sexta-feira, 24 de maio de 2019

UMA DÉCADA DO ARTES



Meu texto que saiu no último número do "Artes", abreviatura da revista cultural "As Artes entre as Letras", que acaba de fazer 10 anos:

Dez anos não é um tempo pequeno. Como o tempo médio de vida humana é inferior a cem anos, é uma parte substancial das nossas vidas. Nos meus últimos dez anos, tal como os meus contemporâneos, pude beneficiar da leitura de “As Artes entre as Letras” (ou só “Artes”), o jornal cultural com sede no Porto que tem espelhado as artes e as letras de todo o país e do mundo. Graças ao amável convite da Nassalete Miranda, estive no projecto desde o seu início quer no Conselho Editorial quer como colaborador regular. Orgulho-me, por isso, de ter ajudado ao crescimento da criança que viu a luz do dia em Maio de 2009 e que agora passa na idade  a ter dois dígitos.
Há sempre uma história antes da história. E o jornal que agora está de parabéns encontra os seus antecedentes no suplemento cultural “Das Artes Das Letras” de longa e muito rica tradição (data de 1942) do “Primeiro de Janeiro”, o periódico que a Nassalete diligentemente dirigiu entre 2000 e 2008. Pois eu também colaborei nesse suplemento de boa memória. Foi aí aliás que fui treinando a escrita que depois se foi espraiando por outros sítios. Estou naturalmente grato pela oportunidade que a sempre jovem directora me proporcionou, dando espaço a um jovem  desconhecido. Eu fui feliz por poder escrever num jornal que me tinha acompanhado na infância, desfrutando dos desenhos do Príncipe Valente. Foi um editor valente – Guilherme Valente – com quem eu já colaborava, na Gradiva, que me pôs em contacto com a Nassalete. Para mim, entre os dois jornais culturais, vão quase vinte anos de colaboração.

Por que é que tenho ajudado a juntar a ciência às artes, ou melhor à cultura, primeiro no “Das Artes Das Letras” e depois no “As Artes entre as Letras”? Pela simples razão simples de que a ciência faz parte da cultura, que não é só feita de artes e letras. Depois da polémica das “duas culturas” de C. P. Snow, ainda há quem julgue que a ciência é uma cultura e que as artes e humanidades são outra, estando as duas separadas. Mas não, são ambas partes da mesma cultura, sendo múltiplas as ligações entre elas que devem ser enfatizadas. A ciência tal como a arte é um impulso humano, é uma tentativa de descobrir, de conhecer.  A ciência tal como a arte exige imaginação, sonho, criatividade. A ciência tal como a arte pretende fazer sentido, ligar coisas que estavam antes separadas, revelar a unidade do mundo.

Nos aniversários costumam-se desejar muitos anos de vida. Se tudo correr como esperamos, a o “Artes” vai continuar, tem de continuar. O  jornal  ganhou um lugar indiscutível no nosso panorama cultural. Não são muitos os jornais que reúnam o ensaio e o comentário nas mais várias formas da cultura com a própria criação artística me literária, ao mesmo tempo que acompanham a actualidade cultural. Fazem muita falta, pelo que é preciso defendê-los. Desejo, por isso, que a Nassalete Miranda e a sua excelente equipa consigam, neste tempo nada fácil em que a cultura ainda é vista pelos poderes instituídos como uma coisa de somenos, prolongar a infância do “Artes” numa adolescência feliz. No mínimo, mais outros dez anos.

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