
Minha crónica na "Gazeta de Física" que está a sair:
Passo a passo, a Europa da Ciência tem vindo a ser construída e, dentro dela, a Europa da Física. Dois dos meios que tem ajudado a essa construção têm sido a revista European Physical Journal (abreviadamente EPJ), publicada por um consórcio germânico – franco - italiano (Springer, EDP Sciences e Sociedade Italiana de Física), e a revista EPL, ex Europhysics Letters, pertencente à Sociedade Europeia de Física e publicada por um consórcio franco-italiano-britânico (EDP Sciences, Sociedade Italiana de Física e Institute of Physics).
A EPJ nasceu em 1998 da reunião de revistas de grande tradição como o Zeitschrift für Physik, o Journal de Physique e Il Nuovo Cimento, e ainda de periódicos menos conhecidos: Acta Physica Hungarica, Czechoslovak Journal of Physics e Portugaliae Physica. A nossa Portugaliae Physica, fundada em 1943 por pioneiros da Física moderna em Portugal, acabou em favor do projecto europeu. Por sua vez, a EPL, que agora está a celebrar 25 anos, reúne o apoio das várias sociedades de Física europeias federadas na Sociedade Europeia de Física, entre as quais a Sociedade Portuguesa de Física.
O extinto Zeitschrift fuer Physik remonta a 1920, tendo surgido, sob proposta de um comité de sábios que incluía Albert Einstein, como sequela dos Verhandlungen da Sociedade de Física de Berlim, iniciados no longínquo ano de 1845. Antes da Segunda Guerra Mundial era considerada uma das melhores revistas de Física do mundo. No pós-guerra, começou, porém, a perder terreno relativamente às publicações da Sociedade Americana de Física, como a Physical Review (PR), com alguns pergaminhos pois tinha sido fundada em 1893, e a Physical Review Letters (PRL), de 1958. Estas últimas detêm hoje a primazia na cena internacional, apresentando, em geral, factores de impacte mais elevados. De um modo pragmático os físicos, principalmente os mais jovens, preferem-nas para o envio dos seus artigos por saberem que os seus currículos ficam a brilhar mais de cada vez que vencem as barreiras dos referees da PR e da PRL. Contudo, os físicos do Velho Continente, incluindo os portugueses, bem poderiam privilegiar as revistas europeias, tentando mudar os factores de impacte e reforçando a coesão europeia.
Se a união dos países europeus tem sido algo atribulada na política não o tem sido menos na Física. Em contraste com a EPL, que reúne físicos de um e de outro lado do canal da Mancha, a EPJ, que se desdobra em secções devotadas aos vários ramos da Física (a última, EPJ – H, é dedicada a “perspectivas históricas da física contemporânea”), enfrenta revistas concorrentes da responsabilidade do Institute of Physics. A Europa, para falar a uma só voz na área da Física, necessita de uma maior colaboração dos físicos que trabalham no continente e nas ilhas britânicas. Se continuar segmentada como está na difusão de artigos originais de Física, dificilmente conseguirá enfrentar os Estados Unidos. Este ano, que na Física é o do centenário da descoberta do núcleo atómico, teve lugar recentemente em Lisboa, sob presidência portuguesa, uma reunião do Conselho Científico da EPJ, que agrega representantes de numerosos países europeus. Como, à beira Tejo, já houve, a nível político, a Declaração de Lisboa e o Tratado de Lisboa, espera-se que as Tágides possam de novo inspirar uma maior união europeia, desta vez dos físicos. Poder-se-á dizer que tanto a Declaração como o Tratado se revelaram menos frutíferos do que, nos momentos da respectiva assinatura, foi desejo geral. É verdade. Mas também é verdade que, a nível das ciências físicas, deveriam ser menores os impedimentos a um acrescido federalismo científico que dê força a todos e a cada um.













