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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A tragicomédia de Queiroz

“O riso é a mais útil forma de crítica, porque é a mais acessível à multidão. O riso dirige-se não ao letrado e ao filósofo, mas à massa, ao imenso público anónimo” - Eça de Queiroz.

Num país tristonho sem razões para esboçar um simples sorriso pelo que se passou nos bastidores do Campeonato Mundial de Futebol/2010, transcrevo, quase integralmente e bem a propósito, a crónica do humorista José Diogo Quintela, intitulada “O Rui Santos do cabelo desfrisado”, publicada na revista Pública (12/09/2010), em castigo de costumes promíscuos entre a política e o desporto:

“Um português sabe que a crise é grave quando se vê obrigado a arranjar um segundo emprego. E sabe que a crise é gravíssima quando vê que há membros do Governo que fazem o mesmo. Como Laurentino Dias, que agora acumula o lugar de secretário de Estado do Desporto com o de comentador de futebol. Mesmo sem utilizar o jargão indecifrável de Luís Fretas Lobo ou o histerismo sóbrio dos comentadores do Dia Seguinte, Laurentino Dias é o analista do momento. Uma espécie de Rui Santos com o cabelo desfrisado. Depois dos autarcas/dirigentes, agora temos os membros do Governo/comentadores. Para quando os deputados/ fiscais-de-linha?

Simão Sabrosa abandona a selecção? Laurentino comenta a actual forma do extremo do Atlético de Madrid, enquadrada nas últimas exibições dos “colchoneros”- O Braga apura-se para a Liga dos Campeões? Laurentino disseca a estrutura do clube minhoto para nos explicar as raízes do sucesso. Ronaldo não joga na selecção? Laurentino prova, por A+B, que o jogador do Real Madrid não faz falta à equipa, desvendando os mecanismos que permitem suprir a sua ausência. Só tenho pena de ainda não ter ouvido a sua opinião sobre quem é a melhor opção para a baliza do Paços de Ferreira: Cássio ou Coelho?

Mas onde Laurentino tem sobressaído é na cobertura do processo Carlos Queiroz. Como a Guerra do Golfo para José Rodrigues dos Santos, está o “C*** da mãe de Luís Horta Gate” para Laurentino Dias. È a grande oportunidade da sua vida para brilhar. Ora validando sentenças, ora perorando sobre recolhas de chichi. ora sugerindo estratégias à FPF, Laurentino não pára de atirar bolas para o pinhal. É uma espécie de chuteira falante.

Poderão dizer que esse é o trabalho de um secretário de Estado do Desporto. Talvez. Mas só se, por exemplo, entre as funções do secretário de Estado da Agricultura estiver a obrigação de entrar em minha casa à hora do jantar e censurar-me por não papar legumes suficientes.

O que sucede é que a Secretaria de Estado do Desporto é o órgão oficial com que o Governo se associa aos êxitos desportivos. É a UHU dos balneários. Depois de uma vitória, lá aparece o secretário de Estado a colar-se aos vencedores. Laurentino Dias é aquele dedo maroto que vai rapar o chocolate ao fundo do tacho, para que o Governo se lambuze com os restos do bolo. É uma rémora que se agarra à selecção. O que só funciona quando a selecção é um tubarão e não o carapau que agora anda aí â rasca.

Só que, quando a selecção não tem bons resultados, não serve de muito. Isso talvez explique a forma enérgica com que Laurentino Dias se empenha em despedir Queiroz”, et cetera.

Do mundo do futebol, diz a crónica de José Diogo Quintela, faz também parte um cabelo mais ou menos frisado. Em nome da estética nacional, e do muito que aqui escrevi sobre o caso Carlos Queiroz, na ocorrência da escolha da Federação Portuguesa de Futebol recair em Paulo Bento – por não me atrever a duvidar do bom senso do secretário de Estado em não se imiscuir na escolha do novo Seleccionador Nacional de Futebol - que não seja levado a mal a Laurentino Dias, ainda que em simples conversa informal, aconselhar ao novo timoneiro da equipa das quinas um corte de cabelo moderno num cabeleireiro nacional a quem as grandes figuras públicas entregam o cuidado das suas mais ou menos frondosas guedelhas.

Não! Não se trata de querer fazer apelo às imponentes e longas cabeleiras postiças dos salões da antiga monarquia portuguesa, apenas aos cuidados cortes de cabelo republicanos das actuais figuras de Estado, das personagens da política (o próprio secretário-geral do PCP dizia há dias, numa entrevista, não dispensar um bom corte de cabelo) ou da maioria dos craques do nosso futebol. Mesmo sem entrar nos exageros de Abel Xavier!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O processo kafkiano a Carlos Queiroz


“Todos os erros humanos são impaciência, uma interrupção prematura de um trabalho metódico” (Fanz Kafka, 1883-1924).

Pelo interesse da análise feita por João Boaventura num comentário ao post, aqui publicado, com a transcrição do artigo de Luís Filpe Menezes, saído no “DN” (04/09/2010), intitulado “Em defesa de Carlos Queiroz”, aqui se reproduz o referido comentário:

“O que se passa no caso Queiroz é um processo kafkiano que consiste em substituir a presunção de inocência pela de culpa, ou seja, procurar a todo o transe a culpa com a finalidade de fechar todas as vias de reintegração e permitir a exclusão do seleccionador. Se se quiser saber, quais os passos que Queiroz está a dar, a leitura das páginas 227, 228 e 229 d’ O Processo de Kafka (a minha edição é da Colecção Mil Folhas, Público, Lisboa, 2004) é elucidativa:

“Diante da Lei há um porteiro. Um homem do campo chega junto deste porteiro e pede para entrar. Mas o porteiro declara que por agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem reflecte, depois pergunta se então poderá entrar mais tarde. «É possível», diz o porteiro,«Mas não agora». Como a porta da Lei estava como sempre aberta, o porteiro afasta-se e o homem debruça-se para olhar para o interior, através da porta. Ao ver isto, o porteiro começa a rir e diz: «Se te atrai assim tanto, experimenta entrar apesar da minha proibição. Mas cuidado: eu sou poderoso. E não passo do último de todos os porteiros. Porque de sala para sala, há porteiros, cada um mais poderoso que o anterior.”

Para não alongar a transcrição, apresento a parte final na p. 229:

“O porteiro é obrigado a inclinar-se para ele, porque as diferenças de altura modificaram-se muito em detrimento do velho: «Que queres tu saber ainda?», pergunta o porteiro, «tu és insaciável». «Toda a gente se esforça por alcançar a lei», diz o homem, «como é que ninguém, excepto eu, solicitou a entrada todos estes anos?». O porteiro apercebe-se que o fim do homem está próximo, e como é quase surdo, berra-lhe ao ouvido para se fazer ouvir: «Ninguém mais podia obter a autorização de entrar, porque esta entrada se destinava só a ti. Agora, vou-me embora e fecho-a».” (fim da transcrição)

Kafka, como homem do Direito, limita-se a retratar, n' O Processo o absurdo, pelo qual o cidadão é obrigado a submeter-se a uma regra viciada do jogo jurídico cuja dinâmica pende para o lado do mais forte.

O que se passa com o Processo Queiroz passou-se com os Processos do actual Primeiro Ministro, ao qual foi sempre negada a Lei, perdão, o ser ouvido, o que levou o actual Bastonário do Direito a declarar, para quem o quisesse ler e ouvir:

- Estamos a assistir a uma vergonhosa actuação da justiça que parece mais preocupada em culpabilizar o Primeiro Ministro, em vez de partir da presunção de inocência.

Este é o retrato do Processo Queiroz, em companhia do Primeiro Ministro, porque ao primeiro foi negada qualquer audição pela Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP), e ao segundo, ou deixaram prescrever o prazo, ou deixaram esgotar o tempo e a paciência para o ouvir.

Para Cândida Almeida não valia a pena ouvir o Primeiro Ministro porque não vinha aduzir matéria nova; e para o Instituto do Desporto de Portugal (IDP) não valia a pena ouvir Queiroz porque a audição feita pelo Conselho Disciplinar da FPF era suficiente, e porque, ouvi-lo, também não vinha aduzir matéria nova.

O kafkianismo do processo sinuoso reside neste facto que o tempo não apaga. A ADoP foi, no dia 16.05.2010, à Covilhã fazer o controlo antidoping à selecção, que foi perturbado pelos impropérios do seleccionador, o que não impediu a recolha, e o Governo silenciou, possivelmente para apagar o incidente se a selecção chegasse às meias finais ou às finais. Como os desejos não se concretizaram, passados dois meses e meio,é que o secretário de Estado revela que se passaram “factos muito graves”, no controlo antidoping. A paciência de Job não tem melhor representante.

Portugal não chegou aos quartos de final mas no cômputo geral ficou em 11.º lugar (Inglaterra 13.º - Dinamarca 24.º - Grécia 25.º - Itália 26.º - França 29.º). Os três primeiros são os únicos europeus (Espanha, Holanda, Alemanha), 5 da América Latina, 1 africano (Gana) e um asiático (Japão). E a representação portuguesa foi vergonhosa ?

Isto para dizer que há muitas maneiras limpas para dispensar um seleccionador. A escolhida pelo governo não tem classificação”.

João Boaventura

Na imagem: Franz Kafka

sábado, 4 de setembro de 2010

Em defesa de Carlos Queiroz

"Tal futebol, tal País" (Luís Filipe Menezes).

Pelos inúmeros posts que aqui publiquei sobre o actual Seleccionador Nacional de Futebol, Carlos Queiroz, e, para mais, numa altura que este caso tem mobilizado os media desportivos (e não só), merecendo a atenção apaixonada do “mundo do futebol”, transcrevo um artigo publicado hoje no "Diário de Notícias", da autoria de Luís Filipe Menezes:

“Em dia de leitura da sentença do processo Casa Pia, vou fugir à torrente informativa que vai surgir à volta deste tema e vou falar de futebol. Mais precisamente do processo Carlos Queiroz.

