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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Uma enorme tentação

Imagem retirada daqui.
Estar em todo o lado, mas mesmo todo o lado,
tudo ver e tudo ouvir,
saber, a qualquer momento, o que as pessoas fazem, dizem e, até, pensam e sentem,
e, depois, cada uma delas,
para controlar, seja de que maneira for,
tem sido é um dos sonhos mais acalentados pelo Homem.

Ser ubíquo, aproximar o poder (pessoal, de grupo, institucional, seja ele qual for) ao poder de Deus, é uma grande, uma enorme tentação.

Neste tempo em que vivemos, temos finalmente, os meios disponíveis, o que nos pode deter?

Isto a propósito de uma notícia lida aqui e aqui.

sábado, 10 de março de 2012

"Agora vou... obrigado".


"Agora vou... obrigado", disse, fixando a câmara de filmagem, um condenado à morte enquanto o conduziam para o local de execução. Era o remate duma entrevista para um programa de televisão autorizado, que tem audiências de milhões.

Muitas outras entrevistas deste género foram e serão feitas para que, quem quiser, assista e lhe sirva de exemplo. As últimas palavras emdirecto intervaladas com imagens da família em desespero.

O leitor já percebeu que não se trata dum quadro medieval: é do presente. O país é oriental, mas assisti à notícia noocidente e não vi qualquer estremecimento por parte dos jornalistas, que a deram de modo objectivo e profissional, logo passando para o desporto com aquela ligação “e agora…”. Não pude deixar de pensar que a barbárie não tem fronteiras e a pior é a que se quer fazer por normalidade.

Apenas uma nota: a jornalista-entrevistadora desse tal país disse que se vê como “testemunha da transição da vida para a morte”, mas chorou e também disse que tem “muita porcaria no coração”. Deve ter!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

"Todos têm direito à educação"

Ontem, numa entrevista de telejornal, perguntaram a uma professora universitária dum departamento de economia, ao que soube muito conceituado, em que é que aconselhava os portugueses a investir. 
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Em casa própria, não; em educação, seguramente. Explicou com algum detalhe: a tendência é do Estado recuar nesta matéria, pelo terão de ser as famílias a garantir a educação dos seus filhos.
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E disse isto com muita segurança, sem uma nota de apreensão, sem mudar o tom de voz, sem deixar de sorrir.
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Foi sobretudo a forma do discurso que me levou a escrever este pequeno apontamento, para lembrar (será preciso?) que o direito à educação, com destaque para a educação escolar, constitui um passo civilizacional, que só foi possível darmos na Modernidade. Portugal deu esse passo mais tarde do que muitos países ocidentais, mas deu-o.
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"Todos têm direito à educação": é o que está consagrado na Constituição da República Portuguesa (Artigos 73.º e 74.º), e na Lei de Bases do Sistema Educativo, nas suas versões de 1986 e de 2005 (Artigos 2.º e 3.º). E já estava consagrado na Lei n.º 5/73, de 25 de Julho, mais conhecida por Lei Veiga Simão (Base II).
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O que se explica em todos estes documentos fundamentais é que, por questões de princípio, a sociedade assume a educação formal, para que nenhuma criança e/ou jovem fique privado de tal bem.
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Se por alguma razão a sociedade deixar de o poder assegurar, deve ser com um grande,um imenso, pesar que nos devemos referir a esse retrocesso, sobretudo se estivermos conscientes do que isso significa para cada um, para a própria sociedade e para a humanidade.

domingo, 3 de julho de 2011

CONTRA OS RITUAIS BÁRBAROS


A habitual coluna de fim de semana de Robert Park, transcrita de What's New:

"RITUAL SLAUGHTER: DUTCH BAN OUTRAGES JEWS AND MUSLIMS.

Kosher and halal rules for the preparation of meat, require the throat to be slit while the animal is fully conscious. Holland has long been considered the most culturally tolerant country in Europe and perhaps in the world, but ritual slaughter does seem barbaric, and on Tuesday, the Netherlands Parliament passed a bill proposed by an animal-rights group banning ritual slaughter of animals. Laws prohibiting cruelty to animals as well as cruel religious practices, including polygamy, female genital mutilation, and the burning of witches are enforced in every civilized society. According to the Netherlands chief Rabbi, however, "Those who survived the war (WWII) remember that the very first law made by the Germans in Holland was the banning of schechita." The Muslims, meanwhile, are certain that the law is aimed at them. In any case, both groups are free to practice vegetarianism and would be healthier for it."

Robert Park

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A LEI PROTECTORA DE MALFEITORES EM NOME DA SUA PRIVACIDADE



“Há lágrimas espremidas pelas mãos da prepotência e a lei acobarda-se de levar aos olhos do fraco o lenço que vela os olhos da Justiça” (Camilo Castelo Branco, 1825-1890).

