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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A Máquina do Tempo

Informação recebida do Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho:

O projecto “Quark!” e o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho levam a cabo a iniciativa “Ciência e Ficção“. A próxima palestra é já na próxima sexta-feira, 26 de Fevereiro, nas instalações daquele Centro no piso térreo do Departamento de Física da Universidade de Coimbra. O tema é o livro "A Máquina do Tempo" do escritor inglês H.G. Wells:

* Nome da Obra: "A Máquina do Tempo"
* Autor: H. G. Wells
* Palestrante: José Manuel Mota (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)

Sinopse do livro:

No final da época vitoriana, um cientista inventa a Máquina do Tempo e viaja até ao ano 802.700, onde encontra tudo mudado.

Nesta época, muito mais utópica, as criaturas que encontra pareciam viver em perfeita harmonia.

O Viajante do Tempo pensa poder estudar estes magníficos seres humanos, desvendar-lhes os segredos e regressar ao seu tempo. Até que descobriu que a sua invenção, o seu passaporte para a fuga, tinha sido roubada…

Ínformação sobre o ciclo "Ciência e Ficção":

Uma sexta-feira por mês, nos fins de semana da escola Quark!, pelas 21h15m, no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho (Departamento de Física da FCTUC), haverá debate com convidados, à volta de livros de ficção científica… e da ciência que estes encerram.

O mote será dado por uma determinada obra, num total de seis eventos, de Janeiro a Junho de 2010. Cada sessão terá um convidado especial, que fará uma exposição inicial, onde apresenta a obra em análise. Seguir-se-á um debate.

A ficção científica é bom pretexto para se discutir a própria ciência, mas também a literatura, a história e a sociedade. O debate a propósito de cada obra terá sempre o enfoque científico, mas num contexto que faz sair a própria ciência das suas fronteiras, em diálogo com todas as áreas do saber.

Concomitantemente, para cada um dos eventos, haverá uma edição do concurso “Ciência e ficção“. Este concurso desenvolver-se-á da seguinte forma: estará disponível no portal do CCVRC um questionário sobre o autor do mês para ser preenchido on-line. As respostas que obtiverem a melhor pontuação serão premiadas com um pacote de livros de divulgação científica.

sábado, 30 de janeiro de 2010

O FINANCIAMENTO DA IDA À LUA


Ontem, a interessantíssima sessão de Maria Luísa Malato Borralho no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, em Coimbra, sobre Júlio Verne levou-me a reler passagens o livro "Da Terra à Lua". E na edição do projecto Gutenberg (Imprensa Nacional, 1874, tradução de Henrique de Macedo, "Lente de mathematica na escola polytechnica e astronomo no observatorio de marinha") do livro foi fácil encontrar a única referência a Portugal, que participou no projecto global (globalização "avant la lettre"!) com 30000 cruzados, pouco mas que, apesar de tudo, foi mais do que deu a Espanha, que andava a construir ferrovias (o TGV da época) e cujo espírito anti-científico é ridicularizado por Verne. Transcrevo o delicioso texto verniano, onde é patente uma humorística sociologia das nações, com o itálico meu sobre a contribuição ibérica:
"Tres dias depois da publicação do manifesto do presidente Barbicane estavam subscriptos nas differentes cidades da União, quatro milhões de dollars. Com esta somma, por conta de maior quantia, já o Gun-Club podia ir fazendo alguma cousa. Dias depois, noticiavam os despachos telegraphicos á America que as subscripções no estrangeiro eram cobertas com verdadeiro enthusiasmo. Alguns paizes faziam-se notaveis pela generosidade da sua offerta. A outros lá custava mais a desapertar os cordões á bolsa. Questão de temperamento.

Em summa, mais eloquentes são os algarismos que as palavras, e eis a descripção official das sommas que foram escripturadas no activo do Gun-Club, logoque se encerrou a subscripção.

A Russia deu como contingente a enorme quantia de trezentos sessenta e oito mil setecentos e trinta e tres rublos, e só poderá causar espanto a grandeza da quantia a quem desconhecer o gosto dos russos pelas sciencias, e o progresso que imprimem aos estudos astronomicos, devido aos numerosos observatorios que possuem, dos quaes um, o de mais importancia, custou dois milhões de rublos.

A França começou por se rir das pretensões dos americanos. Serviu ali a Lua de pretexto a mil calembourgs já estafados, e a algumas dezenas de vaudevilles em que o mau gosto e a ignorancia disputavam primazias. Porém os francezes, que já de antiga data trazem o habito de cantar e ainda em cima pagar, d'esta vez riram, mas tambem depois pagaram, subscrevendo com a quantia de um milhão e duzentos e cincoenta tres mil novecentos e trinta francos. Por este preço realmente assistia-lhes o direito de se divertirem um bocado.

A Austria, apesar dos seus apertos financeiros, mostrou generosidade bastante. Elevou-se a parte d'esta potencia, na contribuição geral, á quantia de duzentos e dezeseis mil florins, que bem boa conta fizeram.

Cincoenta e dois mil rixdales foi o obolo da Suecia e da Noruega. A cifra já era de consideração em proporção do paiz; porém, maior ainda teria sido, se a subscripção se tivera aberto ao mesmo tempo em Christiania e em Stockholmo. Seja lá por que rasão for, o caso é que os norueguezes não gostam de mandar o seu dinheiro para a Suecia.

A Prussia deu testemunho, mandando duzentos e cincoenta mil thalers, de que prestava á tentativa a sua alta approvação. Os differentes observatorios d'esta nação contribuiram de boa vontade com uma quantia importante, e foram dos que com mais ardor animaram o presidente Barbicane.

A Turquia portou-se com generosidade, e não admira porque estava pessoalmente interessada n'aquelle assumpto, visto ser a Lua quem lhe fixa o curso dos mezes e a epocha dos jejuns do Ramadan. Nem lhe ficava bem dar menos de um milhão trezentas e setenta e duas mil seiscentas e quarenta piastras, que foi o que effectivamente deu, e com ardor tal que parecia até dar a entender que houvera certa pressão da parte do governo da Porta.

A Belgica distinguiu-se entre todos os estados de segunda ordem por um donativo de quinhentos e treze mil francos, proximamente treze centimos por habitante.

