segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
ANO INTERNACIONAL DA BIODIVERSIDADE
Depois da Astronomia a Biologia e a Ecologia. As Nações Unidas determinaram que 2010 é o Ano Internacional da Biodiversidade. No vídeo, o Secretário Geral das Nações Unidas faz o respectivo anúncio.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Melhores filhos para o nosso planeta!?
Esta foi a pergunta vencedora num congresso sobre vida sustentável:
"Todos pensam em deixar um planeta melhor para os nossos filhos... Quando é que pensarão em deixar filhos melhores para o nosso planeta?"
Uma criança que aprende o respeito e a honra dentro da própria casa e recebe o exemplo dos seus pais, torna-se um adulto comprometido em todos os aspectos, inclusive em respeitar o planeta onde vive...
domingo, 13 de setembro de 2009
A CONTRACEPÇÃO É A TECNOLOGIA MAIS VERDE

"CONTRACEPTION IS 'GREENEST' TECHNOLOGY" é o título de um recente comunicado de imprensa do Optimum Population Fund do Reino Unido, uma organização que trabalha com a London School of Economics. Começa assim:
"Family planning cheapest way to combat climate change
Contraception is almost five times cheaper than conventional green technologies as a means of combating climate change, according to research published today (Wednesday, September 9).
Each $7 (£4) spent on basic family planning over the next four decades would reduce global CO2 emissions by more than a tonne. To achieve the same result with low-carbon technologies would cost a minimum of $32 (£19). The UN estimates that 40 per cent of all pregnancies worldwide are unintended.
The report, Fewer Emitters, Lower Emissions, Less Cost, commissioned by the Optimum Population Trust from the London School of Economics*, concludes that “considered purely as a method of reducing future CO2 emissions”, family planning is more cost-effective than leading low-carbon technologies. It says family planning should be seen as one of the primary methods of emissions reduction. (...)"
Ver o resto da notícia aqui. O relatório está aqui.
sábado, 8 de agosto de 2009
HUMOR CIENTÍFICO DO "INIMIGO PÚBLICO": OS LINCES

Retomamos os apontamentos de humor científico do nosso colaborador David Marçal, tal como foram publicados no "Inimigo Público".
Centro de reprodução de linces: Portugal recebe apenas machos
Os cerca de 20 exemplares de lince ibérico (na foto) que vão entrar em Portugal pela fronteira de Vilar Formoso aguardam apenas que passe o mês de Agosto e que o trânsito se normalize para minimizar o risco de atropelamentos. O Fado, o Eucalipto, o Arbusto, o Ronaldo, o Gatão, o Bigodes, o Farfalhudo, o EDP, o Kilowatt, o Nunes Correia, o Alegre (proposta de Sócrates para amaciar o histórico socialista homónimo), o Michael Jackson, o Eusébio-2, O Obikwelo, o Dr. Nuno do Pump, o Lusofonia, o Nemátodo, o Allgarve-Big-Cat, o Magalhães e o Alta-Velocidade irão para o Centro de Reprodução de Silves. A ideia é que procurem fêmeas para se reproduzirem nos muitos bares e praias junto à costa, utilizando uma estratégia "Zézé Camarinha". No entanto, os tratadores espanhóis estimam que 30 por cento dos machos sejam gays, ou pelo menos bissexuais, pelo que alguns linces serão reeintroduzidos no Chiado e já deverão participar na Parada Gay para o ano.
David Marçal
terça-feira, 2 de junho de 2009
CAMINHADA NOCTURNA COM AS RAPINAS

No dia 6 de Junho é o Dia do Ambiente. Na véspera à noite pode fazer uma caminhada mum ambiente especial, conforme informa a Liga para a Protecção da Natureza.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
SOS CHOUPAL

Há uma velha canção de Coimbra que canta "Do Choupal até à Lapa". A "Lapa" é um belo parque-jardim desconhecido da cidade e do país pois, embora visitável, se encontra dentro de um quartel, na margem esquerda do Mondego. Um pouco mais à frente, na margem direita do Mondego, o Choupal ainda se pode visitar, mas talvez por pouco tempo. Está previsto um novo atravessamento por um enorme viaduto (já há um outro, além de uma ponte ferroviária e de se falar de uma travessia pelo TGV), não se sabendo se as acções em curso de muitos cidadãos, nomeadamente o "abraço" de 1500 pessoas ao Choupal no domingo passado, serão suficientes para impedir a anunciada tragédia.
Segundo o botânico Jorge Paiva, um dos nossos maiores divulgadores de ciência, se se consumar essa obra (que as motas-engis do país já dão como adquirida) na mata do Choupal, esta, que tem vindo a diminuir nos últimos anos, desaparecerá pura e simplesmente dentro de poucas décadas. Transcrevo do "Diário de Coimbra" de 14 de Fevereiro:
"Mata corre o risco de desaparecer neste século "O biólogo Jorge Paiva alertou que a mata do Choupal corre o risco de desaparecer neste século, recordando que nos últimos anos sucessivas obras públicas destruíram 20% da sua área. «O Choupal tinha 89 hectares e ficam apenas 73», declarou à agência Lusa o catedrático da Universidade de Coimbra. Jorge Paiva explicava, numa visita guiada, a importância ambiental da mata do Choupal, de que ele próprio é frequentador assíduo. «Temos aqui uma elevada biodiversidade e uma biomassa vegetal enorme», disse, numa alusão à existência de milhares de árvores de diferentes espécies, sendo «muitas centenárias e de grande porte». O Choupal «é a maior fábrica de oxigénio natural que Coimbra tem», onde «há animais protegidos por lei», como a lontra e a raposa, além de águias e outras aves. «Ainda por cima, está a Ocidente da cidade e os ventos marítimos empurram esse oxigénio para dentro da cidade», salientou o ambientalista. Jorge Paiva lamentou que, em três décadas, diversas obras públicas tenham subtraído 16 dos 89 hectares que constituíam o Choupal. Em causa, recordou, estão a regularização do Mondego, o canal de rega, estradas junto ao rio, o sistema municipal de tratamento de esgotos, as condutas do gás natural e a Ponte-Açude."Lembro que se trata da mesma cidade onde, no século XIX, se cortou um bocado de uma igreja românica na Baixa coimbrã, a Igreja de S. Tiago, para passar uma avenida (Camilo escreveu que o progresso "é gordo - alarga ruas e deita casas abaixo")! Agora, quer-se cortar um bocado de uma mata nacional para passar uma IC2. Admiro-me como é que a Câmara, tão activa no caso da co-incineração de Souselas, não tenha agora um papel proeminente de oposição ao desvario. Posso ser só mais um, mas junto-me às muitas vozes, já são mais de 7000, dos que querem salvar o Choupal.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Porque morrem os pelicanos?

