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terça-feira, 17 de maio de 2011

A Falência da Metafísica, por Abel Salazar


Outro post de António Mota de Aguiar:

Antes da demissão compulsiva da sua cátedra e da proibição de entrar no seu laboratório e mesmo na Biblioteca da Faculdade, em 1935, o médico Abel Salazar efectuou várias conferências de divulgação. Contudo, a partir desta data, as conferências deram o lugar a artigos, tendo passado a escrever em vários periódicos. Os primeiros artigos de Abel Salazar, a partir desse ano, saíram no jornal Ideia Livre, com sede em Anadia, periódico que se publicou entre 1928 e 1944.

Foi para este jornal que Abel Salazar escreveu os primeiros artigos sobre a Falência da Metafísica, cujas temáticas para alguns estavam desfocadas, para outros era a forma que não se enquadrava na publicação, enquanto ainda outros discordavam completamente dos respectivos conteúdos. Daí que os artigos de Abel Salazar tenham sido objecto de algumas críticas.

Numa série de artigos neste blogue, irei abordar esses temas e polémicas, que por vezes foram bastante agressivas, e que, passados 75 anos, nos poderão ajudar a perceber como evoluiu o pensamento filosófico desde então.

No primeiro destes artigos, publicado a 24 de Agosto de 1935, Abel Salazar pergunta “se uma metafísica é possível”, e, logo a seguir, escreve:

“A filosofia científica afirma com precisão e clareza que tal metafísica não é possível que ela não tem mesmo razão de existir. E, afirma, actualmente, mais – ‘que os problemas metafísicos são destituídos de sentido’, como veremos. A própria metafísica responde à mesma pergunta, gaguejando, perplexa, em discussões sem fim, confusas e hesitantes, sem nenhuma conclusão; (…)”

“Para que serve tudo isto”? Perguntava-se Abel Salazar, continuando:

“…a Metafísica persiste hoje porque é uma tendência inata no homem, necessidade do espírito, tal-qualmente a Arte, a Poesia, a Ciência e outras coisas. Mas enquanto a Arte, por exemplo, se justifica por si própria, e contém em si própria o próprio fim, com a Metafísica não sucede o mesmo: o objecto desta é exterior ao homem. Desta maneira, como acto de realização, isto é, como especulação, satisfaz uma necessidade automática do espírito humano: - mas uma vez o acto realizado, com o objecto dela lhe é exterior, fica o problema da sua realidade e sua justificação”.

E logo a seguir Abel Salazar dá um exemplo:

“Suponha o leitor que alguém pintava um quadro, não pelo desejo de realizar uma obra contendo em si própria a sua finalidade, mas com o intuito único de ver ‘se o quadro correspondia a uma realidade:’ - tudo então mudava de figura, e começava então o sarabulho, isto é, o grande problema de saber se esta correspondência existia, e até se porventura essa realidade existia, e até se alguma coisa afinal existia…

Desta forma há na Metafísica uma causa construtiva de natureza emotiva e um problema que pelo próprio postulado, é exterior a esse elemento emotivo: - daí uma causa profunda de desarticulação, uma contradição profunda que gera a inconsistência da metafísica.
A conclinação do elemento emotivo com o problema racional e filosófico faz-se de tal maneira, que o último é obscurecido pelo primeiro; quer dizer, o metafísico põe o seu problema já determinado em certo sentido pelo elemento emotivo: põe o problema, mas no seu íntimo ele já está resolvido em harmonia com o elemento emotivo”. (…)

António Mota de Aguiar

A Continuar

domingo, 3 de abril de 2011

Educar a razão

Em finais do século passado, o jornal El País promoveu uma série de debates centrados na educação. O título – A educação que queremos – marca, voluntariamente, a responsabilidade que todos, sem excepção, temos nas escolhas que fazemos nesta matéria, escolhas que traçam o rumo que, como humanidade, tomaremos num futuro mais próximo ou mais distante. Fernando Savater foi um dos convidados desse jornal, tendo a sua conferência sido pronunciada a 1 de Dezembro de 1998. Aqui apresentamos um extracto, em tradução de A. R. Gomes, onde se salienta a necessidade absoluta de educar a razão, essa capacidade que os iluministas tinham como inata e igualmente distribuída entre os homens (omitiam-se as mulheres) e que os pós-modernos tendem a relativizar, quando não a negar. Não existindo razão sem qualquer forma de educação, mas podendo a tarefa educativa fazê-la existir e evoluir, é fundamental que a Escola, no seu sentido mais lato, o reconheça e trabalhe nesse sentido. Eis o extracto da referida conferência onde o filósofo espanhol explica devidamente esta ideia.

"... eu creio que a educação é, entre outras coisas, mas muito principalmente, educação para a razão: educar é formar seres humanos, e nós os seres humanos somos antes de mais seres racionais. A razão não é uma tendência puramente automática, mas um resultado social, possibilitado por umas capacidades naturais, evolutivas, etc. De modo que gostaria de começar por falar da importância de potenciar a razão por meio da educação (...).

A razão – repito – não é simplesmente uma espécie de tendência automática. A razão está em boa medida baseada no confronto com os outros, quer dizer, raciocinar é uma tendência natural baseada, ou para nós fundada, no uso da palavra, no uso da linguagem; e o uso da linguagem é o que nos obriga a interiorizar o nosso papel social. A linguagem é sociedade interiorizada, e é curioso que alguns filósofos e outras pessoas ao longo dos séculos se tenham perguntado (por exemplo, o "penso, logo existo" de Descartes no famoso início do Discurso do Método, a que volta novamente nas suas Meditações): Estou aqui?, duvido de tudo, Estarei sozinho no mundo?, Existe este mundo?, É tudo uma ficção inventada por um deus maligno?.

De facto, a postura solipsista, quer dizer, a postura dos pensadores que duvidaram da existência de qualquer coisa e de qualquer outro ser humano que não fosse eles próprios, apesar de ser uma teoria de algum modo, digamos, bastante peregrina, foi muito avalizada e teve muitos seguidores. Bertrand Russell conta que um dia recebeu uma carta de um solipsista que dizia: "considero o solipsismo tão óbvio e tão provado racionalmente que estranho que não haja mais pessoas solipsistas".

Na verdade o primeiro argumento que há contra esse solipsismo, ou contra formas menos toscas de nos considerarmos de alguma forma como que caídos de não se sabe onde, é precisamente o facto de que somos seres linguísticos. Somos seres linguísticos e manejamos uma linguagem que não inventámos, de que não somos donos, cujos registos não estão na nossa mão. O uso da nossa razão está condicionado precisamente por essa função da própria linguagem.

Portanto, na educação, do que se pode tratar, do que se deve tratar, é de desenvolver o que é uma capacidade em princípio quase inevitável da vida em sociedade e da vida em comum; quer dizer, todos temos que raciocinar permanentemente para poder sobreviver. O elemento racional está em todos os nossos comportamentos, faz parte das nossas mais elementares funções mentais. Se alguém nos disser que ao meio-dia comeu uma feijoada e que a paella estava muito boa, imediatamente dizemos: "não pode ser; ou feijoada ou paella". O próprio acto de nos darmos conta de que há coisas incompatíveis, de que as coisas não podem ser e não ser ao mesmo tempo, ou que as coisas contraditórias não podem afirmar-se simultaneamente, ou que tudo deve ter alguma causa, supõe exercícios de racionalidade. Esse tipo de mecanismos elementares estão em todos nós e não poderíamos sobreviver sem eles.

Há em todos os lados, em todas as culturas e em todos os tempos, algumas disposições naturais para o desenvolvimento de modelos racionais. Gombricht, num dos seus livros, diz que há povos que não conhecem a perspectiva pictórica, como os egípcios, por exemplo. Efectivamente há povos que não conhecem a perspectiva, mas não há nenhum povo em que qualquer dos seus membros, quando quer fugir ou esconder-se do seu inimigo, se ponha à frente da árvore e não atrás. Portanto é evidente que a função racional está constantemente em nós. O que acontece é que o ser humano actual, o ser humano que queremos desenvolver, o ser humano civilizado que faz parte do final de um século e da passagem ao outro, que vai ter que se entender com máquinas muito complexas que vai ter que usar registos muito diferentes, que talvez não vá gozar da mesma estabilidade no seu próprio desempenho laboral e corporativo mas vai ter que mudar de postos de trabalho, etc., tem que desenvolver uma capacidade racional que, evidentemente, não é algo puramente instintivo nem automático, e que também se não confunde com a mera informação.

O pressuposto de que ser racional é estar bem informado é um dos problemas da nossa época, em que se considera que ter acesso a muita informação desenvolverá a razão. A informação é útil precisamente para quem tem uma razão desenvolvida. Não é o mesmo, e Giovanni Sartori e outros doutores insistiram nisto, informação e conhecimento. Eu penso que há uma distinção importante entre ambos os conceitos. O conhecimento é reflexão sobre a informação, é capacidade de discernimento e de discriminação relativamente à informação que se possui, é capacidade de hierarquizar, de ordenar, de generalizar, etc., a informação que se recebe. E essa capacidade não se recebe como informação. Quer dizer, tudo é informação excepto o conhecimento que nos permite aproveitar a informação.