Porque gosto de futebol, porque sou fã incondicional da selecção nacional, porque compreendo que o futebol/desporto/espectáculo é hoje uma actividade económica importante de dimensão planetária.

Vou ainda abordar este assunto porque ele reflecte o essencial do quotidiano da nossa vida colectiva. Como na justiça, na economia, no funcionamento do Estado, no caso Carlos Queiroz coexistem, em simultâneo, a má gestão da coisa pública, as perseguições político-partidárias, os compadrios obscuros, a incompetência, o desrespeito pela dignidade de cada um, a trapalhada colectiva institucionalizada. Tal futebol, tal País.

Comecemos pelo princípio.

Carlos Queiroz é um dos pensadores/organizadores mais bem preparados e considerados no mundo do futebol mundial. É verdade que coleccionou alguns insucessos como treinador principal, mas o trabalho de base conseguido com as selecções juniores na década de 90 e o trabalho de retaguarda no Manchester United falam por si. (É preciso também recordar que foi treinador principal do mais importante e complexo clube do século XX, o Real Madrid.) Assim, a sua contratação para substituir Scolari pareceu-me natural e defensável.

Concluído o ciclo desportivo do Mundial 2010 e considerando os resultados da selecção, não haveria razão suficiente para uma avaliação irremediavelmente negativa. A qualificação para a África do Sul foi sofrida, mas nada que não tenha acontecido várias vezes, incluindo com o próprio Scolari. A prestação no torneio foi mediana, mas chegámos aos oitavos-de-final e caímos perante o campeão do mundo. Para além de que Queiroz tomou conta da selecção numa mudança de ciclo, em que estavam a terminar a carreira os talentos da última década. Nada que justificasse, pois, um despedimento coercivo.

É verdade que, com ou sem razão, com mais ou menos verdade, vieram a público vários factos controversos da caminhada dos últimos dois anos: as quezílias públicas com alguns agentes desportivos, a separação entre jogadores e outros elementos da equipa nas refeições quotidianas, os "casos" Nani e Deco, o excesso de protagonismo e confiança de Cristiano Ronaldo nas relações com a equipa técnica - não é aconselhável um jogador tratar publicamente por tu cá tu lá o treinador principal -, as opções técnicas nos jogos com o Brasil e com a Espanha.

Todavia, todos eles em conjunto, o máximo a que poderiam dar origem seria a uma conversa ponderada com o seleccionador sobre a bondade da sua continuidade à frente do próximo projecto. Com elevação e bom senso. Mas não foi nada disso que aconteceu. Ao contrário, sucedeu-se um conjunto de peripécias que envergonham o futebol português e o País.

A primeira delas foi o inquérito a Carlos Queiroz ser aparentemente desencadeado por uma declaração anunciadora do senhor secretário de Estado do Desporto. A partir daí, com ou sem razão, ficou o anátema de que o ataque a Carlos Queiroz tem motivações político-partidárias.

Depois, conhecidos os factos, ainda mais se avolumaram as suspeitas. Queiroz teria sido deselegante quando manifestou o seu descontentamento em relação ao horário excessivamente matutino escolhido para realizar um controlo antidoping. Teria insultado Luís Horta, responsável máximo da ADOP, e com isso teria perturbado a boa recolha de urina para análise! Ridículo!!! Por pior que fosse o insulto - que apesar de condenável não terá sido tão violento quanto isso -, não é inteligível que as flores de estufa que foram à Covilhã ficassem tão atarantadas que pudessem confundir urina com sumo de laranja!!! Esta atitude só reforça a ideia de que alguém queria sanear o seleccionador a qualquer preço.

Finalmente, após um processo em que os órgãos de justiça da federação minimizaram a culpa, mais uma vez após um comentário do responsável governativo pelo desporto, o tal organismo justiceiro ligado ao controle antidopagem vem multiplicar a pena por seis e assim dar mais uma vez a impressão de que a decisão já estava tomada noutras instâncias (que raio de País que vive com estes entorses! Aplicação de penas por entidades não jurisdicionais! Penas aplicadas sem audição dos alegados culpados! Não recorríveis! Enfim…). Procedimento fatalmente suspeito.

Mas o principal é que tudo isto seria evitável. Com outras opções de política contratual com outras pessoas, com outros organismos e outro funcionamento das instituições.

Um seleccionador tão bem pago devia ser contratado ciclo a ciclo. Ciclo do Mundial, avaliação, ciclo do Europeu, avaliação. Uma equipa federativa devia ser periodicamente renovada e a limitação de mandatos não devia ser um "privilégio" exclusivo dos políticos. Há responsáveis federativos que estiveram em Saltillo?!

O controlo antidoping não é um processo de insensato policiamento e os seus responsáveis não podem movimentar-se com a arrogância com que o fazem (um controlo tanto pode ser feito às 07.00, como às 10.00 ou como no final de um treino, para já não falar das barragens a camionetas de atletas e outras que têm acontecido por aí). Finalmente, aconteça o que acontecer, prescindir de Queiroz como seleccionador pode ser discutível, mas prescindir de Queiroz como organizador e promotor do futebol é um desperdício.

Enxovalhar o seu presente e o seu passado é um acto de ingratidão e repugnante falta de vergonha e falta de auto-estima colectiva. Quem dizima assim os seus melhores diminui-se como povo".

Luís Filipe Meneses

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O processo disciplinar levantado pela Federação Portuguesa de Futebol a Carlos Queiroz


“O soberaníssimo bom senso” (Antero de Quental, 1842-1891).

Encontra-se Carlos Queiroz, licenciado pelo ISEF, da Universidade Técnica de Lisboa, e antigo docente de José Mourinho, no epicentro de uma polémica que se consubstancia num processo disciplinar, que lhe foi levantado pelo Conselho Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol, em que a nota de culpa incide sobre possíveis obstáculos levantados a um controlo anti-doping e a um insulto à progenitora do presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal, o médico Luís Horta.

Apresentou Carlos Queiroz como testemunha de defesa Sir Alex Ferguson que disse aos jornalistas, depois de ter prestado o seu depoimento, que considerava este caso lamentável, que compreendia a reacção de Carlos Queiroz a um controlo feito de manhã muito cedo numa altura em que os jogadores se encontravam recolhidos nos quartos, tendo acrescentado: “Conheço bem Carlos Queiroz. Trabalhei com ele seis anos, é um excelente treinador e professor, Tem uma grande reputação e isso é muito importante no futebol”.

Por seu turno, nas suas declarações aos jornalistas depois de ter prestado o seu depoimento em defesa de Carlos Queiroz,Jorge Nuno Pinto da Costa,presidente do Futebol Clube do Porto, foi muito contundente quando declarou: "Se é um envolvimento político, não me compete julgar, agora qual a razão porque veio falar [referindo-se a Laurentino Dias], pois... Se calhar, nos próximos 15 dias, não se vai falar do caso Freeport nem do Casa Pia, só se vai falar de uma frase horrorosa que Queiroz disse”.

Todo este imbróglio tem raízes bem profundas que não cabem na opinião de Jean-Paul Sartre: “No futebol tudo fica mais complicado através da presença da equipa adversária”. Passado mais de meio século, o desporto profissional, com os seus intérpretes, criou uma espécie de mundo cão em que se movimentam milhões e em que o desporto-rei como escola de virtudes pertence a uma utopia em que ninguém se respeita e em que a queda de um treinador é a possibilidade dada a um outro que aguarda a sua oportunidade. E tanto assim é, que se perfilam já no horizonte dos media nomes para substituir Carlos Queiroz mesmo antes do desfecho deste “muito ridículo processo”, nas palavras de Pinto da Costa.

Aquando do seu regresso a Portugal para tomar posse do cargo de seleccionador nacional, antevi as dificuldades com que se iria deparar na sua difícil caminhada. Escrevi, então, um post neste blogue, em 19 de Julho de 2008, intitulado “O regresso de Carlos Queiroz”,de que transcrevo alguns excertos:

“Em Portugal é tradição passar-se do oito ao oitenta, do mais negro pessimismo à mais cor-de-rosa esperança, do acorde dorido da guitarra portuguesa à alegria contagiante do Bailinho da Madeira. Seja como for, o messianismo é carga demasiado pesada para os frágeis ombros humanos, ainda que fortalecidos por valioso diploma académico e escorados em provas dadas entre as quatro linhas de dois campeonatos mundiais de futebol de sub-vinte e ao serviço do reputado Manchester United.

Razão teve Otto Glória a quem se atribui a frase (há quem a atribua a Cândido de Oliveira): 'O treinador de futebol quando ganha é bestial, quando perde é uma besta!'. Não é a bola redonda e o futebol sujeito à sorte ou aos azares da fortuna? Seja como for, Carlos Queirós merece bem um voto de confiança a longo prazo pelo seu passado de grandeza”.


Passados dois anos, em 4 de Julho de 2010, agora no rescaldo deste campeonato mundial, publiquei um novo post, intitulado” Seleccionador nacional de futebol e jogadores; culpados ou vítimas?”. Aqui deixo excertos:

“Seja como for, entendo que os campeonatos mundiais de futebol se tornaram numa feira de vaidades em que são sentados no banco dos réus apenas os seleccionadores nacionais. Haja em vista todos aqueles que foram despedidos, ou se despediram de motu proprio, depois das derrotas das respectivas equipas na África do Sul.

