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sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A PLUVISILVA (AMAZÓNIA) E SOBREVIVÊNCIA HUMANA


Na próxima 4ª feira, dia 30 de Outubro de 2019, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra A PLUVISILVA (AMAZÓNIA) E SOBREVIVÊNCIA HUMANA”, por Jorge Paiva, um dos principais botânicos e divulgadores de ciência portugueses, investigador do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra.
Esta palestra integra-se no já popular ciclo "Ciênciaàs Seis – 4ª temporada", coordenado por António Piedade, Bioquímico, escritor e Divulgador de Ciência.

Sinopse da palestra:
O Planeta Terrestre tem cerca de 4.600 milhões de anos (Ma). A vida surge no meio aquático, quase 2.000 Ma depois da formação do Globo Terrestre. Durante cerca de outros 2.000 Ma foram-se diferenciando muitas formas de vida no meio aquático, até que os seres vivos evoluíssem e conseguissem adaptações para começarem a ocupar o meio terrestre desabitado (570-500 Ma). A biodiversidade foi sempre aumentando, quer no meio aquático, quer no terrestre, apesar de épocas de diminuições massivas de biodiversidade, até atingir o máximo do seu valor durante a era Cenonozóica, no Terciário, período em que surgem os Hominóides. 7-6 Ma houve não só alterações climáticas, como também relevantes movimentos tectónicos, tendo-se originado o Vale do Rift, com altas montanhas e vastas planícies, no que resultou uma grande diversidade de habitats e, portanto, elevada biodiversidade e um grupo de Símios, os Cercopitecídeos. Aparecem, então, os principais grupos de animais herbívoros das savanas africanas e terão surgido, há cerca de 6 Ma, nessa região africana, os primeiros representantes dos Hominídeos. Isto é, os Hominídeos surgem numa época de elevada biodiversidade (Terciário), numa área de grandes superfícies lacustres (Lagos do vale do Rift), portanto muita água doce, e junto das florestas tropicais, ecossistemas de elevadíssima biodiversidade. É assim que, nessa mesma área do vale do Rift (Omo, Olduvai e Lago Turkana), aparecem fósseis do Homo habilis (± 2 Ma). Onde se situa a garganta do Olduvai, existia um grande lago, no qual desaguavam vários rios ladeados de florestas ripícolas de galeria (nas margens dos rios), que forneciam frutos e outros produtos, e grandes quantidades de mamíferos, que serviram de alimento a esses nossos antepassados.

Portanto, a nossa espécie só sobrevive desde que haja água, elevada biodiversidade e florestas, onde se encontram os maiores produtores de biomassa, as enormes árvores tropicais.

Há cerca de 1,8-1,5 Ma surge o Homo erectus, nómada e caçador. Com as alterações climáticas de há 1,5 Ma, aumenta a área de savanas e sobrevive este caçador nómada, que migra para o Sul e para o Norte, penetrando no continente asiático. Há cerca de 1 Ma, segundo alguns autores, o H. erectus evolui, aparecendo o H. neandertalensis (± 120 mil anos) e o H. sapiens (± 100 mil anos), que chegaram a conviver.

O certo é que ao longo da dispersão pelo Globo Terrestre fomos sempre derrubando florestas para combustível (lenha), construção de habitações e embarcações, produção de mobiliário e utensílios, bem como para outros fins.

Um exemplo de devastação florestais com resultados drásticos para a vida humana, foi o que aconteceu na Ilha de Páscoa. Esta ilha, Rapa Nui na língua nativa, situada no Oceano Pacífico (Polinésia Oriental) e que hoje pertence ao Chile (3700 km da costa oeste deste país) esteve coberta por uma floresta subtropical antes da chegada de polinésios, há cerca de 1600-1700 anos (300-400 depois de Cristo). Esta floresta foi completamente devastada pelos rapanuios, o que, praticamente, provocou a extinção deste povo.

Apesar de se ter este conhecimento, as florestas continuam a ser derrubadas a um ritmo verdadeiramente alucinante e drástico. Actualmente, com potentes máquinas e sofisticadas técnicas, por cada 11 segundos é derrubada uma área de floresta tropical correspondente à superfície do relvado de um campo de futebol, ou seja o equivalente à área de Inglaterra por ano. Assim, resta no Globo Terrestre pouco mais de 20% da cobertura florestal que existia depois da última glaciação (Würm), isto é, após o início do período actual, o Holoceno (Antropogénico). Números da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) revelam que, na década de 2000 a 2010, 13 milhões de hectares/ano dessas florestas tropicais foram derrubados. Por exemplo, no Brasil, que está entre os cinco países com maior área de floresta, a perda chegou a 2,6 milhões de hectares anuais. Da “Mata Atlântica” brasileira, outro ecossistema florestal subtropical, resta menos de 6% do que existia quando os portugueses descobriram o Brasil.