A história conta-se em poucas palavras:

Desloquei-me hoje ao Coimbra Shopping, a fim de fazer as minhas compras habituais no Continente. Estacionei o meu carro no “sector C”. Saí da viatura cerca do meio-dia tendo regressado, efectuadas as compras, pouco depois das 13 horas.

Para grande espanto meu tinha a parte traseira do lado esquerdo do carro com uma grande mossa. Dirigi-me a um dos vigilantes que tomou conta da ocorrência e me aconselhou a dirigir-me à Polícia de Segurança Pública, a fim de apresentar queixa.


Foi o que fiz, cerca das 17 horas, preenchendo um formulário posto à minha disposição. Tendo apelado ao visionamento das câmaras de vigilância do parque de estacionamento, que pessoa amiga me dissera aí haver, fui informado, pelo agente que me recebeu, que esse visionamento teria que ser solicitado, através de um advogado, como forma de protecção à “privacidade do cidadão” que me amachucou o carro pondo-se a milhas. Este recurso aos serviços de um advogado faria recair sobre a minha bolsa o ónus de uma despesa quiçá superior ao preço do conserto do carro. Ou seja, o crime está protegido pela privacidade de quem o comete...e pela disponibilidade financeira de quem dele é vítima!

Não me admira, portanto, que com esta protecção que é dada a quem pratica actos criminosos contra a propriedade alheia passe a ser uma prática comum em nome da privacidade de quem não é apanhado em flagrante. Por último: o violento embate no meu carro terá deixado marcas no automóvel do autor da "façanha". Ingenuamente, o vigilante do referido parque de estacionamento solicitou-me o número do meu telefone admitindo a hipótese de o respectivo causador vir a assumir a sua culpa, comunicando a ocorrência e a respectiva responsabilidade na recepção do Continente...

Dado, como sou, em acreditar nos provérbios populares, neste caso, “quem espera sempre alcança”, desta feita estou em crer que bem posso esperar… sentado, como soe dizer-se. Assunto arrumado, portanto, em nome da privacidade de quem bateu na minha viatura e se pôs em fuga!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

PROJECTO MERCADORIA HUMANA



Cartazes patentes na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra no quadro do projecto "Mercadoria Humana" contra o tráfico de seres humanos (fotos de Pedro Medeiros).

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A Justiça Fiscal de Saldanha Sanches


Texto recebido do nosso leitor Augusto Kuettner Magalhães:

Saiu no sábado passado um excelente pequeno livro sobre Justiça Fiscal escrito em 2010 por J. L. Saldanha Sanches a pedido da Fundação Francisco Manuel dos Santos sendo possível, com a sua leitura, muito aprender sobre o assunto.

Inicia-se a obra com uma explicação genérica sobre o tema em questão e sobre as incumbências do Estado ao redistribuir o que recebe pelos impostos das pessoas e das empresas. Saldanha Sanches tem em devida atenção que a despesa pública pressupõe sempre a tributação, para ser exequível.

Segue-se uma elucidativa viagem pela história da evolução do sistema fiscal, no Reino Unido e nos EUA. Aborda o evoluir histórico dos tempos e o seu efeito na redistribuição do valor cobrado via impostos e taxas, passando pela legitimidade global da tributação, o ordenamento jurídico,e os direitos de propriedade. Faz uma abordagem à Revolução Francesa e constata que foram os impostos o centro do conflito. Discute o surgimento do Estado Fiscal, dando uma visão sobre os impostos em Portugal do Antigo Regime e o consequente papel da Constituição.

Aborda a acção dos tribunais na legalidade fiscal e a tributação de acordo com a capacidade contributiva de cada cidadão/contribuinte, isto é, o seu rendimento. Dá explicações sobre taxas progressivas e taxas proporcionais, refere o papel da Constituição de 1976 e a sociabilização económica que se seguiu. Trata o IVA e o controlo da fraude e evasão, passando para o conceito de justiça numa democracia, incluindo as garantias dos contribuintes e os benefícios fiscais. Faz uma passagem pelas reformas fiscais, reafirmando que todas as tarefas que cabem ao Estado implicam um custo.

Por fim não esquece as mais que necessárias abordagens à concorrência fiscal e às zonas de baixa ou nula fiscalidade, vulgo paraísos fiscais. E não falta a mais que necessária referência aos impostos do ambiente, com evidente ligação ao petróleo (um bem finito) e às alternativas não poluentes, deixando a fundamentação para um forte implemento de energias renováveis e não poluente menos taxadas ou quase isentas.

Acabamos a ler uma breve digressão pela retroactividade fiscal, algo muito em dúvida nestes dias que estamos a viver, tão turbulentos a nível de redução de despesa pública e do aumento de impostos.

