

Este escrito sobre Paul Feyerabend tem por base um artigo que escrevi no “Público” no início dos anos 90. Fui publicamente contestado, mas nesse tempo escreviam-se cartas ao director em vez de se postarem comentários na Net...
A ciência sempre teve os seus amigos e os seus inimigos. Paul Feyerabend (1924-1994) é um dos modermos inimigos da ciência. Zangou-se com Karl Popper (1902-1994), um dos mais influentes filósofos de ciência do século passado. E não há nada como uma desavença pessoal para promover uma luta extremada de ideias e para fazer com que coisas aparentemente tão pacíficas como o método científico e o uso da razão passem a ser denegridos sem dó nem piedade.
De entre os pensadores do século XX, Karl Popper destaca-se por ter obtido uma boa recepção entre os cientistas. Foi ele o defensor da ideia de que a falsificação das teses — a tentativa de provar que se está errado — constitui a base do trabalho científico. Popper admitiu, porém, que
não há em ciência método, confessando-se “
professor de um assunto inexistente”. De facto, o inglês Peter Medawar, um Prémio Nobel da Medicina defensor e divulgador das ideias de Popper, chamou à ciência “
a arte do solúvel”, enfatizando o papel da criatividade pessoal, que parece por vezes extravasar os limites colocadas por qualquer metodologia da ciência e que só encontra paralelo nos processos de produção artística. Embora possa não existir o método científico como chave universal que abre infalivelmente as portas do desconhecido, talvez se possam descobrir traços comuns do trabalho dos cientistas, esses permanentes acrescentadores do conhecimento sobre o mundo. O reconhecimento do erro pela crítica e pela experimentação é, segundo Popper e os popperianos, uma dessas marcas. Localizar o erro e aprender com ele são propósitos permanentes de quem trabalha nos institutos e laboratórios de ciência... Só um cientista pode ficar feliz ao descobrir que, afinal, tinha ideias erradas.
Paul Feyerabend, nascido em Viena de Áustria tal como Popper (curiosamente morreram os dois no mesmo ano), foi aluno de Popper antes de se zangar com o mestre. Os motivos do desaguisado não são inteiramente claros, mas foram suficientemente fortes para acender uma polémica que se manteve durante largo tempo e que, embora os dois já tenham falecido, de certo modo ainda hoje persiste. É a dos amigos da ciência contra os seus inimigos.
Feyerabend começou por criticar não só o popperismo como o método científico de uma maneira que, por vezes, parece exceder os limites do bom senso e das boas maneiras. Os dois personagens estão nos antípodas um do outro. Um viveu na Inglaterra, o país onde a física, com Newton, se desenvolveu e onde há uma forte tradição de filosofia empírica, tendo sido professor na London School of Economics. O outro estabeleceu-se nos Estados Unidos, nomeadamente na Universidade de Berkeley, onde, apesar de haver uma boa escola de física, o multiculturalismo e o pensamento libertário obtiveram bom acolhimento.
Feyerabend escreveu, em 1975, um livro com um título claro: “
Contra o Método”. Passou o resto da sua vida a justificar o que aí tinha escrito. Segundo ele, não só não existe método científico, como o racionalismo é um refinado equívoco, sendo Popper pouco menos do que um imbecil. Está-se já a ver que se trata de uma boa profissão de fé para um livre-pensador (um anarquista, mesmo), mas tudo junto, atado e pesado, não chega para fazer escola (nunca se viu, de resto, uma escola de anarquistas!).
"
Contra o método" foi publicado em Portugal em 1993 pela Relógio d’Água. Mas dois anos antes vieram a lume entre nós dois livros que lhe fazem sequência. Um foi “
Diálogo sobre o Método”, na Editorial Presença, e o outro foi “
Adeus à Razão”, nas Edições 70. 0 primeiro inclui dois diálogos entre um popperiano e um feyerabendiano (o diálogo é aí usado na tradição de Galileu e Lakatos, mas sem nunca atingir a profundidade destes antecessores do género). A conversa do “
Diálogo sobre o Método” é por vezes fiada, ainda que parecendo afiada. O feyerabendiano chega a ponto de defender a astrologia, as chamadas medicinas alternativas, e de ser saudosista do paraíso que se perdeu com o advento da ciência. Parece que Feyerabend não sabe que o número de astrólogos burlões ultrapassa de longe o número de cientistas fraudulentos, embora estes últimos obviamente existam. O leitor pode interrogar-se se o professor de Berkeley ia à bruxa ou ao médico em caso de doença grave. E a história do “paraíso perdido” só pode ser contada por pessoas que nunca andaram a lascar pedra no paleolítico ou não tiveram o azar de andar a cavar terra na época feudal. Não vale a pena perder muito tempo com o “
Diálogo contra o Método”: um leitor culto que deite o olho inocente ao livro fica sem saber se o autor está a falar a sério ou se está a gozar.
