Mostrar mensagens com a etiqueta filosofia da ciência. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta filosofia da ciência. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Filosofia das Ciências


Informação recebida do CENTRO DE FILOSOFIA DAS CIÊNCIAS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA (na foto, Hermínio Martins)

O U T U B R O

- Seminário Permamente de Filosofia das Ciências
"O papel dos Experimentos de Pensamento nas Ciências e na Filosofia"

Prof. Hermínio Martins (Emeritus Fellow, St Antony s College, University of Oxford, UK / Investigador-coordenador Emérito do Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa )

3 de Outubro de 2007 (4.ª feira) 18H00, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Edifício C 8 - Sala 8.2.23

- A Imagem na Ciência e na Arte
"Aproximações ao Conceito de Imagem V - Atelier "

Davide Scarso
Desenho Científico e Pensamento Selvagem

8 de Outubro de 2007 (2.ª feira) 10H30, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Edifício C 1 - Sala 1.3.29 (a confirmar)

- Seminário Permamente de Filosofia das Ciências

" Grundlagenstreit e o intuicionismo Brouweriano "

Prof. Fernando Ferreira (Departamento de Matemática, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa )

10 de Outubro de 2007 (4.ª feira) 18H00, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Edifício C 8 - Sala 8.2.23 (a confirmar)

- Dispersões

"El tiempo reversible. Perdón y promesa en Hannah Arendt"

Marina López (Fac. Filosofía, Univ. Michoacana de San Nicolás de Hidalgo, México)

22 de Outubro de 2007 (2.ª feira) 18H00, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Sala a confirmar

- I Colóquio Internacional de Ciência, Ética e Política " Vivre en Europe"

Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa - CFCUL, em colaboração com o Collège International de Philosophie de Paris, o Instituto de Filosofia da Freie Universität Berlin e o Instituto Franco Português de Lisboa.

29, 30 e 31 de Outubro de 2007, Instituto Franco-Português, Av. Luís Bivar, n.º 91, 1000 Lisboa

Mais Informações: Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa
http://cfcul.fc.ul.pt
Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
Campo Grande 1749-016, Lisboa, Portugal

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Vale a pena ler


Título: História da Ciência e suas Reconstruções Racionais
Trad.: Emília Picado Tavares Marinho Mendes
Edições 70, 1998

"O respeito do homem pelo conhecimento é uma das suas características mais peculiares. A palavra latina para conhecimento é scientia, e ciência tornou-se a designação da mais respeitável forma de conhecimento. Mas o que distingue o conhecimento da superstição, ideologia ou pseudociência? A Igreja Católica excomungou os copernicanos, o Partido Comunista perseguiu os mendelianos, com o fundamento de que as suas doutrinas eram pseudocientíficas. A demarcação entre ciência e pseudociência não é um mero problema de filosofia de salão: é de vital relevância social e política." (Imre Lakatos)

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Filosofia da química e atomismo


Apontamentos de Jöns Jakob Berzelius, o «pai» do atomismo químico, ou, como refere Alan Rocke*, «Se John Dalton foi o pai da teoria atómica, então Jacob Berzelius foi a parteira e o pai adoptivo, cumprindo talvez o papel mais importante no desenvolvimento do atomismo tanto químico como físico durante as segunda, terceira e quarta décadas do século XIX.»

«Todas as tentativas de aplicar métodos matemáticos no estudo de questões químicas é profundamente irracional e contrário ao espírito da química ... se a análise matemática alguma vez tiver um lugar proeminente em química - uma aberração que é felizmente quase impossível - daria lugar a uma rápida e generalizada degeneração desta ciência» Auguste Comte, Cours de Philosophie Positive, 1830.

Esta frase, que poderia constar da antologia de grandes erros do Carlos, ajudou-me a perceber, ainda enquanto aluna, a aparente contradição de em todas as minhas aulas de química, de química analítica a química orgânica passando por bioquímica, a constituição atómica da matéria ser apresentada como um dado adquirido para os químicos do século XIX, enquanto nas aulas de física me era reiterado peremptoriamente que a atomicidade e existência de moléculas só tinham sido estabelecidas sem sombra de dúvidas por Einstein no seu Annus Mirabilis.

