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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Agenda Céptica

Neste mês e no próximo, a ciência e o cepticismo irão ter com os portugueses em vários pontos do país:

18 de Outubro, às 18h: "O logro das chamadas Terapias Alternativas: a importância da Medicina Baseada na Ciência", no Instituto Politécnico de Leiria. Organização da FFMS, com a moderação de David Marçal e tendo como oradores Edzard Ernst, Armando Brito de Sá e João Cerqueira.

19 de Outubro, às 16h: Tertúlia organizada pela Comcept, na Petisqueira Trinkas (na Praça dos Leões), no Porto. Venham para uma conversa informal, preparados para petiscar enquanto se fala de ciência.

2 de Novembro: ComceptCon, este ano dedicada ao tema da Evolução, no Museu de Leiria. Entrada gratuita, mas com inscrição. Saiba mais, aqui.


Outros eventos: 
Entre 15 de Outubro e 16 de Novembro, a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) está a organizar um Ciclo de Debates e Conferências no âmbito do Mês da Ciência e da Educação, que terá lugar em 5 cidades diferentes. Para além do evento, acima mencionado, dedicado às Terapias Alternativas, as outras conferências agendadas são:

15 de Outubro: "O que comer? - Conferência de Ciência GPS", na Galeria da Biodiversidade, no Porto.

22 de Outubro: "Como a genética conta a nossa grande história humana", na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.

30 de Outubro: "Como aprende o cérebro? O papel das ciências cognitivas na educação", Auditório do Liceu Camões, em Lisboa.

07 de Novembro: "A atitude científica: o que é ciência e o que não é", Universidade de Aveiro.





sexta-feira, 26 de abril de 2019

Manifesto Racionalista

É interessante constatar que há cada vez mais pessoas a mobilizarem-se para defender a razão e o pensamento crítico. Quando parece que somos bombardeados de vários lados por desinformação, pseudociências e alegações sem fundamento, ao ter conhecimento que foi recentemente lançado um Manifesto Racionalista só posso sentir-me esperançoso. Foi o professor João Vasconcelos Costa quem me fez chegar este documento, onde se pode ler a seguinte passagem que revela uma importante preocupação social:
Pedimos a toda a sociedade influente – instituições políticas, partidos, movimentos sociais, instituições académicas, coletividades populares, etc. – que devem prioridade a todas as ações, forçosamente de grande complexidade interdisciplinar, que promovam a educação cívica e, principalmente, o que lhe está subjacente, a formação da mentalidade racional e crítica.  
Para saber mais, consulte o Manifesto Racionalista.


terça-feira, 15 de novembro de 2016

ComceptCon 2016: o Cérebro

O Cérebro é um dos órgãos mais fascinantes do nosso corpo. Mas o que sabemos sobre ele? O que andam os cientistas a investigar? Podemos confiar sempre nele? É à volta deste tema que a equipa da COMCEPT organiza, em colaboração com a Associação Viver a Ciência, a ComceptCon 2016

O evento, de entrada gratuita, terá lugar no Pólo de Indústrias Criativas da UPTEC, na Praça Coronel Pacheco, no Porto, dia 19 de Novembro de 2016, a partir das 10h.



Os temas são os seguintes:

- Excepcionalmente Normal: A Neurodiversidade em Humanos, por Ana Matos Pires (Médica Psiquiatra e Docente Universitária, Univ. Algarve)


- O Cérebro: Estado da Arte, por Diana Prata (investigadora do Instituto de Medicina Molecular, Univ. Lisboa)

- Humanidade 2.0: Melhoramento Cognitivo e Outros Vislumbres do Futuro, por Júlio Borlido dos Santos (comunicador de ciência no i3S - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, Univ. Porto)

- Ilusões Pertinentes: Confusões da Percepção Humana, por Maria Ribeiro (IBILI - Instituto de Imagem Biomédica e Ciências da Vida, Univ. de Coimbra)

- Total Recall: Podemos Confiar nas Nossas Memórias?, por Miguel Remondes (investigador do Instituto de Medicina Molecular, Univ. Lisboa)


Mais informações em: http://comcept.org/comceptcon-2016/ 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Da engenharia verde

E se o petróleo fosse gradualmente substituído por resíduos da agricultura e jardins? Obteríamos combustível "verde", com vantagens para o ambiente e ecossistemas. Os primeiros passos foram dados por uma equipa de investigadores portugueses, do LNEG, e já obtiveram resultados promissores que poderão ser alavancados se implementados a uma escala industrial.

Este projeto foi vencedor nos Green Project Awards. Assistam à entrevista ao investigador César Fonseca, na SIC Notícias:



domingo, 20 de dezembro de 2015

"Diálogos com Ciência" de António Piedade


A minha apresentação do livro "Diálogos com Ciência" de António Piedade, no dia 17 de Dezembro de 2015, no Centro de Ciência Viva Rómulo de Carvalho. Procurei incorporar no texto algumas das ideias que surgiram do diálogo que se seguiu.

Diálogos com Ciência, edição de autor de António Piedade, é um livro em que a ciência e a escrita poética nos supreendem na forma de textos curtos, a maior parte na forma de diálogos entre pessoas de diferentes gerações ou meios culturais. É uma delícia ler este livro a sós ou acompanhado.

Os vários capítulos que nos remetem para temas desde a matemática à biologia molecular, passando pela física e pela química, são pequenos diamantes que podem ser lidos em voz alta ou até encenados (como já aconteceu com pelo menos um deles e foi feito por Mário Montenengro na apresentação). O formato de diálogo remete-nos, como refere Carlos Fiolhais no prefácio, para Galileu e Garcia da Orta, mas não faltam bons exemplos na história da ciência. Este formato, assim como a evocação de histórias que nos fascinam - inesperadas ou deliciosamente previsíveis, pessoais, picantes ou morais - tem muita eficácia na comunicação de ciência. O diálogo foi também usado por Jane Marcet no início do século XIX, nas suas conversas sobre química, envolvendo uma professora e duas alunas com feitios muito diferentes. No caso de Marcet, quando esses diálogos foram adaptados, por diferentes autores, para livros de ensino, perderam grande parte da sua eficácia e brilho. António Piedade, na apresentação do livro, também nos falou das suas experiências com as versões de um mesmo texto, ou tema, escritos na forma de diálogo, apresentando apenas as explicações científicas, ou transformados em poemas. (Um livro de poemas com cariz científico é um projecto que o autor vai referindo e que aguardamos com curiosidade).

O nível da linguagem colocada na voz das crianças, sem concessões a tratamentos simplistas ou infantilizantes, pode causar alguma estranheza, mas faz parte do encanto do livro. Lembrou-me logo o que escreveu Aquilino Ribeiro sobre os livros para crianças. O texto deve dar mais do que o que as pessoas - em especial as crianças - sabem ou esperam. António Piedade acrescenta que, para além do uso da linguagem científica sem simplificações - quase sempre revista por especialistas - deixa propositadamente algumas partes do texto apenas esboçadas para estimular a curiosidade. Eu acrescentaria que em alguns casos se deixa liberdade ao leitor para descobrir (sem sem avassadado com isso) que o assunto abordado é bastante complexo e, que muitas vezes, ainda não temos respostas completas. É assim que funciona a ciência, procurando respostas e não respondendo de forma dogmática e autoritária. E, embora existam provavelmente limites físicos e lógicos para a ciência, não é certo que os conheçamos todos.

