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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

“COSMICOMIX: A DESCOBERTA DO BIG BANG”

Primeiramente publicado na imprensa regional portuguesa.




Há 50 anos, em 1965, os norte-americanos Arno Penzias e Robert Wilson descobriram a chamada radiação cósmica de fundo, uma radiação de micro-ondas, a luz mais antiga que conhecemos do cosmos, “luz fóssil” de quando o Universo tinha cerca de 380 000 anos. A efeméride desta descoberta é, entre outras, uma das que assinala o Ano Internacional da Luz que este ano se celebra.

E para assinalar e perceber melhor aquela descoberta, a editora Gradiva publicou, em Julho último, o livro de banda desenhada intitulado “Cosmicomix: a descoberta do Big Bang”. Nesta obra de banda desenhada os textos são da autoria do astrofísico Amedeo Balbi e os desenhos de Rossano Piccioni, ambos italianos. Publicada originalmente em 2013, a edição portuguesa tem tradução de Florbela Marques, revisão científica do Professor Carlos Fiolhais e teve o apoio da Sociedade Portuguesa de Física.

É uma edição que se saúda não só por ser muito oportuna neste Ano Internacional da Luz, que assinala na contracapa, mas por ser um bom exemplo de como a banda desenhada pode ser muito eficaz na divulgação científica.

Ao longo de 150 páginas o leitor revive a aventura das descobertas científicas ao longo da primeira metade do século XX que mudaram a compreensão da evolução do universo em que existimos. E as personagens são os cientistas que estiveram envolvidos nessa compreensão, através das suas teorias e observações experimentais. Meio século de interacção científica que leva a uma primeira confirmação da teoria do Big Bang, a mais bem sucedida que ainda temos actualmente para descrever a evolução do Universo desde há 13,8 mil milhões de anos.

O livro, que apresenta uma linguagem muito acessível sem perder o rigor científico, familiariza o leitor, por exemplo, com o físico Albert Einstein, o matemático Alexander Friedman, o astrónomo Edwin Hubble ou o físico George Gamow, assim com as teorias que produziram. Todas as personagens que surgem nesta banda desenhada são figuras de destaque da história da ciência que estiveram de alguma maneira envolvidas no esforço científico para compreender a origem e evolução do Universo. Os autores recorreram a documentação diversa para reconstituírem as cenas retratadas. E são reconstituídos vários momentos marcantes em que os cientistas se encontram, discutem as suas teorias e apresentam os resultados experimentais que as suportam ou que exigem novas teorias.

A evolução da narrativa neste livro permite, de uma forma agradável, que o leitor apreenda a história da evolução do conhecimento sobre o Universo ocorrida no século XX, até à descoberta da radiação cósmica de fundo pelos radioastrónomos Arno Penzias e Robert Wilson (galardoados em 1978, por isso, com o Prémio Nobel da Física). E permite que compreendamos bem a importância desta descoberta para confirmar a teoria do Big Bang primeiramente sugerida pelo padre e físico belga Georges Lemaître em 1927. Aliás, o livro reconstitui uma conversa entre Lemaître e Einstein em Bruxelas, em 1927, no qual o primeiro expõe a sua teoria do “átomo primordial” ao "pai" da teoria da relatividade.




É de sublinhar, nesta banda desenhada, o cuidado em explicar como a ciência se faz e evolui, e a importância da observação e resultados experimentais que confirmam, ou não, uma dada teoria.
O livro apresenta, no seu final, biografias breves de todos os cientistas envolvidos, que são úteis para despertar a curiosidade em saber mais sobre eles. Também são descritos, nas últimas páginas, alguns exemplos de como a banda desenhada foi feita. E, no epílogo constante nas últimas páginas o autor, Amedeo Balbi, descreve resumidamente os avanços e descobertas ocorridas desde a descoberta da radiação cósmica de fundo até aos dias de hoje, mostrando que ainda há muito para conhecer: “as perguntas não acabaram e continuamos à procura das respostas”.

É, em suma, um livro de que apresenta de uma forma muito acessível conceitos e teorias sobre a evolução do Universo e que se recomenda a todos.


António Piedade

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A Banda Desenhada e a divulgação de Ciência

Com a devida vénia, publico este artigo do João Ramalho-Santos sobre o papel da BD na divulgação de ciência e que foi primeiramente publicado em vária imprensa regional através do programa Ciência na Imprensa Regional - Ciência Viva.
Ilustração do livro Uma Aventura Estaminal de João Ramalho-Santos (história) e André Caetano (desenho). Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013.

Apresentar conceitos científicos a um público não especializado levanta diferentes questões: de que modo traduzir a importância de um tema em termos do dia-a-dia dos cidadãos, como simplificar sem perder rigor, e que tipo de ferramentas utilizar. No que diz respeito ao último ponto os meios visuais são hoje prevalentes, algo que decorre da própria maneira como a ciência é, não só divulgada, como ensinada e realizada. De facto é quase impossível encontrar um trabalho científico que não inclua ilustrações, gráficos, tabelas, esquemas ou fotografias.

Nessa perspectiva a utilização da banda desenhada (BD) pode ser muito útil. A BD implica a mistura de texto e desenho em sequências que contam uma história, ou transmitem informação. A vantagem de utilizar BD relaciona-se com a visualização imediata que oferece ao leitor, seguindo a máxima que “uma imagem vale mais que mil palavras”, por exemplo representado o desenvolvimento de um organismo através de imagens consecutivas em diferentes idades. O desafio é escolher as imagens e palavras adequadas.

Apesar de ser ainda muitas vezes entendida (erradamente) como destinada apenas a jovens, no contexto da divulgação de ciência o que importa é a linguagem da BD ser acessível a todos os leitores, que a utilizam diariamente sem disso se aperceberem. Na verdade, a BD surge de modos “invisíveis” no quotidiano. Um exemplo clássico são instruções que explicam como montar estruturas (estantes, brinquedos), como funcionam aparelhos, ou como se efetuam certos procedimentos.

