De Víbora na Mão é um livro autobiográfico de Hervé Bazin de 1948, publicado em Portugal pela coleção Unibolso, provavelmente em 1985. Neste livro, se os filhos são terríveis e planeiam (e tentam) o assassinato da mãe, esta não é menos ao bater-lhes e a castigá-los. Em suma, um livro terrível! Estava a lê-lo, desta vez para anotar os aspectos químicos. Mas não era tanto isso que me interessava. Interessava-me mais a geografia, os tempos envolvidos e a relação, em termos de lugares e atitudes, com A Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, uma obra monumental em sete volumes que acaba um pouco antes da outra começar e que também estive a reler e anotar, e, ainda, Thérèse Desqueyroux, passado nas Landes e publicado em 1927 por François Mauriac (publicado, em Portugal, recentemente pela Cavalo de Ferro, em 2015). Estava eu nisso, a viajar pela França do início do século vinte, a comparar o conservadorismo patético de uns com o sensualismo dos outros. Compararava, sem grande profundidade, é certo, as diferentes atitudes, o dinheiro que a uns, arruinados, faltaria e que, os outros, velhos burgueses, teriam em excesso. Comparava a atitude perante os banhos de mar e a praia, evitada mas verdadeira, de Le Balle na Víbora, com a Balbec imaginária da Busca.
Mas a química voltou outra vez. A verdade é que todos os livros a têm. E só falo da Víbora na Mão. Esta tem, claro, o óleo de rícino, a pólvora piroxilada, também chamada pólvora sem fumo, as gotas de beladona, o cianureto (diz-se actualmente cianeto) de potássio, a ureia e a uremia, a curiosidade de Rayon ser também um lugar, entre outros. Mas esses eu já conhecia. O que me chamou mais a atenção acabou por ser um medicamento para uma crise de fígado, chamado, no livro, Algocoline Zizine. Uma pesquisa mostrou que era uma expressão que só aparecia neste livro e que esta obra era citada ipsis verbis num artigo antroplógico a propósito da questão de serem as “doenças de fígado” uma doença tipicamente francesa. Mais umas pesquisas e estas mostraram que os laboratórios Zizine ainda existem, mas agora são dedicados ao “medicamentos alternativos,” e que “algocoline,” poderia ser outro nome para analgésico. Se fosse o caso, qual seria a sua composição? Foi aí que vi que os laboratórios Zizine não tinham fabricado o “Algocoline Zizine” mas sim o “Alcholine Zizene,” de que há bastantes caixas metálicas à venda na internet. Será que o autor se enganou? Será que teve um liberdade poética? Será que não quis usar um nome registado? Não sei, o que sei é que o Alcholine Zizene era de facto uma marca registada e descrito como um “drenante hepático” (um laxante, diríamos hoje) composto de sulfato de magnésio e pectina. E foi assim que, de uma praia redescoberta pelos parisienses, Le Balle-Escoublanc, encontrei a química de um frasco de medicamento a vajar pela França dos livros. Façamos um passeio à feira do livro e encontremos outras viagens!
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terça-feira, 1 de setembro de 2020
De víbora na mão, em busca do tempo perdido, viagens pelos livros
quarta-feira, 18 de março de 2020
Comportamentos a ter para evitar a COVID-19
O vírus SARS-CoV-2 e a doença que causa, a COVID-19, têm sido o tema de conversa, debate e preocupação dos últimos tempos. Num bom exemplo de Comunicação de Ciência, com recurso a equipas multidisciplinares de cientistas, escritores e artistas, o site Lifeology apresenta um curso, cujas lições são dadas em cartões ilustrados, sobre este vírus e sua doença. É o ideal para qualquer pessoa compreender o que está em causa e para mostrar aos mais novos Embora esteja em inglês, é uma iniciativa de carácter pedagógico com utilidade para os tempos atuais. Podem consultar aqui:
quarta-feira, 6 de novembro de 2019
Conversas de Café: Pseudociência em Saúde
A COMCEPT foi convidada a estar presente num debate sobre a pseudociência em saúde, a ter lugar na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), no dia 14 de Novembro, às 15h30. Mais informação enviada pela organização:
“As “Conversas de Café” são uma iniciativa que surge da vontade dos alunos do 58º Curso de Especialização em Saúde Pública (CESP) em abordar temas de maior interesse. Este é um espaço de discussão informal onde os participantes podem colocar questões e expor pontos de vista a Professores e peritos em áreas que consideramos pertinentes.
Esta terceira sessão será dedicada à Pseudociência em Saúde – O papel da Saúde Pública. Contaremos com a presença do Prof. Doutor António Vaz Carneiro, médico e Diretor do Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública e do Conselho Científico do Instituto de Saúde Baseada na Evidência, e do Dr. João Monteiro, biólogo, doutorando em História da Ciência na FCT/NOVA e membro da Comunidade Céptica Portuguesa.”
sexta-feira, 19 de julho de 2019
NEUROMITOLOGIA
Texto enviado por João Nunes, Neurologista
Cérebro, Neurologia, Mitos
e pseudociência
O Cérebro, as
Neurociências e a Neurologia estão na berra.
Não passa uma semana sem que sejamos confrontados com
notícias espetaculares e reveladoras sobre o Cérebro e o seu funcionamento.
O interesse da opinião pública é tal que um comentador na
área da ciência chegou a referir que se Andy Warhol estivesse vivo o motivo das
suas próximas serigrafias seria o cérebro, deixando para trás a pobre Marilyn
Monroe.
“Este é o aspecto do cérebro quando estás apaixonado”,
“Descoberto o centro cerebral da religião”, “Estudo comprova que os mais
distraídos são os mais inteligentes”, são exemplos de cabeçalhos encontrados na
comunicação social ou nas redes sociais, frequentemente acompanhados de imagens
vibrantes e coloridas do cérebro humano.
Ou então “investigadores da Universidade X (a preencher
consoante a semana) descobrem teste para o diagnóstico precoce de Alzheimer”, ou
“novo estudo representa promessa na cura do Parkinson”.
De onde vem todo este interesse pelo Cérebro e pelas
Neurociências?
Para além do apelo natural da descoberta dos segredos por
detrás do centro que comanda todas as nossas acções e emoções, e que tem
motivado cientistas ao longo de séculos, a popularidade recente junto das
massas tem a ver, entre outros motivos, com o aparecimento de métodos de imagem
que analisam o funcionamento do cerebral, estudando as áreas que estão a
consumir mais oxigénio quando o cérebro está a realizar uma determinada função.
E´o caso da chamada Ressonância Magnética Funcional (RMf),
que permite a obtenção de imagens de diferentes cores do cérebro, consoante
determinada zona está mais ou menos ativa.
Por exemplo se o indivíduo mexer a mão direita é possível
através deste método ver uma área cerebral
a “iluminar-se”, a ficar vermelha por estar mais ativa, neste caso uma
zona do lado esquerdo do cérebro.
Estes métodos de estudo com imagens, coloridos, apelativos,
são obviamente mais interessantes para o público generalista.
Mas há cuidados a ter com esta nova “janela da mente”, obrigando
a tratamento estatístico rigoroso dos dados obtidos, e se tal não acontecer
podem ser obtidos os resultados que os investigadores antecipadamente querem, o
chamado viés de confirmação, ao atropelo do método científico, o que pode ser
inconsciente ou nem tanto.
E´ possível, com “Photoshop” estatístico, arranjar atividade
cerebral onde ela não existe, como aconteceu num estudo famoso, provocatório,
em que os autores, com a utilização da RMf, “demonstraram” atividade, obviamente
falsa, no cérebro dum salmão morto, só pelo recurso a tratamento estatístico
levado ao extremo.
As notícias que localizam as emoções em diversos pontos do
cérebro, devem ser encaradas de forma saudavelmente cética. Nestes casos o que
está em jogo são geralmente múltiplas áreas associadas e não uma única área
“mágica”.
O grande número de notícias relacionadas com o Cérebro e as
Neurociências, tem também a ver com a necessidade de promoção dos Centros de
Investigação, de forma a conseguirem visibilidade e financiamento para os seus
projectos. Isto faz com que estudos preliminares, “in vitro”, ou em animais,
sejam promovidos de forma prematura, em situações de doenças neurológicas com
grande visibilidade junto da opinião pública, como a Demência de Alzheimer ou a
doença de Parkinson, por exemplo. Por isso há quem defenda que no título da
publicação ou artigo científico deve ser referido que o estudo é feito em
animais ou que ainda está na fase do tubo de ensaio.
Outros mitos associados a esta área são relativamente
inócuos, embora desprovidos de senso comum.
Um dos mais populares, com a ajuda de séries televisivas e
filmes, é a de que usamos apenas 10% da nossa capacidade cerebral.
Colocado de forma simples: é falsa a ideia de que só
utilizamos um décimo do nosso potencial cerebral, não faria sentido que um
órgão que gasta mais de um quinto do total da energia do organismo, tivesse
apenas uma pequena parte a trabalhar. Há hoje evidência de que o cérebro está
sempre a funcionar na sua totalidade, mesmo durante o sono, embora as áreas
mais ativas mudem consoante a tarefa.
Uma outra ideia errada na área das neurociências é a de que
a nossa personalidade e forma de pensar dependeria mais de um lado do cérebro.
Assim os indivíduos com o lado direito dominante seriam mais criativos,
imaginativos, intuitivos e artísticos. Os que tivessem como lado dominante o
esquerdo seriam mais organizados, lógicos, analíticos e proficientes a
matemática. Este é um conceito errado segundo os atuais conhecimentos
neurológicos, embora já tenha permitido a venda de milhões de livros de
pseudopsicologia. Todas as tarefas complexas que o nosso cérebro realiza exigem
participação dos dois lados do cérebro, existindo extensas ligações entre ambos
os lados. Podemos falar do exemplo da linguagem, embora o lado esquerdo seja
fundamental para a compreensão e expressão da linguagem, o lado direito é
determinante para compreender o contexto e tom das palavras. E na matemática,
enquanto o lado esquerdo é importante para a resolução de equações, o lado
direito dedica-se a comparações e estimativas.
O interesse que a Neurologia e Neurociências motivam tem também
a ver com a nossa procura do Santo Graal cerebral, a pílula ou suplemento mágico que nos aumente a
memória e a concentração, que nos torne mais inteligentes, que nos livre do
declínio cerebral associado à idade, ou nos torne as máquinas intelectuais que a
atual sociedade ultracompetitiva exige.
Há uma indústria de milhões à volta deste problema, com
produtos com designações sugestivas , muitas vezes com nomes associados ao
elefante e à sua proverbial memória, comercializados em farmácias, em lojas de
produtos naturais e online.
Substâncias como o Omega 3, o Gingko biloba, o Ginseng, o
Chá Verde, as bagas Goji e uma miríade de Vitaminas, entre muitos outros, são
usados na produção de suplementos milagrosos.
Qual o sumo que se extrai desta multidão de embalagens,
suplementos, anúncios? Zero ou muito perto disso. O efeito destes suplementos a
nível das nossas capacidades cognitivas ou da memória é praticamente
inexistente, e não digo completamente inexistente porque produtos como as
Vitaminas ou o Omega 3 poderão ter interesse em grávidas e em pessoas com
déficites nutricionais, por exemplo a suplementação com vitaminas do complexo B
pode ser necessária em indivíduos com regime alimentar Vegan.
Outra face da mesma moeda é a moda atual, sem qualquer
evidência científica, de que é importante, para a nossa saúde, incluindo o
funcionamento cerebral, evitar determinados alimentos como o glúten ou o leite
animal. Esta corrente só pode ser entendida como uma forma de marketing para
produtos que não contenham aqueles “venenos”, e que hoje em dia se encontram
por todo o lado. O glúten e o leite foram utilizados tranquilamente pela raça
humana durante milénios, mas são agora denunciados como a fonte de todos os
males do Homo sapiens ou quase.
A realidade é que, tirando situações muito raras, como é o
caso da Doença celíaca no caso do Glúten, ou das pessoas com uma deficiência
grave de Lactase (enzima responsável pela digestão da Lactose constituinte do
leite) no caso do leite, é perfeitamente seguro e útil o consumo de glúten e de
leite na nossa alimentação.
Uma alimentação variada e equilibrada é necessária e suficiente
para a nutrição do nosso corpo, incluindo o cérebro.
Outra indústria de milhões associada a uma pretensa acção
sobre o funcionamento cerebral é a da venda de produtos de software de treino
cerebral, geralmente online e sob a forma de aplicações.
Uma pesquisa feita junto de lojas online de aplicações para
telemóveis, revela dezenas de aplicações promovidas com o intuito de manter ou
melhorar a memória e a capacidade intelectual. Infelizmente não há estudos fiáveis
que mostrem a utilidade de qualquer destes programas, pelos menos isoladamente.
Melhoram a tarefa que é treinada durante o jogo de
computador, mas não são úteis no dia a dia, não melhoram a capacidade de ir às
compras num idoso com dificuldades cognitivas, ou os resultados dos exames num
estudante universitário por exemplo. A promoção dos pretensos efeitos
miraculosos destes produtos sobre a capacidade cerebral levou a uma tomada de
posição conjunta de cientistas da área a desmitificar o seu efeito.
A sua utilização nos indivíduos com declínio cerebral poderá,
no entanto, ser complementar de outros aspetos tão ou mais importantes, como a atividade
física, a interacção social, a leitura, tocar um instrumento musical, etc.
A patologia neurológica, dada a riqueza de sintomas que
determina, é também fonte de muitos mitos populares e ideias erradas. Um
apanhado exaustivo exige o espaço de um livro de texto. Vou referir alguns dos
mais frequentes:
O mito de que Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) são
doenças exclusivamente dos idosos. Embora sejam mais frequentes na população
mais idosa, os AVC podem ocorrer em jovens, pelo que mesmo em grupos etários
mais baixos seja importante a prevenção dos fatores de risco conhecidos, como a
Hipertensão, a Diabetes, o Tabagismo, a Obesidade e os valores altos do
Colesterol.
Fulcral é a ida emergente à Urgência hospitalar em caso de
suspeita de AVC, com recurso ao INEM e à via verde hospitalar, o que permite às
vezes desobstruir o vaso entupido que está a causar o problema. Para mais
esclarecimentos deve ser consultado o site da DGS a este respeito.
Algumas pessoas ainda têm a ideia errada de que a Epilepsia
é uma doença associada a menores capacidades intelectuais. A realidade é que,
tirando algumas formas graves e raras , os doentes epiléticos podem fazer uma
vida normal, com um controle quase total das crises , o que pode ser atribuído,
em parte, à eficácia e variedade da medicação atualmente existente.
Ainda no campo das crises epiléticas existe a noção errónea
de que deve ser colocado um objeto na boca da pessoa em crise para evitar que
morda a língua, mas tal só vai dificultar a respiração da pessoa, que deve ser
colocada de lado, num sítio em que não se magoe, e sem nada a dificultar a
circulação de ar.
Outro conceito errado tem a ver com as Demências. Embora a
grande maioria seja progressiva e irreversível, existem casos de Demências
tratáveis, pelo que é importante a consulta por um médico Neurologista.
Exemplos são o déficite de vitamina B12, as Hidrocefalias com acumulação
excessiva de líquido no interior do cérebro ou os Hematomas cerebrais crónicos
provocados por traumatismos cranianos, entre outras causas tratáveis.
No que diz respeito às doenças neurológicas, um aspeto que
prejudica também o tratamento dos pacientes, é o recurso às terapias
alternativas.
O seu uso e abuso leva ao atraso no início de tratamentos
eficazes, pode levar à interferência das mezinhas com os medicamentos úteis, e
troca falsas esperanças por gastos elevados em inutilidades.
Como exemplos apontaria a promoção da acunpuntura, da
homeopatia, da osteopatia, da naturopatia e outras no tratamento de diversas
doenças neurológicas.
Não há qualquer evidência científica séria que as suporte,
mas são promovidas nos meios de comunicação social, inclusive do Estado, como é
típico dos programas televisivos matinais.
Relativamente à Acunpuntura, que tem sido publicitada para o
tratamento de doenças Neurológicas como a Enxaqueca, existem estudos que
mostram que não é mais que um placebo, com resultados iguais quer seja
praticada por principiantes ou por mestres, existindo inclusive um estudo em os
resultados foram iguais usando agulhas de Acunpuntura ou palitos!
A Osteopatia e a as terapias Quiropráticas utilizam
manipulações cervicais, apregoadas como tratamento para quase tudo, mas uma das
complicações possíveis já descrita e publicada em revistas científicas, é o
facto destas manipulações cervicais poderem danificar artérias do pescoço que
levam sangue para o cérebro e poderem causar acidentes vasculares cerebrais.
Mais grave é o canto de sereia com que são atraídos doentes
desesperados, pelas clínicas internacionais com tratamentos de pretensa base
científica, mas ainda em fase de investigação, como é o caso das células
estaminais e das vacinas dendríticas.
Os doentes pagam fortunas em troca de tratamentos
experimentais, ainda ineficazes ou pouco seguros, acabando por regressar ao
nosso SNS piores do que quando foram para essas clínicas, como é triste exemplo
famosa clinica alemã, que conta com inescrupulosos angariadores nacionais,
principalmente junto de doentes oncológicos.
Falando do Cérebro e de Tumores, outra dúvida com que muitos
se confrontam diz respeito à associação dos telemóveis e dos tumores cerebrais.
Não há estudos sólidos que mostrem aumento do número de
novos casos de tumores cerebrais após o início da utilização maciça de
telemóveis. Tambem não há relação demonstrada entre este e outros tipos de
tumores com as redes Wifi, 4G ou 5G, ou micro-ondas, que é, hoje em dia, uma
das teorias da conspiração prediletas na internet.
Em conclusão, neste tempo de “fake news” devemos manter um
saudável ceticismo, e daí a importância da literacia científica na área das
neurociências.
Desconfiemos das fabulosas descobertas e curas espantosas
promovidas nos media e redes sociais, mas que não têm grande repercussão junto
da comunidade científica.
Se parece demasiado bom para ser verdade é porque
provavelmente não é.
Desconfiemos dos suplementos miraculosos, dos programas de
software que nos vão pôr a pensar melhor, e das curas e tratamentos
alternativos, cuja utilidade é principalmente financeira para quem as pratica.
sexta-feira, 17 de maio de 2019
Na Feira de Educação e Saúde de Belém
As Doenças Inflamatórias do Intestino (DII) afectam cerca de 20.000 pessoas só em Portugal. Atendendo ao número de pacientes, sugiro que visitem a Feira de Educação e Saúde de Belém, que começou hoje. Aí poderão encontrar a equipa do movimento Doença Crohn/Colite Portugal que lá estará a informar e a sensibilizar para as doenças inflamatórias do intestino. Entre essas pessoas estará a Vera Gomes, autora do livro "Conviver com as doenças inflamatórias do intestino".
Para chegar aos doentes, aos seus familiares e a outras pessoas que convivam de perto com a doença, hoje às 13h, a Vera Gomes esteve na Farmácia Fontes Pereira de Melo (em Picoas, Lisboa) a conversar sobre este tipo de doenças.
Amanhã, das 14 às 15h, a Dr. Joana Torres, gastroenterologiata do Hospital Beatriz Ângelo, dará uma apresentação sobre Doenças Inflamatórias do Intestino.
No Domingo, haverá um concerto no Largo do Intendente.
Para saberem mais sobre a doença e as suas consequências na vida de uma pessoa, recomendo a leitura do livro acima mencionado, assim como o blogue da Vera Gomes.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2018
V Conferência do Solstício: Antibióticos
A COMCEPT - Comunidade Céptica Portuguesa vai organizar a sua V Conferência do Solstício, dedicada ao tema dos antibióticos. Para isso, conta com o médico de família Armando Brito de Sá como orador. Eis uma breve sinopse:
"Os antibióticos constituíram um dos progressos centrais da medicina do século XX, senão mesmo de toda a sua história. O seu sucesso, contudo, trouxe consigo comportamentos que ameaçam, sem exagero, o regresso a situações que não conhecemos há décadas. O desafio que lançamos ao nosso convidado é fazer uma análise da evolução do uso dos antibióticos, dos perigos actuais da sua utilização e das soluções que se vislumbram (ou não) para o combate às infecções."
A entrada é gratuita, mas é necessária inscrição!
Mais informações:
Quando: Dia 15 de Dezembro, 18h
Local: Auditório da Escola-Oficina nº1, no Largo da Graça, 58, Lisboa
Organização: COMCEPT
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Bernardino António Gomes (1768-1823): 250 anos do nascimento, 206 anos da purificação do primeiro alcalóide
Em 29 de Outubro de 2018, assinalaram-se os 250 anos do nascimento de Bernardino António Gomes (1768-1823), médico e cientista português, aniversário que já foi aqui lembrado por Carlos Fiolhais. A sua contribuição pioneira para a extracção e purificação do primeiro alcalóide na forma de base pura, obtido da casca da quina (cinchona), usada no tratamento da malária, foi um feito notável que está na origem do desenvolvimento da química medicinal moderna baseada em compostos bioactivos.
Ao composto que obteve na forma cristalina e identificou com a “virtude febrífuga” das quinas, chamou cinchonino, nome que a partir de 1819, passou a ser cinchonina, seguindo a nomenclatura adoptada universalmente para os alcalóides. Este composto que apresenta as mesmas caracterísiticas terapêuticas da casca de quina, não existia noutras cascas de árvores que eram comercializadas, por fraude ou desconhecimento, também como medicamento para as febres intermitentes da malária. Este trabalho notabilíssimo, realizado em 1812 por solicitação da Academia das Ciências de Lisboa, no Laboratório da Casa da Moeda, de que era director Bonifácio de Andrada e Silva, abria assim o caminho para métodos de controlo de qualidade químicos e de programas de pesquisa de outras plantas que tivessem o mesmo princípio activo.
A descoberta de Gomes foi confirmada em 1820 por Pelletier e Caventou, autores que identificaram um outro dos alcalóides na casca da quina, a quinina, que existe em maior quantidade na casca, e que haviam já descoberto e purificado, em 1817 a estricnina, seguindo em ambos os casos o procedimento de Bernardino António Gomes. É de realçar que a morfina havia já sido isolada em 1806 por Friedrich Serturne, mas a obtenção do primeiro alcalóide puro e o estabelecimento dos princípios do método corrente que permitiu, a partir das primeiras décadas do século XIX, purificar dezenas de compostos alcalóides podem ser atribuídas à publicação de Bernardino António Gomes.
Podemos perguntar por que razão não são mais conhecidas estas contribuições de Bernardino António Gomes e por que razão esta efeméride tão redonda (250 anos) está a passar, tanto quanto sabemos, quase despercebida. Obviamente a questão de Portugal ser um país periférico, sem grande tradição científica, tem sido relevante, mas não é essa a única razão.
Gomes, embora com grande entusiasmo pela investigação irá continuar essencialmente um médico (notável e pioneiro também na vacinação contra a varíola e no estudo da elefantíase entre outros trabalhos), mas não continuou o trabalho sobre a quina, nem o estendeu a outras plantas, nem motivou outros investigadores portugueses a continuaram esse trabalho. Se o trabalho analítico e químico de Bernardino António Gomes tivesse tido continuidade, teria tido com certeza muito mais visibilidade. Assim, aquilo que seria provavelmente a grande motivação e o resultado mais importante do trabalho: identificar a “virtude febrífuga das quinas” que designaríamos actualmente pela busca do princípio activo ou do composto responsável pelo efeito terapêutico, abrindo a possibilidade pioneira na ciência da época de obter este composto de outras formas, substituíndo a necessidade de recorrer à quina, foi rapidamente esquecido e não teve continuidade.
Podemos perguntar por que razão não são mais conhecidas estas contribuições de Bernardino António Gomes e por que razão esta efeméride tão redonda (250 anos) está a passar, tanto quanto sabemos, quase despercebida. Obviamente a questão de Portugal ser um país periférico, sem grande tradição científica, tem sido relevante, mas não é essa a única razão.
Gomes, embora com grande entusiasmo pela investigação irá continuar essencialmente um médico (notável e pioneiro também na vacinação contra a varíola e no estudo da elefantíase entre outros trabalhos), mas não continuou o trabalho sobre a quina, nem o estendeu a outras plantas, nem motivou outros investigadores portugueses a continuaram esse trabalho. Se o trabalho analítico e químico de Bernardino António Gomes tivesse tido continuidade, teria tido com certeza muito mais visibilidade. Assim, aquilo que seria provavelmente a grande motivação e o resultado mais importante do trabalho: identificar a “virtude febrífuga das quinas” que designaríamos actualmente pela busca do princípio activo ou do composto responsável pelo efeito terapêutico, abrindo a possibilidade pioneira na ciência da época de obter este composto de outras formas, substituíndo a necessidade de recorrer à quina, foi rapidamente esquecido e não teve continuidade.
Para o abandono do projecto e para o quase esquecimento do feito concorreram em grande medida razões locais. Os resultados de Bernardino António Gomes foram duramente criticados por José Feliciano de Castilho no "Jornal de Coimbra" com repercussões internacionais no "Investigador Português em Inglaterra". Tomé Rodrigues Sobral que arbitrou a disputa, optou por uma resposta inconclusiva sugerindo que a “virtude febrifúga” poderia ter uma origem múltipla, pondo-se assim termo à continuação do projecto.
Mais tarde, com a República e com o Estado Novo, Bernardino António Gomes foi sendo evocado, embora de forma tímida, como um grande cientista português. Mas estas evocações que podem confundir-se com as formas propagandísticas do nacionalismo não ajudaram a consolidar a sua memória num país com tão pouca tradição em homenagear de forma devida a sua ciência. Tem um busto no Jardim Botânico de Lisboa, o nome em algumas ruas, foi declarado fundador da dermatologia portuguesa e patrono da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e, este ano, foi incluído numa emissão filatélica “Vultos da História e da Cultura”, a qual inclui o Padre Himalaya, outro cientista português que deveria ser mais conhecido, mas é pouco, muito pouco, como reconhecimento de tão notável personagem da história da ciência e da cultura portuguesas.
Bernardino António Gomes nasceu a 29 de Outubro de 1768 e foi baptizado, segundo Virgílo Machado, em Paredes do Coura, embora haja autores, incluindo o próprio filho homónimo, indicam como local de nascimento Arcos de Valdevez. Doutorou-se em medicina na Universidade de Coimbra em 1793, tendo ido exercer medicina para Aveiro até 1797. O interesse pela investigação chamava-o e muda-se para Lisboa onde pouco tempo depois é médico da Armada, embarcando para o Brasil. Dessa viagem surge uma publicação sobre a canela do Rio de Janeiro a que se seguirão vários outros trabalhos sobre plantas medicinais do Brasil. Casa em 1801 com Leonor Violante Mourão, jovem viúva sete anos mais nova com quem tem cinco filhos, o mais conhecido é o homónimo Bernardino António Gomes filho que foi professor da Universidade de Coimbra. Este casamento foi tumultuoso e envolveu separações e um divórico público que foi até já alvo de um estudo académico. Em 1806 publicou um trabalho sobre o tifo. Em 1812, esteve envolvido na fundação do Instituto Vacínico de que foi o primeiro director. Incansável investigador e autor, escreveu também sobre as boubas (peste bubónia), a desinfecção de cartas, doenças de pele, a elefantíase e a ténia. Em 1817 acompanhou como médico a princesa Maria Leopoldina até ao Rio de Janeiro. Morreu com 54 anos em Lisboa de “afecção malígna no estômago”. Foi sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa (1812), cavaleiro da Ordem de Cristo (1812), Médico Honorário da Câmara Real (1813), entre outras distinções.
Há ainda bastantes aspectos da vida e dos trabalhos de Bernardino António Gomes que merecem ser melhor estudados. Felizmente, há neste momento pelo menos duas investigadoras, estudantes de doutoramento, que estão a realizar estudos que poderão lançar mais alguma luz sobre os seus trabalhos. Conhecer e divulgar na justa medida a história das descobertas e polémicas em que se viu involvido é uma contribuição importante para entendermos melhor a nossa História e as razões das nossas dificuldades passadas e pode contribuir para uma maior confiança colectiva na ciência portuguesa.
Bibliografia
AMORIM DA COSTA, A. M., "Thomé Rodrigues Sobral (1759-1829). A Química ao serviço da Comunidade" in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1 (1986), 373-402.
GOMES, Bernardino António, Ensaio sobre o cinchonino e sobre a sua influencia na virtude da quina, e d''outras cascas, Memórias de Mathemática e Physica da Academia das Sciencias, 1812 (disponível online em várias fontes, republicado na Revista Portuguesa de Química Pura e Aplicada em 1908)
HEROLD, Bernardo, "Bernardino Gomes, pai e Agostinho Lourenço, precursores portugueses da química dos alcalóides e dos polímeros sintéticos" in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1 (1986), 417-433.
HEROLD, Bernardo, CARNEIRO, Ana, Bernardino António Gomes, Biografias, SPQ (http://www.spq.pt/files/docs/Biografias/BAGomesport.pdf acedido 29 de Outubro de 2018).
MACHADO, Virgílio, O Doutor Bernardino Gomes (1768-1823) : a sua vida e sua
obra. Lisboa : Portugalia, 1925
(disponível em http://purl.pt/420)
REIS, Fernando, Bernardino António Gomes, Ciência em Portugal: personagens e episódios. Instituto Camões (http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/p21.html, acedido 29 de Outubro de 2018)
SIMÕES, Manuela Lobo da Costa, Um divórcio na Lisboa oitocentista. Livros Horizonte: Lisboa, 2006.
SUBTIL, Carlos,
Bernardino António Gomes: ilustre médico iluminista nascido em
Paredes de Coura. Município de Paredes do Coura, 2017.
sexta-feira, 10 de agosto de 2018
Uma biografia de António Arnaut
Foi lançado este ano o livro "António Arnaut - Biografia", da autoria dos jornalistas Luís Godinho e Ana Luísa Delgado.
António Arnaut (1936-2018) foi um advogado português que nasceu em Penela e viveu a maior parte da sua vida em Coimbra. Teve uma relevante participação cívica e cultural no panorama nacional: do ponto de vista político, foi um dos fundadores do Partido Socialista, foi deputado, vice-presidente da Assembleia da República e Ministro dos Assuntos Sociais; ainda enquanto político, criou e defendeu o Serviço Nacional de Saúde (SNS); foi autor de dezenas de livros de poesia, ficção e ensaios; pertenceu à maçonaria, uma instituição filantrópica, tendo exercido o cargo de Grão-Mestre do GOL.
Sempre que possível, utilizava o espaço mediático para defender o SNS, a ética, a justiça e a igualdade, assim como para criticar a corrupção e o neoliberalismo.
O livro pode ser divido em oito partes: do capítulo 1 ao 6 é apresentada a história da criação e vicissitudes do SNS, o capítulo 7 aborda os aspetos principais da sua vida, os capítulos 8 a 10 são dedicados à sua experiência militar, o capítulo 11 centra-se na sua relação com a religião e a perda da fé, nos capítulos 12 a 15 é dada a conhecer a sua vida política, os capítulos 16 a 18 são dedicados à sua atividade literária, os capítulos 19 a 21 abordam a sua preocupação com a ética e a sua intervenção cívica e social, o capítulo 22, o último, encerra com o reconhecimento público que mereceu.
quarta-feira, 21 de setembro de 2016
Investigação em História da Medicina Tropical
Um grupo de investigadores de vários países reuniu-se em
Lisboa, entre 14 e 16 de Outubro de 2015, para apresentar e debater os
resultados das suas pesquisas no âmbito da História da Medicina Tropical. O
objetivo foi promover uma “reflexão histórico-social obre o papel da medicina
tropical no âmbito da saúde pública global, nos séculos XIX e XX” [1]. Os três
dias de evento deram lugar a 17 sessões temáticas, 66 comunicações, 3
conferências plenárias, uma mesa redonda, 2 exposições e uma visita ao Museu da
Associação Nacional de Farmácias [2].
Estas apresentações levaram à publicação de artigos nos
Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, num volume especial dedicado a este
encontro. Na impossibilidade de referir todos os artigos, irei debruçar-me
apenas sobre aqueles que foram escritos pelos investigadores do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da
Tecnologia (CIUHCT), por ser o centro de investigação ao qual pertenço. O
total dos artigos pode ser consultado aqui.
A professora Isabel Amaral analisou o impacto da II Guerra Mundial na obra de Aldo Castellani (1877-1971) e a influência do médico na escola portuguesa de medicina tropical (1946-1971), partindo do estudo do espólio legado ao Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT).
A professora Isabel Amaral analisou o impacto da II Guerra Mundial na obra de Aldo Castellani (1877-1971) e a influência do médico na escola portuguesa de medicina tropical (1946-1971), partindo do estudo do espólio legado ao Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT).
O italiano Aldo Castellani foi investigador na London
School of Tropical Medicine e na Ceylon Medical College, onde estudou a doença
do sono e a framboesia, respetivamente. Ensinou micologia, medicina tropical e
foi médico pessoal da Família de Savóia, que acompanhou no seu exílio para
Portugal, após a II Guerra Mundial. Quando chegou a Portugal já era conhecido
dos médicos tropicalistas, pois, no início do século XX, vira-se envolvido numa
disputa internacional com os médicos portugueses sobre quem tinha descoberto o
agente etiológico responsável pela Doença do Sono. A prioridade da descoberta
seria dada à equipa inglesa, da qual Castellani fazia parte. A sua carreira foi
pautada pela identificação de microrganismos responsáveis pela causa de doenças
tropicais. Autor prolífico, publicou mais de 500 artigos científicos. Apesar de
estar inserido na comunidade médica portuguesa, optou por movimentar-se por
outros circuitos, buscando reconhecimento internacional. [3]
O trajeto de Francisco de Cambournac na OMS (1952-1964)
foi estudado pela Rita Lobo e por mim, cujos resultados apresentámos em
co-autoria. Tendo encontrado novos documentos em arquivo, conseguimos
complementar uma lacuna existente na historiografia da medicina tropical,
discutindo os meandros da escolha de Cambournac para o Bureau Regional Africano
da OMS [4]. Os resultados do nosso trabalho já mereceram destaque na Imprensa.
Sendo a literatura farmacêutica no século XVIII relevante
para a história da farmácia e da medicina portuguesa, Wellington Filho apresentou
o estudo das obras de Frei Jesus Maria (1716-1795), monge-boticário e
administrador da botica do Mosteiro de Santo Tirso, influenciado pela
classificação de Lineu e pela ilustração do naturalista Domenico Vandelli -
duas figuras históricas importantes para a Botânica. As obras de Jesus Maria
revelavam a preocupação em melhor utilizar as riquezas coloniais e em conciliar
os conhecimentos populares do uso das plantas com o conhecimento médico-farmacêutico
do Iluminismo [5].
Ana Paula Silva, num artigo exploratório, recorrendo a
análise de documentos, procura argumentar que o trabalho de técnicos e
cientistas portugueses, nos anos 1960-1970, envolvidos na construção do lago
artificial de Cahora Bassa, terá aberto o caminho para a Medicina Ambiental em
Portugal e para a atual linha de investigação transversal do IHMT, as “Doenças
Emergentes e Alterações Ambientais”. Este trabalho deixou-lhe em aberto uma
questão que procurará responder no futuro, se a Medicina Ambiental foi
introduzida em Portugal através da Medicina Tropical [6].
Na organização do evento, estiveram envolvidos o Centro
Interuniversitário de História das Ciências e Tecnologia (CIUHCT), a Faculdade
de Ciências e Tecnologia da Univ. Nova de Lisboa (FCT-UNL), o Instituto de
Higiene e Medicina Tropical (IHMT), a Casa de Oswaldo Cruz, a Universidade de
York e a Fundação Friedrich Ebert.
Notas:
[1] Isabel Amaral (2016), in Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, p.7
[2] Maria Paula Diogo (2016), idem, p.17
[3] Isabel Amaral (2016), idem, pp.119-124
[4] Rita Lobo & João Lourenço Monteiro (2016), idem,
pp.133-140
[5] Wellington Filho (2016), idem, pp.161-166
[6] Ana Paula Silva (2016), idem, pp.175-182
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
MEDICALIZAÇÃO DA SOCIEDADE
Quarta-feira, 12 de Novembro, pelas 18h00, no espaço Rómulo de Carvalho Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra.
"Um dos fenómenos mais preocupantes que está a atingir a sociedade prende-se com a medicalização. O ser humano preocupa-se com a perda da saúde e quando lhe acenam com diagnósticos fabricados com o propósito de o perturbar aceita quaisquer propostas. A construção de novas doenças tem vindo a aumentar e a oferta de soluções também. Não há dia em que a comunicação social não chame a atenção para estes problemas.
A medicalização é uma constante. Curiosamente começou dentro da medicina, mas agora estendeu-se a todas as áreas. Uma das doenças construídas diz respeito à transformação de situações normais, e desejáveis, como é o caso da tristeza. A tristeza, um estado de alma, base de muita criatividade, acabou por ser considerada como doença e tratada como se fosse uma "depressão".
O resultado é fácil de ver, uma legião de dependentes de ansiolíticos e antidepressivos com todas as consequências daí resultantes. Mas o que é mais preocupante é a oferta de produtos para tudo e para nada, levando a um consumismo exagerado e sem qualquer valor. A população envelhece a olhos vistos e por isso tem de suportar algumas maleitas sem importância, sem correr risco de vida ou sofrer complicações graves de saúde. Frágeis, ansiosos, são um alvo preferencial de campanhas agressivas a fim de comprarem muitos produtos. Outra área que merece profunda reflexão diz respeito à alimentação. Hoje, cada alimento tem propriedades curativas e em função disso passaram a ser mais medicamentos do que outra coisa. Uma obscenidade.
Todos os dias surgem press releases a anunciar propriedades e mais propriedades de muitos produtos a ponto de parecerem ser uma forma miraculosa para resolver ou prevenir os diferentes problemas. São tantos alimentos que dificilmente se encontrará algum que não tenha propriedades terapêuticas. Outro aspeto preocupante é transformar certas situações, que deveriam ser consideradas como normais, em casos patológicos. E se logo a seguir for oferecida uma "solução", então, é certo e sabido que a procura irá aumentar.
Desmedicalizar a sociedade é um imperativo. Na prática não vai ser fácil, para não dizer impossível. Em primeiro lugar porque é uma fonte de negócio e em segundo porque as pessoas encontram explicações para os seus "problemas". O que é maravilhoso. Se a seguir tiverem à distância da sua bolsa a solução para os seus males, então, o negócio da medicalização tem o futuro garantido. E pelo que se vê por aí..."
Salvador Massano Cardoso
Esta palestra insere-se no ciclo "A Ciência no Dia-a-Dia" organizado por António Piedade.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
terça-feira, 30 de abril de 2013
UMA VISITA POLITICAMENTE INCORRECTA AO CÉREBRO HUMANO
Recensão publicada primeiramente na imprensa regional.
«Será a mente humana capaz de descobrir qualquer coisa que a transcenda» questiona o eminente neurocientista Alexandre Castro Caldas na introdução do seu mais recente livro “Uma visita POLITICAMENTE INCORRECTA ao cérebro humano”.
«Será a mente humana capaz de descobrir qualquer coisa que a transcenda» questiona o eminente neurocientista Alexandre Castro Caldas na introdução do seu mais recente livro “Uma visita POLITICAMENTE INCORRECTA ao cérebro humano”.
Publicado em Fevereiro de 2013 pela editora Guerra & Paz, este livro apresenta e desvenda as novidades do conhecimento que as
neurociências têm alcançado sobre esse órgão, o cérebro, que o leitor está a
usar para entender o que está a ler agora mesmo.
«Quem somos então, o que somos nós, o que é que o cérebro e
as suas funções?» pergunta-nos Alexandre Castro Caldas, para logo responder que
as “páginas deste livro não pretendem ser resposta, mas pretendem abrir portas
para a reflexão”.
No panorama actual da literatura de divulgação científica
portuguesa em geral, e das neurociências em particular, este livro destaca-se
pela sua actualidade científica, pela sua simplicidade rigorosa e pela sua
utilidade para o leitor que com ele se compreende melhor.
Os diversos casos clínicos que ajudam a entender melhor como
o nosso cérebro funciona, são apresentados despedidos de jargões técnicos, para
que qualquer um de nós os entenda e logo entenda melhor como o seu próprio
cérebro funciona. As notas e as referências bibliografias são dispensadas nesta
visita POLITICAMENTE INCORRECTA ao cérebro humano, o que torna fluida a leitura
deste livro.
A propósito do autor, diga-se que Alexandre Castro Caldas começou a sua vastíssima e
relevante carreira de investigação científica de excelência com António
Damásio, em 1970, e que ficou a dirigir o Laboratório de Estudos de Linguagem,
quando, em 1975, Damásio saiu de Portugal.
Mas voltemos ao livro. Está estruturado em dez capítulos que
o leitor pode ler pela ordem que entender, eventualmente movido pela sua maior
curiosidade, ou interesse por um dado aspecto do nosso cérebro.
No 1.º capítulo “reflecte-se sobre a forma como acreditamos
nas coisas”.
No 2.º discute-se como a consciência humana pode ter começado
“num sonho”.
“Conhece-te a ti mesmo” é o título do 3.º capítulo, no qual
de descreve “como o cérebro interage com o sensível”.
No 4.º, intitulado “quem fui eu, quem sou eu”, Castro Caldas
discute a questão da identidade.
“Quem és tu? Que casa é esta”, intitula o 5º capítulo que
apresenta casos em que o cérebro processa mal a informação sobre o que lhe está
próximo, como sejam as pessoas da sua família e os locais que lhe são
habituais.
O 6.º capítulo é dedicado a aspectos marcantes da
personalidade: “quando se faz aquilo que se não quer fazer” e sobre “o
livre-arbítrio”, levando-nos a reflectir sobre a questão da vontade própria.
Abordando aspectos anatómicos, mas funcionais, o 7.º capítulo
apresenta ao leitor a realidade da “Dominância Cerebral” e discute-se sobre
qual manda, se o hemisfério esquerdo se o direito e quando.
O género sexual e a sua influência sobre o cérebro, um “tema
que tanto estimula a imaginação”, é tratado no 8.º capítulo.
Numa época em que vivemos sob a influência de uma nova e
globalmente esmagadora tecnologia de informação, Castro Caldas descreve no 9.º
capítulo como “Manter o cérebro em forma” numa aproximação aos desafios
modernos da “interacção entre o natural e o artificial”.
Por fim, o 10.º capítulo, o qual, como os outros, pode ser
lido em primeiro lugar: “Experiências de quase-morte” é o seu título e nele se
desmistificam as fantasias, as ilusões geradas pelo cérebro sobre a memória de
experiências traumáticas na “fronteira abrupta” entre a vida e a morte.
A leitura deste livro é uma experiência rica em que o autor
nos ajuda a compreender melhor o mundo em que vivemos ao explicar à luz do
conhecimento actual como é que o cérebro compreende e funciona no mundo em que
vive.
António Piedade
quinta-feira, 11 de abril de 2013
quarta-feira, 20 de março de 2013
"Passou-me ao lado"
Dois professores da universidade estadual da Pensilvânia, um médico (Michael J. Green) e um ilustrador (Ray Rieck), publicaram uma história aos quadradinhos sobre o erro médico numa prestigiada revista clínica (Annals of Internal Medicine), cujo título é Missed it (Passou-me ao lado).
O primeiro diz tratar-se de uma história autobiográfica com vinte anos, quando se encontrava ainda em a formação, mas que “iria assombrá-lo ao longo de toda a sua vida.
Nota: Tive conhecimento desta história através do artigo de Ana Gerschenfeld, saído no Público (em papel) de hoje, dia 20 Março, página 29.
O primeiro diz tratar-se de uma história autobiográfica com vinte anos, quando se encontrava ainda em a formação, mas que “iria assombrá-lo ao longo de toda a sua vida.
"Um jovem médico está de banco no hospital, à espera de conseguir dormir umas horas nessa noite, quando recebe um telefonema a dizer que tem de ir examinar um doente que acabou de dar entrada na urgência. Ao longo da noite, o doente, que sofre aparentemente de um problema pulmonar, piora apesar dos tratamentos que lhe vão sendo administrados. E acaba por morrer. A seguir, quando o médico recebe o resultado da autópsia, percebe que não soube ver um sintoma-chave do doente (um sopro cardíaco), apesar de ter estado, literalmente, à frente do seu nariz. Fez um diagnóstico errado – um erro fatal."Falar do erro, analisar o erro, com saber e ponderação, seja em medicina seja noutra área profissional que requeira grande responsabilidade pelas pessoas, constitui um passo fundamental para a sua desocultação e, em sequência, para a sua transformação em conhecimento, para a sua superação e para a sua prevenção.
Nota: Tive conhecimento desta história através do artigo de Ana Gerschenfeld, saído no Público (em papel) de hoje, dia 20 Março, página 29.
domingo, 2 de setembro de 2012
Primeiro reator nuclear multipropósito brasileiro
O governo do estado de São Paulo anunciou ontem (31/08/2012) a desapropriação de um terreno em Iperó (SP) para a construção do primeiro reator nuclear multipropósito brasileiro (com múltiplas finalidades). O equipamento é fundamental para a produção brasileira de radiofármacos – fármacos, produtos biológicos ou drogas que têm em sua composição elementos radioativos e que são utilizados no diagnóstico ou no tratamento de enfermidades. No país, esses tipos de substâncias são usadas no atendimento de 10 mil pacientes por dia. “A maior causa de mortes é coração e câncer. Se a gente for verificar na cardiologia, na oncologia e nefrologia [as substâncias] são essenciais, seja no diagnóstico, seja na terapia, a medicina nuclear.Além do reator, será construído no local um novo laboratório que poderá ser utilizado pela sociedade acadêmica e por empresas interessadas. “O laboratório multipropósito vai ser usado por todos, comunidade científica, comunidade industrial.
IPEN 56 ANOS UTILIZANDO A FÍSICA NUCLEAR PARA A PRESERVAÇÃO DA VIDA HUMANA!VEJA EM MEU VIDEO ALGUMAS DESTAS APLICAÇÕES:
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Yscope: uma invenção portuguesa!
Com o fim das imagens impressas em sais de prata, os cirurgiões passaram a pendurar (por vezes em blocos operatórios tecnologicamente muito avançados) normais impressões, em papel, das imagens médicas que necessitam consultar durante as cirurgias. Estas são muito limitadas, em resolução e qualidade. E, não fazem uso do potencial dos formatos digitais em que hoje em dia são guardadas as imagens médicas.
Consultar a imagem num computador, com um rato e um teclado, também não ajuda muito. Além de geralmente terem um monitor pequeno, ao tocar num rato perdem-se as condições de esterilidade necessárias para realizar uma cirurgia.
Esta tecnologia, resulta da visão de um dos médicos do serviço de neurocirurgia do Hospital de Santa Maria. Para a desenvolver, foi estabelecida uma parceria com a empresa YDreams, e este é o resultado. O projecto começou há nove meses. Agora, há outros produtos concorrentes, de empresas estrangeiras. Mas este foi o primeiro! Entra agora em testes no bloco operatório e tem boas probabilidades de ser o primeiro a chegar ao mercado. E, segundo dizem os responsáveis pela sua concepção: é o melhor!
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Portugal na vanguarda da tecnologia de visualização médica
O Yscope é uma tecnologia que permite seleccionar e manipular imagens médicas no bloco operatório, ao estilo do filme Minority Report (mas sem a necessidade de luvas especiais para detectar os movimentos das mãos). Uma ideia que nasceu no Hospital de Santa Maria e cresceu na empresa YDreams.
(clique para ampliar)
É apresentado esta sexta-feira, às 11h na Aula Magna da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, piso 3 do Hospital de Santa Maria.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
quinta-feira, 31 de maio de 2012
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