Em 1948, Paul Müller ganhou o Nobel da medicina pela descoberta das propriedades insecticidas do DDT, em particular em relação aos vectores de doenças como a febre amarela e a malária. O DDT foi assim um dos primeiros insecticidas a ser usado extensivamente, não só na erradicação da malária como na agricultura. Mas o DDT é igualmente um poluente organoclorado persistente e bioacumulável, nomeadamente o DDT utilizado na agricultura é lixiviado dos campos para os cursos de água e posteriormente para zonas costeiras, afectando peixes e os seus predadores. Este desregulador endócrino que se acumula nos tecidos adiposos afecta especialmente os sistemas reprodutivo e nervoso. Em particular, o DDT e um dos seus produtos de degradação, o DDE, interferem na regulação hormonal de certos pássaros, provocando o enfraquecimento da casca do ovo e comprometendo a reprodução da espécie.
Em 1962, foi publicado o livro Silent Spring, de Rachel Carson, considerado uma das obras mais influentes do século e que despertou a consciência ecológica do mundo. O livro alertava para os efeitos ambientais do DDT, em particular para o facto de o DDT estar a causar a extinção de algumas espécies, entre as quais aquela que é o símbolo dos EUA, a águia careca, mas também o falcão peregrino e o pelicano castanho da Califórnia. O livro esteve várias semanas na lista de best-sellers no New York Times e causou tantos protestos públicos que o DDT, após uma acirrada disputa judicial e política, foi banido nos EUA e pouco depois na maioria dos países industrializados. Actualmente a sua utilização é controlada pela Convenção de Estocolmo sobre POPs (Poluentes Orgânicos Persistentes).
Os pelicanos castanhos da Califórnia, depois de terem recuperado dos efeitos nocivos do DDT, parecem estar de novo ameaçados, pelo menos é o que indicam as notícias que nos chegam da Baja California. Um número pouco habitual de pássaros mortos ou gravemente doentes têm aparecido na costa oeste dos Estados Unidos, do Oregão a San Diego, e os peritos em vida marinha não sabem bem porquê. De acordo com o International Bird Rescue Research Center em Fairfield, Califórnia, mais de 74 pássaros doentes foram trazidos para o centro nos últimos dias e receberam centenas de chamadas informando a descoberta de pelicanos mortos ou doentes e confusos. O director executivo do centro, Jay Holcomb, indica que os pelicanos estão exaustos, desorientados e apresentam as patas e a bolsa do pescoço descolorida.
«The ones that are captured are very thin, emaciated birds — these are animals who know how to care for themselves that don’t know where they are,» informou Holcomb. «The starvation is secondary, so something is going on that's making them not able to hunt.»
As autoridades norte-americanas estão a tentar descobrir a causa primária da morte dos pelicanos. Embora se especule se esta poderá ser o ácido domóico que causa a intoxicação amnésica de que falei a propósito do filme «Os pássaros» de Hitchtcock, os sintomas apresentados e o facto de apenas pelicanos serem afectados parecem excluir a hipótese. Mas poderá ser uma toxina ainda desconhecida produzida por outra alga que se acumule nos peixes de que se alimentam os pelicanos. Outra possível causa poderá ser um vírus como o vírus do Nilo que em 2007 ameaçou a colónia de pelicanos brancos no Medicine Lake National Wildlife Refuge no Montana.
Qualquer que seja o culpado encontrado, este é mais um alerta para a urgência de salvarmos os nossos oceanos e os seus frágeis ecossistemas.
domingo, 23 de novembro de 2008
Repensar o Nuclear

Eis um novo texto de opinião de Armando Vieira:
Quem visite o nosso país, e ouça alguns políticos, vai achar que vivemos um período de grande prosperidade. Desde um novo mega-aeroporto, várias linhas de TGV, auto-estradas mesmo ao lado de vias rápidas, há projectos para todos os gostos. Certamente que somos um país rico, dirá um irlandês, um país com apenas algumas dezenas de quilómetros de auto-estradas mas um rendimento per-capita duplo do nosso.
À questão de “serão estes investimentos produtivos?”, o governo responde com a tradicional fuga para a frente. Faz-se e depois logo se vê. No período actual de grande endividamento e proximidade de recessão económica, todos parecem ter dúvidas menos o Primeiro-Ministro. Também, ao contrário dos analistas económicos, parece que raramente ele tem dúvidas e nunca se engana. Sorte a nossa ter chefes de governos tão esclarecidos.
Na verdade existem muitas incertezas sobre o futuro, mas de uma coisa podemos estar certos. O consumo de energia irá aumentar inexoravelmente. Outra coisa que também podemos estar certos é que a actual fonte primordial de energia irá desaparecer dentro de duas ou três décadas. O nosso Primeiro-Ministro irá explicar-nos, com a sua inefável postura de líder omnisciente, que isso está pensado. As energias renováveis serão a nossa resposta ao problema energético.
Seria bom se fosse verdade, mas não é. Para o insaciável apetite por energia do homem, as energias renováveis (solar, eólica, biomassa ou ondas) não passam de meros aperitivos. Hoje representam alguns pontos percentuais do consumo total de energia eléctrica, no futuro poderão chegar a uns meros 10%. Não chega.
Mais grave que isso. As energias renováveis, lamento informá-lo, são caras. Mais caras que as energias convencionais e nalguns casos muito mais caras. O preço do kWh da energia eólica, preço esse subsidiado pelo Estado, é cerca de 20 cêntimos, no caso da energia solar é perto de 50 cêntimos. Enquanto isso a energia paga pelo consumidor é cerca de 10 cêntimos. Não estou a dizer que não se deva investir nas energias renováveis, mas a verdade é que elas são caras e não vão resolver o problema da energia.
Já que o governo parece ter entrado num afã de realizar grandes projectos, existe um que ele poderia de facto realizar e com resultados bem reais na economia. A construção de uma central nuclear para produção de energia eléctrica.
De todas as energias, a nuclear é das que apresenta um menor custo por kWh e que tem maior durabilidade. Os EUA planeiam construir 14 nos próximos anos e a China nada menos de 100. Até a Finlândia, um dos países mais ecológicos do mundo, tem uma central já em construção.
A expressão nuclear faz qualquer ambientalista contorcer-se de inquietude. Eles, e todos os que se opõem a esta forma de energia, deviam rever os seus pressupostos. Os tempos mudaram. Hoje os reactores nucleares são uma forma comprovada de produção de grandes quantidades de energia, livre de dióxido de carbono, mais fiável e independente dos ditames da geografia ou do tempo. Patrick Moore, um dos fundadores do Greenpeace, acabou por se converter à causa nuclear.
Contabilizando todos os encargos, custos de combustível, de capital, de manutenção, e de desmantelamento, o nuclear tem o preço mais baixo de todas as outras formas de produção de energia eléctrica, praticamente igual ao preço do carvão. Porém o carvão é extremamente poluente e, se contabilizarmos os custos devidos à emissão de gases de efeito estufa, o preço da energia nuclear é claramente o mais baixo, menos de metade do preço da energia eólica e 2/3 do preço das centrais de gás natural a ciclo combinado, isto contando que o preço do gás natural não aumente.