No contexto da divulgação a banda desenhada pode ter utilizações lineares do ponto de visto informativo, ou fazer parte de projetos que refletem sobre a própria natureza, história e impacto do conhecimento científico. No primeiro caso incluem-se trabalhos que explicam pedagogicamente processos relacionados, por exemplo, com a saúde (vacinação, a pirâmide dos alimentos) ou ambiente (reciclagem, poluição). No segundo caso encontramos obras mais interessantes e ambiciosas, que têm como objectivo, não apenas transmitir informação de um modo acessível (que não simplista), mas levar o leitor a refletir sobre os conceitos científicos em causa, o contexto no qual evoluíram, e as implicações futuras que poderão ter. Este tipo de obras tendem pois a privilegiar temas fortes, e de grande impacto. Do ponto de vista de contextualização daquilo que avanços científicos podem representar na vida de uma sociedade o melhor exemplo continua a ser o desenvolvimento da energia nuclear (e da Bomba Atómica). Em termos de projeção para um futuro próximo o tema por excelência é a descoberta de estrutura do DNA, com todas as consequências tecnológicas, quer já correntes (engenharia genética, organismos geneticamente modificados, diagnóstico pré natal), quer potenciais (terapia génica, modificação de seres humanos). Outros tópicos incluem ainda a Evolução ou as Células Estaminais.

Tão importante como a pesquisa e a escolha de informação ligada a um tema, é a forma como este é abordado. Ferramentas possíveis em BD incluem dramatizações realistas baseadas em pessoas e factos históricos, ou, num outro extremo, alegorias como a antropomorfização de células ou moléculas de DNA que “explicam” ao leitor o modo como funcionam. Nesse contexto a relação texto-desenho tem de ser pensada de modo a garantir uma transmissão eficaz, mas correta, de informação. Por exemplo: registos humorísticos podem ser muito úteis, mas apenas se não puserem em causa a seriedade global da obra. Como com qualquer outro instrumento disponível, na banda desenhada com estas características é necessário garantir um equilíbrio permanente entre “Divulgação” e “Ciência”.

João Ramalho-Santos (Universidade de Coimbra)

domingo, 15 de abril de 2012

DARWIN, EINSTEIN E AS VARINAS


Post de Carlos Fiolhais:

Minha contribuição para o catálogo "Jogo da Glória" que foi lançado na passada sexta-feira na Cidadela de Cascais pelo Museu da Presidência da República e que se refere a uma exposição sobre humor gráfico português no século XX que tem estado patente naquele espaço histórico:

Embora tenha antecedentes, o humor gráfico teve o seu início no século XIX e desenvolveu-se no século XX, nunca deixando de acompanhar os grandes desenvolvimentos da ciência e das técnicas que aconteceram nesses séculos. Foi assim em todo o mundo e foi assim, embora por vezes com um certo atraso em relação ao estrangeiro, também em Portugal. Os maiores desenhadores mundiais de caricaturas ou de cartunes abordaram personagens e temas científico-tecnológicos e o mesmo aconteceu, naturalmente, com os maiores desenhadores portugueses desse género de arte.

Um bom exemplo de glosa dos humoristas gráficos de um tema científico encontra-se naquele que constitui um dos maiores legados da ciência do século XIX, talvez mesmo o maior: a teoria da evolução da autoria do naturalista inglês Charles Darwin (1807-1882). É muito conhecida uma caricatura de Darwin, de autor anónimo, publicada em 1871 no magazine satírico inglês The Hornet, que representa o sábio com uma grande cabeça e um hirsuto corpo de macaco (figura em cima). Foi nesse mesmo ano que Darwin publicou The Descent of Man (primeira tradução portuguesa em 1913, há várias traduções recentes), onde fala da existência de um antepassado simiesco comum ao homem e ao macaco. Este desenho mostra bem o extraordinário poder do humor gráfico: uma imagem pode valer mais do que mil palavras. Seria muito difícil dar, numa só imagem, um retrato mais vivo e nítido da grande campanha anti-Darwin que se desenvolveu à medida que se difundia na Europa e no mundo a teoria darwinista da evolução das espécies, incluindo nestas a espécie humana. Noutra caricatura do mesmo ano, desta vez não anónima mas do artista germano-americano Thomas Nast (1840-1902), o darwinismo aparece ridicularizado pela voz de um gorila, que diz:


- "Esse homem quer reclamar o meu ‘pedigree’. Ele diz que é um dos meus descendentes."

O Senhor Henry Bergh (1811-1888), filantropo norte-americano fundador da Sociedade para a Prevenção da Crueldade aos Animais, responde, dirigindo-se a Darwin, personagem inconfundível com a “Origem das Espécies” nas mãos):

- "Ouça lá, Senhor Darwin, como pode insultá-lo dessa maneira?"

Tal como em Inglaterra, em Portugal as ideias de Darwin foram objecto de caricatura. Na mesma época da morte de Darwin, mais precisamente em 30 de Setembro de 1880, quando a evolução humana já era bastante discutidas entre nós, embora apenas ao nível das classes mais cultas, o grande caricaturista português Rafael Bordalo Pinheiro (1806-1905) desenhava no jornal O António Maria (a Hemeroteca Municipal de Lisboa digitalizou e colocou na Internet essa publicação) um cientista que apresenta no IX Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Histórica, que então se realizou em Lisboa, uma mulher com uma cabeça muito pequena (figura em baixo). A legenda diz o seguinte (a grafia foi actualizada, aqui como noutros casos a seguir):

"O professor Virchow hesitou em considerar como absolutamente provada a existência do nosso homem terciário. Não hesitou porém em afirmar que o nosso caso de microcefalia é o primeiro do mundo. Os demais povos do globo podem levar-nos a palma noutras coisas; em ter cabeças com menos cérebro, não."

