Mostrar mensagens com a etiqueta educação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta educação. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Gás Cianeto (o mesmo usado nas câmaras de gás nazistas) na tragédia de Santa Maria?

Um pedido de doação de medicamento, feito pela diretora de enfermagem do Hospital Universitário de Santa Maria, Soeli Terezinha Guerra, 50, ajudou a esclarecer a natureza dos sofrimentos impostos aos jovens feridos e mortos no incêndio da boate Kiss. 

 Hidroxocobalamina é o nome do medicamento solicitado. Serve para combater a intoxicação causada pelo gás cianeto, o mesmo usado nas câmaras de gás nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial. 

Era o princípio ativo do tristemente famoso Zyklon B dos campos de extermínio.
Segundo o pesquisador Anthony Wong, diretor médico do Ceatox (Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP) trata-se de um dos venenos mais letais, por sua capacidade de paralisar os mecanismos de produção de energia das células, matando-as. 

Pois o cianeto apareceu junto com a fuligem e o monóxido de carbono dentro da Kiss, como consequência da combustão dos materiais usados no revestimento acústico. 

"Não tem cheiro nem cor e é capaz de matar em um prazo curtíssimo, de quatro a cinco minutos", explica Wong. 

 A detecção do cianeto é feita por análises químicas. Mas essa suspeita já existia mesmo antes da confirmação laboratorial. "É que o gás é subproduto da combustão de materiais como espuma de poliuretano, usada em revestimentos baratos com finalidades acústicas", diz Wong.
Revestimentos acústicos de boa qualidade são antichamas e não inflamáveis, portanto não produzem o cianeto. 

A enfermeira Soeli disse ontem à Folha que o Hospital Universitário de Santa Maria já recebeu doações da hidroxocobalamina em quantidade suficiente para o tratamento dos pacientes lá internados (até ontem em número de 11). 

Mas o toxicologista da USP considera inaceitável que o principal hospital público da cidade tenha de ter contado com doações. "Na França, todos os serviços de pronto-socorro estão equipados com a hidroxocobalamina para tratar intoxicações por cianeto." 

Ele explica que, no Brasil, o medicamento (comercializado sob o nome de Rubranova) é de difícil acesso porque o laboratório que importava o sal parou de fazê-lo, e o país não o produz. Nas farmácias, o sal também não é vendido. 

No Hospital Universitário, três pacientes ainda necessitam de ventilação mecânica, para conseguir respirar. E ainda há o risco de sequelas causadas por lesões nas células nervosas, fruto da falta de oxigênio. Esse é um resultado possível da intoxicação por cianeto, uma vez que o veneno mata as células que entram em contato com ele. 

O mais cruel do veneno é que, sem cheiro nem cor, muitos jovens acabaram intoxicados, achando que estavam protegidos por máscaras improvisadas com roupas molhadas enroladas no rosto. Se conseguiu barrar boa parte das partículas de fuligem, diz Wong, esse expediente foi absolutamente inútil contra o cianeto.( Autora LAURA CAPRIGLIONE :Publicado na  Folha de São Paulo em 30/01/2013)

O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), que deixou pelo menos 238 mortos na madrugada do dia  (27/01/2013), foi o segundo incêndio mais mortal e a quinta maior tragédia da história do Brasil.O maior incêndio brasileiro aconteceu no Gran Circo Americano, em 17 de dezembro de 1961, que deixou 503 mortos em Niterói (RJ)

Ácido cianídrico ou ácido prússico é o veneno de ação mais rápida que e conhece.

A toxicidade do íon cianeto (HCN) é conhecida há mais de dois séculos; porém, os compostos que contém cianeto são tóxicos somente se liberarem HCN numa reação. Sem dúvida alguma, o ácido cianídrico ou ácido prússico é o veneno de ação mais rápida que e conhece.


Muitos autores e histórias policiais têm utilizado, em suas obras, os cianetos de sódio ou potássio para provocar mortes misteriosas de alguns personagens. Na literatura de espionagem, por exemplo, que esteve muito em moda a partir da 2a Guerra Mundial até o fim da Guerra Fria, os espiões tinham uma cápsula desses sais embutida em cavidades dentárias. Quando presos pelo inimigo, os espiões deveriam ingerir a cápsula, a fim de evitar, pela própria morte, a revelação dos segredos durante o interrogatório.

Quando a cápsula atinge o estômago, o sal reage com o ácido clorídrico presente no suco gástrico:
NaCN(s) + HCl(aq) ⇒ HCN(g) + NaCl(aq) 

Por ingestão, a dose capaz de provocar a morte é de 1 mg por quilograma de massa corpórea. Por inalação, uma concentração de 0,3 mg por litro de ar mata entre 3 e 4 minutos.

Veja também a publicação:

Resumo da publicação:

O presente trabalho visa comparar assentos automobilísticos feitos de manta de fibra de coco com látex (MFCL) em relação à espuma de poliuretano (EPU), avaliando a possibilidade do primeiro substituir o segundo, devido ao fato da fibra natural ser biodegradável e renovável. Esses materiais foram submetidos à análise termogravimétrica (TGA), pirólise e análise dos produtos de pirólise por cromatografia gasosa acoplada ao espectrômetrode massa. Verificou-se que a pirólise a 800oC apresentou grande número de gases tóxicos, e comparando os materiais observou-se que a EPU emitiu gases mais tóxicos na combustão que aqueles produzidos pelos outros materiais sob as mesmas condições, tais como o cianeto de hidrogênio e compostos de nitrila. Quanto às análises de TGA, verificou-se que acima de 270oC inicia-se a degradação térmica de todos materiais.

http://www.abes-dn.org.br/publicacoes/engenharia/resaonline/v10n02/v10n02a07.pdf 










terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A tragédia de Santa Maria:As tragédias têm sempre causas técnicas e humanas!

Nós já sabíamos que a tragédia de Santa Maria iria acontecer. Nós já sabíamos que choraríamos centenas de mortes, que ficaríamos chocados diante dos aparelhos de TV, ouvindo o rádio, buscando mais informações nas redes sociais na Internet. Nós já sabíamos que passaríamos dias falando, chocados, sobre a tragédia, comentando, analisando, opinando.

