quinta-feira, 24 de setembro de 2020

A VIDA POLÍTICA PORTUGUESA

“A memória é a consciência inserida no tempo” 
(Fernando Pessoa). 

Perante a apatia nacional, mais ou menos generalizada, sobre o que se passa na vida política portuguesa, admito uma quota-parte nesta apatia, embora não pertença à legião dos que se demitem definitivamente, sem fé nem esperança, das suas responsabilidade de portuguesismo, palavra em desuso actualmente! 

Tento saldar esta minha dívida de cidadão, protestando com a minha prosa, embora sabendo ser uma voz a reclamar no deserto da indiferença dos ricos e poderosos. Desta forma desejo apenas cumprir o desígnio de não ser conivente, em citação de A. Einstein, “de um mundo lugar perigoso para se viver não por causa dos que fazem o mal, mas por causa daqueles que o observam e deixam o mal acontecer”.   

Num país pobre dito socialista, em que “a maior desgraça de uma nação pobre é produzir ricos em vez de produzir riqueza” (Mia Couto), uma pequena legião de nacionais dorme na rua e, um grande número de nacionais passa fome enquanto políticos da Assembleia da República, por dez reis de mel coado, se empanturram no respectivo restaurante.

Ademais, vá lá gente entender os nossos caritativos governantes de olhos fechados ao que se passa à sua volta sonhando em serem santificados como Santa Teresa de Calcutá dando abrigo farto a refugiados de países do continente africano que, por vezes, causam desacatos em território das cinco quinas, sem estarem fugidos de zonas do continente africano em estado de guerra. Em resumo, a caridade portuguesa devia passar por dar, prioritariamente, assistência condigna aos seus muitos sem-teto que dormem ao relento acompanhados dos seus cães de estimação, verdadeiros e fiéis amigos, repartindo as suas migalhas com eles ou mesmo deixando de as comer se necessário para lhas dar. 

Quando se forma um partido político, sem ser para dar emprego a juventudes inúteis que se entretêm em festanças de multidões em disseminar o coronavírus, deve ele atender à miséria mais desgraçada, a melhorar a vida dos remediados, a não enriquecer ainda mais os milionários deste país com fortunas multimilionárias nascidas à vista de olhos cegos, ou simplesmente míopes, quais tortulhos germinados em terrenos húmidos de desavergonha nacional. 

Como tal, caem em descrédito partidos políticos criados para dar trabalho bem remunerado a quem na vida pouco ou nada sabe fazer a não ser vender a alma ao diabo a troco de benesses espúrias. Mas mesmo que eu fosse um dos numerosos mentirosos que juram a pés juntos não estarem ao serviço da política para dela se servirem , a minha condição de velho de 89 anos preocupado com a sua honra pessoal não me permitiria tal condição atribuindo-me apenas a possibilidade de emitir opiniões cíticas de cidadania ao serviço da "polis".

Ora, dessa posição não abdico por viver num país em que ainda é permitido o direito à liberdade de expressão, ainda que, por vezes, condicionada pelos poderosos que têm a faca e o queijo dos media nas mãos, apenas contrariados pelas novas tecnologias que democratizaram esse direito, tendo eu a obrigação de honrar a memória de meu avô materno, José Pereira da Silva, presidente da Câmara Municipal do Porto (1927) e de meu falecido sogro, Jerónimo Carlos da Silveira, tenente coronel médico, com o reconhecimento público de valorosos serviços prestados à Pátria (outra palavra caída em desuso) com a comenda da Ordem Militar de Aviz e a insígnia de Cavaleiro da Ordem dos Templários. Eu apenas desejo continuar a ser recordado, como até aqui, como um homem honrado na modéstia da minha vida por meus alunos de uma docência de 18 anos na saudosa Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque de Lourenço Marques e outros tantos por outros locais dos ensinos secundário, médio e universitário públicos em que lecionei.

São estas teias que, para além de fontes documentais, que a memória teceu em mim e nelas me enreda,  enquanto a memória me permitir, desejando-as eu perpetuadas em gerações presentes e futuras consanguíneas dignas de seus avoengos.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O POPÓ DA PRESIDÊNCIA DA CÂMARA MUNICIPAL DE COIMBRA

"Pecar pelo silêncio, quando se deve protestar, transforma os homens em covardes”
(Abraham Licoln).


Poucos dias atrás, através da Net, tomei conhecimento, confirmado pelo “Polígrafo”, que pela edilidade de Coimbra tinha sido adquirido, por 83 mil euros, um automóvel topo de gama da marca “Audi”. 

Curiosamente, esta notícia nenhuma atenção (por ser corriqueira?) mereceu por parte do "Diário a Beiras", de Coimbra, tendo sido noticiada com o destaque devido, apenas, num “post” do jornalista Mário Martins, acompanhado por uma fotografia, como é uso dizer-se, uma imagem vale por mil palavras, em que surge o bólide, pago com impostos municipais de todos nós, estacionado imponente à frente do magnifico Edifício da Câmara, à vista de “gente, ignorada e pisada, como pedra do chão, e, mais do que pedra humilhada e calcada" (Sophia de Mello Breyner) que, de lancheira debaixo do braço, a pé ou de bicicleta, vai para ou regressa do trabalho para ganhar o pão de cada dia com o suor do rosto. 

Eu que me sinto desiludido do presente, em que ao abrir-se diariamente as páginas dos jornais, ou ouvindo e vendo os noticiários televisivos, nos deparamos com escândalos de pequena ou elevada corrupção, sem esperança no futuro, em que encontro, apenas, lenitivo no passado de gerações honradas de governantes e edis do início do século passado.

De entre eles, meu avô materno, José Pereira da Silva, antigo presidente da Câmara Municipal do Porto, homem pobro, íntegro e fiel ao seu ideário republicano, tendo sido deportado político para Angola por ter participado na falhada “Revolução do Porto de Fevereiro de 1927”. Extraído da obra (volumes I e II) “Presidentes da Câmara Municipal do Porto”, da autoria de Fernando de Sousa, professor catedrático, da Universidade do Porto, traço um brevíssimo esboço biográfico, deste meu ancestral, que reproduzo abaixo:
“José Pereira da Silva, Presidente do Senado da Câmara Municipal, no primeiro trimestre de 1925, durante a ausência de António José de Sousa Júnior [Ministro da Instrução Pública da I República], demitiu-se a seu pedido, desse cargo tendo-lhe sido tecidos, em sessão camarária de despedida, os mais elevados elogios, sendo-lhe sido reconhecido «inteligência lúcida, dedicado e sempre pronto e firme na defesa dos direitos municipais, salientando que tinha desempenhado aquele cargo com tanta justiça, com tanta competência e imparcialidade que é lamentável que ele o abandone, sendo mesmo lavrado em acta um voto de agradecimento." 
É este exemplo de verticalidade que meu avô me deixou em herança. de que muito me orgulho, para além de muitos e outros motivos, por me permitir escrever este texto sobre dois homens, ambos antigos presidentes de edis municipais, em século diferentes: um das margens do Mondego, Manuel Machado, outro do serpenteante Douro, José Pereira da Silva.

Para não me tornar juiz em causa própria, o leitor que tire a ilações devidas deste meu texto com esperança em D. Quixote que dirigindo-se a Sancho lhe diz: “Mudar o mundo, não é loucura, não é utopia, é justiça”!

Entretanto, vamos sobrevivendo em mundo de loucura e utopia em vã esperança de uma justiça que tarda em chegar! Ou nunca chegará, ainda que mesmo num dia de nevoeiro! 

P.S: Por o ter como mais sugestivo, alterei o título deste meu post. Onde escrevi popó, tinha escrito "Audi"!

domingo, 20 de setembro de 2020

SERENATA COM A LUA POR PERTO

 


Deixo aqui o guião da minha intervenção ontem no Concerto "Serenata com a Lua por perto", tocada pela Orquestra Clássica do Centro em Condeixa no ãmbito do festival das Artes de Conímbriga - MUSAS:

SERENATA COM A LUA POR PERTO

Orquestra Clássica do Centro no Festival de Conímbriga, 19/9/2020


1.ª Intervenção

É um prazer estar em Condeixa, no último concerto do primeiro Festival das Artes de Conímbriga - MUSAS. Parabéns à Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova pela iniciativa, assim como a todos mos seus parceiros. Hoje, aqui neste magnífico sítio do museu POROS, quando a Lua está no início de quarto crescente, vai haver um concerto muito especial, com a Lua por perto. Ela está a 384.000 km, pouco mais do que um segundo-luz, que é a distância que o luar demora até chegar até nós. A Lua e os astros em geral sempre inspiraram os grandes criadores musicais.  Os antigos falavam da “música das esferas,” isto é, os astros, com os seus movimentos, formavam uma melodia. E a busca da ordem dentro do mistério – da luz dentro da escuridão – sempre foi um tema da arte e também da ciência. As duas, sendo diferentes, estão juntas na procura de iluminação.

 Muitos dos temas que vamos escutar hoje têm a ver com o amor, que é um fenómeno físico-químico no nosso cérebro e no nosso corpo, e que é também algo que as artes tentam descrever. A ciência do amor é difícil de fazer e de transmitir. Mas uma música que descreve um sentimento de amor é algo que entra em nós facilmente porque o nosso cérebro é extraordinariamente sensível à música.

