Mostrar mensagens com a etiqueta farmácia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta farmácia. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de setembro de 2020

De víbora na mão, em busca do tempo perdido, viagens pelos livros

De Víbora na Mão é um livro autobiográfico de Hervé Bazin de 1948, publicado em Portugal pela coleção Unibolso, provavelmente em 1985. Neste livro, se os filhos são terríveis e planeiam (e tentam) o assassinato da mãe, esta não é menos ao bater-lhes e a castigá-los. Em suma, um livro terrível! Estava a lê-lo, desta vez para anotar os aspectos químicos. Mas não era tanto isso que me interessava. Interessava-me mais a geografia, os tempos envolvidos e a relação, em termos de lugares e atitudes, com A Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, uma obra monumental em sete volumes que acaba um pouco antes da outra começar e que também estive a reler e anotar, e, ainda, Thérèse Desqueyroux, passado nas Landes e publicado em 1927 por François Mauriac (publicado, em Portugal, recentemente pela Cavalo de Ferro, em 2015). Estava eu nisso, a viajar pela França do início do século vinte, a comparar o conservadorismo patético de uns com o sensualismo dos outros. Compararava, sem grande profundidade, é certo, as diferentes atitudes, o dinheiro que a uns, arruinados, faltaria e que, os outros, velhos burgueses, teriam em excesso. Comparava a atitude perante os banhos de mar e a praia, evitada mas verdadeira, de Le Balle na Víbora, com a Balbec imaginária da Busca.

Mas a química voltou outra vez. A verdade é que todos os livros a têm. E só falo da Víbora na Mão. Esta tem, claro, o óleo de rícino, a pólvora piroxilada, também chamada pólvora sem fumo, as gotas de beladona, o cianureto (diz-se actualmente cianeto) de potássio, a ureia e a uremia, a curiosidade de Rayon ser também um lugar, entre outros. Mas esses eu já conhecia. O que me chamou mais a atenção acabou por ser um medicamento para uma crise de fígado, chamado, no livro, Algocoline Zizine. Uma pesquisa mostrou que era uma expressão que só aparecia neste livro e que esta obra era citada ipsis verbis num artigo antroplógico a propósito da questão de serem as “doenças de fígado” uma doença tipicamente francesa. Mais umas pesquisas e estas mostraram que os laboratórios Zizine ainda existem, mas agora são dedicados ao “medicamentos alternativos,” e que “algocoline,” poderia ser outro nome para analgésico. Se fosse o caso, qual seria a sua composição? Foi aí que vi que os laboratórios Zizine não tinham fabricado o “Algocoline Zizine” mas sim o “Alcholine Zizene,” de que há bastantes caixas metálicas à venda na internet. Será que o autor se enganou? Será que teve um liberdade poética? Será que não quis usar um nome registado? Não sei, o que sei é que o Alcholine Zizene era de facto uma marca registada e descrito como um “drenante hepático” (um laxante, diríamos hoje) composto de sulfato de magnésio e pectina. E foi assim que, de uma praia redescoberta pelos parisienses, Le Balle-Escoublanc, encontrei a química de um frasco de medicamento a vajar pela França dos livros. Façamos um passeio à feira do livro e encontremos outras viagens!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Camilo e a Química: as boticadas de Eusébio Macário e os medicamentos d' O olho de vidro




No livro Camilo Castelo Branco e as boticadas de Eusébio Macário, o capitão farmacêntico António Costa Torres analisa as referências farmacênticas em "Eusébio Macário" e "A corja". Também "O olho de vidro" merece a este autor algumas considerações.

O domínio da química era na altura de Camilo, e até ao desenvolvimento da indústria farmacêutica moderna e dos estudos farmacológicos e clínicos controlados, de extrema importância para farmacêuticos ou médicos que pretendessem estar actualizados, ou não fosse a maioria dos medicamentos preparados na botica por receita do médico. Actualmente a química continua a ser fundamental para o desenvolvimento de novos medicamentos e o entendimento da acção de todos os fármacos, para além de ser importante para a compreensão da fisiologia dos organismos vivos. No entanto, a especialização e a complexidade actuais são de forma a que esta ciência, embora continue a ser importante para o entendimento geral e particular dos processos terapêuticos, deixou de ser para a maioria dos profissionais de saúde fundamental ao nível da acção diária, como era na altura de Camilo.