Não vou desvendar o conteúdo do livro; deixo para o leitor o prazer da descoberta. Vou apenas referir alguns aspectos que me chamaram a atenção, não tanto para os analisar, mas para dar a minha visão deles através dos pensamentos a que estes me conduziram. Outros leitores terão outras visões e farão outras descobertas. Como é bem sabido - mas não é de mais relembrar - um bom livro é aquele que interroga o leitor e ultrapassa as intenções do autor, ganhando vida própria.

Por exemplo, o belo texto sobre os elementos químicos presentes no corpo humano levou-me às diferentes atitudes que as pessoas têm sobre o conhecimento científico relacionado com a quantificação do corpo humano. Lembrou-me um dos momentos mais poéticos da séria Breaking Bad em que o professor e uma aluna vão somando as massas dos elementos e falta sempre alguma massa, ou seja mais alguns elementos – não a alma ou a consciência que, embora não saibamos ainda bem o que é, sabemos com grande certeza não ter massa. De facto, sabermos quais são os elementos químicos ou moléculas presentes no corpo humano, não retira poesia, ou mistério ou a possibilidade do transcendente às nossas vidas. Outra evocação a que este texto me conduziu foi a de Sylvia Plath, a qual, depois do sofrimento psíquico que lhe causou a física, fez todos os possíveis para evitar estudar química. Para Sylvia, palavras bonitas como ouro, cobalto e alumínio apareciam transformadas em abreviaturas horrorosas com números à frente. E, em vez de palavras belas como caroteno e xantofila, na física apareciam símbolos que pareciam escorpiões. Este é, poderíamos conjecturar, um efeito Sylvia Plath menos conhecido: o fechamento à beleza de alguns aspectos da ciência. Esse fechamento pode surgir das nossas personalidades, mas também dos maus encontros. Sylvia Plath talvez não tivesse odiado a física e a química se tivesse tido conhecido a escrita científica poética de António Piedade a propósito destas duas ciências.

No capítulo sobre as lágrimas é impossível não pensar no famoso poema de António Gedeão - água e cloreto de sódio, nada mais – Lágrima de Preta. Mas o texto vai muito mais além e remete-nos também para a bioquímica e a fisiologia e biologia molecular das lágrimas. É também Vitorino Nemésio e os seus poemas de Limite de Idade que nos piscam os olhos inundados de lágrimas de diferentes composições químicas, consoantes são de alegria ou tristeza, comunicando sentimentos com a linguagem da química. Muito para além da água e cloreto de sódio.

Os capítulos das viagens, realizadas em 2010 e 2011, na linha de comboio Nobel que tem três paragens: Fisiologia e Medicina, Física e Química são muito felizes e têm um grande potencial para serem, nas escolas ou em trabalho com jovens, estendidos a outros anos (anteriores ou posteriores) ou incluir novas paragens. No próprio capítulo de 2011, o combóio é perdido na paragem da Física, não chegando os viajantes à paragem da Química, onde os aguardavam os quasi-cristais.

Os nomes das personagens são também curiosos e em alguns casos relacionados com a narrativa. No capítulo do aniversário da dupla-hélice – sessenta anos – gostei da evocação de Frederick Sanger e Rosalind Franklin (cujo nome se relaciona com o da neta da história – Rosália). O nome de Jaime - o avô – liga-se a James Watson (pode ser-se um avô maravilhoso e ao mesmo tempo uma pessoa desagradável e com ideias pouco simpáticas) e Francisco - o outro neto – a Francis Crick. António Piedade não identifica o Henrique que observa sangue ao miscroscópio, mas confidencia-nos que o Rui de Bem-me-quer? é inspirado no conhecido neurocientista português com o mesmo nome próprio.

Finalmente, alguns comentários sobre a bela capa que, parecendo uma pintura, é na realidade uma imagem do campo magnético no plano galáctico obtida pela ESA, e para a paginação. António Piedade explicou-nos que optou por usar uma letra de corpo suficentemente grande que não obrigasse os mais velhos a usar óculos e usou um espaçamenento entre linhas que ajudasse os mais novos a ler com mais facilidade. O resultado em termos de paginação pode parecer menos elegante do que o que costumamos encontrar em edições muito bonitas mas menos legíveis, mas é muito eficaz. Parafraseando Michael Faraday: o que um objecto que foi feito para ser usado – neste caso um livro para ser lido - tem de mais belo é a sua utilidade e eficácia.

Em suma, há muitas boas razões para ler e oferecer neste Natal Diálogos com Ciência - veja-se também as que refere João Lourenço Monteiro. Quem estiver interessado num exemplar envie um email para apiedade@ci.uc.pt.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

People, we have a problem

Estão neste momento 6 mulheres fechadas num simulador de viagem à Lua, na Academia de Ciências da Rússia. Têm entre 24 e 35 anos, todas com experiência em investigação científica, desde Medicina a Biofísica. Foram escolhidas entre dezenas de voluntárias para testar a viagem que a Rússia pretende fazer à Lua em 2029, e assim estudarem a forma como uma equipa exclusivamente feminina lida com os constrangimentos técnicos, científicos e emocionais de uma missão de ida e volta ao nosso satélite natural.


Apesar da imprensa portuguesa ter ignorado olimpicamente esta experiência, os jornalistas do resto do mundo ficaram interessados na façanha. O Guardian lembra que os russos foram os primeiros a mandar uma mulher para o Espaço, e que esta equipa irá levar a cabo 30 experiências científicas nos 8 dias da missão simulada, sublinhando o interesse dos aspectos psicológicos de uma combinação ainda não testada. Já o Independent e o Daily Life, entre outros, fazem manchete não com a missão mas sim com as perguntas que os jornalistas fizeram durante a conferência de imprensa. Parece que mais interessante que a sua experiência científica, competências técnicas, ambições ou aspirações, é saber como é que as mulheres pensam conseguir sobreviver tanto tempo sem maquilhagem, estar com homens ou lavar o cabelo. Até o director do Instituto, Igor Ushakov, não resistiu a fazer uma piada desejando ausência de conflitos entre os membros da equipa "ainda que se saiba que é difícil a convivência entre duas donas de casa na mesma cozinha".  Não consta que tenham feito perguntas semelhantes ao grupo de 6 homens que fez uma simulação parecida em 2010, mas que durou 520 dias já que Marte é um bocadinho mais longe que a Lua. E é pena, seria interessante saber como pensavam eles manter a nave limpa e arrumada, organizar as refeições, sobreviver sem after shave ou se levavam alguma revista marota às escondidas na mochila.

