sábado, 27 de outubro de 2012
UM CÉU MAIS PERFEITO.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
MENSAGENS VINDAS DO ESPAÇO (I)
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Uma nova História da Matemática em Portugal?
Jorge Buescu, um dos principais divulgadores de ciência da actualidade, principalmente na área da matemática, acaba de publicar o seu último livro: Matemática em Portugal, uma questão de Educação. O título, publicado em Maio, é o n.º 27 da colecção “ensaios” da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
O ensaio com 98 páginas, estrutura-se em 7 capítulos a saber: 1 - Matemática em Portugal: a narrativa convencional e o verdadeiro drama; 2 - o que é e para que serve a Matemática?; 3 - Os Descobrimentos: matemática em Portugal?; 4 – A imaginária “decadência” do século XVII; 5 – Catástrofe pombalina na Edudação; 6 – A aventura e o drama da Geração de 40; 7 – Portugal e o futuro.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
30 anos de “Ciência Aberta” ou cerca de 200 títulos depois.
domingo, 18 de março de 2012
Sobre Ferreira de Mira (1875-1953)
Mais um post de António Mota de Aguiar sobre a história da ciência no século XX (na foto, Ferreira de Mira):Mathias Boleto Ferreira de Mira, nasceu em Canha (Montijo) e estudou em Lisboa na Escola Médico-Cirúrgica, onde terminou o seu curso em 1898. Depois de uma curta passagem pelo Hospital da Misericórdia da vila de Canha, veio residir para Lisboa em 1910, e, já no âmbito das actividades da nova Faculdade de Medicina de Lisboa, assumiu, em 1912, a cadeira de segundo Assistente provisório de Fisiologia.
Esta data marca o começo da brilhante carreira científica de Ferreira de Mira, primeiro, regendo cursos práticos de Fisiologia e Química biológica, a seguir, como investigador científico, mas não só, porque também exerceu funções no Município de Lisboa no pelouro da Instrução primária, além de ter sido deputado à Assembleia da República de 1921 a 1923.
A sua carreira de jornalista começa por volta de 1912, essencialmente nos jornais A Lucta, Diário de Notícias e Seara Nova, onde escreveu dezenas de artigos de vulgarização científica, na área da biologia e de outras ciências.
O Professor Luís Rebelo, da Faculdade de Medicina de Lisboa, considera “Ferreira de Mira, à época o mais importante historiador de medicina portuguesa (…)” e, sem dúvida, não se enganou, pois, por essa altura, Ferreira de Mira tinha um muito atento leitor, o multimilionário Bento da Rocha Cabral (1847-1921), que lhe iria deixar em testamento uma considerável fortuna para obras de investimento científico.
Contudo, não se pode falar de Ferreira de Mira sem o inserir na geração médica de 1911, que elevou a medicina portuguesa ao mais alto nível do que havia de melhor pelo mundo. Geração essa que arrancou, ainda no século anterior, com Sousa Martins e Miguel Bombarda e que, participando activamente na Assembleia da República, promulgou, em 1911, as leis que reformavam os estudos médicos e criavam novas Universidades e novas Faculdades, pondo fim às escolas médicas de Lisboa e Porto, que se transformaram em Faculdades, com estatuto universitário.
Em 1911 estava constituída, em pessoas e instalações, a nova Faculdade de Medicina de Lisboa com as suas cadeiras laboratoriais:
“Era um real progresso, uma transformação quase milagrosa dum ensino e duma medicina anacrónicos, numa medicina francamente moderna; dum espírito decadente passara-se a um espírito empreendedor e progressivo; de instalações decrépitas passava-se a um edifício moderno e de bela arquitectura; duma medicina parasitária a uma ciência com expressão própria. Evolução duma medicina provinciana e fechada para uma ciência médica que transpôs as fronteiras nos dois sentidos”.
É no quadro das transformações ocorridas, como acima nos diz Jaime Celestino da Costa, que devemos compreender a acção científica de Ferreira de Mira, e diria mais, é neste quadro que podemos compreender que o transmontano Bento da Rocha Cabral, emigrante no Brasil, no fim da vida, regressa à sua terra e doa a um desconhecido – Ferreira de Mira – uma soma astronómica de dinheiro e bens com o fim de levar a cabo investigação científica em biologia. Um oásis de esperança no contexto nacional!
Foi no âmbito das actividades da recém-criada Faculdade de Medicina de Lisboa que foram criados os seguintes Institutos:
- O Instituto de Farmacologia e Terapêutica Geral, fundado por Sílvio Rebello (mais tarde por Toscano Rico e Gomes da Costa).
- O Instituto de Histologia e Embriologia, fundado por Augusto Celestino da Costa (com Pedro Roberto Chaves, Alfredo Magalhães Ramalho e Simões Raposo).
- O Instituto de Anatomia, fundado por Henrique de Vilhena (com Vítor Fontes e Barbosa Sueiro).
- O Instituto de Anatomia Patológica e Patologia Geral, fundado por António Pinto de Magalhães (falecido prematuramente).
- O Instituto de Fisiologia e Química Fisiológica, fundado por Marck Athias (com Joaquim Fontes e Ferreira de Mira).
Este instituto foi um importante centro de investigação e aprendizagem para o qual Ferreira de Mira deu uma importante contribuição. Certamente lhe terá servido esta experiência quando, anos mais tarde, fundou o Instituto de Investigação Científica Bento da Rocha Cabral.
Ferreira de Mira tem uma vasta obra de trabalhos de investigação científica, principalmente sobre a fisiologia das cápsulas suprarrenais, publicados em revistas portuguesas e estrangeiras da especialidade, muitos destes trabalhos foram feitos em colaboração com Joaquim Fontes.