Aquele congresso, onde estiveram representados 19 países, foi um dos primeiros grandes encontros científicos internacionais realizados em Portugal. A ocasião foi aproveitada para apresentar aos especialistas do chamado "homem de Muge" (o tal “homem terciário”) e para uma excursão aos concheiros de Muge, em Salvaterra de Magos, que tinham sido descobertos em 1863 pelo geólogo Carlos Ribeiro (1814-1882), inspirado decerto pelas ideias de Darwin, e que passaram a constituir desde então uma atracção internacional por se tratar de um dos maiores complexos mesolíticos da Europa. Quem era o professor Virchow? Rudolf Ludwig Virchow (1821-1902) era um dos mais famosos cientistas presentes em Lisboa na conferência: patologista alemão, professor de Medicina na Universidade de Berlim, os seus interesses pela arqueologia tinham-no levado a participar nas escavações de Tróia e de Micenas; foi também um activista político, opondo-se, como líder do Partido Liberal alemão, ao chanceler Otto von Bismarck. O médico português Francisco Augusto de Oliveira Feijão (1850-1918) apresentou o caso patológico de microcefalia de uma portuguesa, de seu nome próprio Benvinda, que foi também estudada por Miguel Bombarda (1851–1910). O Dr. Feijão haveria de tratar Bordalo no fim da vida deste, tendo recebido dele em sinal de agradecimento uma peça de cerâmica da fábrica das Caldas devidamente assinada e com dedicatória.

No ano do congresso era publicado um livro do historiador Joaquim de Oliveira Martins (1845-1894) que procurava fazer a divulgação da antropologia (Elementos de anthropologia: historia natural do Homem; há uma edição recente da Guimarães) e um livro do médico Júlio de Matos (1856-1922), que também tentava a vulgarização das ideias evolucionistas (Historia natural illustrada: compilação feita sobre os mais auctorisados trabalhos zoológicos).

O autor do Zé Povinho não podia deixar passar a oportunidade para comentar, de forma algo verrinosa, o tamanho do cérebro dos portugueses n'O António Maria, o jornal satírico que ele próprio tinha fundado em 1879, tomando para título os dois primeiros nomes do primeiro-ministro Fontes Pereira de Melo (1819-1877), alvo de frequentes críticas daquele periódico. Não foi esta, de resto, a única vez que Bordalo Pinheiro tratou Darwin e as ideias darwinistas. Sempre atento ao mundo à sua volta, ele publicou no jornal Pontos nos ii, em 1886, uma caricatura (figura em baixo) que representa um macaco a dirigir-se a um humano nos seguintes termos:


- Se tu representas a perfeição da minha espécie, – ó Pópópim! - , eu estou muito contente, mesmo muito, por ter ficado chimpanzé.

Fundado em 1885, portanto contemporâneo da fundação e desenvolvimento por Bordalo da Fábrica das Caldas da Rainha, Pontos nos ii foi um jornal em muitos aspectos semelhante ao António Maria. Fazia o proselitismo da causa republicana, ao mesmo tempo que criticava os conturbados governos da monarquia constitucional. O humor é aparentado ao da caricatura de Thomas Nast: o macaco goza com o ser humano, que só para os darwinistas era um passo à frente na cadeia evolutiva.

Parece ser consensual entre os estudiosos do cartunismo nacional que o maior desenhador português desse tipo de arte foi, depois de Bordalo Pinheiro, José Herculano Stuart Carvalhais (1887-1961). Também ele foi o autor de desenhos relacionados com a evolução das espécies. Por exemplo, para um anúncio da bebida Toddy (criada em 1930 por um porto-riquenho e ainda hoje existente) colocou anacronicamente um Adão e uma Eva contemporâneos dos dinossauros e das antas pré-históricas, estando ele, evidentemente, nu (um estendal de roupa tem parras penduradas!), sentado numa poltrona ao ar livre a ouvir rádio e estando ela, também nua, a preparar a bebida quente no fogão. Na legenda do cartune publicado em 1934, no jornal A Cidade, lê-se:

Nunca a serpente teria tentado Eva se o pai Adão lhe tivesse comprado uma fada-rádio e a alimentasse com Toddy, como já aconselhavam os médicos daquele tempo...”.

Não podemos deixar de pensar nos desenhos animados dos Flinstones, da dupla William Hanna e Joseph Barbera, mas que apenas começaram a ser emitidos na televisão em 1960...

Na mesma linha, mas agora dirigido para um público infantil, deve referir-se ainda a história do Cortejo pré-histórico de Manecas e João Manuel, publicado no jornal Sempre Fixe em 1940, o ano que em Portugal foi palco das comemorações chamadas do “duplo centenário” (porque se tratava do centenário da fundação da nacionalidade e da restauração da independência). A crítica ao cortejo então organizado em Lisboa é bem clara, sendo as várias individualidades da História de Portugal substituídos por animais pré-históricos. Num desenho de conjunto aparece o Manecas vestido de Manecas da era terciária e o João Manuel vestido de troglodita. Stuart comentou que comparar este cortejo com o do centenário “é o mesmo que comparar um ovo de pomba com um espeto de pau”...

O personagem Manecas remonta ao ano de 1915, na altura bem que Stuart aderiu aos ideais republicanos, e em que, da pena dele, saiu no jornal O Século a que é considerada por vários autores a primeira história aos quadradinhos portuguesa: Quim e Manecas (em várias ocasiões essa série foi influenciada por temas científico-tecnológicos). Na época da II Guerra Mundial, o pequeno “herói” Quim haveria de dar o lugar a João Manuel, personagem inspirado numa criança real, o futuro arquitecto João Manuel Ruella Ramos.

Stuart é autor de várias histórias aos quadradinhos sobre temas científicos fora das séries do Manecas. Uma das mais interessantes recorre a desenhos muito esquemáticos de seres microscópicos e caricatura o cérebro de um tal Mota. O texto é o seguinte:

“- O treponema pálido encontra o bacilo de Koch e... combinam atacar o cérebro do Mota... No caminho encontram o bacilo do tifo e... seguem todos o seu caminho em procura do Mota... Mas, chegados lá, depara, com uma multidão de micróbios de imbecilidade que nenhum bacilo é capaz de destruir e desistem da empresa”.