Nós já sabíamos quem seriam os culpados. Nós já sabíamos que faltaria precaução, que a segurança seria analisada de forma superficial e burocrática. Nós já sabíamos que ninguém se perguntaria antes “e se acontecer um acidente, estaremos preparados? Teremos como salvar as vidas?” Nós já sabíamos que ninguém pensaria nas consequências, coletiva ou individualmente. Nós já sabíamos que ninguém examinaria seriamente os riscos envolvidos. Nós já sabíamos que todos tomariam decisões insensatas, assumiriam riscos inaceitáveis, deixariam de olhar para a frente e para as pessoas.

Nós já sabíamos que continuaríamos desperdiçando vidas jovens, recursos vitais e criativos críticos para o nosso futuro. Nós já sabíamos que ninguém levaria em consideração o valor humano e social daquelas quase duas mil pessoas, como grupo e como indivíduos. Nós já sabíamos que o espírito fraternal, a solidariedade, a identificação de cada um de nós com nossos semelhantes, só se manifestaria, como choro e revolta, depois da tragédia acontecida.

Nós já sabíamos que aceitaríamos como aceitáveis instalações inaceitáveis para eventos públicos. Nós já sabíamos que ninguém examinaria o conjunto e a interação entre suas partes: risco de incêndio; uso em excesso de material inflamável e tóxico, capaz de exalar vapores fatais em grande quantidade e pouco tempo; falta de sistemas adequados e bem dimensionados de exaustão do ar; falta de planejamento de segurança para a circulação das pessoas em circunstâncias extremas (são muitas as circunstâncias extremas muito prováveis, em eventos de massa, inclusive pânico sem razão forte. No caso o pânico era real e a circunstância, fatal.); superlotação, a mesma que vemos nos ônibus, metrôs e trens do país e que, em um acidente, aumenta o número de fatalidades inevitavelmente; pessoal de segurança treinado para a finalidade errada, não para assegurar a segurança das pessoas.

Nós já sabíamos que tudo seria tratado de forma burocrática e com descuido e desmazelo, antes da tragédia. Nós já sabíamos que ninguém assumiria a responsabilidade pela tragédia. Nós já sabíamos que enterraríamos nossos mortos em choque e com raiva.

Nós já sabemos, que daqui a algumas semanas esqueceremos nossos mortos, talvez porque estaremos chorando outros mortos nossos também, vítimas de outras tragédias que já sabemos que acontecerão. Ou talvez porque nenhuma tragédia aconteça no curto prazo, sabemos que esqueceremos tudo até a próxima, que sabemos que virá. Voltaremos à nossa rotina, à nossa vida diária, que não é fácil para a maioria de nós. Ela nos absorverá, até a próxima tragédia. Nossa indignação se esvairá como aquelas estrelinhas de bolo de aniversário. Resistentes ao sopro, mas não ao tempo breve da matéria que as anima a queimar. E esperaremos pela próxima tragédia.

Nós já sabíamos que a tragédia de Santa Maria aconteceria. Só não sabíamos que seria em Santa Maria, na boite Kiss, na madrugada do último domingo. Pusemos a culpa nos responsáveis diretos e todos tivemos dificuldade de dormir no dia seguinte. Mas não nos perguntamos sinceramente, não consultamos nossos corações para saber porque nossa indignação dura tão pouco tempo e não se manifesta de forma mais efetiva. Não nos olhamos no espelho, ao lavar o rosto e escovar os dentes para ir correndo ler os jornais do dia, ver e ouvir o noticiário que já sabíamos seria dominado pela tragédia e não nos perguntamos por que continuarmos a tolerar o intolerável por tanto tempo. As tragédias têm sempre causas técnicas e humanas. Mas são tragédias somente por causa do encontro entre a ocorrência e o comportamento humano. Tragédia nunca é destino, fatalidade, acaso. Tragédia é sempre o resultado das escolhas que fazemos.(Texto  de autoria de Sérgio Abranches)

A cada dois dias uma tragédia das proporções de Santa Maria se repete no Brasil!Será que para que seja feito algo precisamos que estas 111 mortes ocorram no mesmo local e hora?Essa série histórica mostra que o número de mortes está diretamente ligado às políticas públicas de segurança viária.Como disse o Sergio Abranches em seu texto As tragédias têm sempre causas técnicas e humanas. Tragédia é sempre o resultado das escolhas que fazemos.


domingo, 27 de janeiro de 2013

O melhor da vida e de nossas realizações começa aos 60 anos!


Veja o video no link abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=vksdBSVAM6g

Segue a narração do vídeo: Based on a true story.

What do people live for?
To miss someone?
To keep living?
To live longer?
Or, to leave?

“Let’s go ride motorcycles!”

5 Taiwanese.
An average age of 81.
1 has a hearing problem.
1 has cancer.
3 have heart disease.
Every one of them has degenerative arthritis.

6 months of preparation.
13 days traveling around the island.
1139 kilometers.
From the north to the south.
From night to day.
For one simple reason.

What do people live for?

Dreams.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Corrupção e Democracia:O Caso Fujimori e Montesinos!

Publicado no Estado de São Paulo em 23 de Janeiro de 2013
Autora:Eliana Cardoso é PH.D. pelo MIT e professora titular da FGV-São Paulo.

Com Rudi Dornbusch e a convite do Banco Central de Reserva del Perú, fui a Lima, em 1990, para trabalho sobre a inflação de 7.000% naquele ano. Na entrada do Banco Central, ao lado do detector de metais, havia uma estante onde, em escaninhos numerados, as pessoas deixavam os revólveres e outras armas e recebiam uma ficha correspondente a seus pertences. O país encontrava-se conturbado pela violência do Sendero Luminoso - um grupo guerrilheiro maoista que, antes de desaparecer, se tornaria responsável por 69 mil mortes.

Alberto Fujimori acabara de tomar posse e Rudi iria jantar com o presidente. Na última hora o convite se estendeu à diretora do Banco Central, com quem trabalhávamos, e me incluiu. Nosso carro percorreu as ruas de Lima, passou pelas bancadas de sopão, onde as pessoas esperavam em longas filas pelo único alimento do dia, e contornou um tanque de guerra...

No palácio, depois de um corredor comprido e mal iluminado, estavam a pequena sala de jantar e a mesa posta, com quatro paninhos puídos nas beiradas. O presidente entrou vestido numa guayabera. A empregada trouxe quatro Coca-Colas, uma travessa de espaguetes e, para a sobremesa, apenas duas porções individuais de pudim. Voltou 40 minutos mais tarde com outra travessa de espaguetes. A cozinheira, informada sobre o maior número de convidados, preparara segundas porções...