Não parece existirem quaisquer dúvidas da existência de átomos na química desde pelo menos o início do século XIX, com o trabalho de Jakob Berzelius (que propôs igualmente o primeiro modelo de ligação química), e de moléculas desde que Amedeo Avogadro resolveu em 1811 os problemas apontados por Joseph Louis Gay-Lussac 6 anos antes, distinguindo átomos de agregados de átomos a que chamou moléculas. A hipótese de Avogadro estava de acordo com as observações de Gay-Lussac e implicava que as massas relativas das moléculas podiam ser determinadas sem ser necessário observar um átomo ou molécula individual. Em Setembro de 1860, Stanislao Cannizzaro distribuiu aos participantes no International Congress of Chemists em Karlsruhe o artigo famoso em que descrevia o seu novo sistema de determinação de pesos atómicos. Entre os presentes contava-se Dmitri Ivanovitch Mendeleev, um dos pais da tabela periódica, publicada no livro «Princípios da Química» em 1869 e igualmente desenvolvida, de forma independente, por Julius Lothar Meyer.

Dois anos antes da publicação dos «Princípios», August Kekulé, um químico orgânico proeminente que propôs a estrutura cíclica do benzeno em 1865, tinha escrito:

«Eu espero que consigamos um dia descobrir a explicação matemático-mecânica para aquilo a que chamamos agora átomos e que explique as suas propriedades».

Isto é, umas largas décadas antes de Einstein publicar o artigo «Acerca do movimento de pequenas partículas em suspensão num líquido como requerido pela teoria cinética-molecular do calor» e a sua tese de doutoramento «Uma nova determinação das dimensões moleculares», que vemos frequentemente descritos como os artigos fundamentais para o estabelecimento da Teoria Atómica e Molecular, os químicos não só não tinham dúvidas sobre a existência de átomos e moléculas como descreviam as estruturas tridimensionais destas últimas e aventavam os primeiros modelos de ligação química (isto é, entre átomos). De facto, ainda no século XIX, em 1874, o primeiro Nobel da Química, Jacobus Hendricus Van’t Hoff, resolveu o problema de Pasteur com a actividade óptica de sais de ácido tartárico (ácido 2,3-di-hidroxi-succínico), um constituinte das uvas. Achille Jacques Le Bel e Van’t Hoff, independentemente, explicaram porque dois isómeros ópticos rodavam o plano de polarização da luz em sentidos opostos propondo assimetria na estrutura molecular destas substâncias, nomeadamente propondo a existência de carbonos assimétricos, isto é, carbonos ligados a quatro grupos diferentes.

Sempre me intrigou esta ignorância do papel fundamental do atomismo na química, praticamente desde o seu nascimento como ciência, mas a observação de Comte e o parto tardio da química ajudam a explicar que se considere que a Teoria Atómica e Molecular só foi reconhecida (pela física) com os artigos de Einstein.

Embora a maioria dos historiadores de química tracem o seu nascimento à publicação em 1661 do The Sceptical Chemist, («O Químico Céptico»), de Robert Boyle, seguida cinco anos mais tarde por «A Origem das Formas e Qualidades», a realidade é que o estabelecimento da química como ciência foi um processo demorado e com recaídas. Muitos cientistas respeitados - como Johann Becher, Georg Ernst Stahl (o introdutor do flogisto que Lavoisier demonstrou inexistente) ou mesmo Isaac Newton - fizeram incursões mais ou menos abertas pela alquimia em pleno século XVIII. Como referi no post «O Fim da alquimia», as grandes «guerras» da química neste século tinham a ver com a demarcação da alquimia, considerada uma charlatanice pura e dura que impedia o progresso da verdadeira ciência, a química.

Isto é, a química estabeleceu-se depois de as «guerras» do atomismo terem sido travadas e os principais obstáculos – teológicos, experimentais e teóricos – terem sido ultrapassados pela física e pela filosofia. No início do século XVII, o atomismo era uma filosofia proscrita, uma explicação ateísta que ameaçava a visão escolástica do mundo e como tal era devidamente condenada (em França, por exemplo, o atomismo foi proibido em 1624 e a sua defesa era merecedora da pena de morte). No século XVIII a constituição atómica da matéria era já uma hipótese «conservadora» e a ciência, a filosofia e a religião começavam a dissociação que muitos hoje em dia contestam, pelo menos na parte que à religião diz respeito. Assim os químicos aderiram imediata e entusiasticamente à obra de Dalton publicada em 1808, «A New System of Chemical Philosophy».