A Hollanda e suas colonias tomaram parte na operação com cento e dez mil florins, mas sempre foram pedindo cinco por cento de desconto, visto pagarem de contado.

A Dinamarca, um tanto restricta em extensão territorial sempre rendeu novecentos mil ducados de oiro fino, o que é prova do amor que os dinamarquezes consagram ás expedições scientificas.

A Confederação germanica cooperou com trinta e quatro mil duzentos e oitenta e cinco florins; não se lhe podia exigir mais, nem que lh'o exigissem o daria.

Apesar dos seus grandes apuros a Italia sempre encontrou nas algibeiras dos seus filhos duzentas mil liras, mas foi preciso rebusca-las bem. Se a Italia já estivera de posse do Veneto melhor iria o negocio, mas o caso é que ainda não possuia o Veneto.

Os Estados da Igreja entenderam não dever mandar menos de sete mil e quarenta escudos romanos, e Portugal levou a sua dedicação pela sciencia até trinta mil cruzados.

O Mexico, esse deu o obolo da viuva, oitenta e seis piastras fortes; verdade é que os imperios, nos primeiros tempos da sua fundação, sempre vivem pouco á larga de meios.

De duzentos e cincoenta e sete francos foi o auxilio modesto prestado pela Suissa á obra americana. Força é dize-lo e francamente, a Suissa não percebia o lado pratico da operação; não se lhe afigurava que o acto de arremessar uma bala á Lua fosse preliminar adequado para entabolar relações commerciaes com o astro das noites, e n'este presupposto pareceu-lhe pouco prudente empenhar capitaes em tentativa tão aleatoria. E no fim de contas talvez a Suissa tivesse rasão.

Em Hespanha é que foi impossivel juntar mais de cento e dez reales, circumstancia a que serviu de pretexto ter a nação que acabar os seus caminhos de ferro. Mas a verdade é que a sciencia não é cousa lá muito bem vista em tal paiz, que ainda está um tanto atrazado. E demais, havia certos hespanhoes, e não eram dos menos illustrados, que não concebiam com exactidão que relação havia entre a massa do projectil comparada com a da Lua, e que temiam que o choque fosse alterar a orbita do astro, perturba-lo no seu papel de satellite, provocando-lhe a quéda na superficie do globo terrestre. Em casos taes o melhor era abster-se. E foi o que, com differença de alguns poucos reales, fizeram os hespanhoes.

Falta a Inglaterra. Já dissemos com que desdenhosa antipathia fôra ali recebida a proposta Barbicane. Os inglezes têem todos uma só e mesma alma para todos os vinte e cinco milhões de habitantes que povoam a Gran-Bretanha. Limitaram-se a dar a entender que o emprehendimento do Gun-Club era contrario ao «principio de não intervenção», e nem com um ceitil concorreram.

O Gun-Club, quando soube tal nova, deu-se por satisfeito em erguer os hombros, e proseguiu na sua grande tarefa. Logo que a America do Sul, isto é, Peru, Chili, Brazil, provincias do Plata, Columbia entregaram a sua quota de trezentos mil dollars, ficou o Gun-Club de posse do consideravel capital cujo computo detalhado segue:

Dollars
Subscripção dos Estados Unidos 4.000:000
Subscripções estrangeiras 1.446:675

Somma 5.446:675

Eram portanto cinco milhões quatrocentos e quarenta e seis mil seiscentos e setenta e cinco dollars, que o publico tinha despejado nos cofres do Gun-Club."

Júlio Verne

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Ciência e Ficção


Informação recebida do Centro Ciência Viva Romulo de Carvalho:

O projecto “Quark!” e o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho levam a cabo a iniciativa “Ciência e Ficção“.

Uma sexta-feira por mês, nos fins de semana da escola Quark!, pelas 21h15m, no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho (situado Departamento de Física da FCTUC), haverá debate com convidados, à volta de livros de ficção científica… e da ciência que estes encerram.

A primeira secção será sobre a Obra "Da Terra à Lua" de Júlio Verne.

· Data: 29 de Janeiro de 2010

· Hora e local: 21h15, CCVRC, Departamento de Física da Universidade de Coimbra

· Palestrante: Maria Luísa Malato

· Tema: Espaços imaginários da Lua e outros planetas

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Substitutos? Naaah!

Apareceu recentemente nos cinemas um filme intitulado "Substitutos" ("Surrogates" no original em inglês). Segundo esse filme, os robôs viveriam por nós apesar de comandados pelo nosso cérebro através de uma ligação remota. Ficção científica e show-business. O habitual em Hollywood.

Podem ver aqui o trailer do filme:



É preciso saber distinguir a ficção da realidade. Os robôs representados no filme estão fora do nosso alcance, isto é, nem são possíveis hoje, nem é realista admitir que sejam tecnicamente possíveis em menos de 30 anos.

No entanto, a robótica actual tem sido usada para ajudar as pessoas. Não para as substituir, mas para permitir que realizem tarefas de uma forma mais simples e mais confortável. Um BOM exemplo é a utilização de robôs para melhorar a performance física daqueles que perderam qualidades motoras: por acidente, doença ou devido à idade. A Honda, por exemplo, lançou recentemente um protótipo que permite auxiliar a locomoção humana.



:-)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Com a Cabeça na Lua

Informação recebida da editora Saída de Emergência:

Antologia única em todo o mundo, com textos de vários autores, para comemorar os 40 anos da chegada à Lua.

Com autores tão distintos como Robert A. Heinlein,Isaac Asimov e Arthur C. Clarke
Em 20 de Julho de 1969, Neil Armstrong tornava-se o primeiro homem a pisar o solo lunar e, consequentemente, o primeiro ser humano a visitar um outro mundo que não a Terra. O feito, desde então inigualado, permanece como o maior desafio tecnológico a que a Humanidade se propôs. Antes, porém, de o Programa Apollo terproporcionado o célebre pequeno passo para o Homem, um salto de gigante para a Humanidade, inúmeros autores de Ficção Científica – até então considerada um género menor – tinham levado o Homem à Lua pelos mais variados meios e pelos mais diversos motivos.