O presidente falava pouco e perguntava muito. Tive pena daquele político solitário e ainda desconhecido, sem uma base seja social, seja partidária. Ele liquidaria a hiperinflação e o Sendero, mas terminaria tragado pela corrupção e pelo poder de Wlademiro
Montesinos, o chefe da polícia secreta que garantiu suas reeleições.

Montesinos subornou o Congresso, o Judiciário e a imprensa, mantendo a fachada democrática: os cidadãos votavam, os juízes decidiam, a mídia noticiava. Mas a negociação e a execução de acordos secretos drenavam a substância da democracia.

Embora possa parecer estranho, Montesinos mantinha registros meticulosos de suas operações: em contratos e recibos dos subornos, em vídeos das negociações ilícitas e das reuniões em que ele mesmo foi o corruptor. A lógica de suas ações deriva de que as fitas eram prova da cumplicidade dos outros e lhe davam o poder para destruir o presidente, impedindo Fujimori de demiti-lo. Constituíram fontes de dinheiro para suborno: o orçamento secreto do Serviço Nacional de Informação, somas recebidas por intermédio do Ministério do Interior e desvios de contratos com o Estado.

John McMillan e Pablo Zoido, da Universidade Stanford (How to subvert democracy, no Journal of Economic Literature), utilizaram os preços de suborno e concluíram que a forma mais forte de controle sobre o governo é a mídia. A julgar pelos subornos pagos e, portanto, pela preferência revelada de Montesinos, a televisão representava a maior ameaça ao poder do governo peruano. O suborno pago ao proprietário de um canal de televisão era cerca de cem vezes maior do que o pago a um político, que era um pouco maior do que o pago a um juiz.

Os pagamentos feitos a políticos ficavam, na sua maioria, entre US$ 5 mil e US$ 20 mil por mês, com alguns pagamentos de até US$ 100 mil, chamados de contribuições de campanha. Entre os meios de comunicação, o diretor do Expresso (um tabloide) recebeu US$ 1 milhão e El Tío (outro tabloide), US$ 1,5 milhão ao longo de dois anos. O Canal 4 recebia US$ 1,5 milhão por mês em propinas. Esses pagamentos subestimam os subornos, pois Montesinos canalizava mais dinheiro para os jornais e a televisão por meio de publicidade oficial.

A única empresa de televisão não subornada, o Canal N, continuou a oferecer jornalismo investigativo independente e levou ao ar pela primeira vez o vídeo que trouxe o regime abaixo. Em 2000, apenas três meses e meio depois da terceira vitória de Fujimori na eleição para presidente, o governo caiu, quando o Canal N exibiu o vídeo que mostrava o pagamento de Montesinos ao político de oposição Alberto Kouri. Outro vídeo mostrava Montesinos oferecendo a Alípio Montes de Oca, membro da Suprema Corte de Justiça, propina de US$ 10 mil por mês, além de atendimento médico e segurança pessoal e a presidência do Conselho Nacional de Eleições.

Os mecanismos democráticos complementam-se e reforçam-se uns aos outros, enquanto a ausência de um enfraquece todo o sistema democrático. Se um dos controles é fraco, todos o são. Nesse sentido, cada um deles é vital. No entanto, a televisão aparece como o limite crucial. Por quê?

Sua importância deriva do fato de que a mídia pertence ao mecanismo de constrangimento fundamental. Considere. A reação de grande número de cidadãos à violação das regras pode depor um governo. Entretanto, eles enfrentam um problema de coordenação, porque, na escolha de como agir, o cidadão precisa avaliar o que os outros farão. Falta de informação constitui a dificuldade-chave da coordenação. Não saber o que os outros sabem é suficiente para frustrar ações que precisam ser coordenadas. Ao informar a todos sobre violações do governo, a televisão ajuda a resolver o problema da coordenação, de vez que a transgressão se torna conhecimento comum.

A diferença entre a televisão e o jornal está no seu alcance: os subornos pagos a jornais impressos foram menores do que os pagos a canais televisivos, porque os peruanos preferem receber as notícias pela televisão. Demonstrando seu poder, foi ela que finalmente derrubou Alberto Fujimori.

Será que tudo isso importa? Poder-se-ia justificar a ação de Fujimori e Montesinos porque eles destruíram o Sendero Luminoso e puseram fim à hiperinflação? Nunca. Pois, ao acumular todos os Poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) nas mesmas mãos, a corrupção instaura a tirania e suas arbitrariedades. Ela nos leva de volta à barbárie.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Prever o futuro ou construí-lo?





José Goldemberg - Artigo:Prever o futuro ou construí-lo?
Publicado no Jornal O Estado de S.Paulo em 21/01/2013.

Tentar prever o futuro parecer ser uma das características inatas dos seres humanos, principalmente em tempos de crise. No passado distante, a evidente vulnerabilidade dos nossos antepassados diante de catástrofes naturais os levava desesperadamente aos líderes religiosos, à procura de consolo e esperança no porvir. Na Bíblia os profetas têm um papel preponderante.

No auge da civilização grega, há 2.500 anos, ganharam grande evidência as profecias das pitonisas de Delfos. No Templo de Apolo as sacerdotisas faziam suas previsões em transes provocados por gases emitidos por fendas subterrâneas, situadas abaixo do templo. Frequentemente os vaticínios eram dúbios e confusos, mas interpretados pelos interessados de modo a confirmarem suas próprias convicções e expectativas.

Nos dias atuais, um exercício realizado frequentemente por algumas revistas científicas é também fazer previsões. As mais conhecidas são as da Scientific American, que há 167 anos publica trabalhos dos melhores cientistas em todos os campos do conhecimento. Isso dá à publicação certa credibilidade em prever o futuro, uma vez que, segundo seus editores, "um passado forte é uma base boa para olhar o futuro".

A revista acredita que suas "previsões" ou "projeções", baseadas em ciência, têm mais credibilidade que as visões das sacerdotisas de Delfos, que diziam muito mais sobre o destino dos homens, seus sucessos e fracassos, do que sobre desenvolvimento técnicos.