Escreveu livros didácticos: Lições de Químico-Fisiologia elementar; Exercícios de Química Fisiológica, de colaboração com Marc Athias; Manual de Química Fisiológica; Química Geral e Química Orgânica, de colaboração com Pereira Forjaz e Kurt Jacobsohn, etc.
Escreveu também livros de divulgação científica, muitas crónicas científicas e deu dezenas de conferências sobre temas científicos.
Ferreira de Mira tinha cerca de 45 anos quando, por volta de 1920, soube da herança que recebia de Bento da Rocha Cabral. Por isso, a sua obra científica, a partir desta data, está ligada ao instituto do mecenas. Olhando para as actividades do Instituto Rocha Cabral, iniciadas no começo dos anos 20, podemos seguir a obra de Ferreira de Mira, cientista da geração médica portuguesa de 1911.
António Mota de Aguiar
quinta-feira, 1 de março de 2012
George Lemaître (1894-1966): um padre-cientista pouco conhecido

Novo artigo do historiador António Mota Aguiar:
O cientista que faz uma descoberta serve-se do capital científico acumulado em períodos anteriores por outros cientistas.
A descoberta da expansão do Universo é um bom exemplo da contribuição de várias gerações de cientistas, cujo início se pode fixar a metade do século XIX com a introdução das técnicas espectroscópicas, investigações que continuaram até que os trabalhos de cosmologia nos anos 20 do século XX modificaram o nosso conhecimento do Universo: Edwin Hubble (1889-1953), astrónomo do Observatório de Monte Wilson, na Califórnia, descobriu, em 1929, a expansão do Universo.
Antes da descoberta de Hubble, Einstein tinha apresentado, em 1915, uma nova teoria – a relatividade geral - que substituía a descrição clássica da gravitação feita por Newton. A característica principal da nova teoria é que o espaço-tempo deixava de ser indiferente ao seu conteúdo energético-material para se tornar um espaço-tempo curvo a quatro dimensões. Para resolver as equações da relatividade geral foi necessário usar, em vez da geometria clássica, as geometrias não-euclidianas, desenvolvidas no século XIX por Nicolai Lobachesvski, Janos Bolyai e Bernhard Riemann.
Em 1917 Einstein aplicou a sua teoria da relatividade ao conjunto do cosmos. Acrescentou, todavia, nas suas equações, um novo termo, uma constante cosmológica, que originava um universo estático. Por outras palavras, o Universo teria existido sempre no passado e iria existir sempre, mais ou menos da mesma maneira, no futuro.
Entretanto, Hubble, em 1928, partindo do modelo do Universo que o cosmólogo Willen de Sitter tinha proposto em 1917, baseado na cosmologia relativista de Einstein, e apoiando-se em modelos cosmológicos de outros cientistas, principalmente o modelo do norte-americano Vesto Slipher (1875-1969), determinou a distância à Via Láctea de várias galáxias espirais. Esse modelo previa a deslocação para o vermelho da radiação vinda das galáxias, mostrando uma relação entre a velocidade das galáxias e as suas distâncias à nossa.
A descoberta de Hubble continha uma ideia verdadeiramente original: não era necessária nenhuma constante cosmológica pois as galáxias se afastavam umas das outras com uma velocidade tanto maior quanto mais longe se encontrassem. Portanto, o Universo estava em expansão, tendo um passado em que foi diferente do que é hoje.
Hubble mediu o desvio para o vermelho de 41 galáxias (na altura conhecidas como nebulosas), aperfeiçoou as observações feitas por Slipher e, fazendo a sua própria síntese, publicou um artigo nos Proceedings of the National Academy of Science, em 1929, contendo o resultado das suas. investigações. Ficou com a glória de ter descoberto a expansão do Universo!
Todavia, a descoberta de Hubble continha uma mancha: em 1927, isto é, dois anos antes de Hubble, o físico-matemático belga Georges Lemaître tinha chegado à mesma descoberta. Na tradução para inglês publicada nas Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, em Março de 1931, perderam-se, porém, alguns parágrafos do texto original em francês, em particular aquele em que Lemaître descrevia o que hoje se chama constante de Hubble e da qual derivou a taxa de expansão cósmica.
Desde então, os historiadores de ciência têm perguntado o que se teria passado com os trabalhos de Lemaître: teriam esses parágrafos sido omitidos por mão maldosa? Teria Hubble sido responsável, directa ou indirectamente, pelo apagamento dos parágrafos que continham as equações da expansão do Universo, de forma a tornar-se o único descobridor da expansão?
Mario Lívio, astrónomo do Space Telescope Science Institute, Baltimore, Maryland, publicou os resultados de uma sua investigação sobre esse tema na Nature de 9 de Novembro passado. Escreve Livio que, dois anos antes, em 1927, o padre Georges Lemaître, da Universidade Católica de Louvain na Bélgica (sim, Lemaître era sacerdote católico), publicou em francês, numa pouca conhecida revista belga, o Anuário da Sociedade Científica Belga, um artigo intitulado Um universo homogéneo de massa constante e raio crescente que dá conta da velocidade radial de nebulosas extra-galácticas. Neste artigo, Lemaître, citando Lívio:
“reported his discovery of dynamic solutions to Einstein’s general relativity equations, from which he derived what is now known as Hubble’s law – that the velocity at which a galaxy appears to recede is proportional to its distance from us. But Lemaître went beyond theoretical calculations in the paper. He determined the rate of expansion of the Universe using the velocities of the galaxies measured by Slipher (...), and the distances to them as determined from brightness measurements published by Hubble in 1926. For the value of that rate, today called the Hubble constant, Lemaître obtained 625 km per second per megaparsec. (...)”Dois anos após o escrito de Lemaître, Hubble, assistido por Milton Humason, publicou a sua descoberta num artigo intitulado A relation between distance and radial velocity among extra-galatic nebulae. Nesse paper, Hubble “used improved distances (in part based on better stellar distance indicators, such as Cepheid variables and novae) and velocities taken mainly from Slipher, to establish the esistence of Hubble’s law, and to determine a value for the Hubble constant of 500 km per second per megaparsec”. Parece claro que Lemaître foi o primeiro a descobrir a expansão do Universo, pelo que a glória da descoberta deveria ser sua.