Um excelente trabalho, o último de J.L. Saldanha Sanches, feito já doente – na cama de um hospital público - com um cancro que o veio a vitimar, em Maio de 2010. Ficou esta última obra, entre outras que escreveu ao longo da sua vida, escrita num momento em que todos temos que melhor entender a Justiça Fiscal, para melhor compreendermos tudo o que se refere com a cobrança de impostos pelo Estado e sua redistribuição. E ficou um exemplo de vida na luta contra a corrupção, contra a incorrecção fiscal, contra as injustiças, luta essa que foi sendo acompanhada em paralelo por sua mulher, Maria José Morgado, por uma luta contra o crime e os criminosos. Ambos defenderam e defendem ideias e ideais, num tempo em que muitos falam e poucos dão o exemplo.

A obra pode ser adquirida a muito baixo custo numa livraria, num quiosque ou num supermercado.

Augusto Kuettner Magalhães

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O processo kafkiano a Carlos Queiroz


“Todos os erros humanos são impaciência, uma interrupção prematura de um trabalho metódico” (Fanz Kafka, 1883-1924).

Pelo interesse da análise feita por João Boaventura num comentário ao post, aqui publicado, com a transcrição do artigo de Luís Filpe Menezes, saído no “DN” (04/09/2010), intitulado “Em defesa de Carlos Queiroz”, aqui se reproduz o referido comentário:

“O que se passa no caso Queiroz é um processo kafkiano que consiste em substituir a presunção de inocência pela de culpa, ou seja, procurar a todo o transe a culpa com a finalidade de fechar todas as vias de reintegração e permitir a exclusão do seleccionador. Se se quiser saber, quais os passos que Queiroz está a dar, a leitura das páginas 227, 228 e 229 d’ O Processo de Kafka (a minha edição é da Colecção Mil Folhas, Público, Lisboa, 2004) é elucidativa:

“Diante da Lei há um porteiro. Um homem do campo chega junto deste porteiro e pede para entrar. Mas o porteiro declara que por agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem reflecte, depois pergunta se então poderá entrar mais tarde. «É possível», diz o porteiro,«Mas não agora». Como a porta da Lei estava como sempre aberta, o porteiro afasta-se e o homem debruça-se para olhar para o interior, através da porta. Ao ver isto, o porteiro começa a rir e diz: «Se te atrai assim tanto, experimenta entrar apesar da minha proibição. Mas cuidado: eu sou poderoso. E não passo do último de todos os porteiros. Porque de sala para sala, há porteiros, cada um mais poderoso que o anterior.”

Para não alongar a transcrição, apresento a parte final na p. 229:

“O porteiro é obrigado a inclinar-se para ele, porque as diferenças de altura modificaram-se muito em detrimento do velho: «Que queres tu saber ainda?», pergunta o porteiro, «tu és insaciável». «Toda a gente se esforça por alcançar a lei», diz o homem, «como é que ninguém, excepto eu, solicitou a entrada todos estes anos?». O porteiro apercebe-se que o fim do homem está próximo, e como é quase surdo, berra-lhe ao ouvido para se fazer ouvir: «Ninguém mais podia obter a autorização de entrar, porque esta entrada se destinava só a ti. Agora, vou-me embora e fecho-a».” (fim da transcrição)

Kafka, como homem do Direito, limita-se a retratar, n' O Processo o absurdo, pelo qual o cidadão é obrigado a submeter-se a uma regra viciada do jogo jurídico cuja dinâmica pende para o lado do mais forte.

O que se passa com o Processo Queiroz passou-se com os Processos do actual Primeiro Ministro, ao qual foi sempre negada a Lei, perdão, o ser ouvido, o que levou o actual Bastonário do Direito a declarar, para quem o quisesse ler e ouvir:

- Estamos a assistir a uma vergonhosa actuação da justiça que parece mais preocupada em culpabilizar o Primeiro Ministro, em vez de partir da presunção de inocência.

Este é o retrato do Processo Queiroz, em companhia do Primeiro Ministro, porque ao primeiro foi negada qualquer audição pela Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP), e ao segundo, ou deixaram prescrever o prazo, ou deixaram esgotar o tempo e a paciência para o ouvir.

Para Cândida Almeida não valia a pena ouvir o Primeiro Ministro porque não vinha aduzir matéria nova; e para o Instituto do Desporto de Portugal (IDP) não valia a pena ouvir Queiroz porque a audição feita pelo Conselho Disciplinar da FPF era suficiente, e porque, ouvi-lo, também não vinha aduzir matéria nova.

O kafkianismo do processo sinuoso reside neste facto que o tempo não apaga. A ADoP foi, no dia 16.05.2010, à Covilhã fazer o controlo antidoping à selecção, que foi perturbado pelos impropérios do seleccionador, o que não impediu a recolha, e o Governo silenciou, possivelmente para apagar o incidente se a selecção chegasse às meias finais ou às finais. Como os desejos não se concretizaram, passados dois meses e meio,é que o secretário de Estado revela que se passaram “factos muito graves”, no controlo antidoping. A paciência de Job não tem melhor representante.

Portugal não chegou aos quartos de final mas no cômputo geral ficou em 11.º lugar (Inglaterra 13.º - Dinamarca 24.º - Grécia 25.º - Itália 26.º - França 29.º). Os três primeiros são os únicos europeus (Espanha, Holanda, Alemanha), 5 da América Latina, 1 africano (Gana) e um asiático (Japão). E a representação portuguesa foi vergonhosa ?