Por outro lado, até ao século XX a química era encarada como a ciência quasi estritamente experimental que apenas se ocupava da natureza da matéria e, especialmente, das suas transformações. Isto é, ninguém imaginava origens filosóficas para o atomismo químico mas abundavam objecções filosóficas em relação ao atomismo físico. Nem alguém se referiria a um químico, como o fez Einstein em relação a Ernst Mach, um anti-atomista, como um bom cientista mas um filósofo deplorável. Provavelmente porque não há muitas lucubrações filosóficas a extrair de uma síntese química ou de uma purificação - excepto talvez para um Primo Levi - enquanto muitos grandes nomes da física e matemática se destacaram igualmente pelas suas reflexões filosóficas, é muito raro encontrar um químico-filósofo, pecha que continua (Ilya Prigogine ou Michael Polanyi são excepções) e se manifesta ainda na raridade de filósofos da química.

De facto, se olharmos para as publicações de filosofia das ciências descobrimos que se a física tem a parte de leão e a biologia, ciências cognitivas e afins começaram a merecer muita atenção nos últimos tempos, é preciso um esforço considerável para descobrir algo sobre filosofia da química. Isto é, dir-se-ia que a combinação química e filosofia é essencialmente não-ligante (ou mesmo anti-ligante), talvez porque a física consegue traçar as suas origens claramente à filosofia e a química, excluindo a alquimia, traça as suas origens à física.

Como refere este artigo que incide sobre a negligência na filosofia da química (formato pdf), ainda hoje muitos consideram a química apenas como uma pequenissima parte da física, a parte que se restringe à escala dos nanómetros e ao electromagnetismo, e como tal consideram que todas as questões filosóficas interessantes em química são cobertas na filosofia da física.

Na realidade, há sobreposição (e colaboração) das duas ciências em muitas áreas, nomeadamente no que os físicos chamam física-química e os químicos química-física, na física de estado sólido ou na termodinâmica (física ou química). Mas há não só áreas completamente distintas como abordagens diferentes ao mesmo problema, que se manifestam inclusive na forma como químicos e físicos enunciam, por exemplo, a segunda lei da Termodinâmica, para nós dirigida essencialmente ao equilíbrio químico. Assim, embora o post sobre o átomo e a liberdade de expressão tenha proporcionado uma discussão muito interessante, antes de continuar a história do atomismo gostaria de frisar que para a maioria dos químicos, desde que a química se estabeleceu como ciência, o atomismo é estritamente científico sem quaisquer implicações filosóficas - exceptuando, claro, aquelas que integrámos no método científico.

*Alan J. Rocke, Chemical Atomism in the Nineteenth Century – From Dalton to Cannizzaro, página 66, Ohio State University Press, 1984.

terça-feira, 31 de julho de 2007

O ERRO E A SUA AMIGA VERDADE

“Em vez de falar dum oceano de incerteza em torno de uma ilha de certeza, pode ser preferível falar dum oceano de incerteza no qual pequenas rochas de certeza constantemente aparecem e desaparecem.”
John Watkins, 1990, 99.

“Assim nos erguemos do marasmo da ignorância, assim atiramos ao ar uma corda e trepamos por ela desde que atinja um ponto de apoio, um ínfimo galho de árvore, por mais precário que seja.”
Karl Popper, 1996, 164.

No domínio científico, parece ser possível afirmar que o único critério possível para se demarcarem erros é tomar como referência verdades que se conseguiram reunir. Mas, logo de seguida, temos de acrescentar que este critério não é completamente seguro, pois há razões para admitir que as verdades, mesmo as mais consistentes, podem ser (não quer, necessariamente, dizer que o sejam) incompletas, imperfeitas e provisórias. Ainda assim, não nos parece tratar-se de um critério inválido ou sem qualquer relevância.

Para explicar melhor esta ideia é importante desmistificar um grave equívoco que lhe anda associado: sendo as verdades científicas, como todas as outras verdades, construídos por pessoas, não têm outro valor além daquele que elas lhe atribuem, ou seja, têm apenas e só valor para determinada(s) pessoa(s) ou comunidade(s), não havendo qualquer possibilidade de determinar o seu valor objectivo. Ora, daqui até se desvalorizarem as verdades ou se manifestar antagonismo contra o seu valor é um pequeno passo que, lamentavelmente, tem sido dado vezes demais.