Isto é o que a Scientific American, em sua edição de janeiro, faz: formula uma série de previsões provocativas e as perspectivas de que se realizem. Exemplos dessas previsões: haverá carros voadores no futuro? Armas nucleares serão eliminadas? O aquecimento da Terra será evitado usando as tecnologias que conhecemos? A engenharia genética eliminará doenças? Poderemos transportar nossa civilização para outros planetas numa "arca", como fez Noé, conforme a Bíblia

A revista não discute o futuro da energia, mas é possível fazer previsões do que vai acontecer nessa área para garantir a produção energética de que a humanidade vai necessitar nas próximas décadas. Em nível mundial, nos dias de hoje, combustíveis fósseis (carvão mineral, gás natural e petróleo) representam mais de 80% de toda a energia que consumimos. Essa é uma situação que não pode durar muito tempo. As reservas de combustíveis fósseis são grandes, mas finitas. Ao que sabemos, cerca da metade desses recursos já foi usada. A metade restante ainda vai durar muitos anos, mas está distribuída de forma geográfica muito irregular. Algumas regiões são muito bem dotadas, como o Oriente Médio, mas em geral a situação não é boa.

Além disso, a qualidade das reservas está mudando e novas tecnologias serão necessárias para usá-las. O desenvolvimento dessas tecnologias é uma direção em que podemos trabalhar para garantir o futuro. É o caso, por exemplo, do pré-sal no Brasil, para a produção de petróleo, ou do gás de xisto, que se tornou popular nos Estados Unidos.

Como em todos os novos desenvolvimentos, é difícil prever todas as complicações que deles podem surgir e o importante é mover-se com cautela para evitar desapontamentos e catástrofes. Gás de xisto parece hoje uma panaceia nos Estados Unidos, onde o seu custo caiu dramaticamente, mas é temerário acreditar que esse sucesso se repetirá em todos os países, inclusive no Brasil.

Em compensação, as regiões tropicais do mundo têm um recurso natural de que as mais frias não dispõem: cobertura florestal e áreas enormes onde a agricultura se pode expandir. A energia que pode ser retirada de produtos agrícolas, como a do álcool de cana-de-açúcar, entre outros, é de fato enorme, como mostra o programa de etanol brasileiro.

A quantidade total de combustíveis fósseis situada abaixo do solo que existe no mundo é difícil de estimar, mas está entre 0,5 trilhão e 2 trilhões de toneladas. Destas, consumimos hoje 10 bilhões de toneladas por ano. A expectativa de duração dessas reservas é, portanto, de 50 a 200 anos, na melhor das hipóteses. Em contraste, a quantidade de madeira e de produtos agrícolas que se encontram acima do solo - e que são renováveis - é de cerca de 1 trilhão de toneladas. E se renova sempre.

A verdade é que é mais fácil, hoje, usar os combustíveis fósseis do que produtos florestais, e a razão principal para tal é que desde o século 19 todo o desenvolvimento tecnológico foi orientado para otimizar a sua extração do subsolo e o seu uso. Isso não foi feito ainda para a utilização da energia das florestas ou dos produtos agrícolas, mas é uma das direções em que se pode trabalhar e construir o futuro sobre ela.

Os combustíveis fósseis que usamos atualmente também se originaram de florestas (e de vida marinha e matéria orgânica dos oceanos), as quais foram soterradas centenas de milhões de anos atrás. A natureza encarregou-se de processá-las de forma a darem origem a esses combustíveis. Há poucas dúvidas de que o trabalho científico de hoje nos permitirá repetir o que a natureza fez no passado.

Muito mais produtivo do que tentar prever o futuro é construí-lo a partir do que sabemos hoje, e não consultar oráculos como o de Delfos, cartomantes, gurus e profetas. É isso o que a experiência da Scientific American nos tenta dizer.

Além disso, governos e fundações apoiam e premiam os avanços que nos conduzam a um desenvolvimento sustentável que se baseie no uso de fontes renováveis de energia. Neste ano de 2013, a Fundação Zayed, de Abu Dabi, que foi criada pelo esclarecido Sheik Zayed para premiar desenvolvimentos nessa área, atribuiu o seu prêmio principal ao autor deste artigo pelos seus trabalhos científicos sobre etanol de cana-de-açúcar, o maior dos programas de energia renovável do mundo logo depois da hidreletricidade.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Cornell NYC Tech: Uma Universidade dedicada a inovação e tecnologia


Folha de São Paulo,20/01/201; Autor: Raul Juste Lores de Nova York
 
Em Nova York, o setor financeiro perdeu mais de 40 mil empregos desde a crise de 2008. Outras indústrias fundamentais para a cidade, como a editorial e a fonográfica, a de mídia e o varejo, enfrentam um momento ruim, graças à concorrência da internet. 

Enquanto isso, o Vale do Silício, vizinho a São Francisco, e a região de Boston-Cambridge, que abriga o prestigiado MIT (Massachusetts Institute of Technology), vivem um boom econômico produzido por milhares de start-ups --nome dado às empresas iniciantes--, sem mencionar o auge de gigantes da tecnologia, como a Apple, o Google e o Facebook. 

Nova York percebeu então que precisava se tornar um polo tecnológico. 

Em parte para se reinventar mas também para salvar suas indústrias tradicionais, a cidade decidiu que o primeiro grande passo para competir com o Vale do Silício seria criar sua própria versão do MIT: uma universidade que se direcionasse para a tecnologia, habilitada a formar os pesquisadores e a mão de obra para indústrias que talvez ainda não existam hoje. 

A gestação do MIT nova-iorquino começou com um concurso promovido pelo prefeito Michael Bloomberg: à universidade que apresentasse o melhor projeto, a prefeitura cederia um terreno de 45 mil metros quadrados na Roosevelt Island, vizinha a Manhattan, além de oferecer um aporte de US$ 100 milhões para gastos com infraestrutura. 

Houve candidaturas de 18 propostas de quase 30 universidades de 9 países. Com a recusa do MIT de Boston em participar, Stanford se transformou na favorita --foi das salas de aula da universidade californiana que saíram os fundadores de Google, Yahoo, HP, Sun e PayPal, além de boa parte das diretorias da Apple, do Facebook e da Microsoft. 

Mas o consórcio entre a tradicional Universidade Cornell, de Ithaca, no Estado de Nova York, e o instituto tecnológico israelense Technion, de Haifa, ofereceu rapidez --as aulas começariam um ano antes do que previam os demais concorrentes-- e garantiu financiamento imediato para começar o novo campus, além dos US$ 100 milhões da prefeitura. 

A vantagem se definiu uma semana antes da data em que Bloomberg anunciaria o vencedor, em dezembro de 2011, quando um ex-aluno de Cornell, o bilionário Charles Feeney, criador da rede Duty Free Shops, doou US$ 350 milhões à instituição. A doação, uma das maiores já feitas por um indivíduo a uma universidade no mundo, foi integralmente para o projeto. 