No mês passado conheci Alice Bowman, Mission Operations Manager da Missão New Horizons da NASA, que nos deu a conhecer Plutão (e de caminho mais umas quantas coisas). Quando conversámos um bocadinho no fim da sua palestra quis saber se lhe perguntavam muitas vezes sobre ser mulher naquele trabalho. Respondeu-me que isso nunca foi uma questão para si, que fez o melhor trabalho possível em todas as equipas em que esteve e nunca ninguém sublinhou o facto dela ser mulher. Apenas quando começou a ter contacto com a imprensa no fim dos 9 anos que durou a missão se deu conta que o seu género podia ter interesse noticioso. Infelizmente estas 6 investigadoras não poderão dizer o mesmo.


"Somos bonitas mesmo sem maquilhagem", "vamos ali para trabalhar, não para estar a pensar em homens", foram algumas das respostas que as investigadoras se viram obrigadas a dar perante a insistência dos jornalistas. 

Portugal é um caso raro no panorama mundial, com 40% dos cientistas mulheres e a chegar aos 50% nas engenharias. Segundo o relatório She Figures, em toda a Europa as mulheres estão a ganhar terreno mas continuam a ser uma minoria dos trabalhadores da Ciência, em especial nos lugares de chefia e liderança. A União Europeia está preocupada com o assunto, e tem lançado programas para estimular a presença feminina na Ciência e a tentar captar os talentos de outra forma perdidos, numa discriminação positiva das mulheres. Às vezes sai o tiro pela culatra, como no video Science, it's a girl thing, que parecia defender que a Ciência tem de ser sexy, sem cabelos fora do sítio, com verniz impecável e maquilhagem ton sur ton adequada para poder interessar às raparigas que interessam. A mensagem deve ter chegado aos jornalistas que apareceram na conferência de imprensa da missão russa.

É trabalho dos comunicadores de ciência, como eu, dar cabo dos estereótipos que não correspondem à realidade. Sem perder a capacidade de apreciar uma boa piada quando a encontramos.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Um caso de invisibilidade da química e os seus contrapontos

Georges Perec em La Disparition não usa palavras com a letra "e" o que não é nada fácil e muito menos em francês.

Aparentemente, também não deveria ser fácil escrever um livro cujo tema é a ciência e a cultura nos séculos XIX e XX sem referir a Química, como defendi em Jardins de Cristais - Química e Literatura. Encontrei, no entanto, recentemente um caso extremo de invisibilidade da Química: Ciência e Cultura (edição coordenada por Filipe Furtado e Gabriela Gândara Terenas). A propósito da explosão científica no século XX refere-se (seguindo por alto o texto) a Física, os quanta, a relatividade, a Física Nuclear (que já foi Química Nuclear), a Física de Partículas, a Matemática e Ciências Exactas, Engenharia, Economia, Teoria dos Jogos, Computação, Cosmologia, Física Teórica, Astrofísica, Astrobiologia, Ciências da Vida, Geociências, Climatologia, Hidrologia, Oceanografia, Geografia, Geocronologia, Biologia Molecular, Biofísica, Genética Molecular, Genómica, Biotecnologia, Bioquímica (que também pode ser designada Química Biológica), Etologia, Medicina (antibióticos, transplantes e meios complementares de diagnóstico), Aeronáutica, Astronáutica, Informática, Engenharia de Materiais, Nanotecnologia, Psicologia e Neurociências, entre outras áreas. Mas não a Química (que espreita por todos os lados nas áreas acima, mas que não aparece como palavra)! E isso é tão mais surpreendente quando uma das referências do livro é a Breve História de Quase Tudo do Byll Bryson, a qual além de referir bastante a Química, contou com o conselho e leitura do químico  Roald Hoffmann, prémio Nobel e poeta.

Ora, no século XX qual foi a área científica que mais contribuiu para a transformação do mundo (e ainda está a contribuir no século XXI)? Que esteve envolvida na descoberta dos adubos sintéticos que ajudaram (e ainda ajudam) a alimentar o mundo? Qual foi a área que mais trabalhou para a descoberta, síntese e produção de antibióticos e medicamentos para doenças como a sífilis, malária, cancro, tuberculose, lepra, perturbações nervosas, entre tantas outras? Qual foi a ciência que desenvolveu o tratamento das águas, higiene e desinfecção, contribuindo para o desaparecimento das epidemias de cólera e febre tifóide e diminuição de muitas infecções? Como apareceu a anestesia, a assépsia e os imunossupressores que permitem muitas das operações modernas? Qual foi a área que desenvolveu os polímeros sintéticos e artificiais? Os novos materiais? os tecidos sintéticos e artificiais? Os corantes sintéticos? A agricultura moderna? O controlo de qualidade e a segurança alimentar? Foi a Química através das suas muitas áreas: Química Analítica e Bioanalítica, Síntese Química, Química Orgânica, Inorgânica e Bioinorgância, Fotoquímica, Química Teórica e Computacional, Química Supramolecular, Química de Colóides, Química de Materiais, Química Verde, e tantas outras áreas da Química, quase todas, por si só, pelo menos tão sexys, produtivas e modificadoras do mundo, como as áreas científicas referidas no livro (sobre o qual não está em causa a qualidade e interesse, mas apenas a desaparição da Química)!

Também sobre a divulgação e popularização da ciência não detectei neste livro qualquer referência a Jane Marcet, pioneira da divulgação de ciência britânica com centenas de milhares de exemplares vendidos das suas conversas sobre Química. Veja-se, sobre Jane Marcet, o artigo de João Paulo André (de onde copiei a imagem acima) e atente-se à comunicação de Marília Peres (com a minha co-autoria) sobre as invisibilidades desta autora nas suas traduções para francês e português a apresentar na International Conference on the History of Chemistry (10th ICHC) em Aveiro no início de Setembro

Como contraponto a esta injusta invisibilidade da Química no século XX, aproveito para recomendar, para além do livro do Bill Bryson, uma outra obra surpreendente e muitíssimo agradável de ler que trata a ciência do século XX (incluindo a Química) com toda a justiça: Uma breve história do século XX de Geoffley Blainey. Tirando uma ou duas questões mínimas de tradução (o nome do polímero silicone é usado em vez do elemento silício uma vez) e a necessidade de síntese deixar alguns assuntos incompletos é um livro a não perder. Para mais é um livro em que Portugal, para além da Química, não é invisível.

domingo, 8 de março de 2015

Mulheres que ultrapassaram as convenções (tradicionais e contemporâneas) e se afirmaram pelo seu génio


Alexander Fleming descobriu mesmo a penicilina? A resposta é algo complicada... Antes de Fleming já muitos outros haviam notado a acção dos fungos sobre as bactérias, mas Fleming foi o primeiro a pensar que isso poderia estar na base de um medicamento. 