Acontece que Lemaître, escreveu Lívio, não pareceu interessado a assegurar prioridade da sua descoberta, pois, quando enviou os seus trabalhos para o mundo anglo-saxónico, erradicou do texto os parágrafos que lhe podiam ter dado glória. Lívio verificou que foi o próprio Lemaître que se auto-censurou. Eis o trecho de uma carta publicada em 1931 por Lemaître que Lívio encontrou, e que põe fim ao debate, pondo de parte qualquer suspeita sobre Hubble ou terceiras pessoas:
Dear Dr. SmartFoi precisamente a parte do seu trabalho de 1927, publicada na Bélgica, omitida pelo próprio quando enviou as suas descobertas para o mundo de língua inglesa, que lhe teria dado a fama de ter sido o primeiro a descobrir a expansão do Universo. Lemaître não recebeu os louros, mas tudo aponta ter sido ele o pioneiro deste grande marco científico.
I highly appreciate the honour for me and for our society to have my 1927 paper reprinted by the Royal Astronomical Society. I send you a translation of the paper. I did no find advisible to reprint the provisional discussion of radial velocities which is clearly of no actual interest, and also the geometrical note, which could be replaced by a small bibliography of ancient and new papers on the subject. I join a French text with indication of the passages omitted in the translation. I made this translation as exact as I can (…).
Lemaître não recolheu frutos da sua descoberta, uma vez que, aparte um pequeno asteróide com o seu nome, hoje quase não se fala dele. Na minha opinião, a descoberta da expansão do Universo devia, pelo menos, ser repartida pelos dois cientistas, já que hoje ninguém consegue tirar a Hubble a fama deste feito. A comunidade científica deveria, pelos menos, baptizar uma estação espacial, uma nave ou um telescópio com o nome de George Lemaître.
António Mota de Aguiar
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
OBRA DE JOAQUIM DE CARVALHO NA NET

Trancrevemos notícia do Campeão das Províncias sobre a afixação na Net da obra do filósofo e historiador de ciência Joaquim de Carvalho:
Joaquim de Carvalho: Vida e obra do filósofo e historiador na Internet
Escrito por CP Sexta, 10 Fevereiro 2012 11:52
"A vida e obra do filósofo e historiador Joaquim de Carvalho, natural da Figueira da Foz, está reunida num sítio na Internet (joaquimdecarvalho.org) disponível desde hoje (dia 10), data em que se assinala o 80.º aniversário da atribuição da mais alta condecoração francesa, o título de Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra.
A iniciativa concretizada pela Medipédia tem o apoio do Casino Figueira, que assim quis “dar corpo ao projecto de preencher uma lacuna relevante do imaginário nacional, num acto de cidadania empresarial”, em relação a “um português de rija têmpera, de espírito de dimensão universal, de alta densidade pensadora, criativa e partilhante”.
“Ignorar Joaquim de Carvalho, ladear o que significa este nome é uma postura de auto empobrecimento. Provavelmente não consciente. Crivelmente involuntário. Mas garantidamente real e impeditivo de um percurso rumo ao progresso, ao desenvolvimento, ao mais e ao melhor, valores dos muitos a que Joaquim de Carvalho dedicou e entregou uma vida - a sua”, justifica o Casino Figueira.
“Pensador e ensaísta, erudito e professor, Joaquim de Carvalho foi, nas quatro décadas que vão de 1918 a 1958, ano da sua morte, uma das maiores figuras, em Portugal, dos estudos a que se dedicou, e em todos estes domínios deixou a marca duradoura da sua personalidade de excepção”, lê-se no web site.
Joaquim de Carvalho, professor da Universidade de Coimbra, nasceu na Figueira da Foz, em 10 de Junho de 1892, e foi agraciado com doutoramento honoris causa pelas universidades de Salamanca. Montpellier e Rio de Janeiro."quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
SEMENTES DE CIÊNCIA

Informação recebida do Museu de Ciência de Coimbra:
“Sementes de Ciência”, um livro de homenagem a António Marinho Amorim, Professor Catedrático Jubilado do Departamento de Química da Universidade de Coimbra (UC), é a obra em destaque na nova sessão de “Café, Livros e Ciência”, a realizar-se na próxima quinta-feira, 23 de Fevereiro, às 18 horas, no Museu da Ciência da UC. Esta iniciativa tem como objectivo promover a leitura de livros de ciência junto do público em geral e a entrada é livre.
“Amigos e colaboradores do homenageado trazem a este livro facetas da história da ciência relacionadas com a Química e da sua pré-história, através da Alquimia, a Iatroquímica, o período do flogisto, a Química Pneumática e, finalmente, a História da Química Quântica e Mecânica Estatística, em tempos mais próximos do nosso”, explica Sebastião Formosinho, Professor Catedrático do Departamento de Química da UC, que vai apresentar a obra “Sementes de Ciência", juntamente com Hugh Burrows, também Professor Catedrático do mesmo Departamento.
Sebastião Formosinho descreve António Amorim da Costa como um “caso raro” no panorama universitário português. “Vai para 30 anos, enveredou com perseverança pela investigação em paralelo nas áreas que cultiva, ou seja, Química-Física Molecular e História da Química, ocupando uma posição única no que diz respeito à História da Ciência, pois as suas investigações tiveram impacto entre os seus pares em ambos os campos, principalmente nos domínios da História da Química”, refere.