A primeira fase do campus desenhado pelo arquiteto Thom Mayne para o Cornell NYC Tech deve ser inaugurada na Roosevelt Island em 2017 --na próxima década, a nova instituição deve alcançar os números de 2.500 alunos e 300 professores. O investimento nos próximos 15 anos chegará a US$ 2 bilhões. Mas, como Nova York tem muita pressa, as aulas não vão esperar. A prefeitura e o consórcio vencedor assinaram uma parceria com o Google para criar uma sede provisória do campus em Manhattan. 

A instalação temporária funcionará num edifício que ocupa um quarteirão inteiro nas proximidades do parque High Line, no bairro do Chelsea. O gigante dos mecanismos de buscas comprou o imóvel dois anos atrás, por US$ 2 bilhões, e alugou 2.500 metros quadrados de um de seus 15 andares ao consórcio, por um período de cinco anos. Os alunos, todos pós-graduandos, começam a frequentar as aulas no final deste mês --certamente sob os olhos atentos de boa parte da comunidade acadêmica internacional. 

DO ZERO
Caminhando pelo vasto andar do Google ainda vazio, com apenas dez funcionários, Dan Huttenlocher, 54, sonha alto. Ele foi nomeado em março passado reitor do novo campus. Professor de Ciência da Informação, Computação e Negócios em Cornell desde 1988, Huttenlocher tem como tarefas a criação do currículo e a seleção dos professores --em resumo, inventar praticamente do zero a tal universidade do futuro. As expectativas são altas. 

Há um ano, ao apresentar o consórcio Cornell-Technion como vencedor do concurso que originaria o Cornell NYC Tech, o prefeito Michael Bloomberg --ele mesmo um bilionário da tecnologia e da mídia-- afirmou acreditar que a criação da nova universidade ajudaria Nova York a se tornar mais rapidamente "o centro do universo digital". 

Se, no momento, parece que cada jovem americano brilhante, da economia à engenharia, quer aprender a fazer códigos de software e criar a enésima rede social para tentar se tornar o novo Mark Zuckerberg, o que Huttenlocher pensa em lecionar no novo campus? Algo que não envelheça como, digamos, um Orkut? 

Ele diz que o programa se erguerá em torno grandes focos: vida mais saudável; ambiente construído --termo que designa não só arquitetura e planejamento, mas aspectos urbanos na escala mais reduzida do bairro, do quarteirão ou da rua--; e mídia conectiva --aquela que interage com redes sociais e na qual as fronteiras entre emissor e receptor se encontram em dissolução. 

"Iremos da pesquisa científica sobre corpo ao uso de sensores e radares para construções mais sustentáveis e às novas mídias --não só redes sociais, mas as formas de nos comunicar, consumir e compartilhar informação." 

Não à toa, os focos se relacionam a três das maiores indústrias da cidade: medicina, mídia e construção e planejamento urbano. O jovial Huttenlocher vai explicando outras singularidades do projeto: "Não teremos departamentos, haverá cada vez menos barreiras de comunicação, será um ambiente aberto". 

Ele contratou Greg Pass, ex-diretor de tecnologia do Twitter, para chefiar o escritório de empreendedorismo do campus --instância responsável pelas futuras empresas que nascerão com os estudantes. "Todo aluno terá um orientador e um mentor da indústria, que esteja no mercado de trabalho.

Todos farão estágio como aprendizes. Quatro dias por semana serão de aulas técnicas, e um, só de prática", discorre. 

Empresas serão convidadas a ter centros de pesquisa e desenvolvimento dentro do campus.

"Quero laços muito diretos entre empresas, professores e alunos. No passado, a pesquisa gerava interesse comercial entre as empresas. Hoje em dia, também acontece o caminho inverso; acadêmicos se debruçam sobre desafios empresariais --o interesse comercial gera pesquisa", diz. 

No Brasil, doações de empresas a universidades ainda podem ser mal recebidas por alunos e professores; mas essa parceria entre iniciativa privada e academia é bem-vista em Nova York. "Acadêmicos curiosos querem trabalhar com problemas reais, ter acesso a dados que as empresas possuem e que não estão ainda na universidade", afirma. 

Em sua carreira, o próprio Huttenlocher mistura esses dois mundos. Ao longo de mais de 20 anos lecionando em Cornell, tirou várias licenças para comandar pesquisa na Xerox, criar empresas de tecnologia e trabalhar em áreas que vão da análise de redes sociais a robótica avançada para veículos autônomos. 

Questionado sobre a concorrência --poderosa em biologia, química e engenharia elétrica do MIT, onde surgem alguns dos maiores laboratórios farmacêuticos do mundo, e em softwares e redes sociais de Stanford-- o reitor busca uma "terceira via". 

"Queremos desenvolver nossa própria marca de tecnologia. O Vale do Silício [onde fica Stanford] é uma potência, mas é cercado de empresas de uma mesma área. Nova York tem grandes redes de televisão, jornais e revistas, editoras, teatros, produtoras. É um polo de medicina, de finanças, de planejamento urbano. Todas essas indústrias estão sendo transformadas pela tecnologia", diz. 

Para Huttenlocher, o Cornell NYC Tech pode construir um "engajamento profundo com essas empresas, com os clientes, com quem usa" e ocasionar "um grande impacto na transformação dessas indústrias". 

Para tanto, os docentes da nova universidade devem preencher uma série de qualidades superlativas. 

"Quero gente do mais alto nível acadêmico, que busque a pesquisa mais inédita, que sonhe com sucesso comercial, mas que queira causar impacto social. Há um número crescente de professores que pensam na tecnologia sem fins lucrativos, que se comprometem com grandes causas, e seria ótimo tê-los aqui." 

NA BRIGA
Mesmo derrotadas por Cornell, as duas maiores universidades de Nova York, Columbia e New York University (NYU), não desistiram da briga para abreviar o atraso tecnológico da cidade. Columbia planeja a criação de um Instituto para Ciências de Dados e Engenharia, e a NYU anunciou a construção, no miolo do Brooklyn, do Centro para as Ciências Urbanas e o Progresso, voltado para urbanização, gerenciamento de energia, trânsito, segurança e sustentabilidade. 

Outra parceria público-privada, bancada por empresas de tecnologia, como a Accenture, e bancos, como JP Morgan, Credit Suisse e Bank of America, promove concursos para start-ups de tecnologia que inventem serviços financeiros. Além de verbas de pesquisa, elas têm direito a mentores e encontros com diretores dos grandes bancos. 

