixão pelo conhecimento, apresentando-nos as várias construções, umas mais abstractas e científicas, outras mais concretas e tecnológicas, fruto da actividade daquele órgão capaz de produzir pensamentos, emoções e de as integrar com a informação que recebe do exterior, desenvolvendo culturas e mitos, modelando comportamentos e estabelecendo hierarquias conceptuais nas relações intra e inter-espécies.

Ao longo do livro Sagan guia-nos pelo retrato, possível à época (desde então muitos foram os avanços obtidos pelas neurociências e mesmo na área da psicologia evolutiva), da estrutura orgânica das fundações da nossa inteligência, das nossas paixões, dos nossos medos e das nossas realizações. Identifica e situa a inteligência humana no contexto da evolução da inteligência dos seres vivos.

O último capítulo, famoso também pelo seu título, que, aliás, ecoa na última frase do livro, propõe-nos uma direcção para a descoberta: “O conhecimento é o nosso destino – inteligência terrestre e extraterrestre”.



35 anos depois da primeira edição original em inglês, esta obra prima e clássico da literatura científica popular, continua extremamente actual na forma como contextualiza e problematiza a inteligência humana como a última fronteira do nosso conhecimento.

Ademais, a sua reedição é oportuna nesta época em que “pseudociências irracionais” e diversos engodos tipo “banha-da-cobra" e "elixires da juventude” têm ganho espaço e privilégio nalguns meios de comunicação social, tirando partido da iliteracia científica que grassa de forma indiferenciada e sem qualquer respeito pela inteligência dos cidadãos. A sua leitura, ou releitura, permitirá ao leitor fortalecer o espírito crítico e adquirir ferramentas para desbravar os terrenos férteis do conhecimento com a ajuda da inteligência cativante e contagiosa de Carl Sagan.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Os Livros Portugueses de Divulgação de Ciência em 2011



Crónica primeiramente publicada no "Diário de Coimbra".


O ano de 2011 foi generoso em livros de autores portugueses dedicados à divulgação de ciência. Digo até mais: 2011 deu à estampa alguns volumes que vão ficar (já estão) na galeria dos melhores livros de sempre de divulgação de ciência em língua portuguesa.

O Ano Internacional da Química, celebrado em 2011, foi pretexto para a preparação e lançamento de algumas dessas obras, dos quais dois são, na minha opinião incontornáveis. “Haja Luz!- Uma história da Química através de tudo”, de Jorge Calado, saiu com a chancela da Imprensa do Instituto Superior Técnico e fica como volume imprescindível e de referência sobre a história da Química na e da humanidade. Impressionante.



A celebração este ano do centenário do modelo de Rutherford para o átomo, trouxe à luz do dia um livro que esperou 150 anos para conhecer a sua tradução para o português e que, apesar de o texto original pertencer a autor estrangeiro, a sua publicação só foi possível pelo empenho e investigação de autores e investigadores portugueses, que enriqueceram o original quer com a qualidade da tradução, quer com as anotações que acrescentam informação preciosa para o leitor. É ele: “A História Química de uma Vela”, de Michael Faraday, com tradução e anotações de Sérgio Rodrigues e Maria Isabel Prata, com prefácio de Sebastião Formosinho. Publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra, reúne algumas das lições populares de Faraday na Royal Institution de Londres que ficaram.



Acrescento a esta lista a "Breve História da Química", de Regina Gouveia, um texto sobre alguns marcos da história da química em forma de texto para teatro infantil, em poesia, na continuação da tradição iniciada por Rómulo de Carvalho/António Gedeão. Foi publicado pela editora 7 dias, 6 noites.



O ano de 2011 fica também marcado pela edição de um há muito aguardado “Dicionário de Geologia”, da responsabilidade de A.M. Galopim de Carvalho. Publicado pela editora Âncora, incluo este volume pois não há boa comunicação de ciência sem que possamos ter instrumentos que descodifiquem os conceitos, por vezes mais complicados e herméticos, que resultam da actividade científica e da comunicação dos resultados entre investigadores.