Este livro mostra como a cabeça esteve na Lua antes dos pés lá estarem.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

KNOWING



"Knowing", um misto de filme de ficção científica e filme de terror, que é actualmente o número um nas bilheteiras dos Estados Unidos e do Reino Unido, conta a história de um professor de astrofísica do MIT (Nicholas Cage), pai de um filho pequeno, que se confronta com forças ocultas e seres extraterrestres. Na acção - há mesmo muita acção - começa por surgir uma lista de números escritos por uma pequena vidente, 50 anos atrás, que prenuncia um rol de desgraças, algumas das quais se vão concretizando perante a impotência do astrofísico. O fim é mesmo o apocalipse na Terra, devido a uma catástrofe climática global de origem solar, salvando-se apenas... (adivinhem quem, não vou contar o fim). Um filme que é um sinal destes tempos pesados após o 11 de Setembro. Melhores dias virão. E melhores filmes, espero, também.

sábado, 13 de dezembro de 2008

O IMPOSSÍVEL ACONTECE


Minha crónica de hoje no "Sol":

Que não é impossível escrever um bom livro sobre o impossível prova-o “A Física do Impossível”, do físico norte-americano Michio Kaku, que acaba de sair na Bizâncio.


O impossível é uma questão fascinante. Tal como o autor podemos interrogar-nos: Mas impossível porquê? Por mera dificuldade técnica, o que significa que é afinal possível? Ou por absoluta impossibilidade científica, o que significa que é impossível de todo? Mas existirão estas impossibilidades totais e permanentes? Não é verdade que hoje sabemos muito mais que ontem e que amanhã saberemos ainda mais e que, por isso, o que declaramos impossível hoje pode já não o ser amanhã?


Kaku, o grande divulgador de ciência que já nos tinha dado “Visões – Como a Ciência Irá revolucionar o século XXI” e “Mundos Paralelos” (ambos na Bizâncio) e “O Cosmos de Einstein” (na Gradiva), divide os impossíveis em três classes:


I) O que, embora pareça impossível, é afinal possível porque não viola nenhuma lei da física, e será provavelmente concretizado neste século ou no próximo.


II) O que, embora pareça impossível, pode ser possível porque a ciência de base está actualmente na sua infância e, apesar de muito difícil, será provavelmente concretizado neste milénio ou nos próximos mil milénios.


III) O que é mesmo impossível e, por isso, nunca acontecerá, por violar leis da física que hoje conhecemos bem. Mas, se um dia, essas leis vierem a ser revistas...


Na primeira classe, o autor inclui a invisibilidade e o teletransporte (está-se a trabalhar nisso e há avanços recentes). Na segunda, as viagens no tempo e as viagens às estrelas (está-se a especular sobre isso). Na terceira, as máquinas de movimento perpétuo, isto é, máquinas que funcionariam graças à criação de energia a partir do nada, e a precognição. Há, como sempre houve, muitos impostores a tentar ganhar dinheiro com coisas impossíveis da classe III e é preciso ser céptico.


Kaku escolheu a física fascinado por Einstein e pelos filmes de ficção científica. Esta sua obra mistura sabiamente as duas coisas.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

NOVOS LIVROS DA BIZÂNCIO


Informação recebida da Editora Bizâncio:

Título: A Física do Impossível

Subtítulo: Uma Exploração Científica dos Fasers, Campos Magnéticos, Campos de Forças, Teletransporte e Viagens no Tempo

Autor: Michio Kaku

Colecção: Máquina do Mundo, 25


Há cem anos, os cientistas teriam afirmado que os lasers, a televisão e a bomba atómica seriam impossíveis. Em A Física do Impossível, o famoso físico Michio Kaku analisa até que ponto as tecnologias que encontramos na ficção científica, e que são hoje em dia consideradas impossíveis, poderão ser comuns no futuro. Do teletransporte à telecinese, Kaku recorre ao mundo da ficção científica para analisar os fundamentos – e os limites – das leis da Física tal como as conhecemos hoje. Dividindo as tecnologias impossíveis em categorias – Classes I, II e III – conforme possam ser alcançáveis nos próximos séculos, nos próximos milénios ou talvez nunca, o autor, numa prosa intelectualmente estimulante, explica-nos:

• Como os foguetões com estatorreactores, as velas propulsionadas por lasers e os motores de antimatéria poderão um dia levar-nos às estrelas mais próximas;

• Como a telepatia e a psicocinese, outrora consideradas pseudociência, poderão um dia ser possíveis com os progressos dos computadores, da supercondutividade e da nanotecnologia;

• Por que razão uma máquina do tempo parece ser consistente com as leis conhecidas da Física, mas seria necessária uma civilização muito avançada para a construir.


A Física do Impossível conduz os leitores numa viagem inesquecível ao mundo da ciência, uma viagem de aventura que simultaneamente ensina e diverte.


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Título: O Deus que não Temos

Subtítulo: Uma História de Grandes Intuições e Mal-entendidos

Autor: Sebastião J. Formosinho e J. Oliveira Branco

Colecção: Máquina do Mundo, 24


«Um livro sobre Deus? Qualquer discurso sobre Deus, prático ou teórico, é antes de mais um discurso sobre o homem. Quem é crente afirma a convicção que tem e quem não é recusa a ideia que faz ou vê outros fazerem, talvez em razão de outra ideia que tem por mais pura sobre ‘Deus’. Sendo que uns e outros usam um nome, humano, importa saber o que valem essas ideias. Mas será que se pode pensar Deus? É pertinente a pergunta de Nietzsche. Seja o que for que se pense ou diga o nome de Deus vai ser sempre marcado por pré-conceitos e equívocos e por intuições notáveis acumulados na tradição dos crentes e na dos ateístas.

Ambos precisam de ouvir-se mutuamente se querem progredir em ordem a um discernimento amadurecido. Este livro ‘sonha’ com esta maturidade cultural, visa contribuir para ela. Todavia não é um livro técnico de Filosofia da linguagem. Dirige-se a um público mais vasto, culto, e disposto a indagar sem temor as questões do humano. Depois de O Brotar da Criação e de A Pergunta do Job (O Mistério do Mal), os autores completam agora a trilogia com este O Deus Que Não Temos. Se é Deus, ninguém o pode ter e nem o pensar finito O pode dizer. Mas a insatisfação e os dinamismos da existência e da História interrogam a todos. Haja coragem de discernir para além do saber vulgar e científico e dos rumos da cultura e das crenças religiosas. Agitar a rotina da linguagem proporciona surpresas estimulantes. Convidamos o leitor a descobri-las. Vale a pena sondar a esperança que anima os anseios do humano.»

