“Experiência – eis o nome que damos aos erros que cometemos” (Oscar Wilde, 1854-1900).
Por as Novas Oportunidades continuarem na crista da onda, com vagas de prós e contras nos media nacionais, para que os leitores, eventualmente interessados, possam cotejar o meu artigo de opinião, publicado hoje no “Público” (com o título em epígrafe) com a carta da leitora, Maria do Rosário D.A. Neves, que o credencia, transcreve-se, na íntegra, o seu conteúdo epistolar intitulado “O actual Governo e as novas oportunidades”:
“Fiz o meu estágio curricular integrado em Mestrado de Psicologia da Educação num centro de novas oportunidades (CNO) de Gaia, com aduração de quatro meses (300 horas). Nesse CNO pude verificar o seu funcionamento e como são avaliados os adultos que o frequentam. Não é facilitismo, como se diz por ai, não se passam atestados de incompetência. Trata-se, sim, de um tipo de educação diferente da escola formal. Aliás, não faria sentido algum colocar pessoas adultas, com 30, 40, 50 ou mais anos deidade, com experiências riquíssimas de vida, sentadinhas na escolinha aaprender o que os professores ensinam, segundo currículos rígidos. Aqui são reconhecidos e validados os conhecimentos adquiridos ao longo da vida. Neste contexto educativo, os adultos não vão para aprender (como no ensino formal), mas sim para mostrarem aquilo que sabem, o que a vida lhes ensinou – experiências profissionais, pessoais, papéis sociais. É isto que vai ser reconhecido ecertificado, segundo um referencial de competências-chave, perante um júricomposto por vários elementos, sendo um avaliador externo. E devo dizer que é muito gratificante quando, no final do processo, o adulto consegue o seu certificado. É que grande parte destas pessoas abandonou precocemente a escola, muitas delas por necessidades económicas, e agora, ao integrarem um sistema de ensino,sentem bastantes dificuldades; muitas delas já não escrevem, ou pouco escrevem,há alguns anos, e o facto de terem de fazer um porta-fólio reflexivo de aprendizagem, por si só, é muito exigente. Por isso, dever-se-ia continuar a valorizar a aprendizagem não formal e informal.
Quanto às pessoas que tanto criticam os CNO, assim como criticam os adultos que os frequentam, devo dizer que essas pessoas não sabem o que dizem e têm uma grande falta de respeito para com esses mesmos adultos. É que, para se fazer uma crítica sobre um determinado assunto, é necessário estar-se dentro das questões e analisá-las no terreno. Caso contrário, corre-se o risco de falar de cor, só porque se ouviu dizer, ou se leu num jornal, e isso é muito grave. Haja respeito por quem se esforça! (“Público”, 13/01/2012)."
Transcrevo, agora, o meu artigo de opinião saído hoje no "Público":
“Da sua carta não me ficou a impressão de uma ideia, mas só a lembrança de uma atitude” (Eça de Queiroz).
A notícia, de hoje no PÚBLICO (01/02/2012), com chamada na 1.ª página, intitulada “Um terço dos centros de Novas Oportunidades vai fechar”, leva-me a clarificar a minha posição perante um assunto polémico e em resposta a um texto de uma leitora publicada na secção de Cartas à Directora:
Quiçá para me poupar desse vexame, sem referência ao nome do autor do incómodo artigo “O actual Governo e as novas oportunidades” (PÚBLICO, 11/01/2011), foi publicado, passados dois dias, nestas colunas, em “Cartas à Directora” , um texto de Maria do Rosário D. A. Neves, com idêntica título por a sua subscritora, possivelmente, nem sequer se ter dado ao trabalho de ser original. Embora da sua prosa esclarecimento algum eu tivesse colhido, ficou-me, contudo, a importância de ter ficado a saber da existência de um estágio curricular, integrado em Mestrado de Psicologia da Educação no Centro de Novas Oportunidades de Vila Nova de Gaia, por si realizado.
Mas adiante. Em finais do século XIX, sentenciou Charles Prestwich Scott, editor do jornal “ManchesterGuardian” que “os comentários são livres, mas os factos são sagrados”. Reporto-me, portanto, a factos deixando à margem, tanto quanto possível, comentários em que a paixão se possa sobrepor à razão.
Ora, dos factos fazem parte dois testemunhos por mim publicados no supracitado artigo que despoletou a carta que me deseja sentado no banco dos réus levando a minha paciência ao limite de uma resignação que não tenho, porque escudado em depoimentos de pessoas por mim arroladas como testemunhas de defesa, mas que parece não terem merecido qualquer crédito à subscritora da referida epístola.