Fleming foi visionário, mas a resposta é ainda mais complicada pois este não conseguiu purificar a penicilina e acabou por desistir. Esse trabalho foi realizado cerca de dez anos depois por Ernst Chain com a colaboração de Howard Flory, tendo Fleming reaparecido a tempo de reclamar a sua ideia. Embora no imaginário popular quase só Fleming seja lembrado, o comité Nobel não esqueceu Chain e Flory e os três receberam o prémio Nobel em 1945.

A história da penicilina não estava, no entanto, concluída em 1941, altura em que se fizeram os primeiros ensaios clínicos. Há pelo menos duas pessoas cujo trabalho foi fundamental para o sucesso da penicilina. Uma delas foi Norman George Heatley que realizou uma parte do trabalho técnico com Chain e Flory e que contribuiu também para o desenvolvimentos dos primeiros processos para a obtenção de penicilina em larga escala. A outra foi Margaret Hutchinson Rousseau, uma das primeiras engenheiras químicas americanas, a qual desenvolveu o processo industrial que permitiu que a penicilina estivesse disponível em 1944 para tratar mais de quarenta mil soldados durante a segunda guerra mundial.

No dia da mulher poderá parecer normal que nos lembremos de Margaret Hutchinson Rousseau, mas não caiamos em paternalismo. Margaret Margaret Rousseau não só não é o único cientista envolvido na descoberta da penicilina que parece ter sido esquecida como vimos, como não deve ser lembrada apenas por ser uma mulher pioneira da engenharia química. De facto, Margaret esteve envolvida em muitos outros projectos com grande impacto como o desenvolvimento de combustíveis para aviões e merece ser recordada por isso.

Mas a história da penicilina não fica por aqui. Cerca de 1944, uma outra mulher, Dorothy Crowfoot Hodgkin, identificou a estrutura molecular desta substância, abrindo o caminho para a descoberta e desenvolvimento de derivados desta molécula. Em 1964, pela identificação dessa estrutura e da de outras moléculas de origem biológica, como a vitamina B12, Dorothy Hodkin recebeu o prémio Nobel.

Dorothy Hodgkin doutorou-se em Cambridge sob a orientação de John Desmond Bernal e foi, tal como este, toda a vida uma pessoa de esquerda. Margaret Thatcher, embora sendo de direita, nunca deixou de admirar Dorothy, e mandou colocar o seu retrato em Downing Street. Segundo referiu Jorge Calado numa palestra, as famílias de Margaret e Dorothy, separadas pelas maiores diferenças políticas, eram vizinhas e mantinham boas relações pessoais. É de notar que, Dorothy só passou a usar o nome do marido, Hodgkin, em publicações a partir de 1949 depois de instigada por colegas para fazê-lo. O marido, Thomas Hodgkin, foi um historiador de esquerda e activista de temas africanos, que ocasionalmente teve também posições em universidades, mas nunca atingiu o nível académico e a projecção de Dorothy.

O conhecimento da estrutura molecular das moléculas com actividade biológica, assim como dos seus alvos terapêuticos, é actualmente de grande importância para o desenvolvimento racional de novos fármacos. Uma das pioneiras no desenvolvimento racional de fármacos foi Gertrude Elion que ganhou o prémio Nobel em 1988. Pode parecer incrível, mas Gestrude Elion está ligada ao desenvolvimento de pelo menos sete medicamentos importantes para o tratamento de doenças como a leucemia, meningite, septicemia, gota, malária e herpes (o conhecido aciclovir) e ainda de imunossupressores.

Tudo isto sem ter concluído o doutoramento, pois não lhe foi permitido realizá-lo a tempo parcial. Mas, mais uma vez talvez seja precipitado dizer que tal resultou de discriminação. Também Russell Marker, por exemplo, o químico visionário que está na origem da primeira síntese prática da progesterona, a qual abriu o caminho ao desenvolvimento dos contraceptivos orais, nunca completou o doutoramento porque não tinha tempo para perder tempo com ele. Gertrude Elion e Russell Marker foram, no entanto, reconhecidos com doutoramentos Honoris Causa e e história da química medicinal não os esquece.

Actualmente as estruturas 3D das proteínas são representadas com diagramas muito elegantes, que realçam os enrolamentos alfa e as folhas beta destas moléculas, designados ribbon diagrams (diagramas de fitas). Esses diagramas foram desenvolvidos  por Jane Shelby Richardson em 1980. Também Jane Richardson nunca realizou um doutoramento e por isso foi-se mantendo em posições mais ou menos invisíveis, acompanhando o marido. No entanto, recebeu prémios importantes e o reconhecimento da comunidade científica. Foi eleita em 1991 para a Academia das Ciências americana e em 2006 para o Instituto de Medicina, tendo acabado por obter uma posição permanente como professora de bioquímica por mérito próprio. Jane mantém actualmente um grupo de investigação em conjunto com o seu marido, David Richardson.

Esbocei algumas histórias da evolução da ciência envolvendo mulheres fortes e com percursos invulgares ligados à química. Poderíamos associar a estas mulheres algum tipo de discriminação: esquecimento pela história, dificuldade para obter o doutoramento ou posição universitária, pressão para o uso do nome do marido, subalternidade em relação a este, ou outras. Não me parece, no entanto, que as suas histórias sejam assim tão simples e caibam em construções estereotipadas. Tratam-se de mulheres que ultrapassaram as convenções tanto tradicionais como contemporâneas e que se afirmaram pela sua diferença e génio. Lembrei-me de escrever hoje sobre elas por razões óbvias, mas admiro-as sempre que as recordo.

(Fotografias da Wikipedia que foi consultada também acerca de datas e alguns dos factos referidos.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Da caça à baleia (com Vitorino Nemésio e Antonio Tabucchi) ao tratamento da peste e domínio da linguagem científica



Um livro em que a caça à baleia tem um papel importante é Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio. Neste livro de 1943, com a acção a acontecer em 1917, a actividade tradicional da caça à baleia nas ilhas do Faial e Pico, feita a partir de terra, mostra já sinais de declínio, com a falta de baleias e a dificuldades de escoamento do âmbar cinzento e dos produtos extraídos do cachalote. Embora exista, entre algumas personagens, a convicção de que o problema seja da guerra, sabemos hoje que era muito mais do que isso. Embora esta actividade se tenha mantido nos Açores até cerca de 1987, a sua rentabilidade foi sempre baixa e praticada como complemento de outras actividades, mantendo-se como uma tradição já que a maioria dos produtos da baleia foram sendo substituídos por outros muitos anos antes, graças em parte à química. Sobre esse último aspecto já aqui escrevi, evocando Melville e Moby Dick.

A caça à baleia nos Açores é também central em Mulher de Porto Pim, de 1982, do escritor italiano Antonio Tabucchi. Neste livro que mistura ficção, documentário e recolha de pequenos textos relacionados com a caça às baleias, surge um aspecto terrível da caça à baleia tradicional. Citando o que o príncipe Alberto I do Mónaco escreveu no início do século XX, a dificuldade dos caçadores de baleias para se livrarem da carcaça apodrecida e nauseabunda, depois de lhe retirarem os produtos mais cobiçados, era por vezes enorme. 

