e que já foi publicada em vários jornais regionais.
terça-feira, 1 de maio de 2012
Um século depois de Piltdown: lições da maior fraude paleoantropológica.
e que já foi publicada em vários jornais regionais.
sexta-feira, 30 de março de 2012
A culpa é da universidade.
No caso das Universidades, tenho observado que passam por momentos de maior tolerância à fraude a que se seguem momentos de menor tolerância. Parece-me que, felizmente, caminhamos para um momento destes.
Instituições prestigiadas, sem demonstrarem receio do impacto na opinião pública, contabilizam casos e tomam medidas correctivas; investigam e tomam medidas preventivas.
Isto a propósito duma notícia recente que, entre nós saiu no Público: Pál Schmitt, antigo campeão olímpico de esgrima doutorou-se há dez anos, em Educação Física, por uma universidade prestigiada da Hungria. Eleito Presidente desse país, vários olhos se terão direccionado para a sua vida e obra. Pelo menos um par deles viu aí uma grandessíssima nódoa: a tese que apresentou era, pelos vistos, plagiada de outros textos. Melhor: integralmente plagiada!
Reunida a entidade académica que investigou o assunto decidiu, por maioria, retirar-lhe o grau.
Mas, afirma essa entidade, nesta situação o plagiador é o menos culpado, pois a culpa máxima é da universidade que "cometeu erros profissionais por não ter descoberto a identidade desses textos a tempo, possivelmente dando a entender ao autor que a sua dissertação preenchia os requisitos”.
Uma decisão que, na minha modesta opinião, é muitíssimo acertada. O exemplo vem de cima, são as instituições que, em primeira instância, têm obrigação de defender o valor do conhecimento e de impedir, por todos os meios, que esse valor seja vilipendiado.
sábado, 3 de março de 2012
Quando em Oxford e Cambridge…

Foi-me enviado um artigo publicado ontem no DailyMail Online, onde a autora, Laura Clark, diz que em terras de Sua Majestade o número de estudantes de universidades prestigiadas que recorreu a fraudes para realizar trabalhos académicos aumentou nos últimos três anos.
O leque das fraudes reportadas é trivial: plágio, cábulas em papel e nos telemóveis, copiar por colegas, usar identidade falsa, “corta e colar” de documentos que estão na internet, compra de trabalhos. Em relação a este último tipo de fraude, e na mais básica lógica do mercado “da procura e da oferta”, têm aumentado as “empresas” (talvez sem aspas) que vendem todo o tipo de trabalhos. Por outro lado, empresas (inequivocamente sem aspas) aumentam os seus ganhos com software que detecta… o que pode ser detectado e que é muito pouco…
À parte estarem envolvidas universidades tão prestigiadas como Oxford e Cambridge, nada mais há que possamos estranhar. O que podemos estranhar são as sanções para aqueles que forem descobertos: anotações no currículo,multas em dinheiro, expulsão…Mas, se estas medidas podem ser importante para atalhar de imediato o problema, não são a solução, nem em Inglaterra, nem cá, nem em lado nenhum. A solução passa por a universidade voltar a ser... universidade.
domingo, 25 de setembro de 2011
As (muitas) fraudes em trabalhos académicos – 2
A jornalista aponta se não todas as vertentes do assunto, pelo menos as que estão mais directamente ligadas à cópia e ao plágio que (nisso parece haver um acordo) estão implantadas “de pedra e cal” nas instituições de ensino superior.
De “de pedra e cal” porque, ao conhecimento que essas instituições não podem deixar de ter do assunto, junta-se uma estranha inércia para o enfrentar de modo eficaz. Por outro lado, não se pode negligenciar o facto de estarmos a falar de práticas que beneficiam de larga aceitação social, fazendo nascer e consolidar-se à sua volta múltiplas empresas, devidamente identificadas, que a alimentam de modo (aparentemente) impune.
No referido artigo de investigação põe-se a tónica no facto de os estudantes cometerem fraudes mas os professores também, sendo acrescida, naturalmente, a responsabilidade destes últimos em tal matéria; no facto de os estudantes, mesmo que já estejam em mestrado e doutoramento, desconhecerem que devem identificar as fontes consultadas para realizarem os trabalhos e como o devem fazer; na falta de controlo por parte dos professores, que, desdobramos em múltiplos afazeres burocráticos, não conseguem, mesmo que queiram, dar a devida atenção aos trabalhos que, obrigatoriamente, têm de solicitar às suas muitas dezenas ou centenas de estudantes; na corrida a graus académicos de quem tem um genuíno interesse pelo saber e de quem tem a ideia de que, por ter pago as propinas tem direito ao grau, independentemente do que apresentar para o obter.
Para os leitores que se interessam por este assunto deixamos a ligação para a entrevista realizada no âmbito do trabalho jornalístico em causa, a Isabel Capeloa Gil, directora da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Lisboa: aqui.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
As (muitas) fraudes em trabalhos académicos - 1
Não era assim até há bem pouco tempo: os plagiadores faziam do seu acto grande segredo e creio que a consciência de alguns ganharia peso com o passar do tempo. Quem sabia, por ter escutado qualquer coisa em surdina à mesa do bar, olhava-os como pecadores para o resto da vida. Mesmo que ganhassem graus académicos perdiam em reputação. Alguns eram afastados discretamente, com um “convite” para desistirem das provas ou para deixarem lugar vago. A poucos se fazia passar a vergonha da divulgação pública. Nos casos que conheci, vi aliada a punição à complacência.
Porém, de um momento para o outro tudo parece ter mudado, e apenas falo da minha experiência na universidade, naquela a que pertenço e noutras que visito: passo pelos corredores e ouço um estudante dizer, muito naturalmente e em voz alta, qualquer coisa do género, “manda-me o trabalho que apresentaste em… para eu apresentar amanhã em…”; leio a parte de uma tese que se me afigura familiar e percebo que fui eu que a escrevi; passo os olhos por um ensaio e o que vejo é uma manta de retalhos sem qualquer sentido, com umas partes em português de Portugal e outras em português do Brasil, porque o seu “autor” nem se deu ao trabalho de o tratar e uniformizar.
E isto em licenciaturas, mestrados e… doutoramentos. Ou, na terminologia de Bolonha, no primeiro, segundo e terceiro ciclos. Falo de jovens, mas também de pessoas na meia idade; falo de quem nunca desempenhou nenhum cargo, mas também de quem desempenha cargos que implicam responsabilidade e honestidade.
Quando confronto os estudantes, sempre com evidências na mão, por mais diversos que sejam, duma coisa posso ter a certeza: porão um ar desentendido e terão dois tipos de reacção. Uma reacção é uma quase não reacção, do tipo “sim, e depois!?”, reconhecem, portanto, o que fizeram, mas não vêem onde está o problema; outra reacção é mais reacção e pode traduzir-se na negação, ou na afirmação repetida de não perceberem onde quero chegar, ou que não tiveram qualquer intenção de usar obra alheia, ou de nunca lhes terem explicado como se pode usar essa obra… ou, ainda, tudo isto.
Mais grave do que as reacções dos estudantes são as circunstâncias que têm permitido a sua expansão e consolidação. Parece que foi preciso a comunicação social dar atenção continuada às fraudes para que se começasse a estudar o assunto nas universidade. Mas daqui a fazerem algo de substancial para as reduzir pode falar pouco ou pode faltar muito tempo. Convinha que não faltasse muito porque é o prestígio dos graus académicos, já tão ameçados por outros factores, que está em causa.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Uma sociedade que desperta?
O caso do “copianço” geral numa disciplina do Centro de Estudos Judiciários tem aspectos interessantes. À primeira vista houve demasiada indignação, tendo em conta que copiar é uma façanha de que muitos alunos se orgulham. Os piores, em geral, mas não só. É o que se tem dito: temos uma cultura que convive bem com a fraude, o pequeno golpe e, como sabemos, a esperteza saloia é um dos nossos pontos fortes, porque é quase sempre premiada. Somos um organismo que transporta e alimenta germes patogénicos, mas tão habituais e actuando há tanto tempo que nem se dá por eles. É como as doenças crónicas que se vão mantendo estacionárias, com algumas crises, mas que logo voltam ao crónico.O facto de ser no Centro de Estudos Judiciários deu origem ao escândalo. Que o é de facto, mas que, no essencial, não é diferente das outras escolas, nem pior. Reparem que se têm verificado casos de plágio em provas de mestrado e até de doutoramento, e isso, que atesta a miséria moral e intelectual do candidato, e que devia implicar a sua irradiação, tem sido, num ou noutro caso, resolvido em surdina, para evitar o mau nome da instituição. O que é um erro grave, pois deviam imediatamente ser postos na praça pública esses casos, e condenados exemplarmente. Não o fazer é deixar que possa pairar sobre a instituição e sobre todos os seus membros uma desconfiança letal. E injustíssima.
