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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O PAI DA PÍLULA EM PORTUGAL


Minha crónica publicada hoje no "Sol" (na foto Carl Djerassi):

A 28 de Outubro próximo a Universidade do Porto vai conceder a sua mais alta distinção científica – o doutoramento honoris causa – ao chamado “pai da pílula”: o bioquímico norte-americano Carl Djerassi, professor da Universidade de Stanford que, nos anos 50, efectuou a primeira síntese de um esteróide contraceptivo oral, a pílula.

Djerassi tem, porém, uma “segunda vida” como autor de peças de teatro científico, isto é, peças que recorrem a temas científicos. Já tinham sido representadas em Portugal as suas peças Esse espermatozóide é meu, no Teatro da Trindade, Lisboa, em 2004, e Oxigénio, no Teatro do Campo Alegre, pela Seiva Trupe, no Porto, em 2006, esta em co-autoria com o Nobel da Química Roald Hoffmann. Aproveitando a vinda do eminente cientista, estrearão em Portugal mais duas das suas peças: Falácia, de novo pela Seiva-Trupe, sobre as íntimas relações entre a arte e a química, e Cálculo, em Coimbra, pelo companhia Marionet, sobre a prioridade na invenção do cálculo infinitesimal disputada entre o inglês Isaac Newton e o alemão Gottfried Leibniz.

Em Cálculo, cuja tradução em português sairá em breve do prelo da Imprensa da Universidade de Coimbra, Djerassi serve-se da linguagem do teatro para nos dar conta não só da famosa controvérsia do tempo da Revolução Científica, mas também das perenes questões associadas ao carácter humano da ciência. A construção da ciência é um drama que se insere no grande drama humano no mundo. A personalidade de Newton dá ensejo, no palco, a um personagem que é ao mesmo tempo um génio e um vilão. Um grande génio, mas também um grande vilão, uma pessoa que, de forma inteligente, não hesita em escolher refinados meios para alcançar os seus pérfidos fins. Em particular, presidindo à Royal Society, a sociedade científica mais antiga do mundo em contínua actividade, não hesitou em nomear uma comissão internacional de sábios inteiramente controlada por ele e com trabalho em larga medida forjado por ele para corroborar a sua posição na polémica da invenção do cálculo. O pobre Leibniz, sem ser ter sido visto nem achado, acabou condenado como um reles plagiador. Quase não há matemática na peça. Não há nenhum cálculo. Mas há pessoas calculistas. Há questões pessoais, defeitos psicológicos, falhas éticas, males bem anteriores ao século das luzes e que permanecem actuais nos tempos de hoje.

Carl Djerassi, que é professor jubilado da Universidade de Stanford, confrontado com a ameaça de um cancro, resolveu a certa altura mudar de vida. De cientista passou a escritor, procurando como ele diz fazer “science-in-theatre”, isto é, colocar a ciência dentro da ficção: “Procuro contrabandear ciência na ficção para que as pessoas de divirtam e ao mesmo tempo aprendam”.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Lançamento do livro DARWIN AOS TIROS E OUTRAS HISTÓRIAS DE CIÊNCIA



O livro DARWIN AOS TIROS E OUTRAS HISTÓRIAS DE CIÊNCIA, da autoria de dois também autores deste blogue (Carlos Fiolhais e David Marçal) e editado pela Gradiva, irá contar no seu lançamento com a actuação dos Cientistas de Pé, grupo de stand-up comedy com cientistas.

2 de Novembro de 2011
FNAC Colombo (Lisboa)

18h - Espectáculo dos Cientistas de Pé
19h - Apresentação do livro com a presença dos autores

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Newton, Leibniz e Djerassi


Notícia recebida da companhia marionet:

A marionet, companhia de teatro de Coimbra, vai reunir nesta cidade, no próximo mês de Novembro, três personalidades marcantes do mundo da ciência: Isaac Newton, Gottfried Leibniz e Carl Djerassi.

O pretexto para esta reunião é a estreia portuguesa de ‘Cálculo’, no dia 17 de Novembro no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra(UC), uma peça teatral de Carl Djerassi que revela a célebre disputa entre Newton e Leibniz sobre a prioridade na invenção do cálculo matemático.

Djerassi, químico de renome por ter sido um dos que sintetizou o primeiro esteróide contraceptivo oral e, por isso, frequentemente cognominado de “pai da pílula”, tem-se dedicado nas últimas décadas à criação literária, onde vem reflectindo sobre os modos de funcionamento da ciência e dos cientistas e sobre as questões éticas que muitas vezes se lhes colocam. A marionet, companhia que se tem destacado no cruzamento entre teatro e ciência, encontra-se assim neste espectáculo com um autor com preocupações artísticas da mesma natureza.

Em ‘Cálculo’, uma peça que escreveu em 2003, cria um enredo em torno do embate aceso entre Newton e Leibniz a propósito da invenção do cálculo matemático, centrado em particular no comité da Royal Society inglesa criada para avaliar qual dos cientistas teria sido o primeiro. Curiosamente, Newton, na época presidente da Royal Society, terá sido ele próprio a nomear os membros desse comité e a escrever o relatório final, atribuindo-se a si próprio a prioridade na invenção do cálculo. A peça, explorando estas manobras de bastidores, coloca um foco sobre o comportamento moral de Newton e dos membros do comité, e sublinha a enorme importância que é dada, mesmo hoje em dia, à prioridade nas descobertas ou invenções científicas.

