terça-feira, 12 de novembro de 2019

Se nos demitirmos de educar é para isto que caminharemos - 2

Na continuação de outro texto (aqui)

Chegaram-nos, mais ou menos ao mesmo tempo, um vídeo e um texto que são muito próximos no problema que apresentam: vigilância e controlo de todas as pessoas por parte do Estado totalitário. Não é nova a tentativa de o Estado tudo querer controlar, o que é nova é a possibilidade de o fazer com a tecnologia disponível. A China é o exemplo mais acabado deste big-brother (ver, por exemplo, aqui).


Lembremo-nos da origem desta expressão:
"Nineteen Eighty-Four, de George Orwell (1948), é uma prefiguração surpreendente do mundo actual. No futuro ali descrito, pensar e contestar é crime, e todas as pessoas estão sob vigilância da autoridade. Que impõe constantemente aos cidadãos a frase propaganda do Estado: Big Brother is watching you. 
Big Brother é na intriga a personagem mais sinistra, o líder máximo de uma sociedade totalitária, que se faz omnipresente nas câmaras que vigiam os seus cidadãos 24 h por dia, até mesmo dentro de casa. 
Somos introduzidos naquele mundo fictício através de Winston, um funcionário público que trabalha no Departamento de Documentação do Ministério da Verdade e cuja função é “corrigir” todos os registos históricos além de os adequar aos interesses do BigBrother do presente, o qual “nunca erra”. Mas essa é apenas uma ferramenta de controle, que se soma à Polícia das Ideias e à reinvenção da própria linguagem. 
Como resultado desse exercício diário, os cidadãos vão perdendo a identidade. Não conseguem lembrar-se de nenhum detalhe do passado, não têm referências para contestar a sua situação actual, nem consciência de que o podem fazer. 
Mesmo quem não leu o livro é capaz de reconhecer na imaginação do autor realidades hoje banais. As teletelas, potenciadas pelo avanço tecnológico e científico, estão em todo o lado a enviar mensagens e a controlar-nos. A linguagem ganhou novos termos, palavras antigas mudaram de sentido e ganharam novas acepções, sugerindo que desse modo a realidade também mudou". Margarida Miranda, 2019 (aqui).
Ora, como sugere a autora deste texto, a Escola, que poderia desenvolver uma consciência crítica capaz de fazer face aos novos totalitarismos, é orientada para concretizar a Agenda 2030 da ONU que representa o poder totalitário. Não vemos, pois, como sair deste círculo. E isso é tanto mais grave quanto sabemos que se nos demitirmos de educar, caminharemos para a situação que o vídeo apresenta.
 Maria Helena Damião e Isaltina Matins

7 comentários:

  1. Não percebo de que forma a escola poderá impedir escutas telefónicas, invasões de privacidade através da TV, parasitas nos emails e computadores, tráfico de informações bancárias e financeiras, traições de supostos amigos e profissionais que connosco trabalham, influências e amiguismos que passam à frente de currículos, grupos de grupelhos que se instalam nas redes sociais para criticar tudo e todos, linchamentos em praça pública porque apetece, bullying sei lá porquê com difamações e perseguições sexuais do género rasco, faltas de respeito permanentes... Com o big brother a ver tudo, claro, caladinho, que poder não é nenhum. Só curiosidade.
    Pela parte que me toca, também, quero lá saber! O que mais custa é perder a vergonha e, francamente, estou-me nas tintas. Quem tem filhos que os eduque e não espere que outros façam o trabalhinho que lhes compete. Muito menos instituições decadentes como a escola, quem a governa e quem lá anda -imensa igualdade social na sua deplorável fasquia que de tão baixa já me provocou bicos de papagaio gagos e gastos. O resto é perder tempo na palheta do Menino Jesus que já morreu.

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  2. Não será por acaso que desde o ministério da triste Maria e Lurdes Rodrigues os professores foram transformados em meros " mangas de alpaca" sem tempo para prepararem as suas aulas e colocarem a imaginação ao serviço das mesmas quanto mais para lerem , reflectirem e estarem atentos ao mundo .
    Agora só há tempo para mandar calar os 28 ou 30 alunos, preencher grelhas, completamente inúteis, e usar os ready made que as editoras fazem. Um trabalho triste!

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    1. Um trabalho triste, diz bem o leitor anónimo, um trabalho que foi fazendo o seu caminho na escola pública, até chegar ao estado a que chegou. Estado que continuará a ser de deterioração... até um dia em que seja revertido. Temos de ser optimistas!
      A ministra que menciona foi "apenas" um primeiros mensageiros no nosso país das políticas supranacionais ditas do século XXI (e talvez nem tivesse grande consciência delas, dou algum benefício da dúvida aos políticos, afinal, pouco ou nada estudaram de educação).
      Sabemos que afastar os professores do ensino constitui uma das apostas de quem, a um nível macro, global, determina o currículo.
      A questão que se deve colocar é a seguinte: o que podem os ministros e as suas equipas, os directores de escolas e lideranças intermédias, bem como os professores fazer para que o ensino volte a ser assumido como condição de aprendizagem escolar, volte às mãos dos professores?
      No meu entender, todos podem fazer alguma coisa; melhor, todos têm o dever (ético e deontológico) de fazer alguma coisa na sua esfera de acção. Acontece que, por diversas e insondáveis razões, muitos ministros e suas equipas, muitos directores de escolas e lideres intermédios, muitos professores corroboram incondicionalmente as determinações supranacionais, entre as quais está a secundarização, desvirtualização, ou, mesmo, negação do ensino. E isto, sabemo-lo bem, com graves prejuízos em termos de aprendizagem.
      Cordialmente,
      MHDamião

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  3. O senhor primeiro-ministro acaba de confirmar, no decorrer do debate quinzenal na Assembleia da República, que acabaram os “chumbos” até ao 9.º ano. António Costa reconheceu que esta medida de alta pedagogia vai contra o senso comum (convém recordar que Cavaco Silva chegou a professor universitário porque, nas suas palavras, uma reprovação no ensino básico, fê-lo refletir e chegar à conclusão de que para aprender é necessário trabalhar e estudar), mas Portugal, em matéria de política educativa, é governado pela OCDE. A filosofia é: quando devidamente estimulado não há nenhum ser humano que não aprenda o que quer que seja, portanto não se justificam as reprovações. Não há maior evidência da igualdade completa entre todos os seres humanos, mas mesmo todos, do que as iguais capacidades de aprendizagem reveladas por todos!
    Por exemplo, qualquer um é capaz de aprender a jogar futebol tão bem como o Ronaldo. Só é pena que a OCDE não imponha em Portugal o sucesso futebolístico obrigatório até ao 9.º Ano. Nunca mais precisaríamos da TROIKA!

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    1. Lamentavelmente, nem a mais "alta pedagogia" consegue dar resposta à exigência política de sucesso académico pleno. Talvez um dia, mais para diante, quando soubermos muito mais sobre o processo de ensino-aprendizagem, quando conseguirmos dominar a "arte de ensinar tudo a todos" (Coménio), consigamos cumprir os desígnios políticos.
      Mas, há aqui um aspecto que faz toda a diferença: quando pensamos em sucesso académico pensamos, possivelmente, sucesso nas aprendizagens académicas (aquisição de conhecimentos especificamente escolares e, por essa via, ampliação da inteligência), mas, suspeito que não é nisso que pensam os políticos e, acima deles, quem determina as políticas, bem como aqueles que, abaixo deles, as corroboram.
      Cordialmente,
      MHDamião

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    2. Cara Helena Damião,

      No debate quinzenal, que refiro acima, o deputado Rui Rio perguntou diretamente ao primeiro-ministro:
      - Com medidas ou sem medidas de remediação, no fim do ano, os alunos passam sempre todos ou não passam todos?
      António Costa ficou embatocado e, ao fim de algum tempo, retorquiu:
      - Quer dizer, compreendo que o senhor deputado queria que eu lhe desse uma resposta de senso comum. Eu só posso aconselhá-lo a ler estes papéis da OCDE que trouxe comigo para o debate...
      As palavras trocadas entre os dois tribunos não foram exatamente estas, mas o seu significado é fiel ao que realmente foi dito.
      Admitindo, por hipótese académica, que o senhor primeiro ministro percebe um bocadinho mais de educação do que aquilo que deixou transparecer, eu, como professor do ensino secundário, deixava-lhe, muito respeitosamente a seguinte sugestão: se efetivamente “reter” um aluno no 7.º, no 8.º, ou no 9.º ano, em nada contribui para o seu sucesso educativo presente (obviamente), ou futuro, então porque razão não decreta V. Ex.ª, desde já, a transformação das escolas EB3 em pavilhões multiusos de apoio aos jovens do 3.º ciclo, livres de aulas e de professores, indo assim ao encontro dos inquéritos estatísticos em que a maioria dos alunos revela que o que estraga o ambiente escolar são as aulas. Depois, na altura de entrarem para o secundário, entrariam todos com elevadas classificações e com muito tempo para recuperarem as aprendizagens inúteis do 3.º ciclo. Com a aplicação efetiva destas medidas legislativas, os alunos seriam os mais beneficiados, logo seguidos pelos encarregados de educação, os políticos e o Estado, que pouparia, com o fim das retenções e das remunerações dos professores, uma pipa de massa!

      Cordialmente.

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    3. Caro leitor
      O professor António Duarte faz no seu blogue "Escola portuguesa" uma reprodução do debate que menciona (que eu não vi) e uma apreciação com a qual concordo. O que diz está de acordo com a sua descrição.
      Eis a ligação: https://escolapt.wordpress.com/2019/11/13/o-aluno-passa-ou-nao-passa/
      Verdadeiramente assustadora é a justificação e a extensão da decisão.
      A justificação é a "recomendação" da OCDE e dados científicos (muitos deles mal interpretados, descontextualizados e deturpados ao sabor das conveniências políticas); a extensão é a "recomendação" ser feita para todo o mundo (e não só para Portugal, apesar de a discussão dar a entender que só nós estamos nesta situação).
      Cordialmente,
      MHDamião

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