Este é um raciocínio em que não podemos nem devemos cair, pois como escreveu Bronowski (1973, 373), “aquilo que conseguimos conhecer, apesar de sermos falíveis” mesmo que rodeado de alguma incerteza, possui um valor inestimável. E Popper (1999, 9; 122) acrescentou: “o conhecimento científico e a racionalidade humana que o produz são, em meu entender, sempre falíveis ou sujeitos a erro, mas são também, creio, o orgulho da humanidade”. Este último autor explicou que, de uma vez por todas, “devemos renunciar à ideia de que somos espectadores passivos do mundo, e acolher a ideia de que somos responsáveis, pelo menos em parte, pelo entendimento que temos dele”, até porque “uma das principais tarefas da razão humana é tornar o universo em que vivemos algo compreensível para nós” (1999, 63). Esse entendimento não será completo nem perfeito, porém, é preferível, notou Moles (1995, 16) com muita simplicidade, “saber de forma incerta do que não saber rigorosamente nada”.

Mas que verdades são estas, produzidas no seio da ciência e que, com alguma confiança, permitem demarcar erros? Watkins (1990, 14) explica de modo quase redundante que se trata de “um corpo organizado de saber sem a implicação de estar livre de erro” e Ziman (1999, 450) sublinha que o seu apuramento decorre da “resolução de disputas factuais” isto é, da submissão das proposições em debate — que, só por si, requerem integridade lógica — a provas empíricas. São verdades que se ajustam à realidade, “que se baseiam em dados verificados e que são aptos para fornecer predições correctas” (Morin, 1994, 19).

Ao contrário do que o pós-modernismo faz crer, não dependem tais verdades nem do consenso retórico nem do consenso democrático, uma vez que as estratégias de apuramento que as originam — o convencimento conseguido através da sedutora eloquência argumentativa e a eleição da opinião maioritária que se assume como legítima — não apresentam garantias factuais capazes de, com segurança, os rejeitar ou aceitar. No domínio científico, o consenso possui um sentido muito particular: reporta-se à “convergência entre diferentes indivíduos, raciocinando todos para chegar à verdade” (Nagel, 1999, 42), mas sempre apoiados em dados apurados, tanto quanto é humanamente possível, de maneira imparcial, sem interferência, portanto, de ideologias e de preconceitos alheios a essa intenção. São esses dados, e não outros, que permitem confirmar ou infirmar as proposições em debate.

A exigência de facticidade, num ambiente de objectividade — que a ciência impôs a si própria e se tornou, afinal, a sua característica mais marcante (Gil, 1999, 10) — permite atribuir, criteriosamente, a determinados dados, o estatuto de verdades e a outros o estatuto de erros.

Popper (1990, 48) — inspirado em dois pensadores por quem teve especial apreço, Immanuel Kant e Alfred Tarski — considerou, assim, que a reabilitação do conceito de verdade objectiva, ou seja, a verdade de acordo com a demonstração dos factos constitui “um dos resultados mais importantes da lógica moderna”, “o valor fundamental” da ciência e, afinal, “o grande baluarte” contra a suposição de que o puro pensar se basta a si próprio ou, como escreveu Brochard (1971, 16), de que é “sem sair de si mesmo, e pela virtude própria, que o espírito descobre a verdade”.

Não vejamos, pois, neste conceito de verdade objectiva qualquer indício de defesa do empirismo ou do dogmatismo positivistas mas, pelo contrário, o sustentáculo da actividade científica que possibilita, na opinião de Holton (1998), a redução de incertezas, que permite evitar alguns erros e ultrapassar outros.

Imagem: Desenhando-se (1948) de Maurits Cornelis Escher

Referências bibliográficas:

Brochard, V. (1971). Do erro. Coimbra: Atlântida.
Bronowsky, J. (1973). The ascent of man. Boston. Litle, Brow and Company.
Gil, F. (1999). A ciência tal qual se faz e o problema da objectividade in F. Gil (Coord.). A ciência tal qual se faz. Lisboa: Ministério da Ciência e Tecnologia/João Sá da Costa, 9-29.
Holton, G. (1998). A cultura científica e os seus inimigos. Lisboa: Gradiva.
Moles, A. (1995). As ciências do imprevisto. Lisboa: Afrontamento.
Morin, E. (1994). Ciência com consciência. Lisboa: Europa-América.
Nagel, T. (1999). A última palavra. Lisboa: Gradiva.
Popper, K. (1992). Em busca de um mundo melhor. Lisboa: Fragmentos.
Popper, K. (1996). O conhecimento e o problema corpo-mente. Lisboa: Edições 70.
Popper, K. (1999). O mito do contexto: em defesa da ciência e da racionalidade. Lisboa: Edições 70.
Watkins, J. (1990). Prefácio à edição portuguesa. Ciência e cepticismo. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
Ziman, J. (1999). A ciência na sociedade moderna in F. Gil (Coord.). A ciência tal qual se faz. Lisboa: Ministério da Ciência e Tecnologia/João Sá da Costa, 4