Mas serão eles os únicos e verdadeiros culpados? Porventura, estarão isentos de culpa os jogadores, estrelas de um firmamento futebolístico que nem sempre cintila, que fazem deste tipo de campeonato uma feira de venda de si próprios atingindo os seus passes cifras astronómicas e, ipso facto, mandando às urtigas o jogo de equipa? Salvaguardando-se as honrosas excepções, por exemplo, de Fábio Coentrão, quem sabe se por ainda não ser uma superstar, ou o caso de Ricardo Carvalho, feito de uma argamassa ética diferente.

Com tenho escrito outras vezes, o desporto profissional corre o risco de se tornar num verdadeiro circo romano sem ter conhecido sequer o apogeu de uma educação integral helénica. A assistir, nas bancadas VIP, verdadeiros Neros que se escondem à sombra das suas responsabilidades, enquanto na arena seleccionadores e jogadores se tornam pasto de verdadeiras feras que enchem as bancadas e tudo exigem deles, passando das palmas aos assobios, num abrir e fechar de olhos, já que não podem exigir o sacrifício das suas vidas, em desforço de uma nação humilhada.

E, desta forma, são esquecidos os aumentos de impostos, um serviço nacional de saúde deficiente e deficitário, um ensino que não ensina, uma economia que decresce e, principalmente, o aumento de desemprego - o maior flagelo de qualquer sociedade. Ironicamente, são, por vezes, estas as bandeiras de solidariedade e êxito governativo agitadas em mãos de uma sociedade, em que os pobres deste mundo de Cristo estão cada vez mais pobres, a classe média passou a pobre e os ricos estão cada vez mais ricos, por aqueles que mandam apertar o cinto por usarem suspensórios. Poderia a nossa selecção de futebol fazer melhor?”

Sobre os palavrões usados no mundo do futebol onde se não pode exigir punhos de renda, transcrevo um comentário de João Boaventura, inserido no blogue “Colectividade Desportiva” (05/08/2010), que faz jus ao aforismo romano "nil novi sub sole":

“1970 - Lourenço Marques

Jogo: 1.º de Maio - Desportivo de L.M.

1.ª parte - O Antero, poveiro dos sete costados, dá um soco no defesa do Desportivo

Apito. Cartão vermelho. Antero expulso.

O sr Guerreiro, treinador: - Então para que foi aquilo ?

Antero explica: - Chamou-me filha da p...!

Intervalo. Tudo para o balneário. O treinador do 1.º de Maio, vai falar no caso Antero e chama a atenção de todos os jogadores:

- Quero que vocês todos saibam de uma vez por todas, para que o caso Antero não se repita. Todos temos duas mães, uma a verdadeira que está em casa, e outra para ser usada nos campos de futebol.

Antero voltou para a Póvoa de Varzim, de onde era natural, e o sr. Guerreiro vive hoje no Algarve.

O João Boaventura era dirigente do 1.º de Maio e preparador físico gratuito da equipa, e assistiu a este caso, e ficou a saber que também tem duas mães, uma virtual e outra real, para se precaver”.


Só quem não frequenta os campos de futebol pode viver no “ledo e doce engano” de que gente ilustre da nossa sociedade se comporta como meninos do coro incapaz de um insulto aos árbitros e seus familiares. Despidos dos salamaleques e dos tratamentos por vossas excelências dignos de gentis-homens são palavrões gritados para dentro do campo e que fariam corar de vergonha o carroceiro mais empedernido. São insultos públicos testemunhados por gente em redor. E quem lhes levanta processos disciplinares? Ou há moralidade…

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O Polvo


Como é habitual, destacamos a crónica de sexta-feira de J.L. Pio Abreu no "Destak":

Há quem o prefira à Lagareiro, mas é um prodígio da natureza. Tem olhos iguais aos nossos, pinta-se como nós e não tem coluna dorsal, como alguns de nós. Os machos morrem de amor e as fêmeas morrem pelos filhos. Parecidos connosco, se tivéssemos mais coragem. Têm um problema: às vezes são canibais. Mas os homens, além de às vezes também o serem, ainda fazem coisas piores. O polvo tem oito braços, pelo que toca em tudo. Algum humano que também o faça é logo acusado de polvo. Tem também um cérebro desenvolvido e uma inteligência que, sendo a maior dos moluscos, é comparável à dos primatas, ordem a que temos a honra de pertencer. Apesar de tudo, os humanos só respeitaram o polvo quando Paul, morador de um aquário em Oberhausen, conseguiu prever os vencedores dos jogos do Mundial de Futebol e deu antecipadamente o título à Espanha.

Digo isto porque anda por aí toda a gente a fazer previsões desconcertadas: que pagam a dívida, que não pagam, que reduzem o défice ou não, que a produção aumenta, que ela se encolhe, que a bolsa sobe, que desce, que vai haver inflação, que afinal é recessão e talvez deflação, que os bancos vão falir, que acabam por se aguentar. Em geral desacertam, e só servem para alimentar desconfianças e jogos de apostas.

É por isso que eu prefiro um polvo a todos os economistas. Qual Banco de Portugal, qual OCDE, qual Fundo Monetário Internacional, qual Comissão Europeia, qual Moody’s, qual Fitch, qual Standard & Poor’s? Que vão todos mas é fazer prognósticos depois dos jogos! Por mim, só me vou fiar no polvo.

J. L. Pio de Abreu

terça-feira, 13 de julho de 2010

MOTRICIDADE HUMANA



Um dos nossos leitores chamou-nos à atenção para este "número" de variedades, datado de 1944, das Ross Sisters, intitulado "Solid Potato Salad". Como neste blogue temos falado de motricidade humana, recomendamos aos leitores que vejam o que acontece ao fim de um minuto de actuação das três irmãs...

sábado, 10 de julho de 2010

José Esteves, o Homem e a Obra


“Ora aqui está, se não me iludo, uma pedra violenta de escândalo para muitos dos nossos leitores anti-desportistas: o desporto como peste contemporânea até agora, invade heterodoxamente o belo templo de Minerva e vem sentar-se, de face descarada, no banco dos doutorandos, perante um areópago sapientíssimo e soleníssimo (Sílvio Lima, “O Primeiro de Janeiro”, 25/11/43).

Numa época em que tudo e todos são postos em causa, mas que, em contrapartida, se homenageia, a torto e a direito, muito imbecil e se galardoa a eito tanto incompetente, foi com muito agrado que li um comentário de Carlos Medina Ribeiro no meu post “Seleccionador nacional de futebol e jogadores: culpados ou vítimas?” (04/07/2010).

Nele escreveu o seu autor: “Guardo como verdadeira relíquia (ou Bíblia?) o livro - aqui referido - do Prof. José Esteves, que devia ser de leitura obrigatória para muito boa gente, a começar por todos os candidatos a comentadores'desportivos'". Reporta-se este comentário a um pequeno excerto do livro “O Desporto e as Estruturas Sociais”, da autoria de José Esteves, professor de Educação Física, bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, doutor honoris causa pelas Universidade Técnica de Lisboa e Universidade Lusófona, por mim então transcrito: “Só há uma forma de entender o fenómeno desportivo: na perspectiva das estruturas sociais. O que há de característico e fundamental no desporto é, justamente, o que define e caracteriza a sociedade em que ele se realiza” (Prelo Editora, 1.ª edição, 1967, p. 15).

Repare-se que este livro foi publicado sete anos antes de 25 de Abril, com os riscos de natureza política que existiam na altura. Recordo, a propósito, a constante preocupação de José Esteves em dignificar o INEF (actual Faculdade de Motricidade Humana) no seu estatuto de estabelecimento de ensino superior. Aliás, foi esse o motivo principal que o levou a partilhar a respectiva direcção, corria o ano de 58, com José Anderson Leitão, professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, sob determinadas condições por si impostas que não sendo cumpridas o levariam a abandonar esse prestigiado cargo.

Por serem do domínio público as suas opções políticas de católico de esquerda serviram elas de denotador para a miserável denúncia de que se utilizava das aulas para politizar os alunos contra o Estado Novo. A simples suspeição que esta cabala levantou foi motivo suficiente para que fosse exigido o seu imediato pedido de demissão. Não o fez.

Em contrapartida, reivindicou que fosse levantado um processo de averiguações às suas actividades directivas e docentes, sendo apurada a infâmia duma mesquinha e sórdida mentira que pretendeu macular a honra de um homem probo que tudo fizera para prestigiar uma escola gerada por um estado autoritário que ele combatia à luz do dia e não em corredores esconsos de traição. Provada a sua inocência, em misturar docência com política sórdida, foi-lhe concedida a “graça” de poder continuar no exercício do cargo. A isso, respondeu com o pedido de demissão.

Anos mais tarde, figuras de destaque da vida portuguesa houve que, quando confrontadas com o facto dos elevados cargos exercidos antes de 25 de Abril e a sua reconversão imediata a ideários políticos vindos de Moscovo, argumentaram terem aceitado essas nomeações para minar as estruturas fascistas! Não sei se passaram, depois, a minarem as estruturas comunistas: "cesteiro que faz um cesto..."

Conta a lenda que Pigmalião se perdeu de amores por Galeteia, estátua de rara beleza por si esculpida, em tão grande e sofrida paixão que Afrodite condoída lhe deu o sopro da vida. Émulo seu, José Esteves cinzelou com o bater do coração e o escopo da alma a grande paixão da sua vida – a Educação Física.

Breves pinceladas da sua actividade profissional: nos anos 40, dedicou-se ao ensino no antigo Liceu D. João III de Coimbra e na Associação Académica desta mesma cidade como treinador/educador da modalidade de basquetebol, depois no Liceu de Oeiras e no Sport Lisboa e Benfica , como secretário técnico. Foi respeitado e admirado por colegas e dirigentes desportivos, alunos e atletas, todos educandos seus, porque a obra educativa - e o respeito pela ética desportiva - não depende do sítio onde se realiza, mas de quem a realiza.