“Café, Livros e Ciência” é um projecto de comunicação de ciência que acontece num ambiente informal, onde o café acompanha os livros. Esta iniciativa resulta de uma parceria entre o Museu da Ciência da UC, o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, a Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro e o Taguspark.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
HÁ CEM ANOS: CIÊNCIA E TECNOLOGIA EM 1912 (I)
Há cem anos V. M. Slipher (1875 - 1969) publicava no “Lowell Observatory Bulletin” o primeiro espectro de uma nebulosa em espiral, o da galáxia Andrómeda. Estas e outras observações permitiram-lhe, e aos seus colaboradores, observar um desvio para o vermelho nos espectros registados, indicação de que as galáxias se afastavam do nosso ponto de observação, a Terra. Curiosamente, a primeira constatação deste fenómeno (desvio para o vermelho nos espectros das estrelas e galáxias) é normalmente atribuído (erroneamente) ao mais conhecido astrónomo Edwin Hubble.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
História da Cartografia Ibérica

Informação recebida dos organizadores do workshop História da Cartografia Ibérica:
O Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT), em parceria com a Biblioteca Nacional de Portugal, organiza um workshop com o título História da Cartografia Ibérica: velhas cartas, novos caminhos. O propósito desta iniciativa é reunir investigadores actualmente envolvidos no estudo da Cartografia portuguesa e espanhola antiga, e identificar projectos em curso, com especial enfoque nas novas linhas e metodologias de investigação.
A iniciativa integra-se num projecto de investigação lançado em 2010 pelo CIUHCT, cujo primeiro acto público foi o workshop ‘Estudo da Cartografia Portuguesa Antiga: Diagnóstico e Perspectivas Futuras’, realizado em Março de 2011. Entendeu o CIUHCT, tendo em conta o assinalável êxito daquele encontro, que o seu âmbito deveria ser alargado à dimensão ibérica.
O encontro realiza-se em 29 e 30 de Março de 2012, na Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa. São oradores convidados Mª Luisa Martín-Merás Verdejo, Ramón Pujades i Bataller e João Carlos Garcia.
As propostas de comunicação devem ser enviadas para os endereços indicados no fim desta mensagem, até 31 de Janeiro de 2012, na forma de um resumo (até 300 palavras) e de uma pequena nota biográfica (até 150 palavras).
As propostas serão avaliadas por uma comissão científica e os resultados divulgados até 21 de Fevereiro de 2012. Dependendo da participação, prevê-se que seja atribuído um período de 20 minutos a cada comunicação.
A Comissão organizadora
Henrique Leitão: leitao.henrique@gmail.com
Joaquim Alves Gaspar: alvesgaspar@netcabo.pt
Antonio Sanchez Martinez: antosanmar@gmail.com
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
150 ANOS DA DEFINIÇÃO DE CÉLULA - A EFEMÉRIDE QUE FICOU POR COMEMORAR
No ano de 2011 ocorreu uma efeméride que passou totalmente desapercebida a quase todos, incluindo a maior parte da comunidade científica: os 150 anos da definição de célula feita pelo biólogo alemão Max Schultze (1825 – 1874). O reparo surgiu de uma carta enviada pelo biólogo alemão U. Kutschera (do Instituto de Biologia da Universidade de Kassel, Alemanha) ao editor da revista Nature, publicada a 22 de Dezembro de 2011.
Max Schultze é conhecido dos neurocientistas pela sua identificação e caracterização das terminações nervosas associadas aos órgãos sensoriais, e o seu trabalho minucioso sobre as diferentes células componentes da retina é pioneiro.
E é conhecido dos hematologistas pela sua contribuição definitiva para a identificação das plaquetas sanguíneas. O seu papel como microscopista é incontornável, tendo sido fundador da revista Archiv für Mikroskopische Anatomie, em 1865 (foi seu director até ao ano da sua morte).
Contudo, é uma personagem quase esquecida na história da biologia. Uma pesquisa breve na internet permite verificar que Schultze foi pioneiro da observação intracelular, anatomista e histologista de excelência, embora a sua contribuição paradigmática para a Teoria Celular seja, de facto, pouco referida.
Ao comparar observações microscópicas da composição intracelular (protoplasmática) de tecidos musculares de animais, com as de organismos unicelulares como os protozoários, Schultze entendeu que a definição de célula, estrutura baptizada, em 1665, por Robert Hooke (personagem marcante da revolução científica do século XVII) a partir da palavra latina cella (pequena divisão ou quarto de paredes rígidas), estava muito incompleta.
A célula, unidade da vida tal como tinha sido postulado na Teoria Celular de Schwann e Schleiden, em 1839, tinha de ser definida de forma mais completa e universal. Não podia reduzir-se à sua membrana ou parede exterior, tinha que ganhar outra dimensão com a sua natureza interior. Tinha de incluir os componentes intracelulares observados por Schultze como comuns a células de tecidos animais e a organismos unicelulares. Ele notou que havia uma história comum a todas as células, ou melhor a todos os organismos, e que essa história estava inscrita no seio da célula.
O seu trabalho contribuiu, assim e decididamente, para dar novos horizontes à Teoria Celular. A publicação em 1861 do seu artigo On muscle-particles and what we should call a cell (Archiv für Anatomie, Physiologie und wissenschaftliche Medicin, 1861, 1–27) pode ser considerada a pedra basilar da Biologia e Fisiologia Celular. Neste artigo, o autor discute as suas observações das “partículas” componentes das células musculares e discute o que é que pode ou não ser designado por célula.
Apesar de ter caído em esquecimento, Schultze causou, na sua época, uma ruptura paradigmática com a nova definição de célul, tendo aberto novos horizontes conceptuais para o entendimento do conceito de célula e, muito mais significativo, o conceito da evolução da célula, incluindo a ideia de uma célula ancestral comum a todos os organismos vivos. Este aspecto ganha outra relevância se atentarmos a que “A Origem das Espécies” de Charles Darwin tinha sido publicada cerca de três anos antes, em 1858. Na Biologia tudo estava em revolução!
