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terça-feira, 29 de outubro de 2019
Ainda sobre os incêndios
Recentemente foi publicado na revista Algarve Vivo, o meu texto Incêndios: entre a tragédia e a oportunidade, em que defendo que uma das soluções possíveis passa por actuar simultaneamente em três níveis: individual, político e colectivo. No mesmo texto dou exemplos do que se pode fazer e do que já está a ser feito.
quarta-feira, 11 de setembro de 2019
BIOLOGIA E SOCIEDADE
Na próxima 4ª feira, dia 18 de Setembro de 2019, pelas 18h00, vai
ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra “BIOLOGIA E SOCIEDADE”,
por José Matos, Bastonário da Ordem
dos Biólogos.
Esta palestra integra-se no já popular ciclo "Ciência às Seis - Terceira
temporada", coordenado por António Piedade, Bioquímico,
escritor e Divulgador de Ciência.
Sinopse da palestra: “A
Biologia é talvez o ramo da ciência que mais pontes estabelece com as outras
ciências: Bioquímica, Biofísica, Biomatemática, Bioinformática, são inúmeras as
áreas do conhecimento que se renovam e se transcendem (transdisciplinaridade)
com base na Biologia, a ciência que estuda a vida.
Por outro lado, o nosso dia-a-dia está repleto de bens,
serviços e de conhecimentos de base biológica, na maior parte das vezes sem que
nos apercebamos disso. Na Saúde, no Ambiente, na Educação, na Biotecnologia,
mas também no lazer e no turismo são inúmeros os exemplos de situações com base
no conhecimento biológico, desde o medicamento que tomamos à cor da roupa que
vestimos.
Contudo, a faceta mais visível da profissão de biólogo
junto da sociedade civil é o ambiente e a sua conservação. Num momento em que,
finalmente, todos nós começamos a ter consciência de que os problemas
ambientais não são uma questão longínqua que apenas afeta os outros, mas sim um
problema global, o que distingue um ecólogo (biólogo especialista em Ecologia)
de um ecologista, o que distingue uma medida baseada na ciência de outra
baseada na crença?
É a altura certa para debatermos estes temas e tentarmos
responder a estas questões.”
ENTRADA LIVRE: Público-Alvo: Público em geral
segunda-feira, 6 de março de 2017
OS FÓSSEIS MAIS ANTIGOS DA VIDA
Crónica publicada na imprensa regional.
Filamentos e tubos de microfósseis encontrados no Canadá - Matthew Dodd
É atribuída ao filósofo
alemão Martin Heidegger a frase “as origens escondem-se sob os começos”! Esta
citação adequa-se à questão de sabermos quando é que a vida terá surgido no
nosso planeta. É uma questão ainda sem resposta definitiva e assim poderá continuar
por muito tempo. É que para sabermos quando é que as primeiras formas de vida
unicelulares surgiram, é preciso encontrar registos fósseis dessa ocorrência. E
isso é muito pouco provável. É muito difícil identificar e encontrar em rochas,
com milhares de milhões de anos, fósseis de células delimitadas só por uma
membrana lipídica. A vida primordial dificilmente deixou assinaturas directas
da sua existência. A procura tem, assim, de ser indirecta.
Apesar dessa dificuldade,
têm vindo a ser descobertas estruturas minerais designadas por estromatólitos,
encontradas na Austrália Ocidental, na África do Sul e na Gronelândia, em rochas muito antigas com idades
estimadas entre 3500 milhões e 3700 milhões de anos. Os cientistas propõem que
esses estromatólitos são o resultado da actividade microbiana que acumulou
grãos de metais como o ferro. Diga-se, apropriadamente, que estas estruturas
são actualmente também encontradas em fontes hidrotermais ricas naquele metal,
no fundo dos oceanos, resultado da actividade de bactérias conhecidas que usam
ferro no seu metabolismo energético.
Afinal, a vida microbiana
deixa uma impressão mineral da sua existência. Eis um caminho para a descoberta
das primeiras formas de vida unicelular!
Na revista Nature desta
semana foi publicado um artigo cujo primeiro autor é o biogeoquímico
Matthew Dodd, da University College de Londres, que apresenta a descoberta de microfósseis em rochas
cuja idade é estimada entre 3770 milhões e 4280 milhões de anos!
Estes microfósseis, só visíveis ao microscópio, que estavam aprisionados entre
camadas de quartzo, são formados por pequenos filamentos e tubos compostos por
óxidos de ferro. Os microfósseis foram encontrados em rochas que se encontram
mais precisamente na costa da Baía de Hudson a Nordeste do Quebeque, no Canadá. Os autores do artigo
propõem que terão sido formados por microorganismos, pois não encontraram
alguma explicação geológica para a sua formação.
Assim sendo, estes microfósseis constituem a evidência
mais antiga até agora descoberta da existência de vida na Terra. O espantoso, é
que isto implica que a vida terá surgido no nosso planeta só algumas centenas
de milhões de anos depois da sua formação, há cerca de 4500 milhões de
anos!
Outro aspecto, muito interessante e surpreendente desta descoberta, é o de
que a presença de óxidos de ferro implica que nessa época remota já existisse
suficiente oxigénio molecular livre para reagir com o ferro. É tentadora a
hipótese de a origem desse oxigénio molecular ser produto da actividade dessas
formas primevas de vida.
Contudo, a
associação descrita neste artigo de vida microbiana a estas estruturas minerais
precisa de ser comprovada por outros cientistas, de forma independente. É assim
que a ciência funciona. E opiniões contrárias já foram emitidas por alguns
cientistas que não participaram na descoberta. Por exemplo, Nicola
McLoughlin, uma especialista em paleontobiologia da Universidade Rhodes, na
África do Sul, que não participou do estudo, referiu à BBC News que "a
morfologia desses supostos filamentos de ferro oxidado no norte do Canadá não é
convincente” e não descarta propostas alternativas de origem geológica para a
sua formação.
A ciência acende-se sob a luz da origem da vida!
António
Piedade
terça-feira, 15 de novembro de 2016
ComceptCon 2016: o Cérebro
O Cérebro é um dos órgãos mais fascinantes do nosso corpo. Mas o que sabemos sobre ele? O que andam os cientistas a investigar? Podemos confiar sempre nele? É à volta deste tema que a equipa da COMCEPT organiza, em colaboração com a Associação Viver a Ciência, a ComceptCon 2016.
O evento, de entrada gratuita, terá lugar no Pólo de Indústrias Criativas da UPTEC, na Praça Coronel Pacheco, no Porto, dia 19 de Novembro de 2016, a partir das 10h.
Os temas são os seguintes:
- Excepcionalmente Normal: A Neurodiversidade em Humanos, por Ana Matos Pires (Médica Psiquiatra e Docente Universitária, Univ. Algarve)
- O Cérebro: Estado da Arte, por Diana Prata (investigadora do Instituto de Medicina Molecular, Univ. Lisboa)
- Humanidade 2.0: Melhoramento Cognitivo e Outros Vislumbres do Futuro, por Júlio Borlido dos Santos (comunicador de ciência no i3S - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, Univ. Porto)
- Ilusões Pertinentes: Confusões da Percepção Humana, por Maria Ribeiro (IBILI - Instituto de Imagem Biomédica e Ciências da Vida, Univ. de Coimbra)
- Total Recall: Podemos Confiar nas Nossas Memórias?, por Miguel Remondes (investigador do Instituto de Medicina Molecular, Univ. Lisboa)
Mais informações em: http://comcept.org/comceptcon-2016/
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
A BIOGEOGRAFIA DA COR
Na próxima 5ª feira, 25 de Fevereiro de 2016, pelas 18h realiza-se no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada "Biogeografia da Cor ". O orador será o Professor Jorge Paiva, Investigador no Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, galardoado com o Grande Prémio Ciência Viva 2014.
Esta palestra insere-se no ciclo "Fronteiras da Ciência", coordenado pelo Bioquímico e comunicador de ciência António Piedade, que decorre de Fevereiro a Julho de 2016.
Público alvo: Público em geral
ENTRADA LIVRE
ENTRADA LIVRE
RESUMO DA PALESTRA:
" Na Natureza nada é aleatório. Tudo o que nela existe resultou de milhões de
anos de evolução. Os seres vivos não evoluíram independentemente, mas
integrados nos respetivos ecossistemas.
As plantas, como não se movem, para
se “alimentarem” necessitam de luz e pigmentos assimiladores e captadores de
energia (clorofilas e carotenoides), cuja concentração depende das coordenadas
geográficas onde vegetam. Assim também, para se reproduzirem sexuadamente e
para se dispersarem, são dependentes de agentes transportadores (ar, água e
animais) dos seus diásporos (esporos, sementes e frutos). Desta maneira,
evoluíram adaptando-se não apenas às condições ecológicas dos ecossistemas onde
vivem, mas também aos agentes dispersores. Quando os agentes dispersores são
animais, ocorreu frequentemente uma evolução adaptativa paralela com esses
animais (coevolução).
Nas Angiospérmicas (plantas vasculares,
com flores e frutos), a cor predominante das folhas é o verde, pois a clorofila
é o pigmento mais importante para a elaboração dos nutrientes necessários para
as funções vitais das plantas. Mas as cores das flores e dos frutos resultaram
de uma evolução adaptativa aos agentes polinizadores e dispersores,
particularmente animais.
Os animais não têm todos a mesma
visibilidade para as cores. Assim, do espetro solar (arco-íris) os humanos vêm
as cores das radiações desde os 380 nanómetros de comprimento de onda (violeta)
aos 740 nanómetros (vermelho). Os cães e gatos vêm poucas cores, apenas do azul
ao amarelo. Um cão guia sabe que o semáforo está vermelho, pela posição da luz
na vertical do semáforo, pois não vê a cor, apenas tem a perceção da luz estar
apagada ou acesa. Por isso, as posições das 3 cores dos semáforos são sempre as
mesmas em todos os semáforos (a superior é vermelha, a do meio é amarela e a
inferior é verde). Nos humanos também há que contar com os daltónicos que não
vêm o vermelho. Muitos insetos (abelhas por exemplo) e muitas aves, vêm para
além do violeta (ultravioleta), que nós não vemos, mas podemos saber como as
abelhas vêm essa cor nas flores, através de fotografias com filmes sensíveis ao
ultravioleta. Por outro lado, as abelhas e muitos outros insetos não vêm o
vermelho. As cobras, por exemplo, têm uma reduzida amplitude de visão das cores
do espetro solar, mas “percebem” para lá do vermelho (infravermelho), o que é
muito útil para predadores noturnos de presas de sangue quente.
Por isso, as cores das flores
dependem do espetro visual dos polinizadores e a cor dos frutos da visão dos
dispersores. Assim, em Portugal as flores das nossas plantas nativas não são
vermelhas, pois os polinizadores no nosso país são maioritariamente insetos. Já
temos frutos vermelhos, pois alguns dos dispersores são aves, que vêm o
vermelho. As flores que estão adaptadas a polinizadores noturnos, são brancas.
A cor de muitos animais e plantas
depende da altitude, como, por exemplo, algas vermelhas a profundidades maiores
que as algas castanhas e as verdes à superfície. O mesmo acontece com alguns
peixes, particularmente dos ecossistemas coralígenos, por se manterem em nichos
ecológicos horizontais. As cores dos seres vivos também dependem da latitude,
como, por exemplo o urso polar é branco e os ursos de latitudes inferiores são
castanhos e até pretos. Com as
plantas passa-se o mesmo, pois as das latitudes equatoriais são de folhagem
verde-escura e as que se encontram entre os círculos polares e os respetivos
trópicos (cancer e capricórnio) são verde-claro. Embora não haja uma
dependência tão intensa da cor dos seres vivos com a longitude, existem muitos
exemplos, como, por exemplo, os nossos carvalhos e aceres têm folhagem acastanhada
no Outono e a dos americanos é avermelhada.
As cores dos animais também dependem
dos hábitos de vida (ex.: os predadores noturnos são sarapintados de branco e
escuro) e dos ecossistemas onde vivem (ex.: os cavernícolas são despigmentados
pois vivem permanentemente na escuridão, por isso são brancos e cegos)."
Jorge Paiva
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
FRONTEIRAS DA CIÊNCIA EM COIMBRA
Comunicado de imprensa do Rómulo:
“Fronteiras da Ciência” é o novo ciclo de palestras destinadas ao público em geral que decorrerão no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade, entre 25 de Fevereiro e 15 de Julho do corrente ano. Esta iniciativa do Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade está ser coordenada por António Piedade, Bioquímico e Comunicador de Ciência.
Com este ciclo, constituído por 11 palestras, pretende-se dar a conhecer aos cidadãos interessados o estado actual do conhecimento científico em diversas áreas da ciência como sejam a Física, a Química, a Biologia, a Matemática, a Astronomia, a Antropologia, a Genética e a Saúde Humana. É um convite a uma viagem pelas fronteiras do conhecimento científico. Os palestrantes, convidados pelo Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade, são cientistas reconhecidos nacional e internacionalmente pela excelência da sua investigação científica e são também excelentes comunicadores da sua ciência ao grande público. Ao longo do ciclo, serão apresentados, numa linguagem acessível a todos, os desafios com que se deparam os cientistas das diversas áreas atrás indicadas e destacados os contributos para o nosso dia-a-dia resultantes do avanço do conhecimento científico.
É indicado a seguir a data de cada uma das palestras, o título e nome do respectivo palestrante:
25 de Fevereiro – “Biogeografia da Cor”, por Jorge Paiva, Biólogo, Investigador no Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, galardoado com o Grande Prémio Ciência Viva 2014.
11 de Março – "Desafios da Química no século XXI”, por Paulo Ribeiro-Claro, Químico, Professor no Departamento de Química da Universidade de Aveiro.
07 de Abril - “Determinismo e susceptibilidade: duas caras na fronteira da nova genética”, por Claudio E. Sunkel, Geneticista, Diretor do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) e Vice-diretor do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S).
21 de Abril – “Neuroestimulação: o bom, o mau e o desconhecido”, por Alexandre Castro Caldas, Neurocientista, Director do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa, foi até 2004 Professor Catedrático de Neurologia na Faculdade de Medicina de Lisboa e Director do Serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria em Lisboa.
28 de Abril – "Onde estão hoje as fronteiras da Física? Da matéria e energia escura aos sistemas complexos", por Carlos Fiolhais, Físico, Professor Catedrático do Departamento de Física da Universidade de Coimbra e Director do Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra
05 de Maio - "Um ESPRESSO para outros planetas", por Nuno Cardoso Santos, Astrónomo, investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e Professor da Universidade do Porto.
19 de Maio – "Apesar de tudo, a vida é feita de moléculas", por Miguel Castanho, Bioquímico, é Professor Catedrático de Bioquímica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, desde 2007, e sub-diretor desde 2011. Coordena o Instituto de Medicina Molecular. É Vice-Presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
02 de Junho – “Viajar com os ossos: da nossa história natural à resolução de casos criminais”, por Eugénia Cunha, Antropóloga, Professora Catedrática do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra e investigadora do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra.
16 de Junho – "Matemática para o século XXI", por Jorge Buescu, Matemático, Professor Associado com Agregação na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática.
01 de Julho – “Melhoramento Humano”, por Alexandre Quintanilha, Físico e Biólogo, Professor Catedrático Jubilado da Universidade do Porto, investigador do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S). Deputado na Assembleia da República onde preside à Comissão de Educação e Ciência.
15 de Julho – “Envelhecimento”, por Miguel Godinho Ferreira, Biólogo Celular e investigador principal e director do grupo de investigação Telómeros e Estabilidade Genómica no Instituto Gulbenkian de Ciência.
Todas as palestras terão início pelas 18h00, com acesso livre ao público.
Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade está situado no piso 0 do Departamento de Física da Universidade de Coimbra.
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
FLORIR NO ESPAÇO ou SOBRE O MAU JORNALISMO À VOLTA DE UMA FLOR
Crónica primeiramente publicada na imprensa regional.
As plantas com flor, ou angiospérmicas, surgiram na história da vida no planeta Terra há
pelo menos 130 milhões de anos e, depois delas, a relação entre animais e
plantas mudou e intensificou-se. As plantas angiospérmicas mudaram os ecossistemas,
a paisagem com as suas pétalas coloridas. Hoje, as plantas angiospérmicas englobam
cerca de 230 mil espécies por toda a biosfera. A propósito, refira-se que a
designação “angiospérmicas” deriva das palavras gregas "angios"
para "urna", e "sperma" para "semente".
Mas já não só na Terra há plantas com flores! Na Estação
Espacial Internacional já floriram plantas. Recorde-se, antes de mais, que a
estação, um laboratório espacial concluído em 2011, "encontra-se em órbita baixa
(entre 340 km e 353 km), o que possibilita que possa ser vista da Terra a
olho nu, e viaja a uma velocidade média de 27 700 km/h,
completando 15,77 órbitas por dia", conforme se pode ler aqui.
No passado dia 16 de
Janeiro, o astronauta norte-americano Scott Kelly, comandante da
actual missão da Estação
Espacial Internacional, publicou na sua conta no
Twitter a seguinte frase: “Primeira flor de sempre a crescer no espaço faz a
sua estreia”. A flor é de uma zínia (Zinnia
é um género botânico pertencente
à família Asteraceae)
e a notícia espalhada naquela rede social fez com que inúmeros meios de
comunicação social internacionais divulgassem o acontecimento, tal como se
tivesse sido a primeira vez que uma planta tivesse florido no espaço.
Mas o entusiasmo de Scott Kelly deturpou a história e os meios de comunicação
social publicaram o florescimento sem terem feito uma simples investigação na
internet para confirmarem a primazia afirmada pelo astronauta.
É que, em abono da
verdade, não foi esta a primeira vez que uma planta cresceu e floriu no espaço,
mesmo naquela Estação Espacial. E, entre nós, que eu tivesse dado conta, só o
jornalista de ciência Nicolau Ferreira, do jornal Público, investigou e
escreveu a verdade sobre esta questão (ver aqui).
De facto, há mais de 30
anos que várias missões espaciais conseguiram que diversas plantas florissem no
espaço. Nicolau Ferreira consultou o site oficial do Guinness World Records e
encontrou que “em 1982, a tripulação da estação espacial Saliut-7, pertencente à então
União Soviética, cultivou a bordo algumas Arabidopsis. Durante o seu
ciclo de vida de 40 dias, elas tornaram-se as primeiras plantas com flor a
produzir sementes no espaço em gravidade zero”.
Acrescenta ainda o jornalista do Público que “na estação
russa Mir, entre 1996 e 1997, cultivou-se trigo, obtendo-se flores e sementes” e
que “o astronauta norte-americano Donald Pettit mostrava em 2012 fotografias de
uma flor de girassol durante a sua missão” na Estação Espacial
Internacional.
O cultivo de plantas com flor no
espaço sempre teve o objectivo científico de, por um lado, compreender o
comportamento e desenvolvimento das plantas no espaço em situações de micro-gravidade,
o que, por outro lado, ajuda os cientistas a compreenderem também o papel que a
gravidade terrestre tem no crescimento das plantas no nosso planeta. Para além
deste interesse científico, a investigação do cultivo de plantas no espaço é importante
pois permite desenvolver as condições propícias para a produção de alimentos
vegetais frescos para alimentar os astronautas. Este aspecto é crucial se a
humanidade empreender futuramente viagens espaciais durante longos períodos de
tempo, como seria o caso da colonização de outros planetas no Universo.
Voltando às zínias, a sua escolha
para a presente missão não foi ao acaso. Segundo a NASA, aprender a cultivar
esta espécie de planta é uma aproximação para o passo seguinte que será o de se
conseguir cultivar o tomateiro. Ambas as plantas possuem um período de
crescimento semelhante e precisam de florir. O início do cultivo de tomateiros
está previsto para 2017, segundo a NASA.
Este caso das zínias é mais um
exemplo de como a generalidade (como em tudo há excepções) da comunicação
social trata as notícias de ciência a partir de fontes supostamente credíveis:
acriticamente, traduzindo, replicando e publicando sem mais investigações. É um
mau serviço, não só à ciência, mas sobretudo ao jornalismo em si próprio.
António Piedade
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
O OXIGÉNIO E A EVOLUÇÃO DA VIDA
Crónica originalmente publicada na imprensa regional.
A evolução da vida na Terra foi marcada pelo aumento do oxigénio na atmosfera e nos oceanos.
A evolução da vida na Terra foi marcada pelo aumento do oxigénio na atmosfera e nos oceanos.
No início da
formação da Terra, há 4,6 mil milhões de anos, havia muito pouco oxigénio
gasoso (oxigénio molecular, O2). O oxigénio então existente estava
combinado com outros átomos, como seja o hidrogénio, formando a água que
hidratou o planeta ao longo da sua evolução.
E foi em
meio aquático, nas ondas dos oceanos primitivos, que as primeiras formas de
vida surgiram. As evidências fósseis mais antigas de microrganismos têm 3,6 mil
milhões de anos. Não quer dizer que a vida não existisse antes. Quer dizer que
ou não deixou rastos, ou ainda não foram encontrados. Aquelas formas de vida
unicelulares pertencem ao grupo designado por cianobactérias.
As
cianobactérias primitivas possuíam a capacidade de usar a luz solar com fonte
de energia para efectuarem a fotossíntese. Nesta, o oxigénio presente nas
moléculas de água é combinado para dar origem à molécula de oxigénio que se difunde
pelas águas dos oceanos e para a atmosfera. O aumento de oxigénio molecular,
produzido pela acção da vida, marcou a evolução da própria vida e mudou a
química do planeta.
Há
evidências geológicas que mostram como foi a evolução da concentração de
oxigénio na história da Terra. Sabemos que o nível de oxigénio na atmosfera não
aumentou linearmente. Muito pelo contrário, durante os primeiros 3 mil milhões
de anos depois do início da sua produção biogénica, a sua concentração na
atmosfera permaneceu residual. Mas, há cerca de 2,4 mil milhões de anos ocorreu
o que é designado por primeiro grande evento de oxigenação (GOE, na sigla
inglesa), e que é caracterizado por um primeiro aumento, mas tímido, no
oxigénio atmosférico.
O oxigénio,
produto da vida, foi-se primeiramente combinando com outras substâncias, como a
pirite (FeS2), presentes nos fundos oceânicos e na superfície dos
solos terrestres. Ou seja, este sequestro do oxigénio por diversas substâncias,
ao longo de milhares de milhões de anos, impediu que ele estivesse disponível
para ser usado para a complexificação da vida.
E, de facto,
verifica-se um longo jejum evolutivo durante cerca de 3 mil milhões de anos,
com o surgimento de poucas novas formas de vida, que se mantinham
principalmente unicelulares ou vivendo em colónias.
Contudo, há
cerca de entre 850 a 550 milhões de anos algo mudou no planeta e a concentração
de oxigénio disparou para cerca de 31% na atmosfera (10% a mais do nível
actual). E essa mudança oxidativa foi acompanhada por uma explosão evolutiva no
horizonte da vida. No que é conhecido por explosão câmbrica, verificamos o
surgimento de uma miríade de novas expressões de formas vivas muito diversas.
Todos os antepassados das plantas e animais actuais surgiram nessa explosão incendiada
pelo aumento brusco de oxigénio livre.
Não sabemos
o que é que originou este grande aumento de oxigénio num momento designado por
segundo grande evento de oxigenação. Mas geólogos da Universidade da Tasmânia,
Austrália, descobriram que esse momento foi também acompanhado pelo aumento da
disponibilidade de outros elementos e materiais para a vida nos oceanos. Os
resultados da equipa liderada por Ross Large vão ser publicados em março na
revista “Earth and Planetary Science Letters”.
António Piedade
sábado, 27 de julho de 2013
Ciência aos Quadradinhos
É urgente a construção de uma sociedade responsável, com capacidade de decisão matura/ fundamentada e detentora de um verdadeiro espírito de cidadania. Nesse sentido, é também obrigação de todos nós que nos movemos neste meio, mais que não seja responsabilidade moral, a implementação de uma série de práticas, desde a clarificação dos conceitos emergentes relativos aos avanços científicos/ tecnológicos que vivemos, à estimulação do pensamento crítico desde tenra idade, e ainda, ao favorecimento da proximidade entre os cientistas e o público em geral. E se colocar tudo isto em prática não é fácil, o grande busílis da questão está mesmo na linguagem a utilizar. Ora parece-me que a aliança entre a Ciência e a Arte in senso lato, duas formas de produção intelectual grandemente dependentes da criatividade, pode ser uma estratégia muito promissora para envolver o público e disseminar a “mensagem”. Adicionalmente, se a mensagem for passada a par de um suporte visual forte, assertivo, coerente e bem disposto, então teremos andado mais de meio caminho em direcção ao nosso propósito.
Foi com estas ideias em mente, foi também tendo em conta os resultados alcançados pelas experiências iterativas de muitos anos a partilhar Ciência às mais diversas faixas etárias e tipos de público, e ainda, revivendo boas memórias dos projectos em que congrego alguma forma de arte figurativa ao processo de comunicação de Ciência, que me decidi a dar este passo. A ideia consiste em utilizar a arte sequencial animada para transmitir, dentro de quatro linhas, conceitos associados a conteúdos de Ciência. Mais concretamente através de cartoons sob a forma de quadro único ou tira. Para titubear os primeiros passos decidi-me pela área da Microbiologia. E porquê? Por (de)formação e porque os microrganismos ou os processos microbianos estão por todo o lado, desde o ambiente às notícias que vemos/lemos diariamente. Bom, mas a razão principal, a razão que me levou mesmo, mesmo a escolher a "vida à escala micro", prende-se com o facto dos microrganismos estarem amarrados com nó cego, a muitos preconceitos e conceitos errados. Errados e perigosos. Consulte-se num qualquer dicionário a palavra microrganismo, micróbio ao termo afim e dá logo vontade de bater na madeira, ao mesmo tempo que se murmura um "vade retro Satanás".
Mas dizer coisas sérias a brincar não é fácil! E a imaginação, Senhores? Ai, a imaginação e a criatividade não aparecem assim à hora marcada com um estalar de dedos. Então lancei o desafio, sob a forma de uma ferramenta de avaliação, aos meus alunos das licenciaturas em Biologia–Geologia e Mestrado Integrado em Engenharia Biológica e ainda, como tema de projecto de licenciatura em Biologia Aplicada com o título de "Microrganismos ao Quadradinhos". Acontece que a motivação e adesão foram enorme e os resultados, grosso modo, muito gratificantes. O cartoon em cima é um dos elementos da colecção com o título supra-citado, da autoria do aluno finalista em Biologia Aplicada, Daniel Ribeiro. O objectivo agora é burilar e maturar esta ideia de modo a poder faze-la sair do quadrado onde está confinada, para um círculo de acção mais alargado onde muitos possam usufruir. Cá por mim, espero que o raio do círculo seja bem grande...
quarta-feira, 8 de maio de 2013
DUPLA HÉLICE SEXAGENÁRIA
Texto publicado na revista Papel
O avô Jaime faz
anos. Sessenta anos de vida cumpridos no dia 25 de Abril, dia de festa e de
grandes revoluções. Francisco e Rosália, os seus netos gêmeos, estavam
radiantes como qualquer petiz o está quando alguém que lhes é querido faz anos.
Também eles tinham feito 10 anos no passado dia 14 do mesmo mês de Abril. A
coincidência de todos fazerem anos no mesmo mês aumentava a sensação de uma
cumplicidade entusiasta entre avô e netos.
Rosália observa
as duas velas de aniversário espetadas no topo do bolo. Tinham uma forma
helicoidal e o número 60 construído pelo 6 e o 0 impressos em cada uma delas.
As duas faziam lembrar uma dupla hélice o que fez recordar a Rosália algo que
tinha lido num jornal na biblioteca da escola: a forma da molécula dos genes
também tinha sido descoberta havia 60 anos.
- Avô! –
pergunta Rosália – é interessante teres nascido no mesmo ano em que uns
cientistas descobriram a dupla hélice…
- De ADN –
completou o Avô perante a hesitação de Rosália. – Sim é uma coincidência que me
agrada, mas não passa disso. De uma coincidência. De facto nasci no dia em que
uma revista científica muito importante, que se chama Nature, publicou o artigo
de James Watson e Francis Crick sobre a estrutura em dupla hélice do ácido
desoxirribonucleico, que diminuímos para a sigla ADN. Foi uma publicação que
fez nascer uma nova era na biologia e outras disciplinas afins…
- Como a
química e a física? – questiona Francisco até ai pouco interessado.
- Essas foram
necessárias para a descoberta da dupla hélice do ADN. Outras nunca mais foram
as mesmas. Estou a falar da compreensão da vida através das moléculas e átomos
que a constituem. Biologia molecular, bioquímica, genética entre outras
disciplinas. Vocês já falaram de moléculas e átomos na escola, não falaram? –
questiona o avô Jaime com as sobrancelhas pacientes.
- Já! –
respondem os gêmeos em uníssono. – E também na internet.
- Pois a
internet… - suspira o avô pensativo. – Querem que vos conte a história do ADN?
- Queremos –
respondem Rosalia e Francisco com as vozes entrelaçadas.
- Apesar de eu
ter nascido a 25 de Abril, fui na realidade concebido uns 9 meses antes.
Poderíamos celebrar em vez do nascimento, o dia da concepção, quando um
espermatozoide do meu pai fecundou um oócito da minha mãe. Mas a tradição da
nossa cultura secular só podia celebrar o que via acontecer como coisa concreta
e definida. Mas ao longo daqueles 9 meses, os genes que eu recebi dos meus pais
celebraram um plano para fazer desenvolver, célula a célula, tecido a tecido,
órgão a órgão, primeiro o embrião, depois o feto, e por fim o meu organismo
completo nascido bebé.
- Não consigo
imaginar o avô bebé – riu a Rosalia.
- Bom. O que eu
vos quero dizer é que as coisas da ciência, assim como as da vida, não surgem
do nada. Têm uma história de desenvolvimento, passo a passo e com muito
trabalho e esforço. Cada descoberta acrescentando mais um pouco de conhecimento
ao nosso entendimento científico do mundo, neste caso.
- Queres dizer
que a dupla hélice também esteve grávida? – pergunta Rosália com ar de malandra.
- Fazes-me rir.
Não esteve grávida, não teve mãe. Apesar de ter sido uma senhora que se chamava
Rosalind Franklin que fez as experiências fundamentais com cristais de sais de
ADN e cujos resultados permitiram a Watson e Crick desvendar a estrutura. Sabem
como é que ela fez as experiências?
- Não!! – disse
a curiosidade dos dois netos.
- Como se
tirasse radiografias com raios x a pequenos cristais de sais de ADN. O modo
como os raios x são desviados pelo ADN foram registados numa imagem que depois
foi analisada com o conhecimento físico e matemático desenvolvido pelo físico
Bragg e outros colegas. A técnica chama-se em rigor cristalografia por difracção
de raios x e foi, e é, muito usada para estudar a estrutura regular e a
disposição espacial tridimensional como os átomos e algumas moléculas se
organizam quando são cristalizadas, quando estão na forma de cristais.
- Como os
cristais de neve? – pergunta Rosália sorridente.
- Sim. Só que
em vez de água, imprescindível para a vida, estamos a falar de ADN – diz o avô
Jaime contextualizando.
- O ADN foi
descoberto pelo químico alemão Friedrich Miescher, em 1869. Ou seja 84 anos
antes da desboberta da sua estrutura. Miescher descobriu que todas as células
tinham uma substância ácida no núcleo. Mas não foi logo que os cientistas
associaram o ADN com a hereditariedade, com os genes que os pais passam aos
filhos.
-
Hereditariedade?! O que é? – pergunta Francisco com os braços abertos.
- É a forma como as características que nos
tornam seres vivos individuais são transmitidas de geração em geração – explica
o avô. - Foi trazida à luz pelas famosas experiências com ervilhas de Gregor
Johann Mendel, um monge e botânico austríaco, em meados do Séc. XIX.
- As minhas
experiências com ervilhas são sempre más – resmunga Francisco.
- Mas tens de
as comer, assim como a outros vegetais se queres crescer e perceber estas
coisas da hereditariedade – aconselha Rosália fraternal. - Não é verdade avô?
- Bem o dizes
minha neta. Mas voltemos à história. Mendel não sabia nada acerca de ADN nem
precisou desse conhecimento para estabelecer as suas leis da hereditariedade
que ainda hoje são estudadas e válidas para explicar a transmissão de
determinadas características de pais para filhos, como sejam a cor dos olhos,
pro exemplo.
- Mas o que é
que o ADN tem a ver com a hereditariedade? – pergunta Francisco ainda meio
horrorizado com a ideia de ter de comer ervilhas.
- Os genes são
feitos de ADN – afirma categórico Jaime.
- Então os
genes estão no núcleo das células! – exclama Rosália vitoriosa.
- Sim. No
núcleo das células como as que nos constituem – confirma o avô. - Mas a
identificação do ADN como a molécula responsável pela hereditariedade genética
demorou muito tempo, não foi imediata.
- Porquê? –
soltou Francisco com os sobrolhos carregados.
- É que a
composição química do ADN parecia aos químicos, biólogos e geneticistas muito
pobre e repetitiva para poder conter em si a informação necessária para gerar a
imensa complexidade de um ser vivo, para além da enorme biodiversidade que vive
no planeta Terra. Cada unidade do ADN, chamado nucleótido, é composto por um açúcar
(a desoxirribose) um parte inorgânica constituída por um grupo ortofosfato, e por
uma de quatro substâncias azotadas a que chamamos bases: a guanina, a adenina,
a citosina e a timina. Para simplificar referimo-nos a elas pelas letras G, A,
C e T respectivamente.
O avô Jaime faz
uma pausa para dar tempo a que Francisco e Rosália desfaçam qualquer dúvida com
o olhar. E continua.
- Até aos anos
quarenta do século XX muitos cientistas estavam mais inclinados para atribuir
esse papel às proteínas. Estas eram constituídas por muitas mais unidades
diferentes e apresentavam-se em incontáveis combinações e estruturas distintas.
Os diferentes genes necessários para construir um organismo tinham de ser
compostos por proteínas e nunca pelo monótono ADN. Assim, durante cerca de 60
anos o material dos genes era considerado de natureza proteica.
- E como é que
se descobriu que não eram? – pergunta Francisco armado em detective.
- Através de
uma experiência muito elegante planeada e executada por Avery e seus
colaboradores. Usando um vírus chamado bacteriófago e umas bactérias, estes
investigadores mostraram sistematicamente e sem deixar qualquer dúvida que o
que era passado de geração em geração era o ADN e não as proteínas. Ou seja,
que o material dos genes era o ADN. Este conhecimento só foi divulgado em 1944,
e foi uma peça decisiva do puzzle que iria ser progressivamente resolvido até
aos nossos dias.
- Ainda não tinhas nascido avô –
recorda Rosália abraçando-o.
- Pois não. Mas no ano em que nasci, 1953, começou a entender-se como é
que a molécula de ADN cumpria o seu papel de molécula dos genes e da
hereditariedade – Jaime faz uma pausa de suspense. - Depois dos trabalhos
experimentais e resultados obtidos por Rosalind Franklin, como disse há bocado,
Watson e Crick criam, em fevereiro de 1953, um modelo estrutural para o ADN que
respondia àquelas e outras perguntas. O seu modelo apresentava uma estrutura em
duas fitas de ADN entrelaçadas uma na outra formando uma dupla hélice. No
artigo da Nature que publicaram no dia do meu nascimento, 25 de Abril,
escreveram que esta estrutura tinha grande significado biológico. De facto,
permitiu explicar como a informação genética é armazenada e transmitida entre
gerações.
- A famosa dupla hélice de ADN cujo aniversário também hoje comemoramos
nas velas helicoidais no teu bolo e que vais soprar daqui a nada – comenta
Rosalia enrolando com os seus dedos meninos os seus cabelos ondulados.
- Mas conhecer a estrutura abriu uma enorme janela para novos horizontes de
conhecimentos. Watson, Crick e o Wilkins ganharam o prémio Nobel em 1962 por
esta descoberta.
- Rosalind não?! – diz Rosália surpreendida.
- Ela tinha entretanto falecido, provavelmente devido a doença causada
pela sua exposição prolongada aos raios x com que trabalhara para nos desvendar
o conhecimento do mundo biomolecular – responde Jaime com um olhar perturbado com
injustiça. – Mas continuemos. Nesse ano de 1962 descobriu-se mais uma peça do
puzzle genético: Marshall W. Nirenberg e colaboradores decifraram o código
genético.
- Código genético?! Os genes estão codificados?! – questiona Francisco
cada vez mais curioso.
- Sim. Niremberg e seus colegas mostraram que cada um dos aminoácidos que
constroem as proteínas são codificados por sequências de três bases no ADN.
Tinham aprendido a ler a linguagem genética e entendido como é que ela é
traduzida para que as proteínas que nos compõem sejam construídas. No fundo,
tinham descodificado o manual da vida e verificado que ele era universal!
- Isso foi em 1962 – assenta Rosália. – Mas então o que é que aconteceu
com o genoma humano que foi conhecido totalmente no ano em que eu e o meu irmão
nascemos, em 2003?
- Estás a referir-te à sequenciação completa do genoma humano. Ou seja,
sabermos em que sequência é que estão, em cada uma das duplas hélices, as 3 mil
milhões de bases que as constituem em cada núcleo de cada uma das nossas
células o nosso genoma.
- Saber a ordem em que estão 3 mil milhões daquelas letras G, A, C e T? –
questiona Francisco perdido entre as letras.
- É verdade. Esse feito, anunciado ao mundo no dia 14 de Abril de 2003, é
um dos mais impressionantes da história da ciência. O Projeto de Sequenciação
para descodificação do Genoma Humano teve início em 1990 e no dia 23 de Outubro
de 1998 foram publicados na revista científica Science, os objetivos para
o Projeto do Genoma Humano, por Francis Collins e colaboradores. Neste artigo
os cientistas apontavam uma meta para a descodificação total do genoma humano
para 2013, no 60º aniversário do conhecimento da estrutura em dupla hélice do
ADN.
- Então conseguiram acabar essa tarefa 10 anos mais cedo do que o
planeado – observa Rosália.
- Sim querida neta. Fruto do trabalho de um enorme grupo interdisciplinar
internacional, e também pelo avanço da informática, do desenvolvimento de
computadores e de equipamentos de sequenciação cada vez mais rápidos e
eficientes. Digo-vos que o trabalho foi feito por várias aproximações. E de
facto os primeiros dados provisórios foram publicados em 15 de Fevereiro de
2001, na revista científica Nature, pelo Consórcio Internacional para a
Sequenciação do Genoma Humano, e no dia seguinte na Science, por J.
Craig Venter e colaboradores.
O avô Jaime refresca-se com uma limonada antes de retomar algo que
parecia ter-se esquecido antes.
- Mas deixem-me voltar umas
décadas atrás. É que esta sequenciação não teria sido possível sem que duas
técnicas bioquímicas decisivas tivessem sido inventadas antes.
- Um microscópio e uma máquina de fotografar ultra rápida… para
fotografar todas as bases no ADN – sugere Francisco.
- Não querido neto. As bases do ADN são muito mais pequenas do que aquilo
que o mais potente microscópio alguma vez construído consegue ampliar. O que
estou a recordar foi a incontornável contribuição de Sanger e Coulson, que
descreveram, em 1975, um método que permitia conhecer em detalhe todas as
letras de uma sequência de ADN.
- E a outra descoberta? – pergunta Rosália.
- A outra descoberta, também decisiva, foi a invenção da PCR, que quer
dizer “reação da polimerase em cadeia”, por Kary Mullis, na primavera de 1983.
Ou seja há 30 anos. Outra efeméride deste ano. A invenção desta ferramenta bioquímica
foi uma autêntica revolução na área da Genética, uma vez que possibilita a
síntese muito rápida das cadeias de ADN, a partir de uma pequena amostra, o que
permitiu avanços notáveis na análise dos genomas dos seres vivos. Recorrendo à
PCR, é possível sintetizar um bilião de cópias de uma única cadeia de ADN em
poucas horas. Atualmente existem no mercado máquinas que realizam o processo de
forma automática e muito rapidamente. A tal ponto que é possível sequenciar o
nosso genoma a partir do ADN existente numa pequena gota de sangue ou mesmo a
partir da nossa saliva.
- Acho que já tinha ouvido falar dessa PCR na fantástica série CSI… -
recorda Rosália entusiasmada.
- Sim. A sequenciação do genoma de cada um de nós já é uma realidade e
abre novas perspectivas para o desenvolvimento de tratamentos para doenças
antes julgadas incuráveis.
- Assim como descobrir o autor de um dado crime, descobrir os
extraterrestres que vivem escondidos entre nós e também fazer renascer animais
extintos como os dinossauros… - diz Francisco entusiasmado. – Como no Jurassic
Park.
- Em parte, Francisco. Identificar uma pessoa através do seu perfil
genético, sim. O resto que dizes ainda é um pouco do domínio da ficção
científica. Mas lá chegaremos – diz o avô sorrindo e afagando a cabeça de
Francisco. - Já agora uma curiosidade para acabar.
- Qual é?!
- Se fosse possível colocar o genoma Humano que existe em cada uma das
nossas células, em forma de uma “fita” estendida, o seu comprimento seria de aproximadamente
8.636 Km. Ou seja três quartos do diâmetro do equador terrestre.
- Tão comprido?! – pergunta com espanto Rosália. – Como é que cabe dentro
das nossas células?
- Boa pergunta. A dupla hélice de ADN está por sua vez enrolada
compactamente em supra estruturas que são os cromossomas. Possuímos 23 pares de
cromossomas. Cada par proveniente de cada um dos nossos pais. A forma como os
genes estão dispostos nos cromossomas dava para outra grande conversa. Mas
agora vamos ao bolo e celebrar os meus 60 anos e, já agora, da dupla hélice de
ADN sexagenária.
António Piedade
terça-feira, 30 de abril de 2013
UMA VISITA POLITICAMENTE INCORRECTA AO CÉREBRO HUMANO
Recensão publicada primeiramente na imprensa regional.
«Será a mente humana capaz de descobrir qualquer coisa que a transcenda» questiona o eminente neurocientista Alexandre Castro Caldas na introdução do seu mais recente livro “Uma visita POLITICAMENTE INCORRECTA ao cérebro humano”.
«Será a mente humana capaz de descobrir qualquer coisa que a transcenda» questiona o eminente neurocientista Alexandre Castro Caldas na introdução do seu mais recente livro “Uma visita POLITICAMENTE INCORRECTA ao cérebro humano”.
Publicado em Fevereiro de 2013 pela editora Guerra & Paz, este livro apresenta e desvenda as novidades do conhecimento que as
neurociências têm alcançado sobre esse órgão, o cérebro, que o leitor está a
usar para entender o que está a ler agora mesmo.
«Quem somos então, o que somos nós, o que é que o cérebro e
as suas funções?» pergunta-nos Alexandre Castro Caldas, para logo responder que
as “páginas deste livro não pretendem ser resposta, mas pretendem abrir portas
para a reflexão”.
No panorama actual da literatura de divulgação científica
portuguesa em geral, e das neurociências em particular, este livro destaca-se
pela sua actualidade científica, pela sua simplicidade rigorosa e pela sua
utilidade para o leitor que com ele se compreende melhor.
Os diversos casos clínicos que ajudam a entender melhor como
o nosso cérebro funciona, são apresentados despedidos de jargões técnicos, para
que qualquer um de nós os entenda e logo entenda melhor como o seu próprio
cérebro funciona. As notas e as referências bibliografias são dispensadas nesta
visita POLITICAMENTE INCORRECTA ao cérebro humano, o que torna fluida a leitura
deste livro.
A propósito do autor, diga-se que Alexandre Castro Caldas começou a sua vastíssima e
relevante carreira de investigação científica de excelência com António
Damásio, em 1970, e que ficou a dirigir o Laboratório de Estudos de Linguagem,
quando, em 1975, Damásio saiu de Portugal.
Mas voltemos ao livro. Está estruturado em dez capítulos que
o leitor pode ler pela ordem que entender, eventualmente movido pela sua maior
curiosidade, ou interesse por um dado aspecto do nosso cérebro.
No 1.º capítulo “reflecte-se sobre a forma como acreditamos
nas coisas”.
No 2.º discute-se como a consciência humana pode ter começado
“num sonho”.
“Conhece-te a ti mesmo” é o título do 3.º capítulo, no qual
de descreve “como o cérebro interage com o sensível”.
No 4.º, intitulado “quem fui eu, quem sou eu”, Castro Caldas
discute a questão da identidade.
“Quem és tu? Que casa é esta”, intitula o 5º capítulo que
apresenta casos em que o cérebro processa mal a informação sobre o que lhe está
próximo, como sejam as pessoas da sua família e os locais que lhe são
habituais.
O 6.º capítulo é dedicado a aspectos marcantes da
personalidade: “quando se faz aquilo que se não quer fazer” e sobre “o
livre-arbítrio”, levando-nos a reflectir sobre a questão da vontade própria.
Abordando aspectos anatómicos, mas funcionais, o 7.º capítulo
apresenta ao leitor a realidade da “Dominância Cerebral” e discute-se sobre
qual manda, se o hemisfério esquerdo se o direito e quando.
O género sexual e a sua influência sobre o cérebro, um “tema
que tanto estimula a imaginação”, é tratado no 8.º capítulo.
Numa época em que vivemos sob a influência de uma nova e
globalmente esmagadora tecnologia de informação, Castro Caldas descreve no 9.º
capítulo como “Manter o cérebro em forma” numa aproximação aos desafios
modernos da “interacção entre o natural e o artificial”.
Por fim, o 10.º capítulo, o qual, como os outros, pode ser
lido em primeiro lugar: “Experiências de quase-morte” é o seu título e nele se
desmistificam as fantasias, as ilusões geradas pelo cérebro sobre a memória de
experiências traumáticas na “fronteira abrupta” entre a vida e a morte.
A leitura deste livro é uma experiência rica em que o autor
nos ajuda a compreender melhor o mundo em que vivemos ao explicar à luz do
conhecimento actual como é que o cérebro compreende e funciona no mundo em que
vive.
António Piedade
quinta-feira, 25 de abril de 2013
60º ANIVERSÁRIO DA DUPLA HÉLICE DO ADN
Comemora-se hoje, 25 de Abril, o 60.º aniversário da publicação do artigo seminal de Watson e Crick na Nature sobre a estrutura em dupla hélice para o ADN.
A estrutura tinha sido desvendada a 7 de Março de 1953, a partir dos trabalhos experimentais de Rosalind Franklin de difracção de raios x sobre em sais cristalizados do ácido desoxiribonucleico (ADN).
Este acontecimento deu início a uma das maiores revoluções científicas dos tempos modernos, influenciando decisivamente a nossa compreensão mais íntima sobre a vida.
António Piedade
quarta-feira, 17 de abril de 2013
“COM NOVAS ÍRIS TE UNIVERSO”
Crónica publicada na revista Papel
A íris é uma estrutura circular e fina que existe nos olhos, e que lhes dá a cor que nos maravilha. É responsável pelo controlo do diâmetro e tamanho da pupila, no seu centro, e logo pela quantidade de luz que se adentra no olho e atinge a retina. O seu nome deriva da divindade grega para o arco-íris, exactamente devido às suas inúmeras cores. Estas cores resultam da refracção da luz solar por miríades de gotas de água (ou de um prisma, entre outros exemplos), separando-a nas suas componentes, na região do espectro visível.
Nota: O título é o primeiro verso de poema inédito de António Piedade
A íris é uma estrutura circular e fina que existe nos olhos, e que lhes dá a cor que nos maravilha. É responsável pelo controlo do diâmetro e tamanho da pupila, no seu centro, e logo pela quantidade de luz que se adentra no olho e atinge a retina. O seu nome deriva da divindade grega para o arco-íris, exactamente devido às suas inúmeras cores. Estas cores resultam da refracção da luz solar por miríades de gotas de água (ou de um prisma, entre outros exemplos), separando-a nas suas componentes, na região do espectro visível.
Esta gama de
frequências, ou comprimentos de onda, a que os nossos olhos são sensíveis, é um
pequeno intervalo no espectro de toda a radiação electromagnética de que temos
conhecimento existir no Universo.
Irradiada
por estrelas e, outros corpos e eventos cósmicos, de forma característica ao
longo do tempo, a radiação electromagnética inunda o espaço, pelo menos desde
380 mil anos após o “Big Bang” que originou o nosso Universo.
Como é que
sabemos disto? Entre outros dados, através da radiação cósmica de fundo captada
através de outras íris, estas radioteslescópicas, que fomos tecnologicamente construindo
e colocando em altas montanhas (onde o ar é mais rarefeito e seco, e longe da
poluição luminosa dos grandes centros urbanos), ou em telescópios espaciais colocados
em órbitas determinadas (onde não há ar, nem muitas poeiras).
Existem
várias “íris telescópicas” a olhar o céu por nós, humildes míopes cósmicos. As
ciências astronómicas e astrofísicas usufruem hoje de satélites que, com instrumentação precisa e apropriadamente muito
sensível, perscrutam zonas específicas de quase todo o espectro
electromagnético.
Recentemente, e como exemplo de actualidade, o telescópio Planck registou,
por todo o espaço em seu redor e durante 15 meses, o registo fóssil dos
primeiros fotões (partículas de luz) que surgiram no nosso Universo, depois de
uma viagem de mais de 13 mil milhões de anos até chegarem até nós. Esses fotões
chegam-nos em radiação electromagnética com a frequência das micro-ondas e
correspondem ao que se designa por radiação cósmica de fundo. Através dos dados
obtidos pelo telescópio satélite Planck conseguimos “ver” a primeira luz que
irradiou despois do “Big Bang”.
Outros
telescópios incorporados em satélites “veem” o Universo em outras frequências.
Alguns exemplos são: o Herschel no infra-vermelho longínquo; o JWST no infra-vermelho; o Telescópio Espacial Hubble no vísivel; o Gaia no infra-vermelho próximo, visível e ultravioleta; o XMM-Newton no raios-x; o Integral nos raios gama; entre tantos outros da ESA, da NASA e de outras agências espaciais.
Cada uma destas “íris telescópicas” têm missões científicas precisas e
têm contribuído decisivamente para a concepção que temos do Universo, desde as
galáxias mais distantes aos buracos negros no centro da nossa galáxia, desde as
espantosas nebulosas remanescentes de explosões de supernovas, aos pulsares das
estrelas de neutrões, autênticos faróis na noite cósmica.
Outras íris avançam em direcção às estrelas: as sondas Voyager e Pioneer que são os objectos
humanos actualmente mais longe da Terra (a Voyager 1 encontra-se na fronteira
mais distante conhecida do nosso Sistema Solar, a mais de 120 vezes a distância
da Terra ao Sol).
Há mais de 400 anos, mais precisamente no mês de março do ano de 1610, Galileu
Galilei deu início à observação instrumental do espaço através da sua luneta
composta por duas lentes que aumentavam em 30 vezes o tamanho aparente de um
objecto. Sentado no seu atelier cósmico em Veneza, os músculos de uma das suas
íris contraíram-se para aumentar a pupila e deixar entrar todo espanto que então
iluminou o novo conhecimento das crateras da nossa Lua, a descoberta de quatro
Luas a orbitarem Júpiter, entre tanto outro espaço. Tinha dado início a ciência
instrumental moderna, o que comunicou ao mundo através do livro Sidereus Nuncius ou “O Mensageiro das
Estrelas” (publicado entre nós pela Fundação Calouste Gulbenkian).
Ao longo dos últimos quatro séculos fizemos uma viagem cósmica de mais de 13
mil milhões de anos, descodificando os sinais transportados em ondas
electromagnéticas por fotões, quais peregrinos cósmicos, finalmente captados
pelas “íris tecnológicas” que construímos. Uma das maiores é o recentemente
inaugurado radioteslescópico ALMA, do
Observatório Eusopeu do Sul, instalado no planalto desértico de Atacama, em
Chile.
Abrem-se assim novas
pupilas em “íris tecnológicas” que, apesar de não impressionarem a retina dos nossos
olhos, espantam os nossos caminhos neuronais. Com o cérebro na posse do conhecimento e da
tecnologia actuais, expande-se o nosso conhecimento do passado, e espreitamos o
horizonte futuro de um novo cosmos invisível à nudez dos nossos
olhos.
Hoje, podemos pintar o céu com um arco-íris que começa na radiação gama e
acaba nas ondas dos nossos rádios!
António Piedade
Nota: O título é o primeiro verso de poema inédito de António Piedade
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