Aqueles que argumentam que é muito perigoso podem consultar as estatísticas. O número de vítimas provocadas pela energia nuclear é claramente inferior às infligidas, directamente ou indirectamente, por qualquer outra forma de produção de energia. As centrais nucleares de quarta geração são muito mais seguras e virtualmente à prova de acidentes como o de Tchernobyl. O perigo que corremos por termos duas centrais nucleares em Espanha perto da fronteira, com uma tecnologia já obsoleta, é bem maior que o de construirmos uma nossa.
De uma vez por todas, deixemo-nos de hipocrisias e fobias atávicas quanto à energia nuclear. Se o governo quer fazer um grande investimento, da ordem dos 1500 milhões de euros, ou seja um terço do preço do novo aeroporto, tem aqui um excelente projecto.
Armando Vieira
Professor Coordenador no ISEP
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Economia do conhecimento

No «O Voto da Ciência» afirmei que as tecnologias em energias renováveis serão as próximas indústrias globais, ultrapassando muito provavelmente as tecnologias da informação daqui a uns anos. O gráfico acima, que representa a evolução das estimativas das necessidades energéticas globais, explica esta afirmaçãos já abordada em Agosto no «Energias alternativas e aquecimento global».
A necessidade de investimento na pesquisa de fontes energéticas alternativas é explicada também pelo facto de que, quaisquer que sejam os modelos de crescimento económico que se utilizem, é necessário para evitar recessões que a taxa de crescimento do progresso tecnológico, nomeadamente no sector energético, seja suficiente para contrabalançar os efeitos das restantes variáveis em equação. Assim, os países que mais investirem agora em investigação nesta área beneficiarão assim de uma vantagem estratégica no futuro próximo, facto a que os dirigentes europeus estão muito sensíveis.
Vários anúncios da União Europeia na semana passada confirmam a aposta no desenvolvimento de uma economia do conhecimento. Um deles informa que a Comissão Europeia autorizou o financiamento de 67,6 milhões de euros, concedido no final de 2007 pela OSEO - a agência francesa de apoio à inovação -, para o programa Horizon Hydrogen Energy (H2E). O programa coordenado pelo grupo Air Liquide envolve cerca de 20 parceiros, que incluem grupos industriais, pequenas e médias empresas e laboratórios públicos franceses de investigação. O H2E representa um investimento de cerca de 200 milhões de euros em I&D num período de 7 anos na pesquisa de soluções energéticas ligadas ao hidrogénio - que inclui investigação em células de combustível de hidrogénio.
Por outro lado, a Comissão Europeia, a indústria europeia e a comunidade europeia de cientistas, constituiram a parceria público-privada da Joint Technology Initiative (JTI). A JTI vai investir cerca de mil milhões de euros ao longo de seis anos na investigação em células de combustível e hidrogénio, bem como no desenvolvimento e demonstração desta tecnologia. A plataforma HFP tem como objectivo colocar a Europa na linha da frente das novas formas de energia e criar massa crítica relativamente a estas tecnologias antes de 2020, ano em que se prevê uma diminuição da capacidade de produção da indústria petrolífera.
O Comissário Europeu da Ciência e Investigação, Janez Potocnik, afirmou que «ao investir nestes projectos científicos estamos a colocar o dedo na ferida, pois o desenvolvimento de novas tecnologias é crucial para alcançar os objectivos europeus no que concerne às alterações climáticas e aos desafios energéticos».
A iniciativa foi formalizada numa assembleia geral em Bruxelas que decorreu entre 13 e 15 de Outubro e reuniu cerca de 600 Stakeholders da Fuel Cells and Hydrogen Joint Technology Initiative e durante a qual a a Alemanha, a Grã-Bretanha e a Dinamarca e apresentaram programas nacionais consistentes no que respeita a uma economia focada em energias que não as provenientes de combustíveis fósseis, em especial o hidrogénio. A Dinamarca foi mais longe e anunciou pretender em 2020 produzir toda a sua energia de forma renovável estando em curso o desenvolvimento de uma base industrial de suporte desde a produção de hidrogénio à fabricação de pilhas de combustível.
Mas soube-se também que que o Banco Europeu de Investimentos anunciou a sua disponibilidade para financiar os projectos de infra-estrutura necessários à logística do hidrogénio, por exemplo, a rede comum de pipelines para distribuição de H2 que os países nórdicos pretendem construir.
Foi criada igualmente uma plataforma comum que pretende congregar as regiões e municipalidades activas no desenvolvimento de tecnologias ligada ao hidrogénio – HyRaMP- European Regions and Municipalities on Hydrogen and Fuel Cells.
Mas o interesse nesta forma de energia não se restringe à Europa: por exemplo, dentro de dias começarão a circular em S. Paulo autocarros movidos a hidrogénio no âmbito do projecto «Estratégia Energético Ambiental: Ônibus com Célula a Combustível a Hidrogênio».
Em Portugal, o hidrogénio parece ter sido ignorado pelos nossos legisladores no quadro legal dos incentivos e benefícios fiscais das energias renováveis ao ponto de os veículos movidos a hidrogénio nem sequer beneficiarem da taxa reduzida aplicado aos que utilizam GPL ou gás natural muito menos das isenções em sede de IA de que gozam os veículos híbridos. No entanto, uma das descobertas que promete revolucionar esta área foi feita muito recentemente em Portugal, a gelatina iónica que permitará desenvolver dispositivos mais baratos e mais ecológicos.
sábado, 4 de outubro de 2008
REGRESSO AO NUCLEAR

MInha crónica no "Sol" de hoje:
Cada vez se fala mais de energia nuclear, por todo o lado e também aqui. O nuclear, que é uma tecnologia muito segura, tem uma grande vantagem relativamente às centrais térmicas: não emite o dióxido carbono que causa o efeito estufa. Poderá haver razões, económicas ou outras, para não construirmos uma central nuclear, mas o pior que poderíamos fazer era dizer à partida que não. É necessário discutir até chegar a uma resposta bem informada. As centrais nucleares funcionam bem em muitos países do mundo. E nós importamos energia de Espanha e França, que é, em larga medida, nuclear.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Partindo ligações com o efeito de estufa
Os fluorocarbonetos, HFCs e PFCs -compostos químicos em que o carbono se liga ao flúor -, são compostos que encontram muitas utilizações especialmente depois de o protocolo de Montreal ter banido a utilização de clorofluorocarbonetos (CFCs) devido ao facto de destruirem a camada de ozono.Para além de muito utilizados como fluidos de refrigeração em frigoríficos e unidades de ar condicionado, as propriedades químicas da ligação C-F tornam os fluorocarbonetos ideais para utilizações que exijam materiais resistentes quimica e termicamente. São ainda muito hidrofóbicos pelo que podem ser utilizados como revestimento em materiais à prova de água, não aderentes ou repelentes de sujidade, encontrando aplicações desde a óptica ao vestuário passando por utensílios de cozinha. Para além disso, a elevada solubilidade do oxigénio nestes compostos faz com que sejam um componente base do sangue artificial.