O livro “O Desporto e as Estruturas Sociais”, notável tese académica no âmbito da sociologia desportiva, justifica bem a denúncia de um deplorável status quo feita por António de Paula Brito, também ele professor de Educação Física, hoje professor catedrático jubilado de Psicologia Desportiva, da Faculdade de Motricidade Humana, quando escreveu na altura: “Quando, a propósito da Educação Física e Desporto se fala de Cultura, de Ciência, de Sociedade, de Política, etc., é frequente enfrentar-se um sorriso descrente ou ouvir gritar a Heresia!”

José Esteves suportou, com o estoicismo dos mártires e a paciência de Job, a heresia e -lo em hora em que falar de Sociedade (de uma certa sociedade) ou de Política (de uma certa política) era bem mais perigoso e arriscado sob o ponto de vista de segurança pessoal do que enfrentar a ironia dos néscios ou sofrer a dúvida de uma certa intelectualidade ciosa da sua massa cinzenta que desprezava o Corpo.

Autor de outros livros sobre Sociologia do Desporto, estudo académico emergente em Portugal, José Esteves assume em acto de coragem uma posição crítica e uma luta constante (poucas vezes, a consagrada expressão de Séneca, “viver significa lutar” terá tido aplicação tão nobre), perante os problemas sociais portugueses, em particular, e da Educação Física nacional, em geral.

Isso mesmo reconheceu Jorge Sampaio, então Presidente da República, quando escreveu: “José Esteves tem a qualidade de nos fazer pensar. As suas perguntas são uma fonte inesgotável de reflexão…. As suas práticas não contradizem nunca as suas teorias. …É sempre o mesmo cidadão que não se demite do seu papel de”consciência critica” e que não cala a sua indignação perante “todos os racismos...”

Chega o 25de Abril.

José Esteves vive a hora em recolhida religiosidade.

Não bate palmas! Não se cola ao pelotão da frente! Não aceita elevados cargos para que é convidado!

Tem as mãos calejadas do trabalho. Tem os pés sofridos em longa e dura caminhada. Tem o corpo alquebrado por uma luta política intensa.

Não!, para mim, José Esteves não é um ídolo – porque não tem pés de barro. Um semideus – porque não pertence à mitologia grega. Um super-homem – porque não é, de forma alguma, personagem de Nietzche, em satisfação dos instintos vitais lutando contra o homem moral, um fraco, um degenerado.

Numa época planetária de exacerbado nacionalismo nas pugnas desportivas profissionais, em nome de uma bandeira ou de uma ideologia política, que formosíssima utopia a sua: “Não troco a promoção desportiva duma centena de crianças das nossas escolas primárias por uma medalha de ouro olímpica”.

A um simples mortal, os deuses do Olimpo, jamais, poderão perdoar tanta e tamanha afronta. E não nos diz o adágio que “a vingança é o prazer dos deuses”?

Na imagem: capa do livro “O Desporto e as Estruturas Sociais” (4.ª edição).

domingo, 4 de julho de 2010

Seleccionador nacional de futebol e jogadores: culpados ou vítimas?

“Atingir o ideal é compreender o real” (Jean Jaurès, 1859-1914).

O meu último post (02/07/2010), intitulado, “Cristiano Ronaldo Superstar”, mereceu um comentário de Sérgio O. Marques que transcrevo:

“Um treinador que consegue colocar uma vara de marretas nos oitavos de final é merecedor de consideração e estima. No entanto, não resisti em deixar aqui a marca da minha sincera e enorme satisfação com a excreção dessa quadrilha (a que chamam selecção das quinas) do mundial. Espero que fiquem de fora logo de início no próximo mundial, não importa qual seja o treinador ou seleccionador ou lá que outro nome lhe queiram dar”.

Descontando a amargura que transparece do referido comentário, numa altura propícia a críticas feitas a quente, julgo ser ele um belíssimo ponto de partida para não deixar cair no esquecimento os reais males que afectaram a participação da Selecção Nacional no Campeonato do Mundo de Futebol a decorrer na África do Sul.

Por esse motivo, eu torno a abordar uma temática que tanta tinta tem feito correr, tantas horas televisivas tem ocupado, tantas conversas de café tem merecido entre treinadores de bancada, embora não me pretenda assumir-me como árbitro de opiniões, minhas ou de outros, que possam ser tidas como fora-de-jogo.

Mas seja como for, entendo que os campeonatos mundiais de futebol se tornaram numa feira de vaidades em que são sentados no banco dos réus apenas os seleccionadores nacionais. Haja em vista todos aqueles que foram despedidos, ou se despediram de motu proprio, depois das derrotas das respectivas equipas na África do Sul.

Mas serão eles os único e verdadeiros culpados? Porventura, estarão isentos de culpa os jogadores, estrelas de um firmamento futebolístico que nem sempre cintila, que fazem deste tipo de campeonato uma feira de venda de si próprios atingindo os seus passes cifras astronómicas e, ipso facto, mandando às urtigas o jogo de equipa? Salvaguardando-se as honrosas excepções, por exemplo, de Fábio Coentrão, quem sabe se por ainda não ser uma superstar, ou o caso de Ricardo Carvalho, feito de uma argamassa ética diferente.

Com tenho escrito outras vezes, o desporto profissional corre o risco de se tornar num verdadeiro circo romano sem ter conhecido sequer o apogeu de uma educação integral helénica. A assistir, nas bancadas VIP, verdadeiros Neros que se escondem à sombra das suas responsabilidades, enquanto na arena seleccionadores e jogadores se tornam pasto de verdadeiras feras que enchem as bancadas e tudo exigem deles, passando das palmas aos assobios, num abrir e fechar de olhos, já que não podem exigir o sacrifício das suas vidas, em desforço de uma nação humilhada.

E, desta forma, são esquecidos os aumentos de impostos, um serviço nacional de saúde deficiente e deficitário, um ensino que não ensina, uma economia que decresce e, principalmente, o aumento de desemprego - o maior flagelo de qualquer sociedade. Ironicamente, são, por vezes, estas as bandeiras de solidariedade e êxito governativo agitadas em mãos de uma sociedade em que os pobres deste mundo de Cristo estão cada vez mais pobres, a classe média passou a pobre e os ricos estão cada vez mais ricos por aqueles que mandam apertar o cinto por usarem suspensórios. Poderia a nossa selecção de futebol fazer melhor?

Escreveu José Esteves, em “O desporto e as estruturas sociais” (Prelo Editora, Lisboa, 1967, p. 15): “Só há uma forma de entender o fenómeno desportivo: na perspectiva das estruturas sociais. O que há de característico e fundamental no desporto é, justamente, o que define e caracteriza a sociedade em que ele se realiza”. Assim, renovo a pergunta: “Poderia a nossa selecção fazer melhor?” Só por milagre. E os milagres não acontecem todos os dias. Por isso, mesmo, é que são milagres.

O seu comentário, meu caro Sérgio O. Marques, suscitou, em boa hora, uma discussão, que seria conveniente ser alargada o mais possível, em que a substituição de um jogador feita por Carlos Queiroz no jogo entre Portugal e Espanha se assemelha a uma discussão do tipo de mezinha de curandeiros para uma simples borbulha numa carne apodrecida pela gangrena dos reais problemas que afectaram a nossa participação no Campeonato Mundial de Futebol da África do Sul. Ou seja, processos kafkianos para entregar numa bandeja de prata a cabeça de Carlos Queiroz e, assim, calar os descontentes, os treinadores de bancada e os próprios ingénuos.

A preparação do próximo Campeonato Europeu de Futebol bate-nos à porta. As agruras da vida serão esquecidas, por discussões sobre a escolha dos seleccionados, e tudo voltará à paz podre do dia-a-dia até que as bancadas dos estádios do mundo, ou apenas da Europa, se encham de novo, ainda que mesmo no esquecimento das sábias palavras de Stephen Covery: “Se continuarmos fazendo o que estamos fazendo, continuaremos conseguindo o que estamos conseguindo”.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

A ECONOMIA DAS VUVUZELAS

CRISTIANO RONALDO SUPERSTAR

“Porque é que qualquer português tem sempre uma opinião sobre tudo, seja política futebol ou a legislação laboral da profissão de calista?” (Miguel Esteves Cardoso, Expresso, 31/10/87).

Num mar alteroso que tentou fazer naufragar na opinião pública portuguesa os “navegadores” da equipa nacional de futebol, depois das ondas de euforia dos 7-0 à Coreia do Norte, surge, agora, uma espécie de tribunal ad hoc que quer sentar no banco dos réus Carlos Queiroz sem tomar em linha de conta que os êxitos ou fracassos de uma equipa desportiva não devem ser assacados, exclusivamente, ao respectivo treinador/seleccionador.

Ressalvando a seriedade de uns tantos cronistas desportivos, surge a inimizade de outros sem a isenção necessária para se subtrairem à antipatia que lhes merece Carlos Queiroz e nostálgicos da simpatia de um Scollari capaz de mobilizar todo um país para o sonho “patriótico” de fazer Portugal campeão mundial do desporto-rei.

“Nestas circunstâncias que são simultaneamente humilhantes de suportar, humilhantes de considerar e humilhantes de descrever” (Charles Dickens), é fácil e cativante transformar Carlos Queiroz em “cepo das marradas” da frustração desportiva de quem não gosta de perder nem a feijões e, muito menos, com a Espanha (em arreigada antipatia colhida em compêndios escolares de história), havida actualmente como detentora de uma das melhores equipas mundiais do desporto-rei. Como li em título de A Bola:Custar, custa, mas a Espanha é melhor” (Vitor Serpa, 30/01/2010).