Isto para dizer que há muitas maneiras limpas para dispensar um seleccionador. A escolhida pelo governo não tem classificação”.

João Boaventura

Na imagem: Franz Kafka

sábado, 28 de agosto de 2010

AS CÉLULAS ESTAMINAIS E O JUIZ FEDERAL


O habitual apontamento de fim de semana do físico Robert Park, um grande combatentes contra a fraude, a superstição e o erro:

"STEM CELLS: BESTOWING PERSONHOOD ON THE ZYGOTE?

On Monday federal judge Royce Lamberth, appointed to the federal bench by Ronald Reagan, blocked the use of federal funds for research using embryonic stem cells on the grounds that extracting the cells kills human embryos. It is of course true that, for good or ill, every embryo has the potential to become a totally unique human being. The same is true of every zygote created by the fusion of gametes in an in-vitro fertilization Petri dish. One or more of the resulting embryos will be transferred to the patient's uterus a few days later. There will typically be many embryos left over. They are stored cryogenically in case a second transfer is necessary. By 2008 about 500,000 frozen embryos had accumulated in cryogenic facilities around the United States. That would be closer to 1 million by now, all of which retain the potential to become unique human beings. Does Judge Lamberth’s decision mean that society must now assume responsibility for the continued viability of this growing population of potential people?"

Robert Park

terça-feira, 20 de julho de 2010

Umas tantas falácias sobre uma Ordem dos Professores


“Nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado; mas nada pode ser mudado se não for enfrentado” (James Baldwin, 1924-1987).

Dois comentários feitos ao meu último post Sindicatos Docentes ‘versus’ Ordem dos Professores (18/07/2010) – justificam o texto que ora publico.

Começo por me penalizar por a minha mensagem sobre a criação de uma Ordem dos Professores não ter sido suficientemente eloquente para suscitar um diálogo polémico entre os que defendem a sua criação e aqueles outros que estão contra a sua criação como se fosse uma espécie de blasfémia. Aliás, esta apatia não pode deixar de me espantar por saber que catorze ordens profissionais estão criadas e outras tantas forcejam por aparecer à luz do dia como, por exemplo, a dos assistentes sociais.

Do primeiro comentário, da autoria de José Batista da Ascenção, retenho e congratulo-me pelo libelo corajoso sobre a apatia da classe docente por um associativismo de declarado interesse público pela assunção da tomada em mãos dos professores da responsabilidade de actos próprios da profissão. Reza ele: “Agora divididos e rastejantes é que não vamos longe. Nem ninguém nos respeita, se nós próprios nos não respeitarmos. E respeitarmo-nos é (também) tomar consciência de que a nossa profissão é tão nobre e tão antiga que muitas outras recentemente surgidas não têm história, nem substância nem interesse que justifique qualquer ascendência (a que eu chamo parasitismo) sobre a nobre missão de ensinar”.

Do segundo comentário, de Lelé Batita, transcrevo: “Na linha do anterior comentador, defendo a dignificação da profissão docente. Se isso tiver de passar pela criação de uma Ordem, como existe noutras carreiras de formação superior, que venha ela. Sem prejuízo da existência de sindicatos”.

Ora, o facto de haver uma ordem profissional não invalida, de forma alguma, a existência e, muito menos, a necessidade de sindicatos porque as respectivas funções são de natureza diferente. Embora correndo o risco de me repetir, recordo que a própria Constituição Portuguesa salvaguarda, de forma inequívoca, o papel do sindicalismo português: “As associações públicas só podem ser constituídas para a satisfação de necessidades específicas, não podem exercer funções próprias das associações sindicais e têm organização interna baseada no respeito dos direitos dos seus membros e na formação democrática dos seus órgãos” (artigo 267.º, n.º 4).

A falácia mais usada sobre o impedimento para a criação de uma Ordem dos Professores tem como argumento, tão frágil como uma simples bola de sabão, a ignorância, lato sensu, sobre o conceito de profissão liberal que poucos contestam no caso dos médicos que trabalham, por exemplo, em exclusividade, em hospitais públicos ou clínicas privadas.

Como escreveu alguém, “é necessário elaborar uma ideia, antes de se intentar uma definição”. Sem dúvida que a doutrina de Lopes Cardoso, ex-bastonário da Ordem dos Advogados, ajudará a essa compreensão quando escreve:

“É necessário que, mesmo quando exercida em regime de contrato de trabalho, essa profissão [liberal] seja reconhecida socialmente como relevando de grande valor precisamente porque exigindo, pelo menos, uma independência técnica e deontológica incompatível com uma relação laboral de pleno sentido. Com efeito, como tem sido definido doutrinalmente, a noção jurídica de subordinação aparece no direito moderno como perfeitamente compatível com a independência técnica do assalariado. Ela significa apenas uma dependência na organização geral e administrativa do trabalho” (Cadernos de Economia, Publicações Técnico-Económicas, Ldª., ano II, Abril/Junho de 94).