O primeiro desses testemunhos, publicado no semanário “Expresso” (18/09/2010), tem por base o depoimento de um dos usufrutuários das “Novas Oportunidades”, com a hombridade de ele próprio admitir ter“beneficiado de uma injustiça” com a elevada classificação de vinte valores no acesso à universidade. O segundo testemunho reporta-se a uma carta endereçada, e publicada igualmente no “Expresso", ao mais alto Magistrado daNação, por um formador das Novas Oportunidades em que descreve a forma blasé ou mesmo abandalhada, perdoe-se-me o plebeísmo, como os formandos se comportam. E porque não há duas sem três, apresento, agora, uma terceira prova com a transcrição de um documento certificador de histórias da vida, com equivalência ao 12.º ano do ensinosecundário, de um formando das Novas Oportunidades justificativa da evocação de um pequeno texto de Nietzsche: “E assim cheguei até vós e aos pais da educação. E o que me acontece? Não obstante toda a minha ansiedade tive de rir. Nunca os meus olhos tinham contemplado algo tão manchado e heterogéneo”.
Reza a redacção desse documento: “Como já disse anteriormente tenho um filho e uma filha, em que ele é mais velho cinco anos “…Ando sempre a fazer-lhe ver as coizas até já lhe tenho dito se tiver a inflicidade de falecer novo paça a ser ele o homem da casa e tomar conta da mãe e mana, mas para ele é difícil de compreender as coisas e por vezes até me pede desculpa e que para a procima já não comete os mesmos erros. Ele tem o espaço dele com a mãe em que não me intrumeto, desde mimos e converças porque graças a Deus nem eu nem ele temos siumes um do outro com a mãe…” (PÚBLICO, Santana Castilho, 25.Maio.2011). Sete erros ortográficos em 111 palavras é obra!
Concedo que, pelo anúncio e compra de relatórios elaborados por especialistas com essa finalidade, sejam hoje apresentados textos deformandos que lustram o verbo dos seus putativos autores. Mas esta arremedo de polémica não teria acontecido se o meu texto tivesse sido lido com a atenção que fizesse entender a esta leitora que eu não critiquei as Novas Oportunidades de“pena ao vento”, como diria Eça.
Tive, até, o generoso cuidado de não generalizar as minhas críticas, quando escrevi no meu anterior artigo: “A réstia de esperança que pudesse ainda haver sobre a bondade de uma segunda oportunidade, para quem desperdiçou uma primeira, foi abalada nos seus frágeis caboucos pela leitura de uma reportagem do “Expresso” (08/12/2007). Por ela se ficou a saber que estes badalados cursos não espelham uma situação minimamente verdadeira, credível ou séria”. E acrescentei: “Não querendo generalizar a todos os cursos de Novas Oportunidades efeitos perversos, tenho razões para pensar que em sua grande maioria sirvam apenas para recreio buliçoso para passar o tempo de quem procura um diploma avalizado pelo Estado”.
Mas desço, agora, ao âmago desta controvérsia analisando o parágrafo final da carta desta leitora que se destaca por uma espécie de aviso a ignorantes por parte de quem sabe da poda. Escreveu ela: ”É que, para fazer uma crítica sobre um determinado assunto, é necessário estar-se por dentro das questões e analisá-las no terreno. Caso contrário, corre-se o risco de falar de cor, só porque se ouviu dizer, ou se leu num jornal, e isso é muito grave. Haja respeito por quem se esforça!”
Plenamente de acordo com esta moralista exortação. Foi precisamente por respeito a quem se esforça que escrevi o meu artigo inicial pondo em confronto três maneiras de se ficar de posse do 12.º ano ou da sua equivalência, através, respectivamente, do chamado ensino regular e das Novas Oportunidades. Mas, por outro lado, discordo plenamente da condição, sine qua non, de “se estar dentro das questões e analisá-las no terreno”. E esclareço porquê: não se deve ser juiz em causa própria sob pena, ainda que mesmo involuntária, de falta de isenção.
Não será preferível, portanto, que se deixe essa análise para a comissão nomeada para o efeito pelo Ministro Nuno Crato, inclusivamente ao Centro de Novas Oportunidades de Gaia de excelência, antecipadamente, posta nos píncaros da lua?
Concedo, até, que o mal possa não estar na filosofia que presidiu à criação das Novas Oportunidades, mas no facilitismo de que se revestem, por vezes, ao certificar experiências de vida relatadas com erros ortográficos e gramaticais de palmatória não tolerados no simples exame da 4.ª classe do antigo ensino primário. Mas não se pretenda ver nisto (gato escaldado de água fria tem medo) qualquer exagero da minha parte de “exigir que haja um Dante em cada paróquia e que os Voltaires nasçam com a profusão dos tortulhos”, em nova citação do incontornável autor de “Os Maias”.
Rui Baptista, Professor e co-autor do blogue “De Rerum Natura”.