Destaco, igualmente, ao arrepio deste acervo de escritos jornalísticos anti-Queiroz, o parágrafo inicial da crónica de Daniel Oliveira, nesse mesmo dia e jornal desportivo:

“Portugal foi eliminado. Não é o fim do Mundo. Portámo-nos com dignidade. Tenho de confessar que a Selecção acabou por estar acima das minhas expectativas, Com Bosingwa e Nani teríamos, provavelmente, ido um pouco mais longe. Devo, como muita gente, algumas desculpas a Carlos Queiroz. Construiu, ao contrário das aparências, uma equipa. Está de parabéns”.

Assim, Carlos Queiroz não deve ser a árvore que esconde a floresta da ambição de Cristiano Ronaldo em fazer deste Mundial o palco de eleição para defender, ou mesmo ampliar, os seus pergaminhos de melhor jogador do mundo, num confronto com outros protagonistas como, por exemplo, Kaká, da equipa do Brasil e seu companheiro no Real Madrid, e Messi da selecção dos Pampas.

A ambição de Ronaldo não é reprovável. Reprovável, isso sim, foram os meios por si utilizados para alcançar esse fim no jogo com a Espanha. Enquanto Kaká e Messi, também eles de posse do ceptro da FIFA de melhores jogadores do mundo, embora, obviamente, em anos diferentes, se preocuparam em jogar para as respectivas equipas, Ronaldo parecia ter em mente jogar para prestígio de si próprio.

Certa imprensa desportiva portuguesa, sem atender a que “a verdade é a essência da moralidade”, como nos ensinou T. H. Huxley, tem-se servido da sua força de quarto poder, pela sua reconhecida capacidade em influenciar, ou mesmo condicionar, a opinião pública contra as opções tácticas e as substituições de Carlos Queiroz.

A própria imprensa espanhola, tantas vezes acusada de xenofobia, foi bem mais comedida nas críticas à derrota da equipa portuguesa:

“Um golo de Villa colocou a Espanha pela quarta vez nos quartos-de-final do Mundial e pôs ponto final num encontro que Portugal tornou muito duro. Por momentos, o conjunto de Del Bosque recuperou a identidade que a tornou uma grande selecção, campeã da Europa, ainda que tenha faltado um pouco de profundidade perante o férreo planeamento luso, equipa que ainda não tinha recebido um golo ao longo do torneio” (El País, 30/06/2010).

Nesse mesmo dia, colhi estas transcrições em fontes jornalísticas de dois outros países estrangeiros:

Do jornal “L´Equipe” (ou seja de um país a braços com o escândalo de proporções políticas pela prematura eliminação da sua selecção): “A paciência espanhola superou a força portuguesa. Tal como havia acontecido nos dois últimos jogos do seu grupo, o sucesso espanhol teve o selo de de David Villa. No entanto, o seu golo deveria ter sido anulado, pois estava em posição de fora-de.jogo. Do ponto de vista de matriz do jogo. A qualificação espanhola teve uma certa lógica. Do ponto de vista das ocasiões de golo, já tem menos…

Do jornal “O Globo”: "Com um golo de Villa, a Espanha vence Portugal por 1-0, na cidade do Cabo e vai enfrentar o Paraguai nos quartos-de-final da Copa. Já os portugueses que contavam com a estrelac do craque Cristiano Ronaldo que nada fez no Mundial, volta paa casa. O golo espanhol gerou polémica, já que Villa estaria em fora de jogo, e o 'telão' do estádio não mostrou o 'replay' do lance, conforme a determinação da FIFA”.

Como se diz na gíria do teatro, aproveito a deixa de “O Globo” para voltar ao ”caso Ronaldo” que mereceu a atenção muito crítica da cadeia televisiva espanhola “Cuatro” ao dar-nos conta da falta de fair-play do capitão da equipa das quinas e das suas implicações para com o rendimento da Selecção Nacional que aconselharia a sua substituição, não se desse o caso da repercussão que essa medida assumiria nas bancadas pejadas de portugueses, residentes ou não na África do Sul, que se recusariam a assistir, sem manifestarem o seu violento desagrado, à queda do seu ídolo, um ídolo a valer o peso do corpo em ouro, ainda que, como tantos outros, com pés de barro.

E se, para Homero, “a marca da sabedoria é ler correctamente o presente e marchar de acordo com a ocasião”, razão mais do que suficiente para não atirar para cima das costas do seleccionador nacional toda a responsabilidade de uma situação em que uns tantos estarão isentos e outros não de culpa, sendo até merecedores de amplo louvor numa partida em que sobressaiu a humildade, o empenhamento, e o denodo de jogadores como, por exemplo, Eduardo, guarda-redes de um clube nacional, não tido entre os três grandes.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Uma Crónica de Miguel Esteves Cardoso sobre o Mundial 2010

Calomniez, il en reste toujours quelque chose (palavras atribuídas a Basílio do Barbeiro de Sevilha).

Numa altura de diabolização de Carlos Queiroz, é sempre um prazer ver intelectuais dedicarem a sua atenção ao fenómeno desportivo não o tendo como coisa sem importância ou exageradamente valiosa no âmbito de uma extensa e multifacetada cultura.

Nesta perspectiva, reporto-me a uma das crónicas diárias de Miguel Esteves Cardoso, intitulada “Então tchau”, publicada hoje na última página do jornal desportivo O Jogo.

Pelo espírito de justiça, equilíbrio de raciocínio e forma desapaixonada como foi escrita, com a devida vénia e sem mais delongas transcrevo-a aqui:

“Chegou o dia.

A certa altura instala-se a cegueira.

Saímos bem. Era um bom plano. Portugal jogou para não levar golos.

Estamos tristes. Se calhar temos culpa por nunca termos acreditado o suficiente. Mas perdemos como senhores. Poderíamos ter ganho – ou empatado e ido a penáltis.

A Espanha ganhou com sorte, batota e a ajuda do árbitro, que até era argentino e porreiro e pouco susceptível às fitas. Mas o acto teatral e traiçoeiro de Capdevilla resumiu o jogo.

Portámo-nos bem. A Espanha fez tudo o que pôde – mas foi pouco. Portugal controlou o jogo na primeira parte e quase sempre na segunda. O nosso único defeito foi não estarmos preparados para sofrer um golo.

Tanto os jogadores como Carlos Queiroz estiveram muito, muito bem. A Espanha já não é a mesma Espanha: foi desvitalizada. Geralmente, quando Portugal perde culpamos os portugueses. Neste caso, não tiveram culpa nenhuma.

Então tchau mundial. Foi a Espanha que ficou malvista: Portugal foi sempre seguro, conjunto e propositado. Nunca se viu uma defesa tão bonita e contra-atacante como a nossa. Frustrámos a Espanha: Ganharam por um golo que na primeira parte poderíamos ter sido nós a marcar.

Estamos de parabéns. A Espanha, com a superioridade numérica e cronológica que tinha, tinha obrigação de ter ganho claramente. Não ganhou. Viu-se aflita.

Nesta altura do Mundial, quando Portugal é eliminado, é costume culpar o treinador e/ou os jogadores, Desta vez, porém, é diferente. Acho que conseguimos alcançar o mais que poderíamos, atendendo ao que tínhamos.

Portugal estava unido e era português e defendeu como nunca vi selecção nenhuma defender. Portugal foi sempre um país que jogou à defesa, com contra-ataque. Os espanhóis sempre quiseram atacar-nos e destruir-nos. Mas nunca conseguiram.

Como também ontem não conseguiram. Portugal perdeu por um só golo como poderia ter marcado um, dois ou três. Jogou sempre bem, como se fosse o dono do jogo. Os espanhóis entraram em pânico e ficaram nervosos. Mas nós não.

Foi a derrota mais bonita da história do nosso futebol. Não digo que soube bem – mas pelo menos não soube mal.

A Espanha ganhou, mas Portugal não perdeu por causa disso. Na próxima competição internacional, é Portugal – mais insubmisso, mais inteligente – que está à frente.

Tchau, Espanha. Obrigado pelos espasmos de dificuldade. Talvez para a próxima tenhamos medo de vós.

Mas pelo que se viu, parece que não.

Viva Portugal!”

Desce, assim, o pano sobre a participação de Portugal. Não faltarão as habituais carpideiras a anunciar as suas tácticas a posteriori que, em sua opinião chorosa, deveriam ter sido seguidas para levar de vencida e de rastos a Espanha. Entre elas, os chamados treinadores de bancada (e não só) com as suas manifestações esféricas de raciocínio quadrado, quiçá saudosistas do quadrado de Aljubarrota e de um passado de seis séculos e um quarto que destroçou o bem mais numeroso e poderoso exército castelhano.

Haja o sentido das proporções. Não se pretenda transformar uma derrota desportiva, ainda que a nível mundial, num assunto de estado. De um estado infantilizado ou, pelo contrário, perigosamente totalitário!

terça-feira, 29 de junho de 2010

As Novas Tecnologias no Desporto de Alta Competição

“O que os olhos não vêem o coração não sente” - provérbio popular.

Cabe, porventura, na cabeça de alguém que nos últimos Jogos Olímpicos se tivesse decidido, por exemplo, o vencedor dos 100 metros de atletismo através de um juiz árbitro (ou mesmo de um por cada finalista) a quem competiria decidir os lugares do pódio? O mesmo para o caso dos 100 metros livres da natação?

A resposta a estas perguntas talvez ajudem a compreender a falta de senso da FIFA em não tentar evitar os últimos e escandalosos casos ocorridos no Campeonato Mundial de Futebol 2010, que desvirtuaram a verdade desportiva.

Sem pôr em causa os respectivos méritos, refiro-me, como é evidente, aos jogos Alemanha/Inglaterra e Argentina/México de que saíram vencedores, respectivamente, a Alemanha e a Argentina. Mas méritos ensombrados na primeira partida com o jogo anulado ao futebolista Lampard, depois da bola ter entrado na baliza alemã, e na segunda partida com a validação do 1.º golo da Argentina em evidente fora de jogo de Tevez.