Um aspecto também importante do livro Mau Tempo no Canal são as doenças. No romance há uma epidemia de peste (bubónica) e as personagens pouco mais podem fazer do que enterrar os mortos e desinfectar os locais onde se manifestou a doença. Isso é feito de forma caótica, com isolamento limitado das vítimas, sendo as casas desinfectadas (não se sabe bem com quê) e os caixões tratados com cal. O soro anti-pestífero tarda a chegar e fala-se qu nas casas dos ricos aumentou o consumo de sublimado (cloreto de mercúrio II, medicamento usado na altura no tratamento da sífilis e como desinfectante, mas pouco eficaz contra a peste).

Em 1917, o único tratamento existente para a peste bubónica era o soro anti-peste desenvolvido no final do século XIX, o qual tinha efeitos variáveis e não era eficaz contra a variante da peste pulmonar. Mesmo assim, era muito melhor do que não ter tratamento, o que tinha uma probabilidade de sobrevivência inferior a cinquenta por cento. A esse respeito é interessante notar que o próprio pai de Nemésio morreu de peste em 1908.

A penicilina, que acabava de ser disponibilizada nos anos 1940, não é efectiva e as sulfonamidas, disponíveis a partir de 1935, tal como o soro anti-peste tinham efeitos variáveis. Só em 1947, data da publicação de A Peste de Albert Camus, que muito refere o soro anti-pestífero, começam a aparecer os primeiros antibióticos eficazes (estreptomicina, oxitetraciclina, entre outros) contra esta doença. No entanto, mesmo actualmente, e com os tratamentos disponíveis, esta doença pode ainda atingir uma mortalidade da ordem dos quinze por cento.

A diabetes era também, em 1917, uma doença sem cura. A insulina só foi descoberta duas décadas depois. Uma das personagens de Mau Tempo no Canal com feridas que não saram e que procura encontrar uma dieta que o salve, morre rapidamente desta doença.

Quase trinta anos depois de Mau Tempo no Canal, após a sua jubilação, Vitorino Nemésio interessou-se pela física, química e biologia e escreveu vários poemas em Limite de Idade, datado de 1972, nos quais estas ciências estão presentes. Nestes, Nemésio revela uma notável actualização e intuição científica (vale a pena ler o que escreveu Maria Leonor Pavão sobre alguns dos aspectos da química e bioquímica presentes nesses poemas).

Numa série de emissões radiofónicas publicadas em 1976, Era do Átomo: Crise do Homem, uma obra singular na cultura portuguesa como tão bem referiu o filósofo Fernando Gil na sua apresentação da edição de 2003, Vitorino Nemésio leva-nos às suas experiências pessoais no liceu de Angra do Heroísmo:

(…) lá pelos anos profundos de 1913-1915, enquanto ou pouco depois de Niels Bohr se entreter arquitetando a imagem do sistema solar no átomo, erguer-me na pobre classe de Ciências Naturais de um pequeno liceu illhéu e debitar na cauda de alguns camaradas («-O senhor número 15»), a pequena lista de valência -«flúor, cloro, bromo, iodo» (...)

Isto para não falar do desastre escolar que me valeu (um quinto ano perdido) a cabulice de não saber calcular a composição centesimal da metana, formena ou gás dos pântanos, em Outubro de 1917 primeiro centenário (oh! trágica ironia!) da tal demonstração de Doebereiner em Jena...

Ultrapassando o seu longínquo fracasso juvenil, Nemésio descreve em poucas páginas, de uma forma muito própria e ao mesmo tempo erudita, alguns dos aspectos mais importantes da história da química. E não se fica por aqui: apresenta também reflexões muito interessantes e válidas sobre a ciência em geral, nomeadamente sobre a questão muito complexa da objectividade da linguagem científica.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A POLÍTICA DE CIÊNCIA É BOA, OS CIENTISTAS É QUE NÃO PRESTAM

Num comunicado divulgado ontem, o Conselho dos Laboratórios Associados criticou duramente as políticas do governo para a ciência, rebatendo cabalmente as afirmações ignorantes de Passos Coelho acerca do percurso da ciência portuguesa nos últimos 20 anos. Ao contrário do que disse o primeiro-ministro, num português que está longe de ser um exemplo de excelência, o aumento de investimento na ciência em Portugal foi acompanhado de um correspondente aumento da produção científica. Não estamos ainda ao nível dos países mais avançados da UE, nem do investimento nem da produção científica, razão que justifica a continuação deste caminho e não a sua inversão. A ideia de que há doutorados a mais também é falsa, não há, há a menos, quando comparado com a média da UE, razão pela qual é inaceitável o corte brutal nas bolsas de doutoramento. A ideia de que podemos deitar para o lixo mais de 2000 investigadores pós-doutorados, como sucedeu no último concurso, é suicida.

Os vários actores da política do governo têm falado numa aposta na "qualidade" e na "excelência", para tentar mascarar como "poda" os cortes pela pela raiz que têm feito. A avaliar pelos dois comunicados do Conselho dos Laboratórios Associados (aqui e aqui) e pelo in(comunicado) do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, a qualidade e a excelência não querem essa doutrina de "qualidade" e "excelência" apregoada pela FCT.

O Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia é um órgão de aconselhamento criado pelo actual governo, tem sua a sede no Palácio das Laranjeiras (ou seja em instalações do Ministério da Educação e Ciência), conta entre os seus membros com alguns dos mais reconhecidos e premiados cientistas portugueses, tanto a nível nacional como internacional, é coordenado pelo cientista António Coutinho (antigo director do Instituto Gulbenkian de Ciência e presidido pelo próprio primeiro-ministro! Este conselho é inquestionavelmente uma representação de excelência e qualidade, que pelos vistos não se revê na "excelência" e "qualidade" deste governo.

O Conselho dos Laboratórios Associados (CLA) reúne 26 centros de investigação de todo o país com classificação de "excelente", entre os quais o laboratório associado do Instituto de Tecnologia Química e Biológica. Desse laboratório associado faz parte o Centro de Estudos de Doenças Crónicas da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa (CEDOC), que acolhe o grupo de investigação do Presidente da FCT (Não é excelente? Não é produtivo? "Falha na substância?").

A qualidade e a excelência não querem a "qualidade" e a "excelência" da FCT. Nem sequer o Laboratório Associado do qual Miguel Seabra faz parte. Como está contra todos, tantos os investigadores jovens (que manda embora) como os menos jovens e mais reconhecidos (cuja opinião não leva em conta), talvez a ideia deste governo seja fazer ciência sem cientistas. Está visto que, para eles, a política de ciência é boa, os cientistas é que não prestam.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Estamos a falar de ciência?

O que é a ciência? Não se apresse o leitor a responder, pois a resposta não é fácil: requer ponderação. E, depois de ponderar - sobretudo, se muito ponderar - é bem possível que, como fez Richard Feynam numa conferência de 1966, contorne a questão e passe a dissertar sobre... ciência ou sobre um outro assunto menos complicado.