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Homens da ressurreição

Desde que escrevi o post «Dawkins e as más companhias» que procuro um termo menos problemático para substituir o acrónimo com que referi desde sempre os proponentes do anacrónico Desenho Inteligente. Partilhei o meu dilema linguístico com a bióloga da família que me sugeriu para inspiração o último livro de Philip Kitcher, um filósofo cujo trabalho em filosofia da ciência lhe mereceu o primeiro prémio Prometheus da American Philosophical Association

Rendi-me ao livro às primeiras páginas. «Living with Darwin», que trata igualmente das relações entre fé e ciência, é leitura indispensável para os que queiram desmontar os maus argumentos de todos os homens da ressurreição (um trocadilho com homens da renascença a que não resisti). No último capítulo Kitcher aborda o tema religião de uma forma mais suave que, por exemplo, Sam Harris, Richard Dawkins ou mesmo Daniel Dennett, mas quiçá igualmente inflamatória.

Deixo aos nossos leitores as apreciações do livro de um cientista ateu e de um teólogo liberal.

«Kitcher apresenta a combinação certa de talento filosófico e conhecimento biológico e uma escrita fabulosamente lúcida para abordar o problema espinhoso que o criacionismo constitui. No Living With Darwin, ele mostra claramente que a batalha persistente entre evolução e criacionismo na América faz parte de uma guerra mais vasta - uma guerra entre superstição e racionalidade. A sua análise do conflito e as sugestões para a sua resolução, devem ser lidas por todos os que se preocupam com a relação entre ciência e fé». Jerry Coyne, Universidade de Chicago.

«Uma análise forte e provocatória do conflito histórico entre Darwin e o cristianismo ocidental. O livro de Kitcher levanta questões com as quais os cristãos se devem debater: pode existir um cristianismo sem sobrenaturalismo? Deus sem teísmo? Um Cristo que não é a encarnação de uma divindade sobrenatural e teísta? Eu penso que pode e por isso dou as boas vindas com entusiasmo a este livro» John Shelby Spong, autor do livro «A New Christianity for a New World».

quinta-feira, 17 de maio de 2007

UM FILÓSOFO SEM RAZÃO




















Este escrito sobre Paul Feyerabend tem por base um artigo que escrevi no “Público” no início dos anos 90. Fui publicamente contestado, mas nesse tempo escreviam-se cartas ao director em vez de se postarem comentários na Net...

A ciência sempre teve os seus amigos e os seus inimigos. Paul Feyerabend (1924-1994) é um dos modermos inimigos da ciência. Zangou-se com Karl Popper (1902-1994), um dos mais influentes filósofos de ciência do século passado. E não há nada como uma desavença pessoal para promover uma luta extremada de ideias e para fazer com que coisas aparentemente tão pacíficas como o método científico e o uso da razão passem a ser denegridos sem dó nem piedade.

De entre os pensadores do século XX, Karl Popper destaca-se por ter obtido uma boa recepção entre os cientistas. Foi ele o defensor da ideia de que a falsificação das teses — a tentativa de provar que se está errado — constitui a base do trabalho científico. Popper admitiu, porém, que não há em ciência método, confessando-se “professor de um assunto inexistente”. De facto, o inglês Peter Medawar, um Prémio Nobel da Medicina defensor e divulgador das ideias de Popper, chamou à ciência “a arte do solúvel”, enfatizando o papel da criatividade pessoal, que parece por vezes extravasar os limites colocadas por qualquer metodologia da ciência e que só encontra paralelo nos processos de produção artística. Embora possa não existir o método científico como chave universal que abre infalivelmente as portas do desconhecido, talvez se possam descobrir traços comuns do trabalho dos cientistas, esses permanentes acrescentadores do conhecimento sobre o mundo. O reconhecimento do erro pela crítica e pela experimentação é, segundo Popper e os popperianos, uma dessas marcas. Localizar o erro e aprender com ele são propósitos permanentes de quem trabalha nos institutos e laboratórios de ciência... Só um cientista pode ficar feliz ao descobrir que, afinal, tinha ideias erradas.