Da Introdução

terça-feira, 28 de outubro de 2008

FESTIVAL DE BANDA DESENHADA DA AMADORA


O Festival de Banda Desenhada da Amadora deste ano é dedicado ao tema "Tecnologia e Ficção Científica". Para mais informações ver aqui.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Anátema

Na "Sunday Book Review" do "New York Times", saído hoje, sob o título "The Planet of the Monks", encontra-se uma recensão da autoria de Dave Itzkoff de "Anathem", o último livro do escritor de ficção científica norte-americano Neal Stephenson, de quem já aqui tenho falado. Em português e publicadas recentemente pela Tinta da China encontram-se nas livrarias duas obras dele que são os três primeiros volumes do chamado "Ciclo Barroco": "Argento Vivo", "O Rei dos Vagabundos" e "Odaliscas".

Transcrevo um extracto que nos dá uma ideia da trama da obra, que seria porventura mais de ficção filosófica do que de ficção científica se acaso esse género existisse:

"In the acknowledgments of ANATHEM (Morrow/HarperCollins, $29.95), Stephenson, the author of such meticulous historical novels as “Cryptonomicon” and “The Baroque Cycle,” gives inspirational credit for his latest work of fiction to a long line of distinguished thinkers, from Thales and Plato to Husserl and Gödel. But it is the spirits of the Greeks that exert the greatest influence on “Anathem”: at its best, the book is a thought experiment in narrative form, a meditation on how far a society can go on pure reason and arguments from first principles.

It is an intricate Socratic puzzle, yet — though you may wish to banish me or pour hemlock down my throat for saying this — I’m not entirely sure it’s a novel.

Set in a world that is similar but not identical to our own, “Anathem” imagines a modern-day monastic order whose members have pledged to live their lives without computers or electronic technology. Having long ago set aside such un­answerable questions as “Does God exist?” these alternative Augustines are free to contemplate issues of math, physics and philosophy; depending on the order they belong to, they are allowed to visit the outside world as much as once a year or as little as once a millennium."
O resto da recensão pode ser lido aqui.

domingo, 24 de agosto de 2008

A física do impossível


Transcrevemos o artigo de Nelson Marques com o título de cima da revosta "Única" do semanário "Expresso" de ontem:

Alguns dos temas da ficção científica poderão tornar-se realidade num futuro não muito longínquo, defende o físico norte-americano de ascendência japonesa Michio Kaku. A invisibilidade pode estar à distância de poucas décadas mas viajar no tempo demorará muito mais

“Se, a princípio, a ideia não é absurda, então não há esperança para ela”. A frase de Albert Einstein é o ponto de partida para o mais recente livro do reputado físico teórico norte-americano, Michio Kaku, professor da City University de Nova Iorque e um adepto da “teoria de tudo” desejada por Einstein. Em “A Física dos Impossíveis”, que chegará a Portugal no Outono com a chancela da Bizâncio, Kaku aborda algumas das fantasias clássicas da ficção científica que, na sua opinião, poderão tornar-se uma realidade. O "Expresso" revela-lhe algumas dessas teorias mais extravagantes e dá-lhe a conhecer a opinião do físico português Carlos Fiolhais, da Universidade de Coimbra.

Teletransporte

Apesar do cepticismo da generalidade dos cientistas sobre a possibilidade de desmaterializar uma pessoa num lugar e rematerializá-la noutro, o físico japonês acredita que o cenário imaginado na popular série “Star Trek” poderá mesmo ser uma realidade dentro de dois séculos. Kaku lembra que os físicos estão já a realizar experiências de teletransporte de partículas conhecidas como fotões a uma distância de 142 quilómetros, um fenómeno descrito por Albert Einstein como “efeito fantasmagórico à distância”. Contudo, os fotões não são transportados verdadeiramente, já que os fotões originais são destruídos e o que chega ao outro lado são fotões idênticos com a mesma informação dos iniciais.

O veredicto de Carlos Fiolhais: "Sou céptico. O chamado teletransporte que se faz actualmente com luz pouco tem a ver com a ideia do “Star Trek” de passar instantaneamente o Capitão Kirk de fora para dentro da nave."

Invisibilidade

Kaku acredita que esta impossibilidade física até agora será a primeira a tornar-se realidade, no espaço de apenas uma década. A opção mais promissora é familiar aos fãs de Harry Potter: passa pela criação de uma espécie de capa de invisibilidade, capaz de desviar a luz dos objectos, tornando-os invisíveis. Para o conseguir, os cientistas estão a desenvolver um novo tipo de substâncias, denominados metamateriais, com propriedades electromagnéticas muito diferentes dos materiais comuns. Enquanto estes têm um índice de refracção positivo, os metamateriais apresentam um índice negativo, permitindo camuflar o objecto.

O veredicto de Carlos Fiolhais: "Acho perfeitamente possível. De certo modo os aviões invisíveis ao radar (luz de microondas) são já um protótipo de objectos invisíveis à luz".

Viagens no tempo

É outro dos temas mais recorrentes dos filmes de ficção científica e, segundo o professor catedrático da Universidade City de Nova Iorque, não existe nenhum impedimento nas leis da física que torne impossível viajar no tempo. A esse propósito, Kaku lembra o consagrado físico teórico Stephen Hawking, professor da Universidade de Cambridge, o qual, durante grande parte da sua carreira, descartou essa possibilidade, mas, desde há uma década, vem admitindo que “é possível, mas nada prática”. Para forma de concretizar este desafio, os cientistas terão que, segundo Kaku, desenvolver os seus próprios buracos de verme, atalhos cósmicos que funcionam como ligações entre regiões do universo. A intensa gravidade destes túneis seria suficiente para desintegrar a estrutura do espaço-tempo, funcionado assim como janelas para viajar no tempo. Um cenário que, admite o autor, poderá levar, contudo, alguns milénios a concretizar-se.