A Serenata de hoje é grande música, na maior parte excertos de óperas, um género musical que tem uma particular relação com a ciência. A ópera nasceu em Florença no século XVI, na mesma altura em que a ciência moderna estava a nascer. Mas, mais do que isso, um dos primeiros adeptos da ópera foi Vincenzo Galilei, alaudista na corte dos Medici, que foi pai de Galileu Galilei, o primeiro a observar a Lua com um telescópio mostrando montes e vales que ninguém tinha visto antes. A Lua é, afinal, montanhosa como a Terra. Mas, à medida que a ópera se foi desenvolvendo, houve curiosas intersecções com a ciência. Num livro recente, Poções e Paixões - Química e Ópera, o meu colega João Paulo André fala do papel da química num sem número de óperas. O amor é um tema recorrente em óperas e, para favorecer ou fenecer a química do amor, existem várias poções, desde a que aparece no Elixir do Amor, de Donizetti, que é uma bebida preparada por um impostor simpático, até ao veneno de Romeu e Julieta, de Gounod.

Perante vós está a Orquestra Clássica do Centro, a qual, sob a notável batuta de Emília Cabral Martins, tem protagonizado a grande música em Coimbra. O seu maestro hoje é José Eduardo Gomes. Natural de Vila Nova de Famalicão, onde iniciou a sua formação musical, prosseguiu os seus estudos no Norte do país. Estudou direcção de orquestra na Haute École de Musique de Genève (Suíça). Como clarinetista, foi fundador de grupos de câmara e laureado em vários concursos. É maestro da Orquestra Clássica da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e professor na Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo do Porto, onde tem trabalhado com várias outras orquestras. Já foi maestro da Orquestra Clássica do Centro, da Orquestra Clássica do Sul, do coro do Círculo Portuense de Ópera e da Orchestre de Chambre de Carouge, na Suíça. Foi recentemente laureado com o 1º prémio e o prémio Beethoven no concurso de direção de orquestra da União Europeia

A soprano Lara Martins é natural de Coimbra, mas tem fortes ligações a Tomar (Condeixa está entre uma e outra terra!). Tinha seis anos quando o pai, um grande amante de música, lhe contou a história de La Traviata através das imagens que estavam impressas na capa do disco de vinil. A ópera fazia parte do quotidiano da família mas só mais tarde, quando já estava no Conservatório, é que ela decidiu ser cantora. Como bolseira da Fundação Gulbenkian, formou-se na Guildhall School of Music and Drama em Londres, onde terminou o curso superior de canto, com a nota mais alta (Lara Martins é capaz das notas mais altas…) Muito ecléctica, brilhou em Londres no musical dos musicais, O Fantasma da Ópera.

O tenor Paulo Ferreira, natural de Santa Maria da Feira, é o tenor português com maior notoriedade internacional. Foi bolseiro da Fundação Gulbenkian, estudou piano, violoncelo e canto na academia de música da sua terra e concluiu o curso de canto da ESMAE, no Porto. Aperfeiçoou-se em Itália, tendo estudado com grandes nomes. Em 2011 estreou-se na grande sala de concertos da Philharmonie de Colónia, ao lado de Anna Netrebko. Paulo Ferreira tem-se apresentado por toda a Europa, em palcos como os de Bilbau, Cardiff, Nápoles, Hanôver, Bayreuth e Basileia, como protagonista masculino em grandes óperas. Estreou-se há dois anos na Filarmónica de Berlim como tenor solista do Requiem de Verdi.

Passo a apresentar e comentar as quatro primeiras composições desta Serenata.

1-Abertura do Barbeiro de Sevilha, de Gioachino Rossini. Instrumental.

A abertura é de uma ópera bufa do italiano Gioachino Rossini (1792 - 1838), que foi um fracasso na sua estreia em 1816 em Roma, mas que depois conheceu um retumbante êxito. O argumento do escritor francês Beaumarchais começa com uma serenata do conde Almaviva a Rosina, uma jovem tutorada por um médico, o Dr. Bartolo, que também a quer. Há uma curiosa ligação do 2.º acto à meteorologia, que hoje não nos favorece, quando a orquestra faz a descrição musical de uma tempestade, com trovoada. O interesse pela electricidade era enorme na época romântica…

2- “Ah tardai troppo”, de Linda di Chamounix, de Daetano Donizetti. Soprano.

Linda di Chamounix é um melodrama operático de Daetano Donizetti (1797 - 1848), o famoso compositor contemporâneo de Rossini que nasceu em Bérgamo, no norte de Itália, que foi há meses o centro da COVID-19, e morreu na mesma cidade, de neurosífilis, após ter escrito 75 óperas.  A sua última ópera tem a ver com Portugal: D. Sebastião.  A ópera Linda di Chamounix estreou em 1842 em Viena. “Ah tardai troppo”, “Ó cheguei tarde”, é um recitativo do 1.º acto, que conta o enamoramento de Linda por Carlo, um artista pobre:  "Cheguei tarde ao nosso/ local preferido e não encontrei/ o meu querido Carlo./ Ninguém sabe/ o que ele terá sofrido.” No 2.º acto, Linda ficará demente devido aos seus problemas amorosos. As cenas de loucura eram muito do gosto do público do século XIX, quando a psiquiatria ainda era incipiente.

3- Prelúdio do 1.º acto de La Traviata, de Giuseppe Verdi. Instrumental.

Esta ópera do genial Giuseppe Verdi (1813 - 1901), em três actos, estreada em 1853 em Veneza, baseia-se no romance Dama das Camélias, de Alexandre Dumas. La Traviata, a mulher caída, é Violeta, que se apaixona sem revelar que está gravemente enferma. No final, Violeta morre, vítima de tuberculose, nos braços do seu amado, Alfredo. É uma doença que dizimou muita gente no século XIX, incluindo numerosos artistas (entre nós Júlio Dinis, António Nobre, Cesário Verde, etc.). Mas isso é só no fim da ópera, vamos ouvir o prelúdio. Só uma nota sobre a morte do próprio Verdi, de derrame cerebral: as suas exéquias foram impressionantes, com mais de 200.000 pessoas a cantar “Va Pensiero”, uma área de Nabucco, tocada por uma grande orquestra dirigida por Toscanini.

4- “Lunge da Lei” de La Traviata, de Giuseppe Verdi. Tenor.

A área seguinte é também de La Traviata. Alfredo, no 2.º acto, repleto de felicidade por estar junto da sua amada, ilustra bem o seu enamoramento na ária «Lunge da Lei», “Longe dela”, onde confessa que esqueceu o mundo e quase mora no céu. A letra diz: “Três luas já voaram/ desde que a minha Violeta/ me deixou… Aqui ao lado dela sinto-me renascido”. Na química amorosa, para além das hormonas sexuais existem as substâncias do amor romântico, que desempenham um papel essencial no processo da paixão. Uma molécula importante é a serotonina, que está associada à primeira fase do amor romântico, em particular à tendência para fantasiar revelada nesta ária.

-------------------------------------------------------------------------------------------------

2.ª Intervenção

Passo a comentar as quatro composições que vamos ouvir em seguida:

5- Intermezzo de Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni. Instrumental.

Cavalleria Rusticana (em português “Cavalheirismo, ou nobreza, rústica”) é uma ópera num só acto do italiano Pietro Mascagni (1863 - 1945), com libreto extraído de uma novela de Giovanni Verga, que foi estreada em 1890 em Roma. Mascagni, um adepto de Mussolini, morreu pobre logo após a libertação da Itália, há 75 anos. Apesar de estar pouca gente nessa estreia tornou-se um sucesso imediato. Dividida em duas partes, separadas pelo intermezzo que vamos escutar, a Cavalleria Rusticana é uma das primeiras composições do realismo operático italiano. Trata-se de uma história de amor, ciúme e morte que termina num duelo. Esta composição tem sido usada como banda sonora de séries e filmes. Uma nota curiosa: O êxito de Mascagni deve-se à sua esposa, que enviou a ópera sem ele saber para um concurso musical, no qual obteve o primeiro lugar. Arrás de um grande homem…

6- “O Mio Babbino Caro” de Gianni Schichi, de Giacomo Puccini. Soprano.

Regressa a nossa soprano para cantar a ária “O Mio Babbino Caro”, “Ó meu paizinho querido”, imortalizada pela voz de Maria Callas, que pertence a uma ópera cómica num só acto do italiano Giacomo Puccini (1858 – 1924) – Puccini não podia faltar neste espectáculo! – baseada numa história relatada na Divina Comédia de Dante e estreada em 1918, por altura da gripe espanhola, em Nova Iorque. Esta obra imortal de Dante apresenta o modelo cosmológico de Ptolomeu, no qual se situam o Paraíso e o Inferno, o Paraíso no alto do céu e o Inferno no interior da Terra. Schichi, um inimigo de Dante, é colocado por este no Inferno. Na área que vamos ouvir Lauretta, que está loucamente apaixonada por Rinuccio, tenta amolecer o coração do pai, que resiste a aprovar o namoro: ''Oh meu paizinho querido./ Eu amo-o, ele é tão belo./ Quero ir à Porta Rossa/ para comprar o  anel!” Puccini tem uma interessante relação com a física: sofrendo de um cancro da garganta foi das primeiras pessoas a ser sujeita a radioterapia. Infelizmente, não resistiu à doença.