Paul Feyerabend, nascido em Viena de Áustria tal como Popper (curiosamente morreram os dois no mesmo ano), foi aluno de Popper antes de se zangar com o mestre. Os motivos do desaguisado não são inteiramente claros, mas foram suficientemente fortes para acender uma polémica que se manteve durante largo tempo e que, embora os dois já tenham falecido, de certo modo ainda hoje persiste. É a dos amigos da ciência contra os seus inimigos.

Feyerabend começou por criticar não só o popperismo como o método científico de uma maneira que, por vezes, parece exceder os limites do bom senso e das boas maneiras. Os dois personagens estão nos antípodas um do outro. Um viveu na Inglaterra, o país onde a física, com Newton, se desenvolveu e onde há uma forte tradição de filosofia empírica, tendo sido professor na London School of Economics. O outro estabeleceu-se nos Estados Unidos, nomeadamente na Universidade de Berkeley, onde, apesar de haver uma boa escola de física, o multiculturalismo e o pensamento libertário obtiveram bom acolhimento.

Feyerabend escreveu, em 1975, um livro com um título claro: “Contra o Método”. Passou o resto da sua vida a justificar o que aí tinha escrito. Segundo ele, não só não existe método científico, como o racionalismo é um refinado equívoco, sendo Popper pouco menos do que um imbecil. Está-se já a ver que se trata de uma boa profissão de fé para um livre-pensador (um anarquista, mesmo), mas tudo junto, atado e pesado, não chega para fazer escola (nunca se viu, de resto, uma escola de anarquistas!).

"Contra o método" foi publicado em Portugal em 1993 pela Relógio d’Água. Mas dois anos antes vieram a lume entre nós dois livros que lhe fazem sequência. Um foi “Diálogo sobre o Método”, na Editorial Presença, e o outro foi “Adeus à Razão”, nas Edições 70. 0 primeiro inclui dois diálogos entre um popperiano e um feyerabendiano (o diálogo é aí usado na tradição de Galileu e Lakatos, mas sem nunca atingir a profundidade destes antecessores do género). A conversa do “Diálogo sobre o Método” é por vezes fiada, ainda que parecendo afiada. O feyerabendiano chega a ponto de defender a astrologia, as chamadas medicinas alternativas, e de ser saudosista do paraíso que se perdeu com o advento da ciência. Parece que Feyerabend não sabe que o número de astrólogos burlões ultrapassa de longe o número de cientistas fraudulentos, embora estes últimos obviamente existam. O leitor pode interrogar-se se o professor de Berkeley ia à bruxa ou ao médico em caso de doença grave. E a história do “paraíso perdido” só pode ser contada por pessoas que nunca andaram a lascar pedra no paleolítico ou não tiveram o azar de andar a cavar terra na época feudal. Não vale a pena perder muito tempo com o “Diálogo contra o Método”: um leitor culto que deite o olho inocente ao livro fica sem saber se o autor está a falar a sério ou se está a gozar.

Adeus à Razão” é uma obra mais séria. Trata-se de uma colectânea de textos de tempos diferentes, alguns dos quais numa linha relativista (segundo os pensadores doo relativismo — Einstein que lhes perdoe! — tudo tem o mesmo valor e todos têm razão) e outros que, sem ir tão longe, se limitam a defender a “diversidade” contra a pretensa “uniformidade” imposta pelas regras da razão. Começa pelos gregos, passa por Galileu, defende a obra de Mach, no século XIX, e chega quase à actualidade, batendo forte e feio no que chama “excursões de Popper na filosofia”. Num capítulo sugestivamente intitulado “Galileu e a tirania da verdade” Feyerabend faz a apologia do cardeal Belarmini, que esteve envolvido no processo a Galileu, por esse príncipe da Igreja ter estado do lado das aparências e da tradição, quando o perigoso Galileu trazia a prova (observacional, matemática) e a ruptura. Não se compreende porque é que a Igreja reabilitou Galileu (passados escassos quatrocentos anos, mas as escalas de tempo eclesiásticas são diferentes!) e Feyerabend não. Ele é capaz de irritar o mais santo... Quando escreve, por exemplo e a propósito de Galileu, que "os cientistas modernos (...) transformaram as tribulações de um escroque ansioso num conflito de gigantes” está decerto à procura de polémica fácil. Sobre Popper, diz que “não passa de uma pequeníssima baforada de ar quente na chávena de chá do positivismo”. Não é preciso ser-se Popper ou popperiano, bastando conhecer um pouco do racionalismo crítico para se sentir escaldado com a metáfora.