O veredicto de Carlos Fiolhais: "Às viagens no tempo não digo categoricamente que não, mas, se possíveis, serão extremamente difíceis e muito limitadas."

Contacto com vida extraterrestre

O autor norte-americano acredita que um possível contacto com qualquer cultura extraterrestre poderá acontecer no prazo de apenas algumas décadas. Para justificar o seu optimismo, lembra que nunca como hoje a comunidade científica dispôs de tão boas oportunidades para entrar em contacto com outros mundos. Os satélites e telescópios espaciais de última geração irão permitir, de acordo com o cientista, analisar mil vezes mais dados do que aqueles recolhidos até hoje. Entre eles está o satélite "Kepler", que a NASA pretende lançar em Fevereiro do próximo ano para encontrar no espaço planetas semelhantes à Terra.

O veredicto de Carlos Fiolhais: "Gosto da ideia de que “há mais mundos”. Não me admiraria nada que viesse a acontecer... Seria um marco importante para a Humanidade."

Nelson Marques
unica@expresso.pt

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

COMO TORNAR-SE BATMAN?


A propósito do recente filme "The Dark Knight" tem-se falado mais do Joker do que do Batman. Mas é do Batman que fala o próximo livro do neurocientista canadiano (professor na Universidade de Victoria) E. Paul Zehr, "Becoming Batman: The Possibility of a Superhero" (The John Hopkins University Press).

O jornal britânico "The Independent" de 30 de Julho passado, no artigo "From zero to hero" de Simon Usborne. levanta um pouco o véu sobre o livro a sair ainda este ano. Declarou a esse jornal o Prof. Zehr, que é um fã do Batman a ponto de em pequeno se vestir com o fato desse superherói: "O que torna Batman um grande superherói é o facto de ele ser um humano sem qualquer superpoderes. Não nasceu noutro planeta nem foi mordido por uma aranha mutante; simplesmente tem muito dinheiro e muita habilidade. Mas ninguém tinha avaliado se era ou não possível uma pessoa tornar-se Batman - eu queria analisar essa possibilidade cientificamente e cheguei à resposta".

A resposta é sim. Usando os seus conhecimentos sobre o cérebro e o corpo humano (o professor é também perito em artes marciais) pensa que sim, embora seja muito difícil. Julga que demoraria de 15 a 20 anos de treino adequado, começando o mais cedo possível. O cérebro deve ser capaz de responder aos mínimos movimentos, exercendo total domínio sobre o próprio corpo. Os seus olhos devem ser capazes de ver pormenores numa cena, tal como um detective policial, e de ter a percepção adequada do movimento, tal como um excepcional jogador de futebol (um misto de Sherlock Holmes e Cristiano Ronaldo, portanto). Para isso e para muito mais, Zehr calcula que seja necessária uma dieta especial, de 4000 calorias diárias (60% de hidratos de carbono, 25% de proteínas e 15% de gordura), o dobro das necessidades normais.

Só falta saber se há mesmo quem se queira transformar em Batman. E falta, claro, o livro sobre como se transformar em Joker...

VIAGEM AO CENTRO DA TERRA 3D



Já está nos cinemas de todo o planeta (em breve também nos cinemas portugueses) uma nova versão do clássico de Júlio Verne de 1864 "Viagem ao Centro da Terra". Desta vez a novidade é o facto de ser um filme de acção com actores reais que pode ser visto em 3D (em Portugal há vários cinemas equipados para projecção 3D digital). O 3D já não é novo no grande ecrã, mas a tecnologia tanto da projecção de imagens como dos óculos melhorou a tal ponto que Hollywood promete para breve mais filmes do mesmo género.

O guião do filme de Eric Brevig, apesar de tomar as suas liberdades, é largamente inspirado no livro de Verne. No original era um cientista alemão que, com o seu sobrinho, entrava no interior da Terra na Islândia. Agora trata-se de um geólogo americano (Brendan Fraser), a história passa-se nos tempos de hoje - que faz o mesmo com o seu sobrinho (Josh Hutcherson). Em vez de um guia islandês, agora há uma guia islandesa ( Anita Briem, uma jovem actriz da mesma nacionalidade) que, no fim, e como era fácil prever, se apaixona pelo cientista.

Boa parte da trama de Verne está lá, incluindo o grande oceano subterrâneo, o "mundo perdido" à la Conan Doyle com dinossauros e tudo, a jangada apanhada por uma tempestade e até a saída pela boca de um vulcão italiano. Vê-se já deste resumo que há muito mais ficção do que ciência (há grandes erros, como o trecho completamente delirante das pedras magnéticas que flutuam!), mas, de vez em quando, lá vêm uns apontamentos interessantes de geologia.

O filme é de acção, muita acção, o que lhe traz e vai trazer muito público juvenil. Parece que existe um parque de diversões no interior da Terra. A cena louca dos comboios mineiros faz lembrar o Indiana Jones. Os efeitos 3D aumentam a emoção por exemplo quando trazem para perto do espectador as mandíbulas do Tiranossauro Rex ou a boca de uma feroz planta carnívora. Para os adultos, é um filme para levar os sobrinhos ou os filhos (a sala de cinema não é o interior da Terra mas também faz escuro), para além claro de mostrar a "novidade" do 3D. Mas é apenas um filme de férias e não se lhe peça mais do que isso...

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A CIÊNCIA DOS SUPERHERÓIS


Está nas telas do cinema outra adaptação de "The Incredible Hulk" (de Louis Leterrier, 2008). Ainda não vi, mas é uma boa ocasião para reproduzir a minha crítica à versão anterior (de Ang Lee, 2003), que se encontra no meu livro "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva, 2005). Lembro, a propósito de superheróis, que o Superhomem fez há pouco 70 anos, não parecendo ter envelhecido...