Os avanços na instrumentação microscópica não terão sido alheios à nova definição. A célula é a mesma para Schultze e para Hooke. Mas a tecnologia marca a diferença na capacidade de observação, e, portanto, no avanço do conhecimento da natureza celular.
Ainda hoje é assim. Aliás, é assim desde que a ciência se tornou moderna pela utilização de instrumentos nas observações. E isto ocorreu não pela observação do muito pequeno com a ajuda do microscópico, mas sim do muito longínquo com a ajuda do telescópio, a começar com a luneta de Galileu Galilei, no mês de Março de 1610.
António Piedade
Ciência na Imprensa Regional
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Astrónomos portugueses membros da Royal Society
Amanhã pelas 14h, dou uma palestra no Departamento de Física da Universidade de Coimbra, com o título de cima, no quadro do ciclo "Café com Ciência". Eis a sinopse:Um total de 25 cientistas e diplomatas portugueses foram, nos séculos XVII, XVIII e XIX, membros da Royal Society, a mais antiga sociedade científica do mundo em contínua actividade. Em 2010 comemorou-se em Coimbra com uma exposição na Biblioteca Joanina os 350 anos dessa sociedade e, em resultado, acaba de sair um livro bilingue publicado pela Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra intitulado "Membros Portugueses da Royal Society". É uma edição bilingue, em português e inglês, que mostra várias obras da Biblioteca Geral e do Arquivo para além de instrumentos das colecções do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. O período de maior brilho da presença portuguesa na Royal Society ocorreu no século XVIII. Há três cientistas desse século que deram contribuições para a astronomia: o padre jesuíta italiano João Baptista Carbone, que foi chamado a Portugal pelo rei D. João V, e os padres oratorianos João Chevalier, que, devido às perseguições do Marquês de Pombal, haveria de se estabelecer em Bruxelas, onde chegou a Presidente da Real Academia das Ciências Belga, e Teodoro de Almeida, que, também perseguido, se refugiou em Espanha e França, onde alcançou grande notoriedade. Teodoro de Almeida, observou no Porto em 1763 um trânsito de Vénus, uma observação importante para a determinação da distância da Terra ao Sol. Outro notável membro português da Royal Society que ajudou à astronomia com a construção de instrumentos foi João Jacinto Magalhães, um "estrangeirado" em Londres, que conviveu com alguns dos maiores cientistas do seu tempo. Muitas observações desses astrónomos foram publicadas, em latim ou inglês, na revista da Royal Society, as "Philosophical Transactions", uma publicação quase tão antiga como a sociedade.
A astronomia do século XVIII era uma astronomia de posição, que procurava medidas cada vez mais precisas, o que só era possível por ter ficado estabelecida no século XVII, no quadro da Royal Society, a mecânica de Newton e por se terem desenvolvido melhores instrumentos. Os cientistas portugueses passaram a integrar-se em colaborações internacionais, correspondendo-se com os seus colegas estrangeiros, numa premonição do que é hoje a moderna colaboração internacional na área da astronomia.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
"AOS OMBROS DE GIGANTES"

Na continuação de uma carta de um leitor do "Sol":
"Um outro tema de que gostaria de lhe falar relaciona-se com a frase atribuída a Newton. Eu sei que o desconhecimento da língua latina pode justificar esse erro. E não digo que este autor não tenha escrito como sua essa frase. Mas ela já tinha barbas quando Newton nasceu. Senão veja:
"Dicebat Bernardus Cartonensis nos esse quasi nanos, gigantium humeris incidentes, ut possimus plura eis et remotiora uidere, non utique proprii uisus acumine, aut eminentia corporis, sed quia in altum subuehimur et extollimur magnitudine gigantea." João de Salisbúria – Metalogicon, Liber Tertius, cap. IV
Eu traduzo: -"Dizia Bernardo de Chartre que nós somos como que anões montados em ombros de gigantes para podermos ver mais e ver mais longe do que eles, não pela penetração do próprio olhar ou pela estatura do corpo, mas porque somos erguidos ao alto e somos alçados pela grandeza de gigantes."
DD
Minha resposta:
"Sim, é bem conhecido e eu conheço que há uma frase parecida - não idêntica - de um monge medieval, Bernardo de Chartres, pelo menos a acreditar em João de Salisbúria. Os vitrais da catedral de Chartres mostram os evangelistas aos ombros dos profetas. Newton não citou Bernardo de Chartres, mas não se sabe se Newton conhecia a frase. O contexto em que Newton a usa tem sido muito discutido: era uma carta a Robert Hooke e poderia estar a referir-se, deselegantemente, à baixa estatura do seu rival. Newton não tinha bom feitio.
A tradução que eu conhecia (que me foi enviada amavelmente por um outro leitor) é:
«Somos como anões aos ombros de gigantes, pois podemos ver mais coisas do que eles e mais distantes, não devido à acuidade da nossa vista ou à altura do nosso corpo, mas porque somos mantidos e elevados pela estatura de gigantes.» Bernardo de Chartres, referido por João de Salisbúria, Metalogicon III, 4 (ed. Webb, Oxford 1929, p. 136, ls. 23-27).
De qualquer modo a história está cheia de grandes frases que foram ditas, de modo um pouco diferente, antes e isso não tira valor a quem as disse. Em muitos casos, acrescenta, pois é difícil ou impossível apontar o plágio e foram eles que tornaram as frases famosas. No caso, a afirmação tem um enorme poder metafórico. Lida no contexto geral da história das ciências, significa que Newton não podia ter visto o que viu sem que antes Galileu, Kepler, Descartes e outros não o tivessem precedido (ver o título "Aos Ombros de Gigantes" de um volume de textos fundamentais da física que foi publicado pela Texto Editores no Natal passado). A construção da ciência é uma pirâmide humana. Einstein subiu para os ombros de Newton e há lugar aos ombros de Einstein para mais alguém subir. Não é fácil subir tão alto, claro."