A vontade de replicar o Vale do Silício vai bem além das fronteiras dos EUA. Em Skolkovo, na Rússia, um projeto bilionário procura criar um polo tecnológico rigidamente controlado. Cingapura está tentando o mesmo. No Brasil, localidades de diferentes escalas, do Recife a Campinas, de Belo Horizonte ao gaúcho Vale dos Sinos, sonham em ser o berço de novas empresas de ponta. O exemplo de Nova York demonstra que a competição está apenas no começo. E, assumindo o tamanho ainda bem modesto de seu polo, a cidade se autoatribuiu a alcunha de Sillicon Alley --beco do silício".

domingo, 20 de janeiro de 2013

Porque a música(e o amor) é tão importante na nossa vida?

Duas músicas(In my life and Is this love?)importantes na minha vida!A música assincrônica tem seu foco em lembranças ou imagens que nos inspiram.Veja o link abaixo baseado em
 
Revista Brasileira  de Psicologia do Esporte,Vol.3 no.2 São Paulo dic. 2010
Efeitos psicofísicos da música no exercício: Uma Revisão

Anatomically distinct dopamine release during anticipation and experience of peak emotion to music:Nature Neuroscience-14,257–262(2011)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Comitê Olímpico Brasileiro (COB) proibe o uso da palavra "olimpíadas" para designar competições científicas.

"Ilustríssimo Senhor
 
CARLOS ARTHUR NUZMAN
 
Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB)
 
Senhor Presidente, 
 
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), entidade civil, sem fins lucrativos nem cor político-partidária, que atua em defesa do avanço científico e tecnológico do Brasil e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), receberam com espanto e indignação a informação de que o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) notificou extra-judicialmente a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) pelo uso supostamente indevido da palavra "olimpíada", no nome da competição que organiza, a Olimpíada Nacional em História do Brasil.
 
Ninguém ignora a importância dessas competições científicas - no país já existem 18 delas - para a divulgação da ciência e o aumento do interesse dos jovens pelas atividades científicas, o que é fundamental para o desenvolvimento tecnológico de qualquer nação e o bem estar econômico e social de sua população.
 
Sem esquecer que jovens que vencem as olimpíadas nacionais depois vão participar de competições internacionais. E muitos deles têm se destacado, contribuindo para divulgar o nome do Brasil e da ciência e educação do país. É o caso, por exemplo, do jovem Matheus Camacho, de 14 anos, aluno de uma escola de São Paulo, que acaba de conquistar em Teerã, uma medalha de ouro na Olimpíada Internacional de Ciências, concorrendo com estudantes de 28 países. 
 
Por isso, a proibição do uso da palavra "olimpíadas" para designar competições científicas é uma situação que se configura mais despropositada ainda, quando se sabe que a palavra é empregada mundialmente para designar competições científicas, tais como International Mathematical Olympiad, Math Olympids for Elementray and Midde Schools, The British Mathematical Olympiad Sibtrust, Science Olympiad, entre muitas outras.
 
Assim, a SBPC e a ABC não concordam com a decisão do  COB de ter a exclusividade do uso da palavra "olimpíada", pois significará um retrocesso trazendo em prejuízo a todas as tradicionais olimpíadas educacionais (matemática, ciências, língua portuguesa, química, astronomia entre outras) que se realizam no Brasil há anos.               
Sempre prontas a defender a ciência e a educação brasileira, a SBPC e a ABC subscrevem,
 
Atenciosamente,
 
Presidente da SBPC
 
Presidente da ABC"

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Economismo, corporativismo e populismo:As três pragas da educação brasileira!

O que sobrou da sala de aula

Já foi o tempo em que a educação fazia parte do cardápio de otimismos que se costuma apresentar nas passagens de ano. No último meio século, a educação pública e gratuita, que garantira a formação de grandes nomes e grandes competências nas várias profissões, que assegurara o grande salto da sociedade escravista à sociedade moderna, foi progressivamente diminuída e até injustamente satanizada em nome de interesses que não são os do bem comum. O estado de anomia em que se encontra a educação brasileira pede, sem dúvida, a reflexão crítica dos especialistas, mas uma crítica que a situe na trama própria de tendências problemáticas da modernidade sem rumo para que seja compreendida e superada.

A educação brasileira foi atacada por três pragas que subverteram a precedência do propriamente educativo na função da escola e do processo educacional: o economismo, o corporativismo e o populismo. O economismo na educação não distingue entre uma escola e uma fábrica de pregos. A pedagogia do economismo confunde aluno com produto e trata a educação e o educador na perspectiva da produtividade, da coisa sem vida, da linha de produção. Importam as quantidades da relação custo-benefício. Não importa se da escola não sai a pessoa propriamente formada, transformada. Importam os números, os índices, os cifrões. Presenciei os efeitos dessa mentalidade na apresentação de um grupo de militantes da causa das cotas raciais perante o conselho universitário de uma das três universidades públicas de São Paulo, de que sou membro. Aliás, nenhum deles propriamente negro: "Não queremos vagas em qualquer curso; queremos em engenharia e medicina, cursos que dão dinheiro", frisaram.

Quer o governo que os royalties do pré-sal sejam destinados à educação e nem temos certeza de que isso acontecerá. Os políticos têm outras prioridades, especialmente a das urnas. Já estamos gastando o dinheiro que ainda não saiu do fundo do mar. Mas não sabemos em que esse dinheiro fará o milagre de transformar, expandir e melhorar a educação brasileira e de elevar substancialmente o nível da formação cultural das novas gerações. Dinheiro não educa. Quem educa, ainda hoje, é o educador. É inútil ter máquinas, computadores, tecnologia, maravilhas eletrônicas na sala de aula se, por trás de tudo isso, não houver um educador. Se não houver aquele ser humano especializado que faz a ligação dinâmica entre as possibilidades biográficas do educando e os valores e requisitos de um projeto de nação, a nossa comunidade de destino. Se não houver, sobretudo, a interação viva entre quem educa e quem é educado, se não houver a recíproca construção de quem ensina e de quem aprende. Se não houver a poesia deste verso de Vinicius de Moraes: "E um fato novo se viu que a todos admirava: o que o operário dizia, outro operário escutava".