Esteve nos cinemas “Hulk”, ou melhor “The Incredible Hulk”, um filme de um superherói que se seguiu a um filme de um outro superherói, “SpiderMan”, ou melhor “The Amazing Spiderman”. Tanto um filme como outro iniciaram-se nas histórias aos quadradinhos norte-americanas, os “comic-books”. Tanto “Hulk” como “Spiderman” aparecerem em 1962: o segundo, talvez mais conhecido, foi criado por Stan Lee, tendo aparecido no nº 15 da revista “Amazing Fantasy”. Em 1977 estrearam-se os dois como séries de televisão na cadeia CBS (tinha havido um pouco antes a estreia do “Spiderman” na televisão embora em em desenhos animados). Em 2003, quando os dois superheróis já tinham 42 anos, chegaram finalmente ao cinema. As películas não são muito diferentes. Nas duas há um herói capaz de fazer coisas incríveis. E nas duas essas capacidades têm a ver com a ciência, ou melhor, com alguns “desvios” da ciência. Vale a pena por isso abordar a ciência dos superheróis.

“Hulk” e “Spiderman” têm um antepassado comum que de certo modo imitam: o “Superman”, criado em 1938 (o Superhomem é quase contemporâneo da primeira observação da cisão nuclear, que é de 1939), passado ao cinema em 1948 e à televisão em 1952. O Superhomem, famoso pelo seu fato azul com um S no peito e pela sua capa vermelha, veio de Krypton, um planeta maior do que a Terra e cuja gravidade é muito maior do que a da Terra. O pai lançou-o no espaço já que o seu planeta-natal ia explodir (devido ao desequilíbrio do seu núcleo de urânio). Adoptado por uma família terrestre, o Superhomem arranjou emprego num jornal e, quando é necessário, mostra os seus superpoderes: é mais rápido do que uma bala, tem uma força sobrehumana e uma penetrante visão de raios X. Recolhe directamente energia solar. Tem apenas uma debilidade: a criptonite, material radioactivo que resultou do seu planeta e que diminui os seus superpoderes. Como se vê, a história é de ficção científica, com mais ficção do que científica: a explosão de planetas, a radioactividade, a energia solar.

Na história original do “Hulk”, Bruce Banner trabalha num projecto de bomba nuclear numa base secreta de um deserto americano. Um dia, para salvar uma pessoa, é submetido a radioactividade intensa, e sofre uma tremenda transformação: fica verde, enorme e com uma força desmedida (os sportinguistas bem gostariam de ter um jogador desses...). Mas fica também com a mente um pouco débil, como é próprio de um monstro. Os temas científicos da história são, portanto, as mutações provocadas por radiação e a capacidade de mudar de cor, tal como o camaleão. É curioso que a versão cinematográfica tenha actualizado a matéria científica. A acção moderna passa-se em laboratórios de biologia – informando-nos que os perigos da ciência moderna têm porventura mais a ver com a biologia do que com a física– e a nanotecnologia surge como vedeta. A nanotecnologia, que consiste na manipulação à escala atómica e molecular, é um domínio onde a física, a química e a biologia se cruzam. Tem conhecido desenvolvimentos tão espectaculares que a palavra saltou já para os títulos de jornais. E até já há um conjunto organizado de inimigos da investigação e das aplicações nessa área: muitos deles passaram da oposição às manipulações genéticas e aos alimentos geneticamente modificados para a oposição à nanotecnologia. Em “Hulk” há pois uma mistura de física nuclear (radiação gama), biologia genética (mutações) e nanotecnologia (novas moléculas) que pode atemorizar...

Também no filme “Spiderman” é transmitido o medo da ciência. Um adolescente, Peter Parker, estava a assistir a uma demonstração no liceu quando é picado por uma aranha, exposta à radiação. O rapaz ganha poderes de aracnídeo, incluindo a capacidade de tecer teias, subir paredes e dar saltos entre os prédios. Tal como o Superhomem, o Homem-Aranha trabalha para um jornal (como fotógrafo), mas interrompe o seu trabalho quando é preciso combater o crime nas ruas de Nova Iorque. A ciência agora reside no fantástico cruzamento do homem com a aranha, que ocorre mais uma vez através de uma mistura da física nuclear com a biologia. De facto, a realidade tem-se aproximado da ficção e já se realizaram experiências de manipulação genética nas quais se conseguiu que cabras produzissem, com o seu leite, seda muito parecida com a que é tecida pelas aranhas.

Haverá razões, como estas histórias de superheróis insinuam, para se ter medo da ciência? Deve-se obviamente ter bastante cuidado... Mas tal não quer dizer que a ciência seja em si uma actividade perigosa. Tem perigos, que se devem obviamente prevenir e evitar, para o que é necessária uma permanente atenção por parte não só dos cientistas como da sociedade em geral. De resto, há perigos por todo o lado. Perigos há também na literatura, que muitos julgam inofensiva: só para dar um exemplo, o romântico alemão Johann Wolfgang Goethe pôs o seu jovem Werther a suicidar-se devido a um desgosto de amor. Tal acto teve consequências absolutamente imprevisíveis, nomeadamente o aumento em flecha do número de suicídios. Alguém pensará que Goethe era um perigoso assassino?

O leitor ou o espectador, nos livros aos quadradinhos ou na televisão e no cinema, das aventuras de “Superman”, “Hulk” ou “Spiderman” fará bem em não ter medo e em divertir-se com as histórias. Mas há talvez uma moral que pode tirar: Esses superheróis expressam o eterno desejo do homem de quebrar as barreiras que o tolhem. No mundo real, é a ciência, prolongada pela tecnologia, que permite que o homem se supere. No caso do “Superman” e do “Spiderman”, é bom não esquecer, os heróis, com os seus superpoderes, combatem o “mal”. E, na maioria das vezes, no mundo real, a ciência e a tecnologia também servem para diminuir o “mal”...

Roger Highfields, jornalista de ciência do “Daily Telegraph” e autor de um livro intitulado “A Ciência de Harry Potter” (Harry Potter é outro superherói moderno), apontou a relação profunda entre tecnologia e magia:

A tecnologia criada pelos feiticeiros de hoje faz os aviões voar, os computadores perceberem a fala, e mandar uma mensagem de um ponto para o outro do planeta. Mas ela é tão imperscrutável para a maior parte das pessoas que estas poderão pensar que se trata de produtos de magia. A bioquímica que está presente num teste doméstico de gravidez, o movimento dos electrões num chip de silício num computador caseiro e mesmo as instruções para manipular um gravador vídeo podem parecer magia”.