Este caso, como se trata de futuros juízes, escandalizou muita gente. O que é bom sinal mas revela inocência porque os juízes, e por maioria de razão os aprendizes, não são pessoas diferentes das outras e beberam o leite de uma cultura que vive bem com a pequena fraude. É muito provável que alguns desses senhores tenham criado o hábito de copiar ao longo da sua escolaridade. A solução encontrada pelo Centro de Estudos Judiciários de dar 10 a todos é um disparate, porque é injusto e mancha a instituição. Se não é possível saber quem de facto copiou, e anular definitivamente as provas, deverão fazer novos testes e dispor as coisas para que ninguém copie. E arranjem data onde for preciso. Não ouvi falar dos professores vigilantes, mas a sua acção, nestas coisas, é determinante. A qualidade profissional de um professor implica também eficácia neste aspeto. Já se sabe que, se o professor não fizer uma boa vigilância, haverá sempre quem copie, e isso é não só injusto para os que não copiam, mas é um golpe na credibilidade da instituição e, a prazo, uma infinidade de golpes no corpo social.
Há, porém, algo novo neste caso. A sua repercussão na comunicação social parece querer dizer que está a surgir uma consciência colectiva mais exigente e atenta. Ter-se-á percebido que não podemos querer ultrapassar crises e crescer e ficar ao nível dos países evoluídos mantendo e alimentando todas estas pequenas facadas sociais, toda esta multidão de falcatruas e desleixos e impunidades em que somos peritos e que desculpamos uns aos outros?
Vamos ver como o Conselho Pedagógico do Centro de Estudos Judiciários resolve agora o problema. Se a sua solução for no sentido de anular as provas aos que de facto copiaram e não lhes dar mais hipóteses, ou, no caso de não haver maneira de apanhar os copiões, obrigar todos a nova prova rigorosa e justa, estamos a criar forças para uma recuperação social e cultural. O seu exemplo terá repercussões. Se prevalecer a solução do dez para todos, bons e maus, honestos e desonestos, então a doença nacional vai continuar e vamos vegetar de crise em crise, como até agora. Não podemos querer passos-coelhos e sócrates e cavacos de primeira com esta desleixada miséria moral por aí à solta e impune.
João Boavida
sábado, 18 de junho de 2011
Só depois do secundário e da universidade...
Dizia essa pessoa que seria importante perceber que os formandos do Centro de Estudos Judiciários são muito jovens, a maior parte acabada de sair da universidade e, antes disso, do secundário… Daqui e do restante discurso se inferiam duas coisas: que na universidade e no ensino secundário é normal e até aceitável copiar-se; e que só num patamar pós-universitário (mais precisamente, ao longo dele) é que esse (talvez pequeno) problema se vai limando. O tom era complacente, sorridente, até.
Ora, a honestidade intelectual é um princípio (sublinho, «princípio») a ensinar (sublinho, «ensinar») desde os primeiros passos de escolaridade. Não é aceitável no primeiro ciclo, nem no segundo ciclo, nem no terceiro ciclo, nem no secundário, nem na licenciatura, nem no mestrado, nem no doutoramento, nem na pós-graduação… Não é, pura e simplesmente, aceitável.
Assim, não posso deixar de concordar com o Prof, Sobrinho Simões que, a propósito do caso, disse, na rádio, que a nossa tolerância (ou tolerantismo) à fraude nas provas e trabalhos académicos constitui apenas um indicador, mais um, da nossa maneira de ser e de estar. Se assim é, nada há a fazer?, perguntou-lhe o entrevistador. Tudo a fazer, respondeu o entrevistado, misturarmo-nos com quem trabalha honestamente e seguir o seu exemplo.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Uma anedota e o copianço no CEJ
"É fundamental que o estudante adquira uma compreensão e uma percepção nítida dos valores" (Albert Einstein).Contra o meu costume, hoje serei breve, brevíssimo (dirá o leitor para com os seus botões: até que enfim!).
Sempre que tenho notícias ou exemplos de copianço em situação escolar, do ensino básico ao superior, ocorre-me à memória esta história:
Num liceu, agora crismado de escola secundária, aquando da entrega de um exercício escrito, teste como hoje se diz, um aluno cábula tem zero e o "urso" da turma 18. Dirige-se o cábula a pedir esclarecimentos (e não satisfações como agora é uso na escola “democrática”) ao professor. O diálogo entre ambos terá sido, mais ou menos, este:
“Senhor doutor, o meu colega teve 18 e eu zero quando o ponto tem as mesmas respostas certas.
Responde-lhe o professor:“Tiveste zero porque copiaste pelo teu colega”.
Resposta do aluno: “Essa acusação é grave. Gostaria que ma provasse” (hoje viria a ameaça de um processo judicial ao professor por difamação!).
Retorque-lhe o professor: “É simples. Na quinta resposta o teu colega escreveu: não sei. E tu: eu também não”.
Moral da história: Mudam-se os tempos, o nome às coisas mas o copianço continua “hirto e firme como uma barra de ferro”, sem copiar, apenas, transcrevendo (sic) a expressão de um hipnotizador num programa televisivo de há anos atrás.
P.S.: Confissão: também eu copiei a imagem deste post.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Uma “sanção psicológica”
Ouvi logo de manhã na rádio e… pensei não ter ouvido bem. Depois li nos jornais (por exemplo aqui ) uma vez, duas vezes… e não sei se compreendi. Vamos ver os factos, ou o que, como tal, se apresentam:1. No Centro de Estudo Judiciários, que, note-se bem, prepara os Magistrados deste país, descobriu-se que muitos formandos copiaram num teste.
2. Em virtude disso, foi decidido anular-se o teste.
Muito bem. Tratando-se de uma fraude, esta primeira medida parece razoável.
3. E o que se seguiu? Não, não se passou o que seria lógico; passou-se exactamente o contrário.
4. A Direcção decidiu, por unanimidade (sublinhe-se “por unanimidade”): exercer uma “sanção psicológica”, a qual se traduziu em (pasme-se) passar toda a gente… com dez valores!
5. Dez valores permitem passar à justa… Mas, permitem passar!
6. Como se percebe de 4. e 5. quem prevaricou teve dez valores e quem não prevaricou teve também dez valores.
7. As justificações da Direcção para tudo isto são admiráveis, todas de carácter burocrático ("timings existentes", "impossibilidade de recalendarizar o teste", etc, etc., etc).
8. A Associação Sindical dos Juízes, disse que o episódio era "escusado e lamentável".
9. Sim senhor… está certo
10. Mas, acrescentou que não é caso para descredibilizar a instituição.
11. Não é!? Se este não o é, não estou a ver bem o que a possa descredibilizar…
12. Nem o Centro de Estudos Judiciários nem a Associação Sindical dos Juízes tocaram em princípios éticos de honestidade e justiça, nem em questões legais, que também as há.
13. Ou terei sido eu que não estive devidamente atenta e não ouvi, nem li? Deve ter sido isso, pois duas entidades tão distintas não podem ter omitido tais reparos.
14. Acabo de ouvir na televisão o bastonário da Ordem dos Advogados a este propósito. Acalentei nova esperança de haver alguém a invocar a deontologia e a lei e apenas isso, pois é disso que se trata. Enganei-me.
15. Disse o senhor que, no Centro de Estudo Judiciários, o ensino está centrado na transmissão de conhecimentos, como acontece numa escola ou faculdade, tendo os formandos de reproduzir esses mesmos conhecimentos. Logo, é compreensível que recorram a este tipo de fraude, como se de legítima defesa se tratasse.
16. Certamente, não compreendi algo nesta (triste) história.
domingo, 17 de outubro de 2010
A Mente Moral
Marc Hauser é um cientista da cognição que se dedica ao estudo da cognição em primatas, procurando uma compreensão da evolução da mente. Foi também, até agora, uma das estrelas mais cintilantes da Universidade de Harvard por se ter dedicado a abordar conceitos como a evolução da moralidade. Publicou mais de 200 artigos em revistas de muito elevado impacto, como a Science e a Nature, e recebeu Young Investigator Award da National Science Foundation americana. Disse foi, porque Marc Hauser foi há pouco considerado culpado de falta de ética científica pela sua própria universidade. Uma comissão nomeada pelo Reitor da Universidade de Harvard, analisou e passou a pente fino a investigação de Hauser, durante três anos, analisando todos os trabalhos desde 2002 e chegou à conclusão de que Hauser violou os princípios da conduta científica em oito situações. Três correspondem a artigos publicados e as restantes cinco a material em submissão ou de relatórios internos. Um dos artigos publicados, na Cognition, foi retirado, outro foi corrigido e o terceiro, na Science, está em discussão com os editores.