E aqui surge o eterno se…se o golo tivesse sido validado à Inglaterra o resultado final do duelo anglo-germânico teria sido de 4-1 favorável à Alemanha? Igualmente, o jogo entre a equipa dos pampas e a equipa mexicana teria sido favorável à primeira por 3-1?

Será que as modernas tecnologias só encontram lugar no futebol na preparação físico-técnico-táctica das equipas? Em todo o resto o futebol tem sido pasto da utilização de modernas tecnologias com gastos fabulosos no campo da investigação entre os colossos da venda de equipamento desportivo como, por exemplo, a Nike e a Adidas.

A moderna tecnologia na descoberta de novos tecidos trouxe-nos camisolas com grande poder de absorção do suor e fatos de banho de competição que diminuem o atrito à água, no aspecto das botas de futebol passaram a ser botas em que a sua maleabilidade em nada se identificam com o couro duro e rígido das botas por exemplo “dos cinco violinos” da equipa do Sporting na década de 50 (as equipas argentinas foram as primeiras a terem consciência da vantagem de botas de futebol que bem se adaptam aos pés e tratam a bola com a subtileza das habilidades circenses).

Quanto à bola de futebol, diva principal da magia do golo que entra ou passa ao lado da baliza, a sua feitura obedece a princípios do domínio da balística (vide, crónica de Carlos Fiolhais, "Ora bolas!", publicada no semanário “O SOL” , em 25 deste mês, e transcrita nesse mesmo dia neste blogue). A vara do salto à vara evoluiu para as actuais varas de fibra, etc.

Não é mais possível, portanto, o futebol de alta competição, com ecrãs gigantescos de televisão colocados no próprio campo em que decorre o jogo, continuar a viver da dúvida do que aí acontece e que venha a servir de assunto de discussão dos jornais desportivos do dia seguinte em que se dividiam as opiniões, ou mesmo “teses”, dos especialistas do jornalismo desportivo.

Para além disso, esta visão dos erros intencionais ou não dos árbitros pode ser motivo de uma maior tensão e consequentes motins entre claques. "For Good of the Game", vão os meus votos para que no jogo do mata-mata de hoje, entre equipas de países que habitam esta “jangada de pedra”, o coração sinta os que os olhos vêem.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A ORIGEM DAS VUVUZELAS


Um dos nossos leitores enviou-nos este "esclarecimento" sobre a origem das vuvuzelas:

"6. E os sete anjos, que tinham as sete trombetas, prepararam-se para tocá-las.

7. E o primeiro anjo tocou a sua trombeta, e houve saraiva e fogo misturado com sangue, e foram lançados na terra, que foi queimada na sua terça parte; queimou-se a terça parte das árvores, e toda a erva verde foi queimada.

8. E o segundo anjo tocou a trombeta; e foi lançada no mar uma coisa como um grande monte ardendo em fogo, e tornou-se em sangue a terça parte do mar.

9. E morreu a terça parte das criaturas que tinham vida no mar; e perdeu-se a terça parte das naus.

10. E o terceiro anjo tocou a sua trombeta, e caiu do céu uma grande estrela ardendo como uma tocha, e caiu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas.

11. E o nome da estrela era Absinto, e a terça parte das águas tornou-se em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque se tornaram amargas.

12. E o quarto anjo tocou a sua trombeta, e foi ferida a terça parte do sol, e a terça parte da lua, e a terça parte das estrelas; para que a terça parte deles se escurecesse, e a terça parte do dia não brilhasse, e semelhantemente a noite.

13. E olhei, e ouvi um anjo voar pelo meio do céu, dizendo com grande voz: Ai! ai! ai! dos que habitam sobre a terra! por causa das outras vozes das trombetas dos três anjos que hão de ainda tocar."

(Bíblia, Novo Testamento, Capítulo 8 do Livro do Apocalipse)

domingo, 27 de junho de 2010

O CABO DAS TORMENTAS DE CARLOS QUEIROZ

«Partidos dali, houveram vista daquele grande e notável cabo, ao qual por causa dos perigos e tormentas em o dobrar lhe puseram o nome de Tormentoso, mas el-rei D. João II lhe chamou cabo da Boa Esperança, por aquilo que prometia para o descobrimento da Índia tão desejada» (João de Barros, 1496-1570).

Realiza-se na próxima terça-feira, dia 29 de Junho, o jogo dos oitavos-de-final entre Portugal e Espanha - “essa amiga, que dorme deitada a nosso lado (…), tendo por travesseiro os mesmos montes e por lavatório os mesmos rios”, como escreveu Eça de Queiroz – que mantêm entre si uma rivalidade futebolística de há longos anos.

Mais uma vez isso acontecerá e Carlos Queiroz será posto à prova. No caso da vitória da Espanha poderá vir a ser havido pelos seus detractores, depreciativa e novamente, como um teórico do futebol. Curiosamente, alguns deles consideraram o futebol moderno como uma ciência que muito o afasta do tempo das balizas às costas ou de tácticas “de todos a monte e fé em Deus”, mas, por outro lado, quiseram-no manter aprisionado nas malhas de “um saber de experiência feito”. Este paradoxo, fez com que, vai para cerca de vinte anos, tenha escrito um artigo de opinião com o seguinte título: “Futebol, uma ciência sem cientistas?”, em que defendi:”Em minha opinião, essa prática tem que caminhar a par com a formação de treinadores em licenciaturas em Desporto (na opção de Futebol) pela faculdade de Motricidade Humana e outras licenciaturas congéneres” ("Jornal de Coimbra", 28/08/91).

Já pertence ao passado um futebol que possa desmerecer exames sobre a condição física dos jogadores, exercícios de musculação (de que é exemplo o físico apolíneo e possante de Cristiano Ronaldo que depois dos treinos de conjunto se dirigia sozinho ao ginásio para fazer musculação), filmagens de treinos e jogos para análise dos movimentos dos atletas, uso da informática no armazenamento, consulta e análise das informações, que só um domínio científico da metodologia do treino, de ciências biológicas e biomecânicas, etc., podem dar resposta com todo os seu arsenal laboratorial. É do domínio público que Carlos Queiroz e José Mourinho (seu aluno no ISEF/FMH da Universidade Técnica de Lisboa) não foram jogadores de futebol de nomeada pertencendo a uma nova vaga de treinadores de futebol que entraram na profissão pela porta da teoria como reconheceu Mourinho na cerimónia do seu doutoramento honoris causa pela Universidade Técnica de Lisboa em que obteve o grau académico de licenciado: “Seria sempre treinador de futebol, mas sem faculdade seria assim-assim e nunca muito bom” (Record, 24/03/09). Mas este percurso não foi pacífico sendo obrigados a frequentar cursos de curta duração de treinadores de futebol de que eram eles próprios, muitas vezes, prelectores.

Por esse facto, contra ventos de descrença e marés de desconfiança, saudei a nomeação de Carlos Queiroz para seleccionador nacional de futebol com um post, "O regresso de Carlos Queiroz", aqui publicado, em 19 de Julho de 2008, de que transcrevo partes:

“Os processos da ciência são característicos da acção humana, porque se movem pela indissolúvel união do facto empírico e do pensamento racional” (J. Bronowski). Começo por destacar o papel desempenhado pelo treinador de futebol brasileiro Otto Glória, formado em Educação Física, na estruturação da equipa e conquistas de títulos nacionais do Sport Lisboa e Benfica (1954-59) e na obtenção do 3.º lugar no Campeonato do Mundo de Futebol (1966), que o 2.º lugar conquistado no Campeonato Europeu de Futebol (2004) quase fez cair em injustificado esquecimento.

Na recente nomeação de Carlos Queiroz para seleccionador nacional de futebol, no êxito internacional de José Mourinho e no excelente percurso de Jesualdo Ferreira no Futebol Clube do Porto, encontro motivo para me debruçar sobre o papel de professores de Educação Física no treinamento de equipas de futebol.

Anos atrás, Carlos Miranda, director de A Bola, deixou escrito que Carlos Queiroz era um caso de predestinação comparável ao de Mozart (que aos quatro anos já tocava cravo e aos cinco ensaiava os primeiros passos da composição). Esta era uma acha mais na fogueira de uma controvérsia que está longe de estar extinta.

Quase se pode dizer que se nasce poeta e escritor, mas não se nasce médico, advogado ou professor. Daqui encontro justificação para na proliferação de licenciaturas, a que se tem assistido na Universidade Portuguesa, não haver cursos universitários de Poesia e os melhores escritores não serem licenciados em Letras (v.g., José Saramago e António Lobo Antunes, o primeiro habilitado com o curso das antigas escolas industriais e o segundo médico de formação). Idêntico princípio pode ser aplicado no domínio do futebol: “nasce-se” predestinado para a prática de um futebol de eleição (Carlos Queiroz, José Mourinho e Jesualdo Ferreira não passaram da mediania como praticantes), mas não se nasce treinador de futebol; e é esta confusão que tem e continua a alimentar os “mentideros” do futebol nacional. Mas esta discussão tem raízes profundas.

No mundo das actividades corporais da Grécia Antiga chega-nos a polémica entre práticos e teóricos. Segundo Galeno (célebre médico grego, tido como pai da medicina desportiva moderna), os treinadores troçavam das teorias dos professores de ginástica e dos médicos sob o pretexto de não se ter o direito de discutir sobre coisas desconhecidas quando se não tem a prática do ofício (…).

Ao ler um dia nos jornais que numa reunião do Sindicato Nacional de Treinadores de Futebol fora levantada a questão da legitimidade dos professores de Educação Física orientarem a preparação técnico-táctica das equipas de futebol (a preparação física era já então matéria de consenso), não pude deixar de tomar posição num artigo de opinião (
Jornal Novo, 15. Janeiro.77): “Claro que a partir desta premissa é pertinente a conclusão de considerar exercício ilegal de profissão o facto de um licenciado em Educação Física treinar uma equipa de futebol ” (…).