Verifica-se assim, definidos que estão os contornos contemporâneos de profissão liberal, que ela já nada tem a ver com a distinção que na Roma Antiga se estabelecia entre profissões livres e servis. Porém, se se quiser continuar a comparar o actual professor, devidamente habilitado com uma antiga licenciatura universitária ou um actual mestrado para este nobre mister, como o antigo escravo grego ao serviço dos filhos dos patrícios romanos haverá razões para considerar a docência como uma profissão servil, logo não liberal!

E isto é tanto mais espantoso, e não menos injusto, por uns tantos licenciados de outras profissões de idêntica, ou até bem menor, exigência académica, serem senhores do seu destino e dos seus pares. Outros, escravos submissos, ou manifestantes sindicais na via pública, à vontade e arbitrariedades do Estado no recrutamento de docentes não reconhecidos e sancionados pela classe. A fazer fé em Erasmo, quando nos diz que “a principal esperança de uma Nação reside na educação apropriada da sua juventude”, este estado de coisas não poderá deixar de ter consequências desastrosas para a juventude portuguesa deficientemente formada e, ipso facto, correndo o sério risco de se tornar vítima inocente da verdadeira chaga social do desemprego numa sociedade cada vez mais globalizada e exigente por não pactuar com medidas do foro estatístico que pretendem transformar em êxito o verdadeiro fracasso de uma política educativa que devia envergonhar os seus responsáveis estatais por um ensino que não ensina e passa diplomas de pechisbeque.

E tudo isto, como escreveu o reputado académico e sociólogo António Barreto, em nome “de fazer entrar o maior número de estudantes, sem consideração pelo mérito; formar técnicos de medíocre qualidade, sem zelar pela qualidade das instituições; e transmitir à população a ideia de que o acesso à universidade é um direito de todos, tal como a protecção na velhice e na doença”. Nunca mais aprendemos!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O PRÉMIO CONFISCADO


Muito gosta o estado português de tirar com uma mão o que dá com a outra. Por vezes não se coíbe de tirar com a mesma mão que deu. Exemplo recente é o Prémio que o Ministério da Cultura, com a Associação Internacional de Críticos de Arte, decidiu atribuir ao fotógrafo português Paulo Nozolino. Teria de desembolsar logo de imediato dez por cento do Prémio para efeitos de IRS e assinar uma nota de honorários (honorários?!). Com a manipulação dos escalões recentemente efectuada, poderia até o artista subir de escalão com o dinheiro do prémio, e ter de pagar mais ao Estado do que pagaria se não fosse a recompensa, isto é, o Prémio ser, de facto, um prejuízo. Afirmou o artista em comunicado que encontrei no blogue Arte Photographica:
Recuso na sua totalidade o Prémio AICA/MC 2009 em repúdio pelo comportamento obsceno e de má fé que caracteriza a actuação do Estado português na efectiva atribuição do valor monetário do mesmo. O Estado, representado na figura do Ministério da Cultura (DGARTES), em vez de premiar um artista reconhecido por um júri idóneo pune-o! Ao abrigo de “um parecer” obscuro do Ministério das Finanças, todos os prémios de teor literário, artístico e científico não sujeitos a concurso são taxados em 10% em sede de IRS, ao contrário do que acontece com todos os prémios do mesmo cariz abertos a candidaturas. A saber: Quem concorre para ganhar um prémio está isento de impostos pelo Código de IRS. Quem, sem pedir, é premiado tem que dividir o seu valor com o Estado!"
Não é só a injustiça de pagar imposto por conta do prémio (não seria mais simples o Estado dar um prémio menor, mas dá-lo livre de impostos?). É também a completa arbitrariedade fiscal que consiste em taxar uns prémios e outros não. Há premiados e premiados. Como eu compreendo Nozolino... Muitos parabéns por ter recusado o prémio!

domingo, 4 de julho de 2010

Labirinto jurídico - 2

Na sequência de um autêntico "labirinto jurídico" patente num Decreto-lei de alteração do Código de Processo Civil, recentemente publicado, outro leitor, José Batista da Ascenção, enviou-nos outro "labirinto jurídico", que reúne o que legalmente tem que ser tido em conta pelas escolas na distribuição de serviço.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Labirinto jurídico


Um dos nossos leitores mandou-nos este pedaço de uma lei de alteração do Código de Processo Civil:

"O art. 1º do Dec.-Lei 35/2010 de 15 de Abril começa da seguinte forma
:

Os artigos 143.º e 144.º do Código do Processo Civil aprovado pelo Decreto -Lei n.º 44 129, de 28 de Dezembro de 1961, alterado pelo Decreto -Lei n.º 47 690, de 11 de Maio de 1967, pela Lei n.º 2140, de 14 de Março de 1969, pelo Decreto -Lei n.º 323/70, de 11 de Julho, pela Portaria n.º 439/74, de 10 de Julho, pelos Decretos -Leis n.os 261/75, de 27 de Maio, 165/76, de 1 de Março, 201/76, de 19 de Março, 366/76, de 15 de Maio, 605/76, de 24 de Julho, 738/76, de 16 de Outubro, 368/77, de 3 de Setembro, e 533/77, de 30 de Dezembro, pela Lei n.º 21/78, de 3 de Maio, pelos Decretos -Leis n.os 513 -X/79, de 27 de Dezembro, 207/80, de 1 de Julho, 457/80, de 10 de Outubro, 224/82, de 8 de Junho, e 400/82, de 23 de Setembro, pela Lei n.º 3/83, de 26 de Fevereiro, pelos Decretos -Leis n.os 128/83, de 12 de Março, 242/85, de 9 de Julho, 381 -A/85, de 28 de Setembro e 177/86, de 2 de Julho, pela Lei n.º 31/86, de 29 de Agosto, pelos Decretos -Leis n.os 92/88, de 17 de Março, 321 -B/90, de 15 de Outubro, 211/91, de 14 de Junho, 132/93, de 23 de Abril, 227/94, de 8 de Setembro, 39/95, de 15 de Fevereiro, 329 -A/95, de 12 de Dezembro, pela Lei n.º 6/96, de 29 de Fevereiro, pelos Decretos -Leis n.os 180/96, de 25 de Setembro, 125/98, de 12 de Maio, 269/98, de 1 de Setembro, e 315/98, de 20 de Outubro, pela Lei n.º 3/99, de 13 de Janeiro, pelos Decretos -Leis n.os 375 -A/99, de 20 de Setembro, e 183/2000, de 10 de Agosto, pela Lei n.º 30 -D/2000, de 20 de Dezembro, pelos Decretos -Leis n.os 272/2001, de 13 de Outubro, e 323/2001, de 17 de Dezembro, pela Lei n.º 13/2002, de 19 de Fevereiro, e pelos Decretos-Leis n.os 38/2003, de 8 de Março, 199/2003, de 10 de Setembro, 324/2003, de 27 de Dezembro, e 53/2004, de 18 de Março, pela Leis n.º 6/2006, de 27 de Fevereiro, pelo Decreto -Lei n.º 76 -A/2006, de 29 de Março, pelas Leis n.º 14/2006, de 26 de Abril e 53 -A/2006, de 29 de Dezembro, pelos Decretos-Leis n.os 8/2007, de 17 de Janeiro, 303/2007, de 24 de Agosto, 34/2008, de 26 de Fevereiro, 116/2008, de 4 de Julho, pelas Leis n.os 52/2008, de 28 de Agosto, e 61/2008, de 31 de Outubro, pelo Decreto -Lei n.º 226/2008, de 20 de Novembro, e pela Lei n.º 29/2009, de 29 de Junho, passam a ter a seguinte redacção: (...)"........................

Se duvida pode confirmar no sítio do Diário da República.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

PATENTES DE GENES?


Minha crónica no "Sol" de hoje:

A notícia correu mundo. A 20 de Maio último a equipa do norte-americano Craig Venter (na imagem), líder de um instituto que tem o seu nome, publicou na revista Science um artigo em que anunciava uma grande proeza da biologia moderna: a síntese in vitro do genoma de uma bactéria, acrescentando algumas modificações (que incluíam os nomes dos cientistas e um endereço de e-mail), e a sua inserção numa outra bactéria, que se conseguiu reproduzir rapidamente como se fosse um organismo normal. Mal comparado é como se se obtivesse uma receita de um prato a partir dele, se alterasse esta pontualmente, e, a partir de produtos químicos avulsos, se conseguisse criar um novo prato muito parecido com o primeiro.

Venter não perdeu tempo e solicitou já várias patentes relativas à experiência realizada, uma vez que ela abre perspectivas a numerosas e lucrativas aplicações. Mas poderá ele obter uma patente do genoma codificado (que mais não é do que um código feito de quatro letras)? De facto, apesar de não estarem autorizadas patentes de organismos vivos, cerca de vinte por cento do genoma humano, descodificado com a ajuda do próprio Venter e muito mais complexo do que o de uma bactéria, encontra-se patenteado. Por estranho que possa parecer há mesmo patentes de genes. Mas esse tipo de procedimentos pode ter os dias contados…

Dois meses antes do anúncio da “vida sintética”, um juiz federal de Nova Iorque deferiu uma acção apresentada pela União dos Direitos Civis Americanos e pela Fundação de Patentes Públicas no sentido de cancelar as patentes dos genes BRCA1 e BRCA2 (as iniciais são de Breast Cancer), cuja mutação é responsável por certas formas hereditárias de cancro da mama e dos ovários. A posse dos direitos pela empresa Myriad Genetics e por uma fundação ligada à Universidade de Utah permitia a exclusividade da realização de testes genéticos. Qualquer pessoa tem de lhes pagar três mil dólares para saber o seu factor de risco. O juiz considerou que as patentes tinham sido atribuídas “de forma imprópria” por os genes fazerem parte do DNA humano e estar envolvida uma “lei da Natureza”. As partes prejudicadas pela sentença vão recorrer. Mas, se a batalha jurídica for ganha por quem agora ganhou a guerra, entrar-se-á numa nova era do direito da biomedicina.