7-  “E Lucevan le stelle” de Tosca, de Giacomo Puccini, Tenor.

De novo o grande Puccini, num ária cantada pelo nosso tenor. A Tosca, uma ópera trágica em três actos estreou em Roma em 1900, ano em que surgiu a teoria quântica, que hoje nos explica os átomos e as estrelas. O título usa o nome de uma prima dona que é a personagem principal numa história de amor. Na época da estreia, a atmosfera política na Itália era tensa, com muita agitação socialista e anarquista. A rainha e o primeiro-ministro assistiriam à estreia, e temia-se que o teatro fosse alvo de um ataque terrorista, mas tal não ocorreu. Porém, seis meses mais tarde, o rei italiano era assassinado por um militante anarquista. Tudo isto se passou oito anos antes do regicídio em Lisboa de D. Carlos. Esta ária do 3.º acto ilustra bem o enamoramento sob o céu estrelado. Mário, o amado de Tosca, canta: “E luziam as estrelas/ E o solo exarava um aroma./ Rangeu a porta do jardim./ E um passo leve sobre a areia./ Ela entrou com o seu perfume,/ E caiu-me nos braços./ Ó doces beijos, o suaves carícias/ Enquanto eu, trémulo,/ as belas formas livrava dos véus,/ esvaneceu-se para sempre/ o meu sonho.”

8- “O Soave Fanciulla” de La Bohème, de Giacomo Puccini. Dueto.

Ainda Puccini, três vezes Puccini portanto, agora com a soprano e o tenor em palco. "O soave fanciulla" (“Oh doce menina”) é um dueto romântico da famosa ópera estreada em 1896, ano da descoberta da radioactividade. É cantada a fechar o 1.º acto por Rodolfo e Mimì. Os dos apaixonam-se mal se vêem pela primeira vez, o que hoje os neurocientistas explicam através de uma substância química, a β‑feniletilamina, que actua como como neurotransmissor cerebral. A letra diz: “Ó doce menina,/ ó doce rosto/ banhado no suave luar,/ em ti eu vejo/ o sonho com que sempre sonhei!”. 

-------------------------------------------------------------------------------------------------


3.ª Intervenção

Passo a comentar as três penúltimas peças desta Serenata.

9- Abertura de Cavalaria Ligeira, de Franz von Suppé. Instrumental.

Vamos escutar uma peça instrumental: a abertura muito conhecida da opereta Cavalaria Ligeira, do croata Franz von Suppé (1819 - 1895), que estreou em Viena em 1866. Embora esta opereta só raramente seja executada ou gravada, a sua abertura é uma das composições mais populares do compositor, tendo ganho vida própria. Muitas orquestras têm a peça no seu reportório e o seu tema principal foi citado inúmeras vezes no cinema, incluindo desenhos animados. É um tema de sabor militar, com o solo de trompete, a jeito de fanfarra, a chamar os outros instrumentos.

10- “Meine Lippen sie küssen so heiß,” de Giuditta, de Franz Lehár. Soprano.

Vamos agora ouvir uma ária para soprano de uma comédia musical em cinco cenas do compositor austro-húngaro) Franz Lehar (1870 - 1948), que foi o  seu último trabalho. Surge quase no final, no 3.º acto: “Os meus lábios beijam ardentemente” canta Giuditta, a heroína da peça com o mesmo título estreada em 1934. Giuditta abandona o seu marido e foge com Octavio, um oficial do exército, para o Norte da África. Devido à sua profissão, Octavio deixa a sua amada, que se torna uma dançarina de um clube nocturno. Vem a descobri-la após ter deixado a sua unidade. Giuditta alcança sucesso na sua nova profissão, mas a auto-estima de Octavio fica arrasada. Ela canta: “Os meus lábios beijam tão ardentemente./ Os meus braços são tão macios e brancos./ Nas estrelas está escrito:/ Deves-me beijar, deves-me amar!” Isto claro não é astronomia, mas sim astrologia. Dá muito jeito para namoros…

11- “Lippen schweigen”, de Viúva Alegre, de Franz Lehár. Dueto.

De novo os lábios e de novo uma obra de Léhar, num actuação em dueto. Há pouco os lábios estavam abertos, agora estão fechados.  “Lippen schweigen”, “Fechar os lábios” é uma ária do final do 3.º acto da Viúva Alegre, uma divertida opereta em três actos, na comédia francesa. Estreada em 1905, o ano da teoria da relatividade de Einstein, em Viena, a peça pertence à época dourada da opereta. No enredo, várias pessoas tentam casar uma viúva rica para captar o seu património. Diz a canção, do 3.º acto, que lembra uma valsa: “Embora os lábios estejam fechados, os violinos sussurram:/ Cuida de mim!/ Todos os nossos passos de dança me dizem:/ Cuida de mim!/ Os nossos dedos apertados parecem tão certos para mim/ dizendo-me claramente: É verdade,/ tu queres saber de mim!”

----------------------------------------------------------------------------------------------------4.ª Intervenção

Aproximamo-nos do final. E terminamos em grande beleza.

 

12- “O sole mio”, de Eduardo di Capua. Tenor.

De noite reinam a Lua e as estrelas. Mas de dia reina o Sol, do qual depende toda a vida na Terra. “O meu Sol” é uma célebre canção napolitana, composta em 1891 pelo napolitano Eduardo di Capua (1865 - 1917), que Luciano Pavarotti, entre outros grandes nomes, tão bem cantava. A letra diz: “Que bela coisa uma jornada de sol, /um ar sereno depois de uma tempestade./ Pelo ar fresco parece já uma festa./ Que bela coisa uma jornada de sol./ Mas um outro sol/ mais belo não há/ O meu sol,/ está na tua fronte.../ O sol, o meu sol,/ está na tua fronte.”

13- “Brindisi” de La Traviata, de Giuseppe Verdi. Dueto.

Vamos ouvir o terceiro e último excerto de La Traviata, de Verdi, neste espectáculo, com o regresso do dueto, Lara Martins e Paulo Ferreira. O “Brindisi” ou "Libiamo ne' lieti calici", um dueto que na ópera é acompanhado por um coro, é uma das mais célebres melodias da história da ópera. Surge no 1.º acto de La Traviata, cantada por Violeta e Alfredo, durante uma festa em casa de Violeta. Um “brindisi” (que significa “saúde,” a palavra de um brinde) é uma canção de bebida em grupo. O álcool, quimicamente C2H6O, modifica o espírito, neste como em vários outros brindes operáticos. Alfredo canta: “Bebamos, bebamos deste cálice de alegria./ Isto reforça a beleza/ Que no fugaz instante/ prevaleça a volúpia./ Bebamos àquele doce êxtase/ que o amor desperta./ O olhar penetrante/ Aponta directamente ao coração./ Bebamos ao amor, e as nossas bebidas/ tornarão os nossos beijos mais ardentes.” Também aqui, neste grande final, a música nos vai animar a todos. Não há álcool, mas ergamos simbolicamente a nossa taça a esta orquestra, a este maestro e a estes dois extraordinários solistas. Muito obrigado pela vossa inspirada serenata de hoje!

 ------------------------------------------------------------------------------

Intervenção final

Encore - “Blue Moon”,  de Richard Rodgers (1902-1979) e Lorenz Hart (1895-1943). Dueto.

O encore, um tema de música americana fora do universo da ópera, fala da Lua Azul. Escrita em 1934, “Blue Moon” é uma canção clássica do século XX. Foi cantada por grandes artistas como Billie Holiday, Elvis Presley, Bob Dylan e Cliff Richard. Na cultura popular, a canção já apareceu em filmes musicais como Grease e Blue Moon. É o hino do Manchester City, onde está o português Bernardo Silva. A Lua Azul é um acontecimento astronómico relativamente raro: chama-se assim a segunda lua cheia que acontece num mês. Fiquem atentos: a próxima “Blue Moon” será no próximo dia 31 de Outubro, dias antes da eleição americana. Boa Lua Azul em Outubro! Foi um prazer a Vossa companhia. E muito boa noite para todos.

sábado, 19 de setembro de 2020

POR QUE NÃO TE CALAS COSTA?

Em 2007, na Cimeira de Santiago de Chile, fez historia a admoestação  do rei Juan Carlos de Espanha dirigida então ao presidente da Venezuela Hugo Chavez: “Por que no te calhas”?

O jeito bem latino dos nossos políticos servirem-se da verborreia  para dizerem em centenas de frases o que os anglo-saxónicos sintetizam em poucas palavras, mereceu, no jornal “Público”, anos atrás,  a António Guterres o “nikname”de “picareta falante”, pela pena impiedosa e cáustica de Vasco Pulido Valente.