Se, como escreveu António Gedeão, "o sonho comanda a vida”, que este Cabo das Tormentas se transforme no Cabo da Boa Esperança e a viagem dos “navegadores”, com Carlos Queiroz ao leme, prossiga novas rotas levando a equipa portuguesa à final deste campeonato mundial. Eles já demonstraram valor para tanto! Mas há mais vida para além do futebol – mesmo que no alcance de um título mundial - que não deve servir de ópio para esconder a crise social e económica que assola terras portuguesas.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

ORA BOLAS!


Minha crónica no "Sol" de hoje:

A bola está por todo o lado na Natureza. O Sol, tal como todas as outras estrelas, é uma bola. A Terra, tal como os outros planetas, é uma bola. Os átomos são bolas. Os núcleos atómicos são também, na maior parte, bolas (alguns, é certo, parecem-se mais com bolas de rugby do que com bolas de futebol enquanto outros se parecem com discos). Por razões diferentes, porque as forças são diferentes, a Natureza preferiu essa forma muito simétrica a outras formas possíveis.

A bola de futebol, talvez o desporto mais popular no planeta Terra, tem a mesma forma que objectos naturais de vários tamanhos. A escolha da forma, obviamente feita pelos inventores do futebol, tem a ver com as características que queriam dar ao jogo. A forma esférica permite que a bola circule livremente entre os jogadores, sujeita naturalmente às leis da física. Apesar de as leis de movimento, descobertas por Newton no século XVII, serem bem simples, o movimento de uma bola de futebol pode ser bastante complicado, pois não se trata de um objecto pontual mas de um objecto que, para além do peso, em virtude da sua extensão, está sujeito à força de resistência do ar, à força (embora diminuta) de impulsão também devida ao ar, para além, claro, da força comunicada pelos jogadores. Modernamente, faz-se, com base na experiência e na observação, investigação científica sobre o comportamento das bolas de futebol.

Foi, sem dúvida, levando em conta essa investigação que se desenvolveu a bola Jabulani que está a ser usada no Campeonato do Mundo de Futebol a decorrer na África do Sul. O nome significa “celebração” numa das línguas indígenas daquele país. É um bom nome, pois de uma verdadeira festa se trata. Mas será uma boa bola?

Aqui as opinião dividem-se. Há quem diga “ora bolas!” quando observa o comportamento daquela bola. Há até uma petição na Internet contra a Jabulani. A nova bola tem uma superfície diferente, menos suave do que a bola Teamgeist, que foi usada no anterior Campeonato do Mundo na Alemanha. O peso e as dimensões da bola estão regulamentados pela FIFA, mas já o não estão as características físicas da superfície. E estas podem fazer uma grande diferença. A Jabulani é uma bola mais rápida do que a Teamgeist, e tem um movimento mais imprevisível. A sua superfície torna diferente a diminuta camada de ar à sua volta, o que modifica a zona de turbulência do ar atrás da bola e, portanto, altera a força de resistência do ar a que está sujeita e o movimento que resulta da acção dessa força. A diferença é pequena, mas os jogadores sentem-na. E os espectadores do jogo mais sabedores também a notarão.

“Ora bolas!”? Talvez não, porque afinal a bola é a mesma para todos os jogadores...

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Mundial de 2010, Carlos Queiroz e Miguel Esteves Cardoso

esf “O que finalmente mais sei sobre a moral e as obrigações do homem devo ao futebol” (Albert Camus, 1923-1900).

Não posso deixar de lamentar a intervenção de Sílvio Cervan, comentador num programa desportivo televisivo da SIC, um dia após a vitória de Portugal sobre a Coreia do Norte por um expressivo 7-O.

Em testemunho pouco propício a uma análise desapaixonada, desmereceu Sílvio Cervan a vitória de Portugal, cantada nos quatro cantos do globo, com o argumento de que a equipa da Coreia do Norte era a mais fraca do Campeonato Mundial de Futebol. Ou seja, Sílvio Cervan dixit, esquecendo-se que o Brasil, sendo um dos países mais cotados para ascender ao ceptro deste mundial, teve dificuldade em vencer esta equipa da Coreia do Norte, ainda que mesmo pela diferença de um único golo. Aliás, equipa que era tida, quase unanimemente, como uma séria ameaça para a equipa portuguesa.

Num meu post aqui publicado (09/06/2010), intitulado “Miguel Esteves Cardoso, o futebol e a política”, reproduzi na íntegra um seu artigo, saído em “O Jogo” (08/06/20), com o título “Que Ganhe Moçambique”, que tive, como escrevi na altura, como “apaixonante prosa que merece ser lida por amantes ou indiferentes do futebol, intelectuais ou simples letrados”.

Por esse motivo, passei aí a ler as crónicas diárias de um homem da cultura portuguesa porque, como escreveu Jurgen Roth, "o futebol e os intelectuais têm uma relação íntima ao mais alto nível". No passado dia 20 de Junho, por exemplo, escrevia Miguel Esteves Cardoso (MEC) numa crónica com o título, “Contra o treinadorismo”:

“2010 representa o pico do poder dos treinadores. Mourinho é um dos culpados. Ele faz a diferença. Mas o mesmo não se aplica a treinadores menores. E muito menos a todos os treinadores. Os treinadores forçam os jogadores a jogarem em posições onde não jogam bem. Não admitem qualquer discordância. Tanto em Capello como em Queiroz como em Domenech, para não dizer todos os treinadores excepto três ou quatro, pressente-se um autoritarismo absurdo e ineficaz”.

Seja aqui recordado, o exemplo de insulto do mais baixo e reles, por parte de um jogador da equipa francesa a este mundial, a Domenech. Relativamente, a crítica de Deco a Carlos Queiroz, ao ser substituído quase no final do jogo com a Costa do Marfim, assume as proporções de uma birra de menino mimado. O seleccionador nacional, ao aceitar o desabafo de Deco, sanando prontamente a situação, não merece, de forma alguma, a simples suspeita de estarmos em presença de um “autoritarismo absurdo e ineficaz”. Hoje, atrevo-me a julgar que MEC concordará comigo.

No dia a seguir à vitória de Portugal sobre a Coreia do Norte, na sua crónica igualmente em "O Jogo", intitulada "O primeiro dia de verão", contrastando com "O inverno do nosso descontentamento" anterior, apropriando-me do título de um romance de Jonh Steinbeck, MEC teve a nobreza de carácter de reconhecer o seu erro sem recorrer à desculpa esfarrapada da má qualidade da equipa norte-coreana que entrou em campo com a responsabilidade de uma espécie de jogo de vida ou de morte pelas consequências gravosas em não conseguir satisfazer os objectivos políticos exigidos por um dos últimos, e tido até como o mais opressor, redutos do comunismo mundial.

Cito desta última crónica dois breves excertos: “De nada serve dizer mal da Coreia do Norte. O Brasil não foi além de 2-1 contra eles [sem desmerecimento do Brasil, mesmo contando com a “distracção” de um árbitro que não assinalou um golo ajeitado com o braço]. Desconjuntaram-se. Porque Portugal os desconjuntou”. E logo acrescenta, em jeito de mea culpa: “Tenho de tirar o chapéu a Carlos Queiroz. Confesso que o detestei e desconfiei dele. Afinal, o plano dele – empatar com a Costa do Marfim, golear a Coreia e perder à vontade com o Brasil – era mesmo inteligente. Custa-me admitir, mas ele tinha mesmo razão. Ainda bem que não fui eu”.

Com todas as televisões nacionais a repetir, ad nauseum usque, o jogo excepcional de Portugal e na idiossincrasia de um povo que passa do oito ao oitenta, sem se contentar com uma vitória à tangente ou simples empate, terão razão os que embandeiraram agora em arco considerando como adquirido um resultado folgado de Portugal sobre o Brasil? Sexta-feira próxima se verá porque, como escreveu Mark Twain, “a profecia é algo muito difícil, especialmente em relação ao futuro”.

Na imagem, o troféu do Campeonato do Mundo em ouro maciço.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

As vuvuzelas sul-africanas e as carpideiras portuguesas

“A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido, não na vitória propriamente dita” (Mahatama Gandhi,1869-1948).

No último “Prós & Contras”(14/05/2010), em que se debateu o Campeonato Mundial de Futebol 2010, um professor universitário de marketing teve o uso das vuvuzelas como fenómeno cultural do povo maioritário da África do Sul. Sem entrar nesta discussão, para a qual me falecem os conhecimentos do domínio antropológico cultural e social, remeto-a para os respectivos especialistas.

Já sob o ponto de vista da sua acção sobre a concentração necessária a jogos altamente competitivos e desgastantes sob o ponto de vista nervoso de uma competição a nível mundial ninguém poderá pôr em dúvida a sua acção nefasta . Mas não são as vuvuzelas a essência deste meu post. São as carpideiras nacionais a anunciar o pessimismo nacional de um povo habituado a um triste destino propalado aos sete ventos, em choros convulsivos mesmo antes de tempo.

Carlos Queiroz é a figura central de uma tragédia pré-anunciada, e que muitos gostariam de ver consumada como prova da sua razão. Portugal empatou com a equipa da Costa do Marfim como se essa equipa não fosse a mais forte do continente africano pejada de atletas de grande porte físico e uma técnica apurada. Se as cores nacionais tivessem ganho por um golo logo viriam os profetas da desgraça dar conta de um desaire por Portugal não ter ganho por dois, três ou mais golos...