Isto foi particularmente perturbador para mim que tinha Hauser em grande consideração. Era um dos grandes cientistas da cognição. Em 2003 mostrou (Proceedins of the Royal Society) que pequenos primatas tamarins, ou Saguis-de-cabeça-branca, eram capazes de ter uma atitude diferente para outros animais da mesma espécie consoante eles os tivessem ajudado antes ou não – tendiam a ajudar mais os que lhes tinham prestado ajuda antes –, levantando questões muitíssimo interessantes sobre a evolução de conceitos éticos. Este artigo não foi alvo de críticas.
Um breve parêntesis aqui:
[A ideia feita mais comum é a de que a ética será exclusivamente humana, porque apenas nós somos seres racionais capazes de ter ética. Além de que a ética seria um produto eminentemente cultural. Passemos de lado o atestado de estupidez a nós próprios ao considerar que somos os únicos animais racionais – como se os outros fossem autómatos sem pensamento (pensem nisso quando observarem o comportamento do vosso cão e já agora leiam o excelente ‘Livro da Consciência’ de Damásio). E se não for exclusiva? Se tiver bases mais profundas presentes em culturas de outros animais?]
Mas outros trabalhos foram considerados contendo erros intencionais que conduziram a conclusões incorrectas, de forma intencional.
O que apurou a investigação de facto? Que Hauser manipulou a informação em várias situações (oito), quer na codificação/interpretação dos comportamentos observados, quer no seu tratamento estatístico.
O que sucedeu? Numa das experiências para determinar se os saguis tinham respostas diferentes perante discurso humano normal ou manipulado, com o objectivo de saber se eram capazes de reconhecimento de padrões vocais, Hauser e o aluno que fez as experiências codificaram os comportamentos dos animais, a partir de vídeos gravados das experiências. Esta prática comum visa garantir que não há enviesamentos na observação do comportamento. É comum os investigadores guardarem as cassetes para posterior inspecção por outros, se solicitado. Desta vez os resultados de Hauser indicavam um efeito e os do aluno não. Este propôs que os vídeos fossem visionados por um terceiro observador independente, o que Hauser recusou. O aluno fez isso sem o seu conhecimento e os resultados entre os alunos foram idênticos. Quando abordaram o assunto no laboratório com outros alunos, ficaram a saber que esta não era a primeira vez que isso sucedia, o que os levou a denunciar a situação à Faculdade.
Hauser foi considerado o único responsável pelos enviesamentos de interpretação.
Hauser tinha a tendência para abordar assuntos difíceis e potencialmente polémicos: evolução da linguagem, evolução da moral. Esta é também uma forma de conseguir muita visibilidade. Mas a pressão para publicar resultados surpreendentes terá sido demasiada. Ou então ele convenceu-se de que estava certo. Mas os resultados ainda não concordavam com ele. E ele não tinha tempo a perder...
Recentemente Marc Hauser publicou Moral Minds: How Nature Designed Our Universal Sense of Right and Wrong. Eu, que adquiri o livro e o comecei a ler, estou agora num dilema moral: confiar ou não no pensamento dele? É caso para dizer que faltou a moral a quem tanto queria dissecá-la.
E agora? Bem, a dúvida alastra a todo o seu trabalho, apesar de apenas se terem encontrado falhas em alguns dos muitos trabalhos analisados e muitas das suas experiências terem sido replicadas por outros com resultados concordantes.
Entre os cientistas da cognição perpassa um arrepio com receio da má fama que Hauser possa trazer a uma área de estudo tão sólida e controlada experimentalmente como outras, mas mais susceptível por envolver comparações connosco.
Grandes cientistas da cognição como Gordon Gallup, ou Franz de Waal, estão furiosos com Hauser e não lhe perdoam a sua falha de conduta.
Para já a Universidade de Harvard concedeu-lhe uma licença sabática e estou convencido de será convidado a sair. Uma falha destas é demasiado grave para ser limpa por uma retractação pública.
Outros colegas estão a preparar-se para replicar algumas das suas experiências e confirmar ou não os resultados. E acho que é mesmo isso o que há a fazer.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
É natural…
Algumas empresas e pessoas particulares fazem publicidade na internet, outras têm um contacto mais discreto. Há “produtos” de toda a espécie e feitio, prontos ou por encomenda. Uns são mais caros – as dissertações de final de licenciatura, mestrado e doutoramento -, outros mais baratos – relatórios e tarefas avulsas para as unidades curriculares.
Os estudantes que quiserem e tiverem como pagar, escusam, pois, de perder o seu precioso tempo em consultas bibliográficas aborrecidas, em pesquisas de campo fastidiosas, na redacção de um texto que teima em não sair inteligível à primeira…
Ora, se o negócio tem dado tão bons resultados neste nível de ensino, porque não estendê-lo a outros níveis, onde a procura é tão grande ou maior? Afinal, os negócios têm de estar abertos a novas oportunidades…
E... foi exactamente nas Novas Oportunidades, que muitos viram... novas oportunidades! Mais: viram isso logo que elas surgiram.Sem sequer procurar, soube logo na altura que tinha emergido uma nova profissão: os Fazedores de Portfólios Reflexivos de Aprendizagem. Sim, eu sei, também há os amigos que "apoiam" a composição deste "instrumento-acima-de-qualquer-suspeita", sem cobrarem nada, apenas para ajudar a obter um diplomazinho… coisa de nada…
Esta conversa vem a propósito duma notícia publicada no jornal i, de hoje. Apurou a jornalista Filipa Matins que se desembolsam 400 euros (que antes eram 500, mas a crise...) e o certificado do 12.º ano é garantido.
Eu diria que é um preço razoável! Até porque é reembolsável: a seguir vende-se a outra pessoa que precise dele. Com um bocado de sorte, vende-se a mais do que uma… Havendo tantas centenas de Centros Novas Oportunidades, um fica aqui, outro ali… e ninguém detecta!
Mas, o mais interessante na notícia do jornal são as declarações do presidente da Agência Nacional para a Qualificação, Luís Capucha, que confirma... "a situação". Diz o referido senhor (os sublinhados são meus):
"É natural que haja parte desses portefólios - que têm centenas de páginas - que seja transcrita da internet." "Porém", adianta, "as pessoas devem ser encorajadas a trabalhar essa informação em vez de a transcreverem", acrescentando que "não compete à ANQ fazer qualquer avaliação do trabalho dos centros". "Uma avaliação implica um juízo, ora o que encontra nos documentos são orientações técnicas", conclui.
Porém, o universo é suficientemente vasto para ter justificado o envio da nota de orientação aos Centros Novas Oportunidades. Nesta é manifestada a necessidade de "reforçar que a inclusão de textos retirados da internet não configura, de forma alguma, uma prática regular, que seja demonstrativa de competências que os candidatos detêm". "Quando muito", lê-se ainda, "esta prática evidencia a capacidade do candidato pesquisar informação".Filipa Matins, Jornal i de 19 de Agosto de 2010
sábado, 23 de janeiro de 2010
Originais e sucedâneos
No dia 31 de Dezembro publicámos o poema “Receita de ano novo” de Carlos Drummond de Andrade, numa escolha de Paulo Rato, um confesso amante da poesia. No espaço dos comentários, uma leitora reproduziu partes de um texto atribuído a Drummond de Andrade. Não reconhecendo esse texto, Paulo Rato procurou-o na Internet, do que resultou a resposta que deu à nossa leitora, na qual alertava para a falsidade da atribuição.
Tendo ficado a pensar no assunto, que não é de menor importância, sugeriu-nos que no De Rerum Natura se sensibilizassem autores e frequentadores de blogues para os surpreendentes “ataques à boa saúde da poesia”.
Assim, decidimos reproduzir a referida resposta para que mais leitores possam ter acesso ao seu conteúdo. Decidimos também tratar oportunamente este assunto de modo mais aprofundado.
"Vera
As versões que consultei, poucas (que não tive pachorra para mais), mas ainda assim com discrepâncias entre elas, confirmaram o que já suspeitava: como muitos outros textos que infestam a rede, falsamente associados a grandes poetas, as ditas cujas não têm (nem de longe!) qualidade que justifique atribuí-las ao imenso Carlos Drummond. Nem mesmo com o "título original", igualmente apócrifo, de "Reverência ao destino".
Já denunciei publicamente vários desses embustes, nomeadamente um escrito completamente parvo, que por aí pulula, imputado a Fernando Pessoa (completamente inocente), e que veio a ser escarrapachado no Público pela jornalista Laurinda Alves, sob o título A coragem de Pessoa, o que me fez perder a paciência, tal como a outros leitores, que comunicaram o desacato ao Provedor do Jornal.