Algo semelhante disse o físico e autor de ficção científica Sir Arthur Clarke: “A tecnologia suficientemente desenvolvida é indistinguível de magia”. É verdade. Mas não esqueçamos que a magia moderna resulta da ciência e não de uma varinha de condão.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

FRED HOYLE E A FICÇÃO CIENTÍFICA


O inglês Fred Hoyle (1915-2001) foi um astrofísico e escritor de ficção científica. Como astrofísico ficou mais conhecido pelas suas posições heterodoxas, nomeadamente a sua oposição à teoria do "Big Bang" (foi ele quem deu o nome de "Big Bang" simplesmente para ridicularizar a teoria e o nome ficou) defendendo a teoria do estado estacionária, hoje abandonada, e a sua teoria da panspermia cósmica, segundo a qual a vida teria surgida na Terra transportada por cometas. Mas foi ele, porém, quem descobriu o mecanismo perfeitamente ortodoxo de formação do carbono através da junção de três núcleos de hélio (um evento improvável, que alguns autores gostam de invocar em defesa do princípio antrópico, segundo o qual "as coisas são como são porque, se fossem diferentes, não estaríamos cá para as ver"). O seu colega e colaborador norte-americano William Fowler recebeu o Prémio Nobel da Física de 1983, pelas suas contribuições para a astrofísica nuclear, mas o mesmo não aconteceu com Hoyle, que recebeu outras honrarias (como o título de Sir, a entrada na Royal Society como Fellow e o prémio Crafoord da Academia de Ciências da Suécia).

Foi, portanto, um cientista de mérito. Mas foi também um autor de ficção científica de não menor mérito. Como afirmou Jacques Bergier, "há pessoas que fariam melhor em se dedicar à ficção científica e é isso que Hoyle faz". "A Nuvem Negra" ("The Black Cloud") e "Ameaça de Andrómeda" ("A for Andromeda", escrito em colaboração com John Elliot e que foi primeiro uma série filmada) são duas das obras mais características da ficção científica de Fred Hoyle (estão traduzidas em português como os nºs 84 e 98 da colecção Argonauta da Livros do Brasil). A ficção científica de Hoyle denuncia muito claramente a sua formação de cientista. Sob as capas de literatura de ficção ele de algum modo difundiu algumas das suas teses que seriam demasiado temerárias para aparecerem na literatura científica.

"A Nuvem Negra" glosa o mito dos extraterrestres, das inteligências sobrehumanas que povoam o espaço, mas "eles" aqui aparecem sob a forma de poeira interestelar que invade o sistema solar. O enredo tem muito a ver com a relação entre ciência e política, tal como ela era vista e vivida nos anos 50, ao tempo da guerra fria. E entra também a religião (na sua vida pessoal Hoyle passou de ateu a agnóstico). Por outro lado, "A Ameaça de Andrómeda" a história passa por uma mensagem que vem do espaço e que permite a criação, numa máquina terrestre, de vida artificial. Glosa, pois, para além do tema da inteligência extraterrestre, o mito da génesis "in vitro".

É muito curioso que vários astrofísicos que acreditam em vida extraterrestre busquem refúgio na ficção. Foi também o caso de Carl Sagan, autor de "Contacto". Respondendo à pergunta - "Pretendemos continuar grandes num mundo pequeno ou tornar-nos pequenos num mundo maior?" - o ficcionista Hoyle opta decididamente pela segunda hipótese. Em "Ameaça de Andrómeda" fala assim do encontro de civilizações:

"Galileu era a Renascença. Ele, Copérnico e Leonardo da Vinci. Quando disseram 'zás!' deitaram abaixo todas as balaustradas e depois tiveram de se aguentar nas pernas no meio de um imenso universo aberto (...) As pessoas levantaram novas barreiras, mais distantes. Mas isto é outra Renascença! Um dia, sem que ninguém se aperceba, quando toda a gente estiver a discutir política, futebol e dinheiro, então, de repente, todas as barreiras serão derrubadas - zás! -assim!"

segunda-feira, 17 de março de 2008

VALE A PENA LER: O REI DOS VAGABUNDOS

Já tenho um romance para ler nos dias de Páscoa: "O Rei dos Vagabundos", no norte-americano Neil Stephenson, da Tinta da China. É o segundo livro do chamado "ciclo barroco", que a mesma editora tinha lançado entre nós no ano passado ("Argento-vivo") e de que este blog já tinha falado (aqui). O ciclo compõe-se de oito livros independentes, com temas de ficção histórico-científico extremamente originais (o filósofo e matemático alemão Gottfried Leibniz é um personagem deste livro). A tradução portuguesa, em 422 páginas, que era à partida um bico-de-obra, é de Raquel Mouta. Este ciclo barroco, traduzido em muitas línguas e "best-seller" do New York Times, ganhou o Prémio Literário de Arthur C. Clarke de 2004. Estou mortinho para que comecem os feriados para pegar neste belíssimo volume...

quinta-feira, 6 de março de 2008

Mundos Imaginados - Exposição










Desde sempre, confrontado com o desconhecido, o Homem imaginou-o e materializou-o em imagens, mais ou menos ficcionadas. Os fenómenos da natureza, os animais e as plantas, o outro, o diferente, foram imaginados, idealizados, diabolizados, convertidos em seres monstruosos e em cenários fantasmagóricos, povoados de ciclopes, unicórnios e outros seres mitológicos.

A ciência veio permitir clarificar o que era real ou apenas imaginário, já que, de entre todos os mundos possíveis, vivemos num só.


Os imaginários dos europeus sobre a natureza e os outros são descritos e analisados nesta exposição do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, em colaboração com as secções museológicas de história natural e de física,que hoje inaugura (17h) na galeria do Museu Antropológico, na Rua do Arco da Traição, em Coimbra. A exposição integra-se na semana cultural da Universidade de Coimbra e prolonga-se até Junho.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

O HOMEM INVISÍVEL




















Platão não será propriamente um autor de ficção científica mas em “A República”, linhas 359c-360d) introduziu um dos grandes temas da ficção científica: o homem invisível. Conta a história de um antepassado do rei Giges (c. 687-651 a.C.) da Lídia (uma região da Anatólia), que encontrou um anel mágico que o tornava invisível quando o colocava no dedo. Com o anel consegue entrar no palácio real, seduz a mulher do soberano e mata este para lhe tomar o lugar. Platão discute o tema, pela boca de Glauco, da justiça: “ninguém é justo por sua vontade, mas constrangido, por entender que a justiça não é um bem para si individualmente, uma vez que, cada um julga que lhe é possível cometer injustiças, comete-as” (estou a usar a tradução, publicada pela Gulbenkian, de Maria Helena da Rocha Pereira). O homem invisível julga-se impune.