Um outro cartune de Stuart mostra um astrónomo a espreitar por um telescópio, em cuja lente pousou um gato. Lê-se na legenda:

“...E há. - Ó colega. Estou aqui há mais de uma hora a ver se vejo a lua mas não vejo senão um focinho muito esquesito! Estou desconfiado que aqui há gato”.

A cena não deixa de ser parecida com a da aparição de uma aranha na lente de um telescópio, no início de um dos livros de aventuras de Tintim, A Estrela Misteriosa, de Hergé (lembre-se que, na expedição científica contada nesse álbum, participa um físico da Universidade de Coimbra). Tal como Bordalo, Stuart foi um grande ilustrador numa linha não humorística, designadamente ao desenhar capas de revistas (a Revista da Marinha beneficiou de trabalhos seus), reportando-se algumas das suas ilustrações a temas científicos. Um exemplo de aproveitamento de temas aeronáuticos foi o seu belo guache (figura em baixo) em que representa o naufrágio, em 1922, perto das ilhas de S. Pedro e S. Paulo, em águas territoriais brasileiras, do segundo avião Fairey (baptizado de Pátria), que transportava os aeronautas Gago Coutinho e Sacadura Cabral, durante a primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

O barco que salvou aqueles oficiais da Marinha Portuguesa foi o Paris City, que vinha de Cardiff com destino ao Rio de Janeiro. E um outro exemplo é o desenho, ainda de temática aeronáutica, de página inteira da Ilustração Portuguesa de 1 de Maio de 2008 (figura em baixo), que ele fez do grande dirigível alemão Graf Zeppelin, quando ele passou sobre o Terreiro do Paço em Lisboa nesse ano. A legenda, da redacção do jornal, rezava assim:

“Sobre Lisboa, maravilhosa e atónita, pairou na quarta-feira, 24, um dos prodígios da moderna engenharia: o dirigível ‘Conde Zeppelin’, que o sábio construtor Dr. Eckner levou a cabo e dirige. Lisboa viu pela primeira vez um espectáculo que nunca mais esquecerá e que o lápis do grande artista, que é Stuart Carvalhais, fixou na impressiva mancha que aqui reproduzimos”.

O impressionante dirigível, produto da última tecnologia da época, haveria de realizar pouco depois uma viagem de circumnavegação ao mundo, antes desse tipo de transporte ter sido posto de lado devido a trágico desastre.

Por último, o que é, na minha opinião (e estou certo de não estar sozinho!), o maior cartunista português da actualidade, o arquitecto e designer João Abel Manta (nascido em 1928), filho do pintor de Gouveia com o mesmo nome, também tratou temas científicos. Uma das suas caricaturas do tempo de Salazar representa o matemático Bento de Jesus Caraça (1901-1948),


um desenho que publicado no Diário de Notícias em 1975 (figura em cima), e que foi também capa da revista Vértice (n.º 412-414, de Novembro de 1978) . Talvez uma das imagens mais marcantes do humor gráfico dos tempos logo a seguir à Revolução do 25 de Abril de 1974 tenha sido a de um cartune representando um cortejo de sábios que são apresentados ao Zé Povinho (o famoso personagem de Bordalo) por um militar, membro do Movimento das Forças Armadas e da Campanha de Dinamização Cultural que se seguiu logo à Revolução, estando à frente do grupo de personagens ilustres o físico suíço e norte-americano de origem alemã Albert Einstein (1879-1955) (figura em baixo). A legenda diz: “Muito prazer em conhecer vocelências!”.
Um desenho do mesmo autor e da mesma época ilustra o Zé Povinho a mostrar a Einstein num quadro um problema bastante complicado, certamente muito mais complicado que os da relatividade geral, que era o da formação do VII Governo Provisório. A legenda era: “O que é que isto vai dar ó Alberto?” E o “problema difícil” que era na altura Portugal (não será ainda?) volta a ser glosado noutro cartune de Abel Manta que representa uma plateia de sábios como Russell e Sartre, mas também de políticos como Lenin, Trotsky, Staline, Mao, Castro e Kissinger, que olham, intrigados, para um mapa de Portugal desenhado no quadro (figura em baixo).

A propósito de Einstein, não posso deixar de dizer que uma obra minha foi beneficiária directa do humor gráfico de um cartunista português contemporâneo, José Bandeira (nascido em 1962), que, para o meu livro Nova Física Divertida, desenhou uma cena descrita por Einstein no seu diário quando efectuou uma escala de um dia em Lisboa, em 11 de Março de 1925, viajando a bordo do paquete Nord Cap da carreira Hamburgo - Rio de Janeiro. Tendo visitado alguns monumentos nacionais como o Castelo de São Jorge e o Mosteiro dos Jerónimos, o que mais impressionou Einstein na sua curta estada em solo português foram... as varinas! Nas palavras telegráficas do grande cientista:

- “Vendedora de peixe fotografada com um cesto de peixe na cabeça, gesto orgulhoso, maroto”.

Falando mais tarde no Rio de Janeiro (onde estava o almirante Gago Coutinho para o escutar), num jantar no Copacabana Palace Hotel, afirmou o autor da relatividade:

- “São mulheres de uma elegância que me fez parar muitas vezes para admirá-las. No grupo em que estava, fotografámo-las e pusemos na nossa mesa de refeição, a bordo, os retratos”.

Pois Bandeira recriou Einstein a fotografar uma varina de cesto de peixe à cabeça, assinando “Bordalo + Bandeira”, uma vez que se tinha inspirado numa figura cerâmica de Bordalo que representa uma varina (figura em baixo).
Podia-se também ter inspirado numa varina mais moderna da autoria de Suart Carvalhais, que representou muitas dessas típicas e tão elegantes figuras lisboetas. Aliás Stuart dispunha de um modelo na sua própria casa, pois ele casou com uma varina em Lisboa, da qual teve um único filho. Stuart, num desenho de 1 de Novembro de 1928, saído no Sempre Fixe, representa duas varinas com o cesto de peixe à cabeça. A legenda diz, num tom algo brejeiro:

- “Companheiras Inseparáveis. Um peixão companheiro inseparável do peixe”.