Aliás,  a nossa Assembleia da República, com raras excepções,  é o lugar de eleição para os jovens ambiciosos do Partido Socialista se iniciarem, fazerem carreira e eternizarem-se no segredo de muito dizer para nada dizer. Em adaptação de um naco de prosa acaciana, eles “hesitam, tataranham, amontoam, embaralham, e fazem um pastel confuso que nem o Diabo lhe pega, ele que pega em tudo”!

Não temos em nosso tempo  homens de barba rija  que ponham cobro às juventudes partidárias  que procuram  oportunidades numa forma de profissão  de quem se preocupa nada com o país e bastante com as benesses que a vida interesseira da  política obriga a mudar de políticos como quem muda de fraldas a putos mijões  de que é exemplo paradigmático o facto de três anos de governação do actual do Partido Socialista terem  existido, cito de memória,  54 secretários de Estado que, aposto dobrado contra singelo, não irão cair nas garras do desemprego.

O mundo e, como tal, Portugal atravessa uma cise pandémica comparável, ainda que em menor escala,  segundo espero e faço votos,  que a Gripe Espanhola que dizimou grande parte da sua população na I Grande Guerra Mundial. Sem ainda termos a noção do que pode vir a acontecer em tempos do coronavirús temos a “sorte” de termos um primeiro ministro, finalmente, liberto da responsabilidade  de fazer parte da lista de apoio de Vieira às próximas eleições do Benfica.

 Desta forma, tendo paz de espírito, para debitar  do alto da sua  cátedra politica que “o país não pode voltara a confinar”. E logo acrescentar, a título de previsão: “A manter-se esta tendência  (refere-se ele, porventura,  à manutenção nos respectivos lugares da actual ministra da Saúde, figurinha frágil de porcelana de Sèvres, e da directora-geral da Saúde, avozinha das estórias para embalar criancinhas  com medo do papão coronavírus) chegaremos aos 1.000 casos por dia, 60 óbitos e 780 infectados em 24 horas”. 

Nenhuma destas personagens, e nem sequer o Governo em peso tiveram a coragem de impedir a recente Festa do Avante sob a desculpa que iam ser tomadas medidas, ainda que pouco convincentes, para impedir o perigo de contágio sem cuidarem saber que a preparação destes três dias de festividade seriam precedidos de um tempo bem maior em que os operários/comunistas não podiam executar as grandes obras necessárias  a um evento desta grandiosidade com preocupações de natureza de saúde publica.

Peço desculpa ao leitor em voltar a  Eça, meu escritor de mesinha de cabeceira de noites insones, indagando a seu exemplo: “No meio de tudo isto que fazer? Portugal tem atravessado crises igualmente más, mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e caracter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não – pelo menos o Estado não tem -  e os homens não os há, ou os raros que  há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior – e sem cura”.

Ora, Costa não parece ter arcaboiço para  ser a solução  para a  um problema, em certa medida,  criado por ele próprio chorando, agora,  sobre o leite derramado limitando-se a previsões estatísticas sem atender  que na voz do povo: “Se a palavra  é de prata, o silêncio é de ouro”. 

Já chega de bla-bla-bla  para preencher, a título de propaganda política,  os écrans televisivos com entrevistas suportadas pelos costados de Costa!


 

 

SOBRE JORGE LUÍS BORGES

Novo post de João Ventura sobre Borges:

No Arco do Cego, onde durante muitos anos funcionou uma estação da CARRIS, existe agora o Jardim Jorge Luís Borges que, excepto quando chove, é um local de encontro dos estudantes do Instituto Superior Técnico. A um canto desse jardim, face à embaixada da Argentina, pode ver-se um Memorial a Borges, da autoria de Federico Brook. Inaugurado em 2008, é constituído por um bloco de granito, encimado por uma “nuvem” de mármore, simbolizando a imaginação. Na parte superior do bloco existe uma cavidade onde está uma mão, cópia da mão de Borges, segurando uma pena. De um lado do bloco está gravado o soneto “Los Borges”, alusivo aos antepassados lusitanos do escritor (“Nada o muy poco sé de mis mayores / Portugueses, los Borges, vaga gente…”).

Na noite de 23 de Agosto, aniversário do nascimento de Borges, há um grupo que se reúne à volta do monumento. São doze: sentam-se no chão, formando um círculo com centro no Memorial, e falam em voz baixa, um de cada vez. Um deles funciona como secretário e toma notas num pequeno caderno. Depois de todos terem falado, o secretário diz algo como: “Ainda não foi encontrada. Continuemos a percorrer os caminhos que se bifurcam.” Todos se levantam e abandonam o local, cada um numa direcção diferente.

Esta reunião apenas poderá ser observada discretamente à distância (recomenda-se o uso de binóculos com intensificador de imagem). À vista de um estranho o grupo ficará em silêncio e, se este se aproximar, o grupo dispersará rapidamente, presumindo-se que completarão a reunião em local alternativo.

A razão dos acontecimentos descritos é apenas conhecida em círculos restritos. No ano seguinte à inauguração do monumento um estudioso de Borges, pesquisando os escritos inacabados que o escritor deixara na sua casa na Suíça, encontrou uma folha de papel que tinha simplesmente escrito, em português(!):

 “Na terra antiga / está a Biblioteca / oculta por livros” 

O investigador teve a intuição que este fragmento indicava a existência física da famosa Biblioteca de Babel. Mais, que ela estaria localizada em Portugal (a designação “terra antiga” e o facto de o pequeno texto estar escrito em português) e que estaria junto de uma biblioteca “normal” que funcionaria como camuflagem.

Tendo convencido um grupo de borgianos bem colocados no mundo da finança da plausibilidade da sua tese, o investigador conseguiu reunir os fundos necessários para iniciar o projecto. Obtido o equipamento apropriado para sondagens não intrusivas do subsolo e reunida uma equipa dedicada, tudo isto feito no maior secretismo, começaram um levantamento sistemático das bibliotecas existentes em Portugal continental.

E uma vez por ano o grupo reúne-se em volta do monumento para cada membro da equipa apresentar o relatório de progresso e ser distribuído o trabalho para o ano seguinte.

Infelizmente, até à data de fecho deste Guia, a demanda da Biblioteca de Babel revelou-se infrutífera.

 João Ventura

In   Guia Turístico - Lisboa Oculta / Edições Imaginauta / Lisboa, 2018

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

NOVA ATLANTIS

 A “Atlantís” acaba de publicar o seu último número (em acesso aberto). Convidamos a navegar pelo sumário da revista para aceder à informação.

Imprensa da Universidade de Coimbra

Atlantís - review

v. 35 (2020)

Sumário

https://impactum-journals.uc.pt/atlantis/index

[Recensão a] MARUHASHI, Yutaka, The Rule of Law and the Philosophy of Dialogue: A Study in Plato’s Dialogue Laws (in Japanese). Kyoto, Kyoto University Press, 2017. xiv + 443 + 25 (indexes).

Noburu Notomi; Satoshi Ogihara

[Recensão a] DOPICO CAÍNZOS, María Dolores e VILLANUEVA ACUÑA, Manuel (Eds.), Clausus est Ianus (Augusto e a transformación do noroeste hispano). Lugo, Servizo de Publicacións da Deputación de Lugo, 2016. 438 pp. ISBN: 978-84-8192-526-5.

José D'Encarnação

[Recensão a] BERTOLO, Fabio Massimo; CURSI, Marco; PULSONI, Carlo, Bembo ritrovato. Il postillato autografo delle Prose. Roma, Viella, 2018. 335 pp. ISBN: 978-88-6728-975-2

Rita Maria Marnoto

[Recensão a] LÓPEZ FÉREZ, Juan Antonio, Galeno. Preparación y constitución de textos críticos, entrega y publicación de obras propias o ajenas. Madrid, Ediciones Clásicas, 2018. 230 pp. ISBN: 978-84-7882-823-4

Jordi Sanchis

[Recensão a] GARDELLA, Mariana; VECCHIO, Ariel (coords.), Amantes rivales. Sobre la filosofía. Diálogo pseudo-platónico. Buenos Aires, Teseo, 2017. 102 pp. ISBN: 978-987-72-3135-9

Milena Azul Lozano Nembrot

 __________________________________________________________________

Atlantís

À VOLTA DE BORGES

 

Agora que Manguel, leitor de Borges, está entre nós, é bom recordar Borges, aqui num texto de João Ventura de 2006, no Forum Fantástico:



“Um  homem propõe-se a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naves, de ilhas, de peixes, de quartos, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto.”

Jorge Luís Borges

Buenos Aires, 31 de Outubro de 1960

O autor que tenciona escrever uma comunicação sobre Borges – de ora em diante o Autor – lê um pequeno texto incluido em A Cifra de 1981, intitulado “Um sonho”:

“Num deserto lugar do Irão há uma não muito alta torre de pedra, sem portas nem janelas. No único compartimento (cujo chão é de terra e tem a forma de um círculo) há uma mesa de madeira e um banco. Nessa cela circular, um homem parecido comigo escreve em caracteres que não compreendo um longo poema sobre um homem que noutra cela circular escreve um poema sobre um homem que noutra cela circular... O processo não tem fim e ninguém poderá ler o que os prisioneiros escrevem.”

Pensa então que a sua comunicação sobre Borges poderia começar assim:

Numa cidade de um país na periferia do Império, um homem escreve uma comunicação sobre um homem que escreve uma comunicação sobre um homem (...) que escreve uma comunicação sobre Borges.

Mas ao ler pela segunda vez o texto referido de Borges, repara na última frase: “O processo não tem fim (...)”. Ora terminar a sua sequência com as palavras “escreve uma comunicação sobre Borges” vai torná-la finita. Como o carácter borgesiano da sequência é precisamente o facto de ser infinita, a intervenção do Autor seria de facto a negação de Borges. E assim, dolorosamente, o Autor abandona a ideia que ao princípio lhe parecera tão promissora.

Tenta uma segunda abordagem: começa a escrever um texto sobre Borges recheado de citações apócrifas, referências de autores inexistentes, identificação detalhada de obras nunca publicadas... Mas ao fim de meia dúzia de páginas, a releitura faz-lhe ver que nunca conseguirá provocar em nenhum leitor aquela sensação indefinível que assenta na faixa estreita entre o verdadeiro e o falso, aquilo que sentimos quando lemos algumas das histórias de Borges, o acreditar minado pela suspeita ou a incredulidade com infiltrações de “até podia ser”.

E o que escreveu acaba por ser rasgado em pequenos pedaços que atira para o cesto dos papéis.

Pega em seguida num texto de Borges, um pequeno conto escolhido ao acaso, e escreve-o lentamente, criando um ficheiro no computador, copiando palavra a palavra, pronunciando-as em voz alta de forma a sentir-lhes o sabor, a densidade. Começa depois um exercício que consiste em substituir uma palavra por um sinónimo e tornar a gravar o ficheiro com outro nome, nova substituição e nova gravação, e ao fim de algumas horas de trabalho tem cerca de trezentos ficheiros no disco, todos eles variantes do mesmo texto base. Parando para olhar o conjunto, apercebe-se que embora a ideia original fosse atractiva, o resultado final será apenas e sempre uma caricatura pobre e portanto risível da famosa Biblioteca de Babel, onde se encontram todos os livros possíveis, “todas as possíveis combinações dos vinte e tal símbolos ortográficos (...) ou seja, tudo o que nos é dado exprimir: em todos os idiomas” (Ficções, 1944). Seria apenas uma pálida sombra dessa Biblioteca incidindo sobre um texto, e a simples atitude de pretender usá-la como analogia de “A Biblioteca” aparece tingida de uma arrogância que, embora não intencional, vai marcar indelevelmente o texto produzido.

E mais uma vez o Autor, com alguma relutância, destroi aquilo que escreveu. Fecha a pasta onde estão todos os ficheiros, com nomes de biblio_1 a biblio_298, marca a pasta e carrega em delete.

Nova tentativa: resolve falar de um objecto cujas propriedades sejam tais que a ligação desse objecto a si próprio, Autor, surja como única, com a inevitabilidade de uma lei matemática através da qual, conhecidas as causas, resultam fatalmente as consequências (mantendo embora uma dúvida insidiosa nos interstícios das afirmações, mesmo as mais absolutas). A ideia surge-lhe a partir de “O bastão lacado”  e de “O punhal”, pequenos contos dos livros A Cifra, de 1981 e Evaristo Carriego, de 1930.  Ambos falam de objectos que possuem como que uma vida própria, e que constituem, esses objectos, um fio de ligação entre a sua própria história e o seu actual possuidor. Para dar uma ideia mais concreta, eis alguns excertos de “O bastão lacado”:

(...)

“Observo-o. Sinto que é uma parte daquele império, infinito no tempo, que ergueu a sua muralha para construir um recinto mágico.

(...)

Observo-o. Penso no artesão que trabalhou o bambu e o dobrou para que a minha mão direita pudesse agarrar bem o punho.

(...)

Não nos veremos nunca.

(...)

No entanto, alguma coisa nos liga.

Não é impossível que Alguém tenha premeditado este vínculo.

Não é impossível que o universo necessite deste vínculo.”

Mas quando começa em casa à procura desse objecto único, sobre o qual iria escrever, o Autor verifica que tudo o que o rodeia é fruto da produção em massa dos últimos anos. Todos os objectos do seu quotidiano se caracterizam por serem iguais a milhões de outros, saídos das linhas de montagem das fábricas de mão de obra barata do extremo oriente. E a ligação entre o operário e o fruto do seu trabalho é totalmente diferente do vínculo estabelecido entre o artesão e o objecto que produziu ao longo de dias ou semanas de paciente esforço. A produção em massa gera objectos sem história. E portanto também aqui as intenções do Autor se revelam infrutíferas.

Pensa subitamente na História Universal da Infâmia, de 1935. Desde essa data, muitos infames, reais ou imaginários, percorreram os caminhos da humanidade. Ele, Autor, seria certamente capaz de inventar mais uns quantos. É quando alguém lhe diz que Rhys Hughes, do país de Gales, publicou recentemente “Uma Nova História Universal da Infâmia”. E não contente com isso, pegou numa outra fonte de inspiração riquíssima –  “O Livro de Areia”publicado em 1975 –   e escreveu “Em busca do Livro de Areia”!

O  Autor apercebe-se que regressou à estaca zero. Todas as suas tentativas de escrever sobre Borges falharam redondamente. Sente que andou à volta de Borges numa trajectória circular, ou quando muito seguindo uma espiral que se aproxima do centro com extrema lentidão, como o movimento de uma galáxia em torno do buraco negro oculto no seu centro. Provavelmente o seu conhecimento da obra do mestre não é suficiente para produzir algo de relevante sobre a mesma. 

Resolve então reler. Não da maneira semi-anárquica que tinha caracterizado o seu primeiro contacto com os escritos de Borges, mas de um modo disciplinado, seguindo um percurso rigorosamente cronológico. Começa pelas obras da juventude, a poesia de “Fervor de Buenos Aires” publicado em 1923, lê lentamente, mais poesia de 1925, o “Caderno San Martin” de 1929, “Evaristo Carriego”, os ensaios de 1932, lê com minúcia a “História Universal da Infâmia” de 1935 e a “História da Eternidade” do ano seguinte. “Ficções” e “Artifícios”, ambos de 1944, são saboreados com prazer, bem como “O Aleph” de 1949. Percorre “O Fazedor”, de 1960, onde existe um poema dedicado aos Borges, seus antepassados portugueses, e outro a Luís de Camões. Mais poesia ao longo da década de 60. “O relatório de Brodie” e  “O Ouro dos Tigres”, publicados no princípio dos anos 70.

Ao longo deste trabalho dedicado e minucioso, a vista do Autor vai piorando. É já com grande dificuldade que termina  “O Livro de Areia” de 1975. A partir daí é obrigado a recorrer aos amigos para lhe lerem em voz alta. E é já pela voz deles que visita a poesia de 1975 a 77, “A Cifra” de 1981, que percorre os “Nove ensaios dantescos” de 1982,  “Atlas” de 1984 e “Os Conjurados” de 1985.

Mas de alguma forma, com a perda da vista, a compreensão dos textos aumenta, como se com o progressivo desaparecimento do sentido da visão, do apagamento das imagens, as palavras fossem ganhando mais intencionalidade e consistência. O Autor identifica-se cada vez mais com Borges, agora que, como ele, vive na escuridão, tendo como ligação privilegiada ao mundo exterior a sonoridade das palavras. E a tal ponto se torna forte esta identificação com o centro, o ponto alfa do universo borgesiano, Jorge Luís Borges himself que, repetindo o que o mestre escreveu na linha final do conto “Borges e eu”, o Autor poderá dizer:

“Não sei qual dos dois escreve esta página.

João Ventura

 

ANTÓNIO TENREIRO: O TRAGA-LÉGUAS

Minha recensão no jornal I de quinta-feira:


https://ionline.sapo.pt/artigo/709095/antonio-tenreiro-um-traga-leguas?seccao=Mais_i

Viajando virtualmente pelas ruas Fleming de Espanha

O nome de Alexander Fleming (1881-1955) é usado em mais quinhentas ruas, avenidas e monumentos em Espanha. É normal, dirão. Uma vez que se lhe atribui a descoberta do primeiro antibiótico, a penicilina. Talvez, mas o nome é usado em mais lugares do que o nome do grande Prémio Nobel da medicina espanhol, Santiago Ramón y Cajal (1852-1934), e, obviamente, que o de Severo Ochoa (1905-1993), Prémio Nobel também, mas naturalizado americano. Ainda não está completa esta investigação, mas eu mostro o que descobri. É uma historia pouco conhecida que se conta pelas suas entrelinhas. Tudo comecou aparentemente com a festa dos pescadores de Gijón, os quais pretenderam homenagear Fleming nos anos 1950. Fizeram uma procissão com estandartes alusivos, a qual foi noticiada internacionalmente, em particular na revista Time. E convidaram-no para discursar na festa, o que este aceitou com prazer. Entretanto, Fleming morreu, mas foi substituído pela viúva. E fizeram um subscrição pública para um monumento em Gijón que ainda hoje é homenageado todos os anos. O fenómeno e o entusiasmo estendeu-se a toda a Espanha. Penso que isto foi de alguma forma incentivado até porque Ramón y Cajal (que já tinha morrido) não era muito favorável ao regime que se veio a instalar. O curioso é que a homenagem não tinha só que ver com a cura das feridas mas também com a da tuberculose que grassava na Peninsula Ibérica. Acontece que Fleming foi só um peça do conjunto (o prémio Nobel foi atribuido a três pessoas) e a penicilina, embora um marco fundamental da medicina, é pouco eficaz contra a micobactéria causadora da tuberculose.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

COMO SE FORMA UMA MONTANHA

(numa visão muito esquemática, mas, no essencial, muito clara) 

Excerto do livro “O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA”, Âncora Editora, já em 3ª edição (2020). Com ilustração do meu amigo Francisco Bilou. 