Mas não termina aqui o fadário de Carlos Queiroz. Aproxima-se o jogo decisivo com a Coreia do Norte e o seleccionador nacional encontra-se na incómoda posição de ser preso por ter cão e preso por não ter. Atente-se no “caso Deco”. Se o puser a jogar e Portugal perder (“vade retro Satanas”!) logo virão as críticas: “É um fraco, depois das declarações que ele fez depois do jogo com a Costa do Marfim nunca o deveria ter posto a jogar”. Encaremos agora a mesma derrota sem o Deco: “É um vingativo, não perdoou as suas declarações e o desaire ficou-se a um torpe desforço”.

Entretanto, é esquecido que o primeiro golo do Brasil contra a Coreia do Norte foi um golpe de sorte, como de azar foi o remate potentíssimo de Cristiano Ronaldo contra um dos postes da baliza da Costa do Marfim. Mais é esquecido que as indicações de Tony a Ericson foram preciosas na denúncia das fragilidades da equipa das quinas. Finalmente, sem esgotar o tema, é esquecido que Deco e Simão Sabrosa já não são os jogadores que foram no último Campeonato da Europa em que fomos finalistas tendo perdido com a Grécia. Entretanto, é esquecido…

Carlos Queiroz tem atrás de si um invejável currículo que nenhuma esponja de má vontade pode apagar: treinador, seleccionador e vencedor de dois campeonatos mundiais de sub-20, donde saiu uma plêiade de jogadores portugueses havidos entre os melhores do mundo, treinador adjunto de Sir Alex Ferguson de quem mereceu os maiores elogios, convidado para treinar a Selecção Mundial de Futebol da FIFA, etc.

Seja como for, Carlos Queiroz quer fracasse, quer vá longe neste campeonato mundial não merece o ódio visceral ou a paixão assolapada de massas volúveis. E muito menos ser crucificado na praça pública para dar trabalho às carpideiras nacionais. No final, nas mesas de um possível fracasso ou inesperado sucesso da selecção nacional de futebol, uns irão banquetear-se com ódios que não tenho; outros empanturrarem-se com apoios apaixonados que não tiveram na divida altura. Não me sentarei em nenhuma das mesas.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Miguel Esteves Cardoso, o futebol e a política

“No futebol tudo fica mais complicado através da presença da equipa adversária” (Jean-Paul Sartre, 1905-1980).

É atribuída ao falecido e notável jornalista desportivo Cândido de Oliveira, o “Mestre Cândido”, como era tratado pelo seu muito saber no meio futebolístico, esta análise sobre a instável vida do treinador de futebol que tanto pode estar nos píncaros da lua num dia como ser remetido para as profundezas do inferno no dia seguinte.

Falando do que sabia por experiência própria (foi treinador e seleccionador nacional de futebol), escreveu sobre uma e a mesma pessoa em função das circunstâncias: “O treinador quando ganha é bestial, quando perde é uma besta”.

No Campeonato Mundial de Futebol na África do Sul, pode ser esse o destino que espera Carlos Queiroz, de pouco ou nada lhe valendo o elogio que lhe fez, anos atrás, Carlos Miranda, ao tempo director de “A Bola”, na circunstância emocional de um desporto que desperta paixões de amor e ódios de estimação, quando escreveu: “Carlos Queiroz é um caso de predestinação comparável ao de Mozart que aos quatro anos já tocava cravo e aos cinco ensaiava os primeiros passos da composição”.

Quando da sua nomeação para seleccionador nacional, num post aqui publicado, “O Regresso de Carlos Queiroz" (19/07/2008), dava eu destaque à sua formação e docência académica ao serviço do “pontapé na bola”: uma licenciatura pelo ISEF (actual Faculdade de Motricidade Humana) da Universidade Técnica de Lisboa - tal com José Mourinho, seu antigo aluno – e posterior magistério na disciplina de Opção de Futebol.

Apesar destes pergaminhos académicos, num exercício profissional exercido por práticos na maioria dos casos, dava-me conta da necessidade de Carlos Queiroz ser bafejado por um destino venturoso com a pergunta que fiz no post supracitado:“Não é a bola redonda e o futebol sujeito à sorte e aos azares da fortuna? Seja como for, Carlos Queiroz merece bem um voto de confiança a longo prazo pelo seu passado de grandeza”.

Realizou-se ontem (dia 8) um jogo de preparação para o Campeonato Mundial de Futebol 2010 entre Portugal e Moçambique, com o resultado favorável por 3-0 para a equipa das quinas. Se tivesse perdido este match Carlos Queiroz estaria a esta hora a ser crucificado na praça pública ou mesmo a servir de pasto a abutres do pessimismo nacional que tudo perdoam menos a derrota da equipa do “seu coração”. Neste mesmo dia, foi publicada uma belíssima crónica de Miguel Esteves Cardoso, em “O Jogo”, com o título “Que ganhe Moçambique”.

Trata-se de um texto escrito com a razão acima de uma paixão exacerbada que pudesse desejar para as cores de Portugal uma vitória que se sobrepusesse, a todo o custo, a um passado que, para o bem ou para o mal, irmana Portugal e Moçambique, e vice-versa.

Pedindo desculpa ao seu autor e aos possíveis leitores desta minha descolorida introdução procuro lenitivo na transcrição integral da apaixonante prosa de Miguel Esteves Cardoso que merece ser lida por amantes ou indiferentes do futebol, intelectuais ou simples letrados, enfim, como diriam os brasileiros, “por todo o mundo”. Reza ela:
“Eis a previsão futebológica-sentimental para o Portugal Moçambique de hoje, de acordo com indicadores de “O JOGO”e outros pessoais, mais sanguíneos.

Como fruto de uma união luso-anglicana que teve a sorte de visitar Moçambique em 1971 (com o meu pai) e 1989 (sozinho como um cão), tenho pretensões de adivinhar o que vai na cabeça moçambicano-luso-britânica-sul-africana de Carlos Queiroz.

Queiroz, no Manchester United, conheceu a raça escocesa de Ferguson e a Inglaterra rebelde e orgulhosa de Manchester. O Norte, na Inglaterra, é como o Norte em Portugal. É melhor. Dá cartas. É insubmisso. Mourinho, em contrapartida, apenas conheceu Londres.

Daí que Queiroz não esteja a ser demagógico quando disse que Portugal vai jogar com Moçambique e não contra Moçambique. Seria ridículo se as circunstâncias pessoais de Queiroz não fossem as que são. Queiroz conseguiu apurar a selecção de África do Sul para o Mundial 2002 – uma façanha. Antes disso, foi consultor técnico da Federação de Moçambique.

Se Portugal não se safar neste Mundial, Queiroz poderá vir a ser o seleccionador de Moçambique e, acredito, treinar uma selecção que chegue ao próximo Mundial. Está-lhe no sangue. Moçambique é um país maravilhoso com gente maravilhosa. São dignos e orgulhosos, secos e sérios.

Mal me licenciei (em Manchester, em 1979), escrevi ao Presidente Samora Machel a oferecer os meus serviços. Ele não respondeu – e fez bem, porque, à parte a minha boa vontade, pouco podia fazer pelos moçambicanos. Segui directamente para o meu doutoramento e agradeço-o por isso.

Em 1989, voltei a Moçambique e voltei a ficar muito impressionado (humilhado até) pelos moçambicanos e por Joaquim Chissano. Eram pobres mas não pediam. Eram altivos. Mais aristocratas do que os aristocratas ingleses, Pela primeira vez na vida – mas para sempre – tive vergonha do colonialismo português, fora a luta contra a malária, heróica mas apenas temporariamente ganha.

O meu pai, socialista mas patriota, quando leu a reportagem que escrevi para “O Independente”, escreveu-me uma carta comprida a lamentar a minha condenação dos portugueses em Moçambique, com factos concretos. Mostrei-a a um amigo moçambicano e ele disse logo: 'O teu pai, nesses aspectos, tem razão'.

Carlos Queiroz é de Nampula – que nem sequer é a Manchester de Moçambique. Não interessa. É um moçambicano e um português que conheceu mundo. Treinou os Emirados Árabes. Se tivesse treinado também Israel e o Japão e a China, seria o treinador mais cosmopolita e Benetton do mundo inteiro, de sempre. Falta pouco.

Queiroz avisou que não quer lesões. Quer, mais do que um jogo amigável, um amistoso. Mas sabe também que os moçambicanos, por muito que possam gostar dele, não são verbos de encher. Vão jogar para ganhar, como a Frelimo para o Portugal colonial.

Os jogadores portugueses também são valentes e não os vejo a protegerem-se das lesões. Vão ser desafiados, mais do que pensam. Mas não vão resistir a responder. Portugal pode facilmente perder, mesmo esforçando-se. Se não perder é porque esforçar-se-á mais do que seria sensato.

Angola é um grande país e tem uma grande selecção. Mas, a médio e longo prazo – mesmo esquecendo a magnífica entrevista que Eusébio deu anteontem ao “Guardian”– acho que é Moçambique que vai distinguir-se.

Moçambique é a Inglaterra de África. Conhece a África do Sul (e Portugal) com sangue frio e distância, mas sem reverência. Nunca se deixou abusar. Limitou que tirasse partido dele, por necessidade.

O Mundial 2010, na África do Sul, é futebol mas também é política. O sonho de Carlos Queiroz – de apertar a mão de Nelson Mandela pela segunda vez – é tão bonito e tão certo e tão sentido que até faz chorar os incréus e sabichões, como eu.

Que ganhe Moçambique, com todas as letras”.
Quer Portugal vá longe neste Campeonato Mundial (e porque não encarar a hipótese de o ganhar num país mergulhado numa “apagada e vil tristeza”?), quer seja eliminado na sua fase inicial, Carlos Queiroz, com as suas qualidades e os seus defeitos, com as suas vitórias ou as suas derrotas deve merecer de todos os portugueses igual respeito: nem bestial, nem besta. Apenas humano.

Felicidades para Carlos Queiroz e para a equipa de todos nós!