Apesar de, em 1921, ter ganho o Prémio Nobel da Física e de já ser mundialmente conhecido (em boa parte, graças a um evento, o eclipse solar de 1919, observado no território de uma então colónia portuguesa, a ilha do Príncipe), Einstein passou entre nós quase despercebido. A ciência em Portugal nessa altura era pouca e não se notava... Pelo contrário, no Brasil foi alvo de atenção das autoridades e dos média. Para a exposição (figura em baixo) que a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra organizou em 2005, por ocasião do Ano Internacional da Física, quando se comemorou um século do annus mirabilis de Einstein (1905 foi o ano das suas obras mais notáveis: o movimento browniano, o efeito fotoeléctrico e a teoria da relatividade restrita), foi criado um jornal em que se dava, com evidente atraso, notícia da passagem de Einstein por Portugal (figura em baixo)...

E reunia-se uma fotografia de Einstein com o desenho de uma varina de Stuart, dos anos 20, quando Einstein ficou rendido aos seus encantos...

Carlos Fiolhais

BIBLIOGRAFIA:

Sobre Darwin e Rafael Bordalo Pinheiro:

- BOLÉO, João Paulo Paiva, e PINHEIRO, Carlos Bandeiras, Das Conferências do Casino à Filosofia de Ponta, Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa e Bedeteca, 2000.
- COTRIM, João Paulo, Rafael Bordalo Pinheiro. Fotobiografia, Assírio e Alvim, Lisboa: El Corte Inglês e Câmara Municipal de Lisboa, 2005.
- DARWIN, Charles, A Origem do Homem e a Selecção em Relação ao Sexo, Lisboa: Relógio d'Água, 2009.
- MARTINS, J. P. Oliveira, Elementos de anthropologia : historia natural do Homem. Lisboa: Livraria Bertrand, 1881. Reedição: Elementos de Antropologia, Lisboa: Guimarães. 1987.
- MATOS, Júlio de, Historia natural illustrada : compilação feita sobre os mais auctorisados trabalhos zoológicos. Porto: Livraria Universal, [1880?]
- MEDINA, João, Caricatura em Portugal, Rafael Bordalo Pinheiro, pai do Zé Povinho, Lisboa: Colibri, 2008.
- SANTOS, Marco Steinert, Virchow: medicina, ciência e sociedade no seu tempo, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2008
- SMITH, Jonathan, Charles Darwin and Victorian visual culture, Cambridge: Cambridge University Press, 2006.

Sobre Stuart Carvalhais:

- BOLÉO, João Paulo Paiva, Stuart Carvalhais. Quim e Manecas 1916-1948, Lisboa: Tinta da China, 2010.
- COTRIM, João Paulo, Stuart Carvalhais. A rua e o riso, Lisboa: Assírio e Alvim e El Corte Inglês, 2006.
- HERGÉ, Aventuras de Tintim, A estrela misteriosa, Lisboa: Verbo, 2004 (reedição)
- PACHECO, José, Stuart Carvalhais e o modernismo em Portugal, Lisboa: Vega, sem data.
- STUART Carvalhais, Aventuras de Manecas e João Manuel (originais de 1939-40): exposição; [org.] Bedeteca; coordenação João Paulo Cotrim; textos Carlos Bandeiras Pinheiro, João Paulo Paiva Boléo, João Paulo Cotrim. Lisboa: Câmara Municipal, 1996.
- STUART 1887-1987. Centenário do seu nascimento, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Centro de Arte Moderna, 1887 (catálogo da exposição).

Sobre João Abel Manta:

- COTRIM, João Paulo, João Abel Manta. Caprichos e Desastres, Lisboa: Assírio e Alvim, El Corte Inglês e Câmara Municipal de Lisboa, 2008.
- João Abel Manta. Obra gráfica, Lisboa: Museus Municipais de Lisboa, Museu Rafael Bordalo Pinheiro, 1992.

Sobre Einstein e as varinas de Lisboa:

- FIOLHAIS, Carlos, Nova Física Divertida, Lisboa: Gradiva, 2005.
- FIOLHAIS, Carlos (coordenador), Einstein entre nós, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2005.

LISTA DAS FIGURAS (só algumas aqui apresentadas):

- Anónimo, A Venerable Orang-outang, The Hornet, 22 /Março/1887.
- Nast, Thomas, Mr. Bergh comes to rescue, Harpers Weekly, 19/Agosto/1871.
- Pinheiro, Rafael Bordalo, Retrato authentico da microcephala apresentada ao congresso de anthropologia pelo dr. Feijão. O António Maria. Lisboa. Ano II, nº 70 (Setembro, 1880), p. 317.
- Pinheiro, Rafael Bordalo, No Jardim Zoológico – O chimpanzé e Pópópim, Os Pontos nos II, Lisboa, 17/Julho/1886.

- Stuart Carvalhais, José, No Paraízo..., anúncio publicitário, A Cidade, Maio de 1934.
- Stuart Carvalhais, José, O cortejo pré-histórico de Manecas e João Manuel, História aos quadradinhos, Sempre Fixe, Julho e Agosto de 1940.
- Stuart Carvalhais, José, Banda desenhada sem título, Sempre Fixe, 14 de Julho de 1927.
- Stuart Carvalhais, José, Sempre Fixe, 17/Novembro/1938.
- Stuart Carvalhais, José, Guache sobre a viagem aérea de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, 1922.
- Stuart Carvalhais, José, Ilustração de página inteira sem título, Ilustração, 16/Janeiro/1928.