Sabemos que as florestas, particularmente as equatoriais (pluvisilva), devido à elevada biomassa vegetal que elaboram, são ecossistemas de elevadíssima biodiversidade. Sabemos, ainda, que é nestas florestas, que estão os maiores produtores de biomassa (árvores com mais de 5.000 toneladas), um enorme volume de sequestradores de carbono (plantas), pela quantidade de dióxido de carbono (CO2) que utilizam e imensas (plantas) fábricas naturais de oxigénio (O2).

Para a criação massiva de gado bovino são necessárias amplas áreas de pastagens, o que levou ao derrube de enormes superfícies de florestas, particularmente das tropicais. Além de ter sido mais um contributo para o aumento de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera devido à devastação da floresta tropical, o elevadíssimo número de reses, constitui, actualmente, um dos maiores factores de poluição atmosférica, pois cada um destes ruminantes liberta, diariamente, para a atmosfera cerca de 50 litros de metano.

Devastação florestal, particularmente da pluvisilva, e imensas manadas com inumeráveis cabeças de gado bovino, são, actualmente, dos factores mais relevantes que contribuem para as alterações climáticas e, consequentemente, para o Aquecimento Global.

Além de tudo isso, para se conseguirem rapidamente vastas áreas desarborizadas para campos agrícolas e agropecuária, anualmente incendeiam-se áreas florestadas de maneira incontrolada e devastadora, aumentando ainda mais o volume de gás carbónico (CO2) na atmosfera.

Apesar de se saber isso, a grande maioria da população mundial não tem a mínima noção do que está a acontecer ao planeta em que vivemos e que não é mais do que uma pequeníssima “ilha” do Universo, que temos vindo a desflorestar, assim como também é uma enorme “gaiola”, que temos vindo a poluir há milénios (depois da designada “Revolução Industrial” emitimos para a atmosfera terrestre 72.000 produtos químicos que ali não existiam) e a provocar-lhe uma elevação de temperatura tal que se tornará inabitável para a espécie humana.

ENTRADA LIVRE
Público-Alvo: Público em geral
Link para o evento no facebook

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

JL: Amazónia, "onde nasce o perigo, cresce também a salvação?"


[Na edição de 12 de setembro do JL, entre muitas outras coisas, um pequeno dossiê sobre os fogos da Amazónia, de costas, mas não voltadas, com Viriato Soromenho Marques, com quem, aliás, concordo com as teses. Uma visão, apesar de tudo, optimista, baseada na literatura Portuguesa e Brasileira e muito mais]    

A selva, romance autobiográfico de Ferreira de Castro publicado em 1930, descreve o período de 1914/16 que este passou no seringal Paraíso, na Amazónia, no apogeu do ciclo da borracha. Dedica-o a “essa majestade verde, soberba e enigmática, que é a selva amazónica,” pelo que nela sofreu e pela coragem que lhe deu, assim como à gente que “à extracção da borracha entregava a sua fome, a sua liberdade e a sua existência,” numa “epopeia que não ajuíza quem, no resto do Mundo, se deixa conduzir, veloz e comodamente, num automóvel com rodas de borracha … que esses homens, humildemente heróicos, tiram à selva misteriosa e implacável.”

Ferreira de Castro descreve com precisão as duras condições de vida dos seringueiros, a extracção do látex da Hevea brasiliensis e o processo insalúbre de obtenção da borracha, usando o que descreve como fumo ácido e asfixiante. Mais recentemente, em 2008, Milton Hatoum, em Orfãos do Eldorado inventou o bairro “Cegos do Paraíso” onde viviam invisuais vítimas da defumação do látex.  A procura mundial por borracha originou, de 1890 a 1908, no “Estado Livre do Congo” do rei Leopoldo II da Bélgica, um regime de escravatura e atricidades para extrair o látex de um tipo de liana africana. Esta situação foi denunciada por Joseph Conrad em “O coração das trevas”, de 1902, assim como por Mark Twain e Conan Doyle, entre outros. No Brasil não foi tão duro, mas Ferreira de Castro descreve como os trabalhadores ficavam na prática “presos” por terem de pagar as dívidas que se acumulavam. Tudo isso é agora uma memória, mas a recordação do sofrimento ficou.