Mas, dito isto, deve acrescentar-se que a vida seria muito menos interessante sem os provocadores. Refiram-se, por exemplo e no século XIX, as intervenções anti-científicas de Nietzsche, quando imperava um racionalismo cego e primitivo. Feyerabend, embora sem nunca fazer sombra a Nietzsche, é um provocador culto, que estudou história das ciências e até sabe escrever escorreitamente. Pode pois recomendar-se o “Adeus à Razão”, confiando que os seus leitores saibam decidir o que é razoável e o que não é. A Feyerabend faltou talvez a prática da ciência, que tiveram Kuhn, Lakatos ou Holton, para experimentar a emoção que advém da convivência quotidiana com a interrogação científica e o prazer que representa a procura incessante do erro.

O caso de Feyerabend mostra que um estudante de doutoramento, quando embirra com o supervisor, pode ficar traumatizado para toda a vida, o que talvez pudesse ter uma explicação freudiana (no espaço de língua alemã, de onde Popper e Feyerabend provêm, o supervisor do trabalho doutoral é chamado “Doktorvater”, o pai-doutor) se a psicanálise fosse científica (não é, assegurou Popper!). O autor de “Adeus à Razão” fala da relação com o mestre nos seguintes termos:... “assisti ao seu seminário, uma vez por outra o visitei e falei com o seu gato. Não o fiz de livre vontade, pois era o meu orientador: trabalhar com ele foi uma condição para o British Council me pagar”. Feyerabend completa a sua auto-justificação no final do livro, dizendo um adeus definitivo a qualquer razão: “Sempre gostei de discutir com os amigos sobre religião, arte, política, sexo, assassínio, o teatro, a teoria do quantum da medição e muitos outros temas. Nesta discussões, assumi ora uma posição, ora a outra: mudei de posição — e até a forma da minha vida — em parte como fuga ao tédio, em parte porque não me deixo influenciar (como uma vez Karl Popper comentou com pesar) e em parte devido à minha crescente convicção de que até a perspectiva mais estúpida e inumana tem mérito e carece de boa defesa”. Paul Feyerabend comportou-se, portanto, como uma espécie de Vasco Pulido Valente da filosofia da ciência: vê o que dizem os outros e defende, com visível talento, a opinião contrária. Se os outros mudam, é melhor, para evitar a influência alheia, adoptar depressa a tese oposta. Como nunca ninguém erra, permanecem todos sempre certos...

domingo, 22 de abril de 2007

O que é uma lei da natureza?

Uma das tarefas da filosofia da ciência é esclarecer algumas noções usadas em ciência, como a noção de lei na natureza. Poucos cientistas se apercebem de que estão a usar uma metáfora quando falam de leis da natureza. E muitos confundem a expressão linguística ou matemática de uma lei com a própria lei.

Comecemos pelo primeiro aspecto. A expressão “lei da natureza” é metafórica dado que não se trata de leis no sentido literal do termo: não são como as leis do código civil, por exemplo, ou do código da estrada. As leis, literalmente falando, distinguem-se das leis da natureza por várias razões, mas uma delas é central: a direcção de adequação é oposta. Por “direcção de adequação” (direction of fit), os filósofos querem destacar uma diferença fundamental. Usando um exemplo de Dennett, do livro Tipos de Mentes (Temas e Debates), considere-se o que acontece quando vamos ao supermercado e levamos uma lista de compras. O que queremos é que o carrinho das compras se adeqúe à nossa lista original. Por outras palavras, queremos mudar a realidade para se adequar aos nossos desejos. Contraste-se isto com o que faz o empregado do supermercado quando vai fazer o inventário de uma determinada prateleira: leva um papel em branco e começa a preencher o papel com os nomes e quantidades dos produtos que estão na prateleira. Agora a direcção de adequação é a inversa da anterior: não se trata de querer que a realidade se adeqúe ao que está escrito no papel, trata-se de querer adequar a descrição no papel à realidade. Por outras palavras, neste caso queremos descrever a realidade, ao passo que no caso anterior queremos modificar a realidade de acordo com os nossos desejos.

Os juízos normativos da ética são tipicamente normativos, o que significa que têm uma direcção de adequação semelhante à da lista de compras: queremos que a realidade se adeqúe ao que consideramos correcto. Os juízos descritivos da astronomia ou da história, por exemplo, são descritivos: queremos que tais juízos reflictam de forma fidedigna a realidade.

Assim, as leis da natureza não podem ser tomadas literalmente, pois não são normativas, como as leis literalmente são, mas antes descritivas. Este é o primeiro aspecto.