O artigo publicado, citando vários dos queixosos e com a intervenção da própria Casa Fernando Pessoa, deixava tudo muito clarinho, mas... foi inútil: ainda há poucos dias me "re-fordwardaram" o detrito.
De resto, como costumo recomendar a propósito destas vigarices, desconfie desse tão propalado instrumento de "democratização da intervenção do cidadão", onde seja quem for despeja seja o que for, sem sequer alertar, como outrora - "Água vai!"
Viva a Internet! viva! - sim, mas abordada cautelosamente, com armadura crítica sólida e bem temperada. Com a preocupação de distinguir os blogues de qualidade (como este e alguns - não muitos! - outros) e os sites de instituições credíveis e com prestígio a defender, do burburinho ininteligível e dúbio da multidão.
E sem esquecer um bom elmo, que nunca sabe o que lá vem...
Cordialmente,
Paulo Rato
domingo, 12 de abril de 2009
Charlatanices e SIDA: uma história de horror

Li muito recentemente o livro de Ben Goldacre, o médico que mantém semanalmente uma coluna no Guardian intitulada Bad Science e que se devota a desmontar charlatanices sortidas em particular «medicinas alternativas» como homeopatetices e afins.
O livro é uma leitura especialmente recomendada mas, na edição que comprei, deixa em suspenso qualquer coisa negra que impediria a inclusão de mais material. Há uns dias, Goldacre publicou no seu blog o capítulo em falta, que pede seja amplamente divulgado. No prólogo ao The Doctor Will Sue You Now, o autor explica que esta história de horror, que justifica porque é necessário denunciar todos estes charlatães alternativos, só agora pode ser publicada: Matthias Rath, o muito bem sucedido vendedor de banha da cobra em questão, processava Goldacre e o Guardian quando o livro foi publicado.
E esta história de horror, em boa parte responsável pelas dimensões que a epidemia de SIDA atingiu na África do Sul, deve ser amplamente divulgada. Sobretudo, dever-nos-ia fazer reflectir sobre aquilo que temos insistido no De Rerum Natura e resumi no Charlatanices e banhas da cobra: activação de ADN: o ressurgimento destes obscurantismos é uma manifestação de que algo está profundamente errado na nossa sociedade mas para além de sintoma é igualmente uma causa do que está errado. Vivemos tempos em que este tipo de patetices, aparentemente inócuas, na realidade são uma espiral descendente que se não for travada pode ter consequências desastrosas. O pior perigo destas charlatanices é o facto de que «envenenam» a mente, isto é, pretendem passar anti-ciência por ciência e apelam a que as pessoas deixem de pensar. São perigosas porque afirmam que o pensamento mágico é mais importante que o trabalho, a verdade, a razão e o respeito pelas evidências. E a razão e o respeito pelas evidências são a fonte do progresso da Humanidade - e a nossa salvaguarda contra todos os que lucram pela deturpação da verdade.
Assim, como escreve Goldacre, a sua história de horror não é sobre Matthias Rath ou sobre os restantes protagonistas nem mesmo sobre a catástofre que se abate sobre a Áfirca do Sul. «It is about the culture of how ideas work, and how that can break down. Doctors criticise other doctors, academics criticise academics, politicians criticise politicians: that’s normal and healthy, it’s how ideas improve. Matthias Rath is an alternative therapist, made in Europe. He is every bit the same as the British operators that we have seen in this book. He is from their world.».
De facto, a carreira de charlatão de Rath teve um início «auspicioso» na Europa, pretendendo que os medicamentos utilizados em quimioterapia eram completamente ineficazes, verdadeiros venenos que matavam os pacientes. Segundo ele, milhões de vidas poderiam ser salvas se os doentes de cancro deixassem de ser tratados com a «medicina convencional» e passassem a ser prescritos as suas tretas alternativas. A resposta europeia a estes absurdos foi, na ausência de regulamentação conveniente, necessariamente fraca: apenas um tribunal de Berlim ordenou Rath a parar a publicidade que afirmava que as suas pílulas curavam o cancro - ou então pagar uma multa de 250 000 libras.
Mas se os estragos que este charlatão fez na Europa (e Estados Unidos) nos deveriam preocupar, o que promoveu na África do Sul, onde chegou sob a presidência de Thabo Mbeki, é estarrecedor, demasiado estarrecedor para descrever e recomendo vivamente a leitura do capítulo de Goldacre para perceberem porquê. Basta dizer que a campanha genocida teve início com grandes parangonas nos jornais sul-africanos denunciando uma conspiração das grandes farmacêuticas para matar africanos que vendiam venenos mortais sob o disfarce de anti-virais. «Stop AIDS Genocide by the Drugs Cartel. Why should South Africans continue to be poisoned with AZT?» foi um dos «grandes» títulos utilizados.
Goldacre conclui o capítulo afirmando «The alternative therapy movement as a whole has demonstrated itself to be so dangerously, systemically incapable of critical self-appraisal that it cannot step up even in a case like that of Rath: in that count I include tens of thousands of practitioners, writers, administrators and more. This is how ideas go badly wrong. In the conclusion to this book, written before I was able to include this chapter, I will argue that the biggest dangers posed by the material we have covered are cultural and intellectual.»
De facto, por muito inócua que seja, por exemplo, a água que os homeopatetas vendem como medicamentos ou o lava pés pomposamente designado «hidrolinfa» (e os charlatães que os vendem em Portugal queixaram-se por mail da minha «estreiteza» de espírito), os seus grandes perigos são culturais e intelectuais. O espaço cada vez maior oferecido pelos meios de comunicação a explicações pseudo-científicas e místicas indica que o envenenamento da mente e a contaminação cultural são também cada vez maiores. Joe Kaplinsky pôs o dedo na ferida sobre as causas, «quando o criacionismo [ou as patetadas «alternativas»] pode vestir-se de 'pensamento crítico' deveria ser evidente de que não é apenas com os fundamentalistas cristãos que precisamos preocupar-nos - é com todo um sistema educacional imbecilizante!»
A cura continua a preconizada no manifesto de Sagan contra as pseudociências. Urge cada vez mais reacender as velas de Sagan e estimular o pensamento crítico mas urge especialmente olhar para o que se passa no nosso ensino que asfixia esse pensamento crítico!
quinta-feira, 26 de março de 2009
Doutoramentos na hora
Depois de ter percebido ser trivial fazerem-se mestrados e doutoramentos em matérias duvidosas (quero dizer, do meu ponto de vista, duvidosas), de ter percebido que, sem qualquer pudor, se anuncia a “fabricação” dos mais diversos trabalhos académicos, de ter percebido que, para não dar muito nas vistas, se vão fazer teses, digamos, mais leves e em tempo record, numas certas universidades espanholas (mas não só...), confesso que, ainda assim, me surpreendi pelo facto de tudo isto poder ser feito na hora, conforme ironizou David Marçal em texto aqui publicado.
Na hora, é como quem diz, em meia dúzia de dias ou um pouco mais… Tempo aceitável, diria eu ironizando também, para estabelecer contactos, escolher com calma o tema (presumo que haja catálogo…) e receber tudo devidamente organizado e acomodado em casa…
Se o caro leitor desconfia do que digo, leia, por favor, o anúncio que abaixo reproduzo, acabado de chegar à minha caixa de correio electrónico.
PS. Por razões óbvias, cortei o número de telefone, mas é tão fácil chegar a anúncios deste género…
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Não faça, compre!
Chegam-me à caixa de correio anúncios cada vez mais descarados de pessoas e empresas especializadas na fabricação de trabalhos e teses de mestrado e doutoramento, bem como de artigos científicos com garantia de publicação nas “tais revistas”. Tudo com preços devidamente discriminados por grau académico, tema, número de páginas, etc. A coisa é feita às claras e ninguém sai enganado: quem vende, sabe o que vende; quem compra, sabe o que compra. As academias não podem, portanto, ignorar o “negócio paralelo”.Desta e doutras situações pouco edificantes, nada novas, mas, pelos vistos, em franca expansão nos tempos que correm, já Carlos Fiolhais e Elvira Calapez, deram conta no De Rerum Natura. Não deixe, no entanto, o leitor de se deliciar com o artigo que Carla Aguiar publicou nesta semana, com base numa investigação muito completa que fez da realidade portuguesa.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
In Rust we Trust

Um dos nossos leitores enviou-nos um mail sobre algo que suspeitava (com imensa razão) ser uma charlatanice e que consiste numa coisa que dá pelo pomposo nome «hidrolinfa».
Esta tal hidrolinfa (nunca percebi o fascínio pela água de tanto charlatão...) não passa de uma versão lusa dos Aqua Detox que infestam qual praga o mundo em geral, os países anglo-saxónicos em particular. Em Portugal, são construídas e comercializadas por algo com o nome pomposo MENP - Fabrico de Máquina de Saúde e Ecologia que faz parte d'«O Departamento de Desenvolvimento Tecnológico e Científico (T.S.D. - Technological & Scientific Development), que trabalha em exclusivo para a UPN - Universidade Profissional do Norte».