Mas, antes, pense no seguinte: podemos dizer que é científica uma actividade que, com a intenção de descobrir alguma coisa, se socorre de procedimentos, metodologias e técnicas que a ciência usa, mas despreza os mais elementares princípios éticos?

Há quem diga que sim. Eu digo que não. E, digo-o cada vez com mais certeza. Leio e releio os mestres por onde aprendi e a minha conclusão não pode ser outra.

Um desses mestres é Jacob Bronowski, que está sempre a dizer-me que a ciência é um "modo humano de pensar", "é uma forma de conhecimento extremamente humana", e daqui não pode afastar-se um milímetro que seja. Ele sabia bem do que falava, o que a vida lhe mostrou foi mais do que suficiente para chegar a esta ideia depurada.

Se se lhe alhear das pessoas, se não se importar com elas, se as usar para fins particulares que em nada as beneficia e, até, as prejudica, se as manipular por ganância, seja ela de que tipo for (poder, dinheiro, "palco"...), transforma-se precisamente no seu contrário: transforma-se em vilania.

Estas considerações são a propósito de um caso concreto (que lamentavelmente tem muitos exemplos conhecidos como o que se pode ler aqui em notícia do jornal Público, e aqui em artigo científico): a "investigação" que grandes empresas de comunicação fazem a partir dos conteúdos que circulam na internet, mais concretamente de mensagens particulares de correio electrónico, sendo que quem as escreve e quem as recebe não é ouvido para dar a sua autorização informada, que indubitavelmente se requer.

Mas, nesta fotografia, muito pior do que essas empresas e os seus investigadores assalariados, ficam as universidades e os seus investigadores que colaboram com essas empresas. E ficam pior porque as suas responsabilidades são acrescidas: além de pugnarem pelos valores da ciência, tudo devem fazer para que eles não sejam desvirtuados, abastardados, tanto dentro como fora das suas portas.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A excelência como análise multivariada

A excelência em determinado domínio não é uma coisa comum.
Nem todos os países têm, a cada momento, algum jogador de futebol capaz de ganhar a bola de ouro. Nem todos os países têm, a cada momento, cientistas capazes de ganhar um prémio Nobel. E os que ganham essas distinções precisam de equipas para as ganhar. O sucesso do indivíduo cada vez mais de deve à equipa. E o espírito de equipa é algo fundamental que se constrói ao longo do tempo.

Num texto anterior escrevi sobre o recente concurso Investigador FCT e o elogio da excelência feito, a esse propósito, pelo presidente desta entidade.
Numa entrevista que deu no momento da assinatura dos contratos, pude perceber qual a definição de excelência em que se apoia nessas declarações: trata-se de um indicador de excelência “definido pela Direção-geral da Investigação, Tecnologia e Desenvolvimento da Comissão Europeia e do Joint Research Center”(JRC) numa publicação de 2012, e relativo a dados de 2005 e 2009.

Nesse relatório, redigido por dois investigadores do JRC, é feita uma análise estatística multivariada para tentar definir esse indicador de excelência. Aí é explicada a opção por determinados indicadores (ou variáveis) em detrimento de outros e, após alguns testes de robustez do modelo, é finalmente apresentado o gráfico com os resultados finais (reproduzido abaixo - a recomendação do autor é a utilização do ‘Framework 3’, o do quadradinho azul).



Encontro semelhanças entre fazer análises multivariadas e o cozinhar, onde vamos misturando ingredientes à panela e provando, ajustando aqui e ali os condimentos, mas com vantagem para a análise estatística onde os ingredientes e condimentos (variáveis) podem ir sendo também retirados se necessário.

A primeira leitura que fiz do gráfico foi a de que, ao dividir os 33 países ali representados no eixo dos xis em três grupos com 11 elementos cada, Portugal (PT) fica na cauda do grupo do meio. Ou seja, não somos os mais excelentes nem os menos excelentes, estamos ali pelo meio. Uma outra leitura foi que, comparativamente à média dos 27 países da UE (EU27) estamos ali um bom degrau de “excelência” atrás, esta na linha da leitura do presidente da FCT.

De seguida entrei um bocado mais no relatório para perceber quais os ingredientes utilizados para a definição de excelência de investigação, e esses ingredientes dividem-se em três grandes “pilares”: excelência da investigação pública, interacções/colaborações e excelência dos ‘actores’ industriais.
No primeiro é avaliada sobretudo a produção científica, e são usados indicadores de quantidade de publicações e de citações, de posições de liderança em projectos europeus, e de patentes registadas. O segundo, para avaliar a internacionalização da actividade científica dos países, usa indicadores de quantidade de bolsas ERC (bolsas europeias para financiamento de projectos individuais de investigação) por país e de co-publicações com cientistas de outros países. Finalmente o terceiro, que avalia a relação com a indústria, usa indicadores de número de patentes, co-publicação com a indústria, e investigação em universidades e instituições públicas financiada por empresas.

Como se percebe, é um conjunto diverso de indicadores, escolhido de entre um número muito mais alargado pelos autores do relatório, para tentar compor esse indicador de excelência científica dos países da UE.

Uma análise mais pormenorizada da construção dos resultados com base nos três pilares atrás descritos (ver gráfico abaixo) mostra que o pilar 2 contribui muito positivamente e o pilar 1 razoavelmente (relativamente ao resultado final) para a posição da ciência portuguesa neste indicador, sendo o pilar 3, que se foca na relação com a indústria, aquele que “puxa” o resultado para baixo.




Há vários indicadores que são considerados, nos pilares 1 e 3, que estão relacionados com o registo de patentes e aí Portugal está claramente em desvantagem, com uma história de registo de patentes claramente inferior a muitos outros países. Bastará comparar o nosso historial aqui, com os equivalentes dos EUA ou, na Europa, da Alemanha por exemplo.
É também interessante notar que boa parte das patentes de portugueses, nos últimos anos, são registadas fora do país.

Um último gráfico do relatório que me parece interessante (abaixo) revela a dinâmica ao longo do tempo na investigação dos vários países, e é interessante ver Portugal (PT) entre os países “catching up”, com um movimento positivo neste indicador de “excelência”.


De tudo isto retiro o seguinte:
A posição portuguesa, nesta medida de “excelência” científica, não é tão débil quanto poderia parecer, apresentando resultados bons em determinados indicadores e uma tendência de evolução positiva (nessa altura, em 2009);
As colaborações internacionais da ciência portuguesa e a produção científica nacional contribuem de modo positivo para os resultados neste indicador de “excelência”, sendo responsáveis por boa parte dos parâmetros considerados nos pilares de indicadores 1 e 2, e pelo consequente patamar em que se encontra a nossa ciência, contrabalançando o peso muito negativo de uma débil relação com a indústria e pouca quantidade de patentes.

Isto vem reforçar a minha ideia, no seguimento do meu texto anterior, de que é um desperdício não aproveitar o investimento feito ao longo de décadas na qualificação e financiamento de cientistas em Portugal, que se empenharam no desenvolvimento do sistema científico que temos, que vestiram a camisola, contribuindo para a sua evolução extraordinária no contexto europeu.