Os fluorocarbonetos são igualmente gases de efeito de estufa (GEEs) muito potentes, com o problema adicional de a sua inércia química e resistência térmica os tornarem persistentes no meio ambiente. Por exemplo o tetrafluorometano, o análogo fluorado do metano, tem um potencial de aquecimento global a 100 anos de 6 500 e persiste na atmosfera por 50 000 anos.
O que torna os FCs tão atraentes em inúmeras aplicações torna igualmente muito difícil tratar estes compostos já que a quebra da ligação C-F, sem um catalisador apropriado e até agora desconhecido, só pode ser conduzida a temperaturas muito elevadas o que limita a adopção de processos que destruam estes compostos. Assim, muitos países comprometeram-se pelo protocolo de Kyoto a diminuir significativamente as emissões de FCs em 2012.
A importância dos FCs no mundo actual por um lado e por outro os seus problemas ambientais explicam o interesse despertado por um artigo publicado por um grupo da universidade Brandeis na Science de 29 de Agosto. O grupo de Oleg Ozerov sintetizou um catalisador que parte ligações C-F à temperatura ambiente, prometendo para breve uma arma química eficaz na guerra a estes compostos.
Os produtos da reacção apresentada são hidrocarbonetos e fluorosilanos que não apresentam os problemas dos compostos de partida e os autores conseguiram neutralizar todo o material à temperatura ambiente nos três HFCs testados, num dos casos em apenas 6 horas.
Alguns especialistas da área comentaram que há alguns problemas a resolver antes de o processo poder ser utilizado em larga escala, nomeadamente em relação à síntese e produção do catalisador. Para além disso, a reactividade do catalisador tem de ser melhorada para dar conta dos FCs mais recalcitrantes quimicamente, os perfluorocarbonetos. Reyes Sierra da universidade do Arizona em Tucson realça ainda que embora a técnica descrita possa ser potencialmente útil, não pode dar conta dos FCs já dispersos no meio ambiente, nomeadamente em aquíferos. Mas como declarou Ozerov ao Enviromental Research Web,
«Em termos de relevância ambiental, é possível que esta investigação abra as portas para potenciais novas tecnologias que removam os poluentes ambientais fluorados. Eu devo frisar que a investigação tal como está neste momento não é prática, mas o artigo da Science é uma prova de princípio não é uma tentativa de demonstrar que pode ser aplicada já.»
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Sympathy for the Devil - 2
Há quase um ano, escrevi sobre a devil facial tumor disease (DFTD) que ameaçava de extinção o diabo da Tasmânia, o único Sarcophilus sobrevivente e o maior de todos os carnívoros marsupiais. Na altura, referi que os cientistas pensavam que, para debelar a epidemia de proporções catastróficas, seriam necessárias medidas extremas, como matar os animais que apresentassem os estágios iniciais da doença ou criar áreas fechadas com populações saudáveis nas ilhas ao largo da Tasmânia.Hoje descobri que aparentemente essas medidas poderão não ser necessárias já que os próprios diabos estão a reagir a esta alteração ambiental drástica. Mais concretamente, os diabos lutam contra a extinção com sexo, atingindo a maturidade sexual em metade do tempo «normal».
No artigo «Life-history change in disease-ravaged Tasmanian devil populations», publicado no mês passado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, PNAS, Menna Jones da Universidade da Tasmânia conta-nos como a doença alterou radicalmente os hábitos sexuais dos diabos.
Jones e a sua equipa estudaram os dados existentes sobre reprodução e dinâmica populacional referentes a 5 locais. Antes da DFTD, quando existia uma muito maior proporção de adultos maduros, com mais de 3 anos, as fêmeas começavam a reproduzir-se com dois anos e continuavam por mais três anos, morrendo por volta dos 5-6 anos. Com o aparecimento da doença, a reprodução precoce de fêmeas com 1 ano de idade aumentou dramaticamente em quatro das populações seguidas. Dependendo dos locais, entre 13 e 83% das fêmeas começam a reproduzir-se ainda «adolescentes».
Os tumores afectam principalmente adultos com pelo menos dois anos e os diabos infectados morrem em seis meses. Os até 4 filhotes de cada ninhada vivem 4 meses na bolsa marsupial da mãe e depois são amamentados durante 5 meses pelo que esta reprodução precoce aumenta muito a probabilidade de sobrevivência das ninhadas e, por consequência, da espécie.
Os autores sugerem que menores densidade populacional e competição por comida podem ser as causas da reprodução juvenil. O certo é que embora o destino desta espécie continue incerto, o mecanismo que evoluíram vai pelo menos atrasar a sua extinção.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Energias alternativas e aquecimento global

O debate quente sobre o aquecimento global referido pelo Desidério pode manter as altas temperaturas neste Verão há alguns dias muito morno mas, na minha opinião, passa ao lado de um ponto importante que tem pouco a ver com possíveis efeitos climáticos e mais com efeitos económicos. De facto, e como já apontei, o debate sobre as alterações climáticas centra-se essencialmente no CO2 antropogénico, mais concretamente orbita aquele produzido pela combustão de um combustível fóssil em particular, o petróleo, e são postos na prateleira os outros GEEs. Assim, as directivas da UE - mas também as preocupações do encontro em Bali - incidem quasi exclusivamente na procura de fontes alternativas de energia e no aumento da eficiência energética dos dispositivos existentes (por vezes traduzidas em medidas absolutamente ridículas).
As medidas que a CE implementou, nomeadamente as metas que pretendem que em 2020 sejam obtidos de fontes renováveis 10% do combustível usado nos meios de transportes e 20% da energia produzida, não foram alteradas apesar de a primeira meta se ter revelado totalmente contraproducente. Os problemas dos biocombustíveis que se pretende substituam derivados do petróleo, abordados com alguma frequência no De Rerum Natura, são há muito apontados por diversos analistas mas isso não impediu a sua «venda» ao público em geral como uma energia «verde» salvadora do planeta. Na minha opinião, a «febre» dos biocombustíveis primários só será debelada a (relativamente) breve trecho com o remédio que resolverá a dependência do petróleo dos meios de transporte - e ditará provavelmente a morte dos motores de combustão interna. A solução que me parece mais provável, o motor eléctrico, remete para o verdadeira questão «quente» em todos estes debates: a necessária ruptura em relação ao actual paradigma energético.
De facto, o que me parece estar subjacente a muitas destas medidas não são apenas preocupações ambientais - que são utilizadas para justificar e «amenizar» o seu impacto no bolso dos eleitores - mas sim questões económicas e, provavelmente, geo-políticas. O paradigma energético actual é completamente dependente do petróleo (o que por seu lado implica uma dependência dos países produtores de petróleo). Esta dependência tem como consequências, para além das questões ambientais, aquelas de que os últimos tempo foram uma advertência, nomeadamente a instabilidade política e a crise económica que se seguiram ao aumento do preço do petróleo e ao efeito cascata que despoletou: aumento dos preços, da inflação e das taxas de juro, que por sua vez levaram a uma diminuição do consumo por parte dos particulares e do investimento por parte das empresas, para além de terem reduzido a factura energética cobrada pelo estado.