A educação não pode ser simplesmente transmissão de informação, entre outras razões porque a informação é tão ampla, muda tanto, existem tantas formas de aceder a ela, e cada vez mais, de uma maneira on-line, permanente, que seria absurdo que a função educativa consistisse simplesmente em transmitir conteúdos informativos. O que faz falta é transmitir modelos de comportamento que permitam utilizar e rentabilizar ao máximo a informação que se possui. Esse é um dos pontos fortes das finalidades da educação em geral e de qualquer disciplina em particular.

Considero que qualquer disciplina..., e aqui entroncamos nesta disputa, que tanta tinta tem feito verter aqui e noutros países, em torno do humanismo opondo as disciplinas humanísticas às científicas. Disseram-se por vezes coisas muito disparatadas, como se realmente a ciência não fosse humana, ou não desenvolvesse a humanidade… O característico do humanismo é haver um modo humanístico de ensinar qualquer disciplina. Mais do que o facto de umas disciplinas serem humanistas e outras não, é o modo como se ensinam as disciplinas que pode ser humanista ou não humanista. Pode ser um modo meramente informativo, meramente descritivo, ou pode ser um modo que, através de qualquer disciplina, procure desenvolver a capacidade de conhecimento, quer dizer, a capacidade de ordenar, de relacionar, de criticar, de discernir, etc., dentro de uma linha determinada, dentro de um tema determinado. Todas as disciplinas deveriam estar orientadas à potenciação, no seu campo, da capacidade de conhecimento, da capacidade de continuar por se próprio a aprendizagem, contra a pura tendência para assumir informação.

Uma das características da razão é que serve para ser autónomo, quer dizer, os seres racionais são mais autónomos que as pessoas que não desenvolveram a sua capacidade racional. É evidente que autonomia não quer dizer isolamento, falta de solidariedade, solipsismo, mas serve pelo menos para cada qual se autocontrolar, se autodirigir, optar entre opções diferentes, proteger as coisas que se consideram importantes, empreender empreendimentos, etc. Creio que a autonomia é fundamental, e essa autonomia é exactamente o que a razão permite. O não desenvolvimento da razão faz-nos dependentes. De facto, as crianças muito pequenas e as pessoas que, por qualquer desgraça, perderam alguma das faculdades racionais a primeira coisa de que sofrem é uma dependência dos outros. De maneira que educar para a razão é educar para a autonomia, para a independência.

E aqui há um ponto nuclear da verdadeira educação, e é que, nós os que nos dedicamos ao ensino, educamos para que as pessoas a quem educamos, os nossos alunos, possam prescindir de nós. Não há pior mestre do que aquele que se torna imprescindível toda a vida. O mestre que, de alguma forma, continua a ser sempre mestre, já não por uma veneração à sua pessoa, ao seu saber, mas porque se faz imprescindível, quer dizer, porque a matéria que explica ou a matéria que procurou oferecer aos outros está tão vinculada à sua pessoa que não se pode ele separar dela de nenhum modo nem os outros podem jamais aceder ao conhecimento sem ter essa pessoa para os guiar e iluminar, numa palavra, o guru, é o contrário do mestre. O mestre, ou os pais quando educam os seus filhos, educam-nos para que se ponham a andar, educam-nos para que prescindam deles. Na verdadeira profissão do ensino há uma certa dimensão suicida, porque educamos para que os outros possam prescindir de nós, e nós os pais também devemos educar para o mesmo, o que às vezes é duro. Todos os pais, por um lado queremos reforçar a autonomia dos filhos, mas, por outro lado, preferiríamos que continuassem a manter connosco qualquer tipo de vínculo, de dependência. Isto é, do ponto de vista educativo malsão, porque há que educar para a autonomia, quer dizer, para a razão.

Precaver-se contra explicações racionais, guardar chaves da capacidade racional é a melhor maneira de manter independência nos outros. E o facto de hoje os conhecimentos humanos serem tão amplos e tão complexos, e estarem tão dispersos, a todos nos obriga a estar dependentes de razões alheias, quer dizer, verdadeiramente ninguém pode saber de tudo. Se, em qualquer época, era raro um Aristóteles que provavelmente sabia de tudo o que se podia saber na sua época (evidentemente nem sequer Aristóteles abarcava todo o saber da época), hoje seria impensável, porque o tipo de conhecimentos actuais exclui a possibilidade de alguém com um saber tão 'omniabarcante'. Então, todos dependemos de outras razões e isso é o que nos dá às vezes a sensação de estar angustiados, de que todo o conhecimento é ínfimo, é desinteressante, porque há tanto que saber… Por isso há que procurar potenciar a capacidade racional de assumir inclusive as limitações do nosso próprio conhecimento. Uma das características da razão é assumir os limites do conhecimento e não acreditar que, por mera acumulação, se pode estender até ao infinito. Às vezes, aos racionalistas censura-se-lhes o facto de acreditarem na omnipotência da razão; não conheço nenhum racionalista que acredite numa coisa tão irracional como a omnipotência da razão, quer dizer, a gente pode acreditar na razão e na importância da razão e conhecer os seus limites (...).

Com certeza que a razão tem os seus limites. O que não há é outras vias alternativas de conhecimento, não há é outro tipo de conhecimento que não seja racional mas que seja muito melhor que a razão. Evidentemente, a razão não pode dar conta de tudo. Com certeza que a razão tem os seus limites. O que não há é outras vias alternativas de conhecimento, não há é outro tipo de conhecimento que não seja racional, mas que seja muito melhor que a razão. Evidentemente, a razão não pode dar conta. Mas, de qualquer modo, o facto de que possamos entender realmente algo é complexo, mas é assim. O que seria mais absurdo seria supor que há outro tipo de conhecimento que, sendo conhecimento, não tenha nada que ver com a razão. Devemos afirmar isto, apesar do predomínio que há na nossa época do entusiasmo pelos milagres e pelas coisas paranormais. No fundo o que há é uma busca de algo que alivie a necessidade de pensar e de raciocinar, que evidentemente é algo cansativo porque a razão não dá saltos, não tem atalhos, quer dizer, a razão desenvolve-se sempre a partir do trabalho, do estudo, da reflexão, da reiteração, dos controlos, nunca tem essa espécie de visão intuitiva e mágica da realidade das coisas. E, no entanto, há uma espécie digamos de sonho permanente de conhecer a realidade fantástica como a verdade enquanto, por outro lado, a razão se dedica sempre a inferiores mesteres intelectuais."

sexta-feira, 25 de março de 2011

A Ciência em Portugal no segundo quartel do século XX

Post do historiador António Mota de Aguiar:

Na década de 20 alguns professores introduziram e defenderam a Teoria da Relatividade nas universidades onde leccionaram, ou deram cursos desta matéria nas Universidades Populares. Mas foi, sobretudo, o filósofo criacionista Leonardo Coimbra (1883-1936), o mais distinto animador cultural e principal pensador português desta década a defender essa teoria, tendo publicado na revista Águia vários artigos sobre ela e as suas implicações filosóficas. Ele pode ser considerado o pensador português dessa época mais relevante no campo da filosofia da ciência. Pensamos que a súmula do seu pensamento filosófico está patente nesta sua síntese:

“As teorias físicas são produtos da mais profunda elaboração mental”.

No começo da década de 30, são poucos os estudiosos em Portugal que se dedicam à investigação. Sobre este hiato da ciência em Portugal, o Capitão de Fragata Carvalho Brandão escrevia, em 1926, o seguinte:

“Um país que não sabe ou não quer concorrer para a Obra da Ciência pode considerar-se um parasita da civilização. Tal é até certo ponto a situação de Portugal” (“A Investigação científica e a Meteorologia em Portugal”, Seara Nova, nº 86, pp. 267-268, 6 de Maio de 1926.)

Apesar do desinteresse pela investigação científica dos universitários portugueses ser generalizado, demarcam-se, contudo, no começo desta década, três correntes do pensamento científico: um grupo de médicos distingue-se pelo seu labor em bioquímica; no quadro da concessão de bolsas pela Junta de Educação Nacional, começam a regressar ao País bolseiros provenientes do estrangeiro, com um capital de conhecimentos elevado e desejosos de os aplicarem em Portugal; e destacam-se ainda alguns jovens, estudantes das universidades portuguesas, que, juntamente com os grupos anteriores, irão assumir uma posição de relevo nas décadas de 30 e 40, no panorama da investigação científica nacional.

O despertar da ciência começa logo no virar da década, em 1930, numa polémica levada a cabo na Seara Nova sobre a validade da Teoria da Relatividade. Embora a Relatividade fosse já uma teoria confirmada e amplamente aceite pela comunidade científica internacional, em Portugal algumas vozes importantes opunham-se fortemente a esta teoria. Entre os mais notáveis anti-relativistas contava-se Gago Coutinho (1869-1959), geógrafo e distinto aviador português. É conhecida a polémica gerada na Seara Nova, entre este geógrafo e o astrónomo Manuel dos Reis (1900- 1992), em torno da validade da teoria (ver Seara Nova, n.ºs: 200, 203, 207, 209, 210, 219, 229, 1930).

A teoria de Einstein, ao destruir a crença no tempo absoluto - que não era mais que o tempo terrestre extrapolado para o espaço sideral – eliminou da concepção do homem o último mito de geocentrismo. Mas não era só a física relativista que amedrontava muitos espíritos da época, havia ainda a física quântica, que desvendava o infinitamente pequeno, e a lógica matemática, base de uma nova linguagem, que colocavam enormes problemas. Nem toda a gente, por preconceitos de vário tipo, estava aberta a interiorizar novas concepções do mundo.

Diga-se que Leonardo Coimbra foi um notável relativista o que não o impediu de, paralelamente, ser um pensador anti-positivista, dito "criacionista", de inspiração religiosa. E tinha razão, pensamos nós, porque ciência e fé são dois campos diferentes, onde se vai por vias diferentes: um pela investigação científica,e o outro pela crença interior do ser humano.

Como doutrina filosófica, abrangendo as novas teorias científicas neste quartel do século XX, apareceu o neo-positivismo ou nova filosofia da ciência, oriunda de um grupo de pensadores da Universidade de Viena, à qual por isso se deu também o nome de Círculo de Viena. O neo-positivismo era herdeiro do positivismo do século XIX.
A leitura do seguinte texto de Augusto Fitas, José M. Rodrigues, M. Fátima Nunes (A filosofia da ciência no Portugal do século XX, in Pedro Calafate, org., História do Pensamento Filosófico Português, vol. 5, séc. XX, p. 429, Editorial Caminho, 2000) permite-nos avaliar o confronto que se avizinhava entre os neo-positivistas do início do século XX, e os “filósofos” do Estado Novo, empedernidos nos três credos - Deus, Pátria e Família - e ajudados pelos chamados milagres de Fátima.

“O progresso científico no século XIX, o aparecimento de novas teorias científicas, afectou profundamente o pensamento filosófico que lhe era contemporâneo. Problemas como a origem do homem, o livre arbítrio, a imagem da natureza ou, até mesmo, a ideia de verdade fizeram com que muitos filósofos (…) se preocupassem bastante com o desenvolvimento da ciência e todas as suas implicações nas várias esferas do pensamento. Foi no século XIX que surgiu o positivismo, doutrina filosófica caracterizada por um optimismo geral nascido da certeza de que o progresso científico-tecnológico era imparável e que desembocaria inevitavelmente numa sociedade de bem-estar generalizado. (…) A filosofia das ciências é, no final do século XIX e princípios do século XX, a herdeira histórica do positivismo oitocentista, distinguindo-se desta corrente filosófica pela sua visão crítica da própria ciência e pelo esforço em determinar os limites exactos da validade desta.”

Mas só o estudo dos trabalhos científicos realizados pelos portugueses dessa época nos permite avaliar as suas propostas, o que tentaremos fazer numa outra oportunidade.

António Mota de Aguiar

domingo, 13 de março de 2011

Testes e programa de Filosofia

A nossa leitora Sara Raposo teve a amabilidade de nos enviar a ligação para três textos da sua autoria, publicados em 10, 11 e 13 deste mês de Março, no blogue Dúvida metódica, que remetem para uma questão de grande actualidade e interesse curricular no Ensino Secundário: a obrigatoriedade de realização de testes intermédios e exames em Filosofia e a relação destas provas de avaliação, perfeitamente justificáveis e que se pretendem concretas e objectivas, com o Programa de Filosofia vigente.

Ora, acontece que se trata de uma relação difícil porquanto as orientações deste Programa, em termos referenciais de ensino-aprendizagem (conteúdos e objectivos), não podem deixar de se considerar fluidas, faltando-lhe discriminação e estrutura. Além disso, fazem, a cada passo, apelo a concepções educativas cuja sustentação não vai além da ideologia (pseudo)pedagógica. A isto acresce a linguagem pouco clara e redundante em que estão redigidas.

Assim, parecem essas orientações deixar uma margem de "liberdade" ao professor para fazer a selecção e gestão daquilo que mais interesse terá para os alunos que, na letra do referido Programa, são inquestionavelmente os protagonistas principais da acção didáctica. Mas esta "liberdade" acarreta problemas, como se pode perceber nos ditos textos, cujo título e ligação abaixo indicamos:

- Uma reflexão sobre o teste intermédio de Filosofia.
- Mais testes intermédios nos cursos de humanidades?
- O dilema das provas nacionais de Filosofia.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Inteligência Artificial: desejos, promessas e realidades

Informação recebida do Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, em Coimbra:

Inteligência Artificial: desejos, promessas e realidades
Ernesto Costa - Universidade de Coimbra

6ª feira, 25 de Fevereiro
Início: 21:15
Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho
Rés-do-chão, Departamento de Física

Desde sempre o Homem foi um construtor de artefactos, procurando através deles superar as suas limitações e amplificar as suas capacidades. Quando, em meados do século passado, surgiu esse objecto novo que designamos por computador, muitos foram os que viram finalmente a possibilidade do Homem se superar naquilo que mais o distingue dos outros seres vivos: a inteligência. Foi em Agosto de 1956 que 10 investigadores se juntaram, pela primeira vez, para discutir a possibilidade da existência de máquinas inteligentes, de uma Inteligência Artificial (IA). Hoje, 55 anos depois do seu0 aparecimento, que balanço podemos fazer? Nesta palestra, destinada a uma público genérico, pretende-se confrontar os desejos e as promessas, com a realidade. Começando pela interrogação filosófica sobre a possibilidade de uma IA. Dar-se-á conta que, afinal, não existe uma IA mas sim várias, e que a história deste novo domínio interdisciplinar, onde se cruzam as áreas da computação, da cognição, das neurociências e da biologia, é um pouco a história do confronto entre várias localizações num espaço multidimensional (simbólicas, conexionistas, de inspiração biológica), umas mais fundamentalistas,outras mais dialogantes e propondo soluções híbridas. No meio da pluralidade de opções ilustradas em exemplos simples, é mostrado o denominador comum, centrado no conceito de agente. Através de exemplos do nosso quotidiano, de como hoje convivemos (dependemos?), de soluções inteligentes para a nossa sobrevivência, levantar-se-ão questões, de modo breve, acerca dos caminhos dos diferentes futuros possíveis, na certeza de que a melhor maneira de prever o futuro é construí-lo.

Sobre o autor:

Ernesto Costa é membro do Departamento de Engenharia Informática, da Universidade de Coimbra. É co-fundador do Centro de Informática e Sistemas da UC (CISUC) e fundador do Grupo de Inteligência Artificial, que presidiu até 2003, ano em que fundou o grupo de Sistemas Complexos e Evolutivos, integrado no CISUC. Actualmente faz investigação em computação de inspiração biológica, tendo recebido vários prémios internacionais nesta nova área e organizado diversos eventos internacionais.

Com larga produção científica, já granjeou prémios para as suas publicações: recebendo em 2009 EvoStar Award for Outstanding Contributions to the Field of Evolutionary Computation. O seu livro Inteligência Artificial, em co-autoria com Anabela Simões, já mereceu uma segunda edição em 2008.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

DEMOCRACIA

Extracto do livro "Filosofia em Directo" de Desidério Murcho (edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos), que sai amanhã com o jornal "Público":

"Democracia

A palavra «democracia» adquiriu um estatuto quase mágico. Pressupõe-se que é uma coisa boa e que todos a desejamos. Um cínico poderá dizer que os políticos usam a palavra porque é tão vaga que não se comprometem com coisa alguma de palpável. Poderá haver nisto alguma verdade, mas as pessoas que escrevem nos jornais também parecem prezar a democracia, pelo que os políticos poderão estar apenas a dar voz ao que pensam que as pessoas prezam. É difícil encontrar alguém nos dias de hoje, num jornal, a atacar abertamente a democracia. Mas que razões haverá para a defender? E não haverá alternativas melhores?

Antes de sabermos em que estamos a pensar, temos de explicar pelo menos brevemente o que entendemos por democracia.

Eis algumas ideias centrais do que caracteriza um regime democrático, hoje em dia:

— Com poucas excepções justificáveis (como as crianças ou pessoas com problemas mentais), todas as pessoas do país em causa podem votar e nenhum voto vale mais do que qualquer outro;
— Os partidos políticos têm protecção legal, e as pessoas podem formar livremente partidos políticos (obedecendo a requisitos legais razoáveis);
— As pessoas podem criticar o governo publicamente e fazer campanha activa contra o partido do governo;
— Pelo voto livre e secreto, as pessoas decidem quem irá governar durante um período relativamente curto de tempo (quatro ou cinco anos, por exemplo);
— Qualquer partido político legalmente constituído pode fazer campanha eleitoral apelando ao voto das pessoas;
— O governo, ainda que eleito democraticamente, é fiscalizado pela imprensa livre, pelo parlamento igualmente eleito pelos votantes e por outros órgãos de soberania, como o Chefe de Estado, por exemplo, e pelos tribunais;
— Além disso, o governo eleito terá de obedecer à lei, incluindo a lei fundamental do país, que poderá ser uma constituição.

Isto não é suficiente para garantir uma sociedade justa, pois não compete à democracia, só por si, garantir tal coisa. A democracia é apenas um valor político importante, mas não é o único. Por exemplo, um governo democraticamente eleito poderia fazer leis para discriminar as pessoas negras, por estas serem uma minoria no país e porque a maioria quer discriminá-las, tendo votado nesse governo exactamente por essa razão. Ou poderia fazer o mesmo com os homossexuais ou com as pessoas de olhos azuis. Essa sociedade seria democrática, num certo sentido, mas não seria justa. Seria uma espécie de ditadura da maioria.

Não precisamos de nos preocupar com esse aspecto. Mesmo uma concepção minimalista de democracia, que reconhecidamente não inclua tudo o que seria de esperar numa sociedade justa, já levanta suficientes problemas filosóficos. O mais básico dos quais é esta simples pergunta: porquê escolher um regime democrático? Este é o tipo de pergunta radical que se o leitor fizer à mesa do café poderá trazer-lhe dissabores. E nem poderá escrevê-la num jornal sem atrair a raiva e os gritos de silenciamento de muitas pessoas. Afinal, estamos a pôr em causa uma convicção fundamental da sociedade contemporânea. Todos acreditamos, aparentemente, na democracia. E nem queremos ouvir falar de razões ou de raciocínios complicados e ainda menos de perguntas incómodas que ponham em causa convicções que não sabemos justificar.

Todavia, as convicções mais profundas revelaram-se muitas vezes brutalmente erradas. Presumivelmente, os europeus do século XVIII tinham, na sua maior parte, a convicção profunda de que as mulheres não deveriam ter os mesmos direitos e oportunidades dos homens. E no século XVI quase todos os europeus tinham provavelmente a convicção igualmente profunda de que os índios e os negros não tinham alma, o que, do seu ponto de vista, justificava a escravatura.

Assim, apesar de termos hoje a convicção profunda de que a democracia é um regime político desejável, podemos estar enganados. Temos de analisar cuidadosamente as razões a favor da democracia. O problema é que parece não haver muitas.

Contra a democracia

Para compreender melhor a dificuldade, imagine-se um regime que não é democrático, no sentido em que não há eleições livres. O governo foi originalmente eleito, há mais de vinte anos, mas depois aboliu a chatice das eleições e das propagandas. Como se revelou um bom administrador, ninguém se preocupou muito com isso. O produto interno bruto subiu em flecha; o bem-estar social é elevado; há riqueza, paz, harmonia e segurança. Apesar de o governo ter acabado com certos aspectos da democracia, não acabou com outros. Não há, por exemplo, presos políticos. Os jornais não são censurados, mas a imprensa política também não é encorajada — o governo considera, não sem alguma razão, que os comentadores políticos e as pessoas da oposição pouco mais fazem do que criticar gratuitamente os governantes, muitas vezes em termos pessoais. O governo, pelo contrário, rodeia-se dos melhores especialistas nacionais, e faz o melhor pelo país.

Qual é o problema deste regime? Num certo sentido, é muito mais razoável. Não parece fazer muito sentido que a populaça, muitas vezes ignorante e sem tempo nem conhecimentos para tomar boas decisões, escolha governos com base em campanhas iguais às que se fazem para vender sabonetes. A probabilidade de isso permitir escolher o governo mais competente é escassa. Seria como se os passageiros de um avião tivessem de escolher por votação quem o vai pilotar. Sem conhecimentos de aviação nem tempo nem disposição para os adquirir, as pessoas não poderiam votar sensatamente nos melhores pilotos. A probabilidade seria que votassem não nos mais competentes, mas nos mais loquazes, nos mais bonitos e nos mais ricos ou trapaceiros que, por terem mais dinheiro, poderiam fazer melhores campanhas a seu favor. E o resultado seria que muitos mais aviões cairiam, matando muitas centenas de pessoas, do que na situação actual em que não há qualquer democracia na escolha do piloto do avião: este é imposto em função das suas credenciais, que são controladas por pessoas que sabem o que fazem, e não por qualquer passageiro munido de um boletim de voto.

Além disso, a democracia pode ser um obstáculo à boa governação. Um governante bem-intencionado pode ser incapaz de efectivar as reformas e de tomar as medidas que no seu entender iriam resolver a maior parte dos problemas do país, colocando-o na rota do bem-estar e da riqueza: com tantos controlos democráticos, negociações de bastidores e pessoas a gritar em cacofonia, o governante é incapaz de melhorar as coisas. É por isso uma tentação suspender a democracia pelo menos por algum tempo, até os problemas mais graves ficarem resolvidos. Mas se a democracia não funciona para resolver os problemas mais graves de um país, colocando-o na rota da riqueza e do bem-estar, não parece particularmente sábio sustentar a democracia, com todos os seus custos, em vez de a abolir definitivamente. Se a democracia não é boa quando as coisas não correm muito bem, também não precisamos dela quando as coisas correm bem.

Falibilidade

O que há de crucial no raciocínio que desenvolvemos até agora contra a democracia é um pressuposto epistémico, isto é, relativo ao conhecimento. O pressuposto epistémico em causa é a ideia de que uma dada pessoa ou equipa de pessoas pode saber como resolver os problemas de um país sem recorrer à democracia — tal como um piloto de aviões sabe pilotar o avião
sem perguntar aos passageiros o que fazer a cada instante. Mas será este pressuposto razoável?

Evidentemente, quem defende a suspensão da democracia até se resolver os problemas mais graves do país, tem a convicção de que sabe resolver esses problemas. Mas sabê-lo-á? Ou será apenas ingénuo, pensando que sabe quando na verdade não sabe? Como podemos saber que sabe? Como sabe ele que sabe?

Quando se fazem estas perguntas, a democracia começa a parecer mais sensata. Pois se os governantes forem sistematicamente sujeitos a eleições, não poderão fazer muitos estragos durante muito tempo. Os melhores governantes podem cometer erros muito graves, ainda que tenham as melhores intenções. Mas se tiverem de se sujeitar ao veredicto popular, poderão perder o emprego rapidamente, antes de as suas bem-intencionadas asneiras se tornarem demasiado graves. (O preço a pagar é a possibilidade de políticos oportunistas que adoptam políticas muito populares, a curto prazo, mas muito danosas a médio ou longo prazo.)

Quando se raciocina desta maneira, a democracia surge não tanto como um regime que permite o melhor, mas antes como um regime que evita o pior. Por mais que um político esteja convencido de que conseguiria melhorar o seu país suspendendo os controlos democráticos, isso pode ser uma ilusão: na verdade, poderia piorá-lo. (...)"

Desidério Murcho

FILOSOFIA EM DIRECTO



Informação recebida da Fundação Francisco Manuel dos Santos:

“FILOSOFIA EM DIRECTO”
Alguns problemas filosóficos. Vistos de um modo peculiar.

“Filosofia em directo”,
de Desidério Murcho é o mais recente lançamento da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Será a filosofia aquela coisa com a qual e sem a qual tudo fica tal e qual? Apresentando a filosofia em estado puro, sem mediações históricas nem académicas, este livro põe o leitor em contacto com o que tem caracterizado a filosofia nos últimos 2500 anos, para que a possa avaliar por si. Não se trata apenas de insistir em pensar, mas de querer pensar da maneira mais rigorosa possível. A importância pública de saber pensar rigorosamente quando as soluções não são fáceis deveria ser óbvia, mas não o é.

Este livro contribui para que passe a sê-lo.

Dia 27 de Janeiro com o Público a 3,15€. Disponível nas livrarias do País, cadeias Pingo Doce, Continente e El Corte Inglés.

Os novos “Ensaios da Fundação” também disponíveis a partir de dia 27: “A Ciência em Portugal”, de Carlos Fiolhais e “Segurança Social: o futuro hipotecado”, de Fernando Ribeiro Mendes.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O Coração da Poesia e o Coração da Ciência

“O coração tem razões que a razão desconhece” (Blaise Pascal, 1623-1662).

O “Poema do Coração”, do poeta António Gedeão, de seu nome de baptismo Rómulo de Carvalho, aqui publicado no passado dia 23 por Carlos Fiolhais, denuncia o antagonismo entre a veia poética do autor e a sua formação científica, que o obriga a ver no coração não aquilo que, talvez, desejasse ver, mas sim aquilo aquilo que realmente é: uma simples bomba aspirante premente obediente às leis da Física.

Atente-se nestes versos iniciais:

"Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração
Então poderia dizer-vos:
‘Meus amados irmãos,
falo-vos do coração’,
ou então:
‘com o coração nas mãos’.

Mas o meu coração é como dos compêndios
Tem duas válvulas (a tricúspide e a mitral)
E os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos)
O sangue a circular contraio-os e distende-os
Segundo a obrigação das leis e do movimento”.

Neste dilema milenar sobre o desvendar da interrogação de Pascal - “Que quimera é o homem?” - confrontam-se, em busca incessante, a Ciência (Biologia), a Filosofia e a Religião. Para Peter Medawar (Prémio Nobel de Medicina de 1960), “a ciência não pode responder às questões últimas sobre o sentido da vida”. A Biologia hodierna, com pouco mais do que dois séculos de existência, a Filosofia, que atravessou a bruma dos milénios, e a Religião, que se perde na imensidão do tempo, porfiam desesperadamente em dar resposta, embora sem cultivar a interdisciplinaridade, ao grande enigma do “animal racional” de Lineu posto ao lado dos animais irracionais – que geneticistas nos dizem hoje diferenciar-se de um simples rato por uma pequena discrepância do DNA. Este facto foi rejeitado pelo fervor religioso do literato François-René Chateaubriand (1768-1848), que escreveu: “Se nos é permitido dizer, é, parece-nos, uma grande pena encontrar o Homem mamífero classificado, depois do sistema de Lineu, com os macacos, os morcegos e os pássaros”.

Segundo Edgar Morin, uma das melhores cabeças do pensamento contemporâneo, a idade da Terra ascende a 5 mil milhões de anos, a vida a 2,5 mil milhões, o homo sapiens de 100 a 50 mil anos, a Filosofia a 2500 anos, mas as Ciências Humanas estão apenas praticamente no seu ano zero! Julgo, assim, que se torna desejável (ou mesmo imperioso) que as Ciências Humanas, ainda segundo ele, “um pequeno ghetto”, não virem as costas à Biologia na sua tarefa de Sísifo de desvendar os segredos “da humilhação zoológica” do animal racional, apeado do criacionismo que alguns pretendem revigorar nos Estados Unidos da América.

Entretanto, ao debruçarmo-nos sobre a história, podemos avaliar os seus reflexos no tempo actual. Segundo o filósofo contemporâneo Jean-Michel Rey, “a Metafísica e a Religião, nos seus esforços conjugados, lançaram uma proibição sobre qualquer ciência do corpo”. Por outro lado, ao contrário do que vulgarmente se pensa, pelo apogeu das práticas atléticas gregas e o valioso legado da estatuária de apolíneos heróis coroados de folhas de oliveira, a filosofia helénica deverá, também ela, ser responsabilizada por este status quo. Assim, no legado platónico, praça forte do pensamento filosófico da humanidade, o corpo era havido como “um companheiro mau no caminho que leva à verdade” e "o túmulo em vida da alma".

Acresce que, para Jean-Pierre Changeux, consagrado neurofisiologista dos nossos dias, Aristóteles, com lugar no pódio dos maiores filósofos da humanidade, ao debruçar-se sobre o funcionamento da máquina humana, “baralhou os espíritos durante séculos” por considerar o cérebro um sistema de arrefecimento do sangue e o coração a sede dos sentimentos, uma tese tão ao gosto da poesia dos trovadores medievais.

Por este facto, segundo Georges Gusdorf, “a biologia aristotélica só foi verdadeiramente ultrapassada após um intervalo de 2000 anos". Ora, como é consabido, o coração é apenas, grosso modo, um músculo, anatomicamente estriado e fisiologicamente liso, que não ama e não odeia, que não rejubila e não sofre, que não age e não sonha! Mas ainda hoje, nos alvores de um novo milénio, na tradição popular é difícil aceitar esta realidade que obriga, até, o próprio conhecedor do sistema límbico a levar a mão ao peito, no sítio em que o coração, trespassado por uma seta, galopa em louco tropel para exprimir à sua amada o fogo da paixão que lhe corrói as entranhas e enrubesce a face!

António Gedeão, o poeta dos sentimentos, e Rómulo de Carvalho, o homem de ciência, ambos uma e a mesma pessoa, com rara felicidade não se traem: conciliam a beleza da poesia com a frieza da ciência. Por norma e liberdade poética, o coração da poesia vive arredado das leis da física. Mas não no “Poema do Coração”.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

KAIROS -REVISTA DE FILOSOFIA E CIÊNCIA


Está on-line, em versão integral, em português e inglês, o número um da revista "Kairos" do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. O próximo número sairá em Abril de 2011. Ver aqui.

Na imagem: representação do deus grego Kairos (que significa "tempo certo", "tempo oportuno"), filho de Cronos.

Palavra e Esplendor do Mundo


Informação recebida do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa (na imagem manuscritom de Leibniz onde ele introduz pela primeira vez o cálculo infinitesimal):

Novo livro:

Palavra e Esplendor do Mundo. Estudos sobre Leibniz

OLGA POMBO

Editora: FIM DE SÉCULO

O livro vai ser apresentado no dia 25 de Novembro (Quinta-feira), às 18 horas por Marcelo Dascal, na Faculdade de Letras, anfiteatro III.

"O que pode uma língua? Que mistérios explicam a sua imensa capacidade de revelação do mundo? Em que medida ela nos conduz ao coração das coisas – ad intima rerum – ou, pelo contrário, se interpõe como uma névoa entre nós e aquilo que quereríamos pensar? Será mesmo verdade que só na língua a verdade se deixa perseguir e conquistar? Ou terá a verdade a condição extrema de um apagamento da língua perante a visibilidade e o esplendor do mundo?"

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Comentários do Colégio Conimbricense sobre o Tratado da Alma


Informação recebida das Edições Sílabo:

Comentários do Colégio Conimbricense da Companhia de Jesus
Sobre os Três Livros do Tratado 'Da Alma' de Aristóteles Estagirita

P. Manuel de Góis , Mário S. de Carvalho (introdução), e Maria da Conceição Camps (tradução)

ISBN: 978-972-618-606-9
576 páginas
Ano de publicação: 2010
P.V.P.: 25,90 euros

RESUMO

No século de Camões, de Gil Vicente e de Pedro Nunes foi publicada em Coimbra e em Lisboa a obra maior e mais internacional da filosofia portuguesa, os Comentários Conimbricenses da Companhia de Jesus, sobretudo da autoria de Manuel de Góis. Descartes, Peirce, entre outros, estudaram por essas páginas, cujo texto sobre o 'De Anima' conhece agora a primeira tradução do latim numa língua viva. O Comentário fez parte do curriculum dos Colégios Jesuítas do Atlântico aos Urais, marcou o ensino no Brasil e na Índia, sendo também, provavelmente, o primeiro texto de filosofia ocidental a conhecer uma adaptação em língua chinesa. Numa época de globalização como é a nossa, bom será que se reconheça a importância que o Curso Conimbricense teve ao contribuir para a criação de uma cultura universal com todas as suas consequências, designadamente a que envolveu a difusão de valores hoje considerados inquestionáveis no domínio dos direitos do homem, no respeito pela natureza e no reconhecimento do valor da ciência e da religião, em todas as suas vertentes. Tanto ou mais do que a explicação da psicologia de Aristóteles, o leitor encontrará a surpresa de uma filosofia renascimental nas suas múltiplas temáticas, desenvolvida de um modo sistemático, mas aberto, cuja actualidade ou perenidade se pode aferir pelo eco que os autores dão à ciência da alma: a mais nobre de entre as demais, já que ninguém se pode conhecer a si mesmo nem ao Universo se não se debruçar sobre os segredos que a alma encerra e que são simultaneamente únicos, porque individuais, e universais.

O início da introdução geral (pdf de 12 páginas) pode ser lido aqui.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A Reposição do Exame de Filosofia no Ensino Secundário


“A Filosofia não brota por ser útil, mas tão-pouco pela acção irracional de um desejo veemente. É constitutivamente necessária ao intelecto” (Ortega y Gasset, 1883-1955).

Acabo de tomar conhecimento, através do Público, com a data de hoje, e em título de notícia (p. 23), que o “Exame de Filosofia vai ser reposto no ensino secundário”.

Mais fiquei a saber, aí, que ontem foi assinalado o Dia Internacional da Filosofia, tendo o secretário geral das Nações Unidas, Ban Ki-mon, “lembrado que na sua base está a possibilidade de partilha de questões universais sobre a existência humana”. E acrescentou: “Isto dá-lhe um poder invulgar para ajudar a construir pontes entre povos e para abrir canais de comunicação entre culturas”.

Esta temática tem para mim um valor acescentado por ter servido de leitmotiv à publicação de um artigo de jornal, transcrito neste blogue, em 23/06/2007, constituindo a primeira peça de uma série de posts aqui publicados da minha autoria.

Transcrevo integralmente o referido post:

O EXAME NACIONAL DE FILOSOFIA

"O fascínio tecnicista e cientista é um sinal dos tempos, cujas repercussões se fazem sentir na organização, ou antes, na desorganização do sistema de ensino, a todos os níveis" - Georges Gusdorf.

Abel Salazar foi professor universitário de Medicina, em inícios e meados do século passado, com um notável e eclético saber nos diversos domínios científicos e culturais: médico, escritor, pintor, escultor e filósofo, tendo-se doutorado, em 1915, com 20 valores com a tese Ensaio de Psicologia Filosófica. Com conhecimento de causa, sentenciou ele: “Um médico que só sabe de medicina nem isso sabe!”

Hoje, numa época em que os responsáveis pela tutela da Educação – em nome de uma deplorável facilidade no acesso ao ensino superior, ou (apenas) como tal plasmado na lei! – em boa hora arrepiaram caminho na decisão em acabar com o exame nacional de Literatura Portuguesa, mas persistem em manter essa decisão no que se reporta à Filosofia, uma questão se levanta. Deverá a Filosofia ser valorizada no âmbito dos cursos de humanidades e subalternizada no domínio das ciências naturais?

A questão nem sequer é nova! Segundo Georges Gusdorf, “na Primavera de 1964, assistiu-se ao facto de os decanos da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Ciências da Universidade de Paris, proclamarem que a Medicina é doravante uma ciência; ninguém poderá pretender ser iniciado se não for geómetra, se não possuir noções de base como as de função, logaritmo, derivadas. A formação médica pressupõe uma escolaridade secundária que passa pelas classes terminais de ciências e de matemática dos liceus”. (Da História das Ciências à História do Pensamento, Editores Livreiros, Ld.ª, Lisboa 1988, p. 9).

Ainda segundo este autor, “os distintos decanos preveniam os interessados e as famílias contra a deplorável perda de tempo e de inteligência que representaria um estágio na classe de Filosofia. Um jornalista foi, então, perguntar a estudantes de Medicina, escolhidos ao acaso, o que pensavam desta declaração. Responderam-lhe que lhes parecia, pelo menos, impensada. O conhecimento dos logaritmos é talvez útil ao médico, mas o conhecimento do homem e da condição humana é primordial; é deplorável que não entre em linha de conta na aprendizagem médica. Os estudantes tinham cem vezes razão em denunciar esta forma particularmente nociva de obscurantismo contemporâneo, que existe entre os potentados universitários como no homem da rua” (id., ibid.)

Este descabido, ridículo e insolente ataque à matriz de todas as ciências é tanto mais insólito quando nomes grados da Ciência se distinguiram no frutuoso deambular pelos caminhos de um Conhecimento sem fronteiras. Três exemplos, de entre muitos: Max Planck, físico e Prémio Nobel da Física (1918), preocupado com a relação entre a ciência e religião; Ernest Krestchemer, médico psiquiatra alemão, doutor honoris causa em Filosofia pelas Universidades de Wuerzburg e Católica do Chile; e Bertrand Russell, matemático e sociólogo britânico, Prémio Nobel da Literatura em 1950. E isto para não falar já em Albert Einstein, presença obrigatória em diversos manuais de Filosofia!

Poder-se-á objectar que a disciplina de Filosofia continua a fazer parte do currículo do ensino secundário, mas... o facto de não ser avaliada em exames nacionais coloca-a numa posição, no mínimo, insólita. E não me venham com a teoria de que os exames nacionais são uma forma menos válida ou justa de avaliar os alunos. O mal não está nos exames, mas na forma que preside à respectiva elaboração!

A facilitação em deixar passar os alunos sem testar os conhecimentos adquiridos em exames nacionais nos diversos graus de ensino conduziu a população escolar portuguesa à crítica demolidora de Vasco Pulido Valente: “Um ensino, em particular ensino superior, ineficiente e caótico e, além disso, irreformável”!

Na verdade, chegou-se a níveis de ignorância que campeiam entre os próprios diplomados do ensino superior e que não são escamoteáveis por mais tempo, pese embora, como escreve Mario Perniola, professor de Estética da Universidade Tor Vergata de Roma, “haver sempre uma caterva de ingénuos prontos a escrever a história da última idiotice, a solenizar as tolices, a encontrar significados recônditos nas nulidades, a conceder entrada às imbecilidades no ensino de todas as ordens e graus, pensando que fazem obra democrática e progressista, que vão ao encontro dos jovens e do povo, que realizam a reunião da escola com a vida”.

Numa altura em que novas (e, ainda mais, facilitadoras!) formas de acesso a escolas de ensino superior se divisam no futuro prenunciando técnicos despojados de uma necessária formação cultural - a que a leitura constante de textos literários e a reflexão filosófica conduzem - e em que a quantidade de diplomados pelo ensino superior supera em muito a sua qualidade - , os claustros universitários devem manter-se como guardiães esforçados da Cultura Humanística, do Conhecimento Científico e da Investigação Pura e Aplicada. Num contexto de elevada qualidade e numa tradição multissecular na formação de elites!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

DO RACIONAL AO IRRACIONAL


Pequeno trecho do meu livro "A Coisa Mais Preciosa que Temos" publicado pela Gradiva e esgotado no editor (foi aqui ligeiramente ditado):

É fácil encontrar hoje cientistas cujo discurso toca as fronteiras do racional e, por isso, as fronteiras do irracional (fronteiras essas que não são fixas). Parece-nos até, com o avanço vertiginoso da ciência, que o racional e o irracional estão por vezes muito próximos. A ciência que se desejaria racional tem amiúde assomos de irracionalidade. Para só referir exemplos da física, no quadro da teoria da relatividade geral há quem fale de viagens no tempo e no quadro da teoria quântica há quem fale de comunicação instantânea à distância. Não se deve ficar preocupado com isso. Nem se deve, por causa disso, deixar a ciência.

Em primeiro lugar, não é possível fundamentar com a ciência toda a realidade. A ciência pode tratar de muitas coisas, mas não é tudo o que o homem é capaz. A arte e a religião são, por exemplo, duas grandes actividades humanas que pouco ou nada têm de científico apesar de, naturalmente, se cruzarem com as ciências. A ciência é um processo limitado de apreensão do mundo e do homem, e não lhe pedir mais do aquilo que ela pode dar. Por vezes ela tem a tentação de entrar onde não é chamada, procurando responder a anseios humanos.

Depois, há que procurar compreender a deriva para o irracional. No livro “As Derivas da Argumentação Científica” (Instituto Piaget, 2000), a filósofa francesa Dominique Terré efectua uma análise muito interessante daquilo que pode ser visto como a irracionalidade produzida por alguns cientistas. A autora fornece-nos abundantes exemplos, como o matemático René Thom, que aplicou ou deixou aplicar a noção matemática de catástrofe bem fora do seu contexto original, o físico Brian Josephson que depois de ter ganho o prémio Nobel da Física enveredou por caminhos do misticismo, o físico Fritjof Capra, que procurou ver semelhanças entre a mecânica quântica e a filosofia oriental, o químico Ilya Prigogine, que a partir da sua teoria dos fenómenos irreversíveis procurou construir toda uma cosmovisão, o biólogo Henri Atlan, que passou da auto-organização natural para o misticismo judaico, etc. Todos eles apresentam derivas da argumentação científica, todos eles parecem de certa maneira à deriva na sua argumentação.

Em quase todos esses casos trata-se de levar metáforas e analogias demasiado longe. A metáfora e a analogia são parte essencial do discurso científico, são criadoras de racionalidade, mas uma metáfora nunca é uma descrição completa e uma analogia nunca é uma equivalência. Assim, se não houver vigilância, tanto uma como outra podem também ser geradoras de irracionalidade. As metáforas e analogias, frutos da imaginação humana, são tão úteis como perigosas. Pascal, nos seus “Pensamentos”, referiu-se à imaginação como “essa mestra do erro e da falsidade, e tanto mais velhaca que nem sempre o é”.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Progresso e religião

Como aqui temos abordado as relações entre ciência e religião, republicamos aqui, com autorização do autor, um texto do físico Nicolás Lori, que é investigador na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, saído no "Público" em 12 de Maio passado (na foto Jürgen Habermas):

Num artigo recente de opinião no New York Times faz-se uma afirmação que a muitos promotores do "progresso" em Portugal pareceria chocante: diz-se que o que falta à cultura secular é a religião. A afirmação não é feita por uma pessoa religiosa, mas por um ateu secular e proeminente filósofo, Jürgen Habermas.

Nos seus trabalhos iniciais, Habermas deu-nos conta da sua convicção de que o papel estruturante que a religião tinha desempenhado na sociedade seria no futuro feito através de uma ética discursiva, onde a melhor resposta seria obtida através do consenso. Mas para o actual Habermas, o racionalismo falha no sentido em que não tem nenhum mecanismo para tomar consciência dos "interesses" que estão sempre presentes, com as suas implicações, mas que não são reconhecidos. Esta situação causa um problema: os Estados seculares não conseguem que os seus cidadãos se afastem do egocentrismo em direcção a comportamentos mais virtuosos.

Quando se fala do diálogo entre a fé e a razão, começa-se muitas vezes mal, quando se diz que o seu sentido é extremamente vago. O que tipicamente se está a fazer é a assumir que a fé é um estado de enamoramento com o transcendente, entendendo-se por fé o "amor que inclui o transcendente". Esta visão da fé, que penso ser a definição que as pessoas comummente usam, não é o que introduz a falta de claridade na discussão. A expressão é pouco clara, porque não explica se o diálogo é entre o amor e a razão e/ou entre o transcendente e a razão. Entendemos por razão o pensamento que tenta interpretar o universo através da dinâmica causa-efeito, sendo as causas as razões que a razão utiliza. Penso também que esta é a definição tipicamente utilizada. Uma outra definição de razão, que é menos comum mas que é muito utilizada na economia, considera não uma dinâmica causa-efeito mas uma dinâmica de efeito-causa, onde a razão tenta encontrar a causa que proporciona o efeito pretendido, sendo esse efeito a real razão da acção. A utilização destas duas definições divergentes para representar dois fenómenos muito diferentes é um defeito da linguagem comummente utilizada, porque, na prática, apenas a segunda deveria ser chamada racional (algo com o correcto balanço/ratio económico), sendo a primeira chamada "razoável" (algo que tem uma razão). Discriminando estes dois termos, podemos dizer que a razão é razoável, mas também que o amor que baseia a sua esperança no que vai acontecer e não no que aconteceu é fundamentalmente racional. O bem que o amor busca não é o dinheiro, como acontece na economia. O transcendente confronta-se com o racional no sentido de que é infinito e, por isso, não é passível de ser considerado uma utilidade. O transcendente confronta-se com o razoável no sentido de que é espontaneamente não causado, e por isso não razoável. O confronto dá-se pois entre os três elementos do triângulo: razão, amor, transcendente.

Kant considerou o conflito entre a razão e o desejo humano como a possibilidade da realização do amor e considerou-o intransponível para a prática, uma vez que tal realização necessita da existência da possibilidade de liberdade de acção, o que para ele seria incompreensível. Para que o transcendente liberte o ser humano das algemas de um futuro completamente determinado pelo passado onde o espírito humano não tem lugar ou importância, é necessário que esse transcendente limite a razoabilidade do universo e eleve a sua racionalidade. Ou, em outras palavras, que esse transcendente seja poderoso e bom. O poder do transcendente apareceria para um observador como sendo a aleatoriedade não controlável através de processos causais, e a sua bondade apareceria como uma tendência da evolução a trazer mundos cada vez melhores. Mas para que essa liberdade trazida por um transcendente poderoso e bom possa ser considerada compatível com a livre vontade é necessário, e suficiente, que essa liberdade que ocorre numa pessoa seja aquilo que constitui a individualidade dessa pessoa. Ou seja, que se considere que é o transcendente que possibilita a individualidade da pessoa. A função da religião na sociedade é pois não a busca da fé mas a religação de cada um de nós à importância do transcendente na nossa vida, e mesmo depois. Consiste em religarmo-nos, que assim aparece como a fonte da possibilidade de um equilíbrio entre a razão e o amor que é o transcendente. Para que tal aconteça, torna-se necessário um enorme esforço para que nos tornemos indiferentes às causas da razão e aos objectivos do amor. Esta busca da indiferença é, apesar das diferenças entre elas, comum a todas as grandes religiões da Terra (e.g. cristianismo, islão, hinduísmo e budismo). É este religar, segundo Habermas, que a razão secular não consegue realizar, porque essa razão é cega à sua própria necessidade de ter razões que não podem ser alcançadas por observações do passado. Esta foi a cegueira vista por Saramago, mas o que Habermas afirma é que a cegueira não é causada pela religião mas pela sua ausência.

Nicolás Lori

sexta-feira, 16 de julho de 2010

TEORIA NAS BIOCIÊNCIAS

Informação recebida do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa:

O Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa

tem a satisfação de dar a conhecer a publicação dos

n.ºs 2 e 3 do vol.29 da revista

Theory in Biosciences

(da editora Springer) com o título

Darwin evaluated by contemporary evolutionary and philosophical theories

que reúne muitos dos textos apresentados num colóquio com o mesmo nome realizado pelo CFCUL em 23 e 24 de Abril de 2009 na FCUL e que tem por editores

Nathalie Gontier, Francisco Carrapiço, Marco Pina, André Levy and Helena Abreu

Nele se encontram os 17 artigos seguintes (pp.77-245):

Darwin’s legacy Nathalie Gontier

Playing Darwin. Part A. Experimental Evolution in Drosophila Margarida Matos

Playing Darwin. Part B. 20 years of domestication in Drosophila subobscura

Punctuated equilibrium in a neontological context Melanie J. Monroe and Folmer Bokma

Punctuated equilibrium and species selection: what does it mean for one theory to suggest another? Derek Turner

Saltational symbiosis Jan Sapp

How symbiogenic is evolution? Francisco Carrapiço

What is a species? Essences and generation John S. Wilkins

New insights into molecular evolution: prospects from the Barcode of Life Initiative (BOLI) Filipe O. Costa and Gary R. Carvalho

Pattern, process and the evolution of meaning: species and units of selection André Levy

Evolutionary epistemology as a scientific method: a new look upon the units and levels of evolution debate Nathalie Gontier

Computational evolution: taking liberties Luís Correia

Human evolution and cognition Ian Tattersall

Grammatical equivalents of Palaeolithic tools: a hypothesis Antonio B. Vieira

Sensory exploitation and cultural transmission: the late emergence of iconic representations in human evolution Jan Verpooten and Mark Nelissen

Language trees ≠ gene trees James Steele and Anne Kandler

Taking evolution seriously in political science Orion Lewis and Sven Steinmo

Os resumos e os conteúdos podem ser consultados em http://www.springerlink.com/content/h30434147v76/?sortorder=asc&p_o=0

sexta-feira, 28 de maio de 2010

RESPOSTA COM ESPERANÇA A QUEM COMENTOU A MINHA HISTÓRIA EM VEZ DE ENFRENTAR COM ARGUMENTOS O QUE EU DISSE SOBRE O EDUQUÊS


Post recebido de Guilherme Valente, editor da Gradiva, na sequência do anterior:

Para José da Silva Lopes e Henrique Medina Carreira, com imensa admiração.

Como acredito na inteligência, não consigo imaginar que alguém conscientemente se queira enganar a si próprio. Proponho, por isso, ao comentador que leia e considere, sem preconceitos, com espírito aberto, este meu texto.

1. O que incomodou no meu texto anterior não foi a história pessoal a que recorri. O que incomodou foi aquilo que a história me ajudou a transmitir com clareza. Vou repetir: o eduquês quer tornar toda a gente igual, mesmo que para isso tenha de reduzir toda a gente à ignorância e à boçalidade.

O que terá doído foi a evidência que referi: a realização desse projecto horroroso e inatingível (por isso delirante) conduziu e conduz inevitavelmente ao nivelamento por baixo, ao facilitismo sempre crescente. Diminui todos os alunos, mas prejudica sobretudo os mais desfavorecidos, as crianças pobres, de famílias pouco instruídas, sem meios ou conhecimentos para procurarem outro ensino, no país ou no estrangeiro. O delírio igualitarista agrava as desigualdades.

Note-se que esse projecto, para poder ser realizado, como foi sendo realizado, não podia (nem pode) ser assumido. Se o fosse, depararia, naturalmente, com a oposição geral do Pais. Pelo contrário, tinha de ser disfarçado, no discurso e com os recuos tácticos convenientes, usando o apoio dos idiotas úteis, dos ingénuos e dos oportunistas, matéria-prima que, como se sabe, num país com o grau e a qualidade de instrução do nosso, não falta.

E foi por isso, e é por isso, por não poderem assumir tal projecto (que não teriam argumentos para justificar, acrescente-se), que nunca responderam à nossa crítica, fazendo passar a ideia de que não somos especialistas, de que não temos credibilidade para falar dos problemas de educação. Na verdade, como se sabe, embora seja muito esquecido e pouco praticado entre nós, o que vale é a qualidade dos argumentos não o estatuto ou a cara de quem os emite. E o que está em causa discutir, aliás, exige apenas inteligência, cultura geral e sensatez. De qualquer modo não trocaria o meu currículo, de formação académica e profissional, por mil currículos dos «especialistas» do Ministério.

(Note-se, de passagem, que para quem impõe o regime das «competências», para quem desvaloriza a cultura letrada, para quem quer acabar com as elites, para quem quis impor a participação de miúdos de dez anos na direcção das escolas, e dos alunos do secundário na elaboração do programa dos cursos e na definição de modelos de avaliação, a contradição é gritante. Na verdade, o que querem, afinal, é uma sociedade igualitária em que sejam eles os únicos… desiguais. Também não é novo na História. )

Por outro lado, o facto de hoje, num país da União Europeia, depois da experiência do PREC, tal projecto ser inimaginável, fez com que o eduquês contasse com a distracção ou a indiferença de quase todos nós.

Mas se não podia ser assumido «oficialmente» pela nomenclatura do Ministério, a verdade é que os teóricos mais puros e duros do eduquês não resistiram a irem revelando nos seus escritos, mais ou menos explicitamente, esse projecto impensável (ver a antologia organizada por Nuno Crato, O Eduquês em Discurso Directo, Gradiva).

E, assim, o projecto pode ser realizado com uma continuidade que nunca qualquer outro programa político teve depois do 25 de Abril, sobrevivendo a todas as mudanças de governo, aos vários ministros da educação, à tragédia gritante, sempre a agravar-se, dos resultados e do abandono escolares, do ambiente insuportável em muitas escolas, à frustração e à desistência de inúmeros professores, à evidência crescente dos seus efeitos devastadores na realidade económica e social do Pais.

2. Repetido o que quis afirmar no meu texto, pergunto ao Senhor Eduquês que o comentou (trato-o assim por não saber o seu nome): é verdadeiro o que afirmo ou é falso? Se é falso explique então, a todos nós, claramente, qual é o projecto do eduquês do Ministério. E diga-nos de que outro modo poderemos interpretar os escritos dos representantes puros e duros do eduquês coligidos no livro de Nuno Crato.

Aliás, como muito pertinentemente foi referido noutro comentário, quem tem de responder a estas questões é a senhora Ministra da Educação. Tem de dizer claramente ao País de que lado está, o que pensa do eduquês e como vai agir relativamente ao seu domínio total do sistema educativo. Dizer muito claramente, qual é, afinal, o seu projecto, que intenções tem.

3. Um mundo de clones é o mundo em que o eduquês gostaria de nos pôr a viver. Com essa nomenclatura iluminada a mandar em nós, claro. Como aconteceu sempre nas tragédias históricas em que a experiência foi tentada.

Mas é, felizmente, um mundo impossível. Felizmente, porque para mim não é um mundo desejável. Não quero ser igual a ninguém. «Não sei por onde vou, não sei para onde vou, mas sei que não vou por aí» são versos de José Régio.

4. Dito isto, vou tentar mostrar (permita-se-me a especulação um pouco naive a que vou recorrer) que o projecto igualitarista é irrealizável. Mas, antes disso, quero lembrar que mesmo quando se apresentou como um projecto generoso acabou sempre, historicamente, quando as circunstâncias o permitiram e não foi travado a tempo, na crueldade mais odiosa. Não podia ser de outro modo, como facilmente se compreende. Um dos exemplos mais recentes é o do Cambodja de Pol Pot: começou na escola e terminou nos campos de extermínio. Não é ficção aquilo de que falo.

Assim:

a) A primeira condição para realizar a igualdade de todos os seres humanos teria de ser a «construção» de pessoas (pessoas?) geneticamente iguais. O que é uma impossibilidade absoluta. Repare-se, no entanto, que foi esse o projecto do nazismo. Eliminar todos os que não pertencessem a uma suposta raça ariana. Começou pelos judeus e, por meio da esterilização, pelos ciganos e deficientes. E começou sem que quase ninguém imaginasse que poderia tomar conta da Alemanha, sem que fossem levadas a sério as suas primeiras manifestações. Lembram-se do filme Cabaret?

b) Mas mesmo que essa impossibilidade fosse realizada, seria necessário muito mais, designadamente: impor a toda a gente a mesma alimentação, obrigar toda a gente a viver no mesmo sítio, a ter os mesmos mesmos vizinhos, os mesmos encontros e desencontros, o mesmo número de irmãos, a mesma longevidade de toda a família (eu perdi o meu pai aos oito anos e sei como isso marcou o meu destino), os mesmos amigos, as mesmas viagens, a mesma namorada, os mesmos livros, os mesmos filmes (é por isso que os regimes totalitários impõem a censura e queimam os livros), o mesmo Benfica, a tropeçar as mesmas vezes, a ter ou a não ter os mesmos acidentes, etc., etc., etc. Percebe-se certamente o que caricaturalmente estou a tentar explicar.

Leonardo da Vinci teve onze irmãos. Sabe-se o nome de algum deles? Se conseguíssemos fabricar um Einstein geneticamente igual ao original, não conseguiríamos com isso outro Einstein como o que existiu. Percebe-se porquê, não preciso de pormenorizar mais.

Uma loucura, um delírio, portanto. Mas sabemos que foi tentado. E sabe-se a dimensão de sofrimento que causaram as experiências de concretização dessa loucura. E lembramo-nos dos nomes dos «demiurgos» que as impuseram.

À esquerda ou a à direita - o totalitarismo não é de esquerda nem de direita – a explicação remete sempre para a avidez de poder, o ressentimento, a insegurança pessoal (enfim, não quero, nem seria a pessoa indicada para avançar as explicações do totalitarismo, do delírio ou da simples insensatez), rapidamente transformados em cegueira fanática, inevitável escalada de imparável violência, imposta, porventura, pela lógica de ocultação e justificação. Como é possível que alguém ainda se iluda e isso se possa repetir, se esboce, ou simplesmente se deseje? (Valerá a pena ler, a propósito, o pequeno, mas muito interessante, livro de ensaios de Umberto Eco, Cinco Escritos Morais, Difel.)

O problema e o desafio não é tornar todos iguais. O problema e o desafio é o das condições da liberdade para todos.

A liberdade não pode existir na imposição de um padrão, numa realidade em que «a obediência a um padrão é a única forma considerada verdadeira de auto-afirmação, onde aquilo a que se dá o nome de liberdade não é a possibilidade de agirmos no interior de um qualquer vazio, por reduzido que seja, reservado à nossa escolha pessoal, sem interferências dos outros». A essência da "liberdade livre" (a expressão feliz é de outro poeta, António Ramos Rosa) está na possibilidade de escolhermos o que queremos ser, porque o desejamos, sem coerção, sem opressão, não absorvidos num grande sistema… inexoravelmente totalitário.

O sonho da harmonia universal não será realizável, mas a redução das desigualdades sociais deve ser um objectivo sempre presente, que só pode ser realizado pela educação, oferecida a todos, apoiando mais os mais desfavorecidos, os que tenham maior dificuldade em progredir, uma educação dirigida ao que é distintivo da nossa humanidade: à inteligência, que só pode gerar solidariedade; realizado pela afirmação e a defesa intransigente dos direitos e dos grandes valores humanos; pelo aprofundamento da democracia.

Claro que o caminho da liberdade e do progresso não é, como bem sabemos, um caminho sem escolhos. É um caminho de combate, foi para muita gente, um caminho de grandes sofrimentos, de avanços e de recuos, mas chegámos aonde chegámos.

Como disse Churchill e vem a propósito lembrar, não se encontrou até hoje melhor solução, apesar das limitações e dos obstáculos que revoltam e é preciso enfrentar e superar. De qualquer modo, o que haverá mais para fazer na vida se não caminhar…

Educação, insisto, centrada no que se dirija ao córtice cerebral, o «lugar» onde a matéria se converte em consciência, o reino da intuição e da análise crítica, onde surgem as ideias e a inspiração, a matemática e a música. O córtice que controla a nossa vida consciente. Que distingue a nossa espécie. Cerne da nossa humanidade. Que produziu a civilização. Um ensino centrado no conhecimento, na exigência intelectual e na responsabilidade humana, nas suas várias dimensões.

Percebe-se, assim, também, porque são um logro, e humana e socialmente um crime, as «novas» teorias pedagógicas.

Sabemos que esta ambição humaníssima tem de ser um combate diário de cidadãos informados e, por isso, com consciência crítica. Construindo a confiança que é condição do progresso pessoal e social. Cidadãos que "aprendam a aprender" (outro slogan mentiroso do eduquês…) da única maneira que há para o conseguir: aprendendo, adquirindo os conhecimentos que contam e lhes permitem pensar criticamente a realidade, conhecimento que transforma, valoriza, a inteligência. Como explicou muito claramente Carl Sagan, parecendo estar a enfrentar o tal slogan absurdo, mas que ouço ser repetido por tanta boa gente que devia compreender o logro: «A informação a que temos acesso é o índice da nossa inteligência». Percebe-se, pois, porque é um crime a desvalorização do conhecimento e dos saberes, a atrofia da memória, estúpida ou perversamente programada, perpretada na escola.

É por isso que para mim só há um grande e fundador problema em Portugal: o do baixíssimo nível de instrução dos Portugueses. Resolvido esse, todos os outros se resolverão por acréscimo. É esta a grande dívida pública, monstruosa, endémica, de Portugal. Que em cada dia se está a agravar (ao contrário do que me dizem ter dito no dia 26, na televisão, surpreendentemente para mim, o Professor Marçal Grilo). É este o grande défice cívico de todos nós.

E pronto, vou para férias. Felicidades para todos, mesmo para todos.

Guilherme Valente