CF
Na imagem: vitrais da catedral de Chartres.
TEMPO PARA OS LEITORES: O MARQUÊS E OS BRASILEIROS

O facto de ter crónicas regulares em jornais nacionais, como o "Sol" e o "Público", faz com que receba mensagens, por vezes de concordância e outras vezes, como é normal, de discordância. Sobre uma crónica do "Sol" em que falei sobre a ciência em Portugal e no Brasil recebi uma carta de um leitor, que partilho aqui juntamente com a minha resposta por poder interessar mais leitores.
"Antes de mais, peço me releve a ousadia deste contacto. Faço-o porque sou leitor seu, interessado, e, se habitualmente aprendo consigo muita coisa, vezes há, raras, em que me afasto do seu ponto de vista. Senti vontade de o contactar ao ler uma das suas últimas crónicas (...) Manifestava duas linhas de raciocínio que, tenho de reconhecer, estão hoje muito na moda:
1 - Pombal, o grande renovador do saber em Portugal, o homem que livrou o nosso país da nuvem de ignorância em que os Jesuítas o mantinham mergulhado.
Não será preciso ir muito longe para se ver o infundado deste ponto de vista, basta ler a riquíssima publicação “A Aula da Esfera”. A culpa não é daqueles que honestamente repetem essa afirmação, mas daqueles que intencionalmente distorcem a verdade. No meu ponto de vista, Pombal e os estrangeirados são responsáveis, ainda hoje, pelo complexo de inferioridade em que andamos mergulhados.
2 – A presença de brasileiros na Universidade de Coimbra.
Como será possível chamar brasileiros àqueles portugueses que viviam e trabalhavam no Brasil, ou de lá vinham para estudar, antes da independência? Seriam angolanos os brancos que estavam e trabalhavam em Angola? Será possível dizer que o P.e António Vieira é brasileiro? Quem eram os brasileiros senão os indígenas? Haveria brancos no Brasil antes de os portugueses lá chegarem? Talvez pudéssemos falar de brasileiros como falamos de transmontanos ou alentejanos em Coimbra. Mas os brasileiros de hoje comportam-se como se Portugal os colonizasse, como se os colonizadores não fossem eles, os filhos dos portugueses que colonizaram o Brasil. Eu sei que o brasileiro de hoje ainda não superou o complexo de Édipo. Mas não devemos, assim penso, embarcar no politicamente correcto, só porque, de momento, estão na mó de cima. (...)"
DD
Minha resposta:
"Muito obrigado pela sua mensagem.
1. Sobre Pombal, não penso muito diferente daquilo que diz, embora não o acompanhe em considerar que ele seja responsável pelo nosso actual "sentimento de inferioridade". Não me reconheço na frase que escreveu sobre Pombal ter "livrado o país da nuvem de ignorância em que os Jesuítas o mantinham mergulhado". De facto, no meu livro, em co-autoria com Décio Martins, "Breve História da Ciência em Portugal" (Imprensa da Universidade de Coimbra e Gradiva), chamo a atenção para o papel dos jesuítas e para o manifesto exagero de alguma propaganda pombalina. Em Coimbra houve professores jesuítas antes de Pombal que ensinaram os autores modernos, mas várias tentativas de "aggiornamento" foram impedidas de um modo ou de outro, por vezes ao mais alto nível. Agora isso não significa que se diminua o papel de renovação que o Marquês teve na Universidade de Coimbra e no país. A Reforma Pombalina de 1772, descontada a propaganda anti-jesuítica, foi uma reforma moderna no seu tempo, que contribuiu sobremaneira para o progresso da Universidade portuguesa, na altura bastante isolada na Europa. Basta ir hoje ao Museu da Ciência da Universidade - sito no Laboratório Chimico pombalino - para se perceber o grande alcance do investimento. Como sabemos, foi num certo sentido sol de pouca dura, pois a seguir vieram as invasões francesas e a guerra civil. Também é certo que o Marquês não renovou sem paradoxos: por um lado mandou vir sábios de fora, principalmente italianos, e, por outro, perseguiu sábios que tiveram de sair, designadamente os jesuítas, mas também os oratorianos, que na época estavam mais avançados cientificamente.
2. Sobre os brasileiros em Coimbra, aqui a questão é de nomenclatura. Podemos chamar brasileiros às pessoas nascidas no Brasil, antes ou depois da independência. Assim como podemos chamar brasileiros a pessoas que nascidas noutros lados lá se aculturaram. O P.e António Vieira nasceu em Lisboa, mas foi para o Brasil com 10 anos e aí estudou. Eu chamo-lhe português, mas não me incomoda nada que os brasileiros o considerem um dos seus. Falando agora de angolanos, o escritor Luandino Vieira nasceu em Ourém, mas considera-se e não podemos deixar de o considerar angolano por lá ter vivido longos anos e lá se ter aculturado. Não havia brancos, como sabe, quando o Brasil foi descoberto, mas isso não significa que os brancos não possam hoje e desde há muito, tendo nascido lá outendo lá vivido tempo suficiente, considerar-se brasileiros. O importante na determinação na nacionalidade, depois de haver estados-nação, é a terra de nascimento e /ou a terra dos ascendentes. No entanto, sempre houve mudanças de nacionalidade relacionadas a mudança de domicílio. Einstein por exemplo nasceu na Alemanha, mas não quis ser alemão: adoptou primeiro a nacionalidade suíça, onde fez estudos superiores, e depois a nacionalidade norte-americana, acumulando-a com a suíça.