Monteiro Lobato, em A Geografia de Dona Benta, de 1935, coloca Pedrinho a perguntar por que razão a produção de borracha brasileira foi ultrapassada pelas plantações dos Holandeses e Ingleses que levaram a seringueira para a Ásia. Enquanto no Brasil se explorava a floresta nativa, com umas dez árvores da borracha por hectare, misturadas com muitas outras espécies, na Ásia usava-se o sistema de plantação. Como é também referido por Ferreira de Castro, houve interesse internacional em introduzir esse sistema no Brasil, nomeadamente por Henry Ford, mas tal nunca se concretizou.

O fim do ciclo da borracha, que agonizou até meados do século XX, não foi apenas devido ao aparecimento de outros locais de produção de borracha natural. Foi também causado pelo desenvolvimento da produção de borracha sintética a partir do petróleo. Claro que podemos dizer que subtituímos um problema por outro, mas a necessidade de plantações intensivas, a exploração dos seringueiros e a pressão sobre os ecossistemas, desapareceu.

Mário de Andrade que faz sair Macunaíma – o herói sem nenhum carácter, publicado em 1928, da Amazónia, embora crítico da ideia de progresso de Monteiro Lobato, não a rejeita. Nas suas notas das viagens, realizadas de 1926 a 1929 e publicadas em “O turista aprendiz,” descreve o progresso da Amazónia como algo bom. Está no espírito dos tempos actuais a rejeição filosófica (não na prática) da ideia de progresso. A história da ciência e da técnica mostra-nos que o anacronismo é dificil de evitar e que muitas supostas relações causais ou situações sem saída são ilusões causadas pela nossa falta de conhecimento.

Os incêndios na Amazónia são uma situação grave mas não são uma catástrofe global. Um pico de queimadas, o fumo nas grandes cidades, as imagens de satélite e as redes sociais, chamaram a atenção para um desperdício de energia e recursos ambientais que, infelizmente, acontece há muitos anos. Estes podem – e não é pouco - provocar perturbações nos equilíbrios dos ciclos da água, ameaçar a biodiversidade, aumentar as partículas de fumo na atmosfera, entre outras coisas, mas não vão causar a diminuição do oxigénio no planeta nem originar um grande aumento do dióxido de carbono na atmosfera pois este já havia sido fixado pelas plantas.

O uso do fogo para criar terra livre é referido por Ferreira de Castro, mas usá-lo hoje para criar espaços livres, pastagens e terrenos de cultura na Amazónia não parece fazer sentido. Não é eficiente nem sustentável - em poucos anos esgota os terrenos e acelera a desflorestação - sendo possível manter e até aumentar de outras formas os níveis de produção dos solos já em uso, controlando a erosão, sem ameaçar ecossistemas e aumentar a desflorestação.

Outra fonte de problemas na Amazónia é a mineração. Para além dos receios em relação à possibilidade de serem atribuídas licenças para exploração mineira de grandes dimensões na Amazónia, um grande problema têm sido as muitas minas artesanais ilegais que vão causando desflorestação e contaminando os solos e as pessoas que nelas trabalham ou com elas contactam.

O mapeamento das espécies e o registo das assinaturas genéticas e das composições químicas, são fundamentais para a preservação e valorização da biodiversidade da Amazónia - o conhecimento aberto e público dificultam a apropriação e contribuem para o uso racional. No entanto, a ideia, sustentada pelas estimativas de espécies ainda desconhecidas, de que poderemos encontrar com maior probabilidade novos medicamentos na floresta da Amazónia é uma ilusão. A maior parte dos cerca de quarenta novos medicamentos descobertos anualmente no mundo é sintética. E poderemos igualmente encontrar, tal como no conto de Borges, tesouros no nosso quintal: moléculas de novos medicamentos escondidas nas plantas do nosso jardim. E não tenhamos receio: se descobrirem novos fármacos em plantas amazónicas, a indústria preferirá inventar um processo de síntese a partir de materiais sustentáveis e baratos do que enfrentar o problema do cultivo da planta, ou, o que seria inaceitável, da sua exploração ilegal. 

Como nos mostra a história da borracha e da química medicinal, os problemas vão criando novas soluções que criam novos problemas que, em todo o caso, só se resolvem com mais ciência. Não esqueçamos o verso de Hölderlin que se reinventa em Heidegger, Ulrich Beck e Hubert Reeves: “onde há o perigo, cresce também a salvação.”