Este «abanão» corroborou o que muitos aprenderam com aqueloutro suscitado pelo primeiro choque petrolífero de 1973/74 e que foi de certa forma traduzido para o público em geral como a necessidade de um desenvolvimento sustentável, o tal «development that meets the needs of the present without compromising the ability of future generations to meet their own needs» que indicava em 1987 o Brundtland Report e que o Desidério considera curioso do ponto de vista filosófico. Mas na realidade penso que para muitos os que adoptaram esta expressão quasi como ex libris da sua actuação política as gerações vindouras estão longe das suas reais preocupações. De facto, quaisquer que sejam os modelos de crescimento económico que se utilizem, quer os endógenos, como os modelos Auerbach-Kotlikoff (AK) ou Schumpeter, quer os exógenos, por exemplo o modelo Solow-Swan, o sector energético faz soar campainhas de alarme em todos os analistas, campainhas que ressoam especialmente alto em Portugal.
Os últimos meses em particular evidenciaram a enorme vulnerabilidade da economia portuguesa face ao petróleo e a necessidade de alteração de paradigma energético cá no burgo, que mais que preocupações ambientais terá como objectivo a redução dos custos médios da produção de energia directamente consumida pelos sectores produtivos da economia. Em relação a Portugal, não há dúvidas de que a fonte de energia renovável de maior potencial a curto/médio prazo é a energia hídrica. Embora sejam de incentivar tecnologias como a fotovoltaica e a eólica, não me parece provável que a microgeração de energia eléctrica possa alguma vez representar uma fatia significativa das necessidades nacionais, prevendo-se que satisfaça cerca de 0,1% do consumo eléctrico em 2010 (tese de mestrado em formato pdf).
Assim, diria que é necessária uma visão energética de longo prazo e que tem a ver com o desenvolvimento de fontes de energia realmente alternativas face às previsões de consumo, como sejam o hidrogénio, que permitiria igualmente uma muito necessária produção descentralizada de energia, e a energia nuclear. Esta última, por uma razão que nunca percebi, é quasi um tabu em Portugal como a celeuma levantada pela sua referência pelo governador do Banco de Portugal ilustra. Mas a energia nuclear não se restringe à cisão, existe igualmente a fusão nuclear e em Portugal pouco se fala no tema embora o meu colega Carlos Varandas, do Centro de Fusão Nuclear (CFN), seja o presidente do consórcio europeu para o projecto ITER (Reactor Termonuclear Experimental Internacional).
Mas o que é realmente indispensável a muito curto prazo é uma completa alteração dos hábitos de consumo de energia porque se não existem ainda respostas objectivas sobre o que será o novo paradigma energético há quase a certeza que este não assentará nas soluções actualmente disponíveis no catálogo das renováveis. Teremos assim de esperar algum tempo para que novas soluções passem da fase de investigação científica para desenvolvimento tecnológico.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Aquecimento global
Dos 13 episódios da série Cosmos, o episódio 4, Céu e Inferno, é certamente um dos mais marcantes. Com todo o carisma que o caracterizava, neste episódio Carl Sagan conta-nos como os monges de Cantuária foram testemunhas em 18 de Junho de 1178 de um impacto lunar que alguns cientistas pensam ser o responsável pela cratera Giordano Bruno. Uns séculos mais tarde, em 30 de Junho de 1908, uma explosão abalou a Sibéria, projectando árvores a milhares de quilómetros de distância e produzindo um estrondo que se ouviu em todo o mundo. O incidente deu origem a uma série de especulações, algumas completamente disparatadas como a que pretende que uma nave espacial extraterrestre teria sofrido um acidente nuclear. Carl Sagan examina os testemunhos e conclui que a Terra foi atingida por um pequeno cometa embora alguns investigadores, por exemplo William Napier e Victor Clube, pensem que ambos os fenómenos referidos por Sagan se devem à chuva de meteoritos Beta Taurid uma vez que coincidiram com o pico do fenómeno.
Voltando ao episódio Céu e Inferno, Sagan parte destas catástrofes naturais como ponto de partida para uma viagem até Vénus, explicando que não há evidências que confirmem a hipótese de Immanuel Velikovsky de que Vénus teria sido um cometa gigante. A atmosfera «infernal» de Vénus, com temperaturas dantescas devido ao efeito de estufa, foi utilizada por Sagan para alertar que o destino de Vénus pode ser um alerta para o nosso mundo. Sagan lança, em 1980, um aviso para a necessidade de medidas de protecção do nosso frágil planeta azul.
As alterações climáticas devidas a efeito antropogénico sobre que nos avisava há quase três décadas Carl Sagan estão certamente na ordem do dia mas as «paixões» que geram são por vezes contraproducentes para a necessária consciencialização de um problema muito complexo. O espaço de comentários do De Rerum Natura, muitas vezes inflamado pelo aquecimento global, não é excepção e, como sempre, embora as opiniões se possam dividir sobre a análise dos factos, não há melhor forma de abordar a questão que discuti-la com base nos dados disponíveis.
A Royal Society da Nova Zelândia emitiu recentemente um relatório sobre alterações climáticas, preparado por um painel de peritos em climatologia, que pretende exactamente elucidar a opinião pública esclarecendo as confusões que rodeiam o tema tornando «absolutamente claro quais são as evidências que indicam alterações climáticas e quais as causas antropogénicas (de origem humana) para essas alterações».
O relatório é melhor entendido se lhe juntarmos o gráfico reproduzido acima que discrimina as emissões de gases de efeito de estufa na Nova Zelândia em 2004. O relatório especifica ainda que «As concentrações atmosféricas de CO2, metano e óxido nitroso aumentaram 35%, 150% e 18% respectivamente desde 1750, aproximadamente».De facto, parece que as atenções se centram apenas no CO2 e se esquecem os outros gases de efeito de estufa (GEEs).Assim, fala-se muito em CO2 e efeito de estufa sem se entender bem que quando se fala em equivalentes de CO2 isso não significa que o dióxido de carbono seja o único gás responsável pelas alterações climáticas. Na realidade, o gás mais importante, responsável por entre 36 a 66% do efeito de estufa, é o vapor de água. Mas muitos outros gases contribuem para reter a radiação infravermelha emitida pela Terra bastando para isso que as suas vibrações sejam activas no IV.