Neste contexto, mais precisamente em disciplinas derivadas da geologia como a geoquímica e a geofísica, destaco dois livros: “Estas máquinas chamadas Mundos”, de Eduardo Ivo Alves, sobre a formação dos planetas, publicado na Imprensa da Universidade de Coimbra; “A Aventura da Terra – Um planeta em evolução”, de vários autores, coordenado por Maria Amélia Martins-Loução, sobre a evolução geológica do planeta, mas também sobre a da vida que nele emergiu, publicado pela Esfera do Caos, e que compagina um conjunto de textos oriundos de um ciclo de conferências e de uma exposição com o mesmo título.




Enquanto o nosso planeta se aproxima à velocidade de cerca de 30,2 km/s do local na sua trajectória elíptica em redor do Sol em que o nosso calendário muda de ano, ainda há tempo para ler o livro “Pelo sistema solar vamos todos viajar”, de Regina Gouveia, uma poesia escrita para os mais novos sobre o sistema solar editada pela Gatafunho.



A “Vida no Universo”, livro editado pela Gradiva e escrito por João Lin Yun sobre a procura de vida fora da Terra, mas que é também uma reflexão sobre a natureza e consciência Humanas e a existência de Deus. É uma leitura oportuna que permite dotar o leitor como os elementos suficientes para um balanço sobre a astrobiologia, uma vez que 2011 foi um ano recheado de descobertas de planetas candidatos a albergarem formas de vida como a que conhecemos.


Num ano em que a partícula subatómica neutrino surpreendeu muita gente, o físico português João Magueijo ofereceu-nos uma magnífica biografia sobre o físico italiano Ettore Majorana, que postulou a possibilidade da existência do neutrino, e cuja vida atrai por misteriosa como também foi o seu desaparecimento: “O Grande Inquisidor”, editado pela Gradiva é um dos livros incontornáveis de 2011.


Na deixa da biografia anterior, é obrigatório sublinhar a publicação de uma biografia sobre o nosso único prémio Nobel português nas ciências, Egas Moniz, escrita maravilhosamente por um outro incontornável neurocirurgião português, João Lobo Antunes. Trata-se do livro “Egas Moniz. Uma biografia”, publicado pela Gradiva.


Resultado de um conjunto de conferências coordenadas por Maria de Sousa (Prémio Universidade de Coimbra de 2011) emerge o volume “Migrações: das Células aos Cientistas”. Publicada pela Esfera do Caos, este livro permite-nos aceder a diversas perspectivas multidisciplinares sobre o fenómeno da migração, desde os microorganismos até ao Homem. É um livro muito interessante, sobre um dos denominadores comuns da vida que é a sua permanente exploração do espaço que a rodeia.


É também nessa exploração que se manifestam os mecanismos que galvanizam a evolução da vida e que geram diversidade. E foi o fascínio pela diversidade da vida neste planeta que levou Francisco Dionísio (um matemático e físico que migrou para a biologia molecular) a escrever “Uma Tampa para cada Tacho – Conflitos Genéticos e Evolução”. Neste livro, publicado pela Bizâncio, muitos factos do dia-a-dia devidos a conflitos genéticos são explicados pelo autor, um excelente divulgador de ciência, numa linguagem rigorosa, simples e cativante.


Esta minha lista de livros de 2011 ficaria incompleta sem a referência a dois livros publicados no último trimestre pela Gradiva: “Darwin aos Tiros e outras Histórias de Ciências”, de Carlos Fiolhais e David Marçal e “Casamentos e Outros Desencontros”, de Jorge Buescu. Se o primeiro nos revela histórias da ciência insuspeitas e muito divertidas, o segundo apresenta de uma forma que equilibrada o rigor matemático e a transmissão do seu entendimento por todos, num tom muito humorado e subtil característico de Jorge Buescu. A divulgação da matemática contemporânea, que é substância de inúmeros aspectos do nosso quotidiano, ficou mais rica e mais acessível a todos.



Ressalvo, antes de acabar, de que o ano de 2011 acolheu muitos mais livros de divulgação de ciência do que aqueles que aqui ficaram indicados. As escolhas são sempre subjectivas e incompletas e naturalmente lembrar-se-á o leitor de outros volumes que aqui não foram mencionados. Agradeço que os acrescente.

António Piedade
Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva