segunda-feira, 22 de junho de 2020

SEIS LIVROS SOBRE A PANDEMIA


Meu texto no último "As Artes entre as Letras":

A actual pandemia provocada pelo novo coronavírus, SARS-CoV-2, pelas proporções que já atingiu, vai decerto dar origem a toda uma biblioteca. Com base na pandemia haverá livros sobre a biologia e a medicina, a sociedade, a economia, a política, a cultura, a filosofia  e a religião. Ainda a procissão vai no adro e já apareceram alguns títulos em língua portuguesa, traduzidos muito rapidamente.  Listo aqui os primeiros seis títulos que caíram ao alcance da minha vista (é possível que já nesta data haja outros):  cinco são de autores estrangeiros, dos quais dois incidem sobre biologia e medicina (epidemiologia e imunologia) e os outros sobre filosofia, cultura e religião, enquanto só um é de autores nacionais, incidindo sobre cultura. Ordeno-os aqui, com breves comentários, por ordem alfabética do apelido do autor.

- Daniel M. Davis, O Incrível Sistema Imunitário, Descubra o poder das defesas naturais do seu corpo, Ideias de Ler.

O autor, professor de Imunologia na Universidade de Manchester (é doutorado em Física), explica neste livro, saído lá fora em 2018 com o título The Beautiful Cure, mas agora colocado rapidamente em português já com referência aos novos tempos (há uma nota do autor sobre a pandemia), o complexo sistema que assegura a protecção do nosso organismo perante um invasor. O autor apresenta, com grande arte pedagógica, as mais recentes descobertas na sua área, onde as novidades abundam graças a intensa investigação.

- Papa Francisco, Vida Após a Pandemia, Paulinas Editora, com prefácio do cardeal Michael Czerny SJ.

Conjunto dos pronunciamentos mais recentes do papa Francisco sobre a actual crise mundial, com base naturalmente na sua mundividência católica. Em resumo: o papa tem esperança que a vida humana  mude nos novos tempos. Impressionaram, a todos aqueles que as viram, as imagens da sua solidão, no pico da pandemia, na grande praça de São Pedro no Vaticano.  O prefácio é de um cardeal jesuíta canadiano, de origem checa, que tem pugnado pela justiça social, em particular na questão das migrações. Foi nomeado cardeal um dia antes do Sínodo da Amazónia, onde foi enviado especial do papa (o dia da elevação a cardeal foi o mesmo que o D. Tolentino de Mendonça).

- Paolo Giordano, Frente ao Contágio, Relógio d’Água.

O autor é um escritor italiano, físico teórico de formação, relativamente jovem e autor apenas de três livros, o primeiro dos quais A Solidão dos Números Primos (2008) conhecendo grande sucesso global. O autor, confinado na sua casa em Roma, começou uma espécie de diário logo em Fevereiro, quando o vírus chegou à Itália, vindo da China. São páginas que oscilam entre a ciência e a literatura. Há alguma comunicação de ciência, mas também há reflexão literária, tornando-a uma obra das “duas culturas” de C. P. Snow. O final, por exemplo, invoca o salmo 90: “Ensina-nos a contar os nossos dias e alcançaremos um coração sábio.” Conclui o autor, glosando o salmo: “Contar os dias. Alcançar um coração sábio. Não permitir que todo este sofrimento suceda em vão.”

- Adam Kucharski, As Leis do Contágio. Como surgem e desaparecem os surtos virais, Porto Editora.

O autor é professor na escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e o seu trabalho já incidiu sobre duas pandemias anteriores, o ébola e o zica. Nesta obra, traduzida em tempo recorde, uma vez que saiu no original inglês há escassos meses,  fala da transmissão viral, não apenas do ponto de vista biológico, mas também do ponto de vista dos computadores e da rede mundial que os liga, uma vez que, na linguagem matemática, as diferenças não são muito grandes. De facto, até há pouca a nossa ligação mais comum aos vírus encontrava-se no mundo da informática. E hoje estamos confrontados no globo todo com um microorganismo danoso. Este livro aborda a COVID-19, a doença provocada por ele. É uma obra de divulgação, recheada de exemplos e evitando a terminologia técnica.

-  José Jorge Letria; com fotografias de Inácio Ludgero, Um Mundo Aflito. Memória de um tempo de ausência, Editora Guerra & Paz, com prefácio de Pedro Abrunhosa.

O poeta, músico e presidente da Sociedade Portuguesa de autores juntou-se a um dos melhores fotógrafos nacionais (fez fotorreportagem durante muitos anos na Visão) para preparar um retrato artístico das nossas cidades vazias de pessoas nos dias de pico da pandemia. São textos e fotografias que ficam como documentos de um tempo dificilmente repetível: quando é que se voltará a ver Lisboa ou o Porto vazios? Este livro, escrito e feito nos tempos de confinamento, tem o grande mérito de não ter demorado a aparecer no mercado. Julgo ser, pelo menos em papel, o primeiro livro da pandemia de autores portugueses.

-   Slavoj Žižek, A Pandemia que Abalou o Mundo, Relógio de Água.  

O filósofo esloveno é um enfant terrible da filosofia contemporânea. Vindo das áreas da psicanálise e da cultura popular (cinema), adora anedotas (há uma  compilação em inglês das suas anedotas, Žižek's Jokes), é bastante prolixo (são muitos os títulos dele em português) e adora ser polémico. Do ponto de vista político posiciona-se na esquerda radical: neste livro pugna por uma sociedade socialista, a que chama “novo comunismo”, que ele já vê despontar no horizonte. Na minha opinião, ainda é muito cedo para ver o que vai acontecer ao mundo do ponto de vista político e o que Žižek faz é projectar os seus desejos na realidade. Mas a sua prosa é inteligente e sempre divertida.

Boas leituras e muita saúde!

Carlos Fiolhais*
*Professor de Física Universidade de Coimbra

 

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