O potencial de aquecimento global - Global warming potential (GWP)- de um GEE é uma medida relativa que compara o gás em questão com a mesma quantidade de dióxido de carbono (cujo potencial é definido como 1). O potencial de aquecimento global tem em conta não só a «eficácia» na absorção de radiação IV de um determinado GEE como o seu tempo de vida na atmosfera. Assim, para efeitos de comparação é necessário indicar qual o intervalo de tempo em questão caso contrário a comparação não faz sentido. Por exemplo, o metano tem um tempo de vida de 12 anos (degradando-se em CO2 e água) pelo que apresenta um GWP a 25 anos de 72, valor que diminui para 25 se o período considerado for um século, o intervalo de tempo normalmente associado aos GWPs. Na tabela seguinte são indicados os gases listados actualmente pelo IPCC como os principais GEEs (embora pareça provável que a lista esteja incompleta...).
| | | |
| | |
|
| | |
|
| | |
|
| | |
|
| | |
|
| | |
|
De acordo com um relatório da FAO de finais de 2006, as emissões provenientes da pecuária geram cerca de 18% mais efeito de estufa que o sector dos transportes, produzindo, na altura, cerca de 65% do N2O e 37% do metano antropogénicos. O N2O é o gás hilariante na base do aviso de Paul Crutzen sobre a possibilidade de os biocombustíveis poderem agravar o efeito de estufa já que o óxido nitroso é formado na degradação bacteriana dos nitratos utilizados como fertilizantes.
Como as Nações Unidas avisaram na altura, é necessário repensar a pecuária (e quiçá o nosso consumo de carne...). De facto, o relatório da FAO indica que cerca de 30% do solo terrestre é usado como pastagem permanente e cerca de 33% das terras aráveis são utilizadas na produção de rações animais. De igual forma, a transformação de florestas em pastagens é uma das principais causas da deflorestação, especialmente na América Latina onde 70% de floresta amazónica foi transformada em pastagens. Por exemplo, cerca de 75% das emissões brasileiras de CO2 são provenientes das queimadas na Amazónia, realizadas principalmente para expandir a fronteira da pecuária (e em menor escala da cultura de soja). Como refere o relatório «O reino do Gado» publicado em Janeiro deste ano pela ONG Friends of the Earth (Amigos da Terra) :
«Quaisquer sejam os fatores de transformação e deslocamento das atividades agrícolas, a mudança no uso do solo na Amazônia é protagonizada pela pecuária. É na pata do boi que repercutem investimentos e alterações no consumo de alimentos ou de energia. (...) O Brasil ainda subestima as dimensões e as dinâmicas deste fenômeno».
Mais recentemente, as declarações de Nicolas Fabres, assessor de agroecologia da Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA), parecem indicar que pelo menos do Brasil os problemas foram identificados e que se tenta trabalhar uma solução, nomeadamente no que à desertificação diz respeito. De facto, um uso inadequado das pastagens acelerou em muitos locais, não apenas no Brasil, os processos de desertificação.
Mas não é apenas a produção de carne para alimentação que tem um impacto ambiental muito grande, a agricultura é responsável por emissões não despiciendas não só de N2O como de metano, sendo a cultura de arroz uma das principais fontes antropogénicas de metano. Actualmente são libertados entre 300 a 400 mil milhões de toneladas de metano com origem antropogénica que correspondem a uma contribuição para o aquecimento global equivalente a cerca de 1/3 da correspondente ao CO2. Entre 50 a 100 mil milhões de toneladas têm origem no cultivo de arroz.
De acordo com o Center for International Earth Science Information Network (CIESIN), em 2020 serão necessários mais 350 milhões de toneladas de arroz anualmente para alimentar uma população crescente, ou seja, ver-se-à um aumento de mais de 50% da produção actual e, consequentemente, um aumento equivalente nas emissões de metano.
Há cerca de 4 anos, o paleoclimatólogo David Beerling indicou que as temperaturas muito elevadas durante o Eocénico, altura em que o Árctico exibia um clima subtropical, muito parecido com o nosso, tinham pouco a ver com os níveis de CO2 da época, próximos dos actuais. De acordo com o cientista, os culpados pelo aquecimento global de há cinquenta milhões de anos foram o metano, o ozono e o N2O.
Como referiu o autor, «Por isso, mesmo que controlemos o problema do dióxido de carbono, podemos continuar em apuros graças a estes gases, que têm recebido muito menos atenção de políticos e activistas [e eu acrescento da opinião pública]. Essa é a verdadeira lição deste estudo».
No entanto, parece que a lição não foi bem entendida e Beerling repete o aviso no seu livro de 2007, «The Emerald Planet», um aviso que pode vir a demonstrar-se tão presciente como o de Sagan há quasi 30 anos:
«Nós estamos obcecados justamente com o dióxido de carbono mas claramente arriscamos neglicenciar outros perigos».
domingo, 27 de julho de 2008
A marcha dos pinguins
Centenas de filhotes de pinguins têm sido encontrados mortos nas praias do Rio de Janeiro nas últimas semanas. De acordo com Eduardo Pimenta, superintendente da agência de protecção ambiental da costa estadual, mais de 400 pinguins foram encontrados mortos nas praias do estado nos últimos dois meses. Os números da catástrofe podem ser ainda mais avassaladores uma vez que nem todos os pinguins que morrem nas praias são contabilizados.A notícia surge pouco depois de um artigo de Dee Boersma ter feito a capa da edição de Julho/Agosto da revista BioScience. No artigo, a especialista em Biologia de Conservação da Universidade de Washington lança um alerta para o declínio das populações de pinguins. Estas estão a desaparecer mais rapidamente do que se podia prever, registando-se em muitas espécies um declínio na ordem dos 50 por cento nas últimas décadas.
Boersma conta como visitou Dumont d'Urville, a base francesa na Antárctica onde o filme «A marcha dos pinguins» foi filmado. Os pinguins imperador estudados no filme incubam os ovos no meio do inverno antárctico e os filhotes deixam o ninho no verão, em Dezembro, princípio de Janeiro. As alterações climáticas nesta zona do globo traduzem-se no facto de em finais de Setembro já não existir gelo numa altura em que as penas das crias ainda não desenvolveram a camada hidrofóbica que permite a sobrevivência da espécie nas águas geladas. Para além disso, nos últimos tempos o verão antárctico tem sido marcado por chuvas torrenciais que encharcam os filhotes. Como referiu este mês o National Geographic, as crias congelam durante a noite e muitos milhares estão a morrer.Boersma estuda a maior colónia de procriação de pinguins-de-Magalhães em Punta Tombo, na costa atlântica da Argentina há cerca de 25 anos. Para além das alterações climáticas, a colónia é ameaçada por redes de pesca, turistas, e, principalmente, pela fome. As alterações nas correntes marinhas e a pesca desenfreada têm forçado os pinguins a deslocarem-se mais 60 km dos seus ninhos para encontrarem comida. Assim, de acordo com Boersma, a colónia, que tinha perto de 400 mil pares há pouco mais de vinte anos, está hoje reduzida a metade.