A abusivamente auto-denominada Universidade, ministra «cursos» numa gama abrangente de banhas da cobra, de homeopatetices a naturopatetices, exibindo ainda uma «pós-graduação» em ...hipnose! Não sei se a naturopateta que «tratou» um conhecido meu se «formou» nesta coisa, mas certamente adquiriu o seu instrumento principal de trabalho às empresas associadas De facto, a mulher desse conhecido, mais céptica, inquiriu-me sobre os «tratamentos» que me descreveu, incluindo na descrição a maquineta, que descobri agora ser se não a tal «hidrolinfa» uma congénere, e os resultados de uma detoxificação pelos pés como a ilustrada.
Na altura disse á pessoa que me inquiriu, só pela descrição, que não é preciso saber muita química, apenas olhar para a água ferrugenta que sai volta e meia dos canos, para perceber o que aconteceu. De facto, os charlatães extorquem dinheiro aos mais incautos com um vulgar banho de pés complementado com eléctrodos que quando ligados à corrente e na presença dos sais com que é temperada a água se corroem. A cor dos sais de ferro que se formam depende do cocktail adicionado à água (é simples ferrugem com água da torneira) e do pH da mesma e não tem nem remotamente nada a ver com a saída de toxinas pelos poros dos pés (!).Aliás, não percebo muito bem o que sejam as toxinas que entraram no léxico de todos os charlatães das medicinas alternativas mas todas as substâncias tóxicas que produzimos são incolores, nomeadamente «o Colesterol, Triglicerídios, Ureia, Glicose (nunca me passou pela cabeça que um açúcar fosse considerado uma toxina), Creatinina e Ácido Úrico» que os vendedores de banha da cobra afirmam peremptoriamente que «A terapia HidroLinfa, ao coincidir nos poros existentes na planta dos pés, exercita a diminuição imediata comprovada». Na realidade, estas «toxinas» são excretadas naturalmente na urina e na transpiração.
Embora já soubesse da existência da coisa não tinha ideia da sua dimensão e assim agradeço as informações gentilmente transmitidas pelo nosso leitor que me permitiram ler incrédula o monte de dislates químicos com que os charlatães da UPN enganam os mais incautos e que podem ser apreciados em todo o seu esplendor na página em que publicitam a coisa.
Estes são tantos e tão variados, aliás, não há quasi uma linha do longo texto que não seja um disparate químico, que não sei qual me escandalizou mais. Não sei se a afirmação extraordinária de que «toxinas e venenos são incompletos, falta-lhes um electrão negativo» - o que é um total disparate, e não estou a referir-me ao pleonasmo electrão negativo -, ou se as efabulações sobre o hidrogénio, em particular sobre o hidreto (H-), supostamente formado no «Tratamento HidroLinfa, rico em iões negativos, aumenta o número de electrões de carga negativa no organismo humano, aumentando assim os iões negativos que transformam o hidrogénio em (H-)», uma barbaridade total. Assim como é uma barbaridade total dizer que «O oxigénio não actua sem o hidrogénio, a fusão destes dois elementos, transforma-se em energia», um delírio quasi tão idiota como as considerações sobre o ATP ou sobre o equilíbrio de pH fisiológico que o aparelhómetro supostamente mantém.
Sobre este último, é importante esclarecer que nós somos quimicamente muito bem regulados, nomeadamente a nível de pH que é mantido numa gama muito estreita de valores por uma série de tampões biológicos como sejam o que envolve bicarbonato (e o dióxido de carbono), o fosfato e várias proteínas (ficheiro em formato pdf que explica a regulação fisiológica do pH). Mas essencialmente importa esclarecer e sobretudo regular as ditas «terapias naturais» e acabar de uma vez por todas com fraudes magnéticas, quânticas, homeopatetas e afins. Como concluiu o professor Edzard Ernst após ter recuperado da estase em que esteve mergulhado e que o levou a leccionar banhas da cobra sortidas, «A maioria das terapias alternativas são clinicamente ineficientes e muitas são totalmente perigosas».
sábado, 8 de novembro de 2008
As Mafias Psíquicas
Em 1976, foi publicada «A Mafia Psíquica», a autobiografia de M. Lamar Keene contada por Allen Spraggett que detalha estes e outros truques usados por auto-intitulados «psíquicos» para enganar os mais incautos.
M. Lamar Keene foi durante anos mais um médium bem sucedido no Campo Chesterfield, uma igreja espiritualista fundada no Indiana em 1886, quando estas fraudes estavam muito na moda, e que hoje em dia é um «retiro» espírita onde dúzias de charlatães continuam a usar os truques que Keene descreve no livro.
«Fosse a minha trombeta flutuante inexplicável, através da qual os comunicadores de espírito falaram com as suas famílias e amigos ainda aqui na terra; as minhas formas resplandecentes de espírito, que só não falaram aos vivos mas que os tocaram, mesmo abraçando-os; a minha clarividência perturbadoramente exacta, que provou que o espírito acompanhava o quotidiano dos seus entes queridos, cientes das coisas mais triviais em suas vidas - foram estes fenómenos psíquicos misteriosos que mantiveram as pessoas vindo e, mais importante, o dinheiro fluindo [página 90, edição de 1977].
Mas parece que a exposição de Keene (e de muitos outros) não foram suficientes para que as pessoas vissem estas práticas por aquilo que são: charlatanices destinadas a encher os bolsos de quem delas faz o seu modo de vida. O Campo Chesterfield continua a vender as suas fraudes e, se o que a Wired nos indica hoje para os seus sucedâneos online se pode extrapolar para gaze e osso, provavelmente assiste a um boom de clientela.
De facto, em tempos de crise assiste-se a um florescer de todas as formas de charlatanice. As angústias e receios suscitadas por um futuro pouco auspicioso levam muitos a procurar charlatães sortidos. Gita Johar, Meyer Feldberg Professor of Business na Columbia Business School, é uma perita em psicologia do consumidor que explica o que está a acontecer:
«Se o futuro é incerto, as pessoas viram-se para psíquicos. Os consumidores têm tendência a virar-se para o sobrenatural quando confrontados pelo stress combinado com incerteza. Ficam então com a ilusão de que podem controlar o que vai acontecer. As pessoas querem a ilusão do controle.»
Não sei se podemos assacar as culpas apenas a este desejo da ilusão e se não devemos procurar outros culpados por este estado de coisas, que não se restringe aos EUA. As charlatanices e banhas da cobra que proliferam anacronicamente nos nossos tempos, nunca é demais repetir, são uma manifestação de que algo está profundamente errado na nossa sociedade mas para além de sintoma são igualmente uma causa do que está errado. E se a sintomatologia se agudizou nos últimos tempos esse é um sinal claro de que o mesmo aconteceu ao problema original. Não creio que a maioria das pessoas almejem viver em ilusão, o problema foi bem abordado pelo Desidério no «Ciência e excepção». O ensino que temos não equipa as pessoas com conhecimentos e hábitos de pensamento que lhes permitam distinguir ciência de pseudo-ciência, não as preparam para distinguir medicina de tretas como as homeopatetices, hados, curas quânticas sortidas e demais fraudes.
Ao longo destes quase 2000 posts (e um milhão de visitas) temos repetido que é necessário apostar num melhor ensino, «ensinar melhor ciência, melhor filosofia e melhor história. Ensinar a discutir ideias e ensinar o valor de procurar refutar ideias». Infelizmente, a experiência com os alunos que nos chegam à faculdade permite-nos constatar que isso não está a acontecer. Não sei como poderemos reverter o descalabro a que temos assistido nos dois últimos anos, quando começámos a receber os alunos da última reforma que pelos resultados nos parece uma ilusão de ensino. Mas é necessário fazê-lo urgentemente se não queremos comprometer o futuro.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Charlatanices e banhas da cobra: activação de ADN
O ADN é uma molécula polimérica que foi alvo de inúmeros posts no De Rerum Natura, quer do ponto de vista químico quer biológico. Os nossos leitores sabem que, de acordo com a sua funcionalidade, o ADN pode ser dividido em ADN codificante e não codificante. O ADN dito codificante é responsável pela síntese das proteínas que constituem todos os seres. O processo resume-se, basicamente, na transformação da linguagem codificada do ADN (sequência de nucleótidos) para a linguagem das proteínas (sequência de aminoácidos).