- Ó avô, – pediu o Domingos. – Eu ainda não percebi bem como é que se forma uma montanha. 
- Como disse, havemos de falar sobre isso mais tarde. Mas para terem uma ideia geral que vos ajude a entender melhor esta nossa conversa de hoje, vamos imaginar uma série de lençóis, mantas de diversas qualidades e espessuras, cobertores, um édredon, uma porção de colchas, e o mais que quiserem, tudo bem esticadinho em cima da cama. Imaginemos que este empilhamento representa a espessura de camadas de sedimentos depositados no fundo de um oceano, ao longo de muitos e muitos milhões de anos, como é, por exemplo, o que está a acontecer no Oceano Atlântico, aqui ao nosso lado. Vamos agora abrir bem os braços e agarrar esta pilha de roupa, uma mão de cada lado, e apertá-la para o meio da cama. Fica tudo amarrotado, com dobras para cima e outras para baixo. Com a força dos nossos braços, em menos de dois metros de extensão desta roupa e em menos de dois segundos, fazemos, assim, o que a Terra faz, em milhares de quilómetros de fundo de um oceano e ao fim de muitos milhões de anos, usando para tal todas as forças que resultam da enormíssima fonte de calor armazenada no seu interior. 
- Então, uma montanha são rochas dobradas. – Interrompeu o neto. 
- É mais do que isso. Continuando a nossa explicação. A porção das dobras que fica para cima representa a parte de uma cadeia montanhosa que se eleva à superfície do terreno. Nos Himalaias esse valor atinge os 8000 metros de altitude. 
- E a porção que fica para baixo, avô? – Perguntou, de imediato, o mesmo neto, interessadíssimo numa explicação que, pela primeira vez fazia luz na sua muita curiosidade. 
- A porção dobrada que fica para baixo, – continuou o avô – representa a parte que se afunda na crosta terrestre, como se fossem as suas raízes que, volto a dizer, podem atingir os 70 km de profundidade. Como já disse e não é demais repetir, em virtude das elevadas pressões e temperaturas a que passam a estar sujeitas, as rochas sedimentares que assim se afundam na crosta, sofrem processos de metamorfismo, transformando-se em rochas metamórficas. Na parte ainda mais profunda destas raízes, reparem que estou a insistir no que já disse, com temperaturas na ordem dos 800 a 900 oC, as rochas começam a fundir, gerando um magma que, arrefecendo ao longo dos milhões e milhões de anos, se transforma em rochas magmáticas como os granitos, os sienitos, os dioritos, os gabros e outras menos conhecidas. Entendido? - Sim, avô.

A. Galopim de Carvalho 

DESCER DO PANO DO CASO VIEIRA

Acaba de ser anunciado pela televisão que Vieira retirou Costa e Medina da lista de apoio da sua candidatura à presidência do Benfica.

Menos uma dor de cabeça a atormentar a anunciada reunião para hoje entre a primeira e a terceira figuras do Estado! 

O que estará por detrás deste acordo de "cavalheiros de luva branca"? 

Ao que penso, está tudo no segredo dos deuses que subscreveram esta manobra nas costas dos cidadãos. Irá ser perdoada, ou adiada para as "calendas gregas", a dívida de Vieira à Banca que, entrementes, será paga pelos nossos impostos?

Já nada me espanta, mas enoja, num país em que, segundo Guerra Junqueiro, “somos um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião um mostrar de dentes, a energia de um coice, pois já nem com as orelhas é capaz de sacudir as moscas”.

Para tudo isto ser possível, Vieira pôs a cabeça no cepo onde deveriam rolar , também, outras cabeças da nossa vida politiqueira. Espero que as próximas eleições fazem justiça por mãos próprias. Acordai, Portugueses - a maiúscula é intencional- nem que seja só junto das urnas fazendo descer, finalmente o pano do proscénio desta tragicomédia e pateando os seus protagonistas!

Mexei as as orelhas para sacudir as moscas de corrupção. É o mínimo o que podeis fazer, mas, como nos diz a "vox populi", "devagar se vai ao longe".

Calarmo-nos é tornarmo-nos cúmplices de um crime de lesa-república!

ANTÓNIO COSTA ENTRE DOIS AMORES!

“A memória é a consciência inserida no tempo”
(Fernando Pessoa). 

Quer queiramos ou não, as recordações da juventude são como uma segunda pele que nos acompanha na velhice. Assim, de quando em vez, emerge em mim de profundezas freudianas a memória de um filme que correu, nas telas portuguesas, em princípios da década de 50, intitulado “Francis, o Macho que Fala”, cuja principal personagem era o actor Donald O´Conner. 

Ou seria, em dúvida hamlética, Francis com quem o actor de carne e osso estabelecia diálogo? Passando à frente, é desse meu tempo de trintão um professor do ensino liceal com prognatismo, ”habitué” de um café frequentado por ambos, que lhe dava o aspecto de queixada asinina.

Este docente, por tudo e por nada, principalmente por nada, perorava com ar doutoral de quem debitava as maiores vulgaridades como, por exemplo, o estado do tempo com uma convicção de quem de posse de infalível certeza científica, houvera consultado o boletim meteorológico para anunciar, “urbi et orbi”, estar um bom dia não permitindo dúvidas nos ouvintes até porque isso estava à vista desarmada do cidadão que tinha saído à rua sem gabardina ou chapéu de chuva.

De igual modo, sem dar deixar lugar a duvidas, assume esse papel de forma profética António Costa ao dizer aos benfiquistas estarem eles em vésperas de dias venturosos e radiosos de sol se votarem em Luís Filipe Vieira para presidente da direcção das “águias. Salvo o respeito, que nos deve merecer a terceira figura da hierarquia do Estado, encontro no cidadão António Costa uma simbiose entre duas personagens: uma do mundo da política e outra do desporto-rei.

Esta duplicidade de papéis faz correr o perigo das eleições do “glorioso” secundarizarem os graves problemas que o País atravessa de âmbito, da Saúde, da Economia, do Ensino, etc. Perante este problema, apenas diviso uma solução para tanta e tamanha complexa situação que faz palpitar o coração de Costa entre dois amores, não sabendo “lui-même”, a exemplo de Marco Paulo, de qual deles gosta mais se de Portugal ou do Benfica.

Este facto, impõe das duas uma. Ou a demissão de Costa de primeiro-ministro ou a retirada do apoio a Luís Filipe Vieira para as eleições da presidência da direcção dos encarnados.

De nada lhe vale consultar a Pitonisa de Delfos ou, mais simplesmente, deitar uma moeda ao ar que seja capaz de lhe dar a solução de um dilema que envolve questões de natureza moral, ética e, neste caso, essencialmente, política. Até à sua decisão final o país fica em suspenso porque um “valor mais alto se alevanta”!

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Olival Freire - David Bohm e a Física Quântica

EM CUMPRIMENTO DE UMA PROMESSA

“Um médico que só sabe de medicina nem isso sabe”
(Abel Salazar). 

Em resposta a um comentário, subscrito pelo professor Carlos Ricardo Soares, ao meu “post” publicado neste blogue, intitulado “A polémica e razões com razão e sem razão” (10/09/2020), prometi: 
“Possivelmente, em breve, publicarei um texto pedindo a sua benevolência para a sua leitura e apreciação”. 
Brevíssima nota: A título justificativo, seja tomada em atenção que este texto foi escrito por um amante (aquele que ama) devotado aos complexos caminhos da Filosofia, embora, apenas, habilitado com estudos académicos de manuais do antigo 7.º do antigo ensino liceal, correspondente ao actual 12.º ano do ensino secundário, para prosseguimento de estudos superiores de natureza científica com foi o meu caso.

Posto isto, segue-se o cumprimento da minha promessa com este texto: Abel Salazar foi professor universitário de Medicina, em inícios e meados do século passado, com um notável e ecléctico saber nos diversos domínios científicos e culturais: médico, escritor, pintor, escultor e filósofo, tendo-se doutorado, em 1915, com 20 valores com a tese Ensaio de Psicologia Filosófica.

Destarte, a questão que se põe reside na pergunta e respectiva resposta. Deverá a Filosofia ser sobrevalorizada no âmbito dos cursos de humanidades e descreditada no domínio das ciências naturais? Aliá, a questão nem sequer é nova! 

Segundo Georges Gusdorf, “na primavera de 1964, assistiu-se ao facto de “os decanos da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Ciências da Universidade de Paris, proclamarem que a Medicina é doravante uma ciência; ninguém poderá pretender ser iniciado se não for geómetra, se não possuir noções de base como as de função, logaritmo, derivadas. A formação médica pressupõe uma escolaridade secundária que passa pelas classes terminais de ciências e de matemática dos liceus”. (“Da História das Ciências à História do Pensamento”).

Ainda segundo este autor, “os distintos decanos preveniam os interessados e as famílias contra a deplorável perda de tempo e de inteligência que representaria um estágio na classe de Filosofia. Um jornalista foi, então, perguntar a estudantes de Medicina, escolhidos ao acaso, o que pensavam desta declaração. Responderam-lhe que lhes parecia, pelo menos, impensada.

O conhecimento dos logaritmos é talvez útil ao médico, mas o conhecimento do homem e da condição humana é primordial; é deplorável que não entre em linha de conta na aprendizagem médica. Os estudantes tinham cem vezes razão em denunciar esta forma particularmente nociva de obscurantismo contemporâneo, que existe entre os potentados universitários como no homem da rua” (id., ibid.). Este descabido, ridículo e insolente ataque à matriz de todas as ciências é tanto mais insólito quando nomes grados da Ciência se distinguiram no frutuoso deambular pelos caminhos de um Conhecimento sem fronteiras. 

Três exemplos, de entre muitos: Max Planck, físico e Prémio Nobel da Física (1918), preocupado com a relação entre a ciência e religião ; Ernest Krestchemer, médico psiquiatra alemão, doutor “honoris causa” em Filosofia pelas Universidades de Wurzburgo e Católica do Chile; e Bertrand Russell, matemático e filósofo britânico, “Prémio Nobel da Literatura”, em 1950. E isto para não falar já em Albert Einstein, presença obrigatória em diversos manuais de Filosofia!

Na verdade, chegou-se a níveis de ignorância que campeiam entre os próprios diplomados do ensino superior e que não são escamoteáveis por mais tempo, pese embora, como escreve Mario Perniola, professor de Estética da Universidade Tor Vergata de Roma, “haver sempre uma caterva de ingénuos prontos a escrever a história da última idiotice, a solenizar as tolices, a encontrar significados recônditos nas nulidades, a conceder entrada às imbecilidades no ensino de todas as ordens e graus, pensando que fazem obra democrática e progressista, que vão ao encontro dos jovens e do povo, que realizam a reunião da escola com a vida”.

Num contexto de elevada qualidade e numa tradição multissecular na formação de elites porque, como sentenciou A.Tchekov,"a universidade revela todas as capacidades, até as incapacidades", numa altura em que novas e, ainda mais, facilitadoras formas de ensino são ministrados cursos técnicos superiores profissionais despojados de uma necessária formação cultural a que a leitura constante de textos literários e a reflexão filosófica conduzem.

Tempos houve de formação de uns tantos diplomados pelo ensino superior universitário privado, sem mencionar o estafado exemplo do ex-ministro Miguel Relvas, que sancionavam a ignorância. "Ipso facto", os claustros universitários do ensino oficial devem manter-se como guardiães esforçados da Cultura Humanística, do Conhecimento Científico e da Investigação Pura e Aplicada. 

O ensino não deve nem pode ser um prometedor de promessas não cumpridas.

domingo, 13 de setembro de 2020

O METRO DA LOUSÃ E O METROBUS DE SERPINS.

“Eu gosto de escrever quando estou despeitado; é como dar um bom espirro” 
(D. H. Laurence).

Segundo a Antena 1, no programa de João Reis, a construção do Metro em Coimbra, prometido de há trinta anos atrás, arranca hoje (12/09/2020), amputado para Metrobus nas mãos de privados. Em vésperas de eleições, curiosamente, as obras de Santa Engrácia, estas já cumpridas embora compridas, é anunciada, em Serpins, com pompa e circunstância por Pedro Nuno Santos, ministro da Infra-Estruturas e Habitação, a sua adjudicação a privados. Anteriormente, pondo o carro à frente dos bois, foi desactivada a linha férrea do ramal ferroviário da Lousã - Coimbra, tendo desaparecido essa quantidade valiosa de ferro sem que ninguém tivesse dado por isso e, muito menos, por isso se responsabilizasse. 

Aparece agora o Estado Português, pelo voz lamuriosa do supracitado ministro,  a pedir desculpa pelo atraso no início da adjudicação das obras do Metrobus a privados. Não sei se o povo prejudicado por este “status quo”, desculpa ou não a esta entidade governativa. Embora a minha opinião pessoal para nada conte, manifesto-me apenas como cidadão interessado nas questões da minha urbe em que a prioridade têm sido, obras de encher de orgulho desatinado Manuel Machado, presidente da edilidade de Coimbra, através da construção de novas rotundas. 

Destarte, como cidadão da cidade das margens do Mondego, limito-me ao reparo de que sendo o convento rico e os frades poucos escassa importância parece ter um atraso de uma trintena de anos pese embora custar ao Estado Português (ou seja, a quem paga impostos por civismo ou por a eles não poder fugir), uma fortuna para além dos prejuízos causados à população trabalhadora de Coimbra a viver na Louçã.

Como disse o almirante Pinheiro de Azevedo, numa manifestação na Praça do Comércio durante a época quente, ao ser lançado gás lacrimogénio sobre os manifestantes: “Não há perigo. O povo é sereno, ouçam é só fumaça”.

De igual modo, o povo das povoações servidas pelo Metrobus, no dia da inauguração deste empreendimento, estará presente para ovacionar os seus governantes que a hora é de festa com foguetes a estalejar no ar e a fanfarra a tocar, em reminiscência do tempo do Estado Novo em que o almirante Américo Tomás se limitava a cortar fitas durante as obras que eram inauguradas sem a novidade das selfies.

Ou seja, é apenas uma questão de tempo a solução deste imbróglio (quanto tempo?), mas há que dar tempo ao tempo e ter paciência de Job. Que diacho o ministro Pedro Nuno dos Santos já pediu cavalheirescamente desculpa à populaça, tentando salvar, “in extremis”, a honra do convento.

Vá lá, aceitem as suas desculpas governativas “sans rancune”, porque ele é o menos culpado em todo este estado vergonhoso!

sábado, 12 de setembro de 2020

"Ou nos unimos ou estamos condenados"

Há poucos dias, António Guterres, Secretário-geral da Organização das Nações Unidas, dirigindo-se ao mundo, recordou o que bem sabemos, o que que não podemos deixar de saber, mas que incompreensível e desastrosamente continuamos a fazer de conta que não sabemos: a séria possibilidade de extinção da nossa espécie, caso teimemos em destruir a Terra.

Temos sido peritos a extinguir outras espécies animais e vegetais, sem que isso nos traga problemas de consciência. E, mesmo constatando as consequências devastadoras a chegar à nossa porta, somos incapazes de mudar seja o que for de substancial e de reivindicar a mudança por parte daqueles que têm efectivo poder para a concretizar. É com a maior leviandade que encaramos o nosso fim, que encerramos o capítulo da existência humana, que abdicamos do futuro. 

Recupero as palavras de António Guterres:
“Ou nos unimos ou estamos condenados. Estamos a enfrentar um desafio dramático com a covid-19. Mas este desafio terrível, que causou grande sofrimento e teve um impacto devastador nas economias e sociedades, é uma oportunidade. Precisamos de reconstruir. Precisamos de investir massivamente na reconstrução. Ou reconstruímos o mundo como estava, o que é um grande erro, devido às fragilidades do mundo, ou podemos reconstruir economias e sociedades mais inclusivas e sustentáveis. É por isso que recomendamos investimento massivo em tecnologias verdes, em indústria verde, em energia verde. Precisamos de ter justiça climática, ou seja, energia verde cria três vezes mais emprego do que investir em energia de combustíveis fósseis. Mas ao mesmo tempo ter medidas sociais e económicas que respondam às necessidades das pessoas afectadas pelas transformações da sociedade, nomeadamente a acção climática, e que fazem desaparecer os seus empregos.”
Este, sim, é um problema de cidadania: o dever ético que temos de cuidar do mundo (fixo-me na ideia de "amor ao mundo" de Santo Agostinho, retomado por diversos filósofos alemães do pós II Grande Guerra) precisa de ser ensinado nas escolas. Mas com base em conhecimento verdadeiro, trabalhado de forma honesta, e no exemplo empenhado.

Sem a interferência da sociedade - que balança, ao ritmo das notícias passageiras, entre a indignação superficial e a permissividade laxista -, dos interesses financeiros - que sabem bem como manipular tudo e todos em seu favor, incluindo o que entra na currículo e se faz nas escolas - e da política que , mesmo em regimes democráticos, se subordina ao momento, sem capacidade de olhar além do partido, da eleição. 

A escola, só a escola, com os seus professores e alunos, poderá fazer a diferença. Falo de uma escola capaz de assumir, com inteireza e coragem, o "valor de educar", na expressão do filósofo Fernando Savater.