O padrão repete-se ou é ainda mais assustador noutros pontos do globo. Por exemplo, os pinguins da África do Sul, que utilizam dejectos de pássaros para fazerem os ninhos, diminuíram de 1.5 milhões de pares há um século para os actuais 63 mil pares devido à recolha do guano para fertilizante.
Nas Galápagos, onde existe a única espécie do hemisfério norte, um El Niño mais frequente está a empurrar a alimentação dos pinguins para longe da costa e a matar à fome a colónia. O número de pinguins decaiu para cerca de 2500, um quarto da população existente no arquipélago quando Boersma os estudou pela primeira vez na década de 70.
Muitas das espécies conhecidas de pinguins estão a ser afectadas, mais concretamente, de acordo com a União Internacional pela Conservação da Natureza, 12 espécies estão em algum tipo de perigo.A organização lista três espécies como ameaçadas de extinção e sete como vulneráveis, o que significa que «enfrentam alto risco de extinção», e duas mais como «próximas da ameaça». Há apenas cerca de 15 anos, apenas entre cinco a sete espécies eram consideradas vulneráveis.
No artigo publicado este mês, Boersma alerta para o facto de os pinguins serem o proverbial canário na mina de carvão, isto é, podem servir de «sentinelas das mudanças radicais do planeta» e especialmente são sentinelas das «doenças» que afectam os nossos oceanos. A cientista considera que os 43 «pontos quentes» dos pinguins devem ser vigiados muito mais de perto já que as populações de pinguins permitem aferir a variabilidade e viabilidade dos ecossistemas oceânicos.
Boersma considera ainda que há uma necessidade urgente em determinar o impacto do crescente número de pessoas a viver em áreas costeiras nos habitats marinhos. De facto, a cientista considera que para além das alterações climáticas, a actividade humana está a hipotecar a sobrevivência dos pinguins devido a factores como a pesca comercial, os derrames de petróleo e o desenvolvimento desordenado das zonas costeiras. Isto é, «Este problema levanta uma questão, será que os humanos estão a fazer com que seja demasiado difícil que outras espécies coexistam?»
A cientista explica melhor o que pensa: «À medida que os peixes que os humanos tradicionalmente comem se tornam mais escassos, começamos a pescar o resto da cadeia alimentar e a competir mais directamente com organismos mais pequenos pela comida de que eles dependem», acrescentando que «Os pinguins são daquelas espécies que nos mostram que estamos a alterar profundamente o nosso mundo. O destino de todas as espécies é a extinção, mas há algumas espécies que se extinguem antes do tempo e estamos a encarar essa possibilidade com alguns pinguins».
Na opinião da cientista, o rápido aumento da população mundial, de 3 mil milhões de habitantes em 1960 para 6.7 mil milhões em 2005, com a perspectiva de um crescimento para 8 mil milhões em 2025 indica que:
«Nós esperámos muito tempo. É claro que os humanos mudaram a face da Terra e mudámos também a face dos oceanos mas não o podemos ver. Nós já esperámos demasiado tempo».
terça-feira, 22 de julho de 2008
Abelhas e conservação da Natureza

Os Estados Unidos, mais especificamente a Califórnia, são responsáveis por cerca de 80% da produção mundial de amêndoas. As amendoeiras são totalmente dependentes das abelhas para polinização e o sucesso da colheita do ano passado foi em grande parte assegurado por milhões de abelhas importadas. De facto, as abelhas são responsáveis por cerca de 30% dos alimentos produzidos nos Estados Unidos mas nos últimos anos os apicultores americanos têm tido dificuldade em encher de colmeias os camiões com que percorrem o país. Assim, esta e outras culturas estão em risco se não se travar o desaparecimento em massa de abelhas.
Até há uns anos, a varroose era o principal problema da apicultura ocidental, nomeadamente da norte-americana. A parasitose provocada pelo ácaro Varroa destructor, detectada em 1987 nos Estados Unidos, era só por si um problema preocupante para a sobrevivência das colmeias mas recentemente a esta adicionou-se uma doença misteriosa baptizada Colony Collapse Disorder, CCD, que tem devastado as abelhas nos Estados Unidos. Em 2007, alguns apicultores perderam 90% das colmeias embora a média nacional tivesse sido de 31%. Entre Setembro de 2007 e Março de 2008, desapareceram 36% das abelhas.
O desaparecimento das abelhas tem sido alvo de investigação intensiva por parte da comunidade científica. Em Setembro de 2007, a revista Science publicou um artigo de um consórcio de cientistas norte-americanos, com a entomóloga Diana Cox-Foster como primeira autora, que apontou como principal suspeito da CCD o IAPV (Israeli acute paralysis virus), um virus descoberto em Israel em 2004.
Os pesquisadores recorreram à sequenciação genética dos microrganismos encontrados nos intestinos de abelhas recolhidas em colmeias afectadas e colmeias «sãs» durante um período de três anos. O IAPV foi o único microrganismo presente em quase todas as amostras extraídas de colmeias afectadas.
Ian Lipkin, director do centro de infecção e imunologia da Universidade Colúmbia explicou na altura que este vírus «poderia ser a causa potencial» da mortandade mas ressalvou que poderiam existir outros factores associados e que «A nossa próxima etapa consiste em determinar se este vírus é a única causa do fenómeno de despovoamento em massa das colmeias». De facto, como revelou Jeffery Pettis, entomologista do ministério americano da Agricultura e outro dos autores do estudo na Science, «esta pesquisa revela uma boa pista , mas é pouco provável que o IAPV seja a única causa».
Uma das indicações de que outros factores estão em jogo provém das abelhas importadas da Austrália desde 2004 que mostraram terem sido infectadas pelo IAPV mas não desenvolviam o CCD. O facto de as abelhas australianas não serem infectadas pelo ácaro Varroa parece indicar que os pesticidas utilizados para controlar a varroose podem ter um efeito sinérgico não despiciendo na CCD.
Esse possível efeito sinérgico é corroborado pela investigação que se seguiu e que consistiu na introdução do IAPV em colónias saudáveis (num ambiente controlado). Ao fim de um mês, as colónias infectadas tinham declinado acentuadamente e muitas tinham perdido as rainhas. Mas a equipa de Diana Cox-Foster indica que estes resultados não apontam inequivocamente para o IAPV como único culpado já que detectaram dezenas de pesticidas, muitos deles tóxicos para as abelhas, na análise do polén, cera, abelhas adultas e larvas das colónias afectadas.
A Xerces Society tem uma lista de insectos polinizadores em risco de extinção apenas nos Estados Unidos. Como referem, «Para muitos animais, incluindo a maioria dos pássaros e mamíferos, existe e é acessível a informação básica que permite a identificação de espécies que precisam de conservação. No entanto, para os insectos que fornecem o serviço vital de polinização essa informação está muitas vezes escondida em ficheiros científicos ou não existe de todo».
Esta falta de informação não se restringe aos insectos polinizadores, na realidade não há grande informação sobre invertebrados em risco, apesar de os invertebrados corresponderem a cerca de 94% das espécies animais que partilham connosco o planeta Terra.