- Manta, João Abel, Bento de Jesus Caraça, desenho a tinta da china, suplemento Artes e Letras, Diário de Notícias, 24/Setembro/1975.
- Manta, João Abel, MFA. Campanha de dinamização cultural: Muito prazer em conhecer vocelências, desenho a tinta da china, Novembro de 1974.
- Manta, João Abel, Einstein - O que é que isto vai dar ó Alberto?, O Jornal, 26 de Setembro de 1975.
- Manta, João Abel, Um problema difícil, O Jornal, 11/Julho/1975.

- Bandeira, José, Cartune in Fiolhais, Carlos, Nova Física Divertida, Gradiva, 2008.
- Stuart Carvalhais, José. Sempre Fixe, 1/Novembro/1928.
- Jornal da exposição Einstein entre nós, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 2005.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

TINTIM E A CIÊNCIA


Minha crónica no "Sol" de hoje:

Agora, que Tintim saiu das páginas da banda desenhada para entrar, em três dimensões, no grande ecrã, através da câmara do realizador norte-americano Steven Spielberg, é oportuno lembrar que são muitas e variadas as conexões entre o famoso personagem criado pelo desenhador belga Hergé (pseudónimo de Georges Remi) e o mundo da ciência.

O álbum A Estrela Misteriosa, que foi publicado em 1942, na Bélgica ocupada pela Alemanha nazi, trata da queda na Terra de um meteorito, no qual tinha sido detectado um elemento químico novo. Para o estudar é constituída uma Comissão Internacional de Sábios, que apenas inclui cientistas alemães e de países neutros, como era o caso de Portugal e da Suécia. A expedição, que viaja sob a bandeira de um Fundo Europeu de Pesquisas Científicas, muitos anos antes de haver instituições científicas pan-europeias, inclui um investigador português, o Prof. Pedro João dos Santos, que Hergé designa por “célebre físico da Universidade de Coimbra”. Como o autor de Tintim não raro se inspirava em factos e personagens reais, é curioso referir que na época ensinava em Coimbra o Prof. João de Almeida Santos (1906-1975), que mais tarde seria Director do Laboratório de Física. O rosto de outro membro da expedição, o sueco Erik Björgenskjöld, “autor de notáveis trabalhos sobre as protuberâncias solares”, parece inspirado no do Prof. Auguste Piccard (1884-1982), um notável cientista suíço que trabalhou em Bruxelas e que, conforme o próprio Hergé admitiu, foi o modelo para a criação do Prof. Girassol, personagem que só surgiu em O Tesouro de Rackham o Terrível, sequela de O Segredo de Licorne, o livro que deu o título ao filme de Spielberg. O argumento deste filme baseia-se precisamente no conjunto dessas duas obras, respectivamente de 1943 e de 1944, portanto imediatamente subsequentes à Estrela Misteriosa (Spielberg também usa O Caranguejo das Tenazes de Ouro). O Prof. Piccard protagonizou descidas submarinas a grande profundidade, a bordo de um batiscafo de sua autoria, e também ascensões à estratosfera, a bordo de balões especiais, pelo que foi, no seu tempo, um dos homens que mais fundo desceu e que mais alto subiu. Um batiscafo em forma de tubarão, pilotado por Tintim, aparece premonitoriamente n’O Tesouro de Rackham o Terrível.

A dupla de detectives Dupond e Dupont, divertidas figuras dos livros de Hergé e do filme de Spielberg, também já aparece em A Estrela Misteriosa, ainda que de relance. Os dois não têm nada, mas mesmo nada, de sábios, embora acompanhem Tintim e o Prof. Girassol na expedição à Lua, representada nos álbuns Rumo à Lua e Explorando a Lua, publicados respectivamente em 1953 e 1954. Esses livros descrevem uma viagem ao nosso satélite natural a bordo de um foguetão aparentado ao V2 germânico, muitos anos antes do voo da Apollo 11.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O GENOMA PESTILENTO (2) - DESENTERRAR OS GENES...


Crónica publicada no Diário de Coimbra, na sequência de uma outra (aqui)


Já não há peste negra?!

Claro que há!

Ao longo dos últimos 150 anos verificamos avanços significativos das ciências médicas, microbiológicas e imunológicas que permitiram identificar a natureza dos microrganismos que nos causam doenças, compreender o seu modo de propagação, os seus mecanismos patogénicos.

O conhecimento adquirido permitiu implementar atitudes preventivas de saúde pública contra a disseminação dos micróbios, outrora fatais, descobrir e fabricar vacinas e antibióticos. Estas “balas mágicas” permitem que aqueles que a elas têm acesso adquiram, para além da imunidade e protecção, uma ideia de que a guerra está vencida. Nada mais errado.

A Organização Mundial de Saúde tem lançado alertas frequentes, quer para o perigo de ressurgimento dessas tais doenças julgadas “extintas”, pelo mundo “medicamentado”, quer para a continuidade dessas doenças em locais no planeta onde são o presente endémico de seres humanos que não tem manhãs de futuro com saúde.

A peste negra continua a ser endémica em zonas da África, América e Ásia. Em 2003 registaram-se mais de 2000 mil casos mortais só em nove países. A comunidade científica que segue a Yersinia pestis tem emitido sinais de alarme (ver por exemplo, Welch, T.J., PLoS One, Março de 2007) sobre a possibilidade de uma estirpe multi-resistente aos antibióticos que conhecemos poder emergir e reavivar as ilustrações pestilentas de mortandade dos livros de história para as capas dos jornais.

Neste quadro, ainda não negro para o mundo mais preocupado com a dívida pública em crise (Europa, Estados Unidos…), importa utilizar os conhecimentos que as ferramentas de investigação da bioquímica moderna nos permitem obter pelo mapeamento e análise do genoma dos indivíduos.
Conhecendo os genes da livraria genómica de um dado patogénio, podemos entender melhor como ele actua, identificar as proteínas e outras biomoléculas da sua toxicidade, revelar o seu papel no equilíbrio microbiano necessário para a saúde (relembremo-nos que sem bactérias não existiríamos, como tão bem é ilustrado na Banda Desenhada que se segue!).