Mas descrevem o quê? De rerum natura: a natureza das coisas. Não se trata, pois, de pensar que há alguém que legisla literalmente sobre o mundo, fazendo-o comportar-se desta ou daquela maneira. Esta é uma forma errada de entender as leis da natureza. A realidade comporta-se de determinada maneira e não de outra por razões intrínsecas à sua natureza. Porque se comporta de maneira regular, podemos inventar “leis” que a descrevem com muito rigor e podemos fazer previsões muito precisas. Mas não devemos pensar que as leis são uma espécie de mandamentos divinos. Ao que chamamos "leis" seria mais correcto chamar "descrições", muitas das quais são matematicamente quantificadas.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

CRIAÇÃO SEM DEUS


Recém regressado de Itália, leio (também para aprender italiano) de Telmo Pievani, o interessante livrinho "Creazoni senza Dio" (Criação sem Deus), publicado pela Einaudi em 2006 e que eu saiba ainda não traduzido noutras línguas.

Trata-se de um livro de bolso de 137 páginas (só custa oito euros!) que contém um claro e vigoroso ataque ao criacionismo que, vindo do outro lado do Atlântico, começa a ameaçar a Europa (em Portugal já se vêem sinais dessa ameaça, como sabe quem leu post anteriores dest blog). A citação que aparece logo por baixo do título não podia ser mais elucidativa:

"A evolução é um facto. Quem ataca Darwin não o faz por amor à verdade. Quem quer ensinar nas escola as afirmações do 'Desenho Inteligente' tem em mente uma sociedade antimoderna, condicionada por valores religiosos e dogmáticos".

O autor ensina filosofia da ciência na Universidade de Milano Bicocca. É autor de "Homo sapiens e altre catastrofi" (2002), "Introduzione alla filosofia della biologia" (2005) e "La Teoria dell'a evoluzione". Como outros filósofos e cientistas está activo no debate público, ao escrever por exemplo no diário "La Repubblica".

Esta obra é só um exemplo da resposta que a moderna sociedade italiana já está a dar aos que se dizem defensores do "desenho inteligente" mas que são inimigos da inteligência. E nós por cá? Consultadas as livrarias o que vemos de autores portugueses? E os jornais? Ninguém diz nada?

terça-feira, 27 de março de 2007

Uma defesa do método científico


“A maior parte das instituições requerem fé ilimitada; mas, a instituição científica faz do cepticismo uma virtude”.
Robert K. Merton

Esta frase resume, de forma exemplar, o extraordinário valor da ciência. Contrariamente ao que muitas vezes se afirma, não é apenas o método científico que ajuda os cientistas a eliminar hipóteses e a revelar mais e de forma mais profunda a realidade de que fazemos parte. Há um outro elemento extremamente poderoso: a existência de uma comunidade científica que é constituída por pensadores particularmente cépticos dos achados dos outros. Para um cientista fazer passar uma ideia verdadeiramente inovadora é necessário convencer uma imensidão de cépticos. E isso, por vezes, representa várias gerações deles.
A procura do conhecimento, nas fronteiras do desconhecido requer ideias novas, métodos sólidos e medições precisas. Mas, acima de tudo, requer uma atitude de não aceitar justificações irracionais, ou presumir que o conhecimento não possa ser aprofundado e detalhado. A natureza humana tem uma grande facilidade para aceitar dogmas, mas a ciência funciona porque há comunidades científicas que não permitem que o dogma se estabilize. O famoso físico Richard Feynman sintetizou, uma vez, numa frase a sua ideia de ciência: “a Ciência é a crença na ignorância dos peritos”.
Os debates e discussões no interior da ciência são um dos indicadores mais directos da sua vitalidade. Terá a velocidade da luz sido diferente no passado, como propõe, polemicamente, o físico português João Magueijo? Durante o Séc. XIX houve um debate intenso sobre se havia átomos e moléculas; hoje o assunto está decidido. Há uma dezena de anos, questionava-se sobre se os priões realmente existiam ou se se tratava de um mero artefacto. Hoje sabemos que eles são os responsáveis pelas conhecidas encefalopatias espongiformes.
O método científico não é um dogma dos cientistas: é apenas o método mais eficaz que a humanidade já conseguiu inventar para colocar questões sobre a realidade e obter respostas consistentes. Nenhum outro lhe chega perto. Galileu é a figura que surge associada à sua criação. Mas, é herdeiro de uma tradição de quase de três mil anos.