Por isso, apostar apenas numa suposta “excelência”, desprezando o bom trabalho estrutural de muitos investigadores, é desestruturar e desfalcar consideravelmente a equipa que foi criada ao longo de anos e anos. E, sobretudo, romper a confiança e o espírito de equipa construídos na relação com os investigadores científicos. A moção, surgida na sequência do concurso Investigador FCT 2013 e já subscrita por mais de 1700 investigadores, professores universitários e bolseiros na altura da publicação deste texto, é disso forte indicador.

Termino afirmando que a “excelência” do relatório que analisei não me parece sê-lo, pelo menos com o significado que lhe atribuo, aquele partilhado por outras palavras como “óptimo”, “perfeito” ou “excepcional”. Este meu entendimento de excelência dilui-se ali num conceito utilitário forjado a partir de uma diversidade enorme de indicadores. E aqui concordo com o comentário no final do relatório feito por um dos especialistas que o reviu:
“There's just one small comment: I would replace the term 'research excellence' by something more fitting. That's not easy because the selected list of indicators is so divers. How about 'knowledge creation and utilization'?”

A verdadeira excelência é uma coisa rara e invulgar, e a utilização extensiva e abusiva desse conceito, vulgarizando-o, tira-lhe significado.

nota 1: está hoje a ser lançado oficialmente em Portugal o Programa Horizonte 2020, que vai financiar a ciência europeia nos próximos anos. O primeiro dos três pilares programáticos intitula-se ‘Excelência Científica’. Obviamente.

nota 2: todas as imagens foram retiradas do relatório
Vertesy D, Tarantola S., Composite Indicators of Research Excellence . EUR 25488 EN. Luxembourg (Luxembourg): Publications Office of the European Union, 2012. JRC72592
disponível online aqui: http://publications.jrc.ec.europa.eu/repository/handle/111111111/26632

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Suas Excelências, os cientistas de Portugal

A ciência portuguesa, como noticiado em anos recentes, vem tendo um crescimento assinalável no contexto europeu.

O sistema científico português, com esta existência notável, é obra das últimas décadas. Obra de políticas que promoveram o seu desenvolvimento e obra de investigadores que concretizaram essa extraordinária expansão.

É de sublinhar este feito admirável, neste país de alternâncias democráticas regulares, de um projecto com pés e cabeça que conseguiu sobreviver e desenvolver-se ao longo de sucessivos governos sem ser destruído.

E os frutos, naturalmente, surgiram. Os frutos são termos hoje um sistema científico nacional adulto e bem constituído. E aqui não hesito a entregar a taça, juntamente com o devido reconhecimento, ao ex-ministro Mariano Gago.

Durante anos, numa espécie de brincadeira a sério, ergui o slogan “O Mariano Gago para ministro da Cultura!”. É sem dúvida o que tem faltado no quadrante cultural e artístico português, um ministro da Cultura com visão (como a que teve Manuel Maria Carrilho, exemplarmente, ao lançar o projecto da rede de teatros do país, nos anos 90). Bem, na realidade a Cultura, agora com este Governo, nem sequer tem ministério. Mas tê-lo-á a Ciência?

Este Governo recebeu, na área da Ciência, o importante legado de um sistema científico bem implantado e laboriosamente construído ao longo de décadas. Naturalmente com alguns aspectos débeis, como o estar demasiado assente num sistema precário de bolsas de investigação, de doutoramento e pós-doutoramento.

Mas os contratos-programa com instituições públicas e privadas para financiamento de contratos individuais de trabalho por cinco anos para doutorados nessas instituições, iniciados com os programas Ciência 2007 e 2008, constituiu o importante passo seguinte para a consolidação do sistema.

Agora, passados cinco anos sobre cada um desses programas, o seu sucessor, o programa Investigador FCT, iniciado o ano passado, tem por objectivo “o recrutamento de 1000 investigadores excepcionais até 2016, para desenvolvimento de linhas de investigação inovadoras, em centros de investigação portugueses.” Sua Ex.ª o presidente da FCT repete frequentemente, a este propósito, o objectivo essencial de financiar a “excelência”. Só interessam os cientistas “excelentes”, essa a receita extraordinária para o sucesso da ciência no nosso país.

Só que, ao não se salvaguardar a eventual permanência dos cientistas e dos seus projectos e equipas dos anteriores contratos-programa no sistema científico nacional - naturalmente com base numa avaliação séria do trabalho desenvolvido ao longo dos 5 anos dos programas Ciência 2007/2008 por cada um dos quase 1000 contratados - esta escolha por uma suposta “excelência” no programa Investigador FCT vem disfarçar a destruição do que antes foi construído.

Por cada 200 “excelências” que este novo programa seleccione anualmente até 2016, muitos mais vêem o seu percurso de investigação truncado neste país e serão obrigados a emigrar. Anos e anos de investimento de Portugal na sua formação e carreiras, muitos tendo passado por mestrados, doutoramentos e pós-doutoramento e com trabalho reconhecido internacionalmente, terão de sair do país, expulsos por um sistema que não os valoriza nem acarinha.

E isto é especialmente ingrato e injusto para aqueles nos seus trintas e quarentas, que deram cérebro, corpo e alma ao sistema científico nacional que hoje temos.

Sua Exª o presidente da FCT afirmou recentemente, no momento da celebração dos contratos Investigador FCT deste ano, que o programa “Investigador FCT é uma das armas que temos para ganhar ‘cérebros’ para Portugal e nestas duas edições até agora, em 2012 e 2013, já temos um ganho de 48 cientistas no total que não estavam em Portugal e que escolheram Portugal para fazerem investigação a um nível sénior, porque aqui estamos a falar de cientistas que à volta deles vão criar equipas de investigação”, e que tudo isto faz parte de um ecossistema de ciência em que a excelência, traz excelência, traz excelência e é nisso que estamos a trabalhar”.

Eu não tenho dúvidas que a preocupação com a importação de alguns “cérebros” para Portugal, forçando no processo a exportação de “cérebros” cá desenvolvidos, muitos já com equipas de investigação criadas, e co-responsáveis pelo sistema científico que felizmente temos, é uma opção política destruidora e profundamente ingrata.

Serão certamente muito mais de 48 os cientistas que em 2012 e 2013 irão emigrar com os seus cérebros e a sua formação financiada por Portugal para criar equipas de investigação no estrangeiro. Parece-me, além de tudo o mais, um desperdício de recursos atroz.

E sobre o conceito de “excelência” para a FCT e o seu actual presidente terei de escrever outro dia, começando pela trapalhada e falta de clareza do concurso Investigador FCT deste ano, com resultados comunicados aos interessados no passado dia 26 de Novembro mas ainda sem terem acesso, até hoje (!), às avaliações das suas candidaturas por causa de um alegado problema informático.