O corporativismo transformou o professor de educador em militante de causa própria porque a serviço da particularidade da classe social e não a serviço da universalidade do homem. Não há dúvida de que o salário que valorize devidamente o educador e a educação é uma das premissas da revolução educacional de que carecemos. Do povoado do sertão ao câmpus universitário da metrópole, o educador tem carências que não são as carências do Fome Zero. Educação não é farinha de mandioca. "Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê", dizia Monteiro Lobato, em relação a um item da cesta básica do educador. Fome de educador não é fome de demagogo nem pode ser. Privá-lo dos meios para se educar, reeducar e poder educar é desnutri-lo.

A partidarização de todos os âmbitos da sociedade brasileira, até da religião, levou para dentro da educação os pressupostos da luta de classes. O militante destruiu o educador, drenou da educação a seiva vital que lhe é necessária para ser instrumento de socialização, de renovação e de criação social. A educação só o é na perspectiva dos valores da universalidade do homem, como instrumento de humanização e não como instrumento de segregação e de polarização ideológica, instrumento do que separa e não instrumento do que junta. Na escola, a ideologia desconstrói a escola em nome do que a escola não é.

O populismo, por sua vez, transformou a educação em meio de barganha política, instrumento de dominação, falsificação de direitos em nome de privilégios. O direito que nega a universalidade do homem nega-se como direito. Pela orientação populista, o importante não é que saiam da escola alunos bem formados, capazes de superações, gente a serviço do País. Nas limitações desse horizonte, o importante é que da escola saiam votos, obediências, o ser carneiril das sujeições, e não o cidadão das decisões.

A escola vem sendo derrotada todos os dias, do jardim da infância à universidade, pela educação difusa e extraescolar dos poderosos meios de produção e difusão do conhecimento que já não estão nas mãos do educador. A escola é cada vez mais resíduo de poderes e vontades que estão longe da sala de aula.

Autor - JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA USP
Publicado no Jornal O Estado de São Paulo em  30/12/2012.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Ensino técnico é insumo fundamental para o crescimento!

(Autor Luis Alberto  Piemonte - Folha de São Paulo em 15/01/2013)

Após a Segunda Guerra Mundial, a reconstrução na Alemanha e no Japão demandou de 15 a 20 anos, tempo surpreendentemente curto frente aos danos ocorridos. 

Durante e após a reconstrução, os dois países investiram fortemente em educação, principalmente o país asiático. A reforma focou o ensino público, que atende a 90% da população, básico e técnico; e na remuneração concedida aos professores, que é 25% maior do que a média dos servidores públicos. 

Mais tarde, a Coreia do Sul seguiu o mesmo caminho. Bons alunos têm acesso a bolsas, e o governo incentiva a pesquisa. Como resultado, o país cresceu 9% ao ano por mais ou menos três décadas Atualmente, é a vez da China, com um sistema mais "duro": o progresso de professores e estudantes depende dos seus desempenhos. 

Histórico de notas altas permite que ambos frequentem as melhores escolas, nas quais o governo investe mais. Notas menores levam a escolas de menor nível ou o mercado de trabalho. E o crescimento da China também é similar aos casos anteriores. 

Alguns países compreenderam que o conhecimento é o caminho para obter no futuro uma posição destacada. Trata-se de uma questão de vontade social e política. 

Em decorrência de observações feitas durante muitos anos -a partir dos quais desenvolvemos programas específicos para escolas técnicas e empresas-, constatamos que o nível técnico é fundamental para atingir altos níveis de produtividade. 

Estratégias, políticas e planejamento são normalmente de competência de cargos com nível universitário, enquanto "pôr as mãos na massa" nem sempre é "bem-visto". Quem toma as decisões deixa nas mãos de outros a sua implantação. 

Esse distanciamento se repete também horizontalmente, com pouco trabalho em equipe e, consequentemente, pouca reflexão sobre como as coisas são feitas. 

Mudar cultura é possível, porém demorado. É necessário buscar alternativas mais rápidas. Parece-nos que uma alternativa viável é reforçar fortemente o nível técnico, onde as "coisas acontecem" em qualidade e produtividade, oferecendo capacitação em inovação e melhoria contínua, para que as empresas já incorporem jovens com tais conhecimentos. 

Num grupo de trabalho de aproximadamente dez pessoas, é necessário que um deles, no mínimo, observe permanentemente como as operações são executadas no seu setor e detecte oportunidades de fazer diferente e melhor. 

Assim agindo, a estagnação (e consequentemente a obsolescência) dos processos operacionais poderia ser diminuída ou evitada, com o consequente aumento de inovação e melhoria contínua.
Esses conceitos precisam ser levados "às pontas" ou ao "negócio" - ou seja, às escolas e às empresas -, já que atualmente órgãos centralizados não se mostram muito efetivos.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O uso da tecnologia na educação!Um processo irreversível?



A segunda maior audiência da Khan Academy vem do Brasil. O educador visita o País pela primeira vez nesta semana para conhecer como anda a educação por aqui e divulgar seu livro Um Mundo, Uma Escola.  Na última quinta-feira, Khan conversou com o Estado por telefone de seu escritório na Califórnia.(Fonte Carlos Lordelo - O Estado de S.Paulo em 13 de janeiro de 2013)
 
O que o sr. pretende conversar com o governo brasileiro?  
Geralmente falo com os governos sobre como ter um sistema de educação mais acessível e equânime. Isso passa pela forma de se certificar conhecimentos. Podemos criar um jeito de as pessoas provarem que sabem algo independentemente do modo pelo qual aprenderam, seja na universidade, na internet, no livro-texto ou no trabalho? Para mim, bastaria ir a um lugar, mostrar a carteira de identidade, fazer uma prova e sair com as credenciais.


O sr. acha que os diplomas atuais vão perder valor se agora é possível aprender a partir de diferentes fontes e não apenas na escola e na universidade?  
Os diplomas já perderam valor, e não por causa da educação a distância. Se você for a diferentes países, verá que nem todos vão para as melhores universidades. A maioria estuda na sua cidade ou Estado. Mesmo que você frequente uma excelente faculdade, dê duro e aprenda bastante, ainda será difícil para que em outros lugares entendam o que você sabe ou não. O diploma diz muito pouco, é apenas um indicativo de suas competências. Como dar às pessoas algo que deixe evidente o que elas sabem? Precisamos de uma solução para isso.