As regiões não codificantes do ADN, muitas vezes designadas «junk DNA», são segmentos que não codificam proteínas mas que podem ser muito importantes, por exemplo na regulação de genes, nomeadamente em eucariotas ou eucariontes. Por outro lado, existem nos vertebrados algumas zonas de ADN não codificante ultra-conservadas nos vertebrados (isto é, idênticas ou praticamente idênticas em muitas espécies) que parecem estar associadas à evolução e desenvolvimento dos vertebrados enquanto outras zonas podem ter tido um papel muito importante na evolução do Homem.
Assim, a designação «junk», que se pode traduzir como «lixo», é errónea. Como a maioria da população não segue a literatura científica, uma quantidade assustadora de charlatães dedica-se à tarefa de enriquecer à custa da ignorância alheia com dislates absolutamente arrepiantes que misturam patetadas New Age com uma linguagem pseudo-científica para enganar os mais incautos.
Um destes charlatães em concreto vende sessões de «activação» do junk DNA pela quantia «simbólica» de 100 dólares a sessão - com o aviso de que são necessárias pelo menos 4 sessões para atingir a perfeição perdida com a «queda», isto é, a «Original Divine Blueprint, o que o Homem já foi». O vendedor de banha da cobra refere ainda que Cristo, supostamente, teria em vez de uma dupla hélice uma dodeca hélice em que as 10 hélices extras seriam «etéreas», o que quer que ele pretenda com este disparate.
Mais concretamente podemos ler na sua publicidade enganosa que:
«A maioria das pessoas sabe que o ADN é o 'blueprint' da vida e está localizado em cada célula do corpo. Em adição à dupla hélice do ADN de cada cromossoma, existem 10 cadeias etéreas acessíves a cada ser humano, que estão no limbo desde o início da História.
Cada cadeia adicional permite ao indíviduo fazer maiores feitos humanos. Os cientistas reconhecem que actualmente apenas usamos 3% das nossas actuais duas cadeias de ADN. Assim, vivemos numa sociedade em que as pessoas estão doentes, infelizes, stressadas, fazem guerras, têm dificuldade em experienciar amor e estão totalmente desligadas do Universo. Muitas pessoas têm de meditar por muitos anos apenas para terem a chamada «experiência mística», tal é a desconexão que temos. Imagine o que é activar 100% do seu ADN das duas cadeias, MAIS 10 cadeias adicionais. Passará de usar 10% do seu cérebro [na realidade, 100% da massa encefálica trabalha vigorosamente] a um ser multidimensional com capacidades psiquicas, telepáticas e de manifestação (?) para lá de tudo o que sonhou. Mais, parará o seu processo de envelhecimento e começará de facto a rejuvenescer e a parecer e sentir-se MAIS NOVO».
Embora no meio de tanto disparate seja apenas um detalhe, é completamente falso o que realçei com negrito, isto é, que os cientistas reconheçam que só «usamos» 3% do ADN; os cientistas apenas reconhecem que há uma parte do nosso ADN de que não sabemos ainda a função embora os últimos tempos tenham sido férteis em descobertas excitantes sobre o papel do ADN não codificante.
A quantidade de tolices que o senhor debita por parágrafo suplanta até a necedade (ignorância ou estupidez crassa) da homeopateta que dissertou sobre «vibrações» youeeisticas. E não me refiro apenas à banha da cobra propriamente dita, a tal «bioregenesis» que supostamente «ordena» o junk ADN no «Angelic Human DNA Template», o Diamond Sun DNA Template, com as tais dodeca hélices, «que permitem 12 níveis de consciência e são construídas para transmutação de carbono em silício e eventualmente em luz líquida (?) pré-matéria».
A justificação de porque é tão urgente encher a conta bancária do aldrabão, que cura «telepaticamente», isto é, via internet, é impossível de adjectivar, como os nossos leitores podem apreciar neste pequeno excerto:
«Nós estamos no meio de um ciclo de ascensão, que é literalmente um «time continuum shift» [que não traduzo porque nem sequer imagino o que seja um «desvio do contínuo do tempo», será uma descontinuidade temporal?]. Até 2012, o planeta vai atravessar este «time continuum shift», o que só acontece uma vez em cada 25 556 anos (o chamado ciclo Euiago [para saber o que é mais este dislate New Age, os leitores podem divertir-se nesta página, nestoutra absolutamente delirante que afirma ser o nosso ADN um womhole ou consultar a página de um alucinado que elabora sobre a imbecilidade em que assenta esta tal ascensão).
O que está a acontecer é que as partículas que fazem o campo áurico (?) da Terra estão a acelerar num ritmo pulsante na preparação para este desvio da 3ª dimensão para a 4ª dimensão. Como as partículas que fazem o campo áurico da Terra estão a acelerar num ritmo pulsante e nós fazemos parte do campo áurico da Terra, as partículas que fazem parte do NOSSO campo áurico também têm de acelerar. Isto está a acontecer agora e até 2012. Isto significa que nós temos de ter pelo menos 4 cadeias de ADN activas se queremos dar o salto para a 4ª dimensão.
E isto é o porquê de a activação do ADN ser tão importante agora. Se tem bloqueios energéticos, - anexos áuricos, impressões kármicas,distorções de ADN ou selos energéticos não naturais - então não consegue acelerar as partículas e atingir as frequências necessárias para dar este «time continuum shift». E as frequências mais altas que chegam ao seu campo vão acelerar os processos de deterioração do corpo e muitos resultam em problemas físicos e desconforto. Muitas pessoas já notam estes sintomas e esta é a razão.»
Mas as coisas absurdas que este senhor debita a uma velocidade alucinante são perpetuadas em inúmeras outras páginas, uma pesquisa com «12 strand DNA» devolve cerca de 722 000 entradas e outra com «junk dna activation» quase um milhão de páginas, na sua maioria de outros charlatães que vendem sessões sortidas de «activação» de até 22 cadeias (!) de ADN, todas elas tão repletas de inanidades New Age como estes excertos.
Também no Brasil intrujões sortidos, por exemplo, Joysia, Engenheiro Chefe Geneticista a serviço do Conselho Nibiruano da Federação Galáctica, afirmam serem capazes de Recodificar, Reconectar e Activar o ADN dos que estejam dispostos a contribuir para a manutenção da conta bancária dos charlatães.
Achei especialmente divertido o site da Fraternidade Virtual Eu Sou Luz que pretende que a «activação do DNA subtil (Espiritual, Verdadeiro)» é possível com uma água «energizada», agora não com luz mas num processo de rezas em tudo análogo às tretas Hado do senhor Masaru Emoto, o doutor em medicina alternativa por uma obscura pseudo-universidade de banha da cobra em Calcutá que inspirou recentemente em Coimbra sessões de aspersão com água mágica.
Para os que pensam que estas patetadas são idiossincrasias de outras paragens, informo que nos dias 17 e 18 de Maio 2008 o Centro Terra Cristal Lisboa organizou um «workshop» para que convidou «seres da luz». Estes tais seres luminosos «proporcionam um trabalho profundo do coração actuando no DNA espiritual e efectuando a conexão e activação de várias fitas de DNA» aos incautos que desembolsaram a módica quantia de 170 euros (alojamento àparte) pela banha da cobra.
Tal como o Carlos, cito estes disparates «para que não se pense que estas coisas são "americanices" dos anos 80». Em relação à «activação» do ADN «etéreo» não há a publicidade massiva que mereceu a água «mágica» ou a venda de banha da cobra que vai acontecer já na próxima quarta-feira no Pavilhão Atlântico (e que me queriam impingir ontem no supermercado juntamente com o talão das compras). Todas estas coisas acontecem aqui e agora e não passam de fraudes congeminadas para enganar e explorar os mais incautos que urge desmascarar porque para além de fazerem mal à carteira fazem muito pior à sociedade como um todo.
De facto, o ressurgimento destes obscurantismos é uma manifestação de que algo está profundamente errado na nossa sociedade mas para além de sintoma é igualmente uma causa do que está errado. Vivemos tempos em que este tipo de patetices, aparentemente inócuas, na realidade são uma espiral descendente que se não for travada pode ter consequências desastrosas. O pior perigo destas charlatanices é o facto de que «envenenam» a mente, isto é, pretendem passar anti-ciência por ciência e apelam a que as pessoas deixem de pensar. São perigosas porque afirmam que o pensamento mágico é mais importante que o trabalho, a verdade, a razão e o respeito pelas evidências. E a razão e o respeito pelas evidências são a fonte do progresso da Humanidade - e a nossa salvaguarda contra todos os que lucram pela deturpação da verdade.
domingo, 8 de junho de 2008
As cores da água
Uma das ideias mais populares sobre a cor da água é que esta é devida à reflexão da cor do céu. Mas esta explicação não justifica a imagem da Terra vista do espaço e o facto de continuarmos a ver azul a água numa piscina interior ou o mar em dias nublados em que o céu está branco ou acinzentado. Por outro lado, debaixo do mesmo céu azul, a cor da água tem tons diferentes consoante a profundidade, o que não pode ser explicado por reflexão.