Voltando aos brasileiros, não o consigo acompanhar no pensamento que expõe sobre a neo-colonização de Portugal pelo Brasil: Portugal e Brasil são desde há muito dois países independentes, com laços cordiais de cooperação baseados na história e na língua comum. A independência do Brasil proclamada por D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal e depois da transferência da Casa Real Portuguesa para o Rio de Janeiro foi um evento sem paralelo na história mundial. Não devemos esquecer que o Rio foi, no início do século XIX, a capital do império português.
Espero que continue a ler as minhas crónicas no "Sol". Cordialmente,
CF
Na imagem: Paço Real primeiro e depois Imperial no centro da ciodade do Rio de Janeiro.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
PORTUGAL, O BRASIL E A CIÊNCIA

Minha crónica no jornal "Sol" de hoje (na imagem Gago Coutinho e Sacadura Cabral):
Hoje há muitos estudantes brasileiros na Universidade de Coimbra. Mas, no século XVIII, havia poucos. Foi, porém, um estudante brasileiro de Coimbra, Bartolomeu de Gusmão, que conseguiu a primeira ascensão mundial em balão, embora não tripulado, em 1709. No mesmo século, a Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra foi um verdadeiro terramoto intelectual, ao promover em Coimbra o ensino experimental das ciências. O Reitor-Reformador, D. Francisco de Lemos, nascido no Rio de Janeiro, contratou mestres estrangeiros e também grandes cientistas nacionais como, só para referir um, o matemático José Monteiro da Rocha, que estudou no Brasil num colégio jesuíta, e internacionais, como, só para referir um, o naturalista italiano Domenico Vandelli. Foi um discípulo de Vandelli, o químico brasileiro Vicente Seabra, que, na época, ensinou em Coimbra a nova química de Lavoisier. Outro discípulo de Vandelli, Alexandre Ferreira, empreendeu, ainda no século XVIII, a famosa Viagem Philosophica pela Amazónia, que hoje está ricamente documentada em escritos, imagens e objectos. Já no século XIX, um dos grandes cientistas de Coimbra foi o metalurgista brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva, cujo papel na independência no Brasil é por demais conhecido. Há quem lhe chame “patriarca da independência”. Após a independência do Brasil, será um filho de Vandelli, assistente e genro de José Bonifácio, Alexandre Vandelli, que vai ensinar ciências naturais ao jovem imperador D. Pedro II.
Menos conhecido é que, em 1925, quando Einstein visita o Brasil, tem a escutá-lo o almirante Gago Coutinho, que em 1922 tinha realizado a primeira travessia aérea do Atlântico Sul. O almirante, empedernido anti-relativista, haveria de se envolver em polémica com Mário Silva, professor de Coimbra. Também menos conhecido é que Egas Moniz, professor da Universidade de Lisboa e ex-professor de Coimbra, visita o Brasil em 1928, divulgando a sua recente técnica de angiografia cerebral. Foi, na altura, nomeado sócio de várias sociedades científicas brasileiras e, mais tarde, foi ajudado por médicos brasileiros no processo que culminou no Prémio Nobel da Medicina em 1949.
Todos estes factos foram relembrados no recente Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências, que juntou em Coimbra historiadores portugueses e brasileiros. A ciência e no tempo dos Descobrimentos, o ensino dos Jesuítas aquém e além-mar, as ciências no Iluminismo, o desenvolvimento científico nos séculos XIX e XX, foram alguns dos temas discutidos no encontro. Concluiu-se que a ciência em Portugal sempre se cruzou fecundamente com a ciência no Brasil. Hoje em dia, quando o Brasil é uma potência emergente, espera-se que esse cruzamento continue.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
“DARWIN AOS TIROS”
Recensão de João Lourenço Monteiro, efectuada no âmbito do projecto "Ciência na Imprensa Regional -Ciência Viva, sobre o mais recente livro de Carlos Fiolhais e David Marçal,"Darwin aos Tiros", editado pela Gradiva.
"Foi muito recentemente publicado o livro de divulgação científica “Darwin aos Tiros e outras Histórias de Ciência”, da autoria do professor de Física da Universidade de Coimbra Carlos Fiolhais e do Bioquímico David Marçal.
Se o leitor é um ávido curioso pela Ciência e pela História, então vai encontrar aqui o melhor dos dois mundos, desvendando os segredos da História de várias disciplinas como a Matemática, a Astronomia, a Física, a Química, a Geologia, a Biologia, a Medicina e ainda um alerta para as pseudociências. As pseudociências são crenças que se pretendem valorizar alegando basear-se em factos científicos, mas que na realidade não têm qualquer apoio por parte da ciência, sendo os exemplos mais conhecidos a astrologia ou a homeopatia.
Na apresentação do livro, que teve lugar em Lisboa, o editor Guilherme Valente relatava um telefonema que havia recebido do professor Fiolhais, em que o lente afirmara que estava a preparar um novo livro que seria um tiro; qual não foi o espanto do editor quando recebeu um esboço do livro intitulado “Darwin aos Tiros”. Afinal o professor de Física, a brincar, falava a sério.
Importa esclarecer a origem do título: Charles Darwin foi um importante cientista britânico do século XIX, que realizou uma circum-navegação ao globo na qual aproveitou para estudar várias espécies da fauna e flora mundiais. Como a viagem demorou cinco anos e a tripulação não levava mantimentos suficientes, era necessário capturar algumas das espécies que iam encontrando, para servirem de alimento. Nessas situações, Darwin demonstrou que não era apenas um cientista curioso e atento, mas também um exímio caçador. E mais não revelo, para não estragar o prazer da descoberta.