Como a Khan Academy deve ser utilizada nas escolas?  
O melhor é caminhar para o modelo de sala de aula invertida em que os alunos aprendam a seu próprio ritmo com a Khan Academy e o professor veja na base de dados quem está com dificuldade e retrabalhar os conceitos em pequenos grupos, pedindo àqueles que já entenderam que ajudem os colegas. Nesse processo, o aluno aprende de forma personalizada e interage com outras pessoas. E assim que compreende o assunto pode fazer um teste. É uma questão de mudar a estrutura e o tempo da sala de aula. As classes devem deixar de se basear nas aulas expositivas, já que agora elas estão disponíveis na internet. Na escola, o tempo deve ser gasto com seres humanos se reunindo e se ajudando.

Quais são os impactos dessa revolução tecnológica nos professores e qual o papel deles em um mundo no qual os estudantes são mais ativos e autônomos?  
A maior parte do tempo do professor é gasto dando aulas expositivas. E quando ele não está fazendo isso, está criando e corrigindo provas e planejando aulas. Esses aspectos da carreira docente, nos próximos 5 ou 10 anos, poderão ser feitos por meio de ferramentas virtuais sob medida. A resposta à sua pergunta, então, é: interagir com os estudantes. Em vez de isso ocupar 10% do tempo do professor, como vemos hoje, pode se tornar 90% da ocupação dele, ou até 100%.


Então teremos um professor exercendo mais um papel de tutor? Algo que vemos em universidades como Oxford?  
Exatamente. Várias das vezes em que descrevo esse cenário as pessoas acham que estou tirando a importância do professor no processo educacional, desvalorizando-o. Às vezes um tutor parece menos importante que um professor ou mestre. Mas é como você salientou: este é o modelo de Oxford. Você tem o mestre, pessoa muito talentosa no que faz, que senta com o aluno e o desafia intelectualmente. Para mim, isso exige uma habilidade muito maior do professor do que planejar uma aula e dá-la de modo previsível.
 
Só o Estado de São Paulo tem mais de 5 mil escolas e 4 milhões de alunos. Dá para inverter todas as salas de aula da rede?  
Não tenho a ilusão de que isso vai ocorrer da noite para o dia (risos). Mas está acontecendo mais rápido do que eu esperava aqui nos EUA, pelo menos. Temos 20 mil salas de aulas usando a Khan Academy. Não foi por ordem do governo, mas uma decisão dos professores ao perceberem que podem ajudar seus alunos e tornar as aulas mais produtivas. Não se trata de dizer aos docentes o que devem fazer, mas fazê-los entender que isso deixará a vida deles melhor e fará com que gostem mais do trabalho.
  
No Brasil, só conseguimos colocar quase todas as crianças na escola há cerca de 20 anos, mas falta qualidade ao ensino público. Como a tecnologia pode ajudar a transformar este cenário?  
Do lado dos professores, ela permite saber com mais precisão se as crianças estão aprendendo. Mas o ideal seria padronizar os critérios de avaliação, para que seja possível comparar o desempenho dos estudantes não só ao dos colegas, mas em uma escala nacional. Isso depende de que o resultado do dever de casa que o aluno faz à noite vá para um sistema integrado da escola, do Estado, do País. Assim, a qualquer momento se pode ter um diagnóstico da educação. O que um professor espetacular pode fazer com esses recursos é inacreditável.

E pensando no estudante?  
Um aluno brasileiro pode ter acesso à mesma aula de cálculo que o filho de Bill Gates. Não depende mais de sua escola ser boa ou não porque fica numa região pobre da cidade.
  
Nosso modelo de salas de aula existe desde o século 18. Estamos desenhando o futuro da educação nos dias atuais?  
Espero que sim. Se as melhores escolas estão fazendo essas mudanças, eu vou copiar. No nível universitário você vê grandes instituições como Stanford, Harvard e MIT dizendo que não há mais sentido em dar apenas aulas expositivas, que o ensino tem de ser mais interativo e personalizado, e que precisamos repensar o significado dos certificados de conhecimento e competências. Quando instituições desse tipo mudam, o efeito se espalha por outras universidades e até no ensino médio. Em cinco anos, as melhores escolas vão estar invertendo a sala de aula, então para o resto dos colégios não será uma questão de 'Devo fazer?', mas de 'Como posso fazer isso também?'.

 O criador da Khan Academy, Salman Khan, vai estar no Brasil esta semana e fará uma palestra no dia 17(quinta-feira) às 9h30min, que será transmitida via hangout no link abaixo. Não perca!

https://plus.google.com/u/0/?tab=mX#events/ceq7p5lta9j21sc45vk2cau3ook

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

The Least Stressful Job:University Professor!


A commenter named Gwen Schug sent along a link to a well-written piece responding to the study I cited, detailing the hours it takes to do every aspect of a professor’s job, including the three hours preparation required per lecture, the fact that most professors have up to 55 advisees, each of whom requires at least an hour per semester, and grading, which can take a half hour per assignment. The piece also says professors are expected to attend 2-4 conferences a year, and points out that universities rarely pay the full expense. (Susan Adams)

domingo, 6 de janeiro de 2013

Livros gratuitos da Biblioteca Brasiliana-USP


A USP tem um site que disponibiliza milhares de livros para download. Ao entrar no www.brasiliana.usp.br você encontra livros , documentos , manuscritos e imagens que são parte do acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, doada à universidade.

José Ephim Mindlin foi um advogado, empresário e bibliófilo brasileiro.Após sua aposentadoria do mundo empresarial, Mindlin pôde dedicar-se integralmente a uma paixão que tinha desde os treze anos de idade: colecionar livros raros. Seu primeiro livro foi Discours sur l'Histoire universelle de Jacques-Bénigne Bossuet, de 1740. Ao completar 95 anos de idade, acumulava um acervo de aproximadamente 40 mil volumes, incluindo obras de literatura brasileira e portuguesa, relatos de viajantes, manuscritos históricos e literários (originais e provas tipográficas), periódicos, livros científicos e didáticos, iconografia e livros de artistas (gravuras). Foi então considerada a maior biblioteca particular e também a mais importante do Brasil.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A volta da Inquisição Medieval?


A utilização de fogueiras como maneira de o braço secular aplicar a pena de morte aos condenados que lhes eram entregues pela Inquisição é o método mais famoso de aplicação da pena capital, embora existissem outros. Seu significado era basicamente religioso - dada a religiosidade que estava impregnada na população daquela época, inclusive entre os monarcas e senhores feudais -, uma vez que o fogo simbolizava a purificação, configurando a ideia de desobediência a Deus (pecado) e ilustrando a imagem do Inferno.