Segundo Costa Torres, Camilo passou nemine discrepante à cadeira de Botânica no dia 14 de Julho de 1845, nos preparatórios para medicina e não esqueceu a matéria estudada. A lista de cerca de vinte plantas com propriedades medicinais foi confirmada por Costa Torres que apenas lhe encontra pequenos erros. Por esta altura já começavam a ser identificados princípios activos extraídos das plantas. O filho José Macário, conhecido como José Fístula, é um adepto das plantas medicinais e dos remédios modernos da Farmacopeia do doutor Pereira Reis (5ª edição datada de 1858 do Código Faramacêtico Lusitano). Eusébio Macário é um boticário de outros tempos. Uma lista de unguentos e remédios secretos está registado no seu livro sebento de três gerações de boticários, alguns tão antigos que podem já ser encontrados, por exemplo, no D. Quixote de Cervantes. E já na altura de Camilo eram obsoletos ou comprovadamente nefastos. Costa Torres indica as receitas de todos estes unguentos (quase quarenta de "Eusébio Macário" e mais de vinte de "A Corja"), copiadas d Farmacopeia Lusitana (com edições de 1704 e 1711) de frei Caetano de Santo António, as quais Camilo deveria conhecer bem desde jovem. Alguns exemplos, a cujo pitoresco Camilo não resistiu, são o ceroto de espermacete, pomada mercurial (com óxido de mercúrio II), unguento de Santa Tecla, com litargiro (óxido de chumbo II, conhecido por fezes de ouro) e sebo de carneiro, unguento de basilicão, com colofónia (pez louro) fundida em azeite, terebentina, cera amarela e óleo de amêndoas, ungento de Genoveva com terebentina e cânfora, ungento de populão, com infrutescências de choupo branco (Populus alba, que contém salicina), folha de dormideira, beladona e manteiga, papa de linhaça, unguento egipcíaco, de cor verde, devido ao acetato de cobre, azougue de Falópio, entre outros.

Eusébio Macário era um boticário tão antiquado que nada sabia de oximéis, uma designação que era já empregue nas farmacopeias do século XVIII! As formulações e preparações continuam hoje em dia a ser um dos campos mais exclusivos da Farmácia, embora para o desenvolvimento de novos princípios activos concorra também a Química. No tempo em que Camilo escreve são muito poucos os medicamentos de síntese, e todos os que existem são de origem inorgânica. Estamos ainda muito longe da descoberta da aspirina, das modificações químicos de moléculas biologicamente activas para obter medicamentos mais poderosos, da pesquisa sistemática de novos fármacos e dos testes controlados dessas substâncias.

No "Eusébio Macário" é ainda digna de nota a referência que Camilo faz a Gavroche de "Os miseráveis" de Victor Hugo. Camilo, na minha opinião com algum provincianismo tipicamente português, diz que já havia sido inventado em Portugal. [Correcção: o autor apressado deste post confundiu Gavroche com Grantaire, o estudante boémio que faz metáforas com conhecimentos avançados de química, ficando assim este parágrafo sem grande sentido químico. Logo que possível publicarei um texto sobre a química em "Os miseráveis" de Victor Hugo.]

Na obra "O olho de vidro, romance histórico", publicada em 1866, Camilo apresenta-nos a vida trágica de Brás Luis Abreu (1692-1756), cristão-novo dos quatro costados que, por uma série de peripécias, perdeu o contacto com a sua família e a cultura judaica, torna-se um médico e autor famoso e acaba por casar com a irmã de quem tem oito filhos.

Neste livro, Camilo descreve com bastante detalhe o ambiente sufocante criado pela Inquisição. As referências aos medicamentos e tratamentos da época são também dignas de nota. Logo nas pimeiras páginas é referido o olhos de caranguejo (Oculi Cancrorum), formações de carbonato de cálcio, que se julgou serem os olhos dos carangejos, um remédio indicado para muitas doenças. Este mineral ainda tem usos medicinais actuais, mas não são tão fantásticos como na altura.

Camilo vai-nos apresentando algum receituário médico da época. Em particular, a descrição de um medicamento feito a partir de um pato assado é bastante divertida. Tal como a alternativa: cozer uma raposa inteira. É sobretudo este tipo de receitas fantasiosas, que se encontra na medicina barroca a par com os medicamentos secretos com nomes pomposos. Medicamentos sobretudo para suar e deixar de suar, para vomitar e deixar de vomitar, salivar e deixar de salivar. As purgas, os clisters, as sangrias, as fístulas (manutenção de uma ferida aberta para libertar humores), são ainda comuns. Não se pense ingenuamente que a ciência médica e farmacêutica avançou sempre de forma linear. As receitas de Garcia de Orta ou de Amato Lusitano, que viveram um século antes, são muito menos fantasistas pois baseiam-se na experiência e não em considerações retóricas.