De facto, tal como em relação aos batráquios, pouco ou nada se fala na extinção e declínio de invertebrados ou quando se fala é apenas para referir a necessidade da erradicação de espécies nocivas ao homem. Mas a sua abundância reflecte o enorme impacto ecológico destes organismos francamente pouco atraentes e «vendáveis» para o grande público. Como refere a Xerces, é necessário educar a opinião pública para o valor extraordinário dos invertebrados embora seja pouco provável que se desenvolvam afinidades por uma minhoca semelhantes às que os pandas, por exemplo, despertam. Urge no entanto que todos percebam que os problemas de conservação da vida animal não se restringem a baleias, pandas, linces e afins.
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Sobre a Natureza das Coisas
David Takayoshi Suzuki, jubilado em 2001 da Universidade de British Columbia, é sem dúvida o mais conhecido divulgador de ciência do Canadá. Suzuki escreveu 43 livros, alguns de divulgação científica para crianças, mas é sem dúvida a sua contribuição nos mass media que o tornaram recipiente de 22 doutoramentos honoris causa.
A sua extensa lista de contribuições para a divulgação de ciência nos meios de comunicação de grande audiência iniciou-se há quasi há quatro décadas com o programa semanal «Suzuki on Science». Em 1974, fundou o programa «Quirks and Quarks» que transmitido pela CBC Radio One de 1975 a 1979. Durante os anos setenta, foi o anfitrião do programa Science Magazine passando a apresentar a partir de 1979 o programa homónimo deste blog, The Nature of Things, uma série da CBC transmitida nas televisões de quase 50 países. Suzuki foi igualmente o anfitrião da série da PBS The Secret of Life. Os episódios da série de 1985 «A Planet for the Taking», foram vistos por quase dois milhões de telespectadores e mereceram-lhe uma medalha do programa ambiental das Nações Unidas. Em 1997 produziu para o Discovery Channel «Yellowstone to Yukon: The Wildlands Project».
Nas últimas três décadas, Suzuki tem concentrado os seus esforços de divulgação em questões ambientais e, concordando-se ou não com algumas das suas posições, pessoalmente não posso deixar de concordar com a reflexão que o cinquentário de graduação lhe mereceu, especialmente com os dois últimos parágrafos, que transcrevo.
«I began speaking out on television in 1962 because I was shocked by the lack of understanding of science at a time when science as applied by industry, medicine, and the military was having such a profound impact on our lives. I felt we needed more scientific understanding if we were to make informed decisions about the forces shaping our lives.
Today, thanks to computers and the Internet, and television, radio, and print media, we have access to more information than humanity has ever had. To my surprise, this access has not equipped us to make better decisions about such matters as climate change, peak oil, marine depletion, species extinction, and global pollution. That’s largely because we now have access to so much information that we can find support for any prejudice or opinion.
Don’t want to believe in evolution? No problem – you can find support for intelligent design and creationism in magazines, on websites, and in all kinds of books written by people with PhDs.
Want to believe aliens came to Earth and abducted people? It’s easy to find theories about how governments have covered up information on extraterrestrial aliens. Think human-induced climate change is junk science? Well, if you choose to read only certain national newspapers and magazines and listen only to certain popular commentators on television or radio, you’ll never have to change your mind.
And so it goes. The challenge today is that there is a huge volume of information out there, much of it biased or deliberately distorted. As I think about my grandson, his hopes and dreams and the immense issues my generation has bequeathed him, I realize what he and all young people need most are the tools of skepticism, critical thinking, the ability to assess the credibility of sources, and the humility to realize we all possess beliefs and values that must constantly be reexamined.
With those tools, his generation will certainly leave a better world to its children and grandchildren 50 years from now.»
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Biocombustíveis e aumento de preços
Um relatório confidencial do Banco Mundial conclui que os biocombustíveis são responsáveis por 75% do aumento dos preços dos alimentos a que temos assistido a uma escala global.
No relatório a que o Guardian teve acesso, foi feita uma análise exaustiva por um especialista do BM que indica sem sombra de dúvidas a ligação entre biocombustíveis e o aumento exponencial do preço dos cereais. Segundo o economista do BM, as razões para este aumento assentam no desvio de cada vez mais terra e cereal para a produção de biocombustíveis e na especulação financeira provocada por esta nova utilização dos cereais. O relatório menoriza as razões apontadas por alguns responsáveis políticos, nomeadamente G. W. Bush, para o aumento dos preços, como sejam o aumento do consumo em países em desenvolvimento, na China e na Índia, ou problemas nas colheitas devido a factores ambientais, a seca na Austrália, por exemplo.
E de facto, nos últimos tempos o Banco Mundial tem sido fértil em avisos sobre os riscos dos biocombustíveis, nomeadamente no encontro do G8 que decorre no Japão, onde o tema figura proeminente na agenda. Também o Inter-Governmental Panel on Climate Change (IPCC) se tem debruçado sobre estes riscos, nomeadamente nos sues efeitos a nível de alterações climáticas em consequência da desflorestação decorrente da produção massiva de etanol e óleo de palma.
De acordo com o Guardian, o relatório, que está pronto desde Abril, não foi publicado para não embaraçar o presidente norte-americano e não colocar pressão sobre o seu governo, que pretende incorporar 10% de biocombustíveis na gasolina e gasóleo até 2020. De igual forma, o relatório pressionaria os governos europeus já que é igualmente meta da UE ter em 2020 10% do combustível obtido de fontes renováveis.
Espera-se para breve o relatório britânico sobre o impacto dos biocombustíveis, o Gallagher Report que, novamente de acordo com o Guardian, obrigará os países desenvolvidos a repensar as respectivas políticas em relação aos biocombustíveis de primeira geração. Podemos apenas esperar que com todos estes avisos os responsáveis mundiais despertem para os efeitos dramáticos, há muito previstos, destas políticas. E esperemos que esta consciencialização permita remediar pelo menos os efeitos do que a FAO (a agência da ONU para a alimentação) chamou «o tsunami silencioso» que empurrou para a fome mais de 100 milhões de pessoas.
Posts sobre o tema no De Rerum Natura:
Biocombustíveis e Sustentabilidade
Ecologia e biocombustíveis
Biocombustíveis podem agravar aquecimento global
Ler os outros: Um futuro menos verde do que se pensa
Biocombustíveis e o aumento do preço dos cereais
SEPARAR O TRIGO DO DIESEL
Adenda: O relatório Gallagher sobre biocombustíveis já está disponível (formato pdf) assim como um relatório do International Institute for Environment and Development, (formato pdf). Ambos os relatórios são muito críticos do que Jeremy Hobbs, director executivo da Oxfam International, apelida de queima de alimentos nos motores de carros.
sábado, 7 de junho de 2008
"Minuto Verde" na Joanina
Rubrica "Minuto Verde" da RTP1, da responsabilidade da Quercus, filmada na Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra.