quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Um artigo com interesse na polémica da educação para a cidadania

Paulo Guinote assina o artigo com o título "Cidadania e Desenvolvimento: uma polémica hipócrita" saído no jornal Público do passado dia 5 de Setembro.

Tendo em conta o que disse em textos anteriores (aqui e aqui), subscrevo a importância que este professor atribui a uma educação escolar que tenha presente, de modo constante e transversal, a formação cidadã.

Subscrevo, também, a sua resistência a comentar em público a polémica relativa à disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, que parece ter fracturado o país em dois blocos: os prós e os contra.
Tenho evitado escrever sobre a polémica em torno da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento porque acho que, em termos técnicos e “científicos”, a polémica se tem caracterizado pelo que se pode classificar como “parvoíce” com uma fortíssima base ideológica.  
Subscrevo, igualmente, a sua posição de partida: educativa, ou seja, não doutrinária:
• Sou favorável à abordagem na escola (...) de alguns dos temas mais polémicos que despertam a fúria a alguns encarregados de educação e a alguns jarretas políticos.
• Acho que esses temas não devem ser leccionados de forma doutrinária (...) não me choca que se abordem na escola pública temas como a tolerância, a diversidade religiosa ou mesmo a identidade de género (...) discordando das teses da “lavagem ao cérebro”.
Sendo grande a confusão criada por pessoas que alinham por este ou aquele sector social, sem nunca terem estudado objectivamente o assunto, vale a pena ler este artigo que se distancia das posições desses sectores. 

14 comentários:

  1. Li os vários textos que a Sra. (Dra.?) Helena Damião aqui publicou e fiquei sem saber se a Sra. (Dra.?) é contra ou a favor da referida disciplina de "Cidadania". Não é que isso me interesse ou seja importante, mas tenho para mim que a transparência - e, já agora, a clareza da escrita - nunca fez mal a ninguém.

    Muito obrigado

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    1. Prezado Leitor Mário Pinto
      Se não percebeu a minha posição é, por certo, falta de clareza da minha parte. Vou tentar explicar-me melhor:
      1. Não dou razão nem aos que têm vindo a público manifestar-se contra a educação para a cidadania, nem aos que têm vindo a público manifestar-se a favor dela;
      2. Tanto uns como outros tendem a assentar as suas posições (não significa que todos os façam) em pertenças suspeitas, como sejam as político-partidárias e religiosas;
      3. Os argumentos usados por ambas as partes denotam um desconhecimento profundo daquilo que é a educação para a cidadania e do que ela deve ser;
      4. Entendo que aquilo que a educação para a cidadania é neste momento (e desde há muito) afasta-se do que a educação para a cidadania deve ser. Aquilo que ela é confunde-se facilmente com doutrinamento de diversa natureza (empresarial, financeiro, etc) assumido por grupos cujos interesses são distintos dos educativos; aquilo que ela deve ser é uma educação ética, que tenha em linha conta a dignidade humana e permita o exercício do livre arbítrio.
      5. Para que a educação para a cidadania seja o que deve ser há que enveredar por outro tipo de discussão pública, focalizada nos fins que a escola pública deve perseguir.
      Cordiais cumprimentos,
      MHDamião

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  2. Prezada Sra. Helena Damião

    Agradeço a sua resposta que - peço que me desculpe - segue a matriz das suas publicações, ou seja:

    1 - A Sra. discorda das razões dos dois "lados da barricada" sem apresentar uma única razão justificativa.

    2 - A Sra. discorda da educação para a cidadania porque, e passo a citar "(...) confunde-se facilmente com doutrinamento de diversa natureza (empresarial, financeiro, etc) assumido por grupos cujos interesses são distintos dos educativos; aquilo que ela deve ser é uma educação ética, que tenha em linha conta a dignidade humana e permita o exercício do livre arbítrio. (...)".

    Há-de concordar que são inúmeras razões e - caso me permita - deixo-lhe a sugestão para um seu texto com a sua visão/opinião do problema e nos diga de que forma o ensino, qualquer que seja a disciplina, pode ser ministrado sem os condicionalismos que a Sra. acima apresenta.

    Muito obrigado.

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    1. O Mário Pinto é a favor ou contra?

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    2. Sou a favor, meu caro Senhor.
      E assumo-o sem me esconder em retóricas estéreis.
      Já a si não pergunto qual é a sua opinião porque, simplesmente, não me interessa saber.

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  3. Consternado com esta polémica dilacerante, em torno da disciplina Cidadania e Desenvolvimento, que está a corroer a união fraterna que em tempos bem recentes era timbre da nação portuguesa, venho, na minha qualidade de homem de ciência, dar uma achega diferente e original a um debate educativo que considero ter sido capturado por homens, como Paulo Guinote, e mulheres, como Helena Damião, de letras, cheios de boas intenções, sem dúvida, mas formados numa tradição académica em que a Nova Ciência, a que foi fundada por Galileu, tem tanto valor como “o saber saber”, “o saber fazer”, “o saber ser” e o “saber estar” congeminados por meia dúzia de doutoras educacionais cujas “chuvas de ideias” têm feito a cabeça em água a milhares de educadores de infância e professores primários e do liceu, no último par de décadas, em Portugal.
    Contra os factos não há argumentos:
    O que se passa é que a Moral e Religião, de Salazar e Caetano, e da Igreja Católica, já não está em vigor nas escolas oficiais atuais (EB1+JI, EB2+3+S, EB1,2,3 + JI, EB1,2,3 + S+JI, etc). Então, para dourar a pílula, nesta escola moderna, onde o ensino é proibido para que todas as aprendizagens possam acontecer livremente, as luminárias do eduquês não se cansam propor sucedâneos mal-amanhados, como são a Área Escola, a Área de Projeto, ou a Cidadania e Desenvolvimento, de uma moral que já não mora na escola, nem fora dela, mas que também não conseguem vingar nestes tempos de telemóveis e pandemia. Assim, sem moralidade, na escola está instalado o vale tudo – ou há moralidade ou comem todos!
    De boas intenções, do tipo da Cidadania e Desenvolvimento, está o inferno cheio!

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    1. O meu palpite em que iria aparecer uma "Terceira Via" concretizou-se.
      Perante o que tenho lido eu - que possuo apenas o 12º ano da área de Mecanotecnia - permito-me vaticinar o fim desta "polémica" (apenas) no dia em que as aulas sejam ministradas por robots e desde que estes não pensem muito... Nesse dia sim: Os pais das crianças terão (?) a certeza de que os seus filhos não serão "doutrinados" pelo "marxismo cultural" (!!!) mas, isso sim, terão a mente aberta (apenas) para os conceitos que os seus papás acharem convenientes, tudo no respeito pela moral e pelos bons costumes. Ia escrever "A Bem da Nação" mas não o farei. Prefiro antes o "Deus; Pátria e Família". Afinal de contas, há que respeitar as tradições.

      Foi um prazer.

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    2. Pena que Deus sofra de profundo indeterminismo, um Ser que se visita em aeroportos turísticos e céus inatingíveis roboticamente ritualizados ou faz com que apodreçamos em não-lugares, incaracterísticos e sem porquê, na crença do que poderá ser e na espera do que nunca será; pena que a Pátria tenha perdido as suas fronteiras físicas, culturais e mentais e que as famílias sejam monoparentais ou disfuncionais, delegando nas instituições escolares a sua incapacidade educacional; pena que a democracia assuma valores amorais onde tudo é válido e nenhuma supervisão funcione; pena que a política tenha ajoelhado ao económico, ao relativismo legislativo, ao interesse de determinados partidos serem ciclicamente votados claudicando às exigências populares do vinho carrascão sem filosofia e arquitetura na pipa; pena esta capacidade niilista de rir debruçando o incompreensível e o inaceitável à idiotia aparvalhada de só estar, ainda que com tabuletas holográficas de revoltas impotentes.
      A Bem da Nação e ausência de prazer.
      Recolho-me à meditação, ao verde que resta e ao vegetal tentando não ouvir a gralha que vomita o plástico e a máscara.

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    3. Ex.mo Senhor Mário Pinto,

      A sociedade deste primeiro quartel do século XXI está doente, não apenas por causa da pandemia da covid-19, mas também porque a Terra azul, da cor do céu, estando a ficar cheia de lixo e a aquecer demasiado nas últimas décadas, vem perdendo, a olhos vistos, as qualidades que poderiam fazer dela o lar ideal para uma Humanidade que se comportasse como tal.
      Sem uma moral, à maneira romana, ou uma ética, de inspiração grega, a vida em sociedade, em Portugal, e no mundo, acabará numa selvajaria ainda maior do que já é nos nossos dias. Veja V. Ex.a o que já se passa na vida das escolas, sujeitas a uma moral de pacotilha, elaborada pelos especialistas do eduquês, onde se defende que os valores mais altos de que os alunos se devem apropriar no processo do ensino/ aprendizagem, são “o saber saber”, “o saber fazer”, “o saber estar” e “o saber ser”! É fácil dizer que os valores da verdade, da justiça, da obediência, da honestidade, da bondade e da gratidão, com significados que todos entendem e deveriam praticar, não são aplicáveis nas escolas EB1,2,3 +S+JI, porque são fascistas!
      Assim, estamos todos a caminhar para um beco sem saída

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    4. Caro Sr. Anónimo

      É apenas para o informar que não "discuto" com pessoas que não têm coragem para se apresentar identificado. Para isso tem o FB.
      Surpreende-me que o seu comentário seja aceite, quando no ponto 1 das condições surge a exigência de "Identifique-se com o seu verdadeiro nome".

      Fim de conversa.

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  4. Prezado Leitor Mário Pinto
    Convido-o a visitar o sítio "online" da componente curricular de "Educação para a Cidadania", agora designada por "Cidadania e Desenvolvimento" e a explorar os documentos enquadradores, que são vários;
    E que, de seguida, abra os documentos relativos às 17 áreas de cidadania, mas não apenas os links de primeiro acesso, também os links de segundo acesso, de terceiro acesso, etc.
    Perceberá, por certo, diversos pontos críticos. Por exemplo
    - a variação de abordagens: a Educação para os Direitos Humanos (de que nem sequer se tem falado na polémica em curso, apesar de ser o centro de uma educação para a cidadania de base ética, ou seja de uma real educação para a cidadania) nada tem a ver com a "Literacia financeira e educação para o consumo" ou com a de "Empreendedorismo". Verá que não há uma educação para a cidadania, mas dezassete, não tendo umas nada a ver com outras;
    - Encontrará entidades da mais diversa natureza que, não estando ligadas à educação, mas a outros sectores da sociedade, assinam e co-assinam documentos curriculares (referenciais, manuais, actividades...). Entre essas entidades prevalecem as de carácter económico financeiro (bancos, companhias de seguros, empresas de produtos e serviços...).
    Poderia continuar com exemplos, mas a caixa de comentários em blogues não se destina a grandes alongamentos dos temas tratados nos textos.
    Reitero, pois, o convite para o Leitor dedicar umas quantas horas à matéria em causa, sem posições à partida, mas com a ideia de que a educação deve sempre visar o Bem (dos alunos, da sociedade, do mundo e da humanidade), nunca entrando em lógicas doutrinais, pautando-se, necessariamente pela ética (que não sendo linear, é o campo que mais segurança nos dá para pensar a co-existência, ou seja a vida num mundo que é de todos, ou seja, a cidadania).
    Cordiais cumprimentos,
    MHDamião

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    1. Prezada Sra. Helena Damião

      Agradeço, antes demais, a sua resposta para depois referir o seguinte:
      Dado que não sou um entendido nas questões em apreço e acredito nas informações que aqui nos deixa, permita que eu retorne ao caso que despoletou esta polémica. Um Sr. de Famalicão proibiu os filhos de frequentar as aulas de Cidadania e Desenvolvimento e – é minha convicção – não o fez por receio da "Literacia financeira e educação para o consumo" ou com a de "Empreendedorismo", ou qualquer outra razão. Continua a ser minha convicção que o motivo terá mais que ver com a “educação sexual” inserida na referida disciplina, dado que o nosso espectro político de direita tem horror a que se fale de sexo às crianças, vá lá saber-se por quê. Talvez porque preferem que dizer às criancinhas que vieram de Paris, no bico de uma vistosa cegonha…

      Se a “moda” pega, quem nos garante que não surgirão outros “cautelosos” pais a impor a sua “objecção (!) de consciência” perante o ensino de Filosofia, História ou até de Literatura? Sim, porque estas matérias poderão vir a conter temas que ofendam a moral e os bons costumes de tais progenitores. Não refiro a Física nem a Matemática porque isso – proibir o seu ensino - seria como que passar um atestado de menoridade aos seus rebentos…

      Aceite os meus respeitosos cumprimentos

      Mário Pinto

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    2. Por exemplo, as professoras de 1.º ciclo não são professoras de Educação Sexual.
      São professoras de Português, Matemática, Estudo do Meio, Educação Física, Artes Visuais, Teatro, Música, Dança, Apoio ao Estudo, Oferta Complementar, Cidadania e Desenvolvimento (disciplina pau-para-toda-a-colher). Educação Sexual não me lembro (só um bocadinho no Estudo do Meio, vá lá)... Mas, também, já sou velhinha.

      De qualquer forma, que ninguém duvide que somos capazes de falar sobre pénis e vaginas e gravidezes e outros eventos, a criancinhas dos 5/6 aos 10 anos, tema indispensável nestas idades porque quanto mais cedo melhor e porque de pequenino é que se torce o pepino. Convinha os cartazes serem mais esclarecedores, mais definidos e muito maiores porque aqueles desenhos que vêm nos livrinhos parecem de cegonha esclerosada e o meu pessoal está no período do concreto.

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  5. "Uma questão de educação", hoje, dia 13 de setembro de 2020, no Público.
    https://www.publico.pt/2020/09/13/opiniao/opiniao/questao-educacao-1931298

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