Isaiah Berlin: uma raposa


Meu artigo no último I:

O poeta grego Arquíloco do século VI a.C., talvez o mais antigo poeta da Antiguidade cuja existência pessoal é conhecida (Homero não passa de uma lenda), escreveu um poema num fragmento que se pode traduzir prosaicamente em português: “A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante.” Uma tradução mais literal será: “Raposa sabe muitas./ Ouriço uma./ Manha consistente”. Uma outra tradução, mais elaborada: “Raposa sabe/ Enésimas/ Manhas e ainda/ É apanhada: Ouriço sabe/ Uma, mas ela/ Funciona sempre.”

Esta frase teria ficado esquecida, como muitos outros fragmentos do grego antigo, não fora Isaiah Berlin (1909-1997), filósofo, politólogo e historiador das ideias britânico, ter intitulado um dos seus ensaios O Ouriço e a Raposa, com o subtítulo Ensaio sobre a filosofia da história de Tolstói. A expressão tornou-se desde aí proverbial e é citada à exaustão nas ciências sociais e humanas.

Nascido em Riga, na Letónia, que na altura fazia parte do Império Russo, Berlin estava com a sua família judaica em Petrogrado (São Petersburgo), quando estalou a Revolução de Outubro. Mas, aos 12 anos, já estava, exilado com a família, no Reino Unido, tendo estudado em Londres e Oxford. O seu pensamento caracteriza-se pela ideologia liberal, pela apologia do pluralismo e pela oposição ao marxismo e comunismo. Embora não gostasse de escrever, Berlin escrevia muito bem, procurando ser claro e seduzir pelo estilo. A maior parte da sua obra, não muito extensa, é formada por transcrições de palestras que proferiu ou por textos que ditou às secretárias.

O Ouriço e a Raposa, que acaba de ser reeditado entre nós pela editora Guerra e Paz, é um exemplo desse seu modo de trabalhar. Trata-se da transcrição de uma palestra original dada em Oxford em 1951 e cujo texto ficou “sepultado” numa revista obscura sobre cultura eslava. O título inicial era “O cepticismo histórico de Lev Tolstói”. Dois anos depois, por sugestão do editor Weidenfeld (como são importantes os editores, como este que mandou o autor escrever mais!), foi publicado o texto em forma de livro, não só revisto como também acrescentado com a discussão de uma eventual influência em Tolstói de Joseph de Maistre, o pensador católico ultramontano que se opôs à Revolução Francesa. O texto de Berlin tinha sido publicado entre nós noutra tradução, como um capítulo do livro A Apoteose da vontade romântica (Bizâncio, 1999), que saiu na colecção Leviatã - Biblioteca de Ciência Política dirigida por João Carlos Espada. Aí ocupava umas escassas 62 páginas, enquanto agora, dado o seu menor formato,  chega às 124. O resto do recente volume de 180 páginas é preenchido por uma nota inicial do incansável editor de Berlin, Henry Hardy, por uma nota inicial do próprio autor, por um interessante apêndice, que contém correspondência de Berlin a propósito do seu ensaio e algumas recensões críticas – com explicações do autor, e um útil índice. A tradução escorreita é de Maria João Madeira. O volume, muito bem produzido (parabéns Manuel Fonseca, que tem ampliado o seu catálogo da Guerra e Paz de uma forma muito consistente), conta com um apelativo grafismo de capa de Ilídio Vasco, ostentando uma raposa e um ouriço dentro de um círculo que evoca o do homem de Vitrúvio.

Não sendo autor de muitas obras em inglês, Berlin também não pode ter muitas traduzidas em português. Enumero aqui as restantes, por ordem cronológica de publicação, para benefício dos leitores que não conheçam o seu pensamento e que, depois de devorarem o pequeno ensaio com o ouriço e a raposa na capa, queiram embrenhar-se na sua clarividente obra: A busca do ideal : uma antologia de ensaios (Bizâncio, 1998), O poder das ideias (Relógio d'Água, 2006), Karl Marx (Edições 70, 2014), e Rousseau e outros cinco inimigos da liberdade (Gradiva, 2005). 

Qual é a tese de Berlin, que se serve do ouriço e da raposa, neste seu ensaio que o The Guardian considerou um dos cem melhores de sempre? Ele começa por dividir grandes autores da filosofia e da literatura universal em dois grupos, os que são ouriços, e os que são raposas. Ser ouriço é ver o todo, a “manha” mais importante…. E ser raposa é ver as partes, as várias “manhas” avulsas. Nas palavras do autor, “existe um grande abismo entre, por um lado, aqueles que se colam tudo a uma visão única central, um sistema mais ou menos coerente e articulado (…) e, por outro lado, aqueles que perseguem muitas pontas frequentemente não relacionadas e até contraditórias.” Entre os ouriços coloca Dante, Platão, Pascal, Hegel, Dostoiévski, Nietzsche e Proust (há mais, escolhi sete). E, entre as raposas, Aristóteles, Shakespeare, Montaigne, Goethe, Pushkin, Balzac e Joyce (outros sete).

 Dividir os pensadores e criadores em dois únicos grupos não deixa de ser um pouco arriscado. Já alguém comentou ironicamente que se pode dividir a humanidade em dois grupos: os que dividem a humanidade em dois tipos de pessoas e os outros (eu reclamo-me do segundo grupo). Pode muito bem haver situações intermédias. Poder-se-á, tal como o gato de Schrödinger que está meio-vivo meio-morto, ser ao mesmo tempo ouriço e raposa. O ensaio de Berlin analisa essencialmente o romance Guerra e Paz, que ele, Berlin, leu no original russo e que os portugueses podem ler numa excelente tradução do russo de Nina e Filipe Guerra: Presença, 2005, obrigado Francisco Espadinha (e que, diz José Pacheco Pereira, ninguém lê no telemóvel). O romance, publicado em folhetim entre 1865 e 1869, descreve o tempo de Napoleão entre 1805 e 1813 (a campanha da Rússia é de 1812, como lembra uma abertura de Tchaikovsky). A pergunta de Berlin sobre Tolstói é: “Assemelha-se mais a Shakespeare ou Púchkin do que a Dante e Dostoiévski?” A sua resposta, apresentada como hipótese, era: “Tolstói era uma raposa, mas acreditava ser um ouriço.” No fundo, uma raposa que queria ser ouriço. O grande autor russo tinha uma atenção muito desenvolvida para as visões diversas dos indivíduos, mas idealizava alcandorar-se a uma visão coerente da história, uma espécie de “teoria unificada” para usar uma expressão da física moderna. Segundo Berlin, o drama de Tolstói foi não conseguir ligar esses dois aspectos, o micro e o macro: há verdade em qualquer deles, mas não é nada fácil a ligação. Como é que as grandes correntes da história, algumas delas parecendo ter um certo determinismo, emergem da acção aleatória das partes? O problema é um  pouco semelhante, digo eu, ao que se encontra na Segunda Lei da Termodinâmica: como é que do movimento aleatório e reversível das partículas se pode extrair o inexorável aumento da entropia para o sistema global, que exibe uma clara irreversibilidade?

A metáfora de Berlin, como todas, tem as suas fragilidades, como é discutida no apêndice, mas o seu exercício é engraçado.  Será Berlin  uma raposa ou um ouriço? Ele define-se como raposa, mas um crítico diz que há algo de auto-referente e que Berlin se sente como Tolstói, apertado entre  dois modos de ser. O leitor, se pertence ao grupo das pessoas que gostam de dividir o mundo em dois grupos de pessoas, pode dividir os filósofos e escritores da sua predilecção entre ouriços e raposas. Direi que se alinhar mais ouriços, terá tendência para ouriço. Se alinhar mais raposas, terá tendência para raposa. Eu, tal como Berlin, sinto-me mais raposa: confesso que me sinto um pouco constrangido e até intimidado por uma visão única, supostamente  coerente do mundo, a tal “teoria unificada”. Parece-me até algo perigoso. Lembro que entre os inimigos da sociedade aberta de Popper estavam Platão, Hegel e Marx, todos eles ouriços.

 Vejamos num excerto o estilo de Berlin: “A tese central de Tolstói – em determinados aspectos não dissemelhante da inevitável teoria da ‘auto-ilusão’ de Karl Marx. Salvo que Tolstói vê em quase toda a humanidade o que Marx reserva a uma classe –  é que existe uma lei natural de acordo com a qual e num grau não inferior ao da natureza, as vidas dos seres humanos são determinadas; mas que os homens, incapazes de encarar este inexorável processo, procuram representá-lo como uma sucessão de escolhas livres, atribuir a responsabilidade para aquilo que acontece às pessoas por eles dotadas de virtudes heróicas ou vícios heróicos, e a que chamam  ‘grandes homens’.” Tolstói não via Napoleão como um grande homem. Via-o apenas como um carneiro, que engordou, antes de ir para o matadouro, como não podia deixar de ir.

E o que faz o reaccionário Maistre neste ensaio, ao lado de Tolstói? Responde Berlin: “Um dos mais impressionantes elementos comuns ao pensamento destes penseurs distintos, e de facto, antagónicos, é a sua preocupação com o carácter ‘inexorável’ – a ‘marcha´ dos acontecimentos.” Inexorabilidade histórica? Quem sou eu para achar, mas acho que não existe.