Esta questão das patentes na biotecnologia é extraordinariamente quente. De um lado está o interesse público e do outro o interesse de empresas particulares. Parece simples, mas não é. As empresas reclamam que o progresso da ciência e da tecnologia ficará prejudicado se os inovadores não forem devidamente recompensados. Aguardam-se os próximos capítulos desta novela científico-legal.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

UMA ENFERMEIRA VÍTIMA DA IGNORÂNCIA DOS TRIBUNAIS


Queixamo-nos, e com toneladas de razão, da nossa justiça. Mas a justiça é humana e também falha noutros locais. Ben Goldrace, o autor de "Ciência da Treta" (Bizâncio, 2009) conta-nos a história incrível de uma enfermeira holandesa que foi condenada pelo suposto assassínio de sete doentes, que passou seis anos na prisão, e que agora deve ser ilibada, pois os erros científicos (em particular de estatística) usados em tribunal foram tantos e tão graves que não têm desculpa. "Mártir da estupidez" chama Goldacre à enfermeira. Para mais ler aqui.

segunda-feira, 1 de março de 2010

LAW AND DRAMA IN ANCIENT GREECE

Informação recebido pelo De Rerum Natura.

Publica-se neste mês de Março o livro Law and Drama in Ancient Greece, pela Duckworth (Londres). Editado por Edward M. Harris, Delfim F. Leão e P.J. Rhodes, integra contribuições de classicistas de universidades europeias e americanas nas áreas da literatura clássica, da história antiga e da história do direito.

Autores: Roger Brock (Senior Lecturer in Classics, University of Leeds); Chris Carey (Professor of Greek, University College, London); Maria de Fátima Silva (Professor of Classics, University of Coimbra); Maria do Céu Fialho (Professor of Classics, University of Coimbra); Edward M. Harris (Research Professor of Greek History, Durham University); Delfim F. Leão (Professor of Classics, University of Coimbra); Douglas M. MacDowell (Professor Emeritus of Greek, University of Glasgow); F.S. Naiden (Associate Professor of History, University of North Carolina, Chapel Hill); P.J. Rhodes (formerly Professor of Ancient History, now Honorary Professor, University of Durham); Alan H. Sommerstein (Professor of Greek, University of Nottingham).

Sobre o livro: The relationship between law and literature is rich and complex. In the past three and half decades the topic has received much attention from literary critics and legal scholars studying modern literature. Despite the prominence of law and justice in Ancient Greek literature, there has been little interest among Classical scholars in the connections between law and drama. This is the first collection of essays to approach Greek tragedy and comedy from a legal perspective, providing a sample of different approaches to the topic. Some essays show how knowledge of Athenian law enhances our understanding of individual passages in Attic drama and the mimes of Herodas and enriches our appreciation of dramatic techniques. Other essays examine the information provided about legal procedure found in Aristophanes’ comedies or the views about the role of law in society expressed in Attic drama. The volume reveals how the study of law and legal procedure can enhance our understanding of ancient drama and bring new insights to the interpretation of individual plays.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A JUSTIÇA EM PORTUGAL VISTA POR UM FRANCÊS EM 1766

Do livro "O Reino de Portugal em 1766", de Charles Dumouriez (introdução de António Ventura), Caleidoscópio, 2007:
"A polícia de Lisboa e de todo o Portugal, tão mal exercida quanto as infelicidades da vida que lá se sofrem o provam, está entre as mãos dos juízes, chamados Juízes de Fora, os quais estão subordinados corregedor e ao ouvidor; todo o Portugal está dividido em correições e ouvidorias. Nada é mais insolente e ávido do que esta quantidade de diferentes juízes.

"A justiça é administrada com as mesmas extorsões, o mesmo amontoado de leis e a mesma quantidade de advocacia e de obstáculos que em Espanha, ou seja, pior ainda que no resto da Europa.

"As prisões são o alojamento da barbárie e do desespero; é-se muito arruinado se se é inocente; arruinado e absolvido se se é culpado. A impunidade do crime alenta. Vi, em Lisboa, um empregado assassinar o seu camarada em pleno dia, no meio da rua, retirar-se friamente com a sua faca na mão, ser conduzido para a prisão rindo e sair alguns meses depois para exercer o ofício de carrasco."
A justiça melhorou, decerto, muito desde 1766. Mas terá melhorado o suficiente?

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

UM ACIDENTE SEM CONSEQUÊNCIAS


Ouvi hoje na rádio que o aparatoso acidente entre dois carros do Estado ocorrido há mais de um mês em plena Avenida da Liberdade não está ainda na justiça por não ter havido ainda uma queixa. Percebo pouco - percebo até cada vez menos - da justiça portuguesa. Mas não poderia ser o próprio Estado, que viu funcionários seus ficarem feridos para além de estar confrontado com o enorme prejuízo das potentes viaturas, a accionar o processo? Ou terá de ser um dos prejudicados pelo caos no trânsito gerado pelo acidente a apresentar queixa?

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

HUMOR: A MULHER JUIZ


Um dos fiéis leitores do nosso blogue fez-nos chegar este delicioso desenho do caricaturista Julião Machado publicado na "Ilustração Portuguesa", n.º 393, 1.09.1913, que antevê o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça no século XXI. Previsão falhada: até hoje ainda nenhuma mulher foi presidente desse tribunal português!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

NO PAÍS DA SUCATA


Minha crónica no "Público" de hoje:

Jorge Coelho, presidente-executivo da Mota-Engil, a maior empresa de construção nacional, deu uma entrevista ao semanário “Sol” em 18 de Setembro passado que talvez nos ajude a entender as nebulosas relações entre negócios e política no nosso país. Quando lhe foi perguntado se achava que a empresa que dirigia era beneficiada ou prejudicada nas adjudicações, disse: “Muito do que se passa na política, por detrás de coisas que são feitas... se os portugueses soubessem ficavam com ainda menos respeito pela vida política.” Os jornalistas quiseram saber se ele se referia a todas as alas políticas, ao que ripostou: “Tudo, tudo, tudo”. Interrogado quando é que tudo isso se ia saber, a resposta foi curta: “Nunca”.

Ele, que antes de ser empresário foi político durante quase 30 anos (“conheci muita gente e tenho conhecimentos ao nível da banca portuguesa e internacional que são fundamentais na minha profissão”, informou noutro passo da entrevista), deve saber do que estava a falar. Nós, que não sabemos, temos de nos limitar a imaginar. E não é difícil imaginar, porque o ex-ministro de Estado e do Equipamento Social de um governo do PS, não dizendo nada de concreto, disse mais do que diria dizendo. A mim, pelo menos, não me custa muito imaginar que Jorge Coelho converse, pelo telefone ou ao vivo, com os seus amigos e conhecidos no governo ou na banca e não tenha de esperar para ser não só atendido como bem atendido.

Certo é que, à data da entrevista, pouco antes das eleições legislativas, as acções da Mota-Engil estavam a subir a pique, tendo continuado a subir até atingirem, em 9 de Outubro, nas vésperas das eleições autárquicas, o máximo de 4,53 euros (mais do dobro do mínimo registado este ano, em 5 de Março). A cotação da Mota-Engil constituiu, para alguns analistas, um bom previsor dos resultados eleitorais. Essa foi, de facto, uma verdadeira sondagem, cuja margem de erro se revelou menor do que a das sondagens convencionais.

Nada disto é novo. A promiscuidade entre negócios e política é entre nós antiga e será uma das razões pelo desrespeito que os portugueses têm pela vida política, desrespeito que Jorge Coelho aliás reconhece. Esse mal-estar não é uma impressão difusa e não quantificável, pois há dados sociológicos que exibem com clareza a nossa desconfiança em relação ao funcionamento das empresas e instituições. A organização Transparency Internacional acaba de divulgar o seu relatório anual sobre a percepção da corrupção num grande número de países, e continuamos em queda nesse “ranking” mundial da corrupção. Se no ano transacto tínhamos caído do 28.º para o 32.º lugar (eram invocados os casos do “Apito Dourado” e do financiamento ilícito da Somague ao PSD), agora caímos do 32.º para o 35.º lugar, onde estamos a par com Porto Rico e logo antes do Botswana (não foram desta vez adiantadas explicações, mas pode-se adivinhar quais são).

Receio que o caso “Face Oculta” recentemente trazido à luz do dia – o caso das ligações perigosas das empresas do sucateiro Manuel Godinho a instituições públicas ou privadas de algum modo próximas da política, como a REN, a REFER, a Galp, a EDP e o Millennium BCP - nos venha a custar, no próximo ano, a continuação da queda. A palavra “sucata”, com etimologia árabe, significa “o que cai, coisa sem valor” (recorro ao Dicionário Houaiss). Ora, o que está a cair com esse caso, o que está a ficar cada vez mais sem valor, é uma das coisas que mais devíamos valorizar, por ser uma das marcas maiores dos países desenvolvidos: a confiança. Não se trata apenas da diminuição da confiança que os cidadãos têm na política, mas, o que é mais grave, também da diminuição da confiança deles na justiça, que devia tratar rápida e exemplarmente este tipo de casos em vez de deixar avolumar controvérsias. Até já ouvi um médico comentar que, se na saúde estivéssemos tão mal como na justiça, se os prazos de atendimento nos hospitais fossem tão grandes como nos tribunais, já estaríamos quase todos mortos há muito tempo...