“
Adeus à Razão” é uma obra mais séria. Trata-se de uma colectânea de textos de tempos diferentes, alguns dos quais numa linha relativista (segundo os pensadores doo relativismo — Einstein que lhes perdoe! — tudo tem o mesmo valor e todos têm razão) e outros que, sem ir tão longe, se limitam a defender a “diversidade” contra a pretensa “uniformidade” imposta pelas regras da razão. Começa pelos gregos, passa por Galileu, defende a obra de Mach, no século XIX, e chega quase à actualidade, batendo forte e feio no que chama “
excursões de Popper na filosofia”. Num capítulo sugestivamente intitulado “
Galileu e a tirania da verdade” Feyerabend faz a apologia do cardeal Belarmini, que esteve envolvido no processo a Galileu, por esse príncipe da Igreja ter estado do lado das aparências e da tradição, quando o perigoso Galileu trazia a prova (observacional, matemática) e a ruptura. Não se compreende porque é que a Igreja reabilitou Galileu (passados escassos quatrocentos anos, mas as escalas de tempo eclesiásticas são diferentes!) e Feyerabend não. Ele é capaz de irritar o mais santo... Quando escreve, por exemplo e a propósito de Galileu, que "
os cientistas modernos (...) transformaram as tribulações de um escroque ansioso num conflito de gigantes” está decerto à procura de polémica fácil. Sobre Popper, diz que “
não passa de uma pequeníssima baforada de ar quente na chávena de chá do positivismo”. Não é preciso ser-se Popper ou popperiano, bastando conhecer um pouco do racionalismo crítico para se sentir escaldado com a metáfora.
Mas, dito isto, deve acrescentar-se que a vida seria muito menos interessante sem os provocadores. Refiram-se, por exemplo e no século XIX, as intervenções anti-científicas de Nietzsche, quando imperava um racionalismo cego e primitivo. Feyerabend, embora sem nunca fazer sombra a Nietzsche, é um provocador culto, que estudou história das ciências e até sabe escrever escorreitamente. Pode pois recomendar-se o “
Adeus à Razão”, confiando que os seus leitores saibam decidir o que é razoável e o que não é. A Feyerabend faltou talvez a prática da ciência, que tiveram Kuhn, Lakatos ou Holton, para experimentar a emoção que advém da convivência quotidiana com a interrogação científica e o prazer que representa a procura incessante do erro.
O caso de Feyerabend mostra que um estudante de doutoramento, quando embirra com o supervisor, pode ficar traumatizado para toda a vida, o que talvez pudesse ter uma explicação freudiana (no espaço de língua alemã, de onde Popper e Feyerabend provêm, o supervisor do trabalho doutoral é chamado “
Doktorvater”, o pai-doutor) se a psicanálise fosse científica (não é, assegurou Popper!). O autor de “
Adeus à Razão” fala da relação com o mestre nos seguintes termos:... “
assisti ao seu seminário, uma vez por outra o visitei e falei com o seu gato. Não o fiz de livre vontade, pois era o meu orientador: trabalhar com ele foi uma condição para o British Council me pagar”. Feyerabend completa a sua auto-justificação no final do livro, dizendo um adeus definitivo a qualquer razão: “
Sempre gostei de discutir com os amigos sobre religião, arte, política, sexo, assassínio, o teatro, a teoria do quantum da medição e muitos outros temas. Nesta discussões, assumi ora uma posição, ora a outra: mudei de posição — e até a forma da minha vida — em parte como fuga ao tédio, em parte porque não me deixo influenciar (como uma vez Karl Popper comentou com pesar) e em parte devido à minha crescente convicção de que até a perspectiva mais estúpida e inumana tem mérito e carece de boa defesa”. Paul Feyerabend comportou-se, portanto, como uma espécie de Vasco Pulido Valente da filosofia da ciência: vê o que dizem os outros e defende, com visível talento, a opinião contrária. Se os outros mudam, é melhor, para evitar a influência alheia, adoptar depressa a tese oposta. Como nunca ninguém erra, permanecem todos sempre certos...