Os avanços técnicos permitem hoje a recolha, recuperação e sequenciação de ADN (ácido desoxirribonucleico, molécula estrutural e codificante dos genes) proveniente de amostras vestigiais, quantidades cerca de um milhão de vezes inferiores a um grama, incrustadas nos restos mortais inorgânicos (dentes e matriz óssea) de vítimas mortas há muitos séculos. No caso em notícia, possibilitaram aos investigadores desenterrar os genes e a reconstituição de 99,9% do genoma de Yersinia pestis num conjunto de quatro seres humanos que foram enterrados entre 1348 e 1350, em East Smithfield, na Inglaterra.



Os resultados publicados na revista Nature contribuem para a importância dos estudos paleogenéticos. Os investigadores verificaram que o micróbio que exterminou quase um terço da população europeia, na baixa idade média, é geneticamente muito idêntico com os seus parentes actuais. Isto sugere uma mesma patogenicidade entre as variantes medievais e actuais da Yersinia spp. Outros factores, como as condições de vida, higiene pública, entre outros, terão sido determinantes para a calamidade pestilenta medieval.

(continua)

António Piedade

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

PIRATAS NA JOANINA


Um outro álbum de banda desenhada que mostra uma invasão da Biblioteca Joanina, desta vez por piratas é "L'ombre du démon", de Jean-Michel Charlier (série Barbe Rouge, publicada pela Dargaud). Mostro aqui a prancha original antes das legendas e da colocação da cor.

Clicar no na figura para a ver melhor.

A BATALHA DO BUÇACO EM BANDA DESENHADA


E aqui a página toda de "A Batalha do Buçaco" de José Pires (Âncora) de onde foi tirada a imagem anterior.

1810: O SAQUE DA BIBLIOTECA JOANINA


Da banda desenhada recente de José Pires "A Batalha do Buçaco" (Âncora) reproduzo a imagem do saque da BIilioteca Joanina pelas tropas napoleónicas, derrotadas no Buçaco. É certo que nos franceses estiveram na Biblioteca, mas a representação impressionante da fúria invasora será um pouco exagerada...

Clicar para ver melhor.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Amadora “invadida” pelos quadradinhos

Informação recebida da editora Gradiva

O Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora acolhe, no próximo fim-de-semana, Korky Paul, o autor da Bruxa Mimi, uma das personagens mais conhecidas do público infanto-juvenil e que, em Portugal, é editada pela Gradiva Publicações

Este autor estará no sábado e no domingo à tarde no Forum Luís de Camões, na Brandoa para sessões de autógrafos e conversa com os visitantes. Fará também uma conferência no dia 1 de Novembro, pelas 15 horas, no auditório do Festival.

A pensar nos visitantes mais novos, o Amadora BD organiza actividades que decorrem no Fórum Luís de Camões. No próximo domingo, pelas 11.30 horas, realiza-se mais uma Hora do Conto sendo, desta vez, será contada a história A Bruxa Mimi no Inverno.

Em ano de comemorar 20 edições, o Amadora BD, que se prolonga até ao dia 8 de Novembro, é cenário para dezenas de exposições de autores estrangeiros e nacionais. Entre os primeiros estão Mauricio de Sousa (Turma da Mônica); Achdé (Lucky Luke); François Boucq (Bouncer) e Korky Paul (A Bruxa Mimi). Entre os segundos estão Rui Lacas, Hugo Teixeira, Ricardo Cabral e Osvaldo Medina, entre outros.

Quanto às exposições, destaca-se a retrospectiva da obra de Rui Lacas, 50 anos de Astérix, 50 anos de carreira de Maurício de Sousa. Além destas, podem ver-se exposições de homenagem a Vasco Granja (na Galeria Municipal Artur Bual), retrospectiva/biográfica de Héctor Germán Oesterheld (no Centro Nacional de BD e Imagem), Cartoon (Recreios da Amadora), Em Traços Miúdos – Pedro Leitão, José Abrantes e Ricardo Ferrand (Kidzania), Riscos do Natural – José Ruy (Escola Superior de Teatro e Cinema) e uma mostra dedicada ao centenário do nascimento de Adolfo Simões Mueller (na Casa Roque Gameiro).

Mais informação pode ser obtida em http://www.amadorabd.com/

sábado, 26 de setembro de 2009

A LÓGICA AOS QUADRADINHOS


Uma recensão no New York Times de hoje remete para um livro de "comics" com base científica:

"Algorithm and Blues, Jim Holt

Well, this is unexpected — a comic book about the quest for logical certainty in mathematics. The story spans the decades from the late 19th century to World War II, a period when the nature of mathematical truth was being furiously debated. The stellar cast, headed up by Bertrand Russell, includes the greatest philosophers, logicians and mathematicians of the era, along with sundry wives and mistresses, plus a couple of homicidal maniacs, an apocryphal barber and Adolf Hitler.(...)"

Ver o resto aqui.

A referência do livro é:

LOGICOMIX
Written by Apostolos Doxiadis and Christos H. Papadimitriou
Illustrated by Alecos Papadatos and Annie Di Donna
347 pp. Bloomsbury. $22.95

terça-feira, 28 de outubro de 2008

FESTIVAL DE BANDA DESENHADA DA AMADORA


O Festival de Banda Desenhada da Amadora deste ano é dedicado ao tema "Tecnologia e Ficção Científica". Para mais informações ver aqui.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Um cartunista criacionista



“Boneco rebelde”
é o título de um personagem de banda desenhada de 1939, que saiu da pena de um autor português de 17 anos, Sérgio Luiz. Infelizmente este autor pouco tempo teve para mostrar o seu talento pois faleceu passados quatro anos com tuberculose. Em homenagem a ele, “Bonecos rebeldes” é o nome de uma recente editora de banda desenhada, de José Manuel Vilela, que está a publicar esplêndidas edições de clássicos da banda desenhada como o "Tarzan" e o "Príncipe Valente".