De salientar que a ciência relatada no livro também teve origem em Portugal, com cientistas do calibre de Pedro Nunes, Amato Lusitano, Diogo de Carvalho Sampayo, Garcia de Orta, sem esquecer, como recordam os autores, o importante papel que tem tido a Universidade de Coimbra, formando ou acolhendo muitos dos notáveis aqui mencionados.
Neste livro, a História das Ciências é contada aos leitores em jeito de breves estórias, e com uma certa dose de sentido de humor, o que tornará a leitura desta obra, creio, bastante agradável. Nestes dias frios e chuvosos, em que nos vemos forçados a permanecer grande parte do tempo na clausura do nosso lar, este livro promete ser uma companhia prazenteira. Boas leituras."
João Lourenço Monteiro
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Os primeiros estudos sobre Raios X e Radioactividade

Excerto do meu artigo, com António José Leonardo e Décio Martins, sobre a história da Física na Universidade de Coimbra de 1900 a 1960, que acaba de sair na "Gazeta de Física":
"A primeira década do século XX foi, no mundo, um período muito intenso na Física. As descobertas das décadas anteriores sobre a natureza da luz e a constituição da matéria não podiam deixar de ter impacto em Portugal.
A descoberta dos raios X em Dezembro de 1895 pelo físico alemão Wilhelm Conrad Röntgen desencadeou um interesse quase imediato nos professores do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra (UC), em particular em Henrique Teixeira Bastos (1861-1943). No período de cerca de um mês após a publicação do artigo seminal de Röntgen, iniciaram-se em Coimbra as primeiras experiências nessa nova área que seriam relatadas num artigo publicado n’O Instituto, a revista da sociedade científica e literária coimbrã com o mesmo nome (Instituto de Coimbra - IC) e na imprensa nacional, designadamente na primeira página d’O Século de 1 de Março de 1896, ilustrado com as primeiras fotografias de raios X obtidas em Portugal. A variável transparência apresentada a esses raios por várias substâncias e a capacidade deles sensibilizarem películas fotográficas permitia obter imagens fotográficas de corpos mais densos no interior de outros, designadas por “photographia através dos corpos opacos”. A investigação privilegiou logo a sua aplicação ao diagnóstico médico, que rapidamente foi concretizada nos Hospitais da UC. O jovem Egas Moniz (1874-1955), Prémio Nobel da Medicina em 1949, foi estudante de Teixeira Bastos, tendo colaborado nessas experiências pioneiras. A realização das primeiras experiências em Coimbra, poucas semanas após a descoberta da nova radiação, explica-se pelo notável desenvolvimento alcançado pelo Gabinete de Física no final do século XIX, graças à acção de António dos Santos Viegas (1835–1914), um professor que trabalhou na UC ao longo de mais de cinco décadas, tendo chegado a ser Reitor.
Nos anos seguintes, prosseguiram em Coimbra os estudos dos raios X, tendo esse sido o tema da dissertação inaugural para o acto de conclusões magnas (prova final de curso) do licenciado em Filosofia Natural Álvaro José da Silva Basto (1873–1924) Os raios cathódicos e os raios X de Röntgen. Nessa tese, submetida em Maio de 1897, Silva Basto abordou os estudos experimentais com descargas eléctricas e raios catódicos, descrevendo as propriedades ópticas dos raios X e os seus efeitos luminescente, fotográfico e eléctrico. Discutiu os modelos teóricos relativos a esta radiação, centrando-se depois nas suas técnicas de produção e aplicação. Referiu a conferência de Henri Becquerel na Academia das Ciências de Paris, em 10 de Maio desse ano (escassas semanas antes da conclusão da dissertação!), e apresentou um estudo comparativo entre os novos raios de Becquerel e de Röntgen.
Na sequência dos raios X, a radioactividade surgiu também como uma nova área de estudo em Portugal, tendo Alexandre Alberto de Sousa Pinto (1880-1982), formado nas Faculdades de Filosofia e Matemática da UC apresentado, no seu concurso ao magistério na Academia Politécnica do Porto em 1902, a tese intitulada Os raios de Becquerel, onde revelou a investigação muito completa que tinha feito sobre as novas radiações. É este provavelmente o primeiro trabalho científico em Portugal onde são referidos os resultados de Marie Curie, então muito recentes.
Na sequência deste estudo, João Emílio Raposo de Magalhães (1884-1961), estudante da Faculdade de Filosofia da UC, escolheu, em 1906, como tema de tese da sua licenciatura O Rádio e a Radioactividade, tendo o respectivo conteúdo sido publicado num extenso artigo saído n’O Instituto nesse mesmo ano. Infelizmente, tal estudo não saiu do quadro teórico, não tendo sido então possível criar uma investigação experimental nesta área, dada “a falta de um corpo radioactivo, que em virtude do seu elevadíssimo preço o gabinete de physica da Universidade ainda não adquiriu”.
O interesse pelas novas descobertas foi confirmado dois anos depois com a dissertação inaugural para o acto de conclusões magnas de Egas Ferreira Pinto Basto (1881-1937), intitulada Theoria dos Electrões. Em 1914, Francisco Martins de Sousa Nazareth (1889-?) realizou um estágio de curta duração no laboratório de Marie Curie. De regresso a Portugal, executou um dos primeiros trabalhos experimentais no nosso país sobre a detecção da radioactividade, tendo todo o equipamento sido montado no Laboratório de Física, com a excepção de um eléctrodo de quadrante. Este trabalho foi publicado na dissertação que o autor apresentou no concurso para 2.º assistente da Faculdade de Ciências da UC, em 1915, intitulada Ionização dos gases em vaso fechado. No ano seguinte, publicou um artigo n’O Instituto onde descreveu o funcionamento do electrómetro de folha de ouro. "
Figura: Radiografia da mão de um doente com tuberculose osteoarticular, realizada nos Hospitais da UC em 1896.























