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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

2008 ANO INTERNACIONAL DA BATATA


2008, além de Ano Internacional do Planeta Terra, é também, por determinação das Nações Unidas, o Ano Internacional da Batata. Para saber mais clicar aqui.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

A moda dos alimentos enriquecidos


Nas férias de Verão publicámos alguns textos da nutricionista Ana Carvalhas, a quem de novo pedimos um "post". Aqui está:

A rápida evolução das ciências da alimentação e nutrição nas últimas décadas veio modificar os nossos hábitos de comer, que passaram a estar intimamente ligados à prevenção e à cura de doenças. Os investigadores identificaram vários compostos bioactivos (nomeadamente, compostos de origem vegetal, designados por fitoquímicos) com efeitos positivos na saúde, os quais têm sido aproveitados por uma indústria alimentar sempre ávida de aumentar a venda dos seus produtos. Por outro lado, cada vez mais pessoas se preocupam com aquilo que ingerem de modo a prevenir enfartes, tromboses e cancros, entre outras terríveis patologias, e, portanto, acrescentando anos à sua vida.

Com apregoados objectivos de nutriprevenção e nutriterapêutica, encontramos hoje nas prateleiras dos supermercados leite enriquecido com ómega-3, cálcio, vitamina D e isoflavonas de soja, margarinas com fitosteróis, água com fibras, iogurtes que baixam o colesterol, ovos com ómega-3 que foi adicionado na ração dos aviários, etc. Enfim é tal a proliferação de produtos enriquecidos que temos de perder algum tempo à procura de um litro de leite de vaca que pastou na Natureza, de uma dúzia de ovos postos por galinhas normais ou de um pacote das velhinhas bolachas “Maria”. A questão é: haverá realmente vantagens em consumir alimentos enriquecidos?

De facto, nenhum destes produtos consegue substituir os alimentos próprios da época, frescos ou bem conservados, que devem ser variados todos os dias. De facto, os alimentos tal como nos chegam da Natureza podem fornecer todos os nutrientes que necessitamos. O leite, por exemplo, sempre conteve cálcio em quantidade suficiente para satisfazer as nossas necessidades diárias. E só em situações muito especiais poderá haver vantagem num complemento deste mineral. Uma coisa é certa: se o cálcio for a mais, o organismo terá de o excretar, pois, caso contrário, a sua lenta deposição por todo corpo transformar-nos-ia em estátuas. Felizmente que os rins trabalham para eliminar o cálcio excedentário, embora exista a possibilidade de formação de cálculos.

Por outro lado, a quantidade de ácidos gordos ómega-3 adicionada ao leite ou às bolachas para prevenção cardiovascular fica muito aquém do que seria necessário e falta provar se têm o mesmo efeito dos que são ingeridos quando se come peixe gordo (sardinha, salmão, atum, cavala, etc.), que é o “ambiente” natural dos ácidos gordos ómega-3.

A fim de baixar o colesterol, alguns alimentos são enriquecidos com fitosteróis, moléculas de origem vegetal que têm uma acção benéfica, embora muitíssimo pequena, na redução do colesterol. No entanto, não é ainda bem conhecida a sua acção quando são adicionados à margarina e aos iogurtes.

Os produtos enriquecidos podem ser uma alternativa pontual, desde que haja uma orientação da dieta alimentar, mas é melhor fixar as nossas escolhas nos alimentos frescos, simples e variados. A absorção dos nutrientes deve ser preferencialmente feita através dos alimentos onde eles existam naturalmente, sempre com conta, peso e medida.

A nutriprevenção e nutriterapêutica são mesmo úteis, mas de uma forma orientada e com base em alimentos da época. Os fabricantes bem podem louvar os seus produtos com publicidade científica ou pseudo-científica. Mas os consumidores que somos nós devemos evitar que a propaganda da indústria alimentar nos leve a escolher alimentos enriquecidos cujas vantagens são discutíveis mas cujo preço é indiscutivelmente mais elevado.

sábado, 24 de novembro de 2007

Comissão Europeia considera banir milho GM

De acordo com um relatório preliminar a que o International Herald Tribune teve acesso, as agências ambientais europeias propuseram banir sementes de milho transgénico produzidas pela Pioneer Hi-Bred (DuPont), Dow e Syngenta. Segundo o IHT, a decisão final sobre o assunto é esperada para breve e as conclusões preliminares do relatório circulam já pelos corredores da Comissão Europeia. O IHT informa igualmente que manifestações de cepticismo em relação a esta proibição circulam igualmente pelos mesmos corredores, essencialmente devido a receios das reacções da indústria e de um exacerbamento das tensões com importantes parceiros comerciais como sejam os Estados Unidos.

O comissário europeu do ambiente, Stavros Dimas, refere no relatório que as espécies geneticamente modificadas em questão - que não são cultivadas na Europa - podem ser eficazes a matar algumas espécies benéficas, como sejam borboletas, como a borboleta-monarca, e outros insectos que entram na cadeia alimentar de predadores aquáticos. Segundo Dimas, a morte destes insectos pode ter consequências inesperadas e drásticas nestes ecossistemas.

Apenas uma semente de milho geneticamente modificado é cultivada na Europa, um variante de milho BT produzida pela Monsanto e nove outras companhias. O milho BT teve origem exactamente na mesma França cujo presidente, Nicolas Sarkozy, asseverou o mês passado pretender proibir o cultivo de GMs no país. De facto, desde 1938 que a bactéria B. thuringiensis passou a ser utilizada em larga escala para prevenir os estragos nas plantações francesas produzidos por várias pestes, incluindo a larva da broca europeia do milho, Ostrinia nubilalis. Durante quase 70 anos não se detectaram quaisquer efeitos adversos deste pesticida natural de forma que a bactéria é utilizada nas culturas ditas orgânicas.

Esta bactéria mata insectos através de duas classes de toxinas: citolisinas (Cyt) e delta-endotoxinas ou proteínas Cry (proteínas presentes em inclusões cristalinas produzidas durante a esporulação do Bacillus thuringiensis). Enquanto as proteínas Cyt são tóxicas para insectos das ordens Coleoptera (escaravelhos) e Diptera (moscas), as proteínas Cry afectam especialmente a ordem Lepidopterans (borboletas e traças).

As proteínas Cry são protoxinas que necessitam ser partidas por enzimas digestivas do próprio insecto, como a tripsina, para libertar um peptídeo que funciona como insecticida. A tripsina está presente em lepidópteros, dípteros e coleópteros. Uma vez partida a proteína, esses peptídeos, cuja estrutura depende da delta-endotoxina original, ligam-se a receptores específicos na membrana das células epiteliais (do intestino do insecto), o que resulta na ruptura dessas células e na morte do insecto. Diferentes estirpes de BT apresentam diferentes proteínas Cyt e Cry e a identificação dos genes que codificam estas proteínas permitiu escolher os alvos da sua acção insecticida e simultaneamente garantir que não são tóxicas para humanos.

A produção de milho BT assenta no biotecnólogo da Natureza, uma bactéria chamada Agrobacterium tumefaciens que induz o crescimento de tumores em muitas espécies de plantas dicotiledóneas. Estes tumores são devidos a uma transformação bacteriana única que envolve os plasmídeos Ti (Tumour Inducing) que coordena a inserção de parte do ADN deste plasmídeo (t-ADN contendo genes da sintase de opinas) no ADN cromossomal da planta. As opinas são nutrientes para as bactérias que as plantas não infectadas são incapazes de produzir, isto é, a A. tumefaciens manipula geneticamente a célula vegetal para os seus próprios interesses.

Substituindo parte da sequência de t-ADN da A. tumefaciens com os genes pretendidos (como os que codificam proteínas Cry) foi possível utilizar este mecanismo para produzir monocotiledóneas, como milho ou arroz, alteradas.

A resistência à introdução do milho BT, na realidade milhos BT que produzem diferentes proteínas Cry dirigidas a pestes específicas, cultivado em larga escala nos Estados Unidos e noutros países, tem-se verificado particularmente na Europa.

Jorgo Riss, director europeu da Greenpeace, com o apoio da Friends of the Earth e outros grupos, escreveu a Durão Barroso corroborando as recomendações de Stavros Dimas. Riss pede ainda que a decisão de banir estas sementes não seja adiada e afirma que «A grande maioria dos cidadãos europeus opõe-se a plantas geneticamente alteradas na agricultura e na alimentação».

Barbara Helfferich, porta-voz de Dimas, informou que as conclusões do comissário europeu podem ser avaliadas nas próximas semanas, mas quer ela quer um porta-voz de Durão Barroso afirmaram que ainda não foi estabelecida uma data para a tomada de decisão.

Referências:

1. Van Frankenhuyzen, K. in Bacillus thuringiensis, An environmental biopesticide: Theory and practice (John Wiley & Sons, 1993).

2. Whalon, M.E. & Wingerd, B.A. Bt: mode of action and use. Arch Insect Biochem Physiol 54, 200-211 (2003).

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Gerontromotricidade, saúde e boa forma física

Mais um post convidado de Rui Baptista (na imagem, Fausto de Goethe):

“Envelhecer é passar da paixão à compaixão" (Albert Camus)

Na definição médica, a gerontologia é “o estudo dos fenómenos fisiológicos, psicológicos e sociais relacionado com o envelhecimento do ser humano”, aparecendo o exercício físico nela implicado com o nome de gerontomotricidade.

Desde já, uma advertência necessária. O exercício físico de que aqui me ocupo, nada tem a ver com um desumanizante desporto que transforma o atleta numa máquina de alto rendimento para alcançar o pódio, tendo atrás de si um perigoso arsenal químico em que os esteróides se tornam vedeta em nome de uma pátria, de uma ideologia ou apenas de um clube.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, são as seguintes as etapas da vida: meia idade, 45-64 anos, pessoa idosa, 65-79 anos, velhice, 80-90 anos, grande velhice, depois dos 90 anos. Bem avisado andou, salvo erro, Baruch Espinoza, ao escrever: “Velhos são os que têm mais quinze anos que eu!”

Seja como for, o processo do envelhecimento é uma fatalidade a que não podemos fugir, embora a tanto se tenha esforçado a humanidade. A alquimia (precursora da Química moderna) lutou em vão por encontrar a panaceia que curasse todas as doenças e oferecesse a imortalidade. O homem, embora vencido no seu desejo de imortalidade, não desiste de tentar retardar a velhice e, quando apanhado nas suas teias, preocupa-se em seguir os preceitos de uma higiene apropriada, a fim de lhes ser propiciada uma velhice menos sujeita a achaques constantes e debilitantes. E, com isso, surgiu a gerocomia.

Recuemos no tempo. A figura lendária de Fausto (1485-1540), charlatão, astrólogo e advinho de nacionalidade alemã, sobre a qual recai o opróbrio de ter feito um pacto com o diabo para que mantivesse a juventude em troca da alma, foi imortalizada pelo poeta alemão Goethe e transposta para o teatro lírico, através da famosa ópera do francês Gounot. Portugal não ficou indiferente a este tema pela tradução de Castilho do poema de Goethe. Mais de quatro séculos depois, Óscar Wilde no único romance por si publicado – “O retrato de Dorian Grey” – recria, por seu lado, a preocupação pela beleza e pela juventude ainda que com a entrega da alma. Em nosso tempo (década de 50?), correu nos cinemas portugueses um filme com o mesmo nome e idêntico enredo. Do efeito devastador da passagem do tempo, se queixou Ninon de Lenclos, escritora, famosa beldade e…cortesã: “Deus teve a infeliz ideia de infligir rugas às mulheres, podia ao menos ter-se lembrado de as ter colocado nas plantas dos pés!”

Nos dias de hoje, mais que nunca, este problema obceca a pessoa, materializando-se, por vezes, em angústias neuróticas, transpostas para distúrbios de natureza alimentar (v.g., anorexia e bulimia) na busca incessante da figura estilizada de manequins da moda. Este “statu quo” chegou a um exagero tal que começa em certos países a ser posto em causa este padrão estético que atenta contra a saúde física e psíquica destas profissionais.

Pela escravatura a um corpo jovem e belo, proliferam, em todas as esquinas, laboratórios que se encarregam de manufacturar uma panóplia de produtos de beleza para ambos os sexos (hidratantes da pele, cremes de dia e de noite anti-rugas, loções capilares, etc.), utilizados, hoje e em grande escala, pelos chamados metrossexuais que, sem admitirem que seja posta em causa a sua masculinidade, tem uma preocupação excessiva por padrões de beleza que anteriormente eram tidos como efeminados. Já para não falar das cirurgias plásticas, tudo isto leva uma multidão a frequentar as academias de ginástica e a ocupar horas em verdadeiros sanatórios de beleza, desde o salão de estética do bairro à clínica médica mais moderna e tecnicamente melhor apetrechada.

Deve ser dito que experiências endócrinas para retardar ou minorar os efeitos do envelhecimento foram realizadas já no século XIX., com injecções subcutâneas de glândulas sexuais de animais, cujos efeitos obtidos num paciente Brown-Séquard (1817-1894) descreve da seguinte forma: “Tenho setenta e dois anos, que os fiz já em Abril do ano passado . O meu vigor geral, que foi considerável, diminuiu notável e gradualmente durante os 10 ou últimos 12 anos. Hoje, e desde o segundo dia, e sobretudo o terceiro, depois da primeira injecção, tudo isso mudou e ganhei de novo pelo menos toda a força que possuía faz muitos anos”.

Em nossos dias, a osteoporose (com maior incidência no sexo feminino) ligada a factores hormonais, baixa de estrogénio nas mulheres e testosterona nos homens, é combatida eficazmente com exercícios com pesos, forma de exercitação, até há poucos decénios, com um historial de efeitos maléficos para a saúde – sistema cardiovascular, essencialmente - que estudos científicos posteriores se encarregaram de fazer a contraprova com a dificuldade reconhecida pelo próprio Einstein: “Época triste a nossa, em que é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo”.

No ano de 72, sem estar sequer à espera, fui surpreendido por um “best-seller” do Doutor Kenneth Cooper, intitulado “Aptidão física em qualquer idade”. O seu impacto foi tal que mereceu de um senador norte-americano o seguinte e caloroso encómio: [o livro] “irá contribuir mais para a saúde e longevidade dos americanos do que qualquer outra descoberta ou realização do ano, no campo da Medicina”. Em suas páginas, o autor punha nas ruas da amargura os exercícios com pesos pelo mal que dizia fazerem à saúde cardiovascular, com o argumento de “o levantamento de pesos não aumentar o fluxo sanguíneo”.

Ver para crer, como S. Tomé, tem sido a minha postura num tema tão polémico como os efeitos do exercício físico que, nos meus tempos de rapaz, chegou a ser incriminado, por si só, deixando à porta do tribunal as noitadas e uma alimentação deficiente, pelo aparecimento da tuberculose desalojando do banco dos réus o próprio bacilo de Koch! Daí o ter realizado dois trabalhos de investigação: o primeiro, sobre, os efeitos do exercícios com pesos na capacidade aeróbica (tema de uma minha conferência proferida na Sociedade de Estudos de Moçambique, em 2 de Julho de 1973); o segundo, meses mais tarde, sobre o efeito desse treinamento nos valores das pressões arteriais máxima, mínima e diferencial. Ambos os trabalhos foram publicados em livro da minha autoria (“Os pesos e halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper”, edição do autor, esgotada, Lourenço Marques, 1973).

Em 2001, por ter tido a oportunidade de entrar em contacto por e-mail com José Maria Santarém, doutor em Medicina pela Universidade de S, Paulo/Brasil, figura de proa no âmbito da Fisiologia do Exercício Físico, coordenador de cursos universitários de pós-graduação em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido na Saúde, na Doença e no Envelhecimento e autor de livros e trabalhos da especialidade, enviei-lhe o meu livro.

Passados tempos, recebi a seguinte resposta: “Com muita alegria recebi o seu livro e a sua carta. Nossos ideais são comuns, e nossas dificuldades históricas também. Felizmente, hoje as evidências nos apoiam e somos ouvidos., mas é sempre emocionante lembrar os tempos em que éramos quase ignorados. Gostei muito do seu texto, que naturalmente deve ser lido com a lembrança da situação do conhecimento de então. O meu desejo é que um dia nos possamos encontrar e rir bastante com as dificuldades do passado. Um fraterno abraço”.

E porque tudo tem seus avessos (Sá de Miranda), trago aqui uma história que em nada abona a favor dos benefícios do exercício físico: Diz-se que Bernard Show, em boa forma física aos 90 anos, ao ser-lhe perguntado, por um jornalista, quais os exercícios físicos que praticava, respondeu: “Pegar às borlas dos caixões dos meus amigos que praticaram muito exercício físico!” Mas não é verdade que as excepções confirmam a regra?

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

EM BREVE CHEGAREMOS AOS 120


Mais um post de Ana Carvalhas, desta vez sobre o segredo da longevidade:

Pílulas inteligentes, chips implantados sob a pele, órgãos que voltam a crescer… A revolução biomédica da longevidade está apenas no início. Em breve viveremos ainda mais anos e em melhor forma. De facto, os aspantosos avanços da ciência, com as suas aplicações na medicina que vão debelando doenças consideradas incuráveis, mudanças do estilo de vida e de alimentação e preocupações crescentes como ambiente têm conseguido prolongar substancialmente a esperança de vida humana.

A longevidade é um dos grandes temas da investigação actual e tem já um impacte económico considerável. Por exemplo, investigam-se e comercializam-se produtos que melhoram a qualidade de vida dos idosos, os ajudam a conservar a memória, a dar-lhes melhor aparência, mais força muscular e mior vigor sexual. Mas não se iluda o leitor que esses novos produtos vêm resolver todos os problemas de toda a gente, porque, no que toca a longevidade, cada um trata da sua. É fundamental um estilo de vida com muito pouco álcool e sem tabaco, factores que sabemos encurtam a vida. E não podemos esquecer que a alimentação está na base da nossa saúde. Senão vejamos: os centenários são, felizmente, cada vez mais numerosos. Existem comportamentos comuns entre eles, independentemente da região do planeta que habitem, nomeadamente em matéria de alimentação. Todos são frugais (o excesso de peso abrange apenas um por cento deles). Na ilha de Okinawa, no Japão, encontra-se a maior percentagem de centenários do mundo e todos eles respeitam a velha filosofia “satisfaz a tua fome em apenas em 80 por cento”.

Uma moderada restrição calórica é factor de longevidade porque activa determinados genes que colocam o metabolismo das células no modo “económico”, o que faz com que os tecidos envelheçam mais lentamente. Já George Cheyne, médico que viveu na Escócia há mais de duzentos anos (1671-1743), muito atento à saúde dos mais velhos e à preparação para um bom envelhecimento, escreveu em 1724, no seu “Tratado da saúde e longa vida”, que, depois dos 50 anos, se deve “diminuir a quantidade de alimentos”, “…em cada sete anos de existência reduzi-la sucessiva e sensivelmente... como meio mais breve e mais infalível para conservar vida, saúde e serenidade”.

Os centenários têm outros pontos em comum: praticam exercício regular do corpo e da mente. Em geral, são de natureza serena, fazem caminhadas, praticam jogos, treinam a memória. Geralmente possuem uma rede de parentes, amigos e vizinhos com quem convivem socialmente e também têm animais de companhia.

Termino recomendando os seus hábitos alimentares que têm tudo a ver com as regras de alimentação saudável: mais peixe do que carne, pouco açúcar e pouco sal, poucas gorduras, muitos frutos, legumes, cereais e alguns lacticínios. Esta alimentação saudável deve ser constante ao longo da vida, mas isso não impede, evidentemente, que façamos de vez em quando uma festa que é tradicionalmente um dia de fartura à mesa.Um dia não são dias!

terça-feira, 31 de julho de 2007

Formosura, dieta e exercício físico



É com o maior gosto que publicamos um outro texto de Rui Baptista, saído há dias no "Diário de Coimbra" e motivado pela discussão que por aqui passou sobre as dietas de Verão. A sua escrita reúne duas coisas de que gostamos aqui no blog: sabedoria e humor. A imagem é o quadro "O Banho" do pintor colombiano Fernando Botero.

“Para os gregos, a beleza é o ponto de partida”. Albert Camus

Numa época estival em que a praia deixa de tolerar “o manto diáfano da fantasia”, o oportuno artigo de opinião da nutricionista Ana Carvalhas, licenciada pela Universidade do Porto, publicado no passado dia 18 de Julho, no “Diário de Coimbra” - intitulado de uma maneira muito feliz “Espelho meu…? - , transportou-me a alguns anos atrás, altura em que proferi uma palestra nos Rotários/Coimbra sobre as vantagens do exercício físico na saúde e aparência estética das pessoas.

Na fase subsequente o saudoso Prof. Mário Mendes, catedrático de Medicina, na sua intervenção na fase de debate, contou, com a verve que lhe corria no sangue, que tendo aconselhado um seu paciente obeso a diminuir de peso lhe foi retorquido: “Senhor doutor, prefiro ser gordo a ser o magro mais elegante do cemitério!” Tudo leva a crer que esta saída baseava-se na crença enraizada de que ser “elegante” era sinónimo de carência de almoços, bem comidos e bem regados, debilitante do organismo senão mesmo responsável pelo aparecimento da tuberculose ou tísica, como era conhecida pelo povo, e lhe rendeu o medo que ela provocava pelos seus efeitos devastadores antes do aparecimento da milagrosa penicilina.

Sobre esta temática, numa conferência por mim proferida na Sociedade de Estudos de Moçambique (Lourenço Marques, 1972), de que viria a ser mais tarde presidente da respectiva Secção de Ciências, comecei precisamente por criticar a noção estética renascentista que dava corpo e alma a uma associação de gordura e formosura (em nossos dias, substituída por anorexia como padrão de beleza transportada para as passadeiras dos desfiles de modas, e que aquela nutricionista desmistifica chamando a atenção para os seus perigos que conduzem a um desenlace fatal se não tratada atempadamente.

E porque o aspecto nutricional deve estar sempre acompanhado do exercício físico, julgo que a transcrição de parte dessa minha conferência pode ajudar a fazer essa necessária ponte. Disse eu, então (deve ter-se em atenção que o texto se reporta ao inícios de 70, vindo a ser publicado num opúsculo editado por aquela Sociedade de Estudos):

“Atentemos nos efeitos perniciosos de uma civilização orientada pelo homem para sua comodidade e…extermínio, após uma vida de aparência inestética. Refiro-me à nediez, cantada pelo poeta Ribeiro Couto: ‘Que gorda esta menina, que linda! / Que gorda esta menina, que linda! / E ela ri de prazer’. Todavia, contrariando este conceito poético, temos Ricardo Jorge a escrever: ‘A plástica opulenta das belas de Ticiano e Rubens está reprovada, dando-se por mentiroso o nosso velho anexim: dá-me gordura que eu te darei formosura’.
Na verdade, para além do aspecto inestético da gordura, ela constitui, também, uma sobrecarga ao trabalho cardíaco por envolver a irrigação de uma massa inerte, o tecido adiposo. Por outro lado, a sua acumulação na região abdominal (os inestéticos ‘pneus’) constitui um pesado fardo para o estatismo da coluna vertebral, por si só, dificultado pela conquista da posição bípede que permitiu ao homem elevar as mãos em preces a Deus. Este acréscimo de tecido gordo que pode atingira foros de obesidade é responsável, entre outros factores, pelo estreitamento dos espaços intervertebrais e consequente compressão dos respectivos discos conducentes ao aparecimento de hérnias discais, por exemplo.
A propósito, ouçamos o que nos tem para dizer o Prof. Duchosal da Universidade de Genebra: ‘Engordando e perdendo o tónus muscular expõe o homem o sistema circulatório a outro perigo – o desequilíbrio metabólico que acelera o processo de arteriosclerose' ”.


E se à dieta [ou talvez melhor dito, à selecção dos alimentos a ingerir], por si só, tem sido cometido papel de relevo no processo de emagrecimento, outro tanto, deve suceder no que respeita ao exercício físico, por vezes e impropriamente, tido como suficiente isoladamente. Assim, o exercício físico, ainda que mesmo feito com persistência (e não somente quando o verão se faz anunciar!), por si só, não resolve o problema de excesso de peso já que abrindo o apetite não contraria o desequilíbrio metabólico com predomínio assimilativo. Consequentemente, para a obtenção de um peso ideal aliado a proporções físicas de estatuária grega deve ser preconizado o exercício físico acompanhado por uma alimentação correctamente planeada [é conveniente chamar a atenção para o facto de nem sempre a balança ‘falar verdade’, por o tecido muscular ser mais denso que a gordura].

Para já o conselho aqui fica. Para emagrecer, segundo cânones estéticos da sociedade contemporânea, torna-se necessário muito exercício físico, impõe-se uma equilibrada dieta e…exige-se enorme espírito de sacrifício para não se ficar pelas intenções, porque, como diz o ditado, ‘cheio de boas intenções está o inferno cheio’! A haver uma fórmula mágica é pela certa esta, pese embora aos adoradores de pílulas milagrosas e fáceis de tomar [vivia-se então um tempo em os médicos da moda não tinham feito a sua aparição no universo ioiô: emagrece, engorda, emagrece, engorda…].

Entretanto, no aspecto alimentar também se fazem sentir os efeitos nefastos da civilização hodierna. Ela destrói, quase por completo, a defesa do homem moderno, o instinto que mereceu do médico Silva Melo o seguinte comentário: ‘Ainda que reconhecendo-se hoje que o instinto pode ter as suas dúvidas e os seus desvios, sendo capaz de conduzir a erros e prejuízos, constitui uma das forças mais poderosas de que dispõe o ser animal para orientar a sua existência e garantir a sua vida’. Ou seja, perdendo o instinto animal, quase por completo, e num grau tanto ou mais elevado quanto maior for o nível civilizacional, fica o homem entregue à orientação de um requintado paladar, mau conselheiro na escolha dos alimentos mais saudáveis.

O alcance e a manutenção de um peso corporal saudável é um favor que se fica a dever ao binómio exercício físico/alimentação equilibrada. O médico e humanista espanhol, Gregório Marañón, não se escusa mesmo em afirmar: ‘Por isso não exagero quando sou a dizer a alguns doentes, aos que custam trabalho convencer que devem emagrecer, que por cada quilo de peso que perdem ganham dois anos de vida’ (“Educação Física ao Serviço da Saúde Pública”, edição da Sociedade de Estudos de Moçambique, pp. 31-33, 1973).

E mesmo que a “linha” não seja uma coisa que preocupe demasiado o leitor pouco dado a “modas corporais” e seus sacrifícios, traduzidos na exigente e dupla disciplina do exercício físico e de uma alimentação equilibrada, enfatizo o papel de ambos no bem-estar físico e psicológico da pessoa numa sociedade dominada pelo “stress” diário num mundo de feroz competição por bens materiais e em que a beleza feminina das curvas de Vénus de Milo ou as formas físicas masculinas apolíneas ressurgem com renovada pujança. Por último, estando também em cima da mesa que por cada quilo corporal a mais que se perca ganham-se dois anos de vida, apostemos nesta cartada. É singelo contra dobrado! Ou, em alternativa, como disse um fisiólogo sueco: “Se não gosta de fazer exercícios, compre um cão”. Ambos beneficiarão com os passeios diários à rua!

P.S.: Narciso Moura, após três anos de dieta rigorosa, muito exercício físico e uma vontade inabalável, perdeu 100 quilos (“Diário de Coimbra”, 1.ª página, 21.Julho.2007)

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Espelho meu...?


Agora que o Verão está aí e com ele a preocupação com a boa forma, e como não há duas sem três, publicamos mais um artigo da nutricionista Ana Carvalhas (saído no "Diário de Coimbra" de ontem).

Depois da morte, no último ano, de duas modelos brasileiras por anorexia mental, Madrid e Milão tomaram a louvável atitude de banir dos seus desfiles de moda modelos supermagras, isto é, modelos com índice de massa corporal abaixo de 18 kg/m2 (segundo a Organização Mundial de Saúde, são considerados de baixo peso indivíduos com índice inferior a esse valor).

Comer deixou definitivamente de ser um acto inocente. Nunca como agora houve tanta consciência dos efeitos que a alimentação tem na nossa saúde física e mental (no nosso corpo e na nossa imagem corporal). Hoje em dia, comemos não apenas para nos alimentarmos, mas também para sermos mais: mais atraentes, mais jovens, mais saudáveis, mais inteligentes, mais longevos, etc, etc.

A busca da silhueta ideal imposta pelos média tem conduzido aos maiores disparates alimentares. Com efeito, a anorexia, a bulimia e a obesidade são consequências de maus comportamentos alimentares. As anoréxicas e as bulímicas (uso o feminino plural porque são geralmente raparigas, as portadoras destes distúrbios - nove raparigas para um rapaz) são vítimas de medo excessivo de engordar. Os seus comportamentos vão da privação total de alimentos, forma adoptada pelas anoréxicas, até à restrição alimentar alternada com hiperfagia (ingestão excessiva de alimentos), forma adoptada pelas bulímicas. Mas estes dois tipos de comportamento ocorrem igualmente com os obesos que podem experimentar os efeitos nefastos do jejum, quando tentam perder peso, e de hiperfagia descontrolada, quando desistem da sua dieta. Em qualquer dos casos, tais comportamentos geram angústia e infelicidade, que abrem caminho a novas crises, entrando em ciclos viciosos.

A obrigação de ter de parecer uma ninfa pode também ser responsável por distorções psicológicas com graves consequências na auto-estima. Mulheres clinicamente normais, quer dizer, com peso adequado à sua altura, sentem-se muitas vezes, gordas e feias devido à pressão social. Baseada neste fundamento, a Dove, conhecida marca de cosmética, pôs em marcha um inquérito à escala global, em que foram entrevistadas 3200 mulheres de dez países. O estudo revelou que apenas dois por cento das mulheres se achavam bonitas e que cerca de metade se julgavam demasiado gordas. Na sequência, a Dove decidiu lançar no ano passado uma campanha pela beleza real cujo “slogan” era “mulheres reais têm curvas reais”. A ideia era ajudar as mulheres que não têm um corpo de “top-model” (obviamente a esmagadora maioria!) a realçar e a apreciar a sua própria beleza. Repare-se que cada cultura tem os seus padrões de beleza e cada um de nós herda dos progenitores ancas largas ou estreitas, pernas curtas ou longas, troncos curtos ou longilíneos, cinturas estreitas ou largas, enfim cada ser humano é único e irrepetível, com o seu encanto próprio, pelo que não devem gerar-se sentimentos de inferioridade. Cada mulher deve achar-se bonita tal como é!

Nem gordura é formosura nem magreza é beleza. No meio é que está a virtude. E é esse meio que temos todos, mulheres e homens, de procurar para nos olharmos, felizes, diante de um espelho: "Espelho meu...?"