Isto resultou numa tomada de posição conjunta de muitos investigadores revoltados com o que chamam de processo arbitrário e obscuro passível de impugnação judicial, e na convocação de uma reunião plenária que teve lugar ontem ao fim da tarde em Lisboa.

A minha esperança é que, para bem do sistema científico português, os nossos cientistas actuais, juntamente com os seus cérebros, consigam impor uma cultura de verdadeira excelência ao funcionamento da FCT.

Que deveria começar por coisas tão simples como a transparência e o respeito pelo próximo.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

AVENIDA "CIÊNCIA ABERTA" Nº 200

A partir de uma nota publicada no Diário de Coimbra


Um dos principais acontecimentos editoriais deste ano, pelo menos no contexto da melhor divulgação científica em língua portuguesa, é a publicação do n.º 200 da colecção “Ciência Aberta” da editora Gardiva.

A colecção, premiada em 2012 com o Grande Prémio Ciência Viva, teve início em Junho de 1982, o que demonstra a impressiva regularidade com que o seu editor, Guilherme Valente, brindou o público português com o que de melhor se faz a nível internacional na área da divulgação de ciência. Sublinhe-se que a “Ciência Aberta” é reconhecida internacionalmente como uma das melhores colecções de divulgação de ciência. 

O n.º 200, desta grande Avenida do conhecimento, é “Ciência e Liberdade – democracia, razão e leis da natureza”, do prestigiado Timothy Ferris, por muitos considerado o melhor divulgador de ciência da sua geração. 

Leia aqui o início deste livro.

António Piedade

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O terramoto e os cientistas condenados

Segundo escreveu Desidério a propósito da condenação de seis cientistas pelo homicídio de pessoas que morreram no terramoto de L'Aquila em 2009:
Quando os cientistas italianos foram correctamente condenados porque mentiram à população dizendo-lhes o que cientificamente sabiam que era falso, pois sabiam perfeitamente que não se pode prever terramotos com precisão, quase todos os cientistas reagiram em defesa da classe e não em defesa da verdade. A verdade é que eles usaram o poder social da ciência para aconselhar as pessoas e em resultado disso morreram muitas pessoas.
Não. Eles não fizeram nada disso. Se há coisa de que podem ser acusados é de não terem partilhado o seu conhecimento científico, pois não abriram a boca. Nada disseram e foram usados como figurantes numa encenação levada a cabo por autoridades políticas locais e pela protecção civil.  Não deviam ter deixado, é certo. Deveriam ter falado e retirado a falsa autoridade científica de quem falou em nome deles, dizendo disparates. A sua omissão é condenável, mas por homicídio é absurdo. Tanto poderiam ter falado eles, como inúmeros outros cientistas ou simples pessoas bem informadas. Porque não condena-los a todos? A decisão judicial, se vier a ser confirmada pelos tribunais superiores, é desastrosa para a ciência. Muitos cientistas sentir-se-ão inibidos de participar em comissões semelhantes e contribuir com o seu conhecimento em prol da sociedade. É um passo em direcção ao obscurantismo.

domingo, 2 de setembro de 2012

Primeiro reator nuclear multipropósito brasileiro

O governo do estado de São Paulo anunciou ontem (31/08/2012) a desapropriação de um terreno em Iperó (SP) para a construção do primeiro reator nuclear multipropósito brasileiro (com múltiplas finalidades). O equipamento é fundamental para a produção brasileira de radiofármacos – fármacos, produtos biológicos ou drogas que têm em sua composição elementos radioativos e que são utilizados no diagnóstico ou no tratamento de enfermidades. No país, esses tipos de substâncias são usadas no atendimento de 10 mil pacientes por dia. “A maior causa de mortes é coração e câncer. Se a gente for verificar na cardiologia, na oncologia e nefrologia [as substâncias] são essenciais, seja no diagnóstico, seja na terapia, a medicina nuclear.Além do reator, será construído no local um novo laboratório que poderá ser utilizado pela sociedade acadêmica e por empresas interessadas. “O laboratório multipropósito vai ser usado por todos, comunidade científica, comunidade industrial.

IPEN 56 ANOS UTILIZANDO A FÍSICA NUCLEAR PARA A PRESERVAÇÃO DA VIDA HUMANA!VEJA EM MEU VIDEO ALGUMAS DESTAS APLICAÇÕES:

domingo, 12 de agosto de 2012

Este trabalho é fabuloso

O sistema de engenharia que mais admiro na missão recente a Marte (Curiosity) é o sistema de entrada na Atmosfera e Landing.


Great engineering JOB.
:-)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

OS MARCIANOS SOMOS NÓS

Texto publicado hoje no SOL:

A ciência e a tecnologia são irmãs inseparáveis. Se a tecnologia é filha da ciência, a ciência é impulsionada pela tecnologia. A ciência é, por exemplo, o conhecimento da lei da gravitação universal e das leis da aerodinâmica, que ajudam a explicar o movimento na atmosfera da Terra ou de qualquer outro planeta. Tecnologia é, sabendo-as, colocar um carro de quase uma tonelada numa cratera de Marte, depois de uma impecável manobra de aterragem (ou amartagem?) totalmente automática.Também eu, logo que acordei a 6 de Agosto, estava curiosioso em saber se o robô Curiosity, lançado pela NASA a 26 de Novembro último, tinha chegado com segurança ao seu destino, na cratera Gale de Marte, onde vai procurar vestígios de vida. Porque as leis que conhecemos da mecânica, tanto gravitacional como dos fluidos, estão certas e porque, conhecendo-as, e de posse de várias outras leis da Natureza, como as do electromagnetismo e da mecânica quântica que explicam a electrónica, construímos mais um engenho para chegar ao planeta vermelho. Invadimos, mais uma vez, Marte com sucesso, não temendo a praga que parecia vir do facto de, das 38 missões a Marte, metade terem falhado. O robô Opportunity, em Marte desde 2004, já tem companhia, o Curiosity.

Não sabemos se existiu ou se existe vida em Marte. Os instrumentos do novo robô vão procurá-la e, passados alguns minutos, logo teremos notícias na Terra. Mas um dia havemos de ir a Marte, levando connosco a vida que lá eventualmente falta. Este é o único planeta conhecido, além do nosso, que tem condições para ser habitável pelo homem. Essas condições poderão ser melhoradas com o auxílio da tecnologia. Demorará, mas atrevo-me a prever: será tão ou mais confortável viver em Marte do que como aqui.

O escritor norte-americano Ray Bradbury, autor das Crónicas Marcianas, morreu em Junho passado sem ter tido oportunidade de assistir ao êxito do Curiosity. Mas há três anos, já de cadeira de rodas, visitou o Laboratório da NASA em Pasadena, que controla o Opportunity e o Curiosity. Ouviu os cientistas e engenheiros dizerem-lhe que a exploração marciana não teria sido possível sem a inspiração dada pelos seus livros. Foi Bradbury que escreveu que os marcianos somos nós. Mas só quando lá chegarmos...

Carlos Fiolhais