Outras explicações dizem que as cores da água são devidas ao mesmo fenómeno de dispersão que nos faz ver o céu azul ou devido a impurezas dissolvidas, por exemplo iões Cu2+. Embora quer a dispersão quer a presença de impurezas sejam importantes, o factor determinante da cor da água tem a ver com mais uma anomalia desta.A superfície da água reflecte muito pouca luz (cerca de 7%) o que ajuda a contribuir para o azul da água mas o mais relevante é o que acontece aos restantes 93% de luz incidente. Se existirem muitas partículas em suspensão ou bolhas de ar (como numa queda de água), a luz é dispersa em todas as direcções por partículas que não absorvam no visível ou pelas bolhas e nós vemos a água branca. Se as partículas absorverem radiação visível, nós vemos a cor dessas partículas (como acontece, por exemplo, no rio Colorado no fundo do Grand Canyon que lembra café com leite). Nalguns casos, podem existir de facto «corantes» na água, como fitoplâncton, que podem conferir em alguns casos colorações esverdeadas ou avermelhadas.
Mas o azul é intrínseco à água que é o único composto corado (com a excepção possível da amónia) devido a transições vibracionais que se deslocam para os limites do visível. Já vimos que uma espécie absorve radiação quando esta está em ressonância com essa espécie, isto é, a energia da radiação é igual à diferença de energia entre dois estados possíveis dessa espécie química. Mas estes estados não se restringem a estados electrónicos porque não é apenas a energia electrónica que está quantificada. As moléculas vibram, isto é, os átomos não estão quietinhos nas posições de equílibrio em que normalmente os representamos em figuras estáticas. Podemos decompor a vibração das moléculas como um todo nos chamados modos normais de vibração e essas vibrações (tal como as rotações, mas essa é outra história) estão quantificadas e podemos excitá-las fazendo incidir sobre as moléculas luz que esteja em ressonância com essas vibrações.
Para todas as moléculas, com excepção da água, essa radiação cai exclusivamente na gama dos infra-vermelhos. As características únicas da água fazem com que esta exiba igualmente transições vibracionais no vísivel. Se substituirmos o hidrogénio por deutério (um isótopo do hidrogénio, isto é, um hidrogénio com o dobro da massa) o espectro vibracional é deslocado para maiores comprimentos de onda e a água deuterada é incolor.
Assim, a água absorve radiação no vermelho embora absorva pouco e seja necessário uma grande quantidade de água para lhe vermos a cor (um pouco como um vidro que parece incolor se tiver uma espessura pequena mas é corado quando numa placa de espessura maior). A uma profundidade de cerca de 8 metros já praticamente toda a luz vermelha foi absorvida. Nós olhamos para e não através da água do mar e vêmo-la azul e por isso a dispersão da luz nas moléculas de água e em partículas em suspensão tem de facto um papel importante.
Mas se a água é azul, porque razão é branca a neve? Bem a neve é branca pela mesma razão que a água que cai nas cataratas do Niagara é branca, devido à dispersão da luz, no caso da neve devido não só a dispersão no ar retido no interior mas igualmente nas míriades de cristais com diferentes orientações que a constituem.

Quando temos uma massa de gelo muito grande, como aconteceu este ano no lago Huron, a cor azul da água no estado sólido vê-se muito claramente.
Agora que estão explicadas as cores da água falta ver o que acontece à água (ou qualquer outra espécie química) quando absorve luz do sol. Os estados excitados vibracionais têm tempos de vida muito curtos e o excesso de energia é libertado na forma de calor, isto é, as moléculas regressam muito rapidamente ao estado fundamental livrando-se do excesso de energia absorvida convertendo-a em energia térmica.
O mesmo acontece com os estados excitados electrónicos, excepto no caso de moléculas fotoluminescentes nas quais a molécula se liberta do excesso de energia emitindo luz. Por isso não é boa ideia estar ao sol vestido de preto porque o preto absorve toda a luz visível ( e normalmente os corantes utilizados para tingir a roupa de preto não são nem fluorescentes nem fosforescentes) e a radiação absorvida acaba na forma de calor.
Com esta explicação muito breve, espero que os nossos leitores percebam o meu espanto e indignação ao deparar na pesquisa com uma enorme quantidade de banhas da cobra New Age absolutamente rídiculas relacionadas com inventadas «virtudes» coloridas da água. Li estupefacta os dislates com que charlatães sortidos exploram a ignorância de alguns e a tontice New Age de outros vendendo-lhes água solarizada ou bugigangas sortidas que supostamente servem para «extrair e armazenar as frequências curativas (?) da cor» e «produzir» água mágica pondo-a ao sol dentro de frascos coloridos- o que serve apenas para aquecer a água, mais nada.

Dizer que «a água é capaz de extrair e armazenar energias subtis que têm efeitos mensuráveis (?) em sistemas vivos» é uma cretinice total e nem sequer é possível adjectivar coisas sem sentido como «Reich deduziu, então, que a energia sem massa, que sob certas condições, criava uma membrana e adquiria características de matéria viva, tinha uma origem única: o ar, era cósmica». Mas é um abuso que devia ser punido charlatães arrogarem-se a afirmar que a ciência comprova o (e outros) disparate que vendem aos mais incautos.
Se charlatães ou outrem quiserem vender as suas banhas da cobra como mágicas, abençoadas por duendes cor de rosa às pintinhas ou coisa no género, não tenho problemas, compra quem acredita em magia ou em duendes. Mas publicitar as suas tretas como «cientificamente» comprovadas, embrulhá-las num jargão pseudo-científico e apregoar benefícios absolutamente inexistentes deveria ser punível por lei. Aliás, já o é em Inglaterra onde desde há uns dias os vendedores de pseudo-ciência, tretas psíquicas, astrólogos, cartomantes e afins são obrigados a indicar que os seus obscurantismos New Age são «apenas para entretenimento» e «não estão provados experimentalmente».
Parece assim confirmar-se o que escrevi no início do ano, que cada vez mais membros das comunidades científica e judicial, em alguns pontos do globo, pelo menos, começam a assumir as suas responsabilidades sociais no combate ao obscurantismo e charlatanices. Claro que uma sólida educação científica é a forma mais eficaz de combater banhas da cobra mas pelo menos este tipo de regulamentação evita a proliferação de charlatanices assentes na apropriação do prestígio da ciência em vacuidades enganosas como homeopatetices, «curas quânticas», «curas taquiónicas» e quejandos.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Charlatanices, pseudo-ciência e pós-modernismo - II
Como já referi, no dia seguinte à constatação pelo Ludi de que é complicada «a refutação detalhada das patranhas que eles [criacionistas] despejam» tive uma experiência «mística» e hilariante noutro debate que me permitiu confirmar a origem pós-moderna das banhas da cobra e pseudo-ciências que insistem em explorar o desconhecimento alheio.Na sequência da minha (mui) breve intervenção no programa do provedor do telespectador da RTP, fui contactada por uma jornalista do RCP para saber da minha disponibilidade em elaborar o que pensava sobre astrologia agora aos microfones desta rádio. Claro que estava disponível e só uns dias depois fui informada que estaria igualmente no estúdio um «astrólogo».
A gravação do programa foi uma revelação! Apesar de um certo bias da jornalista, que se fartou de repetir qual mantra também «acreditar» em ciência, compensado pelo bom senso de Rui Mendes, o actor que connosco partilhou as ondas hertzianas, diverti-me imenso durante a cerca de uma hora que lá estive. De facto, nunca vira alguém debitar ao vivo um discurso completamente vazio mas repleto de palavras «caras», sem qualquer sentido e tão irracional quanto o da homeopateta do vídeo anterior - embora o astrólogo que me saiu na rifa não atribuisse a partículas youees as formas de energia desconhecidas com que recheou a prosa decorada dos cartões sortidos que o acompanhavam!
O «astrólogo» parecia saber que o dogma central da astrologia fora definitivamente arrumado na prateleira das banhas da cobra por um estudo que acompanhou ao longo de 50 anos mais de 2000 «gémeos temporais». O estudo verificou o que qualquer pessoa racional já sabia, sem necessidade de confirmação experimental: as nossas características, destino, etc., não sofrem a mínima influência da posição que calhaus ou globos de gás ocupam na treta que dá pelo nome de «carta astral ou astrológica».
Assim, depois de nos explicar que se virara para a astrologia devido a sentimentos de desadequação e inadaptação ao mundo, esforçou-se imenso por reiterar que, embora não fosse ciência, a astrologia não era charlatanismo embora existissem muitos charlatães a praticar a «profissão».
O que era então a astrologia que não é ciência para Nuno Michaels que não é «charlatão»? Bem, ouvi estupefacta um crescendo de dislates que começaram New Age e terminaram pós-modernos, com direito a leituras, dos tais cartões, de citações de Boaventura Sousa Santos, o grande argumento de autoridade que «legitimava» epistemicamente a astrologia.
Considerando que a maioria dos ouvintes da RCP não deve ter grande traquejo para pós-modernices misturadas com patetadas New Age só posso esperar que muitos tenham percebido que ler o horóscopo ou consultar um «astrólogo» é um disparate total. De facto, diria que ficaram completamente mistificados ao ouvir o «astrólogo», que não conseguia explicar o que cargas de água era a astrologia que não tem contraparte física, isto é, não tem nada a ver com a posição de calhaus num qualquer mapa «celeste». Bem, de contradição em contradição o astrólogo lá deixou escapar referência à «Lei Cósmica da Correspondência Sistémica» (???) que supostamente une todos os sistemas do Universo - por vibrações, claro, embora por muito que eu tentasse não conseguisse descobrir que cargas de água eram as vibrações atribuídas, por exemplo, a Plutão e se estas seriam diferentes se Venetia Burney se tivesse lembrado de outro nome menos... simbólico para o ex-planeta. Também não consegui perguntar-lhe porque razão são irrelevantes as «vibrações» de Ceres, muito maior que Plutão ou mesmo Mercúrio.
A tirada semiótica que se seguiu deixou-me morta de riso: achei divertida a confirmação de que a astrologia usa simbolicamente os planetas (como poderia usar búzios, tarot ou outra coisa qualquer) para esclarecer, de forma igualmente simbólica, isto é, completamente arbitrária, as angústias que a sociedade fria e científica provoca nos consultantes.
Embora não me recorde exactamente dos termos desta tirada - é humanamente impossível alguém recordar na íntegra aqueles longos minutos de prosa vazia, pomposa e sem sentido - os meus apontamentos, que utilizei para o interpelar das poucas vezes em que tive direito de palavra, permitiram-me localizar algumas das pérolas redondissimas utilizadas na sebenta de Semiótica - «A linguagem, a verdade e o poder - Ensaio de Semiótica geral», de Moisés Martins. O Pedro Romano transcreveu alguns excertos da dita sebenta no seu blog, nomeadamente a parte que se segue, debitada no geral se não mesmo nos pormenores pelo «astrólogo» e em que semiótica foi substítuida por astrologia:
«A semiótica visa uma antropologia estrutural do imaginário (no seu sentido metapsicólogico) humano. Ora esse imaginário é assemântico ou não subjectivado. A matéria prima da Semiótica é uma substância que não é uma substância de conteúdo, mas um puro medium imaginário entre a regulação biológica e a idealidade, indizível, do absoluto. Se o conceito de estrutura é o conceito formal de base da semiótica, o do imaginário como carne é o seu conceito substancial de base».
Os ouvintes nesta parte já se deviam interrogar sobre que raios estaria o senhor a falar que muitos pensariam certamente ser sobre algo completamente desconhecido. As citações ao roubo do fogo sagrado por Prometeu (esqueceu-se do funcho) e o elogio a Platão e seus arquétipos poderiam ter enganado os mais incautos como sendo referências filosóficas mas na realidade foram uma elegia literal aos arqué de Empédocles.
De facto, parece que a astrologia «é uma dinâmica de Ascenção [sic, descobri que astrologia e ortografia não rimam], activada pela inter-relação dos Elementos: o Fogo, a Terra, a Água e o Ar», ou seja, esta gente quer ainda recuperar a alquimia. Ou antes, vende a sua banha da cobra como «o Projecto Alquímico que cada um de nós traz ao nascer, contido nas tensões do seu Tema Astrológico». Não sei se estas tensões rimam com vibrações mas não faltaram para compor o ramalhete termos como «holística» , dicotomias «visível» -«invísivel», «heranças energéticas», «energias específicas» e demais tretas. Assim como não faltou um esperado ataque à ciência e um elogio aos pós-modernistas em geral (Boaventura Sousa Santos em particular foi louvado como um profeta da boa-nova) que tanto contribuem para o sucesso de toda a espécie de charlatães e vendedores de banhas da cobra.
De facto, os grandes aliados do criacionismo e de todos os charlatanismos pseudo-científicos/alternativos são o eduquês e o pós-modernismo. O eduquês porque se devota a formar analfabetos científicos e também porque , sem qualquer surpresa, o discurso oco de ambos se confunde e muitas vezes se acumula num mesmo «especialista».
Steve Fuller, o «esquerdista pós-moderno» arregimentado pelos apóstolos do Discovery Institute para depor a favor do Desenho Inteligente no julgamento de Dover é um exemplo dessa coligação. Para Fuller, tal como para os eduqueses, a ciência não é neutra, é um instrumento de opressão e, com um discurso familiar aos que leram o post «Química no ensino básico: quem nos liberta desta cruz», rejeita «a epistemologia clássica» que considera «uma forma encoberta de distribuir poder».
O Carlos, a Helena, eu própria e o Desidério já abordámos o relativismo pós-moderno que basicamente assenta na presunção de que a ciência tem tanto valor epistémico quanto os delírios de qualquer feiticeiro tribal. Pessoalmente concordo em pleno com o filósofo alemão Jürgen Habermas que relaciona o conceito de pós-modernidade a tendências políticas e culturais neoconservadoras, determinadas em combater os ideais iluministas.
De facto, graças aos ideais iluministas houve espectaculares avanços civilizacionais e científicos nos últimos 250 anos. Na ética, na política, no direito, no conhecimento e nas metodologias. Estes avanços deveriam impor ao nosso intelecto a disciplina do pensamento crítico e da comprovação prática da validade de uma qualquer afirmação. Foi assim que a ciência e com ela a nossa civilização avançaram. Todavia, os estragos operados pela transposição para as nossas escolas e media da verbosidade mística dos apóstolos do pós-modernismo e do eduquês permitiram que qualquer charlatão possa afirmar o que quer que seja sem recear que lhe peçam qualquer comprovação (especialmente se disfarçar a vacuidade do discurso num palavreado impenetrável, aparentemente muito «intelectual», com muitas mensagens de paz, amor, tranquilidade e preocupação com a natureza e esgrimindo que há formas alternativas de conhecimento se tudo o resto falhar).
No livro «Pós-modernismo, razão e religião», de 1992, Ernest Gellner refere-se ao pós-modernismo da seguinte forma:
«O pós-modernismo é um movimento contemporâneo. É forte e está na moda. E sobretudo, não é completamente claro o que diabo ele é. Na verdade, a claridade não se encontra entre os seus principais atributos. Ele não apenas falha em praticar a claridade mas em ocasiões até a repudia abertamente...».
Gellner rejeita, como qualquer pessoa de bom senso - e mesmo o mais empedernido pós-moderno não usa telepatia em vez de telefone ou rezas em vez de medicamentos-, que uma afirmação factual, quer científica quer mitológica ou mágica tenha o mesmo valor epistémico e só possa ser considerada verdadeira ou falsa em relação a uma determinada cultura. Um portátil funciona da mesma maneira em Ouro Preto e em Osaka; afirmar que o oxigénio, O2, no seu estado fundamental, é uma espécie paramagnética é a constatação de um facto que tem o mesmo valor epistémico aqui, no Afeganistão ou na China. Como continua Gellner:
«O mundo em que vivemos é definido, acima de tudo, pela existência de um sistema de conhecimento único da natureza, instável e poderoso, e pela relação corrosiva e conflituosa que mantém com outros conjuntos de ideias ("culturas") que orientam a vida dos homens.(...)
Existe um conhecimento externo, objectivo e que transcende a cultura: existe, de facto, um "conhecimento para além da cultura." (...) A faculdade, inerente à cognição, que lhe permite ultrapassar as fronteiras de um qualquer casulo cultural e atingir formas de conhecimento válidas para todos - e, consequentemente, um entendimento da natureza que resulta numa tecnologia extraordinariamente poderosa - constitui o facto crucial das nossas condições sociais comuns».
Esta faculdade inerente à cognição que nos permite transcender limites étnico-culturais é estrangulada quer pelo pós-modernismo quer pelo eduquês, que, sob a capa do multiculturalismo e respeito pelas diferenças, na prática aprisionam os membros de uma dada «comunidade cultural» ou social. A experiência do Ludi e a minha são apenas gotas de água que reforçam ser urgente que, para além de acendermos muitas velas de Sagan, não esqueçamos sobretudo o aviso de Joe Kaplinsky: «quando o criacionismo [a que acrescento patetadas como a astrologia] pode vestir-se de 'pensamento crítico' deveria ser evidente de que não é apenas com os fundamentalistas cristãos que precisamos preocupar-nos - é com todo um sistema educacional imbecilizante!»