O tema entrou na ficção científica com o escritor socialista Herbert George Wells (poucos sabem que passou em Sintra largo tempo e que escreveu sobre Portugal), que em 1897 publicou “The Invisible Man” (saiu uma tradução portuguesa em 1909 saída em "A Editora" de Lisboa e várias posteriores). Agora há um cientista que, em vez de um anel mágico, possui uma fórmula que produz num material um índice de refracção igual ao do ar, tornando o material invisível, e experimenta-a em si próprio. A história de Wells originou um filme que se tornou um clássico, “The Invisible Man”, de James Whale, 1933, e, embora a história tenha sido recriada, vários outros como um filme série B famoso por ser muito barato e muito mau, “The Amazing Transparent Man”, de Edgar Ulmer, 1960, e, mais modernamente, “The Hollow Man”, de Paul Verhoeven (o realizador holandês, o mesmo de "Desafio Total" e "Call Girls", tem como formação de base uma licenciatura em física e matemática na Universidade de Leiden), 2000. Curioso é que, tal como em Platão, os homens invisíveis se julgam impunes.

O tema entrou também na banda desenhada e na literatura juvenil. A rapariga do "Quarteto Fantástico" fica mulher invisível quando a nave em que voa o grupo é atingida por raios cósmicos (já no filme de 1960 a causa da invisibilidade era radiação). Os feiticeiros de Harry Potter dispõem de uma capa mágica que lhes confere invisibilidade.

Mas a ciência pode ser tão rica como a ficção. Em 2006 o prestigiado físico inglês John Pendry do Imperial College de Londres juntamente com colegas norte-americanos publicou na “Science” um trabalho em que anuncia a possibilidade real de invisibilidade usando metamateriais com propriedades ópticas especiais. O objecto ainda não foi feito mas quem sabe se um dia este tópico da ficção científica não vai mesmo tornar-se realidade...

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Ciência e Ficção Científica


O programa Câmara Clara da Dois de 30 de Setembro de 2007 foi dedicado à interacção da ciência com a ficção científica. Mais informações aqui, onde o vídeo do programa pode ser visto.

Foi há exactamente 50 anos que a espécie humana conseguiu colocar no espaço um satélite. Sputnik, "companheiro de viagem" em russo, representa não apenas o início de uma volta radical nas tecnologias aplicadas ao quotidiano como transfigurou a geopolítica e a cultura pop do seu tempo. O físico Carlos Fiolhais e o autor de ficção científica João Barreiros vão rever o extraordinário impacte de Sputnik nos nossos destinos e debater sobre os contributos da Ciência para a Ficção e da Imaginação para a Ciência, numa emissão que lhe traz ainda a Festa do Cinema Francês; Julian Barnes e o seu último romance, sobre Conan Doyle; os concertos de abertura da temporada Gulbenkian; Beatriz Batarda e Luis Miguel Cintra na peça de Ibsen que esta semana estreou na Cornucópia.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

ARGENTO VIVO


A editora Tinta da China vai publicar muito em breve o livro "Argento-Vivo", do escritor de ficção científica Neal Stephenson, autor de "Cryptonomicon". Da blogosfera (deste sítio), publicamos este extracto de uma crítica, que dá um "cheirinho" do livro:

"... Quicksilver (...) faz parte de um grande arco, uma obra magna que Stephenson se propôs escrever, sob o nome de Ciclo Barroco. O conjunto de livros que este ciclo encerra já ultrapassou largamente a trilogia, o que não surpreende - Stephenson propôs-se escrever nada menos do que uma história do sistema do mundo, centrado na era Barroca, quando o iluminismo e o mercantilismo começaram a demolir a velha sociedade pós-renascentista, alicerçada no mundo medieval, trazendo o mundo para a era moderna. Stephenson mergulha entre as elocubrações dos filósofos naturais que perscrutam o mundo, sedentos de curiosidade, entre as manigâncias dos jogos de poder das nobrezas políticas e entre os sonhos de uma classe emergente que apoia o seu poder e afluência não na tradição mas sim na troca de mercadorias e gestão de dinheiros. O Ciclo Barroco pretende ser uma história das ideias que formam a base da nossa sociedade contemporânea, e na sua minuciosa busca de interrelações num mundo que já era global antes da era da globalização Stephenson largou o ser conciso no meio das urtigas e foi escrevendo até chegar à conclusão, o que explica a amplitude deste ciclo de livros dos quais Quicksilver é o primeiro.

Quicksilver recupera as personagens-chave de Cryptonomicon como avós das personagens modernas. O elusivo Enoch Root faz uma aparição como propiciador da educação de uma criança desfavorecida, que se irá tornar Isaac Newton, e Daniel Waterhouse transmuta-se no filho de um puritano ferrenho. Quicksilver passa-se nos primeiros anos da Royal Society, quando ela era pouco mais do que um gabinete de curiosidades onde Hooke, Newton e as restantes luminárias que são, efectivamente, os pais da ciência moderna iluminavam a natureza, tentando decifrar os seus segredos. Waterhouse é neste livro um quase grande cientista, que só não o é porque era contemporâneo de Hooke, Newton e Leibniz - e entre gigantes, o mais alto de entre os homens será sempre anão. Daniel é o filho de um ferrenho puritano numa época em que o professar de diferentes correntes do cristianismo podia implicar o patíbulo, mas as suas crenças num juízo final marcado com toda a precisão para 1666 e a sua religiosidade moralista são abafadas pela sua curiosidade em desvendar os segredos do mundo natural. Daniel torna-se colega e amigo de Newton, e trabalha de muito perto com ele, participando no mundo fervilhante de descobertas científicas dos membros da academia real, participando na incipiência do mundo moderno."