Pois foi a “Bonecos Rebeldes” que editou recentemente um moderno clássico da banda desenhada, a “Geração Lasca. 50 anos de tiras” do desenhador norte-americano Johnny Hart (1937-2007). O título original era “Growing old with B.C.”, do nome "B.C." (iniciais de "Before Christ") da série em inglês, que saiu pela primeira vez em 1958, fazendo portanto cinco décadas este ano. Trata-se de uma série de tiras passadas no tempo da pedra lascada (o título português dado pelo tradutor Jorge Lima é particularmente feliz). Nelas há todo um conjunto de personagens originais, embora inspirados em amigos do desenhador (que é também co-autor de “O Feiticeiro de Oz”, uma série medieval em parceria com Brant Parker), que vivem situações de um humor por vezes absurdo que me divertiram imenso nas páginas de “A Capital” quando em Portugal havia esse vespertino. Os bonecos de Hart conheceram um enorme êxito, tendo sido publicados em mais de 1300 jornais de todo o mundo. O autor faleceu subitamente com um ataque cardíaco, a trabalhar na sua mesa de trabalho, quando o original do álbum retrospectivo da sua obra, agora saído em português, estava em produção adiantada. Não admira, por isso, que a família o recorde com saudade em depoimentos publicados no livro. Um neto com jeito para o desenho continua hoje o seu trabalho.

Tal como nos “Flinstones”, que são de 1960, e que a televisão tornou famosos, os bonecos humanos de Hart convivem alegremente com os dinossauros. Quando o cartune “B.C.” surgiu estavam na moda as bandas desenhadas pré-históricas, uma moda que se prolongou com o êxito alcançado junto do grande público e que me levou, nos anos 70, a criar um boneco dinossáurico (“Plunk”) amigo dos humanos que saiu primeiro a “stencil” no jornal dos estudantes do liceu e depois a “offset” no jornal dos estudantes da Faculdade. Apesar de simpatizar com o humor de muitas das tiras pré-históricas de Hart (um humor com certas semelhanças com o dos “Peanuts”, que está a conhecer uma edição sistemática em português) não posso, porém, deixar sem crítica algumas das posições pessoais do autor. Acontece que, numa altura avançada da sua vida e parece que por influência de canais evangélicos por cabo, Johnny Hart se tornou um cristão fundamentalista, o que o levou a defender posições criacionistas. Portanto, a convivência de humanos com dinossauros poderia ser para o autor mais do que um simples recurso humorístico...


Claro que qualquer artista tem direito à sua vida privada e às suas opiniões privadas. Mas o pior é quando põe a sua arte ao serviço da sua ideologia, o que em geral redunda em prejuízo da sua arte: nalguns cartunes do “B.C.” Hart passou definitivamente as marcas quando resolveu afirmar a superioridade do cristianismo em relação ao judaísmo - desenhou um candelabro judaico a transformar-se numa cruz cristã - ou até ridicularizar o islamismo - numa tira a palavra “slam” aparece ao alto e um personagem entra numa casinha de banho identificada por um crescente e diz: “É do meu nariz ou cheira aqui mal?”). Os protestos foram tais que o “Los Angeles Times” se sentiu obrigado a mudar alguns cartunes de Hart para as páginas de religião. A controvérsia marcou os últimos anos da vida de Hard, que tentou sem grande sucesso justificar-se. É caso para dizer: No melhor pano cai a nódoa!

segunda-feira, 2 de julho de 2007

O UNIVERSO EM BANDA DESENHADA




















Minha crónica do último "Sol":

Durante milhares de milhões de anos, o Universo existiu sem sexo. As células vivas dividiam-se simplesmente ao meio sem se cruzarem. Até que, a certa altura, como mostra a “História do Universo em Banda Desenhada I” (Gradiva, 2007), as cadeias de ácido nucleico de uma célula se começaram a juntar às de outra. Diz uma das células na página 17, coladinha à outra: “Só estou a fazer isto, Anita, porque quero que os teus descendentes sejam uma melhoria em relação a ti!” Responde a outra: “Egoísta!” E comenta o autor duas páginas mais adiante: “O sexo era bom para as diferenças individuais e as diferenças individuais eram boas para a sobrevivência. Os seres sexuais sobreviveram e os que se saíram melhor foram os que gostavam mais de sexo – razão por que o sexo sabia bem então, sabe bem agora e só pode saber melhor ainda amanhã!”

O autor é Larry Gonick, um cartunista norte-americano, que tem formação científica avançada (completou uma licenciatura e um mestrado em Matemática na Universidade de Harvard). No seu sítio orgulha-se de ter habilitações a mais para a sua profissão. O livro que saiu agora em português é o primeiro de uma série de quatro – até ver... - que nos trazem desde o “Big Bang” até à Revolução Americana. O terceiro da série ganhou o Harvey Prize, uma espécie de óscar dos livros de cartunes.

O facto de esses livros serem aos quadradinhos pode enganar, levando a pensar que se trata de livros “light”. Não são: são apenas leves no sentido em que tratam a ciência e a história mais pesadas de um modo original. O primeiro volume tem, como os outros, uma extensa bibliografia no final. E vê-se que o autor estudou muito os assuntos antes de lhes pegar com o seu lápis aguçado e o seu humor inconfundível. Não é fácil ser leve quando o assunto, como a teoria da evolução, é pesado. O astrofísico Carl Sagan comenta na contracapa: “O volume 1 é extraordinário”, ao que o arqueólogo Richard Leakey acrescenta: “Não é simplesmente uma BD, mas uma boa história, que me dá gosto recomendar”. A mim também.


quarta-feira, 23 de maio de 2007

OS CEM ANOS DE HERGÉ


Hoje, dia 22 de Maio de 2007, comemora-se o centenário do nascimento de Hergé, o autor de Tintim. No álbum "A Estrela Misteriosa", que apareceu pela primeira vez em 1942, há uma expedição de cientistas europeus, onde participa o físico da Universidade de Coimbra João Pedro dos Santos...