A visita destas três personalidades a Coimbra será composta por vários momentos. No dia 15 de Novembro às 17h, no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, Carl Djerassi dará uma palestra intitulada “Science in theatre: from the page to the stage”, seguindo-se, no mesmo local, às 18h, o lançamento da tradução portuguesa de ‘Cálculo’ editada pela Imprensa da Universidade de Coimbra.

A estreia do espectáculo ‘Cálculo’ pela marionet, será no dia 17 de Novembro às 21h30, na sala Carlos Ribeiro do Museu da Ciência, e a peça ficará em cena no mesmo local até ao dia 3 de Dezembro, de 4ª a Sábado, às 21h30.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Introdução histórica a Cálculo por Carl Djerassi


Publico a introdução de Carl Djerassi à sua peça de teatro Cálculo, que vai estrear, com a presença do autor, em Coimbra em Novembro próximo, ao mesmo tempo que a Imprensa da Universidade de Coimbra lança o livro contendo o respectivo texto. A peça aborda a rivalidade entre Newton e Leibniz a propósito da prioridade na invenção do cálculo:

"Praticamente todas as sondagens da escolha do público para as pessoas mais importantes do segundo milénio incluem o nome de Isaac Newton. Uma sondagem publicada na edição de 12 de Setembro de 1999 do Sunday Times Magazine de Londres classificou-o em primeiro lugar, acima mesmo de Shakespeare, Leonardo da Vinci, Charles Darwin e similares estrelas canonizadas.

Entre os seus feitos de mais relevo está a investigação, começada por volta de 1670, sobre a luz e a cor (publicada finalmente em 1704 no seu livro Opticks), mas ele é mais conhecido pela enunciação das leis do movimento e da gravitação e as suas aplicações à mecânica celeste, como está sumariado num dos maiores tomos da ciência, o Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, habitualmente encurtado para PRINCIPIA – cuja 1.ª versão foi publicada em 1687.

O ter colocado a Física sobre uma firme fundação experimental e matemática – uma abordagem cunhada de “Newtonismo” – granjeou a Newton a honra máxima de ser considerado o pai do pensamento científico moderno. Contudo, uma análise histórica revisionista, baseada, em parte, na descoberta do economista John Maynard Keynes de um enorme acervo de papéis e documentos não publicados, levou alguns investigadores a considerar Newton como o último grande místico em vez de primeiro cientista moderno. Apesar do seu trabalho em Física e Matemática ter desencadeado a época do Iluminismo, os historiadores revisionistas salientam que, nem como pessoa, nem como intelecto, ele lhe pertencia. À medida que, na última metade do séc. XX, se iniciou o desmascarar de alguma da hagiografia em torno de Newton, tornou-se evidente que este despendia muito mais tempo com a Alquimia e a Teologia Mística do que com a “ciência” – tendo escrito mais de um milhão de palavras sobre cada um destes dois interesses, muito mais do que todos os seus escritos sobre Física juntos! A sua biblioteca alquímica era enorme e as suas experiências alquímicas, embora mantidas secretas para todos à excepção de alguns de íntimos e alguns criados, consumiram muitas das suas horas do dia durante décadas.

Até as suas convicções religiosas tiveram de ser mantidas em segredo, porque a sua fé no Arianismo (que sustenta que Cristo e Deus não têm a mesma essência) era considerada herética no seio da Igreja Anglicana.

Nascido no dia de Natal no ano da morte de Galileu, Newton estava tão convencido dos seus poderes sobrenaturais que uma vez construiu um anagrama do seu nome (Isaacus Neutonus) em termos de “aquele que é sagrado para Deus” (Jeova sanctus unus). O seu estatuto de membro do Trinity College e de professor “Lucasiano” de Matemática em Cambridge (um cargo agora ocupado por Stephen Hawking), a sua posterior promoção para o importante cargo governamental de Master of the Mint, e a concessão do título de cavaleiro pela rainha Anne, teriam exigido uma clara adesão e até ordenação na Igreja Anglicana. Contudo, Newton, Provedor da Casa da Moeda, conseguiu evitá-la durante toda a sua vida de adulto, tendo um desafio aberto apenas surgido em 1727, no momento da sua morte, com 85 anos, quando recusou os últimos ritos. Mesmo este incumprimento não impediu um funeral de estado na Abadia de Westminster, nem a inauguração aí, em 1731, de um monumento como justo reconhecimento das suas elevadas contribuições para a ciência e dos seus serviços à Inglaterra.

Como pessoa, Newton não só era profundamente complexo, como também moralmente imperfeito. Alguns adjectivos que poderiam ser utilizados para descrever as facetas da sua personalidade são distante, solitário, reservado, introvertido, melancólico, “sem sentido de humor”, puritano, cruel, vingativo e, talvez o pior de todos, implacável. Mesmo uma das mais famosas citações de Newton, “Se eu vi mais além foi por me apoiar nos ombros de gigantes”, está aberta a diferentes interpretações. Muitas vezes citada como um sinal da sua modéstia, foi também interpretada como o derradeiro embrulhar venenoso de uma carta dissimuladamente cortês endereçada a um dos seus mais pungentes inimigos científicos, Robert Hooke, de pronunciada estatura anã. Vale a pena assinalar que a origem da frase antecede longamente Newton, uma vez que remonta pelo menos a John Salisbury, no século XII.

O traço de carácter mais relevante para a presente peça, Cálculo, é a natureza obsessivamente competitiva de Newton. Frank E. Manuel escreveu em 1968, numa das grandes biografias de Newton, que “a violência, a amargura, e a paixão incontrolada dos ataques de Newton, embora dirigidos através de canais socialmente aceites, são quase sempre desproporcionados face aos factos apurados e ao carácter das situações”. Este argumento, que caracteriza alguns dos conflitos mais conhecidos e acutilantes de Newton como aqueles com o físico Robert Hooke ou John Flamsteed, o astrónomo real, aplica-se como uma luva à batalha, longa de décadas, com um contemporâneo alemão de proeza intelectual quase semelhante, Gottfried Wilhelm von Leibniz.

Para além das suas contribuições monumentais para a Física, sumariadas no seu PRINCIPIA, Newton foi também um inventor do Cálculo (a que primeiro chamou Método de Fluxões). No alto do Parnaso ou no fundo do túmulo, ele exclamaria imediatamente: “Um inventor? Não fui eu o criador do Cálculo – um alicerce da matemática moderna uma vez que revelou pela primeira vez a relação entre velocidade e área?” Porque será que tal génio colocaria sequer tal questão? Porque Sir Isaac era também um ser humano falível, para quem a precedência – e especialmente a precedência quanto ao Cálculo – importava acima de tudo o resto.

Mas a precedência só pode ser estabelecida após se ter chegado a um acordo quanto à definição do termo. E, em ciência, onde múltiplas descobertas independentes ocorrem demasiado frequentemente, semelhante definição, sem ambiguidades, ainda não foi produzida.

Por exemplo, na peça Oxigénio (escrita em conjunto com Roald Hoffmann) perguntámos se a derradeira honra da descoberta do oxigénio – um acontecimento que desencadeou a revolução da química moderna – deveria ser atribuída ao primeiro descobridor, à pessoa que primeiro publicou, ou àquele que primeiro compreendeu a natureza da descoberta. No caso do Cálculo, é agora claro que Newton foi o primeiro em termos de concepção, mas Leibniz o primeiro em termos de publicação. Mas uma vez que, de acordo com o pensamento e as palavras de Newton, “segundos inventores não têm direitos”, a resolução desta disputa de precedência requereu, para ele, uma luta até à morte, como um gladiador num circo romano. Mas, ao contrário dos gladiadores, Newton era um mestre consumado no uso de sub-rogados, tendo continuado a luta mesmo após o enterro de Leibniz em 1716.

A luta pela precedência do Cálculo – com cada um dos protagonistas, no limite, a acusar o outro de pirataria – foi, nas palavras de William Broad, “travada na sua maior parte pelo amontoado de pequenos escudeiros que rodeavam os dois grandes cavaleiros”. É através da história de alguns dos “pequenos escudeiros” de Newton que a peça Cálculo procura examinar um dos maiores lapsos éticos daquele.

O cenário foi concebido por Nicolas Fatio de Dullier, um brilhante filósofo natural de uma família de Genebra, que se tornou no mais bajulador discípulo de Newton. Nos últimos anos têm vindo à superfície provas indirectas, mas razoavelmente persuasivas, de uma atracção homossexual (embora não consumada) entre Newton e Fatio, vinte anos mais novo. Por vezes intitulado de “o macaco de Newton”, Fatio disparou a primeira salva brutal, acusando abertamente Leibniz de plágio. Tal como Newton, Fatio nunca casou; tal como Newton, entregou-se a experiências alquímicas e ao fanatismo religioso; mas, ao contrário do seu mentor, ele foi muito mais além nesta matéria ao associar-se abertamente aos Profetas de Cevennes, que “falavam em línguas” e ficavam possessos durante êxtases religiosos. A acusação de Fatio a Leibniz não teve seguimento, em parte devido aos excessos religiosos do primeiro, mas em 1708 outro leal seguidor de Newton, John Keill (um membro da Royal Society assim como “um cavalo guerreiro, cujo ardor era tão intenso que por vezes Newton tinha de puxar as rédeas”), repetiu formalmente a acusação de plágio a Leibniz – uma acusação publicada no Philosophical Transactions da Royal Society, em 1710. E quando Leibniz, enquanto membro estrangeiro da Royal Society, exigiu uma retractação oficial, Newton, na sua qualidade de presidente, criou uma comissão de onze membros da Royal Society (“um Comité Numeroso de Cavalheiros de várias Nações”) para julgar o conflito. A 24 de Abril de 1712, um relatório de cinquenta e uma páginas (parcialmente em Latim e repleto de referências a cartas privadas assim como a cartas e documentos publicados, fundamentalmente na posse de John Collins, correspondente de Newton) foi publicado pela Royal Society sob o título “Commercium Epistolicum Collini & aliorum” (“troca de correspondência entre Collins e outros”) no qual a acusação de Keill era totalmente apoiada. Tal procedimento, gritantemente tendencioso, embora claramente condenável, era, apesar de tudo, de esperar, tendo em conta que Newton, enquanto presidente da Royal Society, tinha indirectamente nomeado o comité. Mas um exame minucioso revela pormenores ainda mais obscuros.

A composição do comité, que nunca subscreveu abertamente o documento, manteve-se desconhecida por mais de cem anos. Não só se sabe agora a identidade dos onze membros, mas, ainda mais importante, as datas das suas nomeações. O famoso astrónomo Edmond Halley, o físico e reputada personalidade literária John Arbuthnot, e os menos conhecidos William Burnet, Abraham Hill, John Machin e William Jones, foram todos nomeados a 6 de Março de 1712.

Francis Robartes (conde de Radnor) foi acrescentado a 20 de Março, Louis Frederick Bonet (o representante em Londres do rei da Prússia) a 27 de Março, e mais três membros, Francis Aston e os matemáticos Brook Taylor e Abraham de Moivre, a 17 de Abril. Porque serão estas datas importantes? Porque é manifestamente impossível que, pelo menos os últimos três membros, nomeados a 17 de Abril, tivessem algo a ver com um longo e complicado relatório lido publicamente 7 dias depois! De facto, nenhum dos onze membros era responsável enquanto autor, porque o próprio Newton escrevera o relatório! E, apesar do argumento de que o comité era composto por “Cavalheiros de várias Nações”, apenas dois dos onze – Bonet e de Moivre – poderiam ser categorizados como estrangeiros. No caso de Bonet, sabe-se tão pouco acerca dele que nem sequer o Sackler Archive Resource of Fellows da Royal Society contém a sua data e local de nascimento, embora os arquivos alemães e suíços lancem alguma luz sobre ele. Poder-se-á legitimamente perguntar qual a razão por que um grupo tão variado de membros da Royal Society, alguns deles da mais elevada distinção, ter-se-iam permitido ser tão descaradamente manipulados por Sir Isaac Newton – ostensivamente escolhidos para serem cães de guarda e depois rapidamente transformados em cães de circo mudos.

Cálculo traz alguma compreensão conjectural a este escândalo científico, através das personalidades de John Arbuthnot e dos dois estrangeiros, Louis Frederick Bonet e Abraham de Moivre, estando a maior parte das referências biográficas fortemente alicerçadas em registos históricos. E, apesar do encontro específico, em Cálculo, dos dois dramaturgos Colley Cibber e Sir John Vanbrugh ser inventado, ambos são personagens históricas cujas respectivas peças Love’s Last Shift e The Relapse: Or Virtue in Danger e a sua derradeira colaboração, The Provok’d Husband, são parte do orgulhoso cânone do drama inglês da Restauração."

Carl Djerassi, Introdução do Autor in Cálculo, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011 (tradução de Mário Montenegro, no prelo)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A RAINHA LOUCA


Mensagem recebida da companhia de teatro "A Barraca", de Lisboa:

A BARRACA tem o prazer de convidar V. Exa. para o recomeço do seu espectáculo no próximo dia 8 de Setembro às 21h30 na sala 1 do TeatroCinearte:

“D. Maria, A Louca” de Antônio Cunha – Criação de Maria do Céu Guerra com participação de Adérito Lopes – Direcção Plástica, Cenografia e Figurinos: José Costa Reis

A Corte Portuguesa parte no mês de Novembro de 1807 para o Brasil. São 15000 almas embarcadas numa enorme frota para defender da Invasão Francesa a coroa e o corpo. Em Fevereiro de 1808 chega à Baía de Guanabara. O Principe Regente não autoriza o desembarque imediato de sua mãe a rainha louca.

D. Maria é durante dois dias uma rainha fechada no mar e passa em revista o casamento, a morte do filho, a sujeição à igreja, tudo o que foi a sua acção pública e privada e assusta-se com a chegada a uma terra que viu nascer e morrer Tiradentes o único homem sobre o qual ela usou o seu “direito de mandar matar”.

D. Maria está louca mas é dona de uma loucura que a protagonista define de forma magistral “a loucura não é uma porta que se nos fecha mas muitas janelas que se nos abrem, só que todas ao mesmo tempo”. A filha de D. José foi a primeira mulher que ocupou o trono. “Uma rainha num reino de homens”.

Tel. 913341687|968792495|213965360|5275 | Fax. 213955845

www.abarraca.com e-mail. barraca@mail.telepac.pt

quinta-feira, 21 de julho de 2011

2 Cyborgs Num Quarto Vazio



A marionet estreia esta quinta-feira, dia 21 de Julho, pelas 21h30,

2 Cyborgs Num Quarto Vazio

no regresso da companhia ao Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra. Esta é a terceira produção da companhia em 2011 e a estreia de Alexandre Lemos na encenação.


O corpo humano actualizado pelo seu próprio vício em extensões tecnológicas é o ponto de partida de mais uma produção da marionet. Tudo acontece num espaço vazio, muito vazio, ou muito cheio do desconforto que esse esvaziamento provoca em nós, habituados a um quotidiano sobrepovoado de informação. Nesse espaço encontramos um homem e uma mulher entregues à sua condição de cyborgs perceptível nas ausências de humanidade entre eles nesse quarto vazio que habitam por um tempo indefinido.

Como habitualmente nas peças da marionet a composição faz-se num diálogo entre forças criativas diversas desarrumando as noções disciplinares que encerram práticas como o Teatro e a Ciência em compartimentos isolados. E como já é habitual também, os profissionais das artes e das ciências beneficiam de desconto para assistir ao espectáculo.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Diálogo entre Pepino e Alcuíno


Comprei recentemente um livrinho brasileiro delicioso, que mostra a "ciência a brincar" na Alta Idade Média:

- Luiz Jean Lauand, Educação, Teatro e Matemática Medievais, Trad. dos originais latinos, Notas e Estudos Introdutóríos de L. Jean Lauand. Prefácio: Ruy Nunes, editora Perspectiva, S. Paulo, 1990.

Destaco o "Diálogo entre Pepino e Alcuíno", discussão entre o mestre Alcuíno (735-804) e o jovem Pepino (781-810), segundo filho de Carlos Magno, então com cerca de doze anos de idade. É um autêntico digest de sabedoria medieval. Agora percebo por que é que de "pequenino se torce o pepino!"...

Reproduzo, com a devida vénia, a parte do diálogo que incide sobre astronomia e geografia:
"P.: O que é o céu?
A.: Uma esfera que roda sobre si mesma, um imenso teto.

P.: O que é a luz?
A.: A face de todas as coisas.

P.: O que é o dia?
A.: Estímulo ao trabalho.

P.: O que é o sol?
A.: O esplendor da terra, a beleza do céu, graça da natureza, a glória do dia, o distribuidor das horas.

P.: O que é a lua?
A.: O olho da noite, doadora de orvalho, aquela que anuncia as tempestades.

P.: O que são as estrelas?
A.: A pintura que adorna o céu, o piloto dos navegantes, o encanto da noite.

P.: O que é a chuva?
A.: A fecundação da terra, a mãe dos frutos.

P.: O que é a neblina?
A.: A noite do dia, trabalho para os olhos.

P.: O que é o vento?
A.: Perturbação do ar, mobilidade das águas, secura da terra.

P.: O que é a terra?
A.: A mãe de tudo o que cresce, a que alimenta os viventes, o celeiro da vida, a devoradora de todos.

P.: O que é o mar?
A.: O caminho da coragem, a fronteira da terra, o que separa as regiões, o hospedeiro dos rios, a fonte das chuvas, refúgio nos perigos, encantadores prazeres.

P.: O que são os rios?
A.: Curso que não acaba, refeição do sol, irrigação da terra.

P.: O que é a água?
A.: Sustentáculo da vida, limpeza das sujeiras.

P.: O que é o fogo?
A.: Calor excessivo, aquecimento para os que nascem, sazonamento do que germina.

P.: O que é o frio?
A.: Febricitação dos membros.

P.: O que é o gelo?
A.: A perseguição das plantas, a perdição das folhas, a prisão da terra, a fonte das águas.

P.: O que é a neve?
A.: Água seca.

P. : O que é o inverno?
A.: Um exilado do verão.

P.: O que é a primavera?
A. : A pintora da terra.

P: 0 que é o verão?
A.: O revestir da terra, o sazonamento dos germinantes.

P.: O que é o outono?
A.: O celeiro do ano.

P.: o que é o ano?
A.: A quadriga do mundo.

P.: E quem o conduz?
A.: A noite e o dia, o frio e o calor.

P.: E quem dirige as rédeas?
A.: O sol e a lua.

P.: Quantos são os teus palácios?
A.: Doze.

P: Quem são os governantes dos palácios?
A: Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Balança, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes.

P.: Quantos dias ficam morando em cada palácio?
A.: O sol, 30 dias e 10 horas e meio; a lua, 2 dias, 8 horas e 2/3 de hora

P: Mestre, tenho medo de ir ao alto!
A.: Quem te trouxe para o alto?

P.: A curiosidade.
A.: Se tens medo descerei. Eu seguir-te-ei onde quer que vás.

P.. Se eu soubesse o que era um navio, prepararia um para ti para que viesses a mim.
A.: Um navio é uma casa errante, hospedaria em qualquer parte, um viajante que não deixa pegadas, um vizinho da areia."

quarta-feira, 6 de julho de 2011

2Cyborgs Num Quarto Vazio


Informação recebida do Teatro Academico de Gil Vicente, em Coimbra:

Dias 21, 22, 23 de Julho [Estreia Absoluta]
21h30
2Cyborgs Num Quarto Vazio
Discussão e Ideias: Alexandre Lemos, Costanza Givone, Joana Cardoso, João de Almeida, Laetitia Morais, Lígia Anjos, Mário Montenegro, Ricardo Trindade, Rui Simão, Pedro Augusto.
Direcção Artística e Encenação: Alexandre Lemos
Intérpretes: Costanza Givone e Ricardo Trindade
Figurinos e Adereços: Joana Cardoso
Penteados: Ilídio Design
Iluminação: Rui Simão
Vídeo: Laetitia Morais
Banda Sonora: Pedro Augusto
Registo vídeo: João de Almeida
Fotografia: Francisca Moreira
Produção Executiva: Lígia Anjos

Há hoje entre nós cyborgs tão perfeitos que a sua humanidade já não se distingue do complexo tecnológico que os mantém ligados. Treinados meticulosamente para sobreviver ao vazio em que habitamos e mantidos em quartos onde o abismo humano serve de paisagem a um tempo indefinido e onde só restam os vestígios da ausência de emoções e objectos. Lugares onde as instruções de funcionamento são muitas vezes substituídas por delírios binários.

Preço normal_10,00 €
Preço estudante, profissionais das artes e ciências_8,00 €

AS PEÚGAS DE EINSTEIN

Informação recebida da Barraca, em Lisboa, sobre a peça de teatro "As peúgas de Einstein", em últimas representações (clicar para ler).

terça-feira, 5 de julho de 2011

O regresso de Hipólito

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Integrado no XIII Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico, o regresso do "Hipólito" de Eurípides, no espaço da Cooperativa Bonifrates, na Casa da Cultura de Coimbra, no próximo dia 8 de Julho (sexta-feira), às 21h30. Será um prazer contar com a vossa presença.

Reservas: por telefone, para a Bonifrates (239 716 095)
Bilheteira: 5 euros (bilhete normal) // 3,5 euros (estudantes e clubes de amigos).

Sinopse: Hipólito e Fedra nunca trocam uma palavra. Tal como Afrodite e Ártemis, no plano divino, se situam em esferas reciprocamente impenetráveis, Fedra e Hipólito, no plano humano, vivem um desencontro predeterminado de que ambos têm plena consciência: a tragédia de Fedra é que a aceitação voluntária dessa consciência (ou compreensão racional) de nada vale contra a loucura involuntária de, contra o mundo e contra si mesma, estar apaixonada pelo enteado. Por sua vez, e bem ao gosto do paralelismo antagónico típico destas primeiras peças conservadas de Eurípides, é aquilo que aparentemente falta a Fedra – a castidade – que destroy Hipólito. Como ele próprio diz da madrasta morta, “foi casta sem que nela houvesse castidade; e eu, que a tenho, não obtive dela o melhor proveito” (vv. 1034-1035) (Frederico Lourenço).

FICHA TÉCNICA
Frederico Lourenço (tradução)
Carlos Jesus (encenação, cenografia e selecção musical)
Claúdio Castro Filho (direcção de actores)
Leonor Barata (apoio ao movimento: protocolo com “O Teatrão”)
Chayanna Ferreira (desenho de luzes)
Rosário Moura, Dila Pato (guarda-roupa)
Cláudia Cravo, Marta Gama (sonoplastia)
Vitor Teixeira (maquilhagem)
Margarida Teodoro, Cláudia Morais
e Virgílio Raposo (imagem publicitária)
Beiracarp (execução do cenário)
Corpo Organizado (educação postural)

Elenco
Ricardo Mocito (Hipólito)
Ângela Leão (Fedra)
Carlos Jesus (Teseu)
Andrea Seiça (Ama)
Margarida Cardoso (Afrodite, Ártemis)
José Luís Brandão, Ricardo Acácio (Mensageiro, Servo)
Lia Nunes (Corifeu)
Ana Seiça Carvalho (Coro)
Tânia Cardoso (Coro)
Elisabete Cação (Coro)

terça-feira, 17 de maio de 2011

O Fulaninho de Cartago

O Tyasos apresenta no Convento de Santa-Clara-a-Velha a representação de O Fulaninho de Cartago, em encenação de José Luís Brandão.

É no dia 22 de Maio, às 18 horas.

Trata-se de comédia alegre, que põe as pessoas bem dispostas, e não deixa de fazer reflectir: todos riem com as manigâncias do escravo, o que nada é estatutariamente, mas planeia trapaças e embustes para ajudar o patrão nos seus amores, lhe dá ordens e se faz obedecer por ele; todos gozam com as fanfarronices do soldado, que vem por lã e sai tosquiado, com a descrição dos seus feitos e batalhas que não convencem nem o mais ingénuo; aplaudem o castigo do chulo que procura enriquecer à custa da prostituição de jovens raptadas; sorriem com a complicada pronúncia do Cartaginês que vem em busca das filhas e do sobrinho.

sábado, 14 de maio de 2011

La Calle Del Infierno

Informação chegada ao De Rerum Natura.

La Calle Del Infierno é representada pela Cooperativa Bonifrates, em Coimbra.

Hoje e amanhã (dias 13 e 14 de Maio) e, depois, nos dias 25, 27 e 28 de Maio.

domingo, 1 de maio de 2011

Ensaio sobre a cicuta

No âmbito do 13.º Festival de Tema Clássico, estreia, na próxima segunda-feira, dia 2 de Maio, às 21h30, no Teatro Paulo Quintela da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a peça Ensaio Sobre a Cicuta, a nova produção do grupo Origem da Comédia em parceria com o grupo de teatro clássico Thíasos.

Haverá outras representações desta peça: 18 de Maio, no Machado de Castro, em Coimbra; 25 de Maio, em Conímbriga; 9 de Julho, em Braga;15 de Julho em Coimbra, de novo.

No dia 18 de Maio, à tarde, haverá ainda um conjunto de conferências sobre as relações entre Platão e o teatro, seguido de uma conversa com os encenadores e outra com os actores.

domingo, 24 de abril de 2011

XIII Festival de Teatro de Tema Clássico - 2011

O De Rerum Natura tem o gosto de anunciar a realização de mais uma edição do Festival de Teatro de Tema Clássico. Será a décima terceira. E decorrerá entre 28 de Maio e 15 de Julho.

Estão previstas duas dezenas de iniciativas, repartidas por 16 espectáculos de teatro e 2 de música e, ainda, 2 jornadas de reflexão teórica dedicadas aos diálogos platónicos e à figura de Prometeu.

Anuncia-se, agora, o programa da primeira fase do Festival (28 de Abril a 25 de Maio).

- 28 de Abril de 2011, 5.a feira, 21h30, Coimbra, Teatro Paulo Quintela (FLUC). Grupo Thíasos do IEC, A sogra de Terêncio (antestreia)

- 2 de Maio de 2011, 2.ª feira, 21h30, Coimbra, Teatro Paulo Quintela (FLUC). Origem da Comédia, Secção juvenil da APEC, Ensaio sobre a Cicuta (antestreia)

- 3 de Maio de 2011, 3.a feira, 11h30, Ericeira, Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas. Grupo Balbo, de Cádiz, A mulher na tragédia.

- 3 de Maio de 2011, 3.a feira, 15h, Ericeira, Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas. Grupo Thíasos do IEC, A sogra de Terêncio.

- 4 de Maio de 2011, 4.a feira, 11h30, Conimbriga. Grupo Balbo, de Cádiz, Antígona de Sófocles.

- 4 de Maio de 2011, 4.a feira, 15h, Conimbriga. Grupo Balbo, de Cádiz, Rudens de Plauto.

- 18 de Maio de 2011, 3.a feira, 14h, Coimbra, Museu Nacional Machado de Castro. Conferências platónicas.

- 18 de Maio de 2011, 3.a feira, 21h30, Coimbra, Museu Nacional Machado de Castro. Origem da Comédia, secção juvenil da APEC, Ensaio sobre a Cicuta

- 19 de Maio de 2011, 5.a feira, 15h, FLUP. Grupo Thíasos do IEC, O Fulaninho de Cartago de Plauto.

- 21 de Maio de 2011, Sábado, 21h30, Conimbriga. Espectáculo lírico do Grupo Canto e Drama do Conservatório de Música de Coimbra.

- 22 de Maio de 2011, Domingo, 18h, Coimbra, Mosteiro de Santa Clara a Velha. Grupo Thíasos do IEC, Fulaninho de Cartago de Plauto.

- 22 de Maio de 2011, Domingo, 21h00, Coimbra, Museu Nacional Machado de Castro Espectáculo lírico do Grupo Canto e Drama do Conservatório de Música de Coimbra

- 25 de Maio de 2011, 4.a feira, 21h30, Condeixa, Ruínas Romanas de Conímbriga. Origem da Comédia, Secção Juvenil da APEC, Ensaio sobre a Cicuta.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

EINSTEIN NA BARRACA



“AS PEUGAS de EINSTEIN”

A peça “ As peúgas de Einstein” estreou no Brasil em Novembro de 2009 integrado nas comemorações do Ano Internacional da Astronomia da ONU.

Estreia no dia 13 de Abril de 2011 às 21,30 na BARRACA

Sinopse:

“As peugas de Einstein” de Helder Costa expõe as teorias cientificas do grande génio da Física de uma forma lúdica e acessivel, ao mesmo tempo que traça um quadro de todo o século XX através da sua biografia social e humana.
É fascinante o rol de algumas personalidades públicas que privaram com Einstein e que são personagens da peça : Lenine, com quem privou enquanto estudante em Zurique, os professores de Berlim Lenard e Max Planck, seguidores de Hitler, Roosevelt presidente dos USA, Marilyn Monroe e Arthur Miller, Paulette Godard e o seu grande amigo e companheiro de lutas contra o McCarthismo, Charlie Chaplin.

Em cena : de 4ª a Sábado, 21, 30 e Domingo 16 horas

RESERVAS : 213965360

quinta-feira, 7 de abril de 2011

AS PEÚGAS DE EINSTEIN


Vale a pena ir ver! Depois da estreia no Brasil, a peça de Hélder Costa, com o título "As peúgas de Einstein" estreia na 4ª feira, dia 13 de Abril, pelas 21, 30 no Teatro da Barraca, em Lisboa (zona de Santos).

domingo, 27 de março de 2011

"O ACTOR" de HERBERTO HELDER


No Dia Mundial do Teatro mão amiga mandou-nos o poema "O Actor" de Herberto Hélder:

O actor acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor pôe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.

Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus, e
dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.

Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas -
o actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.

Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomina.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.

O actor em estado geral de graça.

Herberto Hélder

O teatro escolar jesuíta

No Dia Mundial do Teatro, reavivamos, pela mão de António José Saraiva e Óscar Lopes, a memória do teatro escolar jesuíta.
"Os Jesuítas, na sua Universidade de Évora, no seu Colégio das Artes coimbrão, nos colégios de Lisboa, Braga, da Índia e do Brasil, continuam a servir-se do teatro como exercício conversação latina e como número de festas comemorativas para visitas ilustres (pessoas régias, provinciais, prelados, etc.) ou para grandes acontecimentos escolares (distribuições de prémios), tal como tinham feito os professores bordaleses trazidos por André de Gouveia.

Os géneros mais representados eram a tragédia bíblica (predominante no século XVI), a fantasia alegórica, já cultivada por Naharro e Gil Vicente, denominada (como na Compilação dos autos vicentinos, 1562) de tragicomédia e enquadrada numa cenografia que pretende deslumbrar, a tragédia hageográfica (dominantes desde 1619), e espectaculosas pastorais, sobretudo pretextadas na história de David (frequentes sob domínio filipino).

A grande novidade apresentada em Portugal pelo teatro escolar jesuíta foi uma encenação enriquecida com as criações cenográficas italianas do século XVI: os panos de fundo pintados segundo as leis da perspectiva, mutações mecânicas de cenário, decoração e guarda-roupa aparatosos, efeitos de acompanhamento instrumental ou coral.

As personagens contavam-se em regra por dezenas (ou centenas); os coros serviam, mesmo nas tragédias, de entremês vistoso; e a intenção edificante era condimentada com cenas truculentas, duetos oratórios ou sentenciosos, cortejos, marchas sob fanfarras e pendões, caçadas bailados e apoteoses finais.

Na sua fase final do tempo de D. João V, a coreografia e a cenografia jesuíta atingiram o apogeu, com profusão de bastidores movidos a máquina, dispostos em profundidade, coros à vista ou ocultos, e complicados conjuntos de ballet.

Mas nunca se igualou a magnificência da tragicomédia A Conquista do Oriente, representada no Colégio de Santo Antão por ensejo da visita de Filipe II (de Portugal) em 1619, cujo guarda-roupa, reunido por empréstimo de conventos, igrejas e famílias fidalgas, contava alguns milhares de pedras preciosas, tecidos e baixelas riquíssimas, num estendal espalhafatoso.

Deve acrescentar-se que o conteúdo ideológico, psicológico ou poético deste teatro não tem originalidade. A Ratio Studiorum, admitindo-o como exercício escolar, recomendava a seu respeito a máxima cautela, excluindo a intervenção de personagens femininas, ou o uso de outra língua que não fosse o latim e preceituando o confinamento a assuntos pios.

Entre os dramaturgos jesuítas neolatinos cujas peças se representaram em Portugal destaquemos apenas, pelos méritos literários, e por certo cunho temático algi nacional (advertências veladas a D. Sebastião, certo aparente anticastelhanismo), o Padre Luís da Cruz, ou Ludovicus Crucius, cujas Tragica e Comica e que Actiones foram impressas em Lião, 1605."
Referência completa: Saraiva, A. J. e Lopes, O. (1976, 9.ª edição). História da Literatura Portuguesa. Porto Editora, 228-229.

Teatro Imaginário

No Dia Mundial do Teatro, na Antena 2 da Rádio uma dupla recordação: de Gil Vicente e do Teatro Imaginário. Pelas vozes dos actores deste teatro, voltou a ouvir-se, durante a manhã, uma peça do Mestre, Romagem dos Agravados, com realização: Eduardo Street e adaptação de Leopoldo Araújo. Nessa peça, apresentada para comemoração de nascimento real e proibida pela Santa Inquisição, conta-se que "a caminho de uma romaria, passam evidenciando os seus vícios típicos em monólogos e diálogos, camponeses, fidalgos, freiras, clérigos (...)" (António José Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, Porto Editora, 1976, 9.ª edição, 202).

sexta-feira, 18 de março de 2011

TEATRO: Conferência de um macaco no Porto



Associado à exposição "A evolução de Darwin" será apresentado neste sábado (19 Março), às 16h no Jardim Botânico do Porto o espectáculo “Conferência de um Macaco”.

Produzida pelo colectivo Causa.ac, a “Conferência de um Macaco” é um monólogo baseado no relatório a uma Academia de Franz Kafka, com tradução, adaptação dramatúrgica, encenação e interpretação de Amândio Pinheiro.

O espectáculo, com a duração de 45min, faz uma abordagem literária do legado de Darwin através da história de um macaco, narrada na primeira pessoa, que em cinco anos deixa de o ser. Com muito humor e uma certa dose de crueldade, a peça aborda as questões do evolucionismo.

A entrada é livre